HARRY POTTER E O CLICE DE FOGO
J K. Rowling


  Nota

Este livro foi scaneado e corrigido por Edith suli;  para uso exclusivo

de deficientes visuais, de acordo com as leis de direitos autorais.

    Para  este fim se utilisou de um sintetizador de voz.   Portanto

o livro pode conter erros de diagramao e outros.

    Os nmeros das pginas so acompanhados do sinal #.

outubro de 2001 de 2001

  Fim da nota

****

J K. Rowling
        HARRY POTTER
        e o Clice de Fogo

Traduo
LIA WYLER

Rio de Janeiro - 2001

Ttulo original
HARRY POTFER
AND THE GOBLET OF FIRE

Primeira publicao na
Gr-Bretanha em 2000 pela Bloomsbury Publishing Plc,
38 Soho Square, Londres, WIV SDF

Copyrighr (c) 2000 J. K Rowling

O direito moral da autora foi assegurado.

Arte de capa (c) Warner Bros. Uma
Diviso da Time Warner Entertainment Company L.P.

HARRY POTTER, nomes, tipologias e simbolos
correspondentes esto protegidos pelo copyright
e a marca registrada Warner Bros., 2000


Direitos para a lngua portuguesa reservados
com exclusividade para o Brasil 
EDITORA ROCCO LTDA.
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preparao de originais

MNICA MARTINS FIGUEIREDO



CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

R788h Rowling, J K (Joanne K.)
        Harry Porter e o Clice de Fogo / J. K. Rowling; traduo
        de Lia Wyler. - Rio de Janeiro: Rocco, 2001

        Traduo de: Harry Potter and the gobler of fire
        ISBN 85-325-1252-6

        1. Literatura infanto-juvenil. 1. Wyler, Lia. II. Titulo.

01-0456                         CDD - 028.5
                                CDU - 087.5


A Peter Rowling,
 memria do Sr. Ridley
e para Susan Sladden,
que ajudou Harry a vir  luz


*****



 tempo de frias de vero e, Certa noite, em seu
quarto na tua dos Alfeneiros nmero 4, Harry Potter acordou
com a cicatriz ardendo intensamente. Teve um
sonho estranho, sobre o qual no conseguiu parar
de pensar, intrigado, at receber aquele convite dos
Weasley para assistir, nada mais nada menos, 
Copa Mundial de Quadribol.
    No foi fcil convencer seu tio Vlter a deix-lo
passar o resto das frias na casa da famlia
Weasley, mas, ultrapassada esta barreira, Harry
comea a vibrar com todas as emoes que envolvem
um jogo internacional de quadribol. A magia
acontece...e  real todo o deslumbramento de nosso
bruxinho rfo diante das estraordinrias equipes
de atletas irlandeses e blgaros, que se confrontam
numa emocionante partida. No entanto, uma coisa
terrvel acontece e lana uma sombra sobre tudo e,
principalmente, sobre Harry Potter.
    O recomeo de mais um ano letivo vem amenizar
os temores de Harry, que compartilha com os melhores
amigos, Rony Weasley e Hermione Granger,
todas as aventuras emocionantes que continuavam a
acontecer na Escola de Magia e Bruxaria de
Hogwarts. Tambm neste quarto ano, acontecimentos
inesperados - como, por exemplo, a presena de
um novo professor de Defesa contra as Artes das
Trevas e  um evento extraordinrio promovido na
escola - alvoroam os nimos dos estudandes.
Outras escolas de magia se apresentam e alguns de
seus alunos, ao lado de veteranos de Horwarts,
liderados pelo sbio Prof. Dumbledore, tero de
demonstrar todas as habilidades mgucas - e
no-mgicas - que vm adquirindo ao longo de suas vidas.
Estaro eles preparados para tudo que lhes est
reservado? Seu desempenho ser satisfatrio para
que nada de grave lhes acontea?
    Uma nova aventura de Harry Potter, criada pela
genial J. K. Rowling.

    A britnica J. K. Rowling  autora da srie Harry
Potter, que j foi vendida em dezenas de pases e
traduzida para diversos idiomas.
    O prineiro livro da srie, Harry Potter e a
pedra filosofal, recebeu um prmio inaudito do
Scottish Arts Council, e a partir de ento tornou-se
um fenmino internacional, acumulando crticas
entusiastas e prmios importantes, como o
National Book Award, o Book Awareds Children's
Book of the Year e o Snarties Prize.

    As frias de vero vo se arrastando e
Harry Potter mal pode esperar pelo incio do
ano letivo.  o seu quarto ano na Escola de Magia
e Bruxaria de Hogwarts, e h feitios a serem
aprendidos, poes a serem preparadas e aulas
de Adivinhao, entre outras, a serem assistidas.
Harry anseia por tudo isso. Porm, muitos outros
acontecimentos surpreendentes j esto em marcha...
Vocs nem podem imaginar !!!



-        CAPITULO UM -
 A Casa dos Riddle



Os habitantes de Little Hangleton continuavam a cham-la "Casa dos Riddle", ainda que j fizesse muitos anos desde que a famlia Riddle morara ali. A casa ficava
em um morro com vista para o povoado, algumas janelas pregadas, telhas faltando e a hera se espalhando livremente pela fachada. Outrora uma bela casa senhorial,
e, sem favor algum, a construo maior e mais imponente de toda a redondeza, a Casa dos Riddle agora estava mida, em runas, e desocupada.
        As pessoas do local concordavam que a velha casa dava arrepios. Meio sculo antes uma coisa estranha e terrvel acontecera ali, uma coisa que os antigos
habitantes do povoado ainda gostavam de discutir quando faltava assunto para fofocas. A histria fora requentada tantas vezes e enfeitada em tantos pontos, que ningum
mais sabia onde estava a verdade. Todas as verses, porm, comeavam no mesmo ponto: cinqUenta anos antes, ao amanhecer de uma bela manh de vero, quando a casa
dos Riddle ainda era bem cuidada e imponente, uma empregada entrou na sala de estar e encontrou os trs Riddle mortos.
        A empregada saiu correndo morro abaixo, aos berros, at o
        povoado, e acordou o maior numero possvel de pessoas.
        - Cados na sala com os olhos abertos! Gelados! Ainda com a roupa do jantar!
        A polcia foi chamada e Little Hangleton inteiro fervilhou de espanto, curiosidade e mal disfarada excitao. Ningum gastou flego em fingir tristeza com
o que acontecera aos Riddle, porque eles eram muito impopulares. Os velhos Sr. e Sra. Riddle tinham sido ricos, esnobes e grosseiros, e seu filho adulto, Tom, era
tudo
        isso em grau maior. A preocupao de todos que moravam em
        Little Hangleron era a identidade do assassino - pois no havia
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dvida de que trs pessoas aparentemente saudveis no poderiam ter morrido, na mesma noite, de causas naturais.
        O        Enforcado, o bar local, faturou sem parar aquela noite; os habitantes do povoado apareceram em peso para discutir a matana. Foram recompensados
por terem deixado o conforto de sua lareira, quando a cozinheira dos Riddle apareceu
teatralmente e anunciou para o bar, repentinamente silencioso, que um homem
chamado Franco Bryce acabara de ser preso.
-        Franco! - exclamaram vrias pessoas. - Nunca!
        Franco Bryce era o jardineiro dos Riddle. Morava sozinho em uma casa malcuidada na propriedade dos
patres. Voltara da guerra com uma perna dura e uma intensa
averso por ajuntamentos e barulhos, e, desde ento, trabalhava para os Riddle.
        Houve um corre-corre geral para pagar bebidas para a cozinheira e ouvir maiores detalhes.
        -        Sempre achei que ele era esquisito - disse a mulher aos ouvintes ansiosos, depois do quarto xerez. - Assim, antiptico. Tenho certeza de que no
ofereci a ele s uma xcara de ch, ofereci bem umas cem. Nunca quis se misturar, nunca mesmo.
        -        Ah - disse uma mulher sentada ao balco -, mas ele passou muito sofrimento na guerra, o Franco, e gosta de uma vida tranquila. Isso no  razo...
        -        Quem mais tinha a chave da porta dos fundos, ento? - vociferou a cozinheira. - Desde que me entendo por gente, sempre teve uma chave de reserva
pendurada na casa do jardineiro! Ningum forou a porta ontem  noite! No tem janelas quebradas! O Franco s precisou entrar escondido na casa grande enquanto a
gente dormia...
        As pessoas trocaram olhares tenebrosos.
        -        Eu sempre achei que ele tinha um jeito ruim, e no me enganei - resmungou um homem junto ao balco.
        -        Foi a guerra que deixou ele esquisito, se querem saber a minha opinio - disse o dono do bar.
        -        Eu disse que no queria desagradar a Franco, no disse, Dot?
- falou uma mulher agitada a um canto.
        -        Gnio terrvel - concordou Dot acenando a cabea com
        vigor. - Me lembro quando ele era criana...
                   Na manh seguinte, quase ningum em Little Hangleton duvidava que Franco Bryce tivesse matado os Riddle.
#        8
        Mas na cidadezinha vizinha de Great Hangleron, na delegacia de polcia escura e feia, Franco teimava em repetir sem parar que era inocente e que a nica
pessoa que ele vira perto da casa, no dia da morte dos Riddle, fora um adolescente estranho, de cabelos negros e rosto plido. Ningum mais no povoado vira o tal
garoto e a polcia no teve dvidas de que Franco o inventara.
        Ento, quando as coisas estavam ficando muito feias para
Franco, chegou o laudo sobre os cadveres dos Riddle e tudo
mudou.
        A polcia nunca vira um laudo mais esquisito. Uma equipe de legistas examinara os corpos e conclura que nenhum dos Riddle fora baleado, envenenado, esfaqueado,
estrangulado, sufocado ou, pelo que sabiam, sofrera qualquer violncia. Com efeito, continuava o laudo, em tom de inconfundvel perplexidade, os Riddle, tirando
o fato de que estavam mortos, pareciam gozar de perfeita sade. Os legistas observaram (como se estivessem decididos a encontrar alguma coisa errada nos cadveres)
que cada membro da famlia tinha uma expresso de terror no rosto - mas, segundo afirmava a frustrada polcia, quem j ouvira falar de algum morrer de pavoR
        E como no havia a menor prova de que os Riddle tivessem sido assassinados, a polcia foi obrigada a soltar Franco. Os mortos foram enterrados no cemitrio
da igreja de Little Hangleton e, por algum tempo, suas sepulturas se tornaram alvo da curiosidade geral. Para surpresa de todos, e acompanhado por uma nuvem de desconfiana,
Franco Bryce voltou para sua casinha na propriedade dos Riddle.
        - Para mim, foi ele quem matou a famlia e no me interessa o que a polcia disse - comentou Dor no Enforcado. - E se ele tivesse um pingo de decncia, iria
embora daqui, sabendo que a gente sabe que foi ele.
        Mas Franco no foi embora. Ficou para cuidar do jardim para a famlia que veio morar logo depois na Casa dos Riddle, e para a prxima - porque nenhuma das
duas se demorou muito. Em parte, talvez tenha sido por causa de Franco que cada proprietrio dizia que o lugar dava uma sensao desagradvel e, por falta de moradores,
acabou se desmantelando.
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O        ricao que era o atual dono da Casa dos Riddle nem morava l nem dava um destino  casa; diziam no povoado que ele a mantinha por "causa dos impostos",
embora ningum entendesse muito bem o que significava isso. E o ricao continuou a pagar a Franco para cuidar da jardinagem. Ele agora se aproximava do seu septuagesimo
setmo aniversrio, muito surdo, a perna mais dura que nunca, mas era visto trabalhando pelos jardins quando fazia bom tempo, embora o mato j comeasse a levar
a melhor.
        O mato no era, no entanto, o nico problema que Franco precisava enfrentar. Os garotos do povoado tinham criado o hbito de atirar pedras nas janelas da
Casa dos Riddle. Passavam de bicicleta por cima da grama que Franco se empenhava tanto para manter aveludada. Umas duas vezes eles haviam arrombado a velha casa
para ganhar apostas. Sabiam que o velho Franco era dedicado  propriedade e achavam graa v-Lo mancando pelo jardim, brandindo a bengala e ralhando, a voz roufenha,
com os invasores. Franco, por sua vez, acreditava que os garotos o atormentavam porque, tal qual seus pais e avs, achavam que ele era um assassino. Por isso, quando
acordou certa noite de agosto e viu uma coisa muito estranha na casa, ele simplesmente sups que os garotos estivessem indo um pouco mais longe em suas tentativas
de castig-lo.
        Foi a perna dura que o acordou; doa mais do que nunca agora na velhice. Franco se levantou e desceu as escadas at a cozinha pensando em tornar a encher
a bolsa de gua quente para aliviar a rigidez do joelho. Parado  pia, enchendo a chaleira, ele olhou para a Casa dos Riddle e viu uma luz brilhando nas janelas
do primeiro andar. Franco percebeu na mesma hora o que estava acontecendo. Os garotos tinham invadido novamente a casa e, a julgar pelo bruxuleo da luz, haviam
acendido a lareira.
        Franco no possua telefone e, de qualquer modo, desconfiava demais da 
polcia, desde que esta o levara para interrogatrio depois das mortes dos Riddle. 
Na mesma hora, ele pousou a chaleira, correu para cima o mais rpido que a perna dura lhe permitiu, e logo voltou  cozinha, completamente vestido, e apanhou uma 
velha chave enferrujada no gancho junto  porta. Depois, pegou a bengala, que deixara apoiada na parede, e saiu pela noite.
        A porta de entrada da Casa dos Riddle no tinha sinais de
arrombamento, e o mesmo acontecia com as janelas. Andando
com dificuldade, Franco contornou a casa em direo aos fundos
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at chegar a uma porta semi-escondida pela hera, apanhou a velha chave, enfiou-a na porta e abriu-a silenciosamente.
        Entrou em uma cozinha cavernosa. Havia muitos anos no entrava ali; ainda 
assim, mesmo no escuro, ele se lembrou de onde era a porta para o corredor e tateou
at encontr-la, as narinas invadidas pelo cheiro de podrido, os ouvidos atentos a qualquer som de passos ou vozes no primeiro andar. Chegou ao corredor, que estava
um pouquinho mais claro, graas s grandes janelas de caixilhos que havia de cada lado da porta de entrada, e comeou a subir as escadas, abenoando a poeira grossa
que cobria a pedra, porque abafava o som dos seus passos e de sua bengala.
        No patamar, Franco virou  direita e viu imediatamente onde se encontravam os intrusos: no finzinho do corredor havia uma porta entreaberta de onde saa
uma luz vacilante, que projetava uma longa nesga dourada no cho escuro. Franco foi se aproximando mais, segurando a bengala com firmeza. A alguns passos da entrada, 
conseguiu entrever uma faixa estreita do quarto adiante.
        O        fogo estava aceso na lareira. Isto o espantou. Parou e escutou com ateno, porque uma voz masculina falava dentro do quarto;
parecia tmida e temerosa.
        -        Sobrou um pouco na garrafa, milorde, se ainda tiver fome.
        -        Mais tarde - respondeu uma segunda voz. Esta tambm pertencia a um homem, mas era estranhamente aguda e fria como uma rajada repentina de vento
glido. Alguma coisa naquela voz fez os poucos cabelos na nuca de Franco ficarem em p. - Me leve mais para perto do fogo, Rabicho.
        Franco virou a orelha direita para a porta, para ouvir melhor. Ouviu o tinido de uma garrafa que algum pousava sobre uma superfcie dura, depois o rudo 
prolongado e seco de uma cadeira pesada arrastando pelo cho. O jardineiro viu de relance um homenzinho, de costas para a porta, empurrando a cadeira conforme lhe 
pediram. Usava uma longa capa preta, e tinha uma grande pelada na parte de trs da cabea. Depois, ele desapareceu de vista.
        -        Aonde foi Nagini? - perguntou a voz fria.
        -        N... no sei, milorde - disse a primeira voz, nervosamente. - Saiu para explorar a casa, acho...
        -        Voc vai ordenh-la antes de nos recolhermos, Rabicho - disse a segunda voz. - Vou precisar me alimentar durante a noite.
A viagem me deu uma enorme canseira.
#11
        A testa enrugada, Franco inclinou o ouvido para mais perto da porta, e escutou. Houve uma pausa e, em seguida, o homem cha
                mado Rabicho tornou a falar.
                  - Milorde, posso perguntar quanto tempo vamos ficar aqui?
                  - Uma semana - disse a voz fria. - Talvez mais. O lugar  
razoavelmente confortvel, e ainda no podemos dar seguimento ao plano. Seria tolice agir antes do fim da Copa Mundial de Quadribol.
                   Franco meteu um dedo nodoso no ouvido e girou-o. Com certeza, devido ao acmulo de cera, ele ouvira a palavra "quadribol",
                uma palavra que no existia.
                  - A... a Copa Mundial de Quadribol, milorde? - admirou-se
Rabicho. (Franco enfiou o dedo com mais fora no ouvido.) - Me perdoe, mas... no compreendo... por que precisamos esperar o fim
da Copa Mundial?
                  - Porque, seu tolo, neste exato momento esto chegando ao
pas bruxos do mundo inteiro e todos os bisbilhoteiros do Ministrio da Magia estaro em campo,  procura de sinais de atividades
incomuns, verificando identidades e tornando a verific-las. Estaro obcecados com a 
segurana, tentando impedir que os trouxas percebam alguma coisa. Por isso vamos aguardar.
                   Franco parou de tentar desentupir o ouvido. Ouvira distintamente 
as palavras "Ministrio da Magia", "bruxos" e trouxas . Era
bvio que cada uma dessas expresses significava alguma coisa
secreta, e Franco s conseguia pensar em dois tipos de gente que
falava em cdigo - espies e bandidos. Franco apertou mais a bengala
e apurou ainda mais os ouvidos.
                  - Milorde continua decidido, ento? - perguntou Rabicho em
voz baixa.
                  - Claro que estou decidido, Rabicho. - Agora havia um tom
de ameaa em sua voz fria.
                   Seguiu-se uma pausa - e ento Rabicho falou, as palavras 
sairam de sua boca num atropelo, como se ele estivesse se obrigando
a falar antes de perder a coragem.
                  - Poderia ser feito sem o Harry Porter, milorde.
                   Outra pausa, mais longa, e ento...
                  - Sem o Harry Potter? - sussurrou a segunda voz. - Entendo...
          - Milorde, no estou dizendo isso porque me preocupo com o
garoto! - explicou Rabicho, a voz subindo esganiada. - O garoto
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no significa nada para mim, nadinha!  s porque se usssemos outro bruxo ou bruxa, qualquer um, a coisa poderia ser feita muito mais rapidamente! Se o senhor
me permitisse deix-lo por algum tempo... o senhor sabe que posso me disfarar com muita
eficincia... eu voltaria em apenas dois dias com a pessoa necessria...
        -        Eu poderia usar outro bruxo - disse a primeira voz, baixinho -  verdade...
        -        Milorde, faz sentido - disse Rabicho, parecendo muito mais aliviado - pr as mos em Harry Potter seria to difcil, ele est to
        bem protegido...
        -        E ento voc se oferece para ir buscar um substituto? Estranho... talvez a tarefa de cuidar de mim tenha se tornado cansativa para voc, Rabicho?
A sugesto de abandonar o plano no seria apenas uma tentativa de me abandonar?
        -        Milorde! N... no tenho nenhum desejo de deix-lo, absolutamente nenhum...
        -        No minta para mim! - sibilou a segunda voz. - Sempre percebo, Rabicho! Voc est arrependido de ter voltado para mim. Eu o horrorizo. Vejo voc
fazer careta quando olha para mim, sinto voc estremecer quando me toca...
        -        No! Minha devoo a milorde...
        -        Sua devoo no passa de covardia. Voc no estaria aqui se tivesse aonde ir. Como posso sobreviver sem voc, quando preciso que algum me alimente
a intervalos regulares? Quem vai ordenhar Nagini?
        -        Mas o senhor parece to mais forte, milorde...
        -        Mentiroso - sussurrou a segunda voz. - No estou mais forte e uns poucos dias sozinho seriam suficientes para me roubar a pouca sade que recuperei
com os seus cuidados desajeitados. Silncio!
        Rabicho, que estivera resmungando incoerentemente, calou-se na mesma hora. Durante alguns segundos, Franco no ouviu nada exceto o crepitar do fogo. Ento
o segundo homem recomeou a falar, num sussurro que era quase um silvo.
        -        Tenho minhas razes para usar o garoto, como j lhe expliquei, e no vou usar mais ningum. Esperei treze anos. Mais uns
meses no me faro diferena. Quanto  proteo que rodeia o garoto, creio
que o meu plano funcionar. Preciso apenas um pouco
#13
 de coragem de sua parte, Rabicho, e voc encontrar coragem, a menos que queira sentir o peso da clera de Lord Voldemort...
        -        Milorde, tenho que falar! - disse Rabicho, agora com pnico na voz. - Durante a nossa viagem repassei mentalmente o plano, milorde, o desaparecimento
de Berta Jorkins no passar despercebido por muito tempo, e se dermos seguimento a ele, se eu enfeitiar...
        -        Se? - murmurou a primeira voz. - Se? Se voc der seguimento ao plano, Rabicho, o Ministrio jamais precisar saber que mais algum desapareceu.
Voc far isso em surdina, sem confuso; eu bem gostaria de fazer isso pessoalmente, 
mas na minha condio atual... Vamos, Rabicho, mais um obstculo vencido, e
o caminho at Harry Potter estar livre. No estou pedindo que voc aja sozinho. At l, o meu fiel servo ter se reunido a ns...
        -        Eu sou um servo fiel - disse Rabicho, com um levssimo trao de aborrecimento na voz.
        -        Rabicho, preciso de algum com crebro, algum que nunca tenha vacilado em sua lealdade, e voc, infelizmente, no satisfaz
nenhum dos dois requisitos.
        -        Eu o encontrei - disse Rabicho, e agora decididamente havia irritao em sua voz. - Fui eu que o encontrei. Fui eu que lhe trouxe Berra Jorkins.
        -         verdade - disse o segundo homem, parecendo achar graa.
- Um lance de genialidade que eu nunca teria achado possvel em voc, Rabicho, 
embora, a verdade seja dita, voc no fizesse idia do quanto ela seria til quando
a pegou, no ?
        -        Eu... eu achei que ela poderia ser til, milorde...
        -        Mentiroso - disse novamente a primeira voz, a zombaria cruel mais acentuada do que nunca. - Mas no nego que a informao da mulher foi preciosa.
Sem ela, eu nunca poderia ter traado o nosso plano, e por isso voc ter a sua 
recompensa, Rabicho. Vou deix-lo realizar uma tarefa essencial para mim, uma que
muitos seguidores meus dariam a mo direita para realizar...
                  - V... verdade, milorde! Qual...? - Rabicho parecia outra vez
                aterrorizado.
                  - Ah, Rabicho, voc no quer que eu estrague a surpresa! Sua
parte vir bem no finzinho... mas, prometo que voc ter a honra de ser to til quanto Berra Jorkins.
                  - O senhor... o senhor... - a voz de Rabicho saiu repentinamente 
rouca, como se sua boca tivesse ficado muito seca. - O senhor... vai.. me matar, tambm?
#        14
        - Rabicho, Rabicho - disse a voz fria suavemente -, por que eu iria mat-lo? Matei
Berta porque precisei. Ela no servia para mais nada depois do meu interrogatrio,
completamente intil. Em todo o caso, haveria perguntas embaraosas se ela tivesse 
voltado ao Ministrio com a notcia de que encontrara voc nas frias. Seria melhor
que bruxos presumivelmente mortos no esbarrassem em bruxas do Ministrio da Magia em hotis  beira de estradas...
        Rabicho murmurou alguma coisa to baixinho que Franco no
pde ouvir, mas fez o segundo homem rir - uma risada sem alegria,
fria como a sua fala.
        -        Poderamos ter alterado a memria dela? Mas os Feitios da 
Memria podem ser desfeitos por um bruxo poderoso, como eu provei ao interrog-la. Teria
sido um insulto  memria da bruxa no usar as informaes que ela me forneceu, Rabicho.
        Fora no corredor, Franco de repente percebeu que a mo que segurava a bengala se tornara escorregadia de suor. O homem de voz fria tinha matado uma mulher.
E falava disso sem um pingo de remorso - divertia-se. Ele era perigoso - um doido. E estava planejando outros assassinatos - esse garoto, Harry Potter, fosse ele
quem fosse - corria perigo...
        O jardineiro sabia o que devia fazer. Agora, como nunca antes, estava na hora 
de ir  policia. Ele sairia silenciosamente da casa e iria direto  cabine
telefnica no povoado... mas a voz fria recomeara a falar e Franco continuou onde estava, paralisado, escutando tudo que podia.
        - Mais um feitio... meu fiel servo em Hogwarts... e Harry Porrer ser praticamente meu, Rabicho. Est decidido. No haver
mais discusses. Mas fique quieto... Acho que ouvi Nagini...
        E a voz do segundo homem mudou. Comeou a emitir rudos que Franco jamais ouvira na vida; sibilava e bufava sem inspirar. Franco achou que ele devia estar
tendo algum tipo de ataque ou acesso.
E ento o jardineiro ouviu um movimento s suas costas no
corredor escuro. Virou-se para olhar e quedou paralisado de medo.
        Alguma coisa deslizava em sua direo pelo cho escuro do
corredor, e quando se aproximou da nesga de luz, ele percebeu,
com um choque de terror, que era uma cobra gigantesca, no mmimo,
#15
com trs metros de comprimento. Apavorado, pregado no cho, ele viu aquele corpo ondulante abrir uma trilha larga e curva na poeira espessa do cho, sempre mais
prximo - que faria? O nico meio de fugir era entrar no quarto onde os dois homens estavam sentados planejando matar, mas se ele ficasse onde estava a
                cobra certamente o mataria...
                   Mas antes que se decidisse, a cobra emparelhou com ele e
                ento, incrivelmente, milagrosamente, passou; orientava-se pelos
                silvos e bufos que a voz fria emitia do outro lado da porta e, em
                segundos, a ponta do rabo da cobra, malhada de losangos, 
desapareceu pela abertura.
                   Havia suor na testa de Franco agora e a mo na bengala tremia.
                No quarto, a voz fria continuava a silvar, e ocorreu a Franco uma
                idia estranha, uma idia impossvel... Esse homem podia falar com
                as cobras.
                   Franco no entendia o que estava acontecendo. Queria mais
                do que tudo voltar para a cama com a sua bolsa de gua quente. O
                problema  que suas pernas no pareciam querer se mexer.
 Enquanto estava parado ali, trmulo, tentando se controlar, a voz fria
                voltou de repente a falar em ingls.
                  - Nagini trouxe notcias interessantes, Rabicho.
                  - Ver... verdade, milorde? - respondeu Rabicho.
                  - Verdade. Segundo Nagini, tem um velho trouxa parado do
                lado de fora do quarto, escutando cada palavra que dizemos.
                   Franco no teve a menor chance de se esconder. Ouviu passos
                e em seguida a porta do quarto se escancarou.
                   Um homem baixo de cabelos grisalhos e ralos, um nariz 
pequeno e pontudo, olhos lacrimosos, parou diante dele com uma 
mescla de medo e susto no rosto.
                  - Convide-o a entrar, Rabicho. Onde est a sua educao?
                   A voz fria vinha de uma velha poltrona diante da lareira, mas
                Franco no conseguiu ver quem falava. A cobra, por sua vez, se
en                roscara no tapete podre diante da lareira, em uma medonha 
imitao de bichinho de estimao.
                   Rabicho fez sinal para Franco entrar. Embora continuasse 
profundamente abalado, Franco segurou com firmeza a bengala e,
        coxeando, cruzou o portal.
                   O fogo na lareira era a nica fonte de luz no quarto; projetava
#        16
sombras longas e aranhosas nas paredes. Franco fixou o olhar nas costas da poltrona; o homem sentado nela parecia ser ainda menor do que o seu criado, pois Franco
no conseguia sequer ver a parte de trs de sua cabea.
        -        Voc ouviu tudo, trouxa? - perguntou a voz fria.
        -        Do que foi que o senhor me chamou? - perguntou Franco, desafiando-o, porque agora que estava dentro do quarto, agora que chegara a hora de agir,
ele se sentia mais corajoso; sempre fora assim na guerra.
        -        Chamei-o de trouxa - disse a voz calmamente. - Isso quer dizer que voc no  bruxo.
        -        Eu no sei o que o senhor quer dizer por trouxa - respondeu Franco, com a voz mais firme. - S sei  que esta noite ouvi o suficiente para despertar
o interesse da polcia, ah, isto eu ouvi, O senhor j matou uma vez e est planejando matar mais! E vou-lhe dizer outra coisa - acrescentou, numa sbita inspirao
-, minha mulher sabe que estou aqui e se eu no voltar...
        -        Voc no tem mulher - disse a voz fria, muito baixinho. - Ningum sabe que voc est aqui. Voc no disse a ningum que vinha. No minta para Lord
Voldemorr, trouxa, porque ele sabe... ele sempre sabe...
        -         mesmo? - retrucou Franco com aspereza. - Lorde ? Ora, no tenho muito respeito pelos seus modos, milorde. Vire-se e me
encare como homem, por que no faz isso?
        -        Mas eu no sou homem, trouxa - retrucou a voz fria, quase inaudvel devido ao crepitar das chamas. - Sou muito, muito mais do que um homem. Mas...
por que no? Vou encar-lo... Rabicho, venha virar minha poltrona.
        O        servo deu um gemido.
        -        Voc me ouviu, Rabicho.
        Lentamente, com o rosto contrado, como se preferisse fazer qualquer coisa a ter que se aproximar do seu senhor e do tapete em que se deitara a cobra, o
homenzinho se adiantou e comeou a girar a cadeira. A cobra ergueu a feia cabea triangular e sibilou baixinho quando as pernas da poltrona se prenderam no tapete.
        E, ento, a poltrona ficou de frente para Franco e ele viu o que
havia nela. Sua bengala caiu no cho com estrpito. Ele abriu a
boca e soltou um grito. Gritou to alto que nunca ouviu as palavras
#17
que a coisa na poltrona disse ao erguer a varinha. Houve um relmpago de luz verde, um rudo farfalhante e Franco Bryce desabou. Morreu antes de bater no cho.
A trezentos quilmetros dali, o garoto chamado Harry Potter
acordou assustado.


#18

*****


CAPITULO DOIS -
 A cicatriz


Harry estava deitado de costas, respirando com esforo como se tivesse corrido. Acordara de um sonho vivido, apertando o rosto com as mos. A antiga cicatriz em 
sua testa, que tinha a forma de um raio, ardia sob seus dedos como se algum tivesse comprimido sua pele com um arame em brasa.
        Ele se sentou, uma das mos ainda na cicatriz, a outra estendida no escuro  procura dos culos que deixara na mesa-de-cabeceira. Ele os colocou e o quarto
entrou em foco, iluminado por uma luz fraca e enevoada vinda de um lampio de rua fora da janela.
        Harry tornou a passar os dedos pela cicatriz. Continuava dolorida. Ele acendeu o abajur ao seu lado, saiu da cama, atravessou o quarto, abriu o guarda-roupa 
e espiou no espelho que havia do lado interno da porta. Um menino magricela de catorze anos olhou para ele, os olhos muito verdes e intrigados sob os cabelos negros 
em desalinho. Examinou com mais ateno a cicatriz em sua imagem. Parecia normal, mas continuava ardendo.
        Harry tentou se lembrar do que estivera sonhando antes de acordar. Parecera to real... havia duas pessoas que ele conhecia e uma que no conhecia... ele 
se concentrou, enrugando a testa, tentando se lembrar...
        Veio  sua mente a imagem pouco ntida de um quarto escuro... havia uma cobra em cima de um tapete diante da lareira... um homenzinho chamado Pedro, de apelido 
Rabicho... e uma voz aguda e fria... a voz de Lord Voldemort. S de pensar, Harry teve a sensao de que uma pedra de gelo estava descendo para o seu estmago...
        Fechou os olhos com fora e tentou se lembrar que aparncia 
tinha Voldemort, mas foi impossvel... tudo que Harry sabia era
que, no momento em que a poltrona girara, vira o que estava sentado
#19
 nela, sentira um espasmo de horror que o acordara... ou fora a dor na cicatriz?
        E quem era o velho? Porque sem dvida havia um velho; Harry o vira cair no cho. Tudo estava ficando confuso; o garoto levou as mos ao rosto tampando a
viso do quarto em que estava, tentando reter a imagem daquele outro mal iluminado, mas era o mesmo que tentar segurar gua com as mos; os detalhes agora desapareciam
com a mesma rapidez com que ele tentava ret-los... Voldemort e Rabicho estiveram conversando sobre algum que haviam matado, embora Harry no conseguisse lembrar
o nome... e estiveram planejando matar mais algum... ele...
        Harry tirou as mos do rosto, abriu os olhos e contemplou o quarto a toda a volta como se esperasse ver alguma coisa diferente ali. Como era de esperar, 
havia uma quantidade extraordinria de coisas diferentes em seu quarto. Havia um malo de madeira aberro ao p da cama, deixando  mostra um caldeiro, uma vassoura, 
vestes negras e vrios livros de feitios. Rolos de pergaminho atulhavam a parte do tampo de sua escrivaninha que no estava levantada por causa de uma enorme gaiola 
vazia, em que sua coruja muito branca, Edwiges, normalmente se encarapitava. No cho ao lado de sua cama havia um livro aberto; ele o estivera lendo antes de adormecer 
na vspera. As ilustraes do livro se mexiam. Homens com vestes laranja-vivo voavam em vassouras e entravam e saam do seu campo de viso, jogando uma bola vermelha.
        Harry foi at o livro, apanhou-o e assistiu a um dos bruxos marcar um gol espetacular enfiando a bola por um aro a quinze metros de altura. Ento o garoto 
fechou o livro. Nem mesmo o quadribol - na opinio de Harry, o melhor esporte do mundo -
                conseguiria distra-lo naquele momento. Ele reps o livro Voando
                com os Cannons sobre a mesa-de-cabeceira, dirigiu-se  janela e
                afastou as cortinas para olhar a rua l embaixo.
                   A rua dos Alfeneiros tinha o aspecto exato que uma rua de
                subrbio respeitvel deveria ter nas primeiras horas de um sbado.
                Todas as cortinas estavam fechadas. At onde Harry pde ver no
                escuro, no havia um nico ser vivo  vista, nem mesmo um gato.
           Contudo... contudo... Harry voltou inquieto para a cama e se
                sentou, passando mais uma vez um dedo pela cicatriz. No era a
                dor que o incomodava; Harry no era estranho  dor e aos
ferimentos.
#        20
Uma vez perdera todos os ossos do brao direito e sentira a dor de recuper-los em uma noite. O mesmo brao fora perfurado pela presa venenosa de uma cobra,
pouco tempo depois. Ainda no ano anterior, ele despencara quinze metros da vassoura em que voava. Estava acostumado com acidentes e ferimentos incomuns; eram inevitveis
quando se frequentava a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e se tinha um pendor para atrair confuses.
        No, a coisa que estava incomodando Harry era que da ltima vez que sua cicatriz doera, fora porque Voldemort tinha andado por perto... mas o bruxo no poderia
estar ali, naquela hora... a idia de Voldemort estar rondando a rua dos Alfeneiros era absurda, impossvel...
        Harry parou para escutar com ateno o silncio  sua volta. Estaria esperando ouvir o rangido de um degrau, o farfalhar de uma capa? Ento teve um leve
sobressalto, seu primo Duda acabara de soltar um tremendo ronco no quarto ao lado.
        Harry deu em si mesmo uma sacudidela imaginria; estava sendo burro; no havia mais ningum em casa exceto o tio
Vlter, a tia Petnia e Duda, e era evidente
que eles ainda dormiam, embalados por sonhos tranquilos e indolores.
        Era quando dormiam que Harry mais gostava dos Dursley; no porque no o ajudassem em nada quando estavam acordados. Tio Vlter, tia Petnia e Duda eram os
nicos parentes vivos de Harry. Eram trouxas (no eram bruxos) que odiavam e desprezavam qualquer forma de magia, o que significava que Harry era to bem-vindo em
sua casa quanto uma pelota de mofo. Eles explicaram as longas ausncias de Harry nos ltimos trs anos dizendo a todos que o garoto estudava no Centro St. Brutus
para Meninos Irrecuperveis. Sabiam muito bem que, como bruxo menor de idade, Harry era proibido de usar a magia fora de Hogwarts, mas no perdiam a mania de culp-lo
por tudo que acontecia de errado na casa. Harry nunca pudera fazer confidncias a eles, nem contar nada de sua vida no mundo da magia. A simples idia de procurlos 
quando acordassem para falar que sua cicatriz estava doendo e que estava preocupado com
Voldemort era ridcula.
        No entanto, era por causa de Voldemort que Harry viera morar com os Dursley, para incio de conversa. Se no fosse por
aquele
 bruxo, Harry no teria na testa a cicatriz em forma de raio. Se no fosse por Voldemorr, o garoto ainda teria pais...
#21
        Harry tinha um ano de idade na noite em que Voldemort - h um sculo o bruxo das trevas mais poderoso do mundo, um bruxo que fora adquirindo poder continuamente
durante onze anos - tinha chegado a sua casa e matado seus pais. Depois, Voldemort brandira sua varinha contra Harry; executara o feitio que havia liquidado muitos
bruxos adultos durante sua ascenso ao poder - e, inacreditavelmente, o feitio no produzira efeito. Em vez de matar o garotinho, o feitio se voltara contra o 
bruxo. Harry sobrevivera marcado apenas por um corte em forma de raio na testa, mas Voldemort fora reduzido a uma coisa quase sem vida. Despojado de seus poderes, 
a vida quase extinta, ele fugira; o terror em que a comunidade secreta de bruxos vivera tanto tempo se dissipou, os seguidores de Voldemort debandaram, e Harry Potter 
se tornou famoso.
        Harry tivera um choque de bom tamanho ao descobrir, no seu dcimo primeiro aniversrio, que era bruxo; fora ainda mais desconcertante descobrir que todos 
no mundo secreto da magia conheciam seu nome. Harry chegara a Hogwarts e deparara com cabeas que se viravam e cochichos que o seguiam aonde fosse. Mas agora j 
se acostumara com isso. No fim deste vero, ele iria comear o seu quarto ano em Hogwarts; e j estava contando os dias para regressar ao castelo.
        Mas faltavam ainda quinze dias para as aulas recomearem. Harry tornou a examinar o quarto, desanimado, e seus olhos pousaram nos cartes de aniversrio 
que seus dois melhores amigos tinham lhe mandado no fim de julho. Que ser que diriam se lhes escrevesse para contar que a cicatriz estava doendo?
        Na mesma hora a voz de Hermione Granger penetrou sua
cabea, aguda e cheia de pnico.
        Sua cicatriz est doendo? Harry, isso  realmente srio... Escreve ao Prof Dumbietlore! Vou verificar no meu livro Aflies e males comuns na magia... Quem
sabe tem alguma coisa l sobre cicatrizes produzidas por fritios...
        E, este seria o conselho de Hermione: vai procurar o diretor de
Hogwarrs, e, enquanto isso, vai consultando um livro. Harry contemplou pela janela o cu azul, quase negro. Duvidava muito que
                um livro pudesse ajud-lo. Que ele soubesse, era a nica pessoa
                que tinha sobrevivido a um feitio como o de Voldemorr; portanto,
#        22
era pouco provvel que encontrasse os seus sintomas descritos em Aflies e males comuns na magia. Quanto a informar ao diretor, Harry no fazia a menor idia
de onde Dumbledore passava as frias de vero. S por um momento divertiu-se em imaginar Dumbledore, com suas longas barbas prateadas, vestes compridas de bruxo 
e chapu cnico, estirado em uma praia qualquer, passando filtro solar no longo nariz torto. Mas onde quer que Dumbledore estivesse, Harry tinha certeza de que Edwiges 
seria capaz de encontr-lo; a coruja de Harry, at aquele dia, jamais deixara de entregar uma carta, mesmo sem endereo. Mas o que iria escrever?
        Prezado Prof Dumbledore. Desculpe-me o incmodo, mas minha
cicatriz doeu hoje de manh. Atenciosamente, Harry Potter.
Mesmo em sua cabea as palavras pareciam idiotas.
        Ento ele tentou imaginar a reao do seu outro melhor amigo, Rony Weasley e, num instante, o rosto sardento, de nariz comprido, do amigo comeou a flutuar 
diante de Harry com uma expresso de atordoamento.
        Sua cicatriz doeu? Mas... mas Voc-Sabe-Quem no pode estar por perto agora, pode? Quero dizer... voc saberia, no saberia? Ele estaria tentando matar voc 
outra vez, no ? Sei no, Harry, vai ver as cicatrizes produzidas por
feitios sempre doem um pouquinho... Vou perguntar ao meu pai...
        O Sr. Weasley era um bruxo diplomado que trabalhava na Seo de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas, no Ministrio da Magia, mas, pelo que Harry
soubesse, no tinha qualquer formao especfica em feitios. Em todo o caso, no lhe agradava a idia de que a famlia Weasley inteira soubesse que estava assustado
por causa de uma dorzinha. A Sra. Weasley se preocuparia mais do que Hermione, e Fred e Jorge, os gmeos de dezesseis anos, irmos de Rony, poderiam pensar que Harry
estava se acovardando. Os Weasley eram a famlia de que Harry mais gostava no mundo; e ele tinha esperanas que o convidassem para passar uns dias em casa deles 
uma hora dessas (Rony mencionara alguma coisa sobre uma Copa Mundial de Quadribol), e Harry no queria que sua visita fosse pontuada por perguntas ansiosas sobre 
sua cicatriz.
O garoto massageou a cicatriz com os ns dos dedos. O que ele
realmente queria (e se sentiu quase envergonhado de admitir para si
mesmo) era algum como um pai ou uma mep um bruxo adulto a
#23
                quem pudesse pedir um conselho sem se sentir burro, algum que
                gostasse dele, que tivesse tido experincia com artes das trevas...
                   E ento lhe ocorreu a soluo. Era to simples, to bvia, que
                ele nem podia acreditar que tivesse levado tanto tempo para lembrar - Sirius.
                   Harry saltou da cama, saiu correndo e se sentou  escrivaninha;
                puxou um pergaminho para perto, molhou a pena de guia no tinteiro, escreveu Caro Sirius, e em seguida parou, pensando qual seria
                a melhor maneira de contar o seu problema, ainda admirado com
                o fato de no ter pensado nele logo de sada. Mas, por outro lado,
                talvez no merecesse tanta admirao - afinal, ele s descobrira que
                Sirius era seu padrinho fazia dois meses.
                   Havia uma razo simples para a absoluta ausncia de Sirius da
                vida de Harry at aquele momento - o bruxo estivera em Azkaban,
                a assustadora priso de bruxos, guardada por 
dementadores, criaturas malignas que no possuam olhos, sugavam a alma das pessoas,
                e tinham ido  Hogwarrs procurar Sirius quando ele fugira. Porm,
                o bruxo era inocente - as mortes pelas quais fora 
condenado tinham sido cometidas por Rabicho, seguidor de Voldemort, que
                quase todos ainda pensavam estar morto. Harry, Rony e Hermione
                sabiam que no; tinham encontrado Rabicho cara a cara no ano
                anterior, embora apenas o Prof. Dumbledore tivesse acreditado na
                histria que eles contaram.
                   Durante uma gloriosa hora, Harry acreditara que finalmente
                deixaria a casa dos Dursley, porque Sirius se oferecera para ficar
                com ele, depois que limpasse o prprio nome. Mas a 
oportunidade lhe fora roubada - Rabicho escapara antes que pudessem lev-lo
                ao Ministrio da Magia, e Sirius teve de fugir para salvar a vida.
                Harry o ajudara a escapar montado em um hipogrifo chamado 
Bicuo, e desde ento Sirius estava foragido. A casa que Harry poderia 
ter tido, se Rabicho no tivesse desaparecido, o atormentara o
                vero inteiro. Fora duas vezes mais penoso voltar para os Dursley
                sabendo que quase se livrara deles para sempre.
                   Ainda assim, Sirius vinha ajudando Harry, mesmo sem poder
                estar presente. Graas ao padrinho, Harry agora tinha todo o seu
material escolar guardado no quarto. Os Dursley nunca haviam
                permitido isso; o desejo geral de tornar a vida de Harry a mais 
infeliz possvel, somado ao medo dos seus poderes, levara os tios, nos
#        24
veres anteriores, a trancar o malo de escola do garoto no armrio sob a escada. Mas a atitude dos Dursley mudara desde que descobriram que Harry tinha um perigoso
condenado como padrinho - Harry, convenientemente, se esquecera de acrescentar que Sirius era inocente.
        O        garoto recebera duas cartas de Sirius desde que voltara  rua dos Alfeneiros. Ambas tinham sido entregues no por corujas (como era costume entre
os bruxos), mas por grandes e coloridos pssaros tropicais. Edwiges no aprovara aqueles intrusos
espalhafatosos; relutara muito a permitir que eles usassem o seu
bebedouro antes de irem embora. Harry, por outro lado, gostara muito das aves; fizeram-no lembrar palmeiras e praias de areia branca e ele desejara que, onde quer
que o padrinho estivesse (Sirius nunca dizia, temendo que as cartas fossem interceptadas), que estivesse se divertindo. Por alguma razo, Harry achava difcil imaginar
dementadores que sobrevivessem muito tempo sob o sol forte; talvez por isso  que Sirius tivesse rumado para o sul. As cartas dele, que agora estavam escondidas
sob a utilssima tbua solta do soalho, embaixo da cama de Harry, tinham um tom animado e, nas duas, ele lembrava Harry que o chamasse se um dia precisasse. Bem,
ele bem que precisava chamar o padrinho agora...
        Sua luz de cabeceira parecia estar enfraquecendo  medida que a luz fria e cinzenta que antecede o nascer do sol penetrava devagarinho no quarto. Finalmente,
quando o sol nasceu, quando as paredes do quarto ficaram douradas e quando ele ouviu sons de gente se mexendo no quarto de tio Vher e tia Petnia, Harry tirou os
pedaos amassados de pergaminho de cima da escrivaninha e releu a carta que escrevera.

Caro Sirius,
Obrigado por sua ltima carta, a ave era enorme, quase no
pde passar pela minha janela.
        As coisas continuam na mesma por aqui. A dieta de Duda no est dando muito certo. Minha tia o pegou contrabandeando rosquinhas fritas e aucaradas para
dentro do quarto, ontem. Meus tios disseram que vo ter de cortar a mesada dele caso ele co ntinue fazendo isso, ento Duda ficou com muita raiva e atirou
pela janela o PlayStation. Isso  uma espcie de computador com 25 muitos jogos. Foi realmente uma burrice porque agora ele no tem
nem um Mega-Mutilation parte trs para distrair as idias.
        Eu vou bem, principalmente porque os Dursley esto apavorados que voc possa aparecer e transformar eles em morcegos se eu
pedir.
        Mas aconteceu uma coisa estranha, hoje de madrugada. Minha cicatriz doeu outra vez. A ltima vez que isto aconteceu foi porque Voldemort estava em Hogwarts.
Mas acho que ele no pode estar por perto agora, pode? Voc sabe se cicatrizes produzidas por um feitio podem doer at anos depois?
        Vou mandar esta carta quando Edwiges voltar, no momento
ela saiu para caar. Diga ol ao Bicuo por mim.
        Harry

        pensou Harry, parecia boa. No fazia sentido incluir o sonho, ele no queria que a carta deixasse transparecer que estava muito preocupado. O garoto enrolou
o pergaminho e deixou-o em cima da escrivaninha, pronto para quando Edwiges voltasse. Depois se levantou, se espreguiou e abriu mais uma vez o guarda-roupa. Sem
olhar para a imagem refletida no espelho, comeou a se vestir para ir tomar o caf da manh.
#26


*****


- CAPTULO TRS -
O convite


Quando Harry finalmente chegou  cozinha, os trs Dursley j estavam sentados  mesa. Nenhum deles ergueu a cabea quando o garoto entrou ou se sentou. A caraa
vermelha de tio Vlter estava escondida atrs do matutino Daily Mail, e tia
Petnia partia um grapefruit em quatro, os lbios contrados por cima dos dentes de cavalo.
        Duda parecia furioso e carrancudo, e, por alguma razo, dava a impresso de estar ocupando mais espao do que de costume. E isso no era pouco, porque ele
sempre ocupava sozinho um lado inteiro da mesa quadrada. Quando tia Petnia ps um quarto de grapefruit no prato do filho com um trmulo "Tome, Dudinha querido",
o garoto lanou-lhe um olhar raivoso. A vida de Duda tomara um rumo muito desagradvel desde que ele voltara para passar as frias de vero em casa trazendo o boletim
de fim de ano.
        Tio Vlter e tia Petnia, como sempre, tinham conseguido arranjar desculpas para as notas baixas dele; tia Petnia sempre insistia que Duda era um menino
muito talentoso, incompreendido pelos professores, enquanto tio Vlter sustentava que "ele no queria mesmo um filho c-d-efe e educadinho". Eles tambm passaram
por cima das acusaes de truculncia e intimidao de colegas que havia no boletim. "Ele  um garorinho turbulento, mas no faria mal a uma mosca!", comentou
tia
Petnia chorosa.
        Contudo, no finalzinho havia uma observao muito bem colocada da enfermeira da escola, que nem mesmo os pais conseguiram justificar. Por mais que
tia Petnia
choramingasse que Duda tinha ossos grandes e que seu excesso de peso era na realidade gordura infantil, que ele era um menino em crescimento e precisava de muita
comida, o fato era que os fornecedores de uniformes da escola no estocavam calas suficientemente grandes para
        Duda. A enfermeira da escola vira o que os olhos de tia Petnia -
#27
to atentos quando se tratava de encontrar marcas de dedos em suas paredes brilhantes e observar as idas e vindas dos vizinhos - sip nplesmente se recusavam a enxergar:
que, longe de precisar de alimentao suplementar, Duda atingira aproximadamente o
tamanho e o peso de um filhote de orca.
        Ento - depois de muitos acessos de raiva, muitas discusses que sacudiram o soalho do quarto de Harry e muitas lgrimas de tia Petnia - o novo regime
comeara. A receita da dieta que a enfermeira da Smeltings enviara fora colada na geladeira, j
esvaziada de todas as coisas que Duda mais gostava - bebidas gasosas
e bolos, barras de chocolate e hambrgueres - e cheia de frutas, legumes e coisas que tio Vlter chamava de "comida de coelho". Para fazer Duda se sentir melhor
com a mudana, tia Petnia insistira que a famlia inteira seguisse a mesma dieta. Agora ela passava um quarto de grapefruit para Harry. O garoto reparou que o dele
era bem menor que o de Duda. A tia parecia sentir que a melhor maneira de manter o moral de Duda era providenciar para que ele, no mnimo, recebesse mais comida
do que Harry.
        Mas tia Petnia no sabia o que estava escondido sob as tbuas soltas do soalho no andar de cima. No fazia a menor idia de que Harry no estava seguindo
dieta alguma. No momento em que descobriu que esperavam que ele sobrevivesse durante o vero comendo palitos de cenoura crua, Harry despachara Edwiges  casa dos
amigos com pedidos de ajuda, e eles tinham correspondido mais do que  altura. A coruja voltara da casa de Hermione com uma enorme caixa de lanchinhos sem acar
(os pais de Hermione eram dentistas). Hagrid, o guarda-caa de Hogwarrs, comparecera com um saco de bolos que ele mesmo fabricara (Harry ainda no provara; tinha
muita experincia com a culinria de Hagrid). A Sra. Weasley, porm, mandara a coruja da famlia, Errol, com um enorme bolo de
frutas e tortinhas variadas. O coitado 
do Errol, que era velho e fraco, precisara de cinco dias inteiros para se recuperar da viagem. Ento, no aniversrio de Harry (a que os Dursley sequer deram ateno), 
ele recebera quatro esplndidos bolos de aniversrio de Rony, Hermione, Hagrid e Sirius. Ainda lhe restavam dois, e
sabendo que teria um caf da manh de verdade
quando voltasse ao seu cuarto, ele comeou a comer o grapefruit sem reclamar.
                   Tio Vlter ps de lado o jornal com um profundo suspiro de
desaprovao e olhou para o seu quarto de grapefruit.
#        28
-         s isso? - perguntou em tom de reclamao  tia Petnia. A mulher lhe lanou um olhar severo e indicou com a cabea o
filho, que j acabara de comer o seu quarto de fruta e estava cobiando o de Harry com um olhar azedo nos olhinhos de porco.,
Tio Vlter soltou um grande suspiro, que arrepiou sua espessa
bigodeira, e apanhou a colher ao lado do prato.
        A campainha da porta tocou. Ele se levantou penosamente da cadeira e saiu em direo ao
hall. Rpido como um raio, enquanto a me se ocupava com a chaleira,
Duda furtou o resto de grapefruit do pai.
        Harry ouviu vozes  porta, algum rindo e a resposta seca do
tio. Ento a porta se fechou e seguiu-se um rudo de papel rasgado no hall.
        Tia Petnia colocou o bule de ch sobre a mesa e olhou curiosa  volta para ver aonde fora o marido. No precisou esperar muito para descobrir; passado um
minuto ele estava de volta. Com o rosto lvido.
-        Voc - vociferou ele para Harry. - Na sala de estar. Agora.
        Espantado, perguntando-se o que teria feito desta vez, Harry se levantou e acompanhou o tio para fora da cozinha e rumaram para o aposento vizinho. Vlter 
fechou a porta com fora depois que ele e o sobrinho entraram.
        - Ento - disse o tio, indo at a lareira e se virando para encarar Harry, como se estivesse prestes a lhe dar voz de prsao.
- Ento.
        Harry teria adorado responder "Qual ?", mas achou que a boa disposio do tio no deveria ser testada assim cedinho, principalmente se j estava sob forte 
estresse por falta de comida. Ento decidiu fazer cara de quem est educadamente intrigado.
        - Isto acabou de chegar - disse o tio. E brandiu na cara de Harry a folha de papel de carta roxo. - Uma carta. A seu respeito.
        A confuso de Harry aumentou. Quem estaria escrevendo a tio
Vlter a respeito dele? Quem  que ele conhecia que mandava cartas pelo correio?
        Tio Vlter olhou aborrecido para Harry, depois baixou os
olhos para a carta e comeou a ler em voz alta:

        Prezados Sr. e Sra. Dursley,
         Nunca fomos apresentados, mas tenho certeza de que j ouviram Harry falar muito do meu filho Rony.
#29
        Como Harry deve ter-lhes contado, afinal da Copa Mundial
de Quadribol vai se realizar na prxima segunda-feira  noite, e
meu marido, Arthur, conseguiu arranjar timos lugares para o
jogo por intermdio de conhecidos do Departamento de Jogos e
Esportes Mgicos.
        Espero que o senhor e sua mulher nos permitam levar Harry ao jogo, pois  realmente uma oportunidade nica na vida. A Gr-Bretanha no sedia a Copa h trinta
anos e as entradas so muito dificeis de se obter. Ficaramos muito felizes se Harrypudesse passar o resto das frias de vero conosco, e de acompanh-lo em segurana
at o embarque para a escola.
        Seria prefervel que ele nos mandasse a resposta, o mais depressa possvel, da maneira normal, porque o carteiro trouxa jamais entregou correspondncia em
nossa casa e no tenho muita certeza de que saiba onde .
Esperando ver Harry em breve, subscrevo-me, Atenciosamente,
 Molly Weasley
PS. Espero ter colado selos suficientes na carta.

Tio Vlter terminou a leitura, tornou a meter a mo no bolso superior do palet e tirou mais alguma coisa.
        -        Olhe s isto - rosnou.
        E mostrou o envelope em que chegara a carta da Sra. Weasley, e Harry precisou fazer fora para no rir. O envelope estava coberto de selos exceto por um 
quadrado de uns trs centmetros na face, em que a senhora havia espremido o endereo dos Dursley numa letra miudinha.
        - Ento ela colou selos suficientes - disse Harry tentando fazer parecer que o engano da Sra. Weasley era muito comum. Os olhos
do tio faiscaram.
        -        O carteiro reparou - disse ele entre dentes. - Estava muito interessado em saber de onde veio a carta. Foi por isso que tocou a
campainha. Parecia estar achando muito engraado.
Harry ficou calado. Outras pessoas talvez no entendessem o
porqu da preocupao do tio com tantos selos, mas Harry vivera
com os Dursley tempo bastante para saber que se incomodavam
        muito com qualquer coisa at ligeiramente anormal. O pior receio
                dos dois era algum descobrir que estavam ligados (
por mais remoamente que fosse) com gente como a Sra. Weasley.
#        30
        Tio Vlter continuou a olhar feio para Harry, que tentava sustentar uma expresso neutra. Se no fizesse nem dissesse nada idiota, talvez pudesse curtir
uma oportunidade que s ocorria uma vez na vida. Esperou o tio dizer alguma coisa, mas o homem simplesmente continuou a fit-lo com raiva. Harry resolveu, ento, 
quebrar o silncio.
- Ento... posso ir? - perguntou.
        Um ligeiro espasmo passou pela caraa prpura do tio. Os bigodes se arrepiaram. Harry achou que sabia o que estava acontecendo por trs daquela bigodeira: 
uma batalha encarniada em que dois instintos muito fundamentais de tio Vlter se confrontavam. Permitir que Harry fosse seria fazer o garoto feliz, uma coisa que 
o tio lutava para evitar havia treze anos. Por outro lado, deixar que Harry sumisse para a casa dos Weasley o resto do vero seria livrarse dele duas semanas mais 
cedo do que os Dursley poderiam ter sonhado, e tio Vlter detestava ter Harry em casa. Aparentemente, para ganhar tempo para pensar, ele baixou os olhos para a carta 
da Sra. Weasley.
        - Quem  essa mulher? - perguntou examinando a assinatura com desagrado.
        - O senhor j a viu.  a me do meu amigo Rony, estava esperando ele descer do trem de Hog... do trem da escola no fim do ano
letivo.
Quase dissera "Hogwarts", e isso certamente irritaria o tio.
Ningum jamais mencionava o nome da escola de Harry em voz
alta na casa dos Dursley.
        Tio Vlter amarrou a cara enorme como se tentasse se lembrar
de uma coisa muito desagradvel.
        - Uma mulher feito uma rolha de poo? - rosnou finalmente.
- Uma penca de filhos de cabelos vermelhos?
        Harry franziu a testa. Achou que era demais o tio chamar algum de "rolha de poo", uma vez que seu filho, Duda, finalmente atingira a forma que vinha ameaando
atingir desde os trs anos de idade, ter mais largura do que altura.
        Tio Vlter tornou a examinar a carta.
        - Quadribol - resmungou. - Quadribolp que droga  isso?
Harry sentiu nova pontada de aborrecimento.        
        -        um esporte - respondeu secamente. - Joga-se montado numa vass...
#31
                  - Est bem, est bem! - disse o tio em voz alta. Harry
observou, com alguma satisfao, que ele parecia ligeiramente em panico. Pelo visto seus 
nervos no iriam suportar o som da palavra "
vassouras" em sua sala de estar. Refugiou-se outra vez no exame da
                carta. Harry viu os lbios do tio formarem as palavras "nos 
mandasse a resposta da maneira normal". Tornou a fechar a cara.
                  - Que  que ela quer dizer da maneira normal? - bufou ele.
                  - Normal para ns - explicou Harry e, antes que o tio pudesse
 interromp-lo, acrescentou: - o senhor sabe, por correio-coruja.
                Isso  que  o normal para os bruxos.
                   Tio Vlter fez uma cara to indignada como se Harry tivesse
                dito um palavro. Trmulo de raiva, lanou um olhar nervoso para
                a janela, como se esperasse ver os vizinhos com os ouvidos colados
                na vidraa.
                  - Quantas vezes tenho que lhe dizer para no mencionar essa
                anormalidade sob o meu teto? - sibilou ele, o rosto agora um
intenso tom ameixa. - Voc fica parado a, vestindo as roupas com
                que Petunia e eu cobrimos suas costas ingratas...
                  - S depois que Duda no quer mais elas - disse Harry com
                frieza, pois na realidade estava vestindo uma suter to grande que
                ele precisava fazer cinco dobras nas mangas para poder usar as
                mos, e que lhe caa abaixo dos joelhos da cala jeans muito larga.
                  - No vou admitir que voc fale comigo assim! - disse o tio
                tremendo de raiva.
                   Mas Harry no precisava aturar isso. Ia longe o tempo em que
                era obrigado a aceitar todas as regras idiotas dos Dursley. No ia
                seguir a dieta de Duda, e no ia deixar o tio impedi-lo de assistir 
                Copa Mundial de Quadribol, no se dependesse dele.
                   Harry inspirou profundamente para se acalmar e ento disse:
                  - Muito bem, no posso assistir  Copa Mundial de Quadribol. 
Posso ir, agora?  que eu tenho uma carta para Sirius que quero terminar. O senhor sabe, o meu padrinho.
                   Conseguira. Dissera as palavras mgicas. Ficou ento 
observando o tom prpura no rosto do tio ir clareando desigualmente,
fazendo-o parecer um sorvete de groselha mal misturado.
                   - Voc est escrevendo para ele? - indagou tio Vlter numa voz
Falsamente calma, mas Harry vira as pupilas dos olhos dele se contrarem com repentino medo.
                  - Bem...  - disse Harry em tom casual. -J faz um tempo que
#        32
ele no tem notcias minhas e, o senhor sabe, se no receber nada, pode pensar que aconteceu algum problema.
        Ele parou para gozar o efeito de suas palavras. Quase pde at ver as engrenagens girando por baixo dos cabelos do tio, escuros, grossos e caprichosamente 
repartidos. Se Vlter tentasse impedir Harry de escrever para Sirius, este pensaria que o garoto estava sendo maltratado. Se dissesse que o sobrinho no podia ir 
 Copa Mundial de Quadribol, o garoto iria escrever contando ao padrinho, que teria certeza de que Harry estava sendo maltratado. S havia uma coisa para tio Vlter 
fazer. Harry via a concluso se formando no crebro do tio como se sua caraa bigoduda fosse transparente. O garoto tentou no sorrir e manter o rosto o mais inexpressivo 
possvel. E ento...
        - Bem, est bem, ento. Pode ir para a casa dessa rolha... dessa idiota... para essa tal de Copa Mundial. Escreva respondendo a esses... esses Weasley para 
virem apanh-lo, veja bem. No tenho tempo para acompanhar voc por todo o pas. E pode passar o resto do vero l. E pode dizer ao seu, seu padrinho... diga a ele... 
diga a ele que voce vai.
        - O.K. ento - disse Harry animado.
        O garoto se virou e saiu pela porta da sala de estar, brigando com a vontade de saltar no ar e gritar. Ele ia... ia para a casa dos
Weasley, ia assistir  Copa Mundial de Quadribol!
        J no corredor, ele quase colidiu com Duda, que estivera
escondido atrs da porta, na esperana de ouvir Harry levar um
passa-fora. Ficou chocado ao ver o largo sorriso no rosto do primo.
- Foi um excelente caf da manh, no foi? - exclamou Harry.
- Estou de barriga cheia, voc no?
        Rindo-se da cara de espanto de Duda, Harry subiu a escada, saltando trs degraus de cada vez, e correu para dentro de seu quarto.
        A primeira coisa que viu foi que Edwiges voltara. Estava na gaiola, espiando Harry com seus enormes olhos cor de mbar, estalando o bico de um jeito que 
significava que estava aborrecida com alguma coisa. Exatamente o que a estava aborrecendo tornou-se visvel quase na mesma hora.
        - AI! - gemeu Harry.
        Algo que lembrava uma minscula bola de tnis, cinzenta e
emplumada, acabara de bater do lado da cabea de Harry. Ele massageou a cabea furiosamente erguendo os olhos para ver o que o
atingira, e viu uma corujinha mnima, pequena o bastante para caber na palma de sua mo, chiando excitada pelo quarto como se fosse um busca-p. O garoto percebeu
que a coruja deixara cair uma carta a seus ps. Ele se abaixou, reconheceu a letra de Rony e abriu o envelope. Dentro havia um bilhete apressado.

Harry -
 PAPAI CONSEGUIU AS ENTRADAS - Irlanda contra a Bulgria, na noite de segunda. Mame escreveu aos trouxas para convidar voc. Talvez a carta j tenha chegado,
no sei quanto tempo demora o correio dos trouxas. Pensei em lhe mandar este bilhete pela Pchi.

Harry olhou bem para a palavra "Pchi", depois para a minscula coruja que voava velozmente em volta da luz no teto. Que nome mais esquisito para uma coruja. Talvez
ele no tivesse entendido a letra de Rony. Voltou ao bilhete.

        Vamos buscar voc, quer os trouxas gostem ou no, voc no pode perder a Copa, s que mame e papai acham que  melhor a gente primeiro fingir que est pedindo
permisso. Se eles disserem sim, mande logo Pchi com a sua resposta, e iremos buscar voc s cinco horas no domingo. Se eles disserem no, por favor, mande PIchi
de volta depressa e iremos busc-lo no domingo s cinco horas, assim mesmo.
        Hermione est chegando hoje  tarde. Percy comeou a trabalhar - Departamento de Cooperao Internacional em Magia. No fale em ir para o exterior enquanto
estiver aqui a no ser que queira que ele lhe arranque as calas pela cabea.
        At mais-Rony

- Calma a! - disse Harry, quando a corujinha tirou um rasante da cabea dele, batendo as asas loucamente. Harry s pde supor que de orgulho por ter entregado a 
carta  pessoa certa. - Vem c, preciso que voc leve a minha resposta!
        A corujinha voou at o topo da gaiola da coruja de Harry.
Edwiges olhou-a friamente, como se a desafiasse a tentar se aproximar mais.
        Harry tomou a pena de guia mais uma vez, apanhou um pergaminho limpo e escreveu:
#34

Rony, est tudo certo, os trouxas disseram que eu posso ir. Vejo vocs amanh s cinco. Mal posso esperar.
Harry

    Depois, dobrou o bilhete muitas vezes e, com imensa dificuldade, prendeu-o na perna da corujinha que pulava no mesmo lugar de
tanta excitao. No instante em que o bilhete ficou preso, a coruja partiu; 
disparou pela janela e se perdeu de vista.
        Harry se virou para Edwiges.
- Est com disposio para fazer uma longa viagem? - perguntou.
A coruja piou com uma certa dignidade.
        - Pode levar isto ao Sirius para mim? - disse ele apanhando a
- Espera a... quero terminar.
        Ele tornou a desenrolar o pergaminho e apressadamente acresentou um postscrzptum.

Se quiser entrar em contato comigo, estarei na casa do meu amigo Rony Weasley at o fim do vero. O pai dele arranjou entradas para a gente assistir  Copa Mundial
de Quadribol!

Terminada a carta, ele a amarrou  perna de Edwiges; ela ficou anormalmente quieta, como se estivesse decidida a mostrar ao dono como  que uma verdadeira coruja-correio 
devia se comportar.
        - Vou estar na casa de Rony quando voc voltar, est bem? - Harry a informou.
        A coruja deu uma bicadinha carinhosa no dedo do garoto,
depois, com um rudo farfalhante, abriu as enormes asas e saiu
voando pela janela aberta.
        Harry observou-a desaparecer ao longe, depois entrou de quatro embaixo da cama, soltou a tbua do soalho e apanhou um pedao de bolo de aniversrio. Sentou-se 
no cho para com-lo, saboreando a felicidade que o invadia. Ele comia bolo e Duda s comia
grapefiuit, fazia um belo dia de vero, sua cicatriz estava perfeitamente
normal, ele ia deixar a rua dos Alfeneiros no dia seguinte e ia assistir  Copa Mundial de Quadribol. Naquele momento era difcil se preocupar com alguma coisa -
at mesmo com Lord Voldemort.
#35


*****


- CAPTULO QUATRO -
De volta  Toca


Por volta do meio-dia do dia seguinte, o malo de Harry estava pronto com o seu material escolar e seus pertences mais preciosos
- a Capa da Invisibilidade que ele herdara do pai, a vassoura que ganhara de Sirius, o mapa encantado de Hogwarts, presente de Fred e Jorge Weasley no ano anterior. 
Ele retirara toda a comida do esconderijo sob a tbua solta, verificara duas vezes cada cantinho de seu quarto para ver se esquecera livros de feitios ou penas, 
baixara da parede o calendrio em que fizera a contagem regressiva para o dia primeiro de setembro, riscando cada dia que passava at a volta a Hogwarts.
        A atmosfera no n 4 da rua dos Alfeneiros estava extremamente tensa. A chegada iminente  casa de um grupo variado de bruxos estava deixando os Dursley nervosos 
e irritadios. Tio Vlter parecera decididamente assustado quando Harry informou-o de que os Weasley chegariam s cinco horas do dia seguinte.
        - Espero que voc tenha avisado para se vestirem direito, a essas pessoas - rosnou o
tio na mesma hora. - J vi o tipo de coisa que gente da sua laia usa. 
 melhor terem a decncia de vestir roupas normais,  s.
        Harry sentiu uma ligeira apreenso. Raramente vira o casal Weasley usar alguma coisa que os Dursley pudessem chamar de "normal". Os filhos at usavam roupas 
de trouxas durante as frias, mas o Sr. e a Sra. Weasley, em geral, usavam vestes longas e surradas em vrios graus. Harry no se incomodava com o que os vizinhos 
pudessem pensar, mas estava aflito com as grosserias queos Dursley pudessem fazer aos Weasley se eles realmente correspondessem  pssima idia que os tios faziam 
dos bruxos.
        Tio Vlter vestira o melhor terno. Para alguns isto poderia 
parecer um gesto de boas-vindas, mas Harry sabia que era porque o
tio queria impressionar e intimidar. Duda, por outro lado, parecia
#36
        encolhido. No era porque a dieta afinal estivesse produzindo efeito, mas por medo. O garoto sara do
ltimo encontro com um bruxo adulto levando um rabo
de porco, enroscado, que saa pelo fundilho das calas e tia Petnia e tio Vlter 
precisaram pagar um ospital particular em Londres para remover o tal rabo. Portanto,
no         surpreendia que Duda no parasse de passar a mo, nervosamente, pelo bumbum, e andasse de lado quando ia de um cmodo
a outro, para no oferecer o mesmo alvo ao inimigo.
        O almoo foi uma refeio quase silenciosa. Duda sequer protestou contra a comida (queijo branco e aipo ralado). Tia Petnia
no comeu nadinha. Manteve os braos cruzados, os lbios contrados e parecia estar mastigando a lngua, como se refreasse o
discurso violento e injurioso que queria fazer para Harry.
         - Eles viro de carro, naturalmente? - vociferou tio Vlter por
cima da mesa.
        - Hum - fez Harry.
        Ele no pensara nisso. Como  que os Weasley viriam apanh-lo? No tinham 
mais carro; o velho Ford Anglia, que outrora possuiam, atualmente andava rodando pela
Floresta Proibida de Hogarts. Mas, no ano anterior, o Sr. Weasley tomara emprestado o
carro do Ministrio da Magia; ser que faria o mesmo hoje?
        - Acho que sim - respondeu Harry.
        Tio Vlter bufou para dentro dos bigodes. Normalmente, ele teria perguntado qual era a marca do carro do Sr. Weasley; tinha
uma tendncia a julgar outros homens pelo tamanho e o luxo de seus carros. Mas o garoto duvidava que o
tio tivesse simpatizado com o Sr. WeasLey mesmo que o bruxo dirigisse uma Ferrari.
        Harry passou a maior parte da tarde em seu quarto; no suporva
ver tia Petnia espiar entre as cortinas a todo instante, como se
tivesse havido um alerta de que existia um rinoceronte  solta.
        Finalmente, s quinze para as cinco, Harry voltou ao trreo e
entrou na sala de estar.
        Tia Petnia ajeitava compulsivamente as almofadas. Tio Vlter
fingia ler o jornal, mas seus olhinhos midos no se mexiam, e Harry teve certeza de que na realidade
ele mantinha os ouvidos nuito atentos para a chegada de um carro. Duda se enterrou numa
        poltrona, sentado em cima das mos muito gordas, e segurava com
firmeza o bumbum. Harry no suportou a tenso: saiu da sala e foi
#37
se sentar na escada do hall, os olhos no relgio de pulso e o coraao batendo muito forte de tanta excitao e nervosismo.
        As cinco horas vieram e se foram. Tio Vlter, suando ligeiramente
no terno, abriu a porta da frente, espiou para um lado e outro
da rua, e recolheu depressa a cabea.
        -        Eles esto atrasados! - rosnou para Harry.
        -        Eu sei - disse Harry. - Talvez... hum... o trnsito esteja ruim, ou outro problema qualquer.
        Cinco e dez... depois cinco e quinze... Harry estava comeando a ficar ansioso tambm. s cinco e meia, ele ouviu os tios conversarem em murmrios tensos
na sala de estar.
        -        No tm a menor considerao.
        -        Poderamos ter outro compromisso.
        -        Talvez eles pensem que sero convidados para o jantar se chegarem tarde.
        -        Certamente que no sero - respondeu tio Vlter, e Harry o ouviu se levantar e comear a andar pela sala. - Vo pegar o garoro e ir embora, no
vo se demorar. Isto , se  que vo aparecer.
Provavelmente se enganaram no dia. Eu diria que gente da laia deles no liga muito para pontualidade. Ou isso ou esto dirigindo uma lata velha que parou de... AAAAAAAARRRRRFEE!
        Harry deu um pulo. Do outro lado da porta da sala ele ouviu
os trs Dursley correrem precipitadamente, cheios de pnico. No
momento seguinte, Duda entrou voando pelo hall, aterrorizado.
        -        Que aconteceu? - perguntou Harry. - Que foi que houve? Mas Duda 
parecia incapaz de responder. As mos ainda agarradas s ndegas, saiu desengonado,
e o mais depressa que pde, em direo  cozinha. Harry correu para a sala de estar.
        Ouviam-se fortes batidas e arranhes por trs das tbuas que
vedavam a lareira dos Dursley, diante da qual estava ligada uma
imitao de fogo a carvo.
        -        Que  isso? - exclamou tia Petnia, que recuara de
costas para a parede, arregalando os olhos para a lareira, aterrorizada.
 - Que  isso, Vlter?
        Mas eles no precisaram gastar nem um segundo pensando.
Ouviram-se vozes no interior da lareira fechada.
        - Ai! Fred, no... volte, volte, houve algum engano... diga
Jorge para no... AI! Jorge, no, no h espao, volte depressa e diga
ao Rony...
#        38
        -        Talvez Harry possa ouvir a gente, papai... talvez possa abrir para a gente passar...
        Ouviram-se murros contra as tbuas.
        -        Harry? Harry, voc est ouvindo a gente?
        Os Dursley investiram contra Harry como um casal de carcajus furiosos.
        - Que  isso? - vociferou tio Vlter. - Que  que est acontecendo?
        -        Eles... eles tentaram chegar aqui usando P de Flu - disse Harry, reprimindo uma vontade louca de rir. - Eles podem viajar entre lareiras, s que
vocs tamparam a entrada, esperem um pouco...
        Harry se aproximou da lareira e chamou.
        -        Sr. Weasley? O senhor est me ouvindo?
        As pancadas pararam. Algum do outro lado fez "psiu".
        -        Sr. Weasley,  o Harry... a lareira est bloqueada. O senhor no vai conseguir passar por a.
        -        Droga! - exclamou a voz do Sr. Weasley. - Para que foi que eles inventaram de bloquear a lareira?
        -        Eles tm um fogo eltrico - explicou Harry.
        -        Verdade? - ouviu-se a voz excitada do Sr. Weasley. - Ecltico, voc disse? Com uma
tomada? Nossa, eu preciso ver isso... vamos
pensar... ai, Rony!
        A voz de Rony agora se juntava a dos outros.
        -        Que  que estamos fazendo aqui? Deu alguma coisa errada?
        -        No, Rony - ouviu-se a voz de Fred, muito sarcstica. - Era exatamente aqui que queramos chegar.
        -        , e estamos nos divertindo de monto - acrescentou Jorge, cuja voz parecia abafada, como se ele estivesse esmagado contra a
parede.
        -        Meninos, meninos... - disse o Sr. Weasley vagamente. - Estou tentando pensar no que fazer... ...  o jeito... afaste-se, Harry.
        Harry recuou at o sof. Tio Vlter, porm, avanou para a
lareira.
        -        Espere a! - berrou para a pea. - Que  que voc vai fazer exatamente...?
BAM!
        O fogo eltrico foi arremessado pela sala, ao mesmo tempo que as tbuas saltavam da lareira, expulsando o Sr. Weasley, Fred, Jorge
#39
e Rony em meio a uma nuvem de calia e fragmentos de madeira. Tia Petnia berrou e caiu de costas por cima da mesinha de centro; tio Vlter agarrou-a antes que ela
batesse no cho e encarou os Weasley, boquiaberto, incapaz de falar, todos de cabelos ruivos, inclusive Fred e Jorge, gmeos idnticos at a ltima sarda.
        -        Agora melhorou - ofegou o Sr. Weasley, espanando a poeira das longas vestes verdes e endireitando os culos. - Ah... vocs
devem ser a tia e o tio de Harry!
        Alto, magro e meio careca, o bruxo caminhou em direo ao tio Vlter, a mo estendida, mas o homem recuou vrios passos, arrastando tia Petnia. As palavras 
lhe fugiram totalmente. Seu melhor terno estava coberto de p branco, que assentara em seus cabelos e bigodes e dava a impresso de que ele acabara de envelhecer 
trinta anos.
        -        Hum... ah... sinto muito - disse o Sr. Weasley, baixando a mo e olhando por cima do ombro para a lareira destruda. - Foi minha culpa, mas no
me ocorreu que no poderamos sair por aqui. Mandei ligar a sua lareira  rede do
Flu, entende, s por uma tarde, sabe, para podermos apanhar Harry. Rigorosamente
falando, as lareiras dos trouxas no podem ser ligadas, mas tenho um contato til na Comisso de Regulamentao do Flu e ele deu um jeitinho. Mas posso consertar
tudo em um segundo, no se preocupe. Vou acender um fogo para mandar os garotos de volta, depois posso refazer sua lareira antes de desaparatar.
        Harry podia apostar que os Dursley no tinham entendido uma nica palavra. Continuavam a boquiabrir-se para o Sr. Weasley, aparvalhados. Tia Petnia levantou-se
com dificuldade e se escondeu atrs do marido.
        -        Ol, Harry! - cumprimentou o Sr. Weasley animado. - A mala est pronta?
        -        Est l em cima - respondeu o garoto, retribuindo o sorriso.
        -        Vamos buscar - disse Fred na mesma hora. Piscando para Harry, ele e Jorge saram da sala. Sabiam onde era o quarto de Harry, porque tinham salvado 
o garoto uma vez no meio da noite. Harry suspeitou que Fred e Jorge estavam querendo dar uma espiada em Duda; tinham ouvido Harry falar muito do primo.
        - Bom - disse o Sr. Weasley, agitando levemente os braos,
enquanto tentava encontrar palavras para quebrar o silncio mais
que desagradvel. - Uma bela... hum... bela casa vocs tm.
#        40
        Como a sala habitualmente impecvel estava agora coberta de poeira e calia, o comentrio no foi muito bem recebido pelos Dursley. O rosto do tio
Vlter
ficou, mais uma vez, prpura, e tia Petnia recomeou a mastigar a lngua. Porm eles pareciam demasiado apavorados para conseguir falar alguma coisa.
        O Sr. Weasley olhou para todos os lados. Adorava tudo que dizia respeito aos trouxas. Harry via que ele estava doido de vontade de examinar a televiso e
o videocassete.
        - Eles funcionam com ecleticidade, no ? - disse mostrando-se bem informado. - Ah, , estou vendo as tomadas. Eu coleciono tomadas - acrescentou para o 
tio
Vlter. - E baterias. Tenho uma enorme coleo de baterias. Minha mulher acha que eu sou maluco, mas o que fazer?
        Era visvel que tio Vlter tambm o achava maluco. Ele avanou um tantinho para a direita, escondendo tia Petnia, como se
achasse que o bruxo poderia de repente avanar e atac-los.
        Duda, de repente, reapareceu na sala. Harry ouviu o rudo metlico do malo descendo pelas escadas, e concluiu que o barulho havia afugentado Duda da cozinha.
O garoto vinha costeando a parede, olhando para o Sr. Weasley com terror nos olhos e, depois, tentou se esconder atrs da me e do pai. Infelizmente, o corpanzil
do tio Vlter, embora suficiente para esconder a ossuda tia Petnia, no era bastante grande para esconder tambm o filho.
        - Ah, e esse  o seu primo, no , Harry? - perguntou o Sr. Weasley fazendo outra corajosa tentativa de iniciar uma conversa.
         - confirmou Harry -,  o Duda.
        Ele e Rony se entreolharam e desviaram depressa os olhos para longe; a tentao de cair na gargalhada era forte demais. Duda ainda segurava o bumbum como 
se tivesse medo de que ele se soltasse. O Sr. Weasley, porm, parecia sinceramente preocupado com o comportamento estranho do garoto. De fato, pelo tom de voz com 
que falou a seguir, Harry teve a certeza de que o Sr. Weasley achava que Duda era to maluco quanto os Dursley achavam que ele era, s que o Sr. Weasley sentia piedade 
em vez de medo.
        - Est gostando das frias, Duda? - perguntou bondosamente.
        Duda choramingou. Harry viu as mos do primo apertarem
com mais fora o bumbum macio.
        Fred e Jorge voltaram  sala trazendo o malo escolar de Harry.
#41
Eles olharam para os lados ao entrar e viram Duda. Seus rostos se abriram em sorrisos malvados idnticos.
        -. Ah, certo - disse o Sr. Weasley. - Melhor irmos andando, ento.
        Ele arregaou as mangas das vestes e puxou a varinha. Harry
viu os Dursley recuarem contra a parede, como se fossem uma pessoa so.
        - Incndio!- disse o bruxo, apontando a varinha para o buraco na parede.
        As chamas irromperam na mesma hora na lareira, crepitando alegremente como se j estivessem acesas h horas. O Sr. Weasley tirou do bolso um saquinho fechado 
com cordes, desamarrou-o, tirou uma pitada do p e jogou-o nas chamas, que viraram verdeesmeralda e rugiram com mais fora do que antes.
        - Pode ir, Fred - disse o Sr. Weasley.
        - Estou indo - respondeu Fred. - Ah, no... espera a...
        Um saquinho de balas caiu do bolso de Fred e o contedo se espalhou em todas as direes - grandes caramelos em embalagens
muito coloridas.
        Fred saiu catando os caramelos, guardando-os de volta no bolso, depois deu um adeusinho animado aos Dursley, adiantou-se e entrou direto nas chamas, dizendo 
"A Toca!". Tia Petnia soltou uma exclamao trmula. Ouviu-se um barulho de deslocamento de ar e Fred desapareceu.
        - Agora voc, Jorge - disse o Sr. Weasley. - Leve a mala.
        Harry ajudou Jorge a carregar a mala at as chamas da lareira e virou-a de ponta para o gmeo poder segur-la melhor. Depois com um segundo deslocamento 
de ar, Jorge gritara "A Toca!" e desapareceu tambm.
        - Rony, voc  o prximo - disse o Sr. Weasley.
        - At outro dia - disse Rony animado para os Dursley. Deu um grande sorriso para Harry, entrou no fogo e gritou "A Toca!" e
desapareceu.
        Agora s faltavam Harry e o Sr. Weasley.
        - Bom... rchau ento - disse Harry aos Dursley.
        Os tios no disseram uma palavra. Harry adiantou-se para o
        fogo, mas na hora em que pisou na lareira, o Sr. Weasley esticou a
                mo e segurou-o. Encarou os Dursley surpreso.
                  - Harry disse tchau para vocs - falou ele. - Vocs no ouviram?
#        42
        -        No faz mal - murmurou Harry para o Sr. Weasley. -
Francamente, eu no me importo.
        O        Sr. Weasley no tirou a mo do ombro de Harry.
        -        Vocs no vo ver seu sobrinho at o prximo vero - disse ele a tio Vlter, ligeiramente indignado. - Com certeza, vocs vo
se despedir?
        O rosto de tio Vlter se contraiu furiosamente. A idia de aprender a ter considerao com um homem que acabara de explodir
metade da sua sala de estar parecia lhe causar intenso sofrimento.
        Mas o Sr. Weasley ainda empunhava a varinha e o olhar do tio
Vlter correu at ela antes de dizer, muito ressentido:
        -        Ento, tchau.
        -        At outro dia - disse Harry enfiando um p nas chamas que, aos seus sentidos, pareceram um hlito morno. Naquele momento, porm, um horrvel rudo 
de algum se engasgando ocorreu s costas dele e tia Petnia comeou a gritar.
        Harry se virou. Duda no estava mais escondido atrs dos pais. Estava ajoelhado ao lado da mesinha de centro, e tossia e cuspia uma coisa de uns trinta centmetros, 
roxa e viscosa que saa de sua boca. Passado um segundo de aturdimento, Harry se deu conta de que aquela coisa de trinta centmetros era a lngua de Duda - e que 
havia um papel de caramelo, vivamente colorido, cado no cho ao lado dele.
        Tia Petnia atirou-se ao cho ao lado do filho, agarrou a ponta da lngua inchada e tentou arranc-la da boca do garoto; como era de se esperar, Duda berrou 
e cuspiu pior do que antes, tentando resistir  me. Tio Vlter urrava e agitava os braos, e o Sr. Weasley precisou gritar para ser ouvido.
        -        No se preocupem, posso dar um jeito nisso! - gritou ele, avanando para Duda com a varinha estendida, mas tia
Petnia berrou mais do que antes
e se atirou em cima de Duda, protegendo-o do Sr. Weasley.
        -        No, estou falando srio! - disse o Sr. Weasley, desesperado.
-         um processo simples, foi o caramelo, meu filho ....... gosta de pregar peas, mas  apenas um Feitio de Ingurgitamento, pelo menos, acho que , por favor,
posso consertar tudo...
        Mas longe de se tranquilizar, os Dursley foram tomados de um
pnico ainda maior; tia Petnia, soluando histericamente, puxava
a lngua de Duda como se estivesse decidida a arranc-la; o garoto
parecia estar sufocando sob a presso da lngua e da me somadas e tio Vlter, que se descontrolara completamente, agarrou uma estatueta de porcelana de cima do
buf e atirou-a contra o Sr. Weasley, que se abaixou, deixando o enfeite se espatifar na lareira escancarada.
        -        Ora francamente! - exclamou o Sr. Weasley, zangado, brandindo a varinha. - Estou tentando ajudar!
        Urrando feito um hipoptamo ferido, tio Vlter agarrou outro
enfeite.
        -        Harry, v! V logo! - gritou o Sr. Weasley, a varinha apontada para tio Vlter. - Eu resolvo isso!
        Harry no queria perder o espetculo, mas o segundo enfeite atirado pelo tio errou por pouco a sua orelha esquerda e, pensando bem, ele achou prefervel
deixar o Sr. Weasley resolver a situao. Entrou nas chamas, espiando por cima do ombro e disse "A Toca!"; seu ltimo vislumbre da sala de estar foi o Sr. Weasley
arrancando com a varinha um terceiro enfeite da mo do tio, tia Petnia gritando agachada por cima de Duda e a lngua do primo pendurada para fora como uma grande
e viscosa jibia. Mas no momento seguinte, Harry comeou a rodopiar em grande velocidade e a sala de estar dos Dursley desapareceu de vista numa erupo de chamas
verde-esmeralda.
#44


*****


- CAPITULO CINCO -
As "Gemialidades" Weasley


Harry rodopiou cada vez mais veloz, apertando os cotovelos junto ao corpo, lareiras difusas passaram como relmpagos por ele, at que comeou a se sentir nauseado
e fechou os olhos. Depois, ao sentir finalmente que estava desacelerando, esticou as mos para a frente e fez fora para parar em tempo de evitar cair de cara na
lareira da cozinha da casa dos Weasley.
        -        Ele comeu? perguntou Fred excitado, estendendo a mo para ajudar Harry a se levantar.
        -        Comeu - disse Harry se endireitando. - O que era?
        -        Caramelo Incha-Lngua - informou-llhe Fred, animado. - Foi Jorge e eu que inventamos, passamos o vero todo procurando
algum para experimentar...
        A pequena cozinha explodiu de risadas; Harry olhou para os lados e viu que Rony e Jorge estavam sentados  mesa da cozinha com dois rapazes ruivos que ele
nunca vira antes, embora soubesse na hora quem deviam ser: Gui e Carlinhos, os dois irmos Weasley mais velhos.
        Como vai, Harry? - disse o que estava mais prximo, sorrindo para ele e estendendo a mo enorme, que Harry apertou sentindo calos e bolhas sob os dedos.
Tinha que ser Carlinhos, que trabalhava com drages na Romnia. O rapaz tinha o mesmo fsico dos gmeos, mais baixo e mais forte do que Percy e Rony, que eram compridos
e magros. Seu rosto era largo e bem-humorado, castigado pelo sol e to sardento que quase parecia bronzeado; os braos eram musculosos; e em um deles havia uma grande
e reluzente queimadura.
        Gui se levantou, sorrindo, e tambm apertou a mo de Harry. O rapaz foi uma surpresa. Harry sabia que ele trabalhava para o banco dos bruxos, o Gringotes,
e que fora monitor-chefe em Hogwarts, e sempre imaginara que Gui fosse uma verso mais velha de
#45
Percy; preocupado com as infraes dos regulamentos e chegado a mandar em todo mundo. No entanto, Gui era - no havia outra palavra - descolado. Alto, os cabelos
compridos presos em um rabode-cavalo. Usava um brinco de argola com um berloque pendurado que parecia um dente canino. Suas roupas no estariam deslocadas em um
concerto de rock, exceto pelo detalhe de que as botas no eram feitas de couro de boi, mas de couro de drago.
        Antes que algum pudesse dizer alguma coisa, ouviu-se um
leve estalo e o Sr. Weasley apareceu de repente junto ao ombro de
Jorge. Parecia mais zangado do que Harry jamais o vira.
        -        No teve graa alguma, Fred! - gritou ele. - Que diabo foi que voc deu quele garoto trouxa?
        -        Eu no dei nada a ele - disse Fred, com outro sorriso malvado. - S deixei cair um caramelo... foi culpa dele se o apanhou e
comeu, no o mandei fazer isso.
        -        Voc deixou cair de propsito! - berrou o Sr. Weasley. - Sabia que ele ia comer, sabia que ele estava fazendo regime...
        -        De que tamanho ficou a lngua dele? - perguntou Jorge, ansioso.
        -J estava com mais de um metro quando os pais me deixaram encolh-la!
        Harry e os Weasley caram na gargalhada outra vez.
        -        No tem graa!- gritou o Sr. Weasley. - Esse tipo de 
comportamento desestabiliza seriamente as relaes bruxos-trouxas! Passo metade da vida fazendo
campanha contra os maus-tratos aos trouxas e os meus prprios filhos...
        -        No demos o caramelo a ele porque  trouxa! - disse Fred.
        -        No, demos porque ele  um filho-da-me implicante - disse Jorge. - No  verdade, Harry?
        -        , sim, Sr. Weasley - confirmou Harry com sinceridade.
        -        Isto no vem ao caso! - vociferou o Sr. Weasley. - Espere at eu contar  sua mae...
        -        Contar o qu? - perguntou uma voz s costas dele.
        A Sra. Weasley acabara de entrar na cozinha. Era uma mulher
baixa e gorducha, de rosto bondoso, embora, no momento, seus
olhos estivessem apertados numa expresso de desconfiana.
        - Ah, ol, Harry querido - disse ela, sorrindo, ao v-lo. Ento
seus olhos se voltaram para o marido. - Contar o qu, Arthur?
        O        Sr. Weasley hesitou. Harry percebeu que, por mais zangado
#        46
que estivesse com Fred e Jorge, ele no pretendera realmente contar  Sra. Weasley o que tinha acontecido. Fez-se silncio, enquanto o Sr. Weasley encarava a esposa,
nervoso. Ento duas meninas apareceram  porta da cozinha atrs da Sra. Weasley. Uma, de cabelos castanhos muito fofos e os dentes da frente um tanto grandes, era 
a amiga de Harry e Rony, Hermione Granger. A outra, pequena e ruiva, era a irm mais nova de Rony, Gina. As duas sorriram para Harry, que retribuiu o sorriso, fazendo 
Gina ficar escarlate - tinha um xod por Harry desde a primeira visita dele  Toca.
        -        Contar o qu, Arthur? - repetiu a Sra. Weasley, num tom de voz perigoso.
        -        No  nada, Molly - resmungou o marido. - Fred e Jorge... mas eu j tive uma conversa com eles...
        -        Que foi que eles fizeram desta vez? - perguntou a Sra. Weasley. - Se foi alguma coisa relacionada com as "Gemialidades"
Weasley...
        -        Por que voc no mostra ao Harry aonde ele vai dormir, Rony? - sugeriu Hermione da porta.
        -        Ele j sabe aonde vai dormir - respondeu Rony. - No meu quarto, foi L que dormiu da ltima...
        -        Ento todos podemos ir - disse Hermione, sublinhando as palavras.
        -        Ah - fez Rony, entendendo. - Certo.
        -        , ns tambm vamos - disse Jorge.
        -        Vocs ficam onde esto!- vociferou a Sra. Weasley.
        Harry e Rony saram de fininho da cozinha e seguiram com as meninas pelo corredor estreito, subiram a escada desconjuntada e
saram ziguezagueando pela casa at os ltimos andares.
        -        Que so "Gemialidades" Weasley? - perguntou Harry quando subiam.
        Rony e Gina riram, embora Hermione continuasse seria.
        -        Mame encontrou uma pilha de formulrios de pedidos quando estava limpando o quarto de Fred e Jorge - disse Rony em voz baixa. - Listas enormes 
de preos de coisas que eles inventaram. Artigos para logros e brincadeiras, sabe. Varinhas de imitao, doces-surpresa, um monte de coisas. Genial. Eu no sabia 
que eles estavam inventando tanta coisa...
        -        H muito tempo que ouvamos exploses no quarto deles,
#47
mas nunca pensamos que estavam fabricando coisas - explicou Gina -, achamos que era s vontade de fazer barulho.
        -        S que, a maior parte das coisas, bom, na realidade, tudo... era meio perigoso - disse Rony - e, sabe, eles estavam planejando vender os artigos
em Hogwarts para ganhar dinheiro, e mame ficou uma fera. Disse que eles estavam proibidos de fabricar aquelas coisas e queimou todos os formulrios... j estava
furiosa mesmo porque eles no conseguiram tantos N.O.M"s quanto ela esperava.
        Os N.O.M"s eram Nveis Ordinrios de Magia, os exames que
os alunos de Hogwarts faziam aos quinze anos.
        -        Depois houve uma briga danada - disse Gina -, porque mame queria que eles entrassem
para o Ministrio da Magia como papai, e os dois responderam
que o que eles querem  abrir uma loja de logros e brincadeiras.
        Nessa hora, uma porta se abriu no segundo patamar e um
rosto com culos de aros de tartaruga e expresso mal-humorada
espiou pra fora.
        -        Oi, Percy - cumprimentou Harry.
        -        Ah, ol, Harry. Eu estava imaginando quem  que estava fazendo essa barulheira. Estou tentando trabalhar aqui dentro, sabe, tenho um relatrio do
escritrio para terminar, e  difcil me concentrar se as pessoas no param de subir e descer fazendo as escadas reboarem.
        -        No estamos fazendo as escadas reboarem - retrucou Rony irritado. - Estamos andando. Desculpe se perturbamos o trabalho
secreto do Ministrio da Magia.
        -        No que  que voc est trabalhando? - perguntou Harry.
#        48
        -        Sei, sei, tudo bem - interrompeu-o Rony e recomeou a subir as escadas. Percy bateu a porta do quarto. Quando Harry, Hermione e Gina iam comear
a acompanhar Rony na subida de mais trs lances de escada, ouviram os ecos dos gritos na cozinha. Pelo jeito o Sr. Weasley contara  Sra. Weasley sobre os caramelos.
        O        quarto em que Rony dormia, no ltimo andar da casa, conservava a mesma aparncia da ltima vez que Harry viera passar dias com o amigo; os mesmos 
psteres do time favorito de quadriboI de Rony, os Chudley Cannons, em que os jogadores acenavam das paredes e do teto inclinado, o aqurio no peitoril da janela 
que anteriormente abrigara ovas de r agora continha um enorme sapo. O velho rato de Rony, Perebas, no morava mais ali, em seu lugar havia a coruja minscula que 
entregara a carta de Rony na rua dos Alfeneiros. Saltitava numa gaiolinha, piando feito louca.
        -        Cala a boca, Pchi - disse Rony, manobrando para passar entre duas das quatro camas que haviam sido espremidas no quarto.
- Fred e Jorge esto aqui conosco, porque Gui e Carlinhos ficaram com o quarto dos dois - disse Rony a Harry. - Percy conseguiu ficar com o quarto s para ele porque 
tem que trabalhar.
        -        Hum... por que  que voc chama essa coruja de Pchi? - perguntou Harry a Rony.
        - Porque Rony est sendo idiota - disse Gina. - O nome todo  Pichirinho.
        -        , e isso no  um nome nem um pouco idiota - comentou Rony sarcastcamente. - Foi Gina que o batizou - explicou a Harry. - Ela acha que  um nome 
bonitinho. Tentei mudar, mas j era tarde demais, ele no responde a nenhum outro. Ento ficou Pchi. Tenho que trancar ele aqui porque vive chateando o Errol e 
o Hermes. Pensando bem, chateia a mim tambm.
        Pichitinho voava alegremente pela gaiola, piando em tom agudo. Harry conhecia Rony muito bem para lev-lo a srio. Tinha reclamado o tempo todo do seu velho 
rato Perebas, mas ficara aborrecidssimo quando pareceu que o gato de Hermione, Bichento, o comera.
        -        Por onde anda o Bichento? - perguntou Harry a Hermione nessa hora.
        -        No jardim, espero. Ele gosta de caar gnomos, nunca tinha visto nenhum.
        -        Ento o Percy est gostando do trabalho? - perguntou Harry
        - Sei, sei, tudo bem - interrompeu-o Rony e recomeou a subir as escadas. Percy bateu a porta do quarto. Quando Harry, Hermione e Gina iam comear a acompanhar
Rony na subida de mais trs lances de escada, ouviram os ecos dos gritos na cozinha. Pelo jeito o Sr. Weasley contara  Sra. WeasLey sobre os caramelos.
        O quarto em que Rony dormia, no ltimo andar da casa, conservava a mesma apar&ncia da ltima vez que Harry viera passar dias com o amigo; os mesmos psteres
do time favorito de quadriboi de Rony, os Chudley Cannons, em que os jogadores acenavam das paredes e do teto inclinado, o aqurio no peitoril da janela que anteriormente
abrigara ovas de r agora continha um enorme sapo. O velho rato de Rony, Perebas, no morava mais ali, em seu lugar havia a coruja minscula que entregara a carta
de Rony na rua dos Alfeneiros. Sahitava numa gaiolinha, piando Feito louca.
        - Cala a boca, Pchi - disse Rony, manobrando para passar entre duas das quatro camas que haviam sido espremidas no quarto.
- Fred e Jorge eso aqui conosco, porque Gui e Carlinhos ficaram com o quarto dos dois - disse Rony a Harry. Percy conseguiu ficar com o quarto s para ele porque
tem que trabalhar.
        - Hum... por que  que voc chama essa coruja de Pchi? - perguntou Harry a Rony.
        - Porque Rony est sendo idiota - disse Gina. - O nome todo  Pichitinho.
        - e isso no  um nome nem um pouco idiota - comentou Rony sarcasticamente. - Foi Gina que o batizou - explicou a Harry. - Ela acha que  um nome bonitinho. 
Tentei mudar, mas j era tarde demais, ele no responde a nenhum outro. Ento ficou Pchi. Tenho que trancar ele aqui porque vive chateando o Errol e o Hermes. Pensando 
bem, chateja a mim tambm.
        Pichitinho voava alegremente pela gaiola, piando em tom agudo. Harry conhecia Rony muito bem para lev-lo a s&io. Tinha reclamado o tempo todo do seu velho 
rato Perebas, mas ficara aborrecidssimo quando pareceu que o gato de Hermione, Bichento, o comera.
        - Por onde anda o Bichento? - perguntou Harry a Hermione nessa hora.
        - No jardim, espero. Ele gosta de caar gnomos, nunca tinha visto nenhum.
        - Ento o Percy est gostando do trabalho? - perguntou Harry
#49
se sentando em uma das camas e se pondo a observar os Chudley
                Cannons entrando e saindo velozes dos psteres no teto.
                  - Gostando? - disse Rony misterioso. - Acho que nem voltaria para casa se papai no obrigasse. Est obcecado.
- nem puxe
                conversa sobre o chefe dele. O Sr. Crouch diz... como eu ia dizendo
                ao Sr. Crouch... O Sr. Crouch  de opinio... O Sr. Crouch esteve me
                dizendo... Qualquer dia desses vo anunciar o noivado dos dois.
                  - Como foi o seu vero, Harry, bom? - perguntou Hermione.
                - Recebeu os pacotes de comida que mandamos e tudo o mais?
                  - Recebi, muito obrigado. Salvaram minha vida, aqueles bolos.
                  - E voc teve notcias de...? - Rony comeou, mas a um olhar
                de Hermione calou a boca. Harry sabia que Rony ia perguntar por
                Sirius. Rony e Hermione tinham participado to intensamente da
                fuga de Sirius do Ministrio da Magia que estavam quase to 
preocupados com o padrinho de Harry quanto o garoto. Porm, falar
                dele na frente de Gina no era uma boa idia. Ningum a no ser
                eles e o Prof. Dumbledore sabiam como o padrinho de Harry havia
                fugido ou acreditavam em sua inocncia.
                  - Acho que eles pararam de discutir - disse Hermione, para 
disfarar o momento de constrangimento, porque Gina olhava com
                curiosidade de Rony para Harry. - Vamos descer e ajudar sua me
                com o jantar?
                  - Tudo bem - disse Rony. Os quatro tornaram a descer e encontraram
a Sra. Weasley sozinha na cozinha, parecendo extremamente mal-humorada.
                  - Vamos comer no jardim - disse ela quando os garotos 
entraram. - No h lugar para onze pessoas aqui dentro. Podem levar os
                pratos para fora, meninas? Gui e Carlinhos esto armando as 
mesas. Facas e garfos, por favor, vocs dois - disse ela a Rony e Harry,
                e apontou a varinha com um pouco mais de fora do que 
pretendera para um monte de batatas na pia, que saram da casca demasiado 
depressa e acabaram ricocheteando nas paredes e nos tetos.
                   "Ah, pelo amor de Deus!", exclamou ela, agora apontando a
                varinha para uma p, que saltou de lado e comeou a patinar pelo
        piso, recolhendo as batatas. "Aqueles dois!", explodiu ela furiosa,
                agora tirando tachos e panelas de um armrio, e Harry entendeu
                que ela estava se referindo a Fred e Jorge. "No sei o que vai ser
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deles, realmente no sei. No tm ambio, a no ser que se leve em conta toda confuso que so capazes de aprontar..."
        Ela bateu com uma grande caarola de cobre na mesa da cozinha e comeou a agitar a mo para os lados. Um molho cremoso
foi escorrendo da ponta da varinha  medida que ela mexia.
        - No  que no tenham inteligncia - continuou ela irritada, levando a caarola para o fogo e acendendo-o com um toque da varinha -, mas esto desperdiando 
a que tm e, a no ser que tomem jeito depressa, vo se meter em apuros. J recebi mais corujas de Hogwarts a respeito dos dois do que de todos os outros juntos. 
Se continuarem assim, vo terminar tendo que comparecer a Seo de Controle do Uso Indevido da Magia.
        A Sra. Weasley apontou a varinha para a gaveta de talheres, que se abriu com violncia. Harry e Rony saltaram para o lado ao ver vrias facas sarem voando, 
atravessarem a cozinha e comearem a cortar as batatas que tinham acabado de ser devolvidas  pia pela p.
        - No sei onde foi que erramos com os gmeos - disse a Sra. Weasley descansando a varinha e recomeando a tirar mais
caarolas do armrio. - Tem sido sempre
assim h anos, uma coisa atras da outra, e eles no do ouvidos... AH, OUTRA VEZ, NO!
        Ela apanhara a varinha da mesa, e a coisa emitira um guincho
alto e se transformara em um enorme camundongo de borracha.
        - Mais uma varinha falsa fabricada por eles! - gritou ela. - Quantas vezes j disse aos dois para no deixarem essas coisas largadas por a?
        Ela agarrou a prpria varinha, e quando se virou descobriu que
o        molho no fogo estava soltando fumaa.
        - Vamos - disse Rony depressa a Harry, enfiando a mo na gaveta e tirando uma mo cheia de talheres -, vamos ajudar o Gui
e o Carlinhos.
        Eles deixaram a Sra. WeasLey e saram pela porta dos fundos
em direo ao quintal.
        Tinham dado apenas alguns passos quando o gato de Hermione, de
plo amarelo e pernas arqueadas, saiu saltando do jardim, o rabo de escova de limpar garrafas
esticado no ar, caando alguma oisa que parecia uma batata com pernas, suja de terra. Harry
reconheceu-a instantaneamente, era um gnomo. Ml chegava aos
vinte  e cinco centmetros de altura, os pezinhos cascudos batendo
clere  no cho ao atravessar o quintal e mergulhar de cabea em
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uma das botas espalhadas  porta da casa. Harry ouviu o gnomo se acabar de rir quando Bichento enfiou a pata na bota, tentando alcan-lo. Entrementes, ouvia-se
um estrpito de coisas que batiam do outro lado da casa. A origem do barulho surgiu quando eles entraram no jardim e viram Gui e Carlinhos, de varinhas em punho,
fazendo duas mesas velhas voarem alto pelo gramado e colidirem, cada qual tentando derrubar a outra no cho. Fred e Jorge aplaudiam; Gina ria e Hermione estava parada
junto  sebe, pelo jeito dividida entre o riso e a aflio.
        A mesa de Gui bateu na de Carlinhos com estrondo e perdeu uma das pernas. Eles ouviram um barulho no alto, todos ergueram os olhos e viram a cabea de Percy
aparecer  janela do segundo andar.
        -        D para vocs maneirarem? - berrou ele.
        -        Desculpe, Percy - disse Gui rindo. - Como  que vo os fundos dos caldeires?
        -        Muito mal - disse Percy irritado e tornou a fechar a janela com uma pancada. Rindo, Gui e Carlinhos devolveram as mesas em segurana ao cho, juntaram-nas
pelas extremidades e, ento, com um golpe de varinha, Gui colou de volta a perna da mesa e conjurou toalhas do nada.
        s sete horas, as duas mesas rangiam sob o peso de travessas e mais travessas da excelente comida da Sra. Weasley, e os nove Weasley, Harry e Hermione se
sentaram para jantar sob um cu azul-escuro e limpo. Para algum que andara sobrevivendo com refeies de bolos cada vez mais secos o vero inteiro, aquilo era o
paraso e, no primeiro momento, Harry escutou mais do que falou, se servindo de empado de galinha e presunto, batatas cozidas e salada.
        Na ponta da mesa, Percy contava ao pai todos os detalhes do
seu relatrio sobre os fundos dos caldeires.
        -        Eu prometi ao Sr. Crouch que aprontaria o relatrio at tera-feira - dizia Percy pomposo. -  um pouco mais cedo do que ele pediu, mas gosto de 
estar um passo  frente. Acho que ele ficar agradecido por eu ter terminado em menos tempo. Quero dizer, h muito trabalho em nosso departamento neste momento, 
com
        todas as providncias para a Copa Mundial. No estamos recebendo a 
colaborao necessria do Departamento de Jogos e Esportes Mgicos. Ludo Bagman...
#        52
        Eu gosto do Ludo disse o Sr. Weasley em tom ameno. - Foi ele que
nos arranjou aqueles excelentes lugares para a Copa. Fiz um favorzinho a
ele: o irmo, Otto, se meteu em uma pequena confuso, um cortador de
grama com poderes fora do comum, eu acertei o problema.
        - Ah, Bagman  uma pessoa agradvel,  claro - disse Percy
fugindo  questo -, mas como conseguiu ser chefe do departamento...
quando o comparo ao Sr. Crouch! No posso imaginar o Sr. Crouch perdendo
um funcionrio do departamento sem tentar desc a Berta Jorkins est
desaparecida h mais de um ms? Saiu de frias para a Albnia e nunca
mais voltou?
        - Verdade, indaguei ao Ludo sobre isso - respondeu o Sr. Weasley
enrugando a testa. - Ele me disse que Berta j se perdeu uma poro de
vezes antes, embora eu deva dizer que se fosse algum no meu
departamento eu ficaria preocupado...
        - Ah, a Berta no toma jeito,  verdade - falou Percy. - Ouvi
dizer que ela  empurrada de departamento para departamento h anos, d
mais trabalho do que trabalha... mas, mesmo assim, Bagman devia estar
tentando encontr-la. O Sr. Crouch tem se i uma poca, sabe, e acho que
o Sr. Crouch gostava bastante dela, mas Bagman fica rindo e dizendo que
ela provavelmente leu mal o mapa e em vez da Austrlia acabou na
Albnia. Contudo - Percy deixou escapar um imponente suspiro, e tomou um
bom gole do vinho de flor de sabugueiro -, j temos muito com o que nos
preocupar no Departamento de Cooperao Internacional em Magia sem ficar
tentando achar funcionrios de outros departamentos. Como o senhor sabe,
j temos outro grande evento para organizar logo depois da Copa.
        Ele pigarreou cheio de importncia e olhou para a ponta da mesa
em que Harry, Rony e Hermione estavam sentados.
        - O senhor sabe do que estou falando, papai. - E alteou
ligeiramente a voz. - O evento secreto.
        Rony girou os olhos para o alto, e murmurou para Harry e
Hermione:
        - Ele est tentando fazer a gente perguntar que evento  esse
desde que comeou a trabalhar. Provavelmente uma exposio de caldeires
com fundo grosso. 
# 53
No centro da mesa, a Sra. Weasley discutia com Gui por causa
                do brinco, que aparentemente era uma aquisio recente.
                  - ... com um canino horroroso penduradop francamente Gui,
                que  que eles dizem l no banco?
                  - Mame, ningum l no banco liga a mnima para a roupa
                que eu uso desde que eu traga muito ouro para eles - disse Gui
                pacientemente.
                  - E seus cabelos esto sem corte, querido - disse a Sra. Weas-
                ley passando os dedos, carinhosamente, pelos cabelos do filho. -
                Gostaria que voc me deixasse aparar...
                  - Eu gosto deles assim - disse Gina, que estava sentada ao lado
                de Gui. - Voc  to antiquada, mame. Mesmo desse tamanho,
                eles no chegam nem perto do comprimento dos cabelos do Prof.
                Dumbledore...
                   Ao lado da Sra. Weasley, Fred, Jorge e Carlinhos discutiam 
animadamente a Copa Mundial.
                  - Vai ser da Irlanda - disse Carlinhos com a voz engrolada por
                causa das batatas que lhe enchiam a boca. - Eles acabaram com o
                Peru nas semifinais.
                  - Mas a Bulgria tem o Vtor Krum - comentou Fred.
                  - O Krum  apenas um jogador decente, a Irlanda tem sete -
                cortou Carlinhos. - Mas eu gostaria que a Inglaterra tivesse 
passado para as finais. Foi um vexame, ah, foi.
                  - Que aconteceu? - perguntou Harry pressuroso, lamentando
                mais do que nunca o seu alheamento do mundo mgico quando
                ficava atolado na rua dos Alfeneiros. Harry era apaixonado por
                quadribol. Jogava como apanhador no time da Grifinria desde o
                primeiro ano em Hogwarts e era dono de uma Firebolt, uma das
                melhores vassouras de corrida do mundo.
                  - Perdeu para a Transilvnia, por trezentos e noventa a dez - 
disse Carlinhos sombriamente. - Um desempenho sinistro. E Gales
                perdeu para Uganda, e a Esccia foi massacrada por Luxemburgo.
                   O Sr. Weasley conjurou velas para clarear o jardim antes de 
comerem a sobremesa (sorvete de morangos feito em casa), e na altura
                em que o jantar terminou, as mariposas voavam baixo sobre a mesa
                e o ar morno estava perfumado com o aroma de relva e madressilvas.
                Harry se sentia muitssimo bem alimentado e em paz com o mundo,
                e observava vrios gnomos saltarem por dentro das roseiras, rindo
                desbragadamente, perseguidos de perto por Bichento.
#54

        Rony correu os olhos, cauteloso, pela mesa, verificando se o resto da famlia estava entretida conversando, depois perguntou
baixinho a Harry:
        -        Ento... tem tido notcias de Sirius ultimamente?
        Hermione olhou para os lados, apurando os ouvidos.
        -        Tenho - disse Harry baixinho -, duas vezes. D a impresso de que est bem. Escrevi para ele anteontem. Talvez receba resposta enquanto estou aqui.
        De repente ele se lembrou do motivo por que escrevera a Sirius e, por um instante, esteve prestes a contar aos dois amigos que a cicatriz voltara a doer
e que um sonho o acordara... mas na realidade no queria preocup-los naquele momento, no quando ele prprio estava se sentindo to feliz e tranquilo.
        -        Gente, olhe as horas! - exclamou subiramente a Sra. Weasley, consultando o relgio de pulso. - Vocs deviam estar na cama, todos vocs, vo ter 
que acordar quase de madrugada para ir  Copa. Harry, se voc deixar a sua lista de material escolar, eu compro tudo para voc amanh, no Beco Diagonal. Vou comprar 
o dos meus meninos. Talvez no haja tempo depois da Copa Mundial, da ltima vez o jogo durou cinco dias.
        -        Uu... espero que acontea o mesmo desta vez! - exclamou Harry entusiasmado.
        -        Eu espero que no - disse Percy, virtuosamente. - Estremeo s de pensar no estado da minha caixa de entrada se eu me ausentar cinco dias do trabalho.
        -        1, algum poderia deixar bosta de drago nela outra vez, hein, Percy? - comentou Fred.
        -        Aquilo foi uma amostra de fertilizante da Noruega! - protestou Percy, corando. - No foi nada pessoal!
        -        Foi - cochichou Fred para Harry, quando eles se levantavam da mesa. - Fomos ns que mandamos.
#55

***** 


CAPITULO SEIS
A Chave do Portal


Harry teve a sensao de que acabara de se deitar para dormir no
quarto de Rony quando foi acordado pela Sra. Weasley.
        -        Hora de levantar, Harry, querido - sussurrou ela, se afastando para acordar Rony.
        Harry tateou  procura dos culos, colocou-os e se sentou. Ainda estava escuro l fora. Rony resmungou alguma coisa quando a me o acordou. Aos ps do seu
colcho, Harry viu duas formas grandes e desgrenhadas emergindo de um emaranhado de cobertas.
        -        J est na hora? - exclamou Fred tonto de sono.
        Os garotos se vestiram em silncio, demasiados sonolentos
para falar, depois, bocejando e se espreguiando, os quatro desceram as escadas rumo  cozinha.
        A Sra. Weasley estava mexendo o contedo de um grande tacho em cima do fogo, enquanto o Sr. Weasley, sentado  mesa, verificava um mao de grandes bilhetes
de entrada em pergaminho. Ergueu os olhos quando os garotos chegaram e abriu os braos para eles poderem ver melhor suas roupas. Vestia algo que parecia uma suter
de golfe e jeans muito velhas, ligeiramente grandes para ele, seguras por um grosso cinto de couro.
        -        Que  que vocs acham? - perguntou ansioso. - Temos que ir incgnitos: estou parecendo um trouxa, Harry?
        -        Est - aprovou Harry sorrindo - muito bom.
        -        Onde esto Gui, Carlinhos e Per-Per-Percy? - perguntou Jorge, incapaz de reprimir um enorme bocejo.
        -        Ora, eles vo aparatar, certo? - disse a Sra. Weasley,
carregando  um panelo para cima da mesa e comeando a servir o mingau
de aveia nos pratos fundos. - Logo, eles podem dormir mais um
        pouco.
                   Harry sabia que aparatar era muito difcil; significava 
desaparecer de um lugar e reaparecer quase instantaneamente em outro.
#        56
        -        Ento eles ainda esto na cama? - concluiu Fred mal-humorado, puxando um prato de mingau para perto. - Por que no podemos aparatar tambm?
        -        Porque ainda so menores e ainda no prestaram o exame - respondeu a Sra. Weasley. - E onde foi que se meteram essas meninas?
        Ela saiu apressada da cozinha e todos a ouviram subir as escadas.
        -        A pessoa tem que prestar um exame para poder aparatar? - perguntou Harry.
        -        Ah, tem - respondeu o Sr. Weasley, guardando as entradas cuidadosamente no bolso traseiro da jeans. - O Departamento de Transportes Mgicos teve
que multar umas pessoas, ainda outro dia, por aparatarem sem licena. No  fcil aparatar e quando no se faz corretamente pode acarretar complicaes desagradveis.
Esses dois de que estou falando se racharam ao meio.
        Todos ao redor da mesa fizeram uma careta, menos Harry.
        -        Hum... racharam? - admirou-se Harry.
        -        Deixaram metade do corpo para trs - explicou o Sr. Weasley, agora acrescentando vrias colheradas de caramelo ao mingau.
-        E,  claro, ficaram entalados. No conseguiram avanar nem retroceder. Tiveram que esperar pelo Esquadro de Reverso de Feitios Acidentais para resolver
o problema. E vou dizer mais, foi preciso preencher uma enorme papelada, por causa dos trouxas que encontraram as partes do corpo que eles deixaram para tras...
        Harry teve uma sbita viso de um par de pernas e um olho
abandonados na calada da rua dos Alfeneiros.
        -        E eles ficaram O.K.? - perguntou o garoto, assustado.
        -        Ah, claro - respondeu o Sr. Weasley factualmente. - Mas receberam uma multa pesada e acho que no vo tentar fazer isso outra vez quando estiverem
com pressa. No se brinca com aparatao. H muitos bruxos adultos que nem experimentam. Preferem vassouras, mais lentas, porm mais seguras.
        -        Mas Gui, Carlinhos e Percy, todos sabem aparatar?
        -        Carlinhos teve que prestar exame duas vezes - disse Fred sorrindo. - Levou bomba na primeira vez, aparatou a oitenta quilmetros do ponto que queria, 
bem em cima de uma pobre velhinha que estava fazendo compras, lembram?
        -        Foi, mas ele passou da segunda vez - disse a Sra. Weasley, voltando  cozinha em meio a gostosas risadas.
        -        Percy s passou h duas semanas - disse Jorge. - Desde esse
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dia tem aparatado todas as manhs aqui em baixo, para provar
                que sabe.
                   Ouviram-se passos no corredor, e Hermione e Gina entraram
                na cozinha, as duas plidas e cheias de preguia.
                     Por que temos que levantar to cedo? - perguntou Gina,
                esfregando os olhos e se sentando a mesa.
                  - Temos que andar um bom pedao - respondeu o Sr. Weasley.
                  - Andar? - espantou-se Harry. - O qu, vamos a p para a 
Copa Mundial?
                  - No, no, a Copa vai ser a quilmetros daqui - disse o Sr.
                Weasley, sorrindo. - S precisamos andar um pedacinho.  que 
                muito difcil um grande nmero de bruxos se reunir sem chamar a
                ateno dos trouxas. Temos que tomar muito cuidado com o modo
                de viajar at em tempos normais e numa ocasio grandiosa como a
                Copa Mundial de Quadribol...
                  - Jorge! - chamou a Sra. Weasley rispidamente e todos se
                assustaram.
                  - Qu? - perguntou Jorge, num tom de inocncia que no
                enganou ningum.
                  - Que  isso no seu bolso?
                  - Nada!
                  - No minta para mim!
                   A Sra. Weasley apontou a varinha para o bolso de Jorge e disse:
                  -Accio!
                   Vrios objetos pequenos e vivamente coloridos dispararam
                para fora do bolso de Jorge; o garoto tentou segur-los, mas no
                conseguiu, e eles foram parar direto na mo estendida da Sra.
                Weasley.
                  - Mandamos vocs destrurem isso! - disse ela furiosa
mostrando indiscutveis Caramelos Incha-Lngua. - Mandamos vocs
                se desfazerem de todos. Esvaziem os bolsos, vamos, os dois!
                   Foi uma cena desagradvel; os gmeos evidentemente tinham
                tentado contrabandear o maior nmero possvel de caramelos para
                fora da casa e somente usando um Feitio Convocatrio a Sra.
                Weasley conseguiu encontrar todos.
                  - Accio! Accio! Accio! - gritava ela e os caramelos voavam dos
        Lugares mais improvveis, inclusive do forro da jaqueta de Jorge e
                das barras da jeans de Fred.
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        -        Gastamos seis meses para inventar esses caramelos - gritou Fred para a me, quando ela os jogou no lixo.
        -        Que bela maneira de gastar seis meses! - guinchou a me. - No admira que no tivessem obtido mais N.O.M"s!
        No todo, o clima no estava muito simptico quando eles partiram. A Sra. Weasley continuava enfurecida quando beijou o rosto do marido, mas no tanto quanto 
os gmeos, que tinham posto as mochilas s costas e sado sem dizer uma palavra  me.
        -        Bom, divirtam-se - desejou a Sra. Weasley - e se comportem
-        gritou para os gmeos que se afastavam, mas eles no se viraram nem responderam. - Vou mandar Gui, Carlinhos e Percy por volta do meio-dia - avisou a Sra.
Weasley ao marido quando ele, Harry, Rony, Hermione e Gina comearam a atravessar o gramado escuro atrs de Fred e Jorge.
        Fazia frio e a lua ainda estava no cu. Apenas um esverdeadoclaro no horizonte,  direita deles, denunciava que em breve amanheceria. Harry, que andara pensando 
nos milhares de bruxos que rumavam apressados para a Copa Mundial de Quadribol, acelerou o passo para caminhar com o Sr. Weasley.
        -        Ento como  que todo o mundo chega l sem os trouxas repararem? - perguntou ele.
        -        Foi um enorme problema de organizao - suspirou o Sr. Weasley. - O caso  que vm uns cem mil bruxos para a Copa Mundial e,  claro, no temos 
nenhum local mgico grande bastante para acomodar todos. H lugares em que os trouxas no conseguem penetrar, mas imagine tentar acomodar cem mil bruxos no Beco 
Diagonal ou na plataforma nove e meia. Ento tivemos que encontrar uma charneca deserta que servisse e instalar o mximo de precaues antitrouxas possvel. O ministrio 
inteiro vem trabalhando nisso h meses. Primeiro,  claro, tivemos que escalonar as chegadas. Quem comprou entradas mais baratas teve que chegar duas semanas antes. 
Um nmero limitado tem usado os transportes dos trouxas, mas no podemos ter gente demais entupindo os nibus e tens deles, lembre que temos bruxos chegando de todo 
o mundo. Alguns aparatam, naturalmente, mas temos que escolher pontos seguros para eles aparecerem, bem longe dos trouxas. Acho
que h uma floresta prxima que eles esto usando para aparatar. p Para os que no querem aparatar, ou no podem, usamos os portais. So objetos para o transporte 
de bruxos de um lugar para
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outro em horas certas. Pode-se atender a grandes grupos de cada vez se for preciso. Foram instalados duzentos portais em pontos estratgicos da Gr-Bretanha, e o
mais prximo da nossa casa  no alto do morro Stoarshead, por isso  que estamos indo para l.
        O        Sr. Weasley apontou para uma grande massa escura que se erguia  frente, para alm do povoado de Ottery St. Catchpole.
        -        Que tipo de objetos so esses portais? - perguntou Harry curioso.
        -        Podem ser qualquer coisa - respondeu o Sr. Weasley. - Coisas discretas, obviamente, para os trouxas no as pegarem e satem brincando com elas... 
coisas que eles simplesmente considetem lixo...
        O        grupo caminhava pela vereda escura e mida que levava ao povoado, o silncio quebrado apenas pelo eco de seus passos. O cu foi clareando muito 
devagarinho quando eles atravessaram o povoado, o azul-tinta se dissolvendo em azul-escuro. As mos e os ps de Harry estavam congelados. O Sr. Weasley no parava 
de consultar o relgio.
        Eles j estavam sem flego para conversar quando comearam
a subir o morro Stoatshead, tropeavam ocasionalmente em tocas
de coelho escondidas, escorregavam em grossos tufos de grama
escura. Cada vez que Harry inspirava sentia o peito arder e suas pernas j comeavam a se recusar a andar quando finalmente seus ps pisaram em terreno nivelado.
        -        Ufa! - ofegou o Sr. Weasley, tirando os culos e secando-os na suter. - Bom, fizemos um bom tempo, ainda temos dez minutos...
        Hermione foi a ltima a aparecer na crista do morro, apertando uma cibra do lado do corpo.
        -        Agora s precisamos da Chave do Portal - disse o Sr. Weasley repondo os culos e apurando a vista para esquadrinhar o terreno.
- No deve ser grande... vamos...
        Eles se espalharam para procur-la. E estavam nisso havia poucos minutos, quando um grito cortou o ar parado.
        -        Aqui, Arthur! Aqui, filho, achamos!
        Dois vultos altos surgiram recortados contra o cu estrelado,
        do outro lado do cume do morro.
                  - Vamos! - exclamou o Sr. Weasley, encaminhando-se sorridente para o homem que gritara. Os garotos o acompanharam.
#        60
        O        Sr. Weasley apertou as mos de um bruxo de rosto corado, com uma barba castanha e curta, que segurava em uma das mos
uma bota velha de aparncia mofada.
        -        Este  Amos Diggory, pessoal - apresentou-o o Sr. Weasley.
- Trabalha no Departamento para Regulamentao e Controle das Criaturas Mgicas. E acho que vocs conhecem o filho dele, Cedrico?
Cedrico Diggory era um rapaz muito bonito de uns dezessete
anos. Era capito e apanhador do time de quadribol da Lufa-Lufa,
em Hogwarts.
Oi - disse Cedrico olhando para os garotos.
Todos retribuiram o "Oi", exceto Fred e Jorge, que apenas acenaram com a cabea. 
Eles nunca haviam perdoado Cedrico por derrotar o time da Grifinria, no primeiro
jogo de quadribol do ano anterior.
        -        Uma longa caminhada, Arthur? - perguntou o pai de Cedrico.
        -        No foi to ruim assim - respondeu o Sr. Weasley. - Moramos logo ali do outro lado do povoado. E voc?
        -        Tivemos que nos levantar s duas, no foi, Ced? Confesso que vou ficar satisfeito quando ele passar no exame de aparatao. Mas... no estou me
queixando... a Copa Mundial de Quadribol, eu no a perderia nem por um saco de galees, e  mais ou menos quanto custam as entradas. Mas, pelo visto, parece que 
me saiu barato... - Amos Diggory mirou bem-humorado os trs garotos Weasley, Harry, Hermione e Gina. - So todos seus, Arthur?
        -        Ah, no, s os ruivos - esclareceu o Sr. Weasley apontando os filhos. - Esta  Hermione, amiga de Rony, e Harry, outro
amigo...
        -        Pelas barbas de Merlim! - exclamou Amos Diggory arregalando os olhos. - Harry? Harry Potter?
        -        Hum...  - respondeu o garoto.
Harry estava habituado s pessoas o olharem curiosas quando
o conheciam, habituado  corrida instantnea do olhar delas  cicatrz em forma de raio em sua
testa, mas isto sempre o constrangia.
- Ced nos falou de voc, naturalmente - disse Amos Diggory.
- Nos contou tudo sobre a partida que jogaram com vocs no ano 
passado... Eu disse a ele: Ced, isto vai ser uma histria para contar
aos seus netos, ah, vai... voc derrotou Harry Potter!
#61
        Harry no conseguiu pensar em nenhuma resposta a esse comentrio, por isso ficou calado. Fred e Jorge amarraram a cara
        outra vez. Cedrico pareceu ligeiramente encabulado.
        -        Harry caiu da vassoura, papai - murmurou ele. - Contei a voc... foi um acidente...
        - , mas voc no caiu, no  mesmo? - rugiu Amos jovialmente, dando uma palmada nas costas do filho. - Sempre modesto, o nosso Ced, sempre cavalheiro...
mas venceu o melhor, tenho certeza de que Harry diria o mesmo, no ? Um cai da vassoura, um continua montado, no  preciso ser gnio para saber quem voa melhor!
        -        Deve estar quase na hora - disse o Sr. Weasley depressa, puxando o relgio do bolso mais uma vez. - Voc sabe se temos
        que esperar mais algum, Amos?
        -        No, os Lovegood j esto l h uma semana e os Fawcett no conseguiram entradas - disse o Sr. Diggory. - No tem mais
        gente nossa na rea, tem?
        - No que eu saiba. S falta um minuto...  melhor nos prepararmos...
Ele olhou para Harry e Hermione.
        - Vocs s precisam tocar na Chave do Portal, s isso, basta um dedo...
        Com dificuldade, por causa das volumosas mochilas, os nove
se agruparam em torno da velha bota que Amos Diggory segurava.
        Todos ficaram parados ali, num circulo fechado, sentindo a brisa glida que varria o cume do morro. Ningum falava. De repente ocorreu a Harry como pareceria 
estranho se um trouxa subisse at ali naquele momento... nove pessoas, dois adultos, segurando uma bota velha de pano, ao amanhecer, esperando...
        - Trs... - murmurou o Sr. Weasley, com o olho ainda no relgio - dois... um...
        Aconteceu instantaneamente. Harry teve a sensao de que um gancho dentro do seu umbigo fora irresistivelmente puxado para a frente. Seus ps deixaram o
cho; ele sentiu Rony e Hermione de cada lado, os ombros se tocando; todos avanavam vertiginosamente em meio ao uivo do vento e ao rodopio de cores; seu dedo
        indicador estava grudado na bota como se esta o atrasse magnericamente para a frente, e ento...
                   Seus ps bateram no cho; Rony deu um encontro nele e caiu;
#        62
a Chave do Portal despencou no cho do lado da cabea dele com um baque forte.
Harry ergueu os olhos. O Sr. Weasley, o Sr. Diggory e Cedrico
continuavam parados, embora com a aparncia de terem sido varridos pelo vento; os demais estavam cados no cho.
        -        O sete e cinco chegando do morro Sroarshead - anunciou uma voz.
#63


******


CAPITULO SETE
Bagman e Crozch


Harry se desvencilhou de Rony e se levantou. Tinham chegado, pelo que parecia, a um trecho deserto de uma charneca imersa em nvoa. Diante deles havia dois bruxos 
cansados, com cara de rabugentos, um dos quais segurava um grande relgio de ouro, e o outro, um grosso rolo de pergaminho e uma pena. Ambos estavam vestidos como 
trouxas, embora sem muita habilidade; o homem do relgio usava um terno de
tweed com botas de borracha at as coxas; o colega, um saiote escocs e um poncho.
        - Bom-dia, Basilio - cumprimentou o Sr. Weasley, apanhando a bota que os transportara e entregando-a ao bruxo de saiote, que a atirou em uma grande caixa
de chaves de portal usadas, a um lado; Harry viu, entre elas, um jornal velho, latas de bebidas vazias e uma bola de futebol furada.
        - Ol, Arthur - disse Basilio em tom entediado. - No est de servio no, ? Tem gente que se d bem... estivemos aqui a noite toda...  melhor voc desimpedir 
o caminho, temos um grupo grande chegando da Floresta Negra s cinco e quinze. Espere um pouco, me deixe ver onde  que voc vai ficar... Weasley... Weasley... - 
Ele consultou a lista no pergaminho. - A uns quatrocentos metros para aquele lado, primeiro acampamento que voce encontrar. O gerente  o Sr. Roberts. Diggory... 
segundo acampamento... pergunte pelo Sr. Payne.
        - Obrigado, Basilio - disse o Sr. Weasley e fez sinal para todos o acompanharem.
Eles saram pela charneca deserta, incapazes de distinguir
muita coisa atravs da nvoa, Passados uns vinte minutos, avistaram uma casinha de pedra ao lado de um porto. Mais alm, Harry
-        pde distinguir mal e mal as formas fantasmagricas de centenas
de barracas, montadas na ondulao suave de um grande campo,
#64
no rumo de uma floresta escura no horizonte. Eles se despediram dos Diggory e se aproximaram da casa.
        Havia um homem parado  porta, contemplando as barracas. Harry soube s de olhar que aquele era o nico trouxa legtimo numa rea de muitos hecrares. Quando
o trouxa ouviu os passos do grupo, virou a cabea para olh-los.
        -       "dia! - cumprimentou o Sr. Weasley animado.
-        "dia - disse o trouxa.
        -        O senhor seria o Sr. Roberts?
        -        , seria - respondeu o Sr. Roberts. - E quem  o senhor?
        -        Weasley, duas barracas reservadas h uns dois dias?
        -        Certo - confirmou o Sr. Roberts, consultando uma lista pregada  porta. - O lugar  l perto da floresta. S uma noite?
        -        Isso - respondeu o Sr. Weasley.
        -        O senhor vai pagar agora, ento? - perguntou o Sr. Roberts.
        -        Ah... certo...  claro. - O Sr. Weasley se afastou um pouco da casa e fez sinal a Harry para acompanh-lo. - Me ajude, Harry - murmurou, puxando 
do bolso um rolinho de dinheiro de trouxa e comeando a separar as notas. - Esta aqui  de... de... de dez? Ah , vejo agora que tem um numerozinho... ento esta 
 de cinco?
        -        De vinte - corrigiu-o Harry falando baixo, incomodamente consciente de que o Sr. Roberts estava tentando ouvir cada palavra
que diziam.
        -        Ah ,  mesmo... No sei, esses pedacinhos de papel...
        -         estrangeiro? - perguntou o Sr. Roberts, quando o Sr. Weasley voltou com o dinheiro certo.
        -        Estrangeiro? - repetiu o bruxo, intrigado.
        -        O senhor no  o primeiro que se atrapalha com o dinheiro
- disse o gerente, observando o Sr. Weasley atentamente. - Tive dois querendo me pagar com grandes moedas de ouro do tamanho de cabras de automvel faz uns dez minutos.
-        Srio? - disse o Sr. Weasley nervoso.
        O        Sr. Roberts vasculhou uma lata  procura de troco.
        - Nunca esteve to cheio - disse ele de repente, voltando outra vez o olhar para o campo enevoado. - Centenas de reservas. As pessoas em geral aparecem sem 
aviso...
        - Verdade? - exclamou o Sr. Weasley, a mo estendida  espera 
do troco, mas o Sr. Roberts no lhe deu nenhum.
        -         - disse pensativo. - Gente de toda parte. Montes de
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estrangeiros. E no so s estrangeiros. Gente esquisita, sabe? Tem um sujeito andando por a de saiote e poncho.
        -        E no devia? - perguntou o Sr. Weasley ansioso.
        -        Parece que  uma espcie de... sei l... uma espcie de conveno - comentou o Sr. Roberts. - Parece que todos se conhecem.
Como numa grande festa.
        Naquele momento, um bruxo de bermudo largo materializou-se do nada ao lado da porta da casa do Sr. Roberts.
        -        Obliviate!- disse ele bruscamente, apontando a varinha para o Sr. Roberts.
        Instantaneamente os olhos do Sr. Roberts saram de foco, suas sobrancelhas se desfranziram e um olhar de vaga despreocupao cobriu o seu rosto. Harry reconheceu
os sintomas de algum que acabara de ter a memria alterada.
        - Um mapa do acampamento para o senhor - disse o homem, placidamente, ao Sr. Weasley. - E o seu troco.
- Muito obrigado.
        O        bruxo de bermudo acompanhou o grupo em direo ao porto do acampamento. Parecia exausto; a barba por fazer azulava seu queixo e havia olheiras
roxas sob seus olhos. Uma vez longe do raio de audio do gerente, ele murmurou para o Sr. Weasley.
        -        Estou tendo um bocado de problemas com ele. Precisa de um Feitio de Memria dez vezes por dia para ficar feliz. E Ludo Bagman no est ajudando.
Anda por a falando em balaos e goles a plenos pulmes, sem a menor preocupao com a segurana
a trouxa. Pombas, vou gostar quando isso terminar. Vejo voc mais tarde,
Arthur.
        E desaparatou.
        -        Pensei que o Sr. Bagman fosse chefe de Jogos e Esportes Mgicos - disse Gina parecendo surpresa. - Devia ter mais juzo e
parar de falar de balaos perto de trouxas, no devia?
        -        Devia - concordou o Sr. Weasley, sorrindo e passando com os garotos pelo porto do acampamento -, mas Ludo sempre foi um pouco... bem... displicente
com a segurana. Mas no se poderia desejar um chefe mais entusiasta para o Departamento de Esportes. Ele jogou quadribol pela Inglaterra, sabem. E foi o melhor
        batedor do Wimbourne Wasps que o time j teve.
        O        grupo avanou lentamente pelo campo entre longas fileiras de barracas. A maioria parecia quase normal; os donos tinham
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visivelmente tentado o possvel para faz-las parecer equipamento de trouxas,
embora tivessem cometido alguns deslizes ao acrescentarem chamins ou cordes de sinetas
ou cata-ventos. Porm, aqui e ali, havia uma barraca to obviamente mgica que Harry no se surpreendia que o Sr. Roberts estivesse desconfiado. L para o meio do
campo, havia uma extravagante produo de seda listrada como um palcio em miniatura, com vrios paves vivos amarrados  entrada. Um pouco adiante, eles passaram 
por uma barraca que tinha trs andares e vrias torrinhas; e, mais alm, havia uma outra com um jardim anexo, completo, com banho para passarinhos, relgio de sol 
e fonte.
        - Sempre os mesmos - comentou o Sr. Weasley sorrindo -, no conseguimos deixar de nos exibir quando nos reunimos. Ah, l
est, olhem, aquela  a nossa.
        Tinham alcanado a orla da floresta no alto do campo, e ali
havia uma rea livre com um pequeno letreiro enfiado no cho em
que se lia "Weezly".
        - No podamos ter ganho um lugar melhor! - exclamou o Sr. Weasley feliz. - O campo preparado para as partidas  logo do outro lado da floresta, estamos 
o mais perto que poderamos estar. - Ele descarregou a mochila dos ombros. - Certo - disse excitado -, rigorosamente falando, nada de mgicas, no quando estamos
no mundo dos trouxas em to grande nmero. Vamos armar estas barracas  mo! No deve ser muito dificil... Os trouxas fazem isso o tempo todo... tome, Harry, por
onde voc acha que devo comear?
        Harry nunca acampara na vida; os Dursley nunca o haviam levado em frias, preferindo deix-lo com a Sra. Figg, uma velha vizinha. No entanto, ele e Hermione 
descobriram como distribuir os paus e as estacas, e embora o Sr. Weasley atrapalhasse mais do que ajudasse, porque ficara excitadssimo quando precisaram usar o 
martelo, eles finalmente conseguiram erguer duas barracas modestas para duas pessoas cada.
        Todos se afastaram para admirar a habilidade manual deles. Ningum que visse aquelas barracas teria adivinhado que pertenciam a bruxos, pensou Harry, mas 
o problema era que quando Gui, Carlinhos e Percy chegassem, eles formariam um grupo de
dez pessoas. Hermione parecia ter identificado esse problema, tambm; lanou a Harry um olhar cmico quando o Sr. Weasley ficou
de quatro e entrou na primeira barraca.
#67
        - Vamos ficar meio apertados - comentou ele -, mas acho que vai dar para nos espremermos. Venham dar uma olhada.
        Harry se abaixou, passou por baixo da aba de entrada e sentiu o queixo cair. Entrara em uma barraca que parecia um
apartamento antigo de trs quartos, completo,
com banheiro e cozinha. E o que era curioso, estava mobiliado no mesmssimo estilo que o da Sra. Figg; havia capas de croch nas poltronas sem par e um forte cheiro
de gatos.
        - Bom, no  para muito tempo - disse o Sr. Weasley, secando a careca com um leno e espiando as quatro camas-beliches que havia no quarto. - Pedi a barraca
emprestada ao Perkins, l do escritrio. Ele no acampa muito atualmente, coitado, est com lumbago.
        O Sr. Weasley apanhou uma chaleira empoeirada e espiou dentro.
        - Vamos precisar de gua...
        - Tem uma torneira assinalada no mapa que o trouxa nos deu
-        disse Rony, que seguira Harry para dentro da barraca e parecia completamente indiferente a essas extraordinrias propores internas. - Fica do outro lado
do campo.
        -        Bom, ento por que voc, Harry e Hermione no vo apanhar um pouco de gua... - o bruxo entregou aos garotos a chaleira e duas caarolas - . . . 
e ns vamos apanhar lenha para fazer uma fogueira?
        -        Mas temos um forno - lembrou Rony -, por que no podemos...?
        -        Rony, segurana antitrouxa! - disse o Sr. Weasley, o rosto brilhando de expectativa. - Quando os trouxas de verdade acampam,
eles cozinham em fogueiras ao ar livre, j os vi fazendo isso!
        Depois de uma rpida visita  barraca das garotas, que era ligeiramente menor do que a deles, embora sem o cheiro de gato, Harry, Rony e Hermione atravessaram 
o acampamento levando as vasilhas.
        Agora, com o sol de fora e a nvoa se dissipando, eles puderam
ver a cidade de lona que se estendia para todas as direes. Camnharam
lentamente entre as fileiras de barracas, espiando tudo
        com interesse. Harry estava comeando a se indagar quantos bruxos e bruxas devia haver no mundo; ele nunca pensara realmente
                nos bruxos de outros pases.
#        68
        Seus companheiros de acampamento iam acordando aos poucos. Os primeiros a dar sinal de vida foram as famlias com crianas pequenas; Harry nunca vira bruxos
to pequenos antes. Um pirralhinho, que no tinha mais de dois anos, estava agachado do lado de fora de uma barraca em forma de pirmide, empunhando uma varinha
com a qual cutucava, feliz, um caramujo na grama, que ia ganhando lentamente o tamanho de um salame. Quando se emparelharam com ele, a me saiu correndo da barraca.
        -        Quantas vezes, Kevin? No pode... mexer... na... varinha... do papai, putz!
        Ela pisou no enorme caramujo, estourando-o. A bronca acompanhou os garotos pelo ar parado, se misturando aos gritos do
garotinho:
- Voc acabou caramujo! Voc acabou caramujo!
        Um pouco mais adiante, eles viram duas bruxinhas, pouco mais velhas do que Kevin, cavalgando vassouras de brinquedo que se elevavam o suficiente para os
dedos dos ps das meninas rasparem a grama orvalhada. Um bruxo do Ministrio j as vira; quando passou correndo por Harry, Rony e Hermione, murmurava agitado:
        - Em plena luz do dia! Os pais devem estar cochilando, suponho...
        Aqui e ali bruxos e bruxas adultos saam das barracas e comeavam a preparar o caf da manh. Alguns, lanando olhares furtivos para os lados, conjuravam
fogueiras com as varinhas; outros acendiam fsforos com ar de dvida, como se tivessem certeza de que aquilo no ia funcionar. Trs bruxos africanos conversavam
sentados, trajando longas vestes brancas, enquanto assavam uma carne que parecia coelho sobre uma fogueira prpura
berrante; um grupo de bruxas americanas de meia-idade
fofocava alegremente sob a bandeira estrelada que elas haviam estendido entre as barracas, na qual se lia Instituto das Bruxas de
Salem. Harry captava fragmentos
de conversas em lnguas estranhas que saam das barracas pelas quais passavam, e embora no conseguisse entender uma nica palavra, o tom das vozes era de excitao.
        - Hum... so os meus olhos ou tudo ficou verde? - perguntou Rony.
        No eram os olhos de Rony. Os garotos tinham entrado em 
uma rea em que as barracas estavam cobertas por uma camada de
trevos, dando a impresso de que morrotes de formas estranhas
#69
haviam brotado da terra. Viam-se rostos sorridentes nas barracas com a aba da entrada erguida. Ento, s costas, os garotos ouviram algum gritar seus nomes.
        -        Harry! Rony! Hermione!
        Era Simas Finnigan, um colega quartanista da Grifinria. Estava sentado diante de uma barraca coberta de trevos, em companhia de uma mulher de cabelos louro-claros
que s podia ser sua me e com Dino Thomas, tambm da Grifinria.
        -        Gostaram da decorao? - perguntou Simas sorrindo, quando Harry, Rony e Hermione se aproximaram para cumprimentlos. - O Ministrio no est nada
feliz.
        -        E por que no deveramos mostrar nossas cores? - perguntou a Sra. Finnigan. - Vocs deviam ver o que os blgaros penduraram nas barracas deles.
Vocs vo torcer pela Irlanda, naturalmente? - acrescentou ela fixando Harry, Rony e Hermione com insistncia.
        Depois de terem tranquilizado a senhora de que realmente iam
torcer pela Irlanda, os garotos seguiram caminho, embora Rony
tivesse comentado:
        -        Gomo se a gente fosse dizer que no ia, com aquela turma em volta da gente.
        -        Que ser que os blgaros penduraram nas barracas? - indagou Hermione.
        -        Vamos dar uma olhada - disse Harry, apontando para uma grande rea de barracas mais adiante, onde a bandeira da Bulgria,
vermelha, verde e branca, tremulava  brisa.
        As barracas no estavam enfeitadas com plantas, mas cada uma exibia o mesmo pster, um pster com um rosto muito carrancudo com grossas sobrancelhas negras.
A foto,  claro, se mexia, mas apenas para piscar os olhos e franzir a testa.
        -        Krum - disse Rony em voz baixa.
        -        Qu? - perguntou Hermione.
        -        Krum! - repetiu Rony. Vtor Krum, o apanhador blgaro!
        -        Ele parece bem rabugento - comentou Hermione, olhando para os muitos Krums que piscavam e franziam a testa para eles.
        -        Bem rabugento?- Rony olhou para o cu. - Quem se importa com a cara dele? Ele  incrvel! E  bem moo, tambm. Tem uns
dezoito anos, por a.  um gnio, espere at ver hoje  noite.
        J havia uma pequena fila  torneira no canto do acampamento. Harry e Rony entraram logo atrs de dois homens que
#70
discutiam acaloradamente. Um deles era um bruxo muito velho que usava uma longa camisola florida. O outro era visivelmente um bruxo do Ministrio; este segurava 
calas
listradas e quase chorava de exasperao.
        -        Vista as calas, Arquibaldo, seja bonzinho, voc no pode andar por a vestido assim, o trouxa no porto j est ficando desconfiado...
        -        Comprei isso numa loja de trouxas - defendeu-se o velho bruxo, teimando. - Os trouxas usam isso.
        -        Mulheres trouxas usam isso, Arqui, no os homens, eles usam isto aqui - disse o bruxo do Ministrio mostrando as calas listradas.
        -        No vou vestir isso - retrucou o velho bruxo indignado. - Gosto de sentir uma brisa saudvel nas minhas partes, obrigado.
        Hermione foi tomada por um tal acesso de riso, nessa hora,
que precisou sair da fila e s voltou depois que Arquibaldo tinha se
abastecido de gua e fora embora.
        Caminhando mais devagar agora, por causa do peso da gua, os garotos tornaram a atravessar o acampamento. Aqui e ali, eles viam rostos mais familiares: outros
alunos de Hogwarts com as famlias. Olvio Wood, o ex-capito de quadribol do time de Harry, que terminara os estudos em Hogwarts, arrastou o garoto at a barraca
dos pais para apresent-lo, e lhe contou cheio de excitao que acabara de entrar para o time de reserva do Puddlemere United. Depois os garotos foram saudados por
Ernesto Maemillan, um quartanista da Lufa-Lufa, e, mais adiante, viram Cho Chang, uma garota muito bonita que jogava como apanhadora no time da Corvinal. Ela acenou
e sorriu para Harry, que derramou um bocado de gua na roupa ao retribuir o aceno. Mais para impedir Rony de caoar do que por outro motivo, Harry apontou depressa
para um enorme grupo de adolescentes que ele nunca vira antes.
        -        De onde voc acha que eles so? - perguntou Harry. - Eles no frequentam Hogwarts, frequentam?
        -        Devem frequentar alguma escola estrangeira - sugeriu Rony.
- Sei que h outras, mas nunca encontrei ningum que estudasse nelas. Gui teve uma correspondente em uma escola no Brasil... isto foi h anos... e ele quis ir para
l numa viagem de intercmbio, mas
mame e papai no tiveram dinheiro para bancar a viagem. A moa 
ficou toda ofendida quando ele disse que no ia e mandou para ele
um chapu enfeitiado. As orelhas dele murcharam.
#71
        Harry riu, mas no manifestou a surpresa que era saber que havia outras escolas de magia. Sups, agora que via representantes de tantas nacionalidades no
acampamento, que fora muito burro por jamais ter imaginado que Hogwarts no poderia ser a nica. Ele olhou para Hermione, que no demonstrara a menor surpresa com
a informao. Sem dvida, ela devia ter visto referncias a outras escolas de magia em algum livro.
        -        Vocs demoraram uma eternidade - comentou Jorge, quando eles finalmente chegaram s barracas dos Weasley.
        -        Encontramos alguns conhecidos - disse Rony, pousando as vasilhas de gua. - Voc ainda no acendeu a fogueira?
        -        Papai est se divertindo com os fsforos - disse Fred.
        O        Sr. Weasley no estava tendo o menor sucesso em acender a fogueira, mas no era por falta de tentativas. Fsforos partidos coalhavam o cho ao seu
redor, mas ele parecia estar se divertindo
                como nunca.
                  - Opa! - exclamou ele, ao conseguir acender um fsforo, mas
                largou-o na mesma hora no cho, surpreso.
                  - Chegue aqui, Sr. Weasley - disse Hermione bondosamente,
                tirando a caixa das mos dele e comeando a mostrar como fazer
                fogo direito.
                   Finalmente, eles acenderam a fogueira, embora levasse no
                mnimo mais uma hora at ela esquentar o suficiente para cozinhar
                alguma coisa. Mas havia muito que ver enquanto esperavam. A
                barraca deles estava armada ao longo de uma espcie de rua de
                acesso ao campo de quadribol, por onde funcionrios do 
Ministrio corriam para cima e para baixo, cumprimentando cordialmente o Sr. Weasley ao passar. O Sr. Weasley fazia comentrios
                contnuos, principalmente para benefcio de Harry e Hermione;
                seus prprios filhos j conheciam bastante o Ministrio para se
                interessar.
                  - Aquele era Cutberto Mockridge, chefe da Seo de Ligao
                com os Duendes... l vem Gilberto Wimple, ele trabalha na 
Comisso de Feitios Experimentais, j usa aqueles chifres h algum
                tempo... Al Arnaldinho... Arnaldo Peasegood, ele  um obliviador,
trabalha no Esquadro de Reverso de Feitios Acidentais, sabe... e aqueles
 outros so Bode e Croaker... so dois inominveis...
                  - So o qu?
#        72
        -        Do Departamento de Mistrios, ultra-secretos, no tenho a menor idia do que fazem...
        Finalmente, a fogueira ficou pronta e eles j haviam comeado
a preparar salsichas com ovos quando Gui, Carlinhos e Percy saram caminhando da floresta para se reunireni  famlia.
        - Acabei de aparatar, papai - disse Percy em voz alta. - Ah, que excelente almoo!
        J haviam comido metade das salsichas com ovos quando o Sr.
Weasley se levantou de um salto, acenando e sorrindo para um
homem que vinha em sua direo.
        -        Ah-ah! - exclamou ele. - O homem do momento! Ludo! Ludo Bagman era, sem favor algum, o homem mais chamativo que Harry j vira na vida, at mesmo
incluindo nessa conta o velho Arquibaldo com sua camisola florida. Usava longas vestes de quadribol com grandes listras horizontais amarelas e pretas. Uma enorme
estampa de uma vespa tomava todo o seu peito. Tinha a aparncia de um homem corpulento que parara de se exercitar; suas vestes estavam muito esticadas por cima da
enorme barriga, que certamente no existia na poca em que ele jogava quadribol 
pela Inglaterra. Seu nariz era achatado (provavelmente quebrado por algum balao
errante, pensou Harry), mas os redondos olhos azuis, os cabelos louros curtos e a pele rosada o faziam parecer um menino de escola que crescera demais.
        - Ol, pessoal! - exclamou Bagman alegremente. Andava como se tivesse molas nas solas dos ps, era visvel que estava num
estado de extrema excitao.
        "Arthur, meu velho", ofegou ele, ao chegar  fogueira, "que dia, hein? Ser que podamos ter desejado um tempo mais perfeito? Uma noite sem nuvens... e quase 
nenhum problema na programao... quase nada para eu fazer!"
        Por trs dele, um grupo de bruxos do Ministrio, de cara exausta, passou apressado, apontando para a evidncia distante de algum tipo de fogueira mgica 
que disparava fascas violetas a seis metros de altura.
        Percy adiantou-se rapidamente com a mo estendida. Pelo
jeito o fato de desaprovar o modo de Ludo Bagman dirigir o departamento, no o impedia de querer causar boa impresso. 
        - Ah... sim - disse o Sr. Weasley, sorrindo -, este  o meu filho, Percy, comeou a trabalhar no Ministrio agora, e este  Fred, no,
#73
Jorge, desculpe, esse o Fred... Gui, Carlinhos, Rony... minha filha, Gina... e os amigos de Rony, Hermione Granger e Harry Potter.
De maneira discretssima, Bagman olhou uma segunda vez ao
ouvir o nome de Harry e seus olhos deram a conhecida espiada na
cicatriz na testa do garoto.
        -        Pessoal - continuou o Sr. Weasley -, este  Ludo Bagman, vocs sabem quem ele , e  graas a ele que temos entradas to
boas...
Bagman abriu um sorriso de lado a lado do rosto e fez um
gesto com a mo significando que no fora nada.
        -        Quer arriscar uma apostinha no jogo, Arthur? - perguntou ele ansioso, sacudindo, ao que parecia, um bocado de ouro nos bolsos das vestes amarelas 
e pretas. - J aceitei a aposta de Roddy Pontner de que a Bulgria vai marcar primeiro, ofereci a ele uma boa vantagem, levando em conta que os trs jogadores avanados 
da Irlanda so os mais fortes que j vi em anos, e a pequena gata Timms apostou meias quotas da fazenda de enguias de que a partida vai durar uma semana.
        -        Ah... v l, ento - disse o Sr. Weasley. - Vejamos... um galeo na vitria da Irlanda?
        -        Um galeo? - Ludo Bagman pareceu ligeiramente desapontado,
mas se recuperou: - Muito bem, muito bem... mais alguma
                aposta?
                  - Eles so um pouco jovens demais para andar jogando - disse
                o Sr. Weasley. - Molly no gostaria...
                  - Ns apostamos trinta e sete galees, quinze sicles e trs
                nuques - disse Fred, ao mesmo tempo em que ele e Jorge juntavam
                rapidamente todo o dinheiro que tinham - que a Irlanda ganha,
                mas Vtor Krum captura o pomo. Ah, e damos uma varinha falsa
                de lambujem.
                  - Vocs no vo querer mostrar ao Sr. Bagman esse lixo - 
sibilou Percy, mas o bruxo no pareceu achar que a varinha era lixo;
                muito ao contrrio, seu rosto de colegial iluminou-se de excitao
                ao receb-la das mos de Fred e, quando a varinha deu um 
cacarejo e se transformou em uma galinha de borracha, Bagman caiu na
                gargalhada.
          - Excelente! No vejo uma varinha to convincente h anos!
                Eu pagaria cinco galees por uma dessas!
                   Percy ficou paralisado, numa atitude de indignada desaprovao.
#        74
        -        Meninos - disse o Sr. Weasley entre dentes -, no quero vocs jogando... isto  tudo que economizaram... sua
me...
        -        No seja estraga-prazeres, Arthur! - trovejou Ludo Bagman excitado, sacudindo as moedas nos bolsos. - Eles j so bem grandinhos para saber o que
querem! Vocs acham que a Irlanda vai vencer, mas Krum vai capturar o pomo? Nem por milagre, moleques, nem por milagre... Vou dar uma excelente vantagem nessa...
e acrescentar mais cinco galees por essa varinha marota, concordam...
        O        Sr. Weasley ficou olhando sem ao enquanto Ludo Bagman puxava um caderninho e uma pena e comeava a anotar os
nomes dos gmeos.
        -        Tchau - disse Jorge, apanhando o pedao de pergaminho que Bagman lhe estendia e guardando-o no peito das vestes.
        Bagman virou-se animadssimo para o Sr. Weasley.
        -        Daria para me fazer um ch, suponho? Estou de olho para ver se localizo Crouch. O meu contraparte blgaro est criando dificuldades e no consigo
entender uma palavra do que ele diz. Bart poderia resolver o problema, fala umas cento e cinqUenta lnguas.
        -        O Sr. Crouch? - disse Percy, abandonando subitamente o seu ar de impassvel desaprovao e quase se contorcendo de bvia excitao. - Ele fala mais
de duzentas! Seriaco, gruguls, trasgueano...
        -        Qualquer um sabe falar trasgueano - disse Fred fazendo pouco -,  s a gente apontar e grunhir.
        Percy lanou a Fred um olhar feissimo e atiou os gravetos da
fogueira vigorosamente para fazer a chaleira ferver.
        -        J teve notcias de Berta Jorkins, Ludo? - perguntou o Sr. Weasley quando Bagman se sentou na grama ao lado deles.
        -        Nem um pio - disse Bagman  vontade. - Mas ela vai aparecer. Coitada da velha Berta... tem a memria de um caldeiro furado e nenhum senso de direo.
Perdida, se quiserem me acreditar. Vai aparecer na seo l para outubro, pensando que ainda  julho.
        -        Voc no acha que j estava na hora de mandar algum procur-la? - sugeriu, hesitante, o Sr. Weasley, quando Percy estendeu a Bagman o ch pedido.
        -        o que o Bart Crouch no pra de dizer - respondeu Bagman, arregalando inocentemente seus olhos redondos -, mas o fato  que no podemos destacar
ningum no momento. Ah...  falar no demnio! Bart!
#75
        Um bruxo acabara de aparatar junto  fogueira, e no poderia oferecer um contraste maior a Ludo Bagman, estirado na grama com as vestes velhas do Wasp.
Bart era um homem mais velho, formal, empertigado, vestido com um terno e uma gravata impecveis. A risca nos seus cabelos grisalhos e curtos era quase absurdamente
reta e o bigode fino de escovinha parecia ter sido aparado com uma rgua. Seus sapatos eram exageradamente lustrosos. Harry percebeu na hora por que Percy o idolatrava.
Percy acreditava piamente em obedecer s regras sem fazer concesses, e o Sr. Crouch obedecera  regra de se vestir como trouxa to rigorosamente que poderia ter
passado por gerente de banco. Harry duvidava que seu tio Vlter pudesse ter descoberto quem ele realmente era.
        -        Estrague um pouco a grama, Bart - disse Ludo animadamente, batendo no cho.
        -        No, muito obrigado - respondeu Crouch, e havia um vestgio de impacincia em sua voz. - Estive procurando-o por toda parte. Os blgaros insistem 
que coloquemos mais doze cadeiras no camarote de honra.
        -        Ah,  isso que eles querem? - exclamou Bagman. - Achei que o sujeito estava pedindo uma pina emprestada. Sotaque forte o dele.
        -        Mr. Crouch! - disse Percy sem flego, curvando-se numa espcie de meia reverncia que o fez parecer corcunda. - O senhor
aceita uma xcara de ch?
        -        Ah - exclamou o bruxo, olhando surpreso para Percy. - Claro... obrigado, Wearherby.
        Fred e Jorge se engasgaram dentro das xcaras de que bebiam.
Percy, as orelhas muito rosadas, ocupou-se com a chaleira.
        -        Ah, e tenho querido dar uma palavra com voc, tambm, Arthur - disse o Sr. Crouch, seu olhar penetrante recaindo sobre o Sr. Weasley. - Ali Bashir
est em p de guerra. Quer falar com voc sobre o embargo dos tapetes voadores.
        O        Sr. Weasley soltou um profundo suspiro.
        -        Mandei-lhe uma coruja sobre isso ainda na semana passada. J devo ter dito a Bashir umas cem vezes: tapetes so classificados como artefatos mgicos
pelo Registro de Objetos Enfeitiveis Proscritos, mas, e ele quer me escutar?
        -        Duvido - respondeu o Sr. Crouch, aceitando a xcara de Percy. - Ele est desesperado para exportar para c.
#76
        - Bom, eles nunca vo substituir as vassouras na Gr-Bretanha, vo? - disse Bagman.
        -        Ali acha que h um nicho no mercado para um veculo familiar - explicou o Sr. Crouch. - Eu me lembro de que o meu avo tinha um Axminster que levava
doze pessoas, mas isso foi antes dos tapetes serem banidos, naturalmente.
        Ele falou como se no quisesse deixar a menor dvida de que
todos os seus antepassados cumpriam rigorosamente a lei.
        -        Ento, muito ocupado, Bart? - perguntou Bagman despreocupadamen te.
        -        Bastante - respondeu o outro seco. - Organizar chaves de portal em cinco continentes no  uma tarefa qualquer, Ludo.
        -        Imagino que os dois vo ficar contentes quando o evento acabar - comentou o Sr. Weasley.
        Ludo Bagman pareceu chocado.
        -        Contente! No me lembro de ter me divertido tanto... ainda assim, no  que no haja mais trabalho pela frente, hein, Bart?
Hein? Muita coisa ainda para organizar, hein?
        O        Sr. Crouch ergueu as sobrancelhas para Bagman.
        -        Combinamos no anunciar nada at todos os detalhes...
        -        Ah, os detalhes! - exclamou Bagman, afastando a palavra como se fosse uma nuvem de mosquitos. - Eles j assinaram, ento? Concordaram? Aposto o
que voc quiser como esses garotos vo saber logo. Quero dizer, vai acontecer em Hogwarts...
        -        Ludo, precisamos receber os blgaros, sabe - disse o Sr. Crouch bruscamente, cortando os comentrios de Bagman. - Obrigado pelo ch, Weatherby.
        Ele devolveu a Percy a xcara de ch intocada e esperou Ludo se
levantar; Bagman se ps em p com dificuldade, virando o restinho
de ch, o ouro em seus bolsos tilintando alegremente.
        -        Vejo vocs todos mais tarde! - disse ele. - Vo ficar no camarote de honra comigo, vou comentar o jogo! - Ele acenou, Bart Crouch fez um movimento
rpido com a cabea e os dois desaparataram.
        -        Que  que vai acontecer em Hogwarts, papai? - perguntou Fred na mesma hora. - Do que  que eles estavam falando?
        -        Voc vai descobrir logo - disse o Sr. Weasley sorrindo.
        -         informao privilegiada, at o Ministrio achar convenente
#77
 comunic-la - disse Percy empertigado. - O Sr. Crouch estava
                certo em no querer revelar nada.
                  - Ah, cala a boca, Weatherby - disse Fred.
                   A atmosfera de excitao foi-se adensando como uma nuvem
                palpvel sobre o acampamento,  medida que a tarde avanava. A
                hora do crepsculo, o prprio ar parado de vero parecia estar
                vibrando de excitao, e quando a noite se estendeu como um
                toldo sobre os milhares de bruxos que aguardavam, os ltimos 
vestgios de fingimento desapareceram: o Ministrio pareceu se curvar
                ao inevitvel e parou de combater os indisfarveis sinais de magia
                que agora irrompiam por toda parte.
                   Ambulantes aparatavam a cada metro, trazendo bandejas e empurrando 
carrinhos cheios de extraordinrias mercadorias. Havia
                rosetas luminosas - verdes para a Irlanda, vermelhas para a 
Bulgria - que gritavam os nomes dos jogadores, chapus verdes cnicos
                enfeitados com trevos danantes, echarpes blgaras adornadas com
                lees que rugiam de verdade, bandeiras dos dois pases que 
tocavam os hinos nacionais quando eram agitadas; havia miniaturas de
                Firebolts, que realmente voavam, e figurinhas colecionveis dos
                jogadores famosos, que andavam se exibindo nas palmas das mos.
                  - Guardei o meu dinheiro o vero todo para o dia de hoje -
                disse Rony a Harry, quando os trs saram caminhando entre os
                vendedores comprando lembranas. Embora Rony j tivesse comprado
um chapu com trevos danantes e uma grande roseta verde,
                comprou tambm uma figurinha de Vtor Krum, o apanhador
                blgaro. O brinquedo andava para a frente e para trs na mo do
                garoto, amarrando a cara para a roseta verde acima.
                  - Uu, olha s para isso! - exclamou Harry, correndo at um
                carrinho atulhado de coisas que pareciam binculos de lato, s
                que eram cheios de botes estranhos.
                  - Oniculos - disse o vendedor pressuroso. - Voc pode rever
                o lance... passar ele em cmara lenta... e ver uma retrospectiva lance
                a lance, se precisar. Pechincha: dez galees um.
                  - Eu queria no ter comprado isso - disse Rony, indicando o
                chapu com os trevos danantes e olhando, de olho comprido, para
                os oniculos.
       - Trs - disse Harry com firmeza ao bruxo.
                  - No... no precisa - disse Rony ficando vermelho. Sempre se
#        78
melindrava com o fato de que Harry, que herdara uma pequena fortuna dos pais, tivesse muito mais dinheiro do que ele.
        -        No vou te dar nada no Natal - disse Harry, empurrando os onculos nas mos do amigo e de Hermione. - Por uns dez anos,
no se esquea.
        -         justo - disse Rony rindo.
        -        Aaah, obrigada, Harry - disse Hermione. - E eu compro os programas para ns, olha...
        As bolsas de dinheiro bem mais leves, os trs voltaram s barracas. Gui, Carlinhos e Gina tambm estavam usando rosetas verdes, e o Sr. Weasley carregava 
uma bandeira da Irlanda. Fred e Jorge no compraram suvenires porque tinham entregado todo o dinheiro a Bagman.
        Ento, eles ouviram um gongo, grave e ensurdecedor, bater em algum lugar alm da floresta e, na mesma hora, lanternas verdes e vermelhas se acenderam entre 
as rvores, iluminando o caminho at o campo.
        -        Est na hora! - exclamou o Sr. Weasley, parecendo to excitado quanto os garotos. - Andem logo, vamos!


#79

*****



- CAPTULO OITO -
A Copa Mundial de Quadribol


                Agarrados s compras, o Sr. Weasley  frente, todos correram para
                a floresta seguindo o caminho iluminado pelas lanternas. Ouviam
                a algazarra de milhares de pessoas que se movimentavam  volta
                deles, gritos, gargalhadas e trechos de canes. A atmosfera de 
excitao febril era extremamente contagiosa; Harry no conseguia
                parar de sorrir. Caminharam pela floresta durante vinte minutos,
                conversando e brincando em voz alta at que finalmente emergiram
do outro lado e se viram  sombra de um gigantesco estdio.
                Embora Harry s pudesse ver partes das imensas paredes douradas
                que cercavam o campo, ele podia afirmar que caberiam dentro
                dele, com folga, umas dez catedrais.
                  - Tem capacidade para cem mil pessoas - disse o Sr. Weasley,
                vendo o ar de assombro no rosto do garoto. - Uma fora-tarefa do
                Ministrio, com quinhentas pessoas, trabalhou o ano inteiro. H
                Feitios Antitrouxas em cada centmetro. Todas as vezes que, neste
                ano, os trouxas se aproximavam da rea, eles de repente se lembravam
de compromissos urgentes e precisavam sair correndo... Deus
                os abenoe - acrescentou ele carinhosamente, se encaminhando
                para o porto mais prximo, que j estava cercado por um enxame
                de bruxos e bruxas aos gritos.
                  - Lugares de primeira! - exclamou a bruxa do Ministrio ao
                porto, quando verificou as entradas deles. - Camarote de honra!
                Suba direto, Arthur, o mais alto possvel.
                   As escadas de acesso ao estdio estavam forradas com carpetes
                prpura berrante. Eles subiram com o resto da multido, que aos
                poucos foi se dispersando pelas portas  direita e  esquerda que
        levavam s arquibancadas. O grupo do Sr. Weasley continuou
                subindo e finalmente chegou ao alto da escada, onde havia um
                pequeno camarote, armado no ponto mais alto do estdio e situado
#        80
exatamente entre as duas balizas de ouro. Umas vinte cadeiras douradas e prpura tinham sido distribudas em duas filas, e Harry, ao entrar na primeira com os
Weasley, deparou com uma cena que ele jamais imaginara ver.
        Cem mil bruxos e bruxas iam ocupando os lugares que se erguiam em vrios nveis em torno do longo campo oval. Tudo estava banhado por uma misteriosa claridade
dourada que parecia se irradiar do prprio estdio. Ali do alto, o campo parecia feito de veludo. De cada lado havia trs aros de gol, a quinze metros de altura;
do lado oposto ao que estavam, quase ao nvel dos olhos de Harry, havia um gigantesco quadro-negro. Palavras douradas corriam pelo quadro sem parar como se uma gigantesca
mo invisvel as escrevesse e em seguida as apagasse; observando melhor, Harry viu que o quadro projetava anncios no campo.

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Harry desgrudou os olhos do quadro e espiou por cima do ombro a ver quem mais dividia o camarote com eles. Por ora estava vazio, exceto por uma craturinha sentada
na antepenltima cadeira na fila logo atrs. A criatura, cujas pernas eram to curtas que ficavam esticadas para a frente sem poder dobrar, usava uma toalha de ch
drapejada, presa como uma toga, e tinha o rosto escondido nas
mos. Contudo, aquelas compridas orelhas de morcego eram estranhamente familiares...
-        Dobby?- perguntou Harry incrdulo.
        A criaturinha levantou a cabea e entreabriu os dedos, deixando aparecer enormes olhos castanhos e um nariz do tamanho exato de um tomato. No era Dobby
- mas era, sem a menor dvida, um elfo domstico, como fora o amigo de Harry, Dobby. O garoto o libertara dos antigos donos, a famlia Malfoy.
        - O senhor me chamou de Dobby? - guinchou o elfo cheio de curiosidade, por entre os dedos. Sua voz era ainda mais aguda que a de Dobby, um fiapinho trmulo
de guincho, e Harry suspeitou, embora isso fosse muito difcil dizer no caso de elfos domsticos, 
que este talvez fosse do sexo feminino. Rony e Hermione se viraram
nas cadeiras para olhar. Embora tivessem ouvido Harry falar
#81
muito de Dobby, nunca haviam chegado a conhec-lo. At o Sr. Weasley se virou para trs interessado.
        -        Desculpe - disse Harry ao elfo -, achei que voc era algum que eu conhecia.
        -        Mas eu tambm conheo Dobby, meu senhor! - guinchou o elfo. Escondia o rosto como se a luz o cegasse, embora o camarote de honra no fosse muito
bem iluminado. - Meu nome  Winky, meu senhor, e o senhor... - seus grandes olhos castanho-escuros se arregalaram tanto que pareceram pratinhos de po ao pousarem
na cicatriz de Harry - o senhor com certeza  Harry Porter!
        -        , sou.
        -        Ora, Dobby fala do senhor o tempo todo, meu senhor - disse ela baixando um
tantinho as mos e parecendo assombrada.
        -        Como vai ele? - perguntou Harry. - Est gostando da liberdade?
        -        Ah, meu senhor - disse Winky, sacudindo a cabea -, ah, meu senhor, sem querer lhe faltar ao respeito, meu senhor, mas no tenho muita certeza se
o senhor fez um favor a Dobby, meu senhor, quando deu a liberdade a ele.
        -        Por qu? - perguntou Harry, espantado. - Que  que ele tem?
        -        A liberdade est subindo  cabea dele - disse Winky tristemente. - Idias acima da condio social dele, meu senhor. No
consegue outro emprego, meu senhor.
        -        Por que no?
        Winky baixou a voz uma oitava e sussurrou:
- Ele est exigindo pagamento pelo trabalho quefaz, meu senhor.
        -        Pagamento? - exclamou Harry sem entender. - Ora... por que ele no deveria receber pagamento?
Winky pareceu horrorizada com a idia e fechou os dedos um
tantinho, de modo que seu rosto tornou a ficar invisvel.
        -        Elfos domsticos no recebem pagamento, meu senhor! - disse ela num guincho abafado. - No, no, no. Eu digo ao Dobby, eu digo, procure uma boa
famlia e tome juzo, Dobby. Ele anda fazendo todo tipo de feitio avanado, meu senhor, o que no fica bem para um elfo domstico. Voc fica aprontando por a,
Dobby, eu digo, e daqui a pouco eu vou saber que voc teve que
comparecer no Departamento para Regulamentao e Controle
das Criaturas Mgicas, como um duende desclassificado.
#82
        -        Bem, j estava na hora de ele se divertir um pouco - falou Harry.
        -        Elfos domsticos no nasceram para se divertir, Harry Potter
- disse Winky com firmeza, por trs das mos. - Elfos domsticos fazem o que so mandados fazer. Eu no estou gostando nem um pouco da altura, Harry Potter... -
ela olhou para a borda do camarote e engoliu em seco - ... mas meu dono me mandou para o camarote de honra e eu obedeo, meu senhor.
        -        Por que  que ele mandou voc aqui, se sabe que voc no gosta de alturas? - perguntou Harry franzindo a testa.
        -        Meu dono... meu dono quer que eu guarde um lugar para ele, Harry Potter, ele est muito ocupado - disse Winky, inclinando a cabea pata a cadeira
vazia ao lado. - Winky est querendo voltar para a barraca do dono, Harry
Potter, mas Winky  bem mandada, Winky  um bom elfo domstico.
        Ela lanou outro olhar assustado  borda do camarote e tornou
a esconder completamente os olhos. Harry se virou para os outros.
        -        Ento isso  um elfo domstico? - murmurou Rony. - Esquisitos, no so?
        -        Dobby era ainda mais esquisito - disse Harry, com veemncia.
        Rony tirou o o oniculo e comeou a test-lo, observando a
multido embaixo, do lado oposto do estdio.
        -        Irado! - disse ele, girando o boto lateral para fazer a imagem voltar. - Consigo ver aquele velhote l embaixo meter o dedo no
nariz outra vez... mais uma vez... e mais outra...
        Entrementes, Hermione estava lendo superficialmente o programa que tinha borla e capa de veludo.
        -        Vai haver um desfile com os mascotes dos times antes da partida - leu ela em voz alta.
        -        Ah, a isso sempre vale a pena assistir - disse o Sr. Weasley. - Os
times nacionais trazem criaturas da terra natal, sabem, para fazer farol.
        O        camarote foi-se enchendo gradualmente em volta deles durante a meia hora seguinte. O Sr. Weasley no parava de apertar a mo de bruxos, obviamente
muito importantes. Percy levantou-se de um salto tantas vezes que at parecia que
estava tentando sentar em cima de um porco-espinho. Quando Cornlio Fudge,
Ministro da Magia, chegou, Percy fez uma reverncia to exagerada que seus culos caram e se partiram. Muito encabulado, ele os
#83
consertou com a varinha e dali em diante permaneceu sentado, lanando olhares invejosos a Harry, a quem o ministro cumprimentara como um velho amigo. Os dois j
se conheciam e Fudge apertou a mo de Harry paternalmente, perguntou como ele estava e apresentou-o aos bruxos de um lado e de outro.
        -        Harry Potter, sabe - disse ele em voz alta ao ministro blgaro, que usava esplndidas vestes de veludo preto, enfeitadas com ouro, e aparentemente
no entendia uma nica palavra de ingls. - Harry Potter... ah, vamos, o senhor sabe quem ... o menino que sobreviveu ao ataque de Voc-Sabe-Quem... tenho certeza
de que o senhor sabe quem ...
        O        bruxo blgaro, de repente, viu a cicatriz de Harry e comeou a algaraviar em voz alta e excitada, apontando para a marca.
        -        Sabia que amos acabar chegando l - disse Fudge, esgotado, a Harry. - No sou grande coisa para lnguas, preciso de Bart Crouch nesses encontros.
Ah, vejo que o elfo domstico est guardando o lugar dele... bem pensado, esses blgaros danados tm tentado arrancar da gente os melhores lugares... ah, ai vem
Lcio!
        Harry, Rony e Hermione se viraram depressa. Avanando vagarosamente pela segunda fila, em direo a trs lugares ainda vazios, bem atrs do Sr. Weasley,
vinham ningum menos que os antigos donos de Dobby - Lcio Malfoy, seu filho Draco e uma mulher que Harry sups que fosse a me do garoto.
        Harry Potter e Draco Malfoy eram inimigos desde a primeira viagem de trem para Hogwarts. Um garoto de rosto fino e cabelos muito louros, Draco se parecia
muito com o pai. A me tambm era loura; alta e magra, e at seria bonita se no carregasse no rosto uma expresso que sugeria que estava sentindo um mau cheiro 
bem debaixo do nariz.
        - Ah, Fudge - disse o Sr. Malfoy, estendendo a mo para o Ministro da Magia, ao chegar mais prximo. - Como vai? Acho que voc no conhece minha mulher, 
Narcisa? Nem o nosso filho, Draco?
        -        Como esto, como esto? - disse Fudge, sorrindo e se curvando para a Sra. Malfoy. - E me permitam apresentar a vocs o Sr. Oblansk ("Obalonsk, senhor"), 
bem, o Ministro da Magia da Bulgria, e de qualquer modo ele no consegue entender nenhuma
        palavra do que estou dizendo, portanto no faz diferena. E vejamos quem 
mais, voc conhece Arthur Weasley, imagino?
                   Foi um momento tenso. O Sr. Weasley e o Sr.- Malfoy se
#        84
entreolharam e Harry se lembrou nitidamente da ltima vez que haviam se encontrado; fora na livraria Floreios e Borres, e os dois tinham partido para uma briga.
Os olhos do Sr. Malfoy, frios e cinzentos, examinaram o Sr. Weasley e depois a fila em que ele estava.
        -        Meu Deus, Arthur - disse ele baixinho. - Que foi que voc precisou vender para comprar lugares no camarote de honra? Com
certeza sua casa no teria rendido tudo isso, nao?
        Fudge que no estava prestando ateno, comentou:
        -        Lcio acabou de fazer uma generosa contribuio para o Hospital St. Mungus para Doenas e Acidentes Mgicos. Est aqui
como meu convidado.
        -        Que... que bom - disse o Sr. Weasley com um sorriso muito forado.
        Os olhos do Sr. Malfoy se voltaram para Hermione, que corou de leve, mas retribuiu o seu olhar com determinao. Harry sabia exatamente o que estava fazendo 
os lbios do Sr. Malfoy se crisparem. Os Malfoy se orgulhavam de ter o sangue puro; em outras palavras, consideravam qualquer pessoa que descendesse de trouxas, 
como Hermione, gente de segunda classe. No entanto, sob o olhar do Ministro da Magia, o Sr. Malfoy no se atrevia a dizer nada. Acenou a cabea com desdm para o 
Sr. Weasley e continuou a avanar em direo aos lugares vazios. Draco lanou a Harry, Rony e Hermione um olhar de desprezo, depois se sentou entre a me e o pai.
        -        Babacas nojentos - murmurou Rony, quando ele, Harry e Hermione tornaram a se virar para o campo. No momento, seguinte, Ludo Bagman adentrou o camarote 
de honra.
        -        Todos prontos? - perguntou ele, o rosto redondo e excitado brilhando como um queijo holands. - Ministro, podemos
comear?
        -        Quando voc quiser, Ludo - disse Fudge descontrado.
        Ludo puxou a varinha, apontou-a para a prpria garganta, disse "Sonorus!" e ento, sobrepondo-se  zoeira que agora enchia o estdio lotado falou; sua voz
reboou, ecoando em cada canto das arquibancadas:
        "Senhoras e senhores... bem-vindos! Bem-vindos  final da quadricentsima vigsima segunda Copa Mundial de Quadribol!"
        Os espectadores gritaram e bateram palmas. Milhares de bandeiras se agitaram, somando seus desafinados hinos nacionais 
#85
barulheira geral. O grande quadro-negro defronte apagou a mensagem (Feijezinhos de todos os sabores Beto Botts - um risco cada dentada!) e passou a informar BULGRIA:
ZERO, IRLANDA:        ZERO.
"E agora, sem mais demora, vamos apresentar... os mascotes do
        time blgaro!"
        O        lado direito das arquibancadas, que era uma massa compac ta e vermelha, berrou manifestando sua aprovao.
        -        Que ser que eles trouxeram? - comentou o Sr. Weasley curvando-se para a frente na cadeira. - Ah-ha! - Ele de
repente
tirou os culos e limpou-os depressa nas vestes. - Veela!.
-        Que so Veela..?
                   Mas cem veela deslizaram pelo campo e a pergunta de
Harthu        ficou respondida. Veela eram mulheres... as mulheres mais belas
                que Harry j vira... s que no eram - no podiam ser - humanas
                Isto deixou Harry intrigado por alguns momentos, tentando
adivinhar o que poderiam ser exatamente; que  que faria a pele dela
                refulgir como o luar ou os cabelos louro-prateados se abrirem en
                leque para trs sem haver vento... mas ento a msica comeou
                tocar e Harry parou de se preocupar se elas seriam ou no
humanas.
                - na realidade, parou de se preocupar com tudo.
                   As veela comearam a danar e a cabea de Harry ficou 
completa e bem-aventuradamente vazia. Tudo que importava no
                mundo era continuar a assistir s veela, porque se elas parassem
de
                danar coisas terrveis iriam acontecer...
                   E enquanto as veela danavam cada vez mais
rapidament,
                pensamentos incompletos e delirantes comearam a se formar
na
                mente atordoada de Harry. Ele queria fazer uma coisa bem 
impressionante naquele momento. Atirar-se do camarote para o estdio
                lhe pareceu uma boa idia... mas seria suficiente?
                  - Harry, que  que voc est fazendo? - ele ouviu l longe
avoz
                de Hermione.
                   A msica parou. Harry piscou os olhos. Ele estava em
p,
 aotinha uma das pernas passada por cima da borda do camarote. -
lado dele, Rony estava paralisado numa posio que dava a impresso de que ia saltar de um trampolim.
           Gritos indignados comearam a encher o estdio. A multido
no queria que as veela se retirassem. Harry concordava; ele iria,
                claro, torcer pela Bulgria, e se perguntou meio vagamente
porque
#        86
 estava usando um grande trevo verde preso ao peito. Entrementes, Rony, distraidamente, despetalava os trevos do chapu. O Sr. Weasley, sorrindo, curvou-se para 
Rony
e tirou o chapu das mos do filho.
        - Voc vai querer isso depois - disse ele -, depois que a Irlanda disser a que veio.
        - Hum? - exclamou Rony fixando, boquiaberto, as veela, que agora estavam enfileiradas a um lado do campo.
        Hermione deu um muxoxo alto. Esticou o brao e puxou
Harry de volta  cadeira dele.
-        Francamente!- exclamou.
        "E agora - trovejou Ludo Bagman - por favor levantem as
varinhas bem alto... para receber os mascotes do time nacional da
Irlanda!"
        No instante seguinte, algo que lembrava um imenso cometa
verde e ouro entrou velozmente no estdio. Deu uma volta completa, depois se subdividiu em dois cometas menores, que se
projetavam em direo s balizas. De repente, um arco-ris atravessou o cu
do campo unindo as duas esferas luminosas. A multido fazia "aaaaah" e "ooooh", como se presenciasse um espetculo de fogos de artifcio. Depois o arco-ris foi-se
dissolvendo e as esferas se aproximaram e se fundiram; tinham formado um grande trevo refulgente, que subiu em direo ao cu e ficou pairando sobre as arquibancadas.
Parecia estar deixando cair uma espcie de chuva dourada...
        - Excelente! - berrou Rony, quando o trevo sobrevoou o camarote, fazendo chover pesadas moedas de ouro, que ricocheteavam nas cabeas e cadeiras. Apertando
os olhos para ver melhor o trevo, Harry percebeu que na realidade ele era composto de milhares de homenzinhos barbudos de colete vermelho, cada qual carregando uma
minscula luz ouro-e-verde.
        - Leprechauns!- exclamou o Sr. Weasley, fazendo-se ouvir em meio ao tumultuoso aplauso dos espectadores, muitos dos quais continuavam a disputar o ouro e
a procur-lo por todo o lado em volta e embaixo das cadeiras.
        - Toma aqui, Harry - gritou Rony feliz, metendo um punhado de moedas de ouro na mo do amigo. - Pelo oniculo! Agora
voc vai ter que me comprar um presente de Natal, ha!
        O maior dos trevos se dissolveu e os leprechauns, que so duendes irlandeses, foram descendo no lado do campo oposto ao das
veela, e se sentaram de pernas cruzadas para assistir  partida.
#87
        "E agora, senhoras e senhores, vamos dar as boas-vindas... ao time nacional de quadribol da Bulgria! Apresentando, por ordem
de entrada... Dimitrov!"
        Um vulto vermelho montado em uma vassoura, que voava to veloz que parecia um borro, disparou pelo campo, vindo de uma entrada l embaixo, sob o aplauso
frentico dos torcedores da Bulgria.
        "Ivanova!"
        Um segundo jogador de vermelho passou zunindo.
        "Zografi Levski! Vulchanov! Volkov! Eeeeeeeee... Krum!"
        -  ele,  ele! - berrou Rony, acompanhando Krum com o oniculo; Harry focalizou rapidamente o dele.
        Vtor Krum era magro, moreno, de pele macilenta, com um narigo adunco e sobrancelhas muito espessas e negras. Lembrava uma ave de rapina grande demais.
Era difcil acreditar que tivesse apenas dezoito anos.
        "E agora vamos saudar... o time nacional de quadribol da
Irlanda!", berrou Bagman. "Apresentando... Connolly! Ryan! Troy!
Mullet! Moran! Quigley! Eeeeeee... Lynch!"
        Sete borres entraram velozes no campo; Harry girou um pequeno boto lateral no oniculo e reduziu a velocidade da imagem o suficiente para ler "Firebolt"
em cada uma das vassouras, e ver os nomes, bordados em prata, nas costas dos jogadores.
"E conosco, das terras distantes do Egito, o nosso juiz, o famoso bruxo-presidente da Associao Internacional de Quadribol,
Hassan Mostafa!"
        Um bruxo mido e magro, completamente careca, mas com uma bigodeira que rivalizava a do tio Vlter, entrou em campo trajando vestes de ouro puro para combinar
com o estdio. Um apito de prata saa por baixo dos bigodes e ele sobraava de um lado uma grande caixa de madeira e, do outro, sua vassoura. Harry girou o boto
de velocidade do seu oniculo para a posio normal, e observou com ateno Mostafa montar a vassoura e abrir a caixa com um pontap - quatro bolas se projetaram
no ar; a goles vermelha, os dois balaos pretos e (Harry o viu por um brevssimo instante antes que ele desaparecesse de vista) o minsculo pomo alado
        de ouro. Com um silvo forte e curto do apito, Mostafa saiu pelos
                ares acompanhando as bolas.
                   "COOOOOOOOOooMEou a partida!", berrou Bagman.
#        88
" Muler! Troy! Moran! Dimirrov! De volta a Muler! Troy! Levski! Moran!"
        Era quadribol como Harry nunca vira ningum jogar antes. Ele apertava o oniculo com tanta fora contra os olhos que seus culos estavam comeando a cortar
a ponta do nariz. A velocidade dos jogadores era incrvel - os artilheiros jogavam a bola um para o outro to depressa que Bagman s tinha tempo de identific-los.
Harry tornou a girar o boto do lado direito do oniculo para reduzir a velocidade da imagem, apertou o boto "lance a lance" e na mesma hora estava assistindo ao
jogo em cmara lenta, enquanto letras prpuras passavam brilhando pelas lentes do instrumento, e o rugido da multido martelava seus tmpanos!
        Formao de ataque de Hawkshead - leu ele enquanto assistia a trs artilheiros irlandeses voarem juntos, Troy no meio, um pouco  frente de Mullet e Moran,
e investirem contra os blgaros. - Manobra de Ploy, leu ele em seguida, quando Troy fingiu que ia subir com a goles, atraindo a artilheira blgara Ivanova, e deixou
cair a bola para Moran. Um dos batedores blgaros, Volkov rebateu violentamente, com o seu pequeno basto, um balao que passava, derrubando-o no caminho de Moran;
Moran se abaixou para evitar o balao e soltou a goles; e Levski, que voava mais abaixo, apanhou-a...
        "GOL DE TROY!", berrou Bagman, e o estdio estremeceu
com o rugido dos aplausos e vivas. "Dez a zero para a Irlanda?"
        - Qu? - berrou Harry nervoso, observando o campo com o oniculo. - Mas Levski  que est com a goles!
        - Harry, se voc no observar em velocidade normal, vai perder todos os lances! - gritou Hermione, que danava aos pulos, agitando os braos no ar, enquanto
Troy dava uma volta no campo para comemorar o gol. Harry espiou depressa por cima do oniculo e viu que os leprechauns, que assistiam ao jogo na extremidade do campo,
tinham novamente levantado vo e formavam o grande trevo refulgente. Na outra extremidade, as veela assistiram a essa exibio em silncio.
        Furioso consigo mesmo, Harry girou o boto de volta  velocidade normal quando o jogo recomeou.
        Harry entendia o suficiente de quadribol para saber que os
artilheiros irlandeses eram fantsticos. Deslocavam-se em harmonia, parecendo ler o que ia nas mentes uns dos outros, pela maneira com que se posicionavam,
e a roseta no peito de Harry no parava
#89
de guinchar o nome deles: "Troy - Mullet - Moran!" Em dez minutos a Irlanda marcou mais duas vezes, elevando sua vantagem para trinta a zero e provocando uma
onda de gritos e aplausos dos torcedores de verde.
        A partida se tornou ainda mais rpida, porm mais brutal. Volkov e Vulchanov, os batedores blgaros, atiravam os balaos com bastonadas fortssimas nos artilheiros
irlandeses e estavam comeando a impedi-los de executar alguns dos seus
melhores movimentos; duas vezes eles foram obrigados a dispersar e ento, finalmente, Ivanova
conseguiu passar por eles, driblar o goleiro Ryan, e marcar o primeiro gol da Bulgria.
        -        Dedos nos ouvidos! - berrou o Sr. Weasley, quando as
veela comearam a danar comemorando o lance. Harry apertou os olhos, tambm; queria manter
a ateno no jogo. Passados alguns segundos, arriscou uma espiada no campo. As veela haviam parado de danar e a Bulgria recuperara a posse da goles.
        "Dimitrov! Levski! Dimitrov! Ivanova... ah, essa no!", berrou
Bagman.
        Cem mil bruxos e bruxas prenderam a respirao quando os dois apanhadores, Krum e Lynch, mergulharam no meio dos artilheiros, to velozes que pareciam ter
pulado sem pra-quedas de um avio. Harry acompanhou a descida deles com o oniculo, apurando a vista para procurar o pomo...
        - Eles vo colidir! - berrou Hermione ao lado de Harry.
        Hermione estava parcialmente certa - no ltimo segundo, Vtor Krum se recuperou do mergulho e se afastou em crculos. Lynch, no entanto, bateu no cho com
um baque surdo que pde ser ouvido em todo o estdio. Um enorme gemido subiu dos lugares ocupados pelos irlandeses.
        -        Idiota! - lamentou o Sr. Weasley. - Era uma finta de Krum!
        "Tempo!", berrou Bagman. "Os medibruxos vo entrar em
campo para examinar Aidan Lynch!"
        -        Ele est bem, s levou um encontro! - disse Carlinhos tranquilizando Gina, que estava pendurada por cima da lateral do camarote, horrorizada. -
E isso era, naturalmente, o que Krum pretendera...
        Harry apertou depressa os botes de "repetio" e de "lance
por lance" no oniculo, girou o boto de velocidade e tornou a
levar o oniculo aos olhos.
#90
        Ele assistiu a Krum e Lynch mergulharem outra vez em cmara lenta. Finta de Wronski - uma manobra perigosa dos apanhadoresp leu Harry na legenda prpura
que passou pelas lentes. O garoto viu o rosto de Krum se contorcer, concentrando-se, quando o apanhador se recuperou do mergulho no ltimo instante, ao mesmo tempo
que Lynch se estatelava e compreendeu - Krum no vira pomo algum, estava s obrigando Lynch a imit-lo. O garoto jamais vira algum voar daquele jeito; Krum nem
parecia estar usando uma vassoura; deslocava-se com tanta facilidade pelos ares que parecia solto, sem peso. Harry tornou a ajustar o oniculo na posio normal
e focalizou Krum. O jogador voava em crculos bem acima de Lynch, que agora estava sendo reanimado pelos medibruxos com xcaras de poo. Harry focalizou o rosto
de Krum ainda mais de perto e viu seus olhos negros correndo para c e para l por todo o campo, trinta metros abaixo. Usava o tempo em que Lynch era reanimado para
procurar o pomo sem interferncia.
        Lynch se levantou finalmente, sob ruidosos vivas dos torcedores de verde, montou a Firebolt e deu impulso para o alto. Sua reanimao parecia ter dado 
Irlanda novas esperanas. Quando Mostafa tornou a soar o apito, os artilheiros entraram em ao com uma destreza que no se comparava a nada que Harry tivesse visto
at ento.
        Decorridos quinze minutos de velocidade e fria, a Irlanda acumulara uma vantagem de mais dez gols. Agora liderava por cento e trinta pontos a dez e a partida
estava comeando a ficar mais desleal.
        Quando Mullet disparou em direo s balizas mais uma vez, segurando firmemente a goles embaixo do brao, o goleiro blgaro, Zograf, correu ao encontro da 
jogadora. O que aconteceu foi to rpido que Harry no percebeu, mas subiu um grito de raiva da torcida irlandesa, e o silvo longo e agudo do apito de Mostafa informou 
que algum cometera uma falta.
        "E Mostafa repreende o goleiro blgaro pelo jogo bruto - usou
os cotovelos!", informa Bagman aos espectadores que berram. "E...
confirmando,  pnalti a favor da Irlanda."
        Os leprechauns, que haviam levantado vo, furiosos, como um enxame de marimbondos reluzentes, quando Mullet fora atingida, agora corriam a se juntar formando 
as palavras "HA! HA! HA!". As veela, do lado oposto do campo, levantaram-se de um salto, sacudiram os cabelos com raiva e recomearam a danar.
#91
E Como se fossem um, os garotos Weasley e Harry enfiaram os
                dedos nos ouvidos, mas Hermione, que no se dera a esse trabalho,
                logo em seguida puxou Harry pelo brao. O garoto se virou para
                olh-la, e ela puxou impacientemente os dedos que ele enfiara nos
                ouvidos.
                  - Olha o juiz! - disse a garota, rindo.
                   Harry olhou para o campo. Hassan Mostafa arerrissara bem
                diante das veela danantes, e estava agindo de modo realmente 
estranho. Flexionava os msculos e alisava os bigodes, muito agitado.
                   "Ora, isso no  admissvel!", disse Ludo Bagman, embora seu
                tom de voz fosse o de quem estava achando muita graa. "Algum
                a d um tapa nesse juiz!"
                   Um medibruxo entrou correndo em campo, os dedos enfiados
                nos ouvidos, e deu um baita chute nas canelas de Mostafa. O juiz
                pareceu voltar a si; Harry, que observava outra vez o jogo com o
                oniculo, viu que Mostafa parecia extremamente constrangido e
                gritava com as veela, que tinham parado de danar e pareciam estar
                se rebelando.
                   "E a no ser que eu muito me engane, Mostafa est de fato 
tentando despachar as mascotes do time da Bulgria!", comentou
                Bagman. "A est uma coisa que nunca vimos antes... ah, isso 
                capaz de dar confuso..."
                   E deu: os batedores blgaros, Volkov e Vulchanov, pousaram
                ao lado de Mostafa e comearam a discutir furiosamente com o
                juiz, gesticulando em direo aos leprechauns, que agora formavam
                alegremente as palavras "HI! HI RI!". Mostafa, porm, no se deixou 
impressionar com a argumentao dos blgaros; espetou o
                dedo indicador no ar, dizendo claramente a eles que voltassem ao
                ar e quando os jogadores se recusaram, ele puxou dois silvos breves
                no apito.
                   "Dois pnaltis a favor da Irlanda!", gritou Bagman, ao que a
                torcida blgara ululou de raiva. "E  melhor Volkov e Vulchanov
                voltarem a montar as vassouras...  isso a... e l vo eles... e Troy
                toma a goles..."
                   A partida agora atingira um nvel de ferocidade que 
ultrapassava tudo que os garotos j tinham visto. Os batedores dos dois lados
jogavam sem piedade: principalmente Volkov e Vulchanov pareciam nem ligar 
se os seus bastes estavam fazendo contato com balaos ou com gente, quando os giravam violentamente no ar.
#        92
Dimitrov disparou um balao em cima de Moran, que segurava a goles, e quase a derrubou da vassoura.
        - Falta!- urraram os torcedores irlandeses em unssono, todos de p como uma enorme onda verde.
        "Falta!", ecoou a voz de Ludo Bagman, magicamente ampliada. "Dimitrov 
esfola Moran - o jogador saiu com inteno de dar um encontro - e tem que 
ser outro pnalti - e a vem o apito!"
        Os leprechauns subiram ao ar mais uma vez e agora formaram uma gigantesca mo que fazia um gesto muito grosseiro para as veela. Ao verem isso, elas se descontrolaram.
Precipitaram-se pelo campo e comearam a atirar algo com o aspecto de bolas de fogo contra os duendes irlandeses. Observando com o oniculo, Harry viu que elas agora
no estavam nem remotamente belas. Muito ao contrrio, seus rostos comearam a se alongar para formar cabeas de aves com bicos afiados e crueis e irromperam asas
longas e escamosas dos seus ombros...
        - E a est, rapazes - berrou o Sr. Weasley se sobrepondo ao tumulto da multido embaixo -" est a a razo por que vocs no
devem se deixar levar s pelas aparncias!
        Bruxos do Ministrio invadiam o campo para separar as veela e os leprechauns, mas sem muito sucesso; entrementes a batalha no campo no era nada comparada
a que estava ocorrendo no ar. Harry se virava para c e para l, espiando pelo oniculo, pois a goles trocava de mos com a velocidade de uma bala...
        "Levski - Dimirrov - Moran - Troy - Mullet - Ivanova - Moran de novo - Moran -
um GOL DE MORAN!"
        Mas a gritaria da torcida irlandesa mal conseguia abafar os gritos agudos das veela, os estampidos que agora vinham das varinhas dos funcionrios do Ministrio
e os berros furiosos dos blgaros. A partida recomeou imediatamente; agora Levski estava com a posse da goles, agora Dimitrov...
        O        batedor irlands Quigley levantou com violncia o basto contra um balao que passava e arremessou-o com toda a fora contra Krum, que no se abaixou
com suficiente rapidez. O balao atingiu-o em cheio no rosto.
Ouviu-se um lamento ensurdecedor da multido; o nariz de
Krum parecia quebrado, saa sangue para todo lado, mas Hassan
Mostafa no apitou. Distraira-se e Harry no podia culp-lo; uma
#93
das veela atirara uma mo cheia de fogo e incendiara a cauda da vassoura do juiz.
Harry queria que algum percebesse que Krum estava ferido;
embora estivesse torcendo pela Irlanda, Krum era o jogador mais
fascinante em campo. Rony obviamente sentia o mesmo.
- Tempo! Ah, anda, ele no pode jogar assim, olha s para ele...
-        Olha o Lynch!- berrou Harry.
O        apanhador irlands repentinamente mergulhara e Harry
                teve certeza de que aquilo no era uma Finta de Wronski; era para
                valer...
                  - Ele viu o pomo! - berrou Harry. - Ele viu! Olha l ele correndo!
                   Metade da multido parecia ter compreendido o que estava
                acontecendo, a torcida irlandesa se levantou como uma grande
                onda verde, animando o apanhador... mas Krum voava na esteira
                dele. Como conseguia enxergar aonde ia, Harry no fazia idia;
                gotas de sangue voavam pelo ar  sua passagem, mas ele 
emparelhava com Lynch agora e os dois disparavam em direo ao cho...
                  - Eles vo bater! - esganiou-se Hermione.
                  - No vo! - berrou Rony.
                  - O Lynch vai! - gritou Harry.
                   E tinha razo - pela segunda vez, Lynch bateu no cho com
                um tremendo impacto e foi imediatamente pisoteado por uma
                horda de veela raivosas.
                  - O pomo, onde  que est o pomo? - berrou Carlinhos, mais
                adiante na fila.
                  - Ele pegou, Krum pegou, terminou o jogo! - gritou Harry.
                   Krum, as vestes vermelhas tintas com o sangue que escorrera
                do seu nariz, tornava a levantar vo suavemente, o punho erguido
                l no alto, um brilho de ouro na mo.
                   O placar piscou por cima da multido da BULGRIA: CENTO E
                SESSENTA; IRLANDA: CENTO E SETENTA, mas os torcedores
                no pareciam ter percebido o que acontecera. Ento, lentamente,
                como se um grande jumbo comeasse a aquecer as turbinas, o rugido
 da torcida da Irlanda foi se avolumando e explodiu em urros de
alegria.
                   "VENCE A IRLANDA!", gritou Bagman, que, como os irlandeses,
parecia estar espantado com o inesperado desfecho da partida.
#94
 "KRUM CAPTURA O POMO - MAS VENCE A IRLANDA -
Deus do cu, acho que nenhum de ns esperava uma coisa dessas!"
        - Para que foi que ele agarrou o pomo? - berrou Rony, ao mesmo tempo que continuava a pular, aplaudindo com as mos no alto. - Ele encerrou a partida quando
a Irlanda estava cento e sessenta pontos  frente, o idiota!
        - Ele sabia que o time no ia conseguir se recuperar - respondeu Harry aos gritos, tentando se sobrepor  zoeira geral e aplaudindo com estrpito -" os artilheiros
irlandeses eram bons demais... ele queria encerrar a partida nos termos dele, foi s...
        - Ele foi valente, no foi? - comentou Hermione esticando-se  frente para ver Krum pousar e um enxame de medibruxos abrir caminho  fora entre os briguentos
leprechauns e as veela que brigavam para chegar ao apanhador. - Ele est pavoroso...
        Harry tornou a levar o oniculo aos olhos. Era difcil ver o que estava acontecendo l embaixo, porque os leprechauns sobrevoavam o campo felizes e em grande
velocidade, mas ele conseguiu divisar Krum, rodeado por medibruxos. Parecia mais carrancudo que nunca e se recusava a deixar que o limpassem. Seus colegas de time
o rodeavam, sacudindo a cabea, arrasados; um pouco adiante, os jogadores irlandeses danavam felizes sob a chuva de ouro que seus mascotes faziam cair. Bandeiras
se agitavam pelo estdio, o hino nacional irlands tocava altssimo por todo lado; as veela revertiam  beleza de sempre, mas pareciam desanimadas e infelizes.
        -        Pom, prrigamosfalentemente - disse uma voz triste atrs de Harry. Ele se virou para olhar; era o Ministro da Magia blgaro.
        - O senhor fala a nossa lngua! - exclamou Fudge indignado. - E vem me obrigando a falar por mmica o dia inteiro!
        - Pom, foi muito engrraado - disse o ministro blgaro, encolhendo os ombros.
        "E enquanto o time irlands d a volta olmpica, ladeado pelos
mascotes, a Copa Mundial de Quadribol est sendo levada para o
camarote de honra!", berrou Bagman.
        A viso de Harry foi repenrinamente ofuscada por uma luz branca, o camarote de honra foi magicamente iluminado para que todos os espectadores nas arquibancadas
pudessem ver o seu interior. Apertando os olhos na direo da porta, ele viu dois bruxos ofegantes entrarem no camarote com uma imensa taa de ouro,
#95
que foi entregue a Cornlio Fudge, ainda muito aborrecido por ter passado o dia falando com as mos  toa.
        "Vamos aplaudir com vontade os galantes perdedores - Bulgria!", gritou Bagman.
        E pelas escadas entraram os sete jogadores derrotados. A multido aplaudiu manifestando o seu apreo; Harry viu milhares e milhares de lentes de oniculo
faiscarem e lampejarem em sua direo.
        Um a um, os blgaros se acomodaram nas filas de cadeiras do camarote e Bagman chamou-os, nome por nome, para apertarem a mo do seu ministro e depois a de
Fudge. Krum, que foi o ltimo da fila, estava com uma aparncia medonha. Seus olhos negros se destacavam espetacularmente no rosto ensangentado. Continuava a segurar
o pomo. Harry reparou que ele parecia muito menos coordenado em terra. Andava com os ps meio para fora e seus ombros eram visivelmente cados. Mas quando o nome
de Krum foi anunciado, o estdio inteiro lhe deu uma ovao de rachar os tmpanos.
        Depois foi a vez do time irlands. Aldan Lynch veio amparado por Moran e Connolly; a segunda coliso parecia t-lo atordoado e seus olhos pareciam estranhamente
fora de foco. Mas ele sorriu com alegria quando Troy e Quigley ergueram a Copa no ar e a multido embaixo fez ouvir sua aprovao. As mos de Harry estavam insensveis
de tanto aplaudir.
        Finalmente, quando o time irlands deixou o camarote para dar mais uma volta olmpica montado nas vassouras (Aidan Lynch na garupa de Connolly, agarrado
 sua cintura e ainda sorrindo abobalhado), Bagman apontou a varinha para a prpria garganta e murmurou Quietus.
        - Eles vo comentar isso durante anos - disse ele rouco -" uma reviravolta realmente inesperada, essa... pena que no pudesse ter
durado mais... ah sim... sim, devo a vocs... quanto?
        Pois Fred e Jorge tinham acabado de saltar por cima de suas
cadeiras e estavam parados diante de Ludo Bagman com enormes
sorrisos no rosto, as mos estendidas.
    #96

*****


CAPTULO NOVE
A Marca Negra


-        No conte  sua me que andou apostando - implorou o Sr. Weasley a Fred e Jorge, quando juntos desciam, lentamente, as escadas forradas com carpete prpura.
        -        No se preocupe, papai - disse Fred feliz -" temos grandes planos para esse dinheiro, no queremos que ele seja confiscado.
        Por um instante, pareceu que o Sr. Weasley ia perguntar que
grandes planos eram aqueles, mas em seguida, pensando melhor,
decidiu que no queria saber.
        Logo eles foram engolfados pela multido que saa do estdio e regressava aos acampamentos. O ar da noite trazia aos seus ouvidos cantorias desafinadas quando 
retomavam o caminho iluminado por lanternas, os leprechauns continuavam a sobrevoar a rea em alta velocidade, rindo, tagarelando, sacudindo as lanternas. Quando 
os garotos chegaram finalmente s barracas, ningum estava com vontade de dormir e, dado o nvel da barulheira, a toda volta, o Sr. Weasley concordou que podiam 
tomar, juntos, uma ltima xcara de chocolate, antes de se deitar. Logo estavam discutindo prazerosamente a partida; o Sr. Weasley se deixou envolver por Carlinhos
em uma polmica sobre jogo bruto, e somente quando Gina caiu no sono em cima da mesinha e derramou chocolate quente pelo cho que o pai deu um basta nas retrospectivas 
verbais e insistiu que todos fossem se deitar. Hermione e Gina se transferiram para a barraca vizinha e Harry e os Weasley vestiram os pijamas e subiram nos beliches. 
Do outro lado do acampamento eles ainda ouviam muita cantoria e uma batida que ecoava estranhamente.
        -        Ah, fico feliz de no estar de servio - murmurou o Sr. Weasley cheio de sono. - Eu no iria gostar nem um pouco de ter que
dizer aos irlandeses que eles precisam parar de comemorar.        
        Harry, que ocupava a cama superior do beliche de Rony, ficou
olhando para o teto de lona da barraca, observando o brilho
#97

ocasional das lanternas dos leprechauns que sobrevoavam o acampamento e visualizando alguns dos lances mais espetaculares de Krum. Estava doido pata tornar a montar
sua Firebolt e experimentar a Finta de Wronski... por alguma razo Olvio Wood jamais conseguira transmitir como era aquele lance com os seus diagramas complicados...
Harry se viu usando vestes com seu nome nas costas e imaginou a sensao de ouvir uma multido de cem mil pessoas berrando, enquanto a voz de Ludo Bagman ecoava
pelo estdio "Com vocs ... Potter!"
        Harry jamais chegou a saber se adormecera ou no - seus devaneos de voar como Krum talvez tivessem se transformado em sonhos
de verdade -, s sabia que, de repente ouviu o Sr. Weasley gritar.
        - Levantem! Rony, Harry, vamos logo, levantem,  urgente!
        Harry se sentou depressa e seu cocuruto bateu na lona do teto.
        - Que foi? - perguntou.
        Vagamente ele percebeu que alguma coisa no estava bem. O barulho no acampamento tinha mudado. A cantoria parara. Ele
ouvia gritos e um tropel de gente correndo.
        Harry desceu do beliche e apanhou suas roupas, mas o Sr.
Weasley, que vestira a jeans por cima do pijama, falou:
        - No temos tempo, Harry, apanhe uma jaqueta e saia, depressa!
        Harry obedeceu e saiu correndo da barraca, com Rony nos
seus calcanhares.
         luz das poucas fogueiras que ainda ardiam, viu gente correndo para a floresta, fugindo de alguma coisa que avanava pelo acampamento em sua direo, alguma
coisa que emitia estranhos lampejos e rudos que lembravam tiros. Caoadas em voz alta, risadas e berros de bbedos se aproximavam; depois uma forte exploso de
luz verde, que iluminou a cena.
        Um grupo compacto de bruxos, que se moviam ao mesmo tempo e apontavam as varinhas para o alto, vinha marchando pelo acampamento. Harry apertou os olhos para
enxerg-los... no pareciam ter rostos... ento ele percebeu que tinham as cabeas encapuzadas e os rostos mascarados. No alto, pairando sobre eles no ar, quatro
-figuras se debatiam, foradas a assumir formas grotescas. Era como se os bruxos mascarados no cho fossem
titereiros e as pessoas no alto, marionetes movidas por
cordes invisveis que subiam das varinhas erguidas. Duas das figuras eram muito pequenas.
#98
                    Mais bruxos foram se reunindo ao grupo que marchava, riam
                e apontavam para os corpos no ar. Barracas se fechavam e
desabavam  medida que a multido engrossava. Uma ou duas vezes
                Harry viu um bruxo explodir uma barraca com a varinha para
                desimpedir o caminho. Outras tantas pegaram fogo. A gritaria foi
                se avolumando.
                   As pessoas no ar foram repentinamente iluminadas ao passarem
sobre uma barraca em chamas, e Harry reconheceu uma delas
                - o Sr. Roberrs, o gerente do acampamento. As outras trs, pelo
                jeito, deviam ser sua mulher e seus filhos. Um dos arruaceiros virou
                a Sra. Roberts de cabea para baixo com a varinha; a camisola dela
                caiu deixando  mostra suas enormes calas; ela tentava se cobrir
                enquanto a multido embaixo dava guinchos e vaias de alegria.
                  - Que coisa doentia - murmurou Rony, observando a menor
                das crianas trouxas, que comeara a rodopiar feito um pio, quase
                vinte metros acima do cho, a cabea sacudindo molemente de um
                lado para outro. - Que coisa realmente doentia...
                   Hermione e Gina vieram correndo ao encontro dos garotos,
                vestindo casacos por cima das camisolas, seguidas de perto pelo Sr.
                Weasley. No mesmo momento, Gui, Carlinhos e Percy saram da
barraca dos garotos inteiramente vestidos, com as mangas enroladas e as varinhas em punho.
                  - Vamos ajudar o pessoal do Ministrio - gritou o Sr. Weasley
                para ser ouvido com aquele barulho, enrolando as prprias
mangas. - Vocs... vo para a floresta e fiquem juntos. Irei apanh-los
                quando resolvermos este problema aqui!
                   Gui, Carlinhos e Percy j estavam correndo em direo aos
baderneiros que se aproximavam; o Sr. Weasley saiu depressa atrs
dos filhos. Bruxos do Ministrio convergiam de todas as direes
para o foco do problema. A multido sob a famlia Roberts se aproximava
sempre mais.
                  - Anda - disse Fred, agarrando a mo de Gina e comeando a
                pux-la para a floresta. Harry, Rony, Hermione e Jorge os
acompanharam.
                   Todos olharam para trs ao alcanarem as rvores. Os
manifestantes sob a famlia Roberrs eram mais numerosos que nunca; os
garotos viram os bruxos do Ministrio tentando chegar aos bruxos
encapuzados no centro, mas encontravam grande dificuldade.
#99
Aparentemente estavam com medo de executar algum feitio que pudesse fazer a famlia Roberts despencar.
        As lanternas coloridas que antes iluminavam o caminho para o estdio tinham sido apagadas. Vultos escuros andavam perdidos entre as rvores; crianas choravam;
ecoavam gritos ansiosos e vozes cheias de pnico por todo o lado no ar frio da noite.
Harry se sentiu empurrado para c e para l por pessoas cujos rostos ele no
conseguia distinguir. Eles ouviram Rony dar um berro de dor.
        -        Que aconteceu? - perguntou Hermione ansiosa, parando to
abruptamente que Harry quase deu um encontro nela. - Rony,
onde  que voc est? Ah, mas que burrice... Lumus!
        Ela iluminou a varinha e apontou o fino feixe de luz para o
caminho. Rony estava esparramado no cho.
        -        Tropecei numa raiz de rvore - disse ele aborrecido,
pondo-se de p.
        -        Ora, com ps desse tamanho,  difcil no tropear - disse uma voz arrastada s costas deles.
        Harry, Rony e Hermione se viraram rapidamente. Draco Malfoy estava parado sozinho perto deles, encostado a uma rvore, numa atitude de total descontrao.
Os braos cruzados, parecia ter estado a contemplar a cena no acampamento por uma abertura entre as rvores.
        Rony disse a Malfoy que fosse fazer uma coisa que Harry sabia
que o amigo jamais teria se atrevido a dizer na frente da Sra.
Weasley.
        -        Olha a boca suja, Weasley - disse Malfoy, seus olhos claros reluzindo. - No  melhor voc se apressar, agora? No quer que
#100
descubram sua amiga, no ?
Ele indicou Hermione com a cabea e, neste instante, ouviu-se
no acampamento uma exploso como a de uma bomba, e um relmpago verde iluminou momentaneamente as rvores  volta deles.
        -        Que  que voc quer dizer com isso? - perguntou Hermione em tom de desafio.
        -        Granger, eles esto caando trouxas - disse Malfoy. -Voc vai querer mostrar suas calcinhas no ar? Porque se quiser, fique por
aqui mesmo... eles esto vindo nessa direo, e todos vamos dar
boas gargalhadas.
        -        Hermione  bruxa - rosnou Harry.
        -        Faa como quiser, Potter - disse Malfoy sorrindo
maliciosamente.
#101
 - Se voc acha que eles no so capazes de identificar um Sangue Ruim, fique onde est.
        -        Voc  que devia olhar sua boca suja! - gritou Rony. Todos os presentes sabiam que "Sangue Ruim" era uma palavra muito ofensiva a uma bruxa ou bruxo
de pais trouxas.
        -        Deixa para l, Rony - disse Hermione depressa, agarrando o amigo pelo brao para cont-lo, quando ele fez meno de avanar
em Malfoy.
        Ouviu-se um estampido do outro lado das rvores mais alto do
que qualquer dos anteriores. Vrias pessoas que estavam prximas
gritaram.
        Malfoy deu um risinho abafado.
        -        Eles se assustam  toa, no ? - disse com a fala mole. - Imagino que papai disse a vocs para se esconderem? Que  que ele
est fazendo, tentando salvar os trouxas?
        -        Onde esto os seus pais? - perguntou Harry, a raiva crescendo. - L no acampamento usando mscaras,  isso?
        Malfoy virou o rosto para Harry, ainda sorrindo.
        -        Ora... se eles estivessem, eu no iria dizer a voc, no  mesmo,
Potter?
        -        Ah, anda gente - disse Hermione, com um olhar de repugnncia para Malfoy -, vamos procurar os outros.
        -        Fica com essa cabeorra lanzuda abaixada, Granger - caoou Malfoy.
        - Anda gente - repetiu Hermione, e puxou Harry e Rony de volta ao caminho.
        -Aposto qualquer coisa como o pai dele um dos mascarados!
- disse Rony indignado.
        -        Bem, com um pouco de sorte, o Ministrio vai agarr-lo! - disse Hermione com veemncia. - Ah, no d para acreditar, onde
foi que os outros se meteram?
        Fred, Jorge e Gina no estavam em nenhum lugar  vista,
embora o caminho estivesse apinhado de pessoas, todas espiando
nervosamente a confuso no acampamento, por cima dos ombros.
        Um grupo de adolescentes de pijamas discutia em altos brados
um pouco adiante no caminho. Quando viram Harry, Rony e
Hermione, uma garota de cabelos espessos e crespos se virou e disse:
depressa:
-        Ou est Madame Maxime? Nous l"avons perdue...
#101
        -        Hum... qu? - perguntou Rony.
        -        Ah... - A menina que falara deu as costas para ele, e quando os garotos continuaram andando ouviram-na dizer claramente: - Ogwarts.
        -        Beauxbatons - murmurou Hermione.
        -        Como disse? - falou Harry.
        -        Devem estudar na Beauxbatons - esclareceu Hermione. - Voc sabe... Academia de Magia Beauxbatons... Li sobre ela em
Uma avaliao da educao em magia na Europa.
        -        Ah... sei... certo - disse Harry.
        -        Fred e Jorge no podem ter ido to longe assim - comentou
Rony puxando a varinha do bolso, acendendo-a como fizera
Hermione e esquadrinhando o caminho. Harry enfiou as mos nos
bolsos da jaqueta  procura da prpria varinha, mas no estava l.
A nica coisa que encontrou foi o seu omculo.
        -        Ah, no, eu no acredito... Perdi a minha varinha!
                - Est  brincando!
        Rony e Hermione ergueram bem as varinhas para projetar seus finos raios de luz mais  frente no caminho; Harry olhou para todo
lado, mas a varinha no estava visvel em lugar algum.
        -        Talvez tenha ficado na barraca - disse Rony.
        -        Talvez tenha cado do seu bolso quando voc estava correndo? - sugeriu Hermione ansiosa.
        -         - falou Harry -, talvez...
        Em geral ele a carregava o tempo todo quando estava no
mundo dos bruxos, e vendo-se sem a varinha no meio de uma confuso daquelas sentiu-se extremamente vulnervel.
        Um rumorejar fez os trs se sobressaltarem. Winky, a elfo domstica, estava tentando sair de uma moita de arbustos ali perto. Movia-se de um jeito esquisitssimo,
com visvel dificuldade; era como se algum invisvel estivesse tentando segur-la.
        -        Tem bruxos malvados aqui! - guinchou ela nervosa, ao se curvar para a frente e se esforar para correr. - Gente voando... l
no alto! Winky est saindo do caminho!
        E desapareceu entre as rvores do outro lado da via, ofegando
e guinchando enquanto lutava com a fora que a retinha.
        - Que  que h com ela? - perguntou Rony, acompanhando-a
com o olhar, curioso. - Por que ela no consegue correr direito?
        -        Aposto como no pediu permisso para se esconder - disse
#        102
Harry. Estava se lembrando de Dobby: todas as vezes que tentava fazer alguma coisa que os Malfoy no gostariam, era forado a bater em si mesmo.
        -        Sabem, os elfos domsticos tm uma vida durssima! - disse Hermione indignada. -  escravido, isso  que ! Aquele Sr. Crouch fez Winky subir at
o topo do estdio, e ela estava aterrorizada, e enfeitiou ela dessa maneira para que nem possa correr quando eles comeam a pisotear barracas! Por que ningum faz
nada para acabar com uma situao dessas?
        -        U, os elfos so felizes, no so? - admirou-se Rony. - Voc ouviu a Winky durante a partida... "Elfos domsticos no devem se
divertir"...  disso que ela gosta, que mandem nela...
        -         gente como voc, Rony - comeou Hermione com veemncia -, que sustenta sistemas podres e injustos, s porque so
preguiosos demais para...
        Um novo estrondo ecoou na orla da floresta.
        -        Vamos continuar andando, vamos? - disse Rony, e Harry o viu olhar irritado para Hermione. Talvez fosse verdade o que Malfoy dissera; talvez Hermione
estivesse em maior perigo do que eles. Recomearam a andar, Harry ainda revistando os bolsos, embora soubesse que a varinha no estava ali.
        Os garotos seguiram o caminho que se aprofundava na floresta, atentos para avistarem Fred, Jorge e Gina. Passaram por um grupo de duendes que davam gargalhadas
 vista de um saco de ouro que, sem dvida, deviam ter ganho apostando na partida, e que pareciam imperturbveis diante da confuso no acampamento. Mais adiante,
depararam com um trecho iluminado por uma luz prateada e, quando espiaram entre as rvores, viram trs veela altas e belas paradas em uma clareira e cercadas por
um bando de jovens bruxos barulhentos, todos falando em altos brados.
        -        Ganho uns cem sacos de galees por ano - gritava um. - Mato drages para a Comisso para Eliminao de Criaturas Perigosas.
        -        Mata nada - berrou seu amigo -, voc lava pratos no Caldeiro Furado... mas eu sou caador de vampiros, j matei uns
noventa at agora...
        Um terceiro bruxo, cujas espinhas eram visveis at  luz fraca
e prateada das veela, entrou nesse instante na conversa:
#103
        -        Eu estou s vsperas de me tornar o Ministro da Magia mais novo de todos os tempos.
        Harry deu risadinhas abafadas. Reconheceu o bruxo espinhento; o nome dele era
Stanislau Shunpike, e era, na realidade, condutor do Nitibus Andante.
Ele se virou para dizer isso  Rony, mas o rosto do amigo se
afrouxara estranhamente e no segundo seguinte Rony estava gritando:
        -        Eu j disse a vocs que inventei uma vassoura que pode chegar a Jpiter?
        -        Francamente! - tornou a exclamar Hermione, e ela e Harry agarraram Rony pelos braos com firmeza, viraram-no e saram andando com ele. Quando a
algazarra das veela com seus admiradores se tornou completamente inaudvel, os trs j estavam no corao da floresta. Pareciam estar sozinhos agora; tudo estava
muito mais quieto.
        Harry espiou para os lados.
        -        Acho que podemos esperar aqui, sabe, d para ouvir uma pessoa chegando a mais de um quilmetro.
        Nem bem ele dissera essas palavras, Ludo Bagman saiu de trs
de uma rvore um pouco adiante.
        Mesmo  luz fraca das duas varinhas, Harry viu que uma grande mudana se operara em Bagman. Ele j no parecia displicente e rosado; no havia mais elasticidade 
em seu andar. Parecia muito plido e cansado.
        -        Quem est a? - perguntou o bruxo, piscando os olhos, tentando distinguir os rostos dos garotos. - Que  que vocs esto
fazendo aqui sozinhos?
Eles se entreolharam surpresos.
        -        Bem... est acontecendo um tumulto - disse Rony.
Bagman arregalou os olhos para ele.
        -        Qu?
        -        No acampamento... umas pessoas agarraram uma famlia de trouxas...
        Bagman praguejou em voz alta.
        -        Desgraados! - Ele pareceu ficar muito perturbado e, sem
 dizer mais nada, desaparatou com um pequeno estalo.
        -        No anda muito bem informado o Sr. Bagman, no ? - comentou Hermione franzindo a testa.
#104
        -        Mas ele foi um grande batedor - disse Rony e, adiantandose aos amigos, rumou para uma pequena clareira e se sentou em um trecho de grama seca ao
p de uma rvore. - Os Wimbourne Wasps foram campees trs vezes seguidas quando ele fazia parte do time.
        Tirou, ento, a pequena esttua de Krum do bolso, colocou-a no cho e ficou por instantes observando-a andar. Igualzinho ao Krum verdadeiro, o modelo andava 
com os ps para fora e tinha os ombros cados, bem menos impressionante andando feito pato do que montado na vassoura. Harry escutou com ateno se vinha algum barulho 
do acampamento. Tudo parecia silencioso; talvez o tumulto tivesse acabado.
        -        Espero que os outros estejam bem - disse Hermione depois de algum tempo.
        -        Esto - disse Rony;
        -        Imagine se o seu pai apanhar o Lcio Malfoy - disse Harry sentando-se ao lado de Rony para observar a estatueta de Krum andando por cima das folhas
secas. - Ele vive dizendo que gostaria de ter alguma coisa contra o Malfoy.
        -        Isso ia apagar aquele risinho na cara do nosso amigo Draco, ah, ia - disse Rony.
        -        Mas, e os coitados daqueles trouxas - lamentou Hermione nervosa. - E se no conseguirem trazer eles de volta ao cho?
        -        Vo conseguir - Rony tranquilizou a amiga -, vo arranjar um jeito.
        -        Mas  uma loucura fazer uma coisa daquelas com o
Ministrio da Magia em peso aqui hoje! Quero dizer, como  que eles
esperam se safar? Vocs acham que eles andaram bebendo ou s...
        Mas Hermione parou de falar abruptamente e espiou por cima do ombro. Harry e Rony tambm se viraram depressa. Parecia que algum estava cambaleando em direo
 clareira em que se encontravam. Eles esperaramp prestando ateno ao rudo dos passos desiguais por trs das rvores escuras. Mas os passos pararam repentinamente.
        -        Al? - chamou Harry.
        Silncio. Harry se levantou e espiou atrs da rvore. Estava
escuro para ver muito longe, mas ele sentia que havia algum logo 
alm do seu campo de viso.
        -        Quem est a? - perguntou.
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        E ento, sem aviso, o silncio foi rompido por uma voz diferente de todas que tinham ouvido antes; e ela no soltou um grito,
mas algo que lembrava um feitio.
- MORSMORDRE!
        E uma coisa enorme, verde e brilhante, irrompeu do lugar
escuro que os olhos de Harry se esforaram para penetrar: e voou
para o topo das rvores e para o cu.
        -        Quem...? - exclamou Rony, ficando em p de um salto e arregalando os olhos para a coisa que aparecera.
        Por uma frao de segundo, Harry pensou que fosse outra formao de duendes irlandeses. Depois percebeu que era um crnio colossal, aparentemente composto
por estrelas de esmeralda e uma cobra saindo da boca como uma lngua. Enquanto olhavam, o crnio foi subindo cada vez mais alto, envolto em uma nvoa de fumaa esverdeada,
recortando-se contra o cu noturno como uma nova constelao.
        De repente, toda a floresta ao redor deles explodiu em gritos. Harry no entendeu o motivo, mas o nico possvel era a sbita apario do crnio, que agora
estava alto o suficiente para iluminar toda a floresta, como um letreiro macabro de non. Ele esquadrinhou a escurido  procura da pessoa que conjurara o crnio,
mas no conseguiu ver ningum.
        -        Quem est a? - chamou ele mais uma vez.
        -        Harry, vamos, anda! - Hermione agarrou-o pelas costas da jaqueta e o puxou para tras.
        -        Que foi? - perguntou Harry, espantado de ver a cara da amiga to branca e aterrorizada.
        -         a Marca Negra, Harry! - gemeu Hermione, puxando-o com toda a fora que podia. - O sinal do Voc-Sabe-Quem!
- Do Voldemort...?
        -        Harry, anda logo!
        Harry se virou - Rony estava recolhendo depressa a miniatura de Krum -, os trs comearam a atravessar a clareira - mas antes que conseguissem dar mais de
cem passos, uma srie de estalos anunciaram a chegada de vinte bruxos, sados do nada, a toda volta.
        Harry se virou e numa frao de segundo registrou um fato:
cada um dos bruxos puxara a varinha, e cada varinha estava apontada para ele, Rony e Hermione. Sem parar para pensar, berrou:
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        -        ABAIXA! - Ele agarrou os dois amigos e puxou-os para o cho.
        -        ES TUPEFA A! - berraram vinte vozes desencadeando uma srie de lampejos, e Harry sentiu seus cabelos ondularem como se um vento poderoso tivesse
varrido a clareira. Ao erguer a cabea um centimetrozinho, ele viu jorros de luz flamejante sairem das varinhas dos bruxos e sobrevoarem seus corpos, entrecruzando-se,
ricocheteando nos troncos das rvores, saltando para a escurido...
        -        Parem! - berrou uma voz que ele reconheceu. - PAREM!  o meu filho!
        Os cabelos de Harry pararam de voar para todos os lados. Ele levantou a cabea mais um pouquinho. O bruxo diante dele baixara a varinha. O garoto rolou o
corpo e viu o Sr. Weasley vindo em direo ao ajuntamento, com uma expresso aterrorizada no
rosto.
        -        Rony, Harry... - sua voz tremia - ... Hermione, vocs esto bem?
        -        Saia do caminho, Arthur - disse uma voz fria e rspida.
        Era o Sr. Crouch. Ele e os outros bruxos do Ministrio fechavam o cerco em torno dos garotos. Harry levantou-se para encarlos. O rosto do Sr. Crouch estava
tenso de clera.
        -        Qual de vocs fez aquilo? - perguntou aborrecido, seus olhos penetrantes indo de um garoto para o outro. - Qual de vocs conjurou a Marca Negra?
        -        Ns no conjuramos aquilo! - respondeu Harry apontando o crnio.
        -        Ns no conjuramos nada! - disse Rony, que esfregava o cotovelo e olhava cheio de indignao para o pai. - Por que vocs
quiseram nos atacar?
        -        No minta, senhor! - gritou o Sr. Crouch. Sua varinha continuava apontada diretamente para Rony, e seus olhos saltavam das rbitas, parecia um tantinho
maluco. - Vocs foram encontrados na cena do crime!
        -        Bart - murmurou uma bruxa trajando um longo penhoar de
l -, eles so meninos, Bart, nunca teriam capacidade para...
        -        De onde saiu a marca? Respondam vocs trs - mandou o Sr. Weasley depressa.
        -        Dali - respondeu Hermione trmula, apontando para o
ponto em que tinham ouvido a voz -, havia algum atrs das rvores... gritou umas palavras, uma frmula mgica...
        -        Ah, havia gente parada ali,  mesmo? - disse o Sr. Crouch,
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virando seus olhos saltados para Hermione, a incredulidade estampada por todo o rosto. - Disseram uma frmula mgica, no foi? A senhorita parece multo bem informada
sobre as palavras que conjuram a Marca, senhorita...
        Mas nenhum dos bruxos do Ministrio, exceto o Sr. Crouch, achou nem remotamente provvel que Harry, Rony e Hermione tivessem conjurado o crnio; muito ao
contrrio, ao ouvirem as palavras de Hermione voltaram a erguer e apontar as varinhas na direo que ela indicara, procurando ver entre as rvores escuras.
        -        Tarde demais - disse a bruxa de penhoar de l, sacudindo a cabea. - J devem ter desaparatado.
        -        Acho que no - disse um bruxo com uma barba curta e castanha. Era Amos Diggory, o pai de Cedrico. - Os nossos raios passaram direto por aquelas
rvores... h uma boa chance de os termos atingido...
        -        Amos, cuidado! - disseram alguns bruxos em tom de alerta, quando o Sr. Diggory aprumou os ombros, ergueu a varinha, atravessou a clareira e desapareceu
na escurido. Hermione observou-o sumir, levando as mos  boca.
        Alguns segundos depois, eles ouviram o Sr. Diggory gritar.
        -        Acertamos, sim! Tem algum aqui! Inconsciente! ... mas... caramba...
        -        Voc pegou algum? - gritou o Sr. Crouch, parecendo muitssimo incrdulo. - Quem? Quem ?
        Eles ouviram gravetos se partirem, folhas farfalharem e, por fim, passos quando o Sr. Diggory reapareceu por trs das rvores. Trazia uma figura minscula
e inerte nos braos. Harry reconheceu a toalha de ch na mesma hora. Era Winky.
        O        Sr. Crouch no se mexeu nem falou enquanto o Sr. Diggory depositava o elfo do Sr. Crouch no cho aos seus ps. Todos os bruxos do Ministrio se
viraram para o Sr. Crouch. Durante alguns segundos o bruxo permaneceu paralisado, os olhos ardendo no rosto branco, olhando para Winky. Ento, ela pareceu voltar
 vida.
        -        Isto... no pode... ser - disse ele aos arrancos. - No...
        Contornou rpido o Sr. Diggory e saiu em direo ao lugar em
 que o bruxo encontrara Winky.
        -        No adianta, Sr. Crouch - gritou Diggory para ele. - No h mais ningum a.
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        Mas o Sr. Crouch no parecia disposto a aceitar sua palavra. Eles o ouviram andar por todo o lado, as folhas rumorejarem ao
serem afastadas para os lados, na busca.
        -        Meio embaraoso - disse o Sr. Diggory sombnamente, contemplando o corpo inconsciente de Winky. - O elfo domstico de
Bart Crouch... quero dizer...
        -        Pode parar, Amos - disse o Sr. Weasley baixinho. - Voc no acredita seriamente que foi o elfo? A Marca Negra  um sinal de
bruxo. Exige uma varinha.
        -         - disse o Sr. Diggory -, e havia uma varinha.
        -        Qu?- exclamou o Sr. Weasley.
        -        Olhe aqui. - O Sr. Diggory ergueu uma varinha e mostrou-a ao Sr. Weasley. - Estava na mo dela. Ento, para comear, violao da Clusula 3 do Cdigo
para o Uso de Varinhas. Nenhuma criatura no-humana tem permisso para portar ou usar uma varinha.
        Nesse instante ouviu-se mais um estalo e Ludo Bagman aparatou bem ao lado do Sr. Weasley. Parecendo sem flego e desorientado, ele girou no mesmo lugar,
com os olhos cravados no crnio verde-esmeralda no ceu.
        -        A Marca Negra! - ofegou ele, quase pisoteando Winky ao se virar, intrigado, para os colegas. - Quem fez isso? Vocs apanharam
quem fez? Bart! Que  que est acontecendo?
        O        Sr. Crouch voltara de mos vazias. Seu rosto continuava branco como o de um fantasma e torcia tanto os bigodes em escovinha quanto as maos.
        -        Onde  que voc andou, Bart? - perguntou Bagman. - Por que  que voc no assistiu  partida? E o seu elfo ficou guardando uma cadeira para voc...
Grgulas vorazes! - Bagman acabara de notar Winky cada aos seus ps. - Que foi que aconteceu com ela?
        -        Estive ocupado, Ludo - disse o Sr. Crouch, ainda falando aos arrancos como antes, e mal movendo os lbios. - E o meu elfo foi
estuporado.
- Estuporado? Por gente nossa voc quer dizer? Mas por qu...? De repente o rosto redondo e reluzente de Bagman revelou ter
compreendido; ele ergueu os olhos para o crnio, baixou-os para
Winky e, em seguida, ergueu-os para o Sr. Crouch.
        -        No! - exclamou ele. - Winky? Conjurou a Marca Negra? 
Ela no saberia fazer isso! Para comear precisaria de uma varinha!
        -        E tinha uma - disse o Sr. Diggory. - Encontrei-a segurando
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uma, Ludo. Se o senhor no se ope, Sr. Crouch, acho que devamos ouvir o que ela tem a dizer em sua defesa.
Crouch no deu sinal de ter ouvido o Sr. Diggory, mas este
pareceu tomar o silncio do outro por concordncia. Ergueu a varinha e apontando-a para Winky disse:
- Enervate!
        Winky mexeu-se fracamente. Seus grandes olhos castanhos se abriram e ela piscou vrias vezes de um jeito meio abobado. Observada pelos bruxos em silncio,
ergueu o tronco aos poucos e se sentou. Avistou, ento, os ps do Sr. Diggory e
lentamente, tremulamente, ergueu os olhos para fixar seu rosto; ento, mais lentamente
ainda, olhou para o cu. Harry viu o crnio flutuante refletir-se duas vezes em seus enormes olhos vidrados. Ela soltou uma
exclamao, olhou a clareira em volta, agitada, e irrompeu em soluos aterrorizados.
        -        Elfo! - disse o Sr. Diggory severamente. - Voc sabe quem eu sou? Sou do Departamento para Regulamentao e Controle das
Criaturas Mgicas!
        Winky comeou a se balanar no cho para a frente e para trs,
a respirao saindo em fortes arquejos. Harry teve que se lembrar
de Dobby em seus momentos de aterrorizada desobedincia.
        -        Como voc est vendo, elfo, a Marca Negra foi conjurada aqui h alguns instantes - disse o bruxo. - E voc foi descoberta,
pouco depois, logo embaixo dela! Sua explicao, por favor!
        -        Eu... eu... eu no estou fazendo isso, meu senhor! - Winky ofegou. - Eu no estou sabendo, meu senhor!
        -        Voc foi encontrada com uma varinha na mo! - vociferou o Sr. Diggory, brandindo a varinha diante dela. E quando a varinha refletiu a luz verde,
vinda do crnio no alto, que inundava a clareira, Harry a reconheceu.
        -        Ei...  minha! - disse.
        Todos na clareira olharam para o garoto.
        -        Perdo? - disse o Sr. Diggory incrdulo.
        -         a minha varinha! - repetiu Harry. - Deixei-a cair!
        -        Deixou-a cair? - repetiu o bruxo incrdulo. - Isto  uma confisso? Voc se desfez dela depois de conjurar a Marca?
        -        Amos, lembre-se de com quem est falando! - disse o Sr. Weasley, muito zangado. - Acha provvel que Harry Potter conjure
a Marca Negra?
#110
        -        Hum... claro que no - murmurou o Sr. Diggory. - Desculpem... me empolguei...
        -        Em todo o caso, no a deixei cair l - disse Harry, indicando com o polegar as rvores debaixo do crnio. - Dei por falta dela
logo depois que entramos na floresta.
        -        Ento - disse o Sr. Diggory, seu olhar endurecendo ao se virar novamente para Winky que se encolhia aos seus ps. - Voc encontrou a varinha, no
foi, elfo? E voc a apanhou e pensou em se divertir com ela,  isso?
        -        Eu no estava fazendo mgica com ela, meu senhor! - guinchou Winky, as lgrimas correndo pelos lados do nariz achatado e grande. - Eu estava...
eu estava... eu estava s apanhando ela, meu senhor! Eu no estava fazendo a Marca Negra, meu senhor, eu no sei fazer!
        -        No foi ela! - afirmou Hermione. Ela parecia muito nervosa, dizendo o que pensava diante de todos aqueles bruxos do
Ministrio, mas, ainda assim, decidida. - Winky tem uma vozinha esganiada e a voz que ouvimos dizer a frmula era muito mais grave! - Ela olhou para os lados 
procura de Harry e Rony,  procura de apoio. - No parecia nada com a voz da Winky, parecia?
        -        No - confirmou Harry, sacudindo a cabea. - Decididamente no parecia voz de elfo.
        -        , era uma voz humana - disse Rony.
        -        Bem, logo veremos - rosnou o Sr. Diggory, sem parecer se impressionar. - H uma maneira simples de descobrir o ltimo feitio que a varinha realizou,
voc sabia, elfo?
        Winky estremeceu e sacudiu a cabea freneticamente, as orelhas abanando, quando o Sr. Diggory ergueu a prpria varinha e
encostou-a, ponta com ponta, na de Harry.
        -        Prior Incantato!- rugiu o Sr. Diggory.
        Harry ouviu Hermione prender a respirao horrorizada, quando um crnio com uma enorme lngua de cobra surgiu no ponto em que as duas varinhas se tocavam,
mas era uma mera sombra do crnio verde no alto, parecia at feito de uma espessa fumaa cinzenta: o fantasma de um feitio.
        -        Deletrius!- bradou o Sr. Diggory, e o crnio difuso desapareceu transformado em um fiapo de fumaa.
        "Ento", disse o Sr. Diggory com um tom de furioso triunfo,
fixando Winky, que continuava a tremer convulsivamente.
#111
        -        Eu no estava fazendo isso! - guinchou o elfo, seus olhos revirando aterrorizados. - Eu no estava, eu no estava, eu no sei
fazer!
        -        Voc foi apanhada com a mo na botija, elfoo - rugiu o Sr. Diggory. - Apanhada com a mo na varinha culpada!
        -        Amos - disse o Sr. Weasley em voz alta -, pense um pouco... pouqussimos bruxos sabem fazer esse feitio... onde ela o teria
aprendido?
        - Talvez Amos esteja insinuando - disse o Sr. Crouch, a fria reprimida em cada slaba - que eu rotineiramente ensino meus
criados a conjurarem a Marca Negra?
        Seguiu-se um silncio profundamente desagradvel.
        Amos Diggory pareceu horrorizado.
        -        Sr. Crouch... de... de jeito nenhum...
        -        Voc agora j chegou quase a denunciar as duas pessoas nesta clareira que menos provavelmente conjurariam aquela Marca! - vociferou o Sr. Crouch.
- Harry Potter... e eu! Suponho que voc conhea a histria do garoto, Amos?
        -        Claro, todos conhecem... - murmurou o Sr. Diggory, parecendo extremamente sem graa.
        -        E espero que se lembre das muitas provas que tenho dado, durante a minha longa carreira, de que desprezo e detesto as Artes das Trevas e aqueles
que a praticam - gritou o Sr. Crouch, os olhos saltando das rbitas outra vez.
        -        Sr. Crouch, eu... eu nunca insinuei que o senhor tenha alguma coisa a ver com isso! - murmurou Amos Diggory, agora corando por baixo da barba castanha
e curta.
        -        Se voc acusa o meu elfo, voc acusa a mim, Diggory! Onde mais ela teria aprendido a conjurar a Marca?
        -        Ela... ela poderia ter aprendido em qualquer lugar...
        -        Precisamente, Amos - disse o Sr. Weasley. - Ela poderia ter aprendido em qualquer lugar... Winky? - disse ele bondosamente, virando-se para o elfo,
que se encolheu como se este bruxo tambm estivesse gritando com ela. - Onde foi exatamente que voc encontrou a varinha de Harry?
        Winky estava torcendo a barra da toalha de ch com tanta
violncia
que o pano se esfiapava entre seus dedos.
        -        Eu... eu estava encontrando... encontrando ela l, meu senhor... - murmurou ela - l... no meio das rvores...
#112
        -        Est vendo, Amos? - disse o Sr. Weasley. - Quem quer que tenha conjurado a Marca poderia ter desaparatado logo em seguida, deixando a varinha de
Harry para trs. Uma idia inteligente, no ter usado a prpria varinha, que poderia t-lo denunciado. E Winky aqui teve a infelicidade de encontrar a varinha momentos
depois e de apanh-la.
- Mas, ento, ela deve ter estado a poucos passos do verdadeiro responsvel! - disse o Sr. Diggory com impacincia. - Elfo? Voc
viu algum?
Winky comeou a tremer mais que nunca. Seus olhos imensos
piscaram indo do Sr. Diggory para Ludo Bagman e dele para o Sr.
Crouch.
Ento ela engoliu em seco e disse:
        -        Eu no estava vendo ningum... ningum...
        -        Amos - disse o Sr. Crouch secamente -, estou muito consciente de que normalmente voc iria querer levar Winky para interrogatrio no seu departamento.
Mas vou-lhe pedir que me deixe cuidar dela.
        O        Sr. Diggory fez cara de quem no achava a sugesto muito boa, mas ficou claro para Harry que o Sr. Crouch era um funcionrio to importante no Ministrio
que o outro no se atreveria a recusar o pedido.
        -        Pode ficar tranquilo de que ela ser castigada - acrescentou o Sr. Crouch friamente.
        -        M-m-meu senhor... - gaguejou Winky, olhando para o Sr. Crouch, seus olhos rasos de lgrimas. - M-m-meu senhor, p-p-por
favor...
        O        Sr. Crouch encarou o elfo, seu rosto ainda mais agressivo, cada ruga nele profundamente marcada. No havia piedade em seu
olhar.
        -        Esta noite Winky se portou de uma forma que eu no teria imaginado possvel - disse ele
lentamente. - Eu a mandei permanecer na barraca. Mandei-a
permanecer ali enquanto eu ia resolver o problema. E descubro que ela me desobedeceu. Isto sign fica roupas.
        -        No! - berrou Winky, prostrando-se aos ps do Sr. Crouch.
-        No, meu senhor! Roupas no, roupas no!
Harry sabia que a nica maneira de libertar um elfo domstico
era presenre-lo com roupas decentes. Era penoso ver como Winky
#113
se agarrava  sua toalha de ch enquanto soluava sobre os sapatos do Sr. Crouch.
        -        Mas ela estava assustada! - explodiu Hermione aborrecida, encarando o
Sr. Crouch. - O seu elfo tem pavor de alturas, e aqueles bruxos estavam fazendo
as pessoas levitarem! O senhor no pode culp-la por ter querido sair de perto!
        O        Sr. Crouch deu um passo atrs, desvencilhando-se do contato com o elfo, a quem ele examinava como se fosse algo imundo e
podre que contaminava seus sapatos muito bem engraxados.
        -        No preciso de um elfo domstico que me desobedea - disse ele friamente, erguendo os olhos para Hermione. - No preciso de uma criada que esquece
o que deve ao seu senhor e  reputao do seu senhor.
        Winky chorava tanto que seus soluos ecoavam pela clareira.
        Seguiu-se um silncio desagradvel, que foi interrompido pelo
Sr. Weasley, ao dizer baixinho:
        -        Bom, acho que vou levar o meu pessoal de volta  barraca, se ningum tiver objees a fazer. Amos, a varinha j nos informou
tudo que pde, se Harry puder lev-la, por favor...
        O        Sr. Diggory entregou a varinha a Harry e ele a embolsou.
        -        Vamos, vocs trs - disse o Sr. Weasley em voz baixa. Mas Hermione no parecia querer arredar p; seus olhos ainda miravam o elfo
soluante.
 - Hermione! - chamou o Sr. Weasley com mais urgncia. Ela se virou e acompanhou Harry e Rony para fora da clareira, embrenhando-se entre as rvores.
        -        Que  que vai acontecer com Winky? - perguntou ela no instante em que deixaram a clareira.
        -        No sei - respondeu o Sr. Weasley.
        -        O jeito como a trataram! - disse Hermione, furiosa. - O Sr. Diggory chamando-a de "elfo" o tempo todo... e o Sr. Crouch! Ele sabe que no foi ela
e ainda assim vai despedir Winky! No se importou que ela tivesse sentido medo nem que estivesse perturbada, era como se ela nem fosse humana!
        -        E ela no  - disse Rony.
        Hermione se voltou contra ele.
        - Isso no significa que no tenha sentimentos, Rony,  repugnante o jeito...
        -        Hermione, eu concordo com voc - disse o Sr. Weasley depressa, fazendo sinal para a garota continuar andando -, mas agora
#114
no  hora de discutir os direitos dos elfos. Quero voltar  barraca o mais depressa que pudermos. Que aconteceu aos outros?
        -        Ns os perdemos no escuro - disse Rony. - Papai, por que todo mundo estava to nervoso com aquele crnio?
        -        Eu explico tudo quando estivermos na barraca - prometeu ele, tenso.
        Mas quando alcanaram a orla da floresta, depararam com um
obstculo.
        Havia ali uma aglomerao de bruxas e bruxos assustados, e,
quando viram o Sr. Weasley caminhando em sua direo, muitos
foram ao seu encontro.
        -        Que  que est acontecendo na floresta?
        -        Quem conjurou aquilo?
        -        Arthur, no ... ele?
        -        Claro que no  ele - disse o Sr. Weasley impaciente. - No sabemos quem foi, parece que desaparatou. Agora, me dem licena, por favor, quero ir
me deitar.
        Ele passou com Harry, Rony e Hermione pela aglomerao e voltou ao acampamento. Tudo estava silencioso agora; no havia sinal de bruxos mascarados, embora
vrias barracas destruidas ainda fumegassem.
        Carlinhos meteu a cabea pela abertura da barraca dos garotos.
        -        Papai, que  que est acontecendo? - perguntou ele no escuro. - Fred, Jorge e Gina j voltaram, mas os outros...
        -        Esto aqui comigo - respondeu o Sr. Weasley, se abaixando pra entrar na barraca. Harry, Rony e Hermione entraram atrs
dele.
        Gui estava sentado  pequena mesa da cozinha, apertando um brao com um lenol, que sangrava profusamente. Carlinhos tinha um rasgo na camisa e Percy ostentava
um nariz ensanguentado. Fred, Jorge e Gina pareciam ilesos, embora abalados.
        -        Pegou ele, papai? - perguntou Gui bruscamente. - A pessoa que conjurou a Marca?
        -        No. Encontramos o elfo de Barr Crouch segurando a varinha de Harry, mas no ficamos sabendo quem realmente conjurou
a Marca.
        -        Qu?- exclamaram Gui, Carlinhos e Percy, juntos.
        -        A varinha de Harry? - disse Fred.
        -        O elfo do Sr. Crouch?- disse Percy, parecendo estupefato.
#115
        Com alguma ajuda de Harry, Rony e Hermione, o Sr. Weasley explicou o que acontecera na floresta. Quando terminaram a histria, Percy encheu-se de indignao.
        -        Ora, o Sr. Crouch tem toda razo em querer se livrar de um elfo desses! - exclamou ele. - Fugir desse jeito depois que ele o mandou expressamente
fazer o contrrio... envergonhando o dono diante de todo o Ministrio... que iria parecer se ele tivesse que comparecer no Departamento para Regulamentao e Controle...
        -        Ela no fez nada, s estava no lugar errado na hora errada! - disse bruscamente Hermione a Percy, que ficou muito espantado. Hermione sempre se
dera muito bem com ele, melhor at que qualquer dos outros.
        -        Hermione, um bruxo na posio do Sr. Crouch no pode se dar ao luxo de ter um elfo domstico que endoida com uma varinha
na mo! - disse Percy, pomposamente, recuperando-se do espanto.
        -        Ela no ficou maluca! - gritou Hermione. - Ela s apanhou a varinha no cho!
        -        Olha aqui, ser que algum pode explicar o que significava aquele crnio? - perguntou Rony impaciente. - No estava fazendo mal a ningum... por
que esse escndalo todo?
        -        Eu j lhe disse,  o smbolo do Voc-Sabe-Quem, Rony - disse Hermione, antes que mais algum pudesse responder. - Li
sobre ele em Ascenso e queda das artes das trevas.
        -        E no  visto h treze anos - acrescentou o Sr. Weasley em voz baixa. - E claro que as pessoas entraram em pnico... foi quase
o        mesmo que rever Voc-Sabe-Quem.
        -        No estou entendendo - disse Rony, franzindo a testa. - Quero dizer...  apenas uma forma no
cu...
        -        Rony, Voc-Sabe-Quem e seus seguidores projetavam a Marca Negra no cu sempre que matavam algum - disse o Sr. Weasley. - O terror que isso inspirava...
voc no faz idia, era muito criana. Mas imagine a pessoa chegar em casa e encontrar a Marca Negra pairando sobre ela, sabendo o que vai encontrar l dentro...
- O Sr. Weasley fez uma careta. - O que todos temem mais... temem mais do que tudo...
        Houve um silncio momentneo.
        Ento Gui, levantando o lenol do brao para verificar o corte,
disse:
        -        Bem, no fez nenhum bem  gente esta noite, quem quer que tenha conjurado aquilo. A Marca Negra afugentou os Comensas
#        116
da Morte no momento em que a viram. Todos desaparataram antes que chegssemos bastante prximos para arrancar a mscara deles. Alis, seguramos os Roberts antes
que atingissem o cho. A memria deles est sendo alterada
        -        Comensais da Morte? - perguntou Harry. - Que so Comensais da Morte?
        -  o nome que os seguidores de Voc-Sabe-Quem davam a si mesmos. Acho que vimos o que restou deles hoje  noite, pelo
menos os que conseguiram ficar fora de Azkaban.
        -        No podemos provar que eram eles, Gui - disse o Sr. Weasley. - Embora provavelmente tenham sido - acrescentou
desanimado.
        -        E, aposto que eram! - disse Rony repentinamente. - Papai, encontramos Draco Malfoy na floresta, e ele praticamente nos disse que o pai dele era
um dos idiotas mascarados! E todos sabemos que os Malfoy eram ntimos de Voc-Sabe-Quem!
        -        Mas o que  que os seguidores de Voldemort... - comeou Harry. Todos se encolheram, como a maioria das pessoas no mundo dos bruxos, os Weasley sempre
evitavam dizer o nome de Voldemorr. - Desculpem - disse Harry depressa. - Mas o que  que os seguidores de Voc-Sabe-Quem pretendiam fazendo aqueles trouxas levitar?
Quero dizer, qual era o objetivo?
        -        O objetivo? - disse o Sr. Weasley com uma risada desanimada. - Harry, essa  a idia que fazem de uma brincadeira. Metade das mortes de trouxas
quando Voc-Sabe-Quem estava no poder foi feita de brincadeira. Imagino que eles tenham tomado uns drinques esta noite e no puderam resistir ao impulso de nos lembrar
que um grande nmero deles continua em liberdade. Uma reuniozinha simptica - terminou ele desgostoso.
        - Mas se eles eram realmente os Comensais da Morte, por que desaparataram quando viram a Marca Negra? - perguntou Rony. - Deveriam ter ficado felizes de
ver a Marca, no?
        - Usa os miolos, Rony - disse Gui. - Se eles eram realmente os Comensais da Morte, se viraram de todo o jeito para no serem mandados para Azkaban quando
Voc-Sabe-Quem perdeu o poder, e contaram um monte de mentiras de que ele os forara a matar e torturar gente. Aposto como sentiriam ainda mais medo do que ns ao
ver que ele estava voltando. Negaram que estivessem metidos com Voc-Sabe-
Quem quando ele perdeu o poder e voltaram
#117
as suas vidinhas de sempre... acho que o Lord no ficaria muito satisfeito de ver essa gente, no  mesmo?
        -        Ento... quem conjurou a Marca Negra... - disse Hermione
lentamente - estava fazendo, isso para manifestar apoio ou amedrontar os Comensais da Morte?
        -        O seu palpite vale tanto quanto o meu, Hermione - disse o Sr. Weasley -, mas vou-lhe dizer uma coisa... somente os Comensais eram capazes de conjurar
a Marca. Eu ficaria muito surpreso se a pessoa que a conjurou no tivesse sido um dia Comensal da Morte, mesmo que no o seja agora... Olhem,  muito tarde, e se
sua me ouvir falar do que aconteceu vai morrer de preocupao. Vamos dormir mais um pouco e depois tentar pegar um portal bem cedo para sair daqui.
        Harry voltou ao seu beliche com a cabea zunindo. Sabia que devia estar se sentindo exausto; eram quase trs horas da manh, mas estava completamente acordado
- completamente acordado e preocupado.
        H trs dias - parecia muito mais, mas s tinham sido trs dias
-        acordara com a cicatriz ardendo. E esta noite, pela primeira vez em treze anos, a Marca de Lord Voldemort tinha aparecido no cu. Que significavam essas
coisas?
        Ele pensou na carta que escrevera a Sirius antes de deixar a rua dos Alfeneiros. Ser que o padrinho j a recebera? Quando iria mandar resposta? Harry ficou
contemplando a lona, mas no lhe ocorreu nenhum devaneio em que voasse para ajud-lo a adormecer e somente muito tempo depois, quando os roncos de Carlinhos encheram
a barraca, foi que o garoto finalmente adormeceu.
#118

*****


-        CAPITULO DEZ -
 Caos no Ministrio


O        Sr. Weasley acordou os garotos aps algumas horas de sono.
Usou magia para fechar e dobrar as barracas, e o grupo deixou o
acampamento o mais depressa que pde, passando pelo Sr. Roberts
 porta da casa. O homem tinha um estranho olhar vidrado e acenou se despedindo com um vago "Feliz Natal".
        - Ele vai ficar bom - disse o Sr. Weasley baixinho, quando comearam a atravessar a charneca. - As vezes, quando a memria de uma pessoa  alterada, ela 
fica um pouco desorientada durante algum tempo... e precisaram faz-lo esquecer muita coisa.
        Eles ouviram vozes ansiosas quando se aproximaram do lugar onde estava a chave do portal e, ao chegarem, encontraram numerosos bruxos e bruxas reunidos em 
torno de Basilio, o guardador das chaves dos portais, todos exigindo, em altos brados, partir do acampamento o mais rpido possvel. O Sr. Weasley teve uma discusso 
com Basilio; eles entraram na fila e conseguiram tomar um velho pneu de volta ao monte Sroatshead antes do sol realmente nascer. Voltaram caminhando por dentro de 
Ottery St. Catchpole, em direo  Toca,  claridade da alvorada, falando muito pouco porque estavam demasiado exaustos e ansiosos pelo caf da manh que iriam tomar. 
Ao virarem para a estrada de casa e avistarem A Toca, um grito ecoou pela estrada mida.
        - Ah, graas a Deus, graas a Deus!
        A Sra. Weasley, que evidentemente estivera  espera diante da casa, veio correndo ao encontro deles, ainda usando chinelos, o rosto plido e tenso, um exemplar 
amassado do Profeta Dirio amarrotado na mo.
- Arrhur... eu estava to preocupada... to preocupada...
Ela se atirou ao pescoo do marido e o Profeta Diario caiu de
sua mo frouxa no cho. Baixando os olhos, Harry leu a manchete: CENAS DE TERROR NA COPA MUNDIAL DE QUADRIBOL,
#119
completa com uma foto em preto e branco da Marca Negra cintilando sobre as copas das rvores.
        - Vocs esto bem - murmurou a Sra. Weasley distrada, largando o marido e olhando para os garotos com os olhos vermelhos -,
vocs esto vivos... ah, meninos...
        E para surpresa de todos, agarrou Fred e Jorge e puxou os dois
para um abrao to apertado que as cabeas dos garotos se chocaram.
        - Ai! Mame, voc est estrangulando a gente...
        - Gritei com vocs antes de irem embora! - disse a me, comeando a soluar. -
 s nisso que estive pensando! E se Voc-SabeQuem tivesse pegado vocs, e
a ltima coisa que disse aos dois foi que no obtiveram suficientes N.O.M"s? Ah, Fred... Jorge...
        -        Ora vamos, Molly, estamos todos perfeitamente bem - disse o Sr. Weasley acalmando-a, desvencilhando-a dos gmeos e levando-a em direo  casa. 
- Gui - murmurou ele em voz mais baixa -, apanhe esse jornal, quero ver o que diz...
Quando j estavam todos apertados na pequena cozinha e
Hermione preparara uma xcara de ch forte para a Sra. Weasley,
no qual o marido insistira em acrescentar uma dose de usque, Gui entregou o jornal ao pai. O Sr. Weasley examinou a primeira pgina enquanto Percy espiava por cima 
do seu ombro.
        -        Eu sabia - disse o Sr. Weasley deprimido. - Ministrio erra... responsveis livres... segurana ineficaz... Bruxos das trevas correm desenfreados... 
desgraa nacional... Quem escreveu isso? Ah... s podia ser... Rira Skeeter.
        -        Essa mulher vive implicando com o Ministrio da Magia! - reclamou Percy, furioso. - Semana passada ela disse que estvamos perdendo tempo discutindo 
a espessura dos caldeires, quando devamos estar acabando com os vampiros! Como se isso no estivesse explcito no pargrafo doze das Diretrizes para o Tratamento
dos Semi-Humanos No-bruxos...
        -        Faz um favor  gente, Percy - disse Gui bocejando -, cala a boca.
        -        Falaram de mim - disse o Sr. Weasley, arregalando os olhos por trs dos culos ao chegar ao fim do artigo no Profeta Dirio.
        -        Onde? - perguntou num atropelo a Sra. Weasley, engasgando-se
com o ch batizado com usque. - Se eu tivesse visto isso,
saberia que voc estava vivo!
#120
-        No dizem o meu nome-explicou o Sr. Weasley. -Escute isso:

Se os bruxos e as bruxas aterrorizados que prendiam a respirao  espera de notcias na orla da floresta queriam ouvir do Ministrio da Magia uma palavra que os
tranquilizasse foram lamentavelmente desapontados. Um funcionrio do Ministrio saiu da floresta uns minutos depois do aparecimento da Marca Negra, dizendo que no
havia ningum ferido, mas recusando-se a dar maiores informaes. Resta ver se tal declarao ser suficiente para abafar os boatos de que vrios corpos foram retirados
da floresta uma hora mais tarde.

        "Ah, francamente", disse o Sr. Weasleyp exasperado, entregando o jornal a Percy. "Ningum ficou ferido mesmo, que  que eu deveria dizer? Boatos de que vrios 
corpos foram retirados da floresta... Ora, agora  que vai haver boatos depois de ela publicar isso.
        Ele soltou um profundo suspiro.
        -        Molly, vou ter que ir ao escritrio, isso vai dar um certo trabalho para consertar.
        -        Eu vou com voc, pai - disse Percy cheio de importncia. -
        O        Sr. Crouch vai precisar de toda a tripulao a bordo. E aproveito para entregar a ele o meu relatrio sobre os caldeires, pessoalmente.
        O        rapaz saiu apressado da cozinha.
        A Sra. Weasley pareceu muito aborrecida.
        -        Arthur, voc est de frias! Isso no tem nada a ver com o seu trabalho, com certeza eles podem resolver o caso sem voc, no?
        -        Tenho que ir, Molly - disse o Sr. Weasley. - Piorei as coisas com a minha declarao. Vou trocar de roupa um instante e vou...
        -        Sra. Weasley - disse Harry de repente, incapaz de se conter -, Edwiges no chegou com uma carta para mim?
        -        Edwiges, querido? - disse a Sra. Weasley distrada. - No... no, no chegou nenhum correio.
Rony e Hermione olharam, curiosos, para Harry. Com um olhar expressivo para ambos ele disse:
        -        Tudo bem se eu for deixar minhas coisas no seu quarto,
        Rony?        
        -        Claro... acho que eu tambm vou - respondeu Rony na mesma hora. - Mione?
#121
        -        Vou - disse ela depressa, e os trs saram decididos da cozinha e subiram as escadas.
        -        Que  que est acontecendo, Harry? - perguntou Rony, depois de fecharem a porta do sto atrs deles.
        -        Tem uma coisa que no contei a vocs - disse Harry. - No domingo de manh, acordei com a minha cicatriz doendo outra
vez.
        As reaes de Rony e Hermione foram quase exatamente as que Harry imaginara em seu quarto na rua dos Alfeneiros. Hermione prendeu a respirao e comeou 
a dar sugestes na mesma hora, mencionando vrios livros de referncia e diversas pessoas desde Alvo Dumbledore a Madame Pomfrey, a enfermeira de Hogwarts.
        Rony simplesmente fez cara de espanto.
        -        Mas ele no estava l, estava? Voc-Sabe-Quem? Quero dizer, da ltima vez que sua cicatriz ficou doendo, ele esteve em Hogwarrs, no foi?
        -        Tenho certeza de que ele no estava na rua dos Alfeneiros - falou Harry. - Mas sonhei com ele... com ele e Pedro, sabe, Rabicho. No me lembro do 
sonho todo agora, mas eles estavam planejando... matar algum.
        Hesitara por um momento quase dizendo "me matar", mas
no teve coragem de fazer Hermione ficar mais horrorizada do que
j estava.
        -        Foi s um sonho - disse Rony tranquilzando o amigo.- S um pesadelo.
        -        , mas ser que foi mesmo? - disse Harry, virando-se para espiar, pela janela, o cu que clareava. -
 esquisito, no ... minha cicatriz di e 
trs dias depois os Comensais da Morte se manifestam e o sinal de Voldemort volta a aparecer no
cu.
        -        No... diz... o nome... dele! - sibilou Rony entre dentes.
        -        E lembra o que foi que a Profa Trelawney disse? - continuou Harry, sem dar ateno a Rony. - No fim do ano passado?
        A Profa Trelawney era a professora de Adivinhao dos garotos
em Hogwarrs.
        A expresso aterrorizada de Hermione desapareceu substituida
por uma rsadnha de desdm.
        -        Ah, Harry, voc no vai prestar ateno ao que aquela velha charlat diz, vai?
#122
        -        Voc no estava l - respondeu Harry. - Dessa vez foi diferente. Eu contei a voc, ela entrou em transe, de verdade. E disse que o Lord das Trevas
se reergueria... maior e mais terrvel que nunca... e que teria sucesso porque seu servo ia voltar para ele... e naquela noite Rabicho fugiu.
        Seguiu-se um silncio, em que Rony ficou brincando distradamente com um furo em sua colcha dos Chudley Cannons.
        -        Por que voc estava perguntando se Edwiges tinha chegado, Harry? - perguntou Hermione. - Voc est esperando uma carta?
        -        Contei ao Sirius sobre a minha cicatriz - disse Harry, encolhendo os ombros. - Estou esperando a resposta.
        -        Bem pensado! - exclamou Rony, desanuviando a expresso.
- Aposto que Sirius sabe o que fazer!
        -        Eu esperava que ele me respondesse logo - disse Harry.
        -        Mas ns no sabemos onde Sirius est... talvez esteja na Africa ou em outro continente, no ? - ponderou Hermione. - Edwiges no poderia fazer 
uma viagem dessas em poucos dias.
        -        , eu sei - disse Harry, mas teve uma sensao de peso no estmago ao olhar o cu sem nem sinal de Edwiges.
        -        Vamos jogar uma partida de quadribol no pomar, Harry - sugeriu Rony. - Vamos, uma melhor de trs, Gui, Carlinhos, Fred
e Jorge jogaro... voc pode experimentar a Finta de Wronski...
        -        Rony - disse Hermione, num tom de quem diz eu no acho que voc esteja sendo muito sensvel -, Harry no quer jogar quadribol agora... esta preocupado
e cansado... ns todos precisamos ir dormir...
        -        Ah, quero jogar quadribol - disse Harry subitamente. - Guenta a, vou pegar a minha Firebolr.
        Hermione saiu do quarto resmungando alguma coisa com o
som de "Meninos"

Nem o Sr. Weasley nem Percy pararam muito em casa na semana seguinte. Os dois saam toda manh antes do resto da famlia se levantar e s voltavam bem depois do
jantar.
        -        Tem sido um absoluto tumulto - contou Percy a todos, cheio de importncia, no domingo  noite, vspera dos garotos regressarem a Hogwarrs. - Estive
apagando incndios a semana inteira. As
pessoas no param de mandar berradores e,  claro, se a gente no abre um berrador na mesma hora ele explode. Tem marcas
#123
de queimadura por toda a minha mesa e a minha melhor pena ficou reduzida a cinzas.
        -        Por que  que esto mandando berradores? - perguntou Gina, que se ocupava em remendar com fita adesiva o seu exemplar de Mil ervas e fungos mgicos,
sentada no tapete diante da lareira da sala de estar.
        -        Para se queixarem da falta de segurana na Copa Mundial - disse Percy. - Querem compensao pelos prejuzos. Mundungo Fletcher entrou com um pedido
de compensao pela perda de uma barraca de doze sutes com banheira jacuzzi, mas eu saquei logo qual era a dele. Sei sem a menor dvida que ele estava dormindo
embaixo de uma capa estendida por cima de paus.
        A Sra. Weasley olhou para o relgio de carrilho a um canto da sala. Harry gostava desse relgio. Era completamente intil se algum queria saber as horas,
mas para outras coisas era muito informativo. Tinha nove ponteiros dourados e em cada um estava gravado o nome de um Weasley. No havia nmeros no mostrador, mas
o local onde cada membro da famlia poderia estar. Havia "casa", "escola" e "trabalho", mas tambm "perdido", "hospital", "priso" e, na posio em que estaria o
nmero doze em um relgio normal, "perigo mortal".
        Oito dos ponteiros indicavam "casa", mas o do Sr. Weasley,
que era o mais comprido, ainda apontava para "trabalho". A Sra.
Weasley suspirou.
        -        O seu pai no precisa ir ao escritrio num fim de semana desde o tempo de Voc-Sabe-Quem - disse ela. - Esto obrigando-o a trabalhar demais. O
jantar dele vai estragar se demorar muito mais a chegar em casa.
        -        Papai acha que precisa compensar o erro que fez no jogo, no ? - disse Percy. - Verdade seja dita, foi meio imprudente ele fazer uma declarao
 imprensa sem antes pedir autorizao ao chefe do departamento...
        -        No se atreva a culpar o seu pai pelo que aquela infeliz da Skeeter escreveu! - disse a Sra. Weasley, irritando-se na hora.
        -        Se papai no tivesse dito nada, a Rira teria escrito que era lamentvel que ningum do Ministrio tivesse comentado nada -
disse Cui, que estava
jogando xadrez com Rony. - Rita Skeeter
nunca pinta ningum de anjo. Esto lembrados da vez que ela
#124
entrevstou todos os desfazedores de feitios do Gringotes e me chamou de frangote de cabelo comprido?
        - Bom, est um pouco comprido, querido - disse a Sra. Weasley carinhosamente. - Se voc me deixasse...
        -        No, mame.
        A chuva aoitava a janela da sala de estar. Hermione lia, absorta, O livro padro de feitios,
4 srie, que a Sra. Weasley comprara para ela, Harry e Rony
no Beco Diagonal. Carlinhos cerza um gorro  prova de fogo. Harry dava polimento na Firebolt, o Estojo para Manuteno de Vassouras que Hermione lhe dera no dcimo
terceiro aniversario aberto aos seus ps. Fred e Jorge estavam sentados no canto mais afastado, de penas na mo, conversando aos cochichos, as cabeas curvadas sobre
um pedao de pergaminho.
        -        Que  que vocs dois esto aprontando? - perguntou a Sra. Weasley rispidamente, os olhos nos gmeos.
        -        Dever de casa - disse Fred vagamente.
        -        No seja ridculo, vocs ainda esto de frias - disse a me.
        -        Deixamos este para depois - disse Jorge.
        -        Por acaso vocs no esto preparando um novo formulrio, esto? - perguntou a Sra. Weasley perspicaz. - Por acaso no estariam pensando em recomear 
as "Gemialidades" Weasley?
        -        Ora, mame - disse Jorge erguendo os olhos para a me, uma expresso mortificada no rosto. - Se o Expresso de Hogwarts bater amanh e Jorge e eu
morrermos, como  que voc iria se sentir sabendo que a ltima coisa que ouvimos de voc foi uma acusaao sem fundamento?
        Todos riram, at mesmo a Sra. Weasley.
        -        Ah, seu pai est chegando! - disse ela de repente, olhando mais uma vez para o relgio.
        O ponteiro do Sr. Weasley de repente girou de "trabalho" para "viagem"; um segundo depois parou estremecendo em casa junto
aos demais, e todos o ouviram chamar da cozinha.
        -        Estou indo, Arthur! - respondeu a mulher, saindo correndo da sala.
        Mais alguns minutos e o Sr. Weasley entrava na sala aquecida,
trazendo o jantar numa bandeja. Parecia completamente exausto.
        -        Bom, agora a coisa est realmente pegando fogo - comentou 
ele com a Sra. Weasley, sentando-se numa poltrona junto  lareira
e brincando desanimado com uma poro murcha de couve-flor. -
#125
Rita Skeerer andou fuando a semana inteira, procurando mais bobagens ministeriais para denunciar. E agora descobriu que a coitada da velha Berta est desaparecida,
ento isso vai ser a manchete de amanh no Profeta. Eu disse a Bagman que ele devia ter mandado algum procur-la h sculos.
        -        O Sr. Crouch vem dizendo isso h semanas seguidas - disse Percy depressa.
        -        Crouch tem muita sorte de Rita no ter descoberto nada sobre a Winky - retrucou o Sr. Weasley irritado. - Haveria uma semana de manchetes com a 
histria do elfo domstico; dele ter sido apanhado segurando a varinha que conjurou a Marca Negra.
        - Acho que todos concordamos que o elfo, embora irresponsvel, no conjurou a Marca? - disse Percy inflamado.
        -        Se voc quer saber, o Sr. Crouch tem muita sorte que ningum no Profeta Dirio saiba como ele  ruim para os elfos! - disse
Hermione zangada.
        - Agora, olha aqui, Hermione! - retrucou Percy. - Um funcionrio de primeiro escalo no Ministrio como o Sr. Crouch merece obedincia cega dos seus criados,..
        -        Dos seus escravos, voc quer dizer! - falou Hermione com a voz muito aguda. - Porque ele no pagava salrio a Winky, no 
mesmo?
        - Acho melhor vocs todos subirem e verificarem se fizeram as malas direito! - disse a Sra. Weasley, interrompendo a discusso. - Andem logo, vamos, todos 
vocs...
        Harry fechou o estojo de manuteno, ps a Firebolt ao ombro e subiu com Rony. A chuva parecia ainda mais forte no ltimo andar da casa, e vinha acompanhada 
por assobios e gemidos do vento, para no falar nos uivos ocasionais do vampiro que vivia no sto. Pichitinho comeou a piar e a voar dentro da gaiola quando eles 
entraram. A viso dos males quase prontos o deixara num frenesi de excitao.
        -        Arrolha ele com um pouco desses petiscos para Corujas - disse Rony
atirando um pacote para Harryp - Quem sabe ele cala o
bico.
        Harry enfiou alguns petiscos pelas grades da gaiola, depois voltou 
sua ateno para o malo. A gaiola de Edwiges estava do lado,
ainda vazia.
        -        J faz mais de uma semana - disse Harry, contemplando o
#126
poleiro deserto de Edwiges. - Rony, voc acha que Sirius foi capturado?
        -        No, teria sado no Profeta Dirio - protestou Rony. - O Ministrio iria querer mostrar que capturou algum, no acha?
- , acho...
        -        Olha, toma aqui o material que mame comprou para voc no Beco Diagonal. E ela tirou um pouco de ouro do seu cofre para
voc... e lavou todas as suas meias.
        Rony carregou uma pilha de coisas para a cama de armar de Harry e largou uma bolsa de dinheiro e um monte de meias do lado. O garoto comeou a desembrulhar
as compras. Alm do Livro padro defeitios, 4 srie, de Miranda Goshawk, ele tinha agora um punhado de penas novas, doze rolos de pergaminho e ingredientes para
o seu estojo de poes - os estoques de espinha de peixe-leo e essncia de beladona estavam quase no fim. Comeou a empilhar a roupa ntima dentro do caldeiro
quando Rony soltou uma exclamao de desagrado s costas delep
        -        Que vem a ser isso?
        Ele estava segurando uma coisa que pareceu a Harry uma longa veste de veludo marrom. Tinha um babado de renda de aspecto
mofado no decote e punhos de renda iguais.
        Os garotos ouviram uma batida na porta e a Sra. Weasley
entrou, trazendo uma braada de vestes de Hogwarts recm-
lavadas.
        -        Tomem aqui - disse ela, dividindo a braada ao meio. - Agora vejam se guardam tudo na mala direito para no amarrotar.
        -        Mame, voc me deu a roupa nova da Gina - disse Rony devolvendo a veste marrom  me.
        -        Claro que no,  para voc. Vestes a rigor.
        -        Qu?- exclamou Rony, horrorizado.
        -        Vestes a rigor! - repetiu a Sra. Weasley. - Est na sua lista de material que este ano voc dever levar vestes a rigor... vestes para
ocasies formais.
        -        A senhora tem que estar brincando - exclamou Rony incrdulo. - Eu no vou usar isso, nem pensar.
        -        Todo mundo usa, Rony! - disse a Sra. Weasley aborrecida. - E
so todas assim! Seu pai tambm tem uma para festas elegantes!        
        -        Saio pelado mas no visto uma coisa dessas - teimou Rony.
#127
        -        No seja bobo. Voc precisa de vestes a rigor, esto na sua lista! Comprei para o Harry tambm... mostre a ele, Harry...
        Com uma certa apreensop Harry abriu o ltimo embrulho sobre a cama. Mas no eram to ruins quanto esperara; as vestes no tinham renda alguma; de fato, 
eram mais ou menos iguais s vestes da escola, s que eram verde-garrafa em vez de pretas.
        -        Achei que elas realariam a cor dos seus olhos, querido - disse a Sra. Weasley afetuosamente.
        -        Ora, as dele so legais! - disse Rony zangado, olhando para as vestes de Harry. - Por que eu no ganhei vestes como as dele?
        -        Porque... bom, precisei comprar as suas de segunda mo, e no havia muita escolha! - disse a Sra. Weasley corando.
        Harry olhou para o outro lado. Teria dividido com os Weasley,
de boa vontade, o dinheiro que havia em seu cofre no Gringotes,
mas sabia que eles jamais aceitariam.
        -        No vou usar isso nunca - insistiu Rony. - Nunquinha.
        -        timo - retorquiu a Sra. Weasley. - Ande nu. E Harry no se esquea de tirar uma fotografia dele. Deus sabe que eu estou
bem precisada de umas gargalhadas.
Ela saiu do quarto batendo a porta. Os meninos ouviram um
rudo engraado de algum cuspindo s costas deles. Era Pichitinho se engasgando com um petisco grande demais.
        -        Por que  que tudo que eu tenho  porcaria? - enfureceu-se Rony, atravessando o quarto para descolar o bico da coruja.
#128

******


- CAPITULO ONZE -
A bordo do Expresso de Hogwarts


Havia no ar uma inquestionvel tristeza de fim de frias quando Harry acordou na manh seguinte. A chuva forte continuava a fustigar a janela enquanto ele vestia 
uma jeans e uma camiseta; trocaria pelas vestes de escola no Expresso de Hogwarts.
        Ele, Rony, Fred e Jorge tinham acabado de chegar ao patamar
do primeiro andar, a caminho de tomar o caf da manh, quando
a Sra. Weasley apareceu ao p da escada, parecendo aflita.
        -        Arthur! - gritou ela para cima. - Arthur! Mensagem urgente do Ministrio!
        Harry se achatou contra a parede quando o Sr. Weasley passou correndo, com as vestes de trs para a frente e desapareceu de vista. Quando Harry e os outros 
entraram na cozinha, viram a Sra. Weasley remexendo, ansiosamente, nas gavetas do guarda-loua.
        -        Tenho uma pena em algum lugar aqui! - dizia ela, enquanto o Sr. Weasley se curvava para a lareira falando com...
        Harry fechou os olhos com fora e reabriu-os para ter certeza
de que estava vendo direito.
        A cabea de Amos Diggory estava parada no meio das chamas como um grande ovo barbudo. Ele falava muito depressa, completamente indiferente s fagulhas que 
voavam ao seu redor e s chamas que lambiam suas orelhas.
        -        ... os vizinhos trouxas ouviram estampidos e gritos, ento foram e chamaram a... como  mesmo o nome?... plcia. Arthur,
voc tem que ir l...
        -        Tome! - disse a Sra. Weasley sem flego, empurrando um pedao de pergaminho, um tinteiro e uma pena amassada nas
mos do marido.
        -        ... foi pura sorte eu ter sabido - continuou a cabea do Sr.
Diggory -, precisei vir ao escritrio mais cedo para despachar umas
#129
corujas, e encontrei o pessoal do Uso Indevido da Magia de sada... se a Rita Skeeter souber dessa, Arthur...
        -        Que  que Olho-Tonto diz que aconteceu? - perguntou o Sr. Weasley, ao mesmo tempo que desenroscava a tampa do tinteiro,
molhava a pena e se preparava para escrever.
        Os olhos do Sr. Diggory reviraram nas rbitas.
        -        Disse que ouviu intrusos no jardim. Disse que se aproximavam sorrareiramente da casa, mas que foram atacados pelas latas de
lixo.
        -        Que foi que as latas de lixo fizeram? - perguntou o Sr. Weasley, escrevendo freneticamente.
        -        Fizeram um estardalhao e dispararam lixo para todo lado, pelo que sei - falou o Sr. Diggory. - Aparentemente uma delas
ainda estava voando a esmo quando a plcia apareceu...
        O        Sr. Weasley gemeu.
        -        E o que aconteceu com os intrusos?
        -        Arthur, voc conhece Olho-Tonto - disse a cabea tornando a revirar os olhos. - Algum andando pelo jardim dele na calada da noite? Mais provavelmente 
era algum gato com neurose de guerra vagando por ali, coberto de cascas de batatas. Mas se o pessoal do Uso Indevido da Magia puser as mos em Olho-Tonto, ele est 
perdido, pense na ficha dele, temos que livr-lo com uma acusao menos sria, alguma coisa no seu departamento, qual  a penalidade para exploso de latas de lixo?
        -        Talvez uma advertncia - respondeu o Sr. Weasley, ainda escrevendo muito depressa, a testa vincada. - Olho-Tonto no
usou a varinha? No chegou a atacar ningum?
        -        Aposto que ele pulou da cama e comeou a enfeitiar tudo que conseguiu alcanar pela janela, mas daria muito trabalho provar isso, no houve nenhuma 
vtima.
        -        Tudo bem, estou de sada - disse o Sr. Weasley e, enfiando o pergaminho com as anotaes no bolso, saiu correndo da cozinha.
        A cabea do Sr. Diggory olhou para os lados e se fixou na Sra.
Weasley.
        -        Desculpe o mau jeito, Molly - disse, mais calmamente -, incomodar vocs to cedo... mas Arthur  a nica pessoa que pode
- 
livrar Olho-Tonto, e Olho-Tonto ia comear um novo emprego hoje. Por que  que tinha que escolher ontem  noite...
#130
        -        Tudo bem, Amos. Tem certeza de que no quer comer uma torrada ou qualquer outra coisa antes de ir?
        -        Ah, ento quero.
        A Sra. Weasley apanhou uma torrada amanteigada em uma
pilha sobre a mesa da cozinha, prendeu-a nas tenazes da lareira e a
levou  boca do Sr. Diggory.
        -        "gado - disse ele com a voz abafada e, em seguida, com um estalido, desapareceu.
        Harry ouviu o Sr. Weasley gritar tchaus apressados para Gui, Carlinhos, Percy e as garotas. Em cinco minutos, ele estava de volta  cozinha, as vestes agora 
do lado certo, passando um pente nos cabelos.
        -         melhor eu me apressar... um bom ano letivo para vocs, meninos - disse o Sr. Weasley para Harry, Rony e os gmeos, puxando uma capa por cima dos 
ombros e se preparando para desaparatar. - Molly, voc acha que d conta de levar os meninos at
King"s Cross?
        -        Claro que sim. Se preocupe com Olho-Tonto que ns cuidamos do resto.
        Quando o Sr. Weasley desapareceu, Gui e Carlinhos entraram
na cozinha.
        -        Algum falou em Olho-Tonto? - perguntou Gui. - Que  que ele andou fazendo agora?
        -        Diz que algum tentou entrar na casa dele  noite passada - respondeu a Sra. Weasley.
        -        Olho-Tonto Moody? indagou Jorge pensativo, passando gelia na torrada. - No  aquele biruta...
        -        Seu pai tem uma excelente opinio sobre Olho-Tonto Moody - disse a Sra. Weasley severamente.
        -        , tudo bem, papai coleciona tomadas, no  mesmo? - disse Fred baixinho quando a me saiu da cozinha. - Cada qual com o
seu igual...
        -        Moody j foi um grande bruxo - disse Gui.
        -        Ele  um velho amigo do Dumbledore, no ? - perguntou Carlinhos.
        -        Mas o Dumbledore no  bem o que a gente chamaria de
normal, no  - comentou Fred. - Quero dizer, eu sei que ele  um 
gnio e tudo o mais...
        -        Quem  Olho-Tonto? - perguntou Harry.
#131
        -        Est aposentado, mas costumava trabalhar no Ministrio - falou Carlinhos. - Vi ele uma vez quando papai me levou ao trabalho. Ele foi
Auror... um
dos melhores... um cara que captura bruxos das trevas - acrescentou, vendo o olhar atnito de Harry. - Encheu metade das celas de Azkaban. Mas fez uma p de inimigos...
principalmente as famlias das pessoas que ele prendeu... e ouvi falar que Moody est ficando realmente paranico na velhice. No confia mais em ningum. V bruxos
das trevas por todo lado.
        Gui e Carlinhos resolveram acompanhar os garotos ao embarque na estao de
King"s Cross, mas Percy se desculpou profusamente e disse que precisava de fato 
ir trabalhar.
        -        No posso pedir mais licenas no momento. O Sr. Crouch est realmente comeando a confiar em mim.
        -        Ah , sabe de uma coisa, Percy? - disse Jorge srio. - Acho que no demora muito, ele vai aprender o seu nome.
        A Sra. Weasley tinha se aventurado a telefonar para a agncia
        de correio do povoado para pedir trs txis de trouxas para lev-los
a Londres.
        -        Arthur tentou pedir emprestado uns carros do Ministrio para ns - sussurrou a Sra. Weasley a Harry, enquanto aguardavam parados no ptio lavado 
de chuva os motoristas dos txis carregarem os pesados males de Hogwarts nos carros. - Mas no havia nenhum disponvel... Ah, meu Deus, a cara deles no est nada
feliz, no ?
        Harry no quis comentar com a Sra. Weasley que motoristas de txi trouxas raramente transportavam corujas excitadas, e Pichitinho estava fazendo um estardalhao
de furar os tmpanos. E tampouco ajudou o fato de alguns fogos Dr. Filibusteiro, que no aquecem e acendem molhados, terem explodido inesperadamente quando o malo
de Fred se abriu, fazendo o motorista que o carregava berrar de susto e dor, pois Bichento enterrou as garras na perna do homem.
        A viagem foi desconfortvel, porque eles viajaram espremidos no banco traseiro dos txis com os males. Bichento levou algum tempo para se recuperar do susto 
com os fogos e, at entrarem em Londres, Harry, Rony e Hermione acabaram 
seriamente arranhados. Sentiram um grande alvio ao desembarcar na estao, embora a
chuva casse mais forte que nunca e eles tivessem se encharcado
#132
para atravessar a rua movimentada para entrar na estao com os males.
        A essa altura, Harry j estava se acostumando a embarcar na plataforma nove e meia. Era apenas uma questo de rumar diretamente para a barreira, aparentemente
slida, que dividia as plataformas nove e dez. A nica parte dificil era fazer isso discretamente de modo a no chamar a ateno dos trouxas. Fizeram isso em grupos,
hoje; Harry, Rony e Hermione (os mais visveis, pois iam levando Pichitinho e
Bichento) foram os primeiros; eles se encostaram descontraidamente na barreira, conversando
despreocupados e deslizaram de lado por ela... e, ao fazerem isso, a plataforma nove e meia se materializou diante deles.
        O        Expresso de Hogwarts, uma reluzente locomotiva vermelha, j estava aguardando, soltando nuvens repolhudas de fumaa, atravs das quais os muitos 
alunos de Hogwarts e seus pais parados na plataforma pareciam fantasmas escuros. Pichitinho fez mais barulho que nunca em resposta ao pio das outras corujas escondidas 
na nvoa. Harry, Rony e Hermione saram em busca de lugares e logo estavam guardando a bagagem em uma cabine mais ou menos na metade do trem. Depois, eles tornaram 
a saltar para se despedir da Sra. Weasley, de Gui e Carlinhos.
        -        Talvez eu volte a ver vocs mais cedo do que pensam - disse Carlinhos, rindo, ao dar um abrao de despedida em Gina.
        -        Por qu? - perguntou Fred interessado.
        -        Voc ver - respondeu Carlinhos. - S no diga a Percy que eu falei isso... "porque afinal  informao privilegiada, at o Ministrio resolver 
divulg-la".
        -        , eu at sinto vontade de estar estudando em Hogwarts este ano - disse Gui, as mos enfiadas nos bolsos, contemplando com
um ar quase saudoso o trem.
        -        Por qu?- perguntou Jorge impaciente.
        -        Vocs vo ter um ano interessante - comentou Gui, com os olhos cintilando. - Talvez eu at pea licena para ir dar uma
espiada...
        -        Uma espiada em qu? - perguntou Rony.
Mas nessa hora ouviram o apito e a Sra. Weasley conduziu-os
impaciente s portas do trem.
        -        Obrigada por nos convidar, Sra. Weasley - disse Hermione,
#133
depois que embarcaram, fecharam a porta e se debruaram na janela do corredor para falar com ela.
        -        E, obrigado por tudo, Sra. Weasley - disse Harry.
        -        Ah, o prazer foi meu, queridos - respondeu ela. - Eu os convidaria para o Natal, mas... bem, imagino que vocs vo querer
ficar em Hogwarts, por causa... de uma coisa ou outra.
        -        Mame! - exclamou Rony irritado. - Que  que vocs trs sabem que ns no sabemos?
        -        Vocs vo descobrir hoje  noite - disse a Sra. Weasley sorrindo. - Vai ser muito excitante, reparem bem, estou muito contente que tenham mudado 
as regras...
        -        Que regras? - perguntaram Harry, Rony, Fred e Jorge juntos.
        -        Tenho certeza de que o Prof. Dumbledore vai contar a vocs... agora, comportem-se? Ouviu bem Fred? E voc Jorge!
Os pistes assobiaram e o trem comeou a andar.
        -        Conta para a gente o que vai acontecer em Hogwarts! - berrou Fred pela janela, quando a Sra. Weasley, Gui e Carlinhos foram
se distanciando rapidamente. - Que regras  que vo mudar?
        Mas a Sra. Weasley apenas sorriu e acenou. Antes que o trem
tivesse virado a primeira curva, ela, Gui e Carlinhos tinham desaparatado.
        Harry, Rony e Hermione voltaram  cabine. A chuva grossa que batia rias janelas tornava difcil ver o lado de fora. Rony abriu o malo, tirou as vestes a 
rigor marrons e atirou-as por cima da gaiola de Pichitinho para abafar os seus pios.
        -        Bagman queria nos dizer o que ia acontecer em Hogwarts - disse ele mal-humorado, sentando-se ao lado de Harry. - Na Copa Mundial, lembra? Mas nem 
a minha prpria me quer contar. Que ser...
        -        Psiu! - sussurrou Hermione de repente, levando o indicador aos lbios e apontando para a cabine ao lado. Harry e Rony prestaram ateno e ouviram
uma voz arrastada j sua conhecida que entrava pela porta aberta.
        -        ... Papai, na realidade, pensou em me mandar para Durmstrang em lugar de Hogwarrs, sabem. Ele conhece o diretor l, entendem. Bom, vocs sabem qual
 a opinio dele sobre Dumbledote... o cara gosta muito de sangues-ruins e Durmstrang no admite esse tipo de ral. Mas mame no gostou da idia de eu ir para uma
escola to longe. Durmsrrang tem uma poltica muito mais
#134
certa que Hogwarrs com relao s Artes das Trevas. Os alunos de l at aprendem essa matria, no  s essas bobagens de defesa que a gente aprende...
        Hermione se levantou, foi p ante p at a porta da cabine e
fechou-a para abafar a voz de Malfoy.
        -        Ento ele acha que Durmstrang teria sido melhor para ele, ?
- disse ela zangada. - Eu gostaria que ele tivesse ido para l, ai no teramos que atur-lo.
        -        Durmsrrang  outra escola de bruxaria? - perguntou Harry.
        -        E - respondeu Hermione fungando -, e tem uma pssima reputao. Segundo aquele livro Uma avaliao da educao em
magia na Europa, a escola enfatiza as Artes das Trevas.
        -        Acho que j ouvi falar nisso - disse Rony vagamente. - Onde fica? Em que
pas?
        -        Ora, ningum sabe, no  mesmo? - respondeu Hermione, erguendo as sobrancelhas.
        -        Hum... por que no? - quis saber Harry.
        -        Tradicionalmente h uma forte rivalidade entre as escolas de magia. Durmstrang e Beauxbatons gostam de esconder onde ficam para ningum poder roubar 
os segredos delas - disse Hermione simplesmente.
        -        Corta essa! - exclamou Rony, comeando a rir. - Durmstrang tem que ser mais ou menos do tamanho de Hogwarts, como
 que algum vai esconder um castelo encardido?
        -        Mas Hogwarts  escondida - retrucou Hermione, surpresa-, todo mundo sabe disso... bom pelo menos todo mundo que leu
Hogwarts:        uma histria.
        -        Ento  s voc - falou Rony. - Por isso pode continuar, como  que se esconde um lugar como Hogwarts?
        -        Encantando ele - respondeu Hermione. - Se um trouxa olhar, s o que vai ver  uma velha runa embolorada com um
letreiro na entrada PERIGO, NO ENTRE, ARRISCADO.
        -        Ento Durmstrang tambm vai parecer uma runa a um estranho?
        - Talvez - disse Hermione, encolhendo os ombros -, ou talvez tenha feitios antitrouxas, como o estdio da Copa Mundial. E para impedir bruxos estrangeiros 
de encontr-lo, devem ter tornado ele impossvel de mapear...
- Como ?
#135
        -        Bom, a gente pode enfeitiar um prdio para tornar impossvel a pessoa o localizar em um mapa, no pode?
        -        Hum... se voc diz que pode - falou Harry.
        -        Mas eu acho que Durmstrang deve ficar em algum lugar bem ao norte - disse Hermione pensativa. - Algum lugar muito frio,
porque as capas de peles fazem parte dos uniformes de l.
        -        Ah, pensem s nas possibilidades - disse Rony sonhando. - Teria sido muito mais fcil empurrar Malfoy de uma geleira e fazer
parecer acidente... pena que a me goste dele...
        A chuva foi ficando mais pesada,  medida que o trem seguia mais para o norte. O cu estava to escuro e as janelas to embaadas que as lanternas foram
acesas antes do meio-dia. O carrinho dos lanches surgiu sacudindo pelo corredor, e Harry comprou uma montanha de bolos de caldeiro para os trs dividirem.
        Muitos amigos apareceram durante a tarde, inclusive Simas Finnigan, Dino Thomas e Neville Longbottom, um menino de rosto redondo e extremamente esquecido
que fora criado pela bruxa formidvel que era sua av. Simas ainda usava a roseta da irlanda. Parte da mgica parecia estar se esgotando agora; ela ainda gritava
esganiada "Troy! MuiletI Moran!", mas de um jeito muito fraco e cansado. Passada meia hora mais ou menos, Hermione, cansando-se da interminvel discusso sobre
quadribol, enterrou-se mais uma vez no Livro padro de feitios, 4 srie e comeou a tentar aprender a fazer um Feitio Convocatrio.
        Neville escutava, invejoso, a conversa dos colegas que reviviam
a partida de quadribol.
        -        Vov no quis ir - disse ele, infeliz. - No quis comprar as entradas. Mas parecia fantstico.
        -        Foi -. disse Rony. - Olhe s para isso, Neville...
        Ele meteu a mo no malo guardado no bagageiro e puxou a
miniatura de Vtor Krum.
        -        Uau!- exclamou Neville, invejoso, quando Rony equilibrou Krum na mo gorducha.
        -        E vimos ele de perto, tambm - continuou Rony. - Ficamos no camarote de honra...
        -        Pela primeira e ltima vez na vida, Weasley.
Draco Malfoy aparecera  porta. Atrs dele vinham Crabbe e
Goyle, seus enormes sequazes agressivos, que pareciam ter crescido
no mnimo trinta centmetros durante o vero. Evidentemente
#136
tinham ouvido a conversa pela porta da cabine, que Dino e Simas deixaram entreaberta.
        -        No me lembro de ter convidado voc para a nossa cabine, Malfoy - disse Harry friamente.
        -        Weasley... que  isso? - perguntou Malfoy, apontando para a gaiola de Pichitinho. Uma das mangas das vestes de Rony estava pendurada, e balanava
com o movimento do trem, deixando o punho de renda mofada muito visvel.
        Rony fez meno de esconder as vestes, mas Malfoy foi rpido
demais para ele; agarrou a manga e puxou.
        -        Olhem s para isso! - disse o garoto em xtase, segurando as vestes de Rony e mostrando-as a Crabbe e Goyle. - Weasley, voc no andou pensando
em usar isso, andou? Quero dizer, isso esteve em moda a por 1890...
        -        Vai lamber sabo, Malfoy! - xingou Rony, da mesma cor que as vestes ao pux-las das mos de Malfoy. O garoto uivava, rindo de
desdm; Crabbe e Goyle gargalhavam estupidamente.
        -        Ento... vai entrar, Weasley? Vai tentar trazer alguma glria para o nome da sua famlia? E tem dinheiro tambm, sabe... voc
vai poder comprar umas vestes decentes se ganhar...
        -        Do que  que voc est falando? - retorquiu Rony.
        -        Voc vai entrar? - repetiu Malfoy. - Suponho que voc v,
Potter? Voc nunca perde uma chance de se exibir, no ?
        -        Ou voc explica a que est se referindo ou vai embora, Malfoy - disse Hermione, impaciente, por cima da borda do Livro
padro de feitios, 4 srie.
        Um sorriso satisfeito se espalhou pelo rosto plido de Malfoy.
        -        No me diga que voc no sabe? Voc tem um pai e um irmo no Ministrio e nem ao menos sabe? Nossa, meu pai me contou h sculos... soube pelo Cornlio
Fudge. Mas papai sempre convive com o primeiro escalo do Ministrio... talvez seu pai seja insignificante demais para ter sabido, Weasley... ... provavelmente
no falam coisas importantes na frente dele...
        Rindo mais uma vez, Malfoy fez sinal para Crabbe e Goyle e os
trs desapareceram.
        Rony se levantou e bateu a porta de correr da cabine com tanta
fora atrs deles que o vidro se espatifou.        
        -        Rony!- exclamou Hermione em tom de censura, e puxando
#137
a varinha, murmurou a palavra Reparo! e os estilhaos do vidro tornaram a formar uma vidraa inteira e a se reencaixar na porta.
        -        Ora... tirando onda que ele  bem informado e ns no... - rosnou Rony. - Papai sempre convive com o
primeiro escalo do Ministrio... Papai poderia
ter recebido uma promoo a qualquer tempo... mas ele gosta do cargo que ocupa...
        -        Claro que gosta - disse Hermione baixinho. - No deixa o Malfoy chatear voc, Rony...
        -        Ele! Me chatear! Como se pudesse! - retrucou Rony, apanhando um dos bolos de caldeiro que sobravam e amassando-o
todo.
        O        mau humor de Rony continuou pelo resto da viagem. Ele no falou muito quando vestiram os uniformes da escola, e continuou de cara amarrada quando
o Expresso de Hogwarts comeou finalmente a reduzir a velocidade at parar de todo na escurido de breu da estao de Hogsmeade.
        Quando as portas do trem se abriram, ouviu-se uma trovoada no alto. Hermione agasalhou Bichento na capa e Rony deixou as vestes a rigor por cima da gaiola
de Pichitinho ao desembarcarem, as cabeas abaixadas e os olhos apertados para impedir que o temporal os molhasse. A chuva caa em tal volume e rapidez que at parecia
que algum estava esvaziando baldes e mais baldes de gua gelada na cabea dos garotos.
        -        Oi, Hagrid! - berrou Harry, ao ver a silhueta gigantesca na extremidade da plataforma.
        -        Tudo bem! - gritou Hagrid em resposta, acenando. - Vejo vocs na festa, se no nos afogarmos no caminho!
        Os alunos de primeiro ano tradicionalmente chegavam ao castelo de barco, atravessando o lago com Hagrid.
        -        Oooh, eu no gostaria de atravessar o lago com esse tempo - exclamou Hermione com veemncia, tremendo durante a caminhada lenta pela plataforma
escura com os outros colegas. Cem carruagens sem cavalos os aguardavam  sada da estao. Harry, Rony, Hermione e Neville embarcaram agradecidos em uma delas, a
porta se fechou com um estalo e momentos depois, com um grande impeto, a longa procisso de carruagens saiu roncando e espalhando gua trilha acima em direo ao
castelo de Hogwarrs.
#138


****


CAPTULO DOZE -
O Torneio Tri bruxo


Os garotos passaram pelos portes, ladeados por esttuas de javalis alados, e as carruagens subiram o imponente caminho oscilando perigosamente sob uma chuva que
parecia estar virando tromba ad"gua. Curvando-se para a janela, Harry pde ver Hogwarts se aproximando, suas numerosas janelas borradas e iluminadas por trs da
cortina de chuva. Os relmpagos riscaram o cu no momento em que a carruagem parou diante das enormes portas de entrada de carvalho, a que se chegava por um lance
de degraus de pedra. As pessoas que tinham tomado as carruagens anteriores j subiam
correndo os degraus para entrar no castelo; Harry, Rony, Hermione e Nevilie
saltaram da carruagem e correram escada acima, tambm, s erguendo a cabea quando j estavam seguros, no cavernoso saguo de entrada iluminado por archotes, com
sua magnfica escadaria de mrmore.
        -        Carcoles - exclamou Rony, sacudindo a cabea e espalhando gua para todos os lados -, se isso continuar assim, o lago vai
transbordar. Estou todo molhado, ARRE!
        Um grande balo vermelho e cheio de gua cara do teto na cabea de Rony e estourara. Encharcado e resmungando, Rony cambaleou para o lado e esbarrou em 
Harry na hora em que uma segunda bomba de gua caiu - errando Hermione por um trz, ele estourou aos ps de Harry, espirrando gua gelada por cima dos tnis e das 
meias do garoto. As pessoas em volta soltaram gritinhos e comearam a se empurrar procurando sair da linha de tiro - Harry olhou para o alto e viu, flutuando seis 
metros acima, Pirraa, o poltergeist, um homenzinho de chapu em forma de sino e gravata-borboleta cor de laranja, o rosto largo e malicioso contorcendose de concentrao 
para tornar a fazer mira. 
        -        PIRRAA! - berrou uma voz zangada. - Pirraa, desa j aqui, AGORA!
#139
        A Profa Minerva McGonagall, subdiretora da escola e diretora da Grifinria, saiu correndo do Salo Principal; a professora escorregou no cho molhado e agarrou
Hermione pelo pescoo para evitar cair.
        -        Ai... desculpe, Srta. Granger...
        -        Tudo bem, professora! - ofegou Hermione, massageando a garganta.
        -        Pirraa, desa aqui AGORA! - bradou ela, ajeitando o chapu cnico e olhando feio pelos culos de aros quadrados.
        -        No t fazendo nada! - gargalhou Pirraa, disparando uma bomba de gua contra vrias garotas do quinto ano, que gritaram e mergulharam no Salo 
Principal. - J molharam as calas, foi? Que inconvenientes! Ihhhhhhhhhh! - E mirou mais uma bomba em um grupo de alunos do segundo ano que tinha acabado de chegar.
        -        Vou chamar o diretor! - ameaou a Profa Minerva. - Estou lhe avisando, Pirraa...
        Pirraa estirou a lngua, jogou a ltima de suas bombas de gua
para o alto e disparou pela escada de mrmore acima, gargalhando
feito um louco.
        -        Bom, vamos andando, ento! - disse a professora em tom eficiente para os alunos molhados. - Para o Salo Principal, vamos!
        Harry, Rony e Hermione escorregaram pelo saguo de entrada e pelas portas de folhas duplas  direita, Rony, furioso, resmungando entre dentes ao afastar 
os cabelos, que escorriam gua, para longe do rosto.
        O        Salo Principal tinha o aspecto esplndido de sempre, decorado para a festa de abertura do ano letivo. Pratos e taas de ouro refulgiam  luz de 
centenas e centenas de velas que flutuavam no ar sobre as mesas. As quatro mesas longas das Casas estavam cheias de alunos que falavam sem parar; no fundo do salo, 
os professores e outros funcionrios sentavam-se a uma quinta mesa, de frente para os estudantes. Estava muito mais quente ali. Harry, Rony e Hermione passaram pela 
mesa dos alunos da Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa, e se sentaram com os colegas da Grifinria no extremo do salo, ao lado de Nick Quase Sem Cabea, o fantasma 
de sua Casa. Branco-prola e semitransparente, Nick estava vestido esta
noite com o gibo de sempre e uma gola de rufos parricularmente
grande, que servia o duplo propsito de parecer bem festiva e
#140
garantir que sua cabea no balanasse demais no pescoo parcialmente decepado.
        -        Boa noite - disse ele aos garotos.
        -        Para quem? - perguntou Harry, descalando os tnis e despejando a gua que se acumulara dentro. - Espero que andem depressa com a seleo. Estou
faminto.
        A seleo dos novos alunos por Casas era realizada no incio de cada ano letivo, mas por uma infeliz combinao de circunstncias, Harry no estivera presente 
a nenhuma desde a dele mesmo. Estava ansioso para assisti-la.
        Nesse instante, uma voz excitada e ofegante chamou-o mais
adiante  mesa:
- Oi, Harry!
        Era Colin Creevey, um aluno do terceiro ano para quem Harry
era uma espcie de heri.
        -        Oi, Colin - cumprimentou Harry cauteloso.
        -        Harry, adivinha s! Adivinha s, Harry! Meu irmo est comeando! Meu irmo Dnis!
        -        Hum... que bom! - disse Harry.
        -        Ele est realmente excitado! - continuou Colin, praticamente dando pulos na cadeira. - Espero que ele fique na Grifinria!
Cruza os dedos, hein, Harry?
        -        Hum... claro - disse Harry. E tornou a se virar para Hermione, Rony e Niclc Quase Sem Cabea. - Irmos e irms geralmente vo para a mesma Casa, 
no ? Estava pensando nos Weasley, todos os sete alunos da Grifinria.
        -        Ah, no, no obrigatoriamente - disse Hermione. - A gmea de Parvati Patil est em Corvinal e elas so idnticas, a gente podia
at pensar que fossem ficar juntas, no  mesmo?
        Harry olhou para a mesa dos professores. Parecia haver mais lugares vazios do que habitualmente. Hagrid,  claro, ainda estava lutando para atravessar o 
lago com os alunos do primeiro ano; a Profa McGonagall provavelmente estava supervisionando a secagem do piso do saguo de entrada, mas havia ainda outra cadeira 
desocupada e ele no conseguia atinar quem mais estava faltando.
        -        Onde  que est o novo professor de Defesa contra as Artes
das Trevas? - perguntou Hermione, que tambm estava olhando
para os professores.
        Os garotos ainda no tinham tido nenhum professor de Defesa
#141
contra as Artes das Trevas que durasse mais de trs trimestres. O favorito de Harry fora, de longe. o Prof. Lupin, que se demitira no ano anterior. Seu olhar percorreu
a mesa dos professores. Decididamente no havia nenhuma cara nova.
        -        Quem sabe no conseguiram ningum! - sugeriu Hermione, parecendo ansiosa.
        Harry examinou os ocupantes da mesa com mais ateno. O minsculo Prof. Flitwick, professor de Feitios, estava sentado em uma alta pilha de almofadas ao
lado da Profa Sprout, a mestra de Herbologia, usando um chapu enviesado sobre os cabelos grisalhos e esvoaantes. Conversava com a Profa Sinistra, do Departamento
de Astronomia. Do outro lado de Sinistra estava o mestre de Poes, de rosto macilento, nariz de gancho e cabelos oleosos, Snape - a pessoa de quem Harry menos gostava 
em Hogwarts. A repulsa de Harry por Snape s igualava o dio que o professor sentia por ele, um dio que tinha, se  que isso era possvel, se intensificado no ano 
anterior, quando o garoto ajudara Sirius a fugir bem debaixo do nariz exageradamente grande de Snape - ele e Sirius eram inimigos desde os tempos de escola.
        Do outro lado de Snape, havia um lugar vago, que Harry achou que devia ser o da Profa McGonagall. Ao lado, e bem no centro da mesa, sentava-se o Prof. Dumbledore, 
o diretor, seus cabelos e barbas prateados e ondulantes brilhando  luz das velas, suas magnficas vestes verde-escuras bordadas com luas e estrelas. Dumbledore 
tinha as pontas dos dedos longos e finos e ele apoiava nelas o queixo, contemplando o teto atravs de oclinhos de meialua, como se estivesse perdido em pensamentos. 
Harry olhou para o teto tambm. Era encantado para parecer o cu l fora e nunca tivera um aspecto to tempestuoso. Nuvens roxas e negras giravam por ele e quando 
se ouvia uma nova trovoada do lado de fora, corria um relmpago pelo teto.
        -        Ah, anda logo - gemeu Rony, ao lado de Harry. - Eu seria capaz de devorar um hipogrifo.
        As palavras mal tinham sado de sua boca e as portas do Salo
Principal se abriram e fez-se silncio. A Profa Minerva encabeava
uma longa fila de alunos do primeiro ano at o centro do salo. Se
 Harry, Rony e Hermione estavam molhados, seu estado nem se
comparava ao desses garotos. Eles pareciam ter feito a travessia do
lago a nado em lugar de faz-la de barco. Todos estavam tomados
#142
por tremores, em que se misturavam o frio e o nervosismo, ao passarem pela mesa dos professores e pararem em fila diante do resto da escola - todos exceto o menorzinho,
um menino com cabelos castanho-baos, que vinha embrulhado em um agasalho que Harry reconheceu ser o casaco de pele de toupeira de Hagrid. O casaco era to grande
que o garoto parecia coberto por um toldo escuro e peludo. Seu rosto mido aparecia por cima da gola, quase
dolorosamente excitado. Quando ele se alinhou com os colegas
aterrorizados, viu que Colin Creevey o olhava, ergueu os polegares e falou:
        -        Ca no lago! - Parecia decididamente encantado com o ocorrido.
        A Profa Minerva agora colocava um banquinho de trs pernas diante dos novos alunos e, em cima, um chapu de bruxo, extremamente velho, sujo e remendado.
Os garotos arregalaram os olhos. E todo o resto da escola tambm. Por um instante, fez-se silncio. Em seguida um rasgo junto  aba se escancarou como uma boca,
e o chapu comeou a cantar:

H mil anos ou pouco mais,
Eu era recm-feito,
Viviam quatro bruxos de fama,
Cujos nomes todos ainda conhecem:
O        valente Gryffindor das charnecas,
O        bonito Ravenclaw das ravinas,
O        meigo Hufflepuff das plancies,
O        astuto Slytherin dos brejais.
Compartiam um desejo, um sonho,
Uma esperana, um plano ousado
De, juntos, educar jovens bruxos,
Assim comeou a Escola de Hogwarts.
Cada um desses quatro fundadores
Formou sua prpria casa, pois cada um
Valorizava virtude vria
Nos jovens que pretendiam formar.
Para Gryffindor os valentes eram
Prezados acima de todo o resto;
        Para Ravenclaw os mais inteligentes
        Seriam sempre os superiores;
        Para Hufflepuff os aplicados eram
#143
Os merecedores de admisso;
E Slytherin, mais sedento de poder,
Amava aqueles de grande ambio.
Enquanto vivos eles separaram
Do conjunto os seus favoritos
Mas como selecionar os melhores,
Quando um dia tivessem partido?
Foi Gryffindor que encontrou a soluo
Tirando-me da prpria cabea
Depois me dotaram de crebro
Para que por eles eu pudesse escolher!
Coloque-me entre suas orelhas,
At hoje ainda no me enganei.
Darei uma olhada em sua cabea
E direi qual a casa do seu corao!

Os aplausos ecoaram pelo Salo Principal quando o Chapu Seletor terminou.
        -        No foi essa a msica que ele cantou quando fomos selecionados - disse Harry, fazendo coro aos aplausos gerais.
        -        Cada ano ele canta uma diferente - disse Rony. - Deve ser uma vida bem chata, no , a de um chapu? Vai ver ele passa o ano
compondo a nova cano.
        A Profa Minerva agora desenrolava um grande pergaminho.
        -        Quando eu chamar seu nome, ponha o Chapu e se sente no banquinho - explicou ela aos alunos do primeiro ano. - Quando o
chapu anunciar sua casa, v se sentar  mesa correspondente.
        -        Ackerley, Stuart!
        Um menino se adiantou, tremendo visivelmente da cabea aos
ps, apanhou o Chapu, colocou-o e se sentou no banquinho.
        -        Corvinal!- anunciou o chapu.
        Stuart Ackerley tirou o chapu e correu para uma cadeira 
mesa de Corvinal, na qual todos o aplaudiam.
        Harry viu, de relance, Cho, a apanhadora do time da Corvinal, aplaudindo Stuart Ackerley quando o garoto se sentou. Por um segundo fugaz, Harry teve um estranho
desejo de se reunir  mesa da Corvinal tambm.
        - Baddock,Malcolm!
#        144
        A mesa do outro lado do salo prorrompeu em vivas. Harry viu Malfoy aplaudindo quando Baddock se juntou aos alunos de Sonserna. Harry se perguntou se Baddock
saberia que a casa de Sonserina formara um nmero maior de bruxos das trevas do que qualquer outra. Fred e Jorge vaiaram Malcolm Baddock quando ele se sentou.
        - Branstone, Eleanora!
-        Lufa-Lufa!
        - Cauldwell, Owen!
-        Lufa-Lufa!
        - Creevey, Dnis!
        O miudinho Dnis Creevey adiantou-se com passos incertos, tropeando no casaco de Hagrid, que nesta hora entrou discretamente no salo por uma porta atrs
da mesa dos professores. Umas duas vezes mais alto do que um homem normal e pelo menos 
trs vezes mais largo, Hagrid, com seus cabelos e barbas negros, longos, desgrenhados
e embaraados, parecia um tanto assustador - uma impresso enganosa, porque Harry, Rony e Hermione sabiam que o amigo possua uma natureza muito bondosa. Ele deu
uma piscadela para os trs garotos, ao se sentar  ponta da mesa dos professores e viu Dnis Creevey experimentar o Chapu Seletor. O rasgo junto  aba se escancarou...
        -        Grifinria!- gritou o chapu.
        Hagrid aplaudiu com os demais alunos da Casa, quando Dnis
Creevey, abrindo um sorriso de lado a lado do rosto, tirou o chapu, recolocou-o no banquinho e correu para se juntar ao
irmo.
        -        Colin, eu ca na gua! - disse ele com a voz aguda,
atirando-se no assento de uma cadeira vazia. - Foi genial! E uma coisa na
gua me agarrou e me empurrou de volta pro barco!
        -        Legal! - disse Colin, no mesmo tom excitado. - Provavelmente foi a lula gigante, Dnis!
        -        Uau! - exclamou Dnis, como se ningum, nem no sonho mais delirante, pudesse esperar coisa melhor do que ser atirado em um lago revolto e profundo 
e ser empurrado de volta por um gigantesco monstro marinho.
        -        Dnis! Dnis! Est vendo aquele garoto l? Aquele de cabelos
pretos e culos? Est vendo ele? Sabe quem , Dnis?        
        Harry olhou para o outro lado, fixando toda a ateno no
Chapu Seletor, que agora selecionava Ema Dobbs.
#145
        A seleo prosseguiu; garotos e garotas expressando no rosto variados graus de medo se adiantavam, um a um, at o banquinho de trs pernas, e a fila foi
diminuindo  medida que a Profa Minerva ultrapassava a letra "L".
        -        Ah, anda logo - gemeu Rony, massageando o estmago.
        -        Ora, Rony, a seleo  muito mais importante do que a comida - disse Nick Quase Sem Cabea, na hora em que "Madley,
Laura!" tornava-se aluna da Lufa-Lufa.
        -        Claro que , se a pessoa j est morta - retrucou Rony.
        -        Espero que os selecionados para a Grifinria este ano estejam  altura do time - disse o fantasma, aplaudindo, quando "McDonald, Natlia!" reuniu-se 
 mesa deles. - No queremos interromper a nossa mar de vitrias, no  mesmo?
        Grifinria tinha ganho o Campeonato Intercasas nos trs ltimos anos.
        -        Pritchard, Gro!
-        Sonserina!
        -        Quirke, Orla!
-        Corvinal!
        E, finalmente, com "Whirby, Kevin!" (Lufa-Lufa.") encerrou-se a seleo. A Profa Minerva apanhou o chapu e o banquinho e
levou-os embora.
        -        J no era sem tempo - exclamou Rony, apanhando os talheres e olhando esperanoso para seu prato de ouro.
        O        Prof. Dumbledore se levantara. Sorria para os estudantes, os braos abertos num gesto de boas-vindas.
        -        S tenho duas palavras para lhes dizer - comeou ele, sua voz grave ecoando pelo salo. - Bom apetite!
        -        Apoiado! Apoiado! - disseram Harry e Rony em voz alta, enquanto as travessas vazias se enchiam magicamente diante dos
seus olhos.
        Nick Quase Sem Cabea ficou observando tristemente Harry,
Rony e Hermione encherem os pratos.
        -        Aaah, agora sim! - disse Rony, com a boca cheia de pur de batatas.
        -        Vocs tm sorte de que haja uma festa esta noite, sabem - 
disse Nick Quase Sem Cabea. - Hoje cedo tivemos problemas na
cozinha.
#146
        -        Por qu? O que aconteceu? - perguntou Harry com a boca cheia de carne.
        -        Pirraa,  claro - disse Nick sacudindo a cabea, que se desequilibrou perigosamente. O fantasma puxou mais para cima um rufo da gola. - A histria 
de sempre, sabem. Ele queria vir  festa, bom, isto est fora de questo, vocs sabem como ele , absolutamente selvagem, no pode ver um prato de comida sem querer 
atir-lo longe. Reunimos um conselho de fantasmas, frei Gorducho foi a favor de dar uma chance a Pirraa, mas muito prudentemente, na minha opinio, o baro Sangrento 
fez p firme.
        O        baro Sangrento era o fantasma da Sonserina, um espectro extremamente magro e silencioso, coberto de manchas de sangue prateado. Era a nica pessoa 
de Hogwarts que conseguia realmente controlar Pirraa.
        -        E, achamos que Pirraa estava invocado com alguma coisa - disse Rony sombriamente. - Ento, que foi que ele aprontou na
cozinha?
        - Ah, o de sempre - respondeu Nick Quase Sem Cabea, sacudindo os ombros -, causou prejuzos e confuso. Tachos e panelas por toda parte. Sopa para todo 
lado. Deixou os elfos domsticos loucos de terror...
        Blm. Hermione derrubara sua taa de vinho. O suco de abbora escorreu pela mesa, manchando de laranja mais de um metro
de linho branco, mas nem se importou.
        -        Tem elfos domsticos aqui? - perguntou, encarando Nick Quase Sem Cabea com uma expresso de horror. - Aqui em
Hogwarts?
    - Claro que sim - disse o fantasma, parecendo surpreso com a
reao da garota. - O maior nmero que existe em uma habitao
na Gr-Bretanha, acho. Mais de cem.
        -        Eu nunca vi nenhum! - exclamou Hermione.
        -        Bom, eles raramente deixam a cozinha durante o dia, no ? Saem  noite para fazer limpeza... abastecer as lareiras e coisas assim... quero dizer,
no  esperado que fiquem  vista. Essa  a marca de um bom elfo domstico, no , que no se saiba que ele existe.
Hermione ficou olhando o fantasma.
        -        Mas eles recebem sal rio? - perguntou ela. - Tm frias, no tm? Licena mdica, aposentadoria e todo o
resto?
#147
        Nick Quase Sem Cabea deu gargalhadas to gostosas que sua gola de tufos escorregou, e a cabea despencou para o lado e ficou balanando nos poucos centmetros
de pele e msculo fantasmais que ainda a ligavam ao pescoo.
        - Licena para tratamento mdico e aposentadoria? - repetiu ele, puxando a cabea de volta aos ombros e prendendo-a mais uma vez com a gola. - Elfos domsticos 
no querem licenas nem aposentadorias.
        Hermione olhou para o prato de comida em que mal tocara,
juntou os talheres e afastou-o.
        - Ora, vamos, Mi-oinc - disse Rony, cuspindo, sem querer, fragmentos de pudim de carne em Harry. - Opa... desculpe, Harry... - E engoliu. - Voc no vai 
arranjar licenas para eles deixando de comer!
        - Trabalho escravo - disse a garota, respirando com fora pelo nariz. - Foi isso que preparou este jantar. Trabalho escravo.
        E recusou-se a continuar a comer.
        A chuva aiinda batucava com fora nas janelas altas e escuras. Mais uma trovoada sacudiu as vidraas e o cu tempestuoso relampejou, iluminando os pratos 
de ouro quando os restos do primeiro prato desapareceram e foram substituidos instantaneamente por sobremesas.
        - Torta de caramelo, Mione! - exclamou Rony, abanando intencionalmente o cheiro da sobremesa para os lados da amiga. - Pudim de groselhas, olha! Bolo de 
chocolate recheado!
        Mas Hermione lhe lanou um olhar to parecido com o que a
Profa Minerva costumava dar que o garoto desistiu.
        Quando as sobremesas tambm tinham sido destruidas, e as ltimas migalhas desaparecidas dos pratos, deixando-os limpos e brilhantes, Alvo Dumbledore tornou 
a se levantar. O burburinho das conversas que enchiam o salo cessou quase imediatamente, de modo que somente se ouviam o uivo do vento e o batuque da chuva.
        - Ento! - exclamou Dumbledore, sorrindo para todos. - AGora que j comemos e molhamos tambm a garganta ("Hum!",
fez Hermione), preciso mais uma vez pedir sua ateno, para alguns avisos.
        "O Sr. Filch, o zelador, me pediu para avis-los de que a lista
dos objetos proibidos no interior do castelo este ano cresceu, passando
#148
a incluir Iois-berrantes, Frisbees-dentados e Bumerangues de-repetio. A lista inteira tem uns quatrocentos e trinta e sete itens, creio eu, e pode ser examinada
na sala do Sr. Filch, se algum quiser l-la."
        Os cantos da boca de Dumbledore tremeram ligeiramente.
        Ele continuou:
        -        Como sempre, eu gostaria de lembrar a todos que a floresta que faz parte da nossa propriedade  proibida a todos os alunos, e o povoado de Hogsmeade,
queles que ainda no chegaram  terceira srie.
        "Tenho ainda o doloroso dever de informar que este ano no
realizaremos a Copa de Quadribol entre as casas.
        -        Qu? - exclamou Harry. Ele olhou para Fred e Jorge, seus companheiros no time de quadribol. Xingaram Dumbledore em
silncio, aparentemente espantados demais para falar.
        Dumbledore continuou:
        -        Isto se deve a um evento que comear em outubro e ira prosseguir durante todo o ano letivo, mobilizando muita energia e muito tempo dos professores,
mas eu tenho certeza de que vocs iro apreci-lo imensamente. Tenho o grande prazer de anunciar que este ano em Hogwarts...
        Mas neste momento, ouviu-se uma trovoada ensurdecedora e
as portas do Salo Principal se escancararam.
        Apareceu um homem parado  porta, apoiado em um longo cajado e coberto por uma capa de viagem preta. Todas as cabeas no Salo Principal se viraram para 
o estranho, repentinamente iluminado por um relmpago que cortou o teto. Ele baixou o capuz, sacudiu uma longa juba de cabelos grisalhos ainda escuros e comeou 
a caminhar em direo  mesa dos professores.
        Um rudo metlico e abafado ecoava pelo salo a cada passo que ele dava. Quando alcanou a ponta da mesa, virou  direita e mancou pesadamente at
Dumbledore.
Mais um relmpago cruzou o teto. Hermione prendeu a respirao.
        O        relmpago revelou nitidamente as feies do homem e seu rosto era diferente de qualquer outro que Harry j vira. Parecia ter sido talhado em madeira
exposta ao tempo, por algum que tinha uma vagussima idia do aspecto que um rosto humano deveria ter, e no fora muito habilidoso com o formo. Cada centmetro
da pele do estranho parecia ter cicatrizes. A boca lembrava um rasgo
#149
diagonal e faltava um bom pedao do nariz. Mas eram os seus olhos que o tornavam assustador.
        Um deles era mido, escuro e penetrante. O outro era grande, redondo como uma moeda e
azul-eltrico vivo, O olho azul se movia continuamente sem piscar,
e revirava para cima, para baixo, e de um lado para o outro, independentemente do olho normal - depois virava de trs para diante, apontando para o interior da cabea
do homem, de modo que s o que as pessoas viam era o branco da crnea.
        O        estranho chegou-se a Dumbledore. Estendeu a mo direita, que era to cheia de cicatrizes quanto o rosto, e o diretor a apertou, murmurando palavras
que Harry no pde ouvir. Parecia estar fazendo perguntas ao estranho, que abanava negativamente a cabea, sem sorrir, e respondia em voz baixa. Dumbledore assentiu
com a cabea e indicou ao homem o lugar vazio  sua direita.
        O        estranho se sentou, sacudiu a juba grisalha para afast-la do rosto, puxou um prato de salsichas para si, levou-o ao que restara do nariz e cheirou-o.
Tirou ento uma faquinha do bolso, espetou a salsicha e comeou a comer. Seu olho normal fixava as salsichas, mas o olho azul continuava a dar voltas na rbita
registrando
o salo e os estudantes.
        -        Gostaria de apresentar o nosso novo professor de Defesa contra as Artes das Trevas - disse Dumbledore, animado, em meio ao
silncio. - Prof. Moody.
        Era normal os novos membros do corpo docente serem recebidos com aplausos, mas nem os colegas nem os estudantes bateram palmas, exceto Dumbledore e Hagrid.
Os dois juntaram as mos e bateram palmas, mas o som ecoou tristemente no silncio e eles bem depressa pararam. Todos pareciam demasiado hipnotizados pela aparncia
grotesca de Moody para ter qualquer reao exceto encarar o homem.
        -        Moody? - murmurou Harry para Rony. - Olho-Tonto Mooa"y?O que o seu pai foi ajudar hoje de manh?
        -        Deve ser - disse Rony baixo, em tom de assombro.
        -        Que aconteceu com ele? - cochichou Hermione. - Que aconteceu com a cara dele?
 - No sei - cochichou Rony em resposta, mirando Moody, fascinado.
#150
        Moody parecia totalmente indiferente  recepo quase fria que tivera. Ignorando a jarra de suco de abbora  sua frente, o homem tornou a enfiar a mo no
interior da capa, puxou um frasco de bolso e bebeu um longo gole. Quando levantou o brao para beber, sua capa se elevou alguns centmetros do cho e Harry viu,
por baixo da mesa, um bom pedao de uma perna de pau, que terminava em um p com garras.
        Dumbledore pigarreou outra vez.
        - Como eu ia dizendo - recomeou ele, sorrindo para o mar de alunos  sua frente, todos ainda mirando Olho-Tonto Moody, paralisados -, teremos a honra de
sediar um evento muito excitante nos prximos meses, um evento que no  realizado h um sculo. Tenho o enorme prazer de informar que, este ano, realizaremos um
Torneio Tribruxo em Hogwarts.
        - O senhor est BRINCANDO! - exclamou em voz alta Fred Weasley.
        A tenso que invadira o salo desde a chegada de Moody repentinamente se desfez.
        Quase todos riram e Dumbledore deu risadinhas de prazer.
        - No estou brincando, Sr. Weasley - disse ele -, embora, agora que o senhor menciona, ouvi uma excelente piada durante o vero sobre um trasgo, uma bruxa 
m e um leprechaun que entram num bar...
        A Profa Minerva pigarreou alto.
        - Hum... mas talvez no seja hora... no... Onde  mesmo que eu estava? Ah, sim, no Torneio Tribruxo... bom, alguns de vocs talvez no saibam o que  esse 
torneio, de modo que espero que aqueles que j sabem me perdoem por dar uma breve explicao, e deixem sua ateno vagar livremente.
        "O Torneio Tribruxo foi criado h uns setecentos anos, como uma competio amistosa entre as trs maiores escolas europias de bruxaria - Hogwarts, Beauxbatons 
e Durmstrang. Um campeo foi eleito para representar cada escola e os trs campees competiram em trs tarefas mgicas. As escolas se revezaram para sediar o torneio 
a cada cinco anos, e todos concordaram que era uma excelente maneira de estabelecer laos entre os jovens bruxos e bruxas
de diferentes nacionalidades - at que a taxa de mortalidade se tornou to alta que o torneio foi interrompido."
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        -        Taxa de mortalidade? - sussurrou Hermione, parecendo assustada. Mas, aparentemente, sua ansiedade no foi compartida pela maioria dos alunos no
salo; muitos murmuravam entre si, excitados, e o prprio Harry estava bem mais interessado em saber mais sobre o torneio do que em se preocupar com o que acontecera 
centenas de anos atrs.
        -        Durante sculos houve vrias tentativas de reiniciar o torneio
- continuou Dumbledore -, nenhuma das quais foi bem-sucedida. No entanto, os nossos Departamentos de Cooperao Internacional em Magia e de Jogos e Esportes Mgicos 
decidiram que j era hora de fazer uma nova tentativa. Trabalhamos muito durante o vero para garantir que, desta vez, nenhum campeo seja exposto a um perigo mortal.
        "Os diretores de Beauxbatons e Durmstrang chegaro com a lista final dos competidores de suas escolas em outubro e a seleo dos trs campees ser realizada 
no Dia das Bruxas. Um julgamento imparcial decidir que alunos tero mrito para disputar a Taa Tribruxo, a glria de sua escola e o prmio individual de mil
galees."
        -        Estou nessa! - sibilou Fred Weasley para os colegas de mesa, o rosto iluminado de entusiasmo ante a perspectiva de tal glria e riqueza. Aparentemente
ele no era o nico que estava se vendo como campeo de Hogwarrs. Em cada mesa Harry viu gente olhando arrebatada para Dumbledore ou ento cochichando ardentemente
com os vizinhos. Mas, ento, Dumbledore recomeou a falar, e o salo se aquietou.
        -        Ansiosos como eu sei que estaro para ganhar a Taa para Hogwarts - disse ele -, os diretores das escolas participantes, bem como o Ministrio da
Magia, concordaram em impor este ano uma restrio  idade dos contendores. Somente os alunos que forem maiores, isto , tiverem mais de dezessete anos, tero permisso
de apresentar seus nomes  seleo. Isto - Dumbledore elevou ligeiramente a voz, pois vrias pessoas haviam protestado indignadas ao ouvir suas palavras, e os gmeos
Weasley, de repente, pareciam furiosos -  uma medida que julgamos necessria, pois as tarefas do torneio continuaro a ser difceis e perigosas, por mais
precaues que tomemos, e  muito pouco provvel que os alunos
abaixo da sexta e stima sries sejam capazes de dar conta delas.
Cuidarei pessoalmente para que nenhum aluno menor de idade
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engane o nosso juiz imparcial e seja escolhido campeo de Hogwarts. - Seus olhos azul-claros cintilaram ao perpassar os rostos rebelados de Fred e Jorge. - Portanto
peo que no percam tempo apresentando suas candidaturas se ainda no tiverem completado dezessete anos.
        "As delegaes de Beauxbatons e de Durmstrang chegaro em outubro e permanecero conosco a maior parte deste ano letivo. Sei que estendero as suas boas 
maneiras aos nossos visitantes estrangeiros enquanto estiverem conosco, e que daro o seu generoso apoio ao campeo de Hogwarrs quando ele for escolhido. E agora
j est ficando tarde e sei como  importante estarem acordados e descansados para comear as aulas amanh de manh. Hora de dormir! Vamos
andando!"
        Dumbledore tornou a se sentar e virou-se para falar com OlhoTonto Moody. Ouviu-se um estardalhao de cadeiras batendo e se arrastando quando os alunos se
levantaram para sair como um enxame em direo s portas de entrada do Salo Principal.
        -        No podem fazer isso com a gente! - reclamou Jorge Weasley, que no se reunira aos colegas que se dirigiam s portas, mas continuara parado olhando
de cara emburrada para Dumbledore. - Vamos fazer dezessete anos em abril, por que no podemos tentar?
        -        No vo me impedir de me inscrever - disse Fred, teimoso, tambm amarrando a cara para a mesa principal. - Os campees vo fazer todo o tipo de
coisa que normalmente nunca podemos fazer. E mil galees de prmio!
        -         - disse Rony, um olhar distante no rosto. - , mil galees...
        -        Vamos - disse Mione -, vamos ser os nicos a ficar aqui se voc no se mexer.
        Harry, Rony, Hermione, Fred e Jorge saram para o saguo de entrada, os gmeos discutindo as maneiras pelas quais Dumbledore poderia impedir os menores de
dezessete anos de se inscreverem no torneio.
        -        Quem  esse juiz imparcial que vai decidir quem so os campees? - perguntou Harry.
        -        Sei l - disse Fred - mas  ele a quem temos de enganar. Acho que umas gotas de Poo para Envelhecer talvez resolvam, Jorge...
        -        Mas Dumbledore sabe que vocs so menores - ponderou Rony.
#153
        -        , mas no  ele que decide quem  o campeo, ? - perguntou Fred, astutamente. - Estou achando que quando esse juiz souber quem quer entrar, ele
vai escolher o melhor de cada escola, sem se importar com a idade do campeo. Dumbledore est tentando impedir a gente de se inscrever.
        -        Mas teve pessoas que morreram! - disse Hermione com a voz preocupada, enquanto passavam por uma porta escondida atrs de
uma tapearia para subir outra escada ainda mais estreita.
        -         - disse Fred levianamente -, mas isso foi h muitos anos, no ? Em todo o caso onde  que est a graa se no houver um pouco de risco? Ei, Rony, 
e se descobrirmos como contornar Dumbledore? J imaginou a gente se inscrevendo?
        -        Que  que voc acha? - perguntou Rony a Harry. - Seria legal, no seria? Mas suponha que eles queiram algum mais
velho?... No sei se j aprendemos o suficiente...
        -        Eu decididamente no aprendi - ouviu-se a voz tristonha de Neville s costas de Fred e Jorge. - Mas imagino que a minha av vai querer que eu experimente, 
ela est sempre falando que eu devia lutar pela honra da famlia. Eu terei que... pa...
        O        p de Neville afundara direto por um degrau no meio da escada. Havia muitos desses degraus bichados em Hogwarts; j era uma segunda natureza na 
maioria dos alunos antigos saltar esse determinado degrau, mas a memria de Neville era notoriamente fraca. Harry e Rony o agarraram pelas axilas e o puxaram para 
cima, enquanto uma armadura no alto das escadas rangia e retinia, rindo-se asmaticamente.
        -        Quieta a - disse Rony, baixando o visor da armadura com estrpito, ao passarem.
        Os garotos se dirigiram  entrada da Torre da Grifinria, que
ficava escondida atrs de uma grande pintura a leo de uma mulher gorda com um vestido de seda rosa.
        - Senha? - perguntou ela quando os garotos se aproximaram.
        -        Asnice- disse Jorge-, um monitor me informou l embaixo.
        O retrato girou para a frente, expondo um buraco na parede, pelo qual todos passaram. Um fogo crepitante aquecia a sala comunal circular, mobiliada com fofas
poltronas e mesas. Hermione lanou s chamas danantes um olhar mal-humorado e Harry a ouviu dizer distintamente "trabalho
escravo"!, antes de dar boa-noite aos
#154
amigos e desaparecer pelo portal que dava acesso ao dormitrio das meninas.
        Harry, Rony e Neville subiram a ltima escada em espiral para chegar ao prprio dormitrio, que ficava situado no alto da Torre. As camas de colunas com 
cortinados vermelho-escuros estavam encostadas s paredes, cada uma com o malo do dono aos ps. Dino e Simas j estavam se deitando; Simas pregara sua roseta da 
Irlanda na cabeceira da cama e Dino afixara um pster de Vror Krum em cima da mesa-de-cabeceira. Seu velho pster do time de futebol de West Ham estava pendurado 
ao lado do novo.
        - Biruta - suspirou Rony, sacudindo a cabea para os jogadores de futebol completamente imveis.
        Harry, Rony e Neville vestiram os pijamas e se enfiaram em suas camas. Algum - um elfo domstico, com certeza - colocara esquentadores entre os lenis. 
Era extremamente confortvel, ficar ali deitado na cama escutando a tempestade rugir l fora.
        -        Eu tentaria, sabe - disse Rony, sonolento, no escuro - se Fred e Jorge descobrirem como... o torneio... nunca se sabe, no ?
        -        Imagino que no... - Harry se virou na cama, uma srie de imagens novas e fascinantes se formando em sua cabea... ele
enganara o juiz imparcial
fazendo-o acreditar que tinha dezessete anos... tornara-se campeo de Hogwarrs... estava em p nos jardins, os braos erguidos em triunfo diante de toda a escola,
que o aplaudia e gritava... ele acabara de ganhar o Torneio Tribruxo... O rosto de Cho se destacava claramente na multido difusa, o rosto radioso de admirao...
        Harry sorriu para o travesseiro, excepcionalmente contente de
que Rony no pudesse ver o que ele via.
#155


*****


- CAPITULO TREZE
Olho-Tonto Moody


O        temporal j se esgotara quando o dia seguinte amanheceu, embora o teto no Salo Principal continuasse ameaador; pesadas nuvens cinza-chumbo se espiralavam 
no alto quando Harry, Rony e Hermione examinaram seus novos horrios ao caf da manh. A poucas cadeiras de distncia, Fred, Jorge e Lino Jordan discutiam mtodos 
mgicos de se tornarem velhos e, com esse truque, participar do Torneio Tribruxo.
        - Hoje no  ruim... l fora a manh inteira - disse Rony, que corria o dedo pela coluna intitulada segunda-feira no seu horrio -, Herbologia com a Lufa-Lufa 
e Trato das Criaturas Mgicas... droga, continuamos com a Sonserina...
        -        Dois tempos de Adivinhao hoje  tarde - gemeu Harry, baixando os olhos. Adivinhao era a matria de que ele menos gostava, depois de Poes. 
A Profa Sibila Trelawney no parava de predizer a morte de Harry, coisa que ele achava muitssimo aborrecida.
        -        Voc devia ter desistido como eu fiz, no ? - disse Hermione decidida, passando manteiga na torrada. - Ento poderia fazer
alguma coisa sensata como Aritmancia.
        -        Voc voltou a comer, pelo que estou vendo - comentou Rony, observando Hermione acrescentar generosas quantidades de
gelia  torrada amanteigada.
        -        J resolvi que h maneiras melhores de marcar posio no caso dos direitos dos elfos - disse Hermione com altivez.
        -        E... e pelo visto est com fome - disse Rony, sorrindo.
        Houve um repentino rumorejo acima deles e cem corujas
entraram pelas janelas abertas, trazendo o correio da manh.
Instintivamente, Harry olhou para o alto, mas no viu nada branco na mancha compacta de castanhos e cinza. As corujas circularam sobre as mesas, procurando as
pessoas a quem as cartas e pacotes eram endereados. Uma corujona mbar desceu at Neville
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Longbottom e depositou um embrulho em seu colo - o garoto quase sempre se esquecia de guardar na mala alguma coisa. Do outro lado do salo, a coruja de Draco Malfoy
pousara no ombro dele trazendo sua habitual remessa de doces e bolos de casa. Tentando ignorar a profunda sensao de desapontamento no meio do estmago, Harry voltou 
sua ateno para o mingau de aveia. Ser que alguma coisa tinha acontecido a Edwiges e que Sirius sequer recebera sua carta?
        Sua preocupao se prolongou por todo o caminho pela horta enlameada at chegarem  estufa nmero trs, mas ali ele se distraiu com a Profa Sprout que mostrava 
 turma as plantas mais feias que Harry j vira. De fato, elas se pareciam mais com enormes lesmas gordas e pretas que brotavam verticalmente do solo do que com 
plantas. Cada uma delas se contorcia ligeiramente e tinha vrios inchaos brilhantes no corpo que pareciam cheios de lquido.
        -        Bubotberas - disse a Profa Sprout brevemente. - Precisam ser espremidas. Recolhe-se o pus...
        -        O qu? - exclamou Simas Finnigan, expressando sua repugnncia.
        -        Pus, Finnigan - respondeu a professora -, e  extremamente precioso, por isso no o desperdice. Recolhe-se o pus, como eu ia dizendo, nessas garrafas.
Usem as luvas de couro de drago, podem acontecer reaes engraadas na pele quando o pus das bubotberas no est diludo.
        Espremer as buborberas era nojento, mas dava um estranho prazer.  medida que estouravam cada tumor, saa dele uma grande quantidade de lquido verde-amarelado,
que cheirava fortemente a gasolina. Os alunos o recolheram em garrafas, conforme a professora orientara e, no fim da aula, haviam obtido vrios litros.
        -        Isto vai deixar Madame Pomfrey feliz - disse a Profa Sprour arrolhando a ltima garrafa. - Um remdio excelente para as formas mais renitentes de
acne, o pus de bubotberas. Pode fazer os alunos pararem de recorrer a medidas desesperadas para se livrarem das espinhas.
        -        Como a coitada da Heloisa Midgen - disse Ana Abbott, aluna da Lufa-Lufa, em voz baixa. - Ela tentou acabar com as dela lanando um feitio.
        -        Que menina tola! - disse a professora, balanando a cabea.
-        Mas, no fim, Madame Pomfrey fez o nariz dela voltar  forma anterior.
#157
        Uma sineta ressonante sinalizou o fim da aula e a turma se separou; os da Lufa-Lufa subiram a escada de pedra rumo  aula de Transformao e os da Grifinria
tomaram outro rumo, descendo o jardim em direo  pequena cabana de madeira de Hagrid, que ficava na orla da Floresta Proibida.
        Hagrid estava parado  frente da cabana, uma das mos na coleira do seu enorme co de caar javalis, Canino. Havia varios caixotes abertos no cho a seus
ps, e Canino choramingava e retesava a coleira, aparentemente tentando investigar o contedo dos caixotes mais de perto. Quando os garotos se aproximaram, um estranho 
som de chocalho chegou aos seus ouvidos pontuado, aparentemente, por pequenas exploses.
        -        Dia! - cumprimentou Hagrid, sorrindo para Harry, Rony e Hermione. - Melhor esperar pelos alunos da Sonserina, eles no
vo querer perder isso... Explosivins!
        -        Como ? - perguntou Rony.
        Hagrid apontou para os caixotes.
        - Arrrrrre! - exclamou Lil Brown num gririnho agudo, saltando para trs.
        "Arrrrrre" praticamente resumia o que eram os explosvns, na opinio de Harry. Pareciam lagostas sem casca, deformadas, terrivelmente plidas e de aspecto 
pegajoso, as pernas saindo dos lugares mais estranhos e sem cabea visvel. Havia uns cem deles em cada caixote, cada um com uns quinze centmetros de comprimento, 
rastejando uns sobre os outros, batendo s cegas contra as paredes das caixas. Desprendiam um cheiro forte de peixe podre. De vez em quando, soltavam fascas da 
cauda e, com um leve pum, se deslocavam alguns centmetros  frente.
        - Acabaram de sair da casca - informou Hagrid orgulhoso -, por isso vocs vo poder criar os bichinhos pessoalmente! Achei
que podamos fazer uma pesquisa sobre eles!
        -        E por que ns amos querer criar esses bichos? - perguntou uma voz fria.
Os alunos da Sonserina haviam chegado. Quem falava era
Draco Malfoy. Crabbe e Goyle davam risadinhas de prazer ao ouvir
        suas palavras.
        Hagrid pareceu embatucar com a pergunta.
                - Quero dizer, o que  que eles fazem? - perguntou Malfoy. -
#        158
Para que servem?
        Hagrid abriu a boca, aparentemente fazendo um esforo para responder; houve uma pausa de alguns segundos, depois ele disse
com aspereza:
        -        Isto  na prxima aula, Malfoy. Hoje voc s vai alimentar os bichos. Agora vamos ter que experimentar diferentes alimentos... nunca os criei antes,
no tenho certeza do que gostariam... tenho ovos de formiga, fgados de sapo e um pedao de cobra, experimentem um pedacinho de cada.
        -        Primeiro pus e agora isso - resmungou Simas.
        Nada, exceto a profunda afeio que tinham por Hagrid, poderia ter feito Harry, Rony e Hermione apanhar mos cheias de fgados de sapo melados e baix-las
aos caixotes para tentar os explosivins. Harry no conseguiu refrear a suspeita de que aquilo tudo no tinha finalidade alguma, porque os bichos no pareciam ter
bocas.
        - Ai!- gritou Dino Thomas, passados uns dez minutos. - Ele me pegou!
        Hagrid correu para o garoto, com uma expresso ansiosa no
rosto.
        -        A caudadele explodiu! - disse Dino zangado, mostrando a Hagrid uma queimadura na mo.
        -        Ah, , isso pode acontecer quando eles disparam - disse Hagrid, confirmando o que dizia com a cabea.
        -        Arre! - exclamou Lil Brown outra vez. - Arre, Hagrid, que  essa coisinha pontuda neles?
        -        Ah, alguns tm espinhos - disse Hagrid entusiasmado (Lil retirou depressa a mo da caixa). - Acho que so os machos... as fmeas tm uma espcie
de sugador na barriga... Acho que talvez seja para sugar sangue.
        - Bom, sem a menor dvida eu entendo por que estamos tentando manter esses bichos vi Vos - disse Malfoy sarcasticamente. - Quem no iria querer
animalzinhos
de estimao que podem queimar, picar e morder, tudo ao mesmo tempo?
        - S porque eles no so muito bonitos, no significa que no sejam teis - retorquiu Hermione. - Sangue de drago  uma coisa assombrosamente mgica, mas
voc no iria querer um drago
como bicho de estimao, no  mesmo?        
 Harry e Rony sorriram para Hagrid, que retribuiu com um
sorriso furtivo por trs da barba espessa. Nada o teria agradado
#159
mais do que um filhote de drago, como Harry, Rony e Hermione sabiam mais do que bem - ele criara um, por um breve perodo, durante o primeiro ano deles na escola,
um agressivo drago noruegus que recebera o nome de Norberto. Hagrid simplesmente amava monstros - quanto mais letal, melhor.
        -        Bom, pelo menos os explosivins so pequenos - disse Rony, quando voltavam uma hora depois ao castelo para almoar.
        -        So agora - disse Hermione, com uma voz exasperada -, mas depois que o Hagrid descobrir o que eles comem, imagino que vo
atingir um metro e meio de comprimento.
        -        Bom, isso no vai fazer diferena se descobrirem que eles curam enjo ou outra coisa qualquer, no ? - disse Rony, sorrindo sonsamente para a amiga.
        -        Voc sabe perfeitamente bem que eu s disse aquilo para calar a boca de Malfoy - retrucou Hermione. - Alis acho que ele tem razo. O melhor que
podamos fazer era acabar com os bichos antes que eles comecem a nos atacar.
        Os garotos se sentaram  mesa da Grifinria e se serviram de
costeletas de cordeiro com batatas. Hermione comeou a comer
to rpido que Harry e Rony ficaram olhando para ela.
        -        Hum, essa  a sua nova posio em favor dos direitos dos
elfos? - perguntou Rony. - Em vez de no comer, comer depressa
para vomitar?
        -        No - respondeu Hermione com toda a dignidade que conseguiu reunir tendo a boca cheia de couves-de-bruxelas. - S quero
chegar  biblioteca.
        -        Qu?- exclamou Rony incrdulo. - Mione,  o primeiro dia de aulas! Ainda nem passaram dever de casa pra gente!
Hermione sacudiu os ombros e continuou a devorar a comida
como se no comesse h dias. Em seguida se levantou e disse:
- Vejo vocs no jantar! - e saiu apressadissima.
        Quando a sineta tocou para anunciar o inicio das aulas da tarde, Harry e Rony se dirigiram  Torre Norte, onde, no alto de uma estreita escada em caracol,
uma escada de mo prateada levava a um alapo no teto e  sala em que morava a Profp" Sibila Trelawney.
        O j conhecido perfume doce que saa da lareira veio ao encontro das 
narinas dos garotos quando eles chegaram ao topo da escada. Como sempre, as cortinas
estavam fechadas; e a sala circular,
banhada por uma fraca luz avermelhada projetada por vrias lmpadas
#160
cobertas por lenos e xales. Harry e Rony caminharam entre as cadeiras e pufes forrados de chintz, j ocupados, e se sentaram a mesma mesinha redonda.
        -        Bom-dia! - disse a etrea voz da professora s costas de Harry, causando-lhe um sobressalto.
        Uma mulher magra com enormes culos que faziam seus olhos parecerem demasiado grandes para o rosto, a professora mirava Harry com a expresso trgica que 
fazia sempre que o via. Os numerosos colares e pulseiras habituais faiscavam em seu corpo s chamas da lareira.
        -        Voc est preocupado, meu querido - disse ela tristemente a Harry. - Minha Viso Interior
transpe o seu rosto corajoso e chega dentro de sua alma
perturbada. E lamento dizer que suas preocupaes tm fundamento. Vejo tempos difceis em seu futuro, ai de voc... dificlimos... receio que a coisa que voc teme 
realmente venha a acontecer... e talvez mais cedo do que pensa...
        Sua voz foi baixando at virar quase um sussurro. Rony revirou os olhos para Harry, que lhe retribuiu com um olhar impassvel. A Profa Sibila deixou os garotos,
com um movimento ondulante, e se sentou na grande bergpre diante da lareira, de frente para a turma. Lil Brown e Parvati Patil, que a admiravam profundamente, estavam
sentadas em pufes muito prximos  professora.
        -        Meus queridos, est na hora de estudarmos as estrelas - disse ela. - Os movimentos dos planetas e os misteriosos portentos que eles revelam somente 
queles que compreendem os passos da coreografia celestial. O destino humano pode ser decifrado pelos raios planetrios que se fundem...
        Mas os pensamentos de Harry tinham se afastado. As chamas perfumadas sempre o deixavam sonolento e embotado, e os discursos desconexos da professora sobre 
adivinhao nunca conseguiam mant-lo exatamente fascinado - embora no pudesse deixar de refletir sobre o que ela acabara de dizer: "Receio que a coisa que voc 
teme realmente venha a acontecer...
Mas Hermione tinha razo, pensou Harry irritado, Sibila era
realmente uma velha charlat. Ele no estava com medo de absoluramente nada naquele momento... bom, a no ser talvez o medo de
que Sirius tivesse sido apanhado... mas o que sabia a professora?
Harry j chegara  concluso, havia muito tempo, de que a adivinhao
#161
dela no passava de palpites ocasionalmente certos e um jeito misterioso de apresent-los.
        Exceto, naturalmente, aquela vez no fim do ltimo trimestre, quando predissera o retorno de Voldemort ao poder... e o prprio Dumbledore era de opinio que 
o transe de Sibila fora genuno, quando Harry lhe contara...
        -        Harry!- murmurou Rony.
-        Qu?
        Harry olhou para os lados; a turma inteira o observava. Ele se sentou direito; estivera quase cochilando, perdido em meio ao calor e aos seus pensamentos.
        -        Eu estava dizendo, meu querido, que voc sem dvida nasceu sob a influncia nefasta de Saturno - disse a Profp Sibila, com um leve qu de mgoa
na voz pelo fato de que o garoto obviamente no estivera pendurado em suas palavras.
        -        Nasci sob o qu... perdo? - disse Harry.
        -        Saturno, querido, o planeta Saturno! - disse a professora, parecendo irritada que ele no tivesse prestado ateno  informao. - Eu estava dizendo 
que Saturno com certeza estava numa posio dominante no cu na hora em que voc nasceu... seus cabelos escuros... sua baixa estatura... suas perdas trgicas na 
infncia... acho que estou certa ao afirmar, meu querido, que voc nasceu em pleno inverno?
        -        No - respondeu Harry. - Nasci no vero.
        Rony se apressou em transformar uma risada em um forte
acesso de tosse.
        Meia hora depois, cada um dos alunos recebeu um mapa circular e tentou desenhar a posio dos planetas na hora do seu nascimento. Era um trabalho enjoado,
que exigia muitas consultas a tabelas horrias e clculos de ngulos.
        -        Eu tenho dois Netunos aqui - disse Harry, depois de algum tempo, olhando insatisfeito o seu pergaminho -, isso no pode
estar certo, pode?
        -        Aaaaah - exclamou Rony, imitando o sussurro mstico da professora -, quando dois Netunos aparecem no cu  um sinal
seguro de que um ano de culos est nascendo, Harry...
Simas e Dino, que estavam sentados prximos, riram alto,
embora no to alto a ponto de abafar os gritinhos excitados de
Lil Brown:
#162
        -        Ah, Profa Sibila, olhe! Acho que tenho um planeta oculto! Aaaah, qual  esse, professora?
        -         Urano, minha querida - disse a professora examinando o mapa.
        -        Posso dar uma olhada no seu Urano, tambm, Lil? - perguntou Rony.
Por infelicidade, a professora o ouviu e talvez tenha sido por
isso que no fim da aula passou para a turma tanto dever de casa.
        -        Quero uma anlise detalhada do modo com que os movimentos dos planetas vo afet-los no prximo ms, tendo em vista o seu mapa pessoal - disse ela 
secamente, parecendo mais a Profa Minerva do que a fada etrea de sempre. - Para entrega na prxima segunda-feira, e no aceito desculpas!
        -        Diabo de morcega velha - exclamou Rony com amargura, quando eles se reuniram aos demais alunos que desciam as escadas para jantar no Salo Principal.
- Isso vai nos tomar todo o fim de semana, ah vai...
        -        Muito dever de casa? - indagou Hermione animada, alcanando-os. - A Profa Vector no passou nada para
ns
        -        Palmas para a Profa Vector - retrucou Rony mal-humorado.
Os trs chegaram ao saguo de entrada, que estava lotado de
gente fazendo fila para o jantar. Tinham acabado de entrar no fim
da fila, quando uma voz alta soou s costas deles.
        -        Weasley! Ei, Weasley!
Harry, Rony e Hermione se viraram. Malfoy, Crabbe e Goyle
estavam parados ali, cada qual parecendo mais satisfeito.
        -        Que ? - perguntou Rony rispidamente.
        -        Seu pai est no jornal, Weasley! - disse Malfoy brandindo um exemplar do Profeta Dirio, e isso bem alto para que todas as
pessoas aglomeradas no saguo pudessem ouvir. - Escuta s isso!

NOVOS ERROS NO MINISTRIO DA MAGIA
        Pelo visto os problemas no Ministrio da Magia ainda no chegaram ao fim, informa nossa correspondente especial Rira Skeeter. Recentemente censurado por
sua incapacidade de controlar multides durante a Copa Mundial de Quadribol, e ainda
devendo  opinio pblica uma explicao para o desaparecimento de uma de suas bruxas, ontem o Ministrio enfrentou novo
163
constrangimento com as extravagncias de Arnold Weasley, da Seo de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas.

Malfoy ergueu os olhos.
        -        Imagina, nem escreveram direito o nome dele, Weasley,  quase como se ele no existisse, no ?
        Todos no saguo agora prestavam ateno. Malfoy esticou o
jornal com um gesto largo e continuou a ler:

Arnold Weasley acusado de possuir um carro voador h dois anos, envolveu-se ontem numa briga com guardies trouxas da lei (policiais) por causa de latas de lixo
extremamente agressivas. O Sr. Weasley parece ter ido socorrer "Olho- Tonto" Moody, um ex-auror idoso, que se aposentou do Ministrio ao se tornar incapaz de distinguir
um aperto de mo de uma tentativa de homicdio. Ao chegar  casa do ex-au ror, fortemente guardadap ofrncionrio verificou, sem surpresa, que, mais uma vez, o Sr.
Moody dera um alarme falso. Em consequncia, o Sr. Weasley foi obrigado a alterar muitas memrias para poder escapar dos policiais, mas se recusou a responder s
perguntas do Profeta Dirio sobre as razes que o levaram a envolver o Ministrio nesse episdio pouco digno e potencialmente embaraoso.

- E tem uma foto, Weasley! - acrescentou Malfoy, virando o jornal
e mostrando-a. - Uma foto de seus pais  porta de casa, se  que se
pode chamar isso de casa! Sua me bem que podia perder uns quilinhos, no acha?
        Rony tremia de fria. Todos o encaravam.
        - Se manda, Malfoy - disse Harry. - Vamos Rony...
        - Ah,  mesmo, voc esteve visitando a famlia no vero, no foi, Potter? - caoou Malfoy. - Ento me conta, a me dele parece
uma barrica ou  efeito da foto?
        - Voc j olhou bem para sua me, Malfoy? - respondeu Harry, ele e Hermione seguravam Rony pelas costas das vestes para impedi-lo de partir para cima do
outro. - Aquela expresso na cara dela, de quem tem bosta debaixo do nariz? Ela sempre teve aquela cara ou foi s porque voc estava perto dela?
O        rosto plido de Malfoy corou levemente.
        - No se atreva a ofender minha me, Potter.
        -        Ento v se cala esse boco - disse Harry dando as costas ao colega.
#164
BANGUE!
        Vrias pessoas gritaram - Harry sentiu uma coisa branca e quente arranhar o lado do rosto - mergulhou a mo nas vestes para apanhar a varinha, mas antes
que chegasse sequer a toc-la, ouviu um segundo estampido e um berro que ecoou pelo saguo de entrada.
-AH, NO VAI NO, GAROTO!
        Harry se virou. O Prof. Moody descia mancando a escadaria de mrmore. Tinha a varinha na mo e apontava diretamente para uma doninha muito alva, que tremia
no piso de lajotas, exatamente no lugar em que Malfoy estivera.
        Fez-se um silncio aterrorizado no saguo. Ningum exceto Moody mexia um s msculo. Ele se virou para olhar Harry - pelo menos, o olho normal estava olhando
para Harry; o outro estava apontando para dentro da cabea.
        -        Ele o mordeu? - rosnou o professor. Sua voz era baixa e spera.
        -        No - respondeu Harry -, por pouco.
-        DEIXE-O! - berrou Moody.
        -        Deixe... o qu? - perguntou Harry espantado.
        -        No voc, ele! - vociferou Moody, apontando o polegar por cima do ombro para Crabbe, que acabara de congelar em meio a um gesto para recolher a
doninha branca. Parecia que o olho giratrio de Moody era mgico e enxergava atravs da nuca do professor.
        Moody comeou a mancar em direo a Crabbe, Goyle e a
doninha, que soltou um guincho aterrorizado e fugiu em direo s
masmorras.
        - Acho que no! - rugiu Moody, tornando a apontar a varinha para a doninha, ela subiu uns trs metros no ar, caiu com um baque mido no cho e quicou de
novo para cima.
        "No gosto de gente que ataca um adversrio pelas costas", rosnou Moody, enquanto a doninha
quicava cada vez mais alto, guinchando de dor. "Um ato nojento,
covarde, reles..."
        A doninha voava pelo ar, as pernas e a cauda sacudiam descontroladas.
        -        Nunca... mais... torne... a... fazer... isso - continuou o professor, destacando cada palavra para a doninha que batia no piso de
pedra e tornava a subir.
        -        Prof. Moody! - chamou uma voz chocada.
#165
        A Profa Minerva vinha descendo a escadaria com os braos carregados de livros.
        - Ol, Profp McGonagall - cumprimentou Moody calmamente, fazendo a doninha quicar ainda mais alto.
        -        Que... que  que o senhor est fazendo? - perguntou a professora seguindo com o olhar a subida da doninha no ar.
        -        Ensinando - respondeu ele.
        -        Ensinan... Moody, isso  um aluno? - gritou a professora, os livros despencando dos seus braos.
- .
        -        No! - exclamou ela, descendo a escada correndo e puxando
a prpria varinha; um momento depois, com um estampido,
Draco Malfoy reapareceu, cado embolado no cho, os cabelos lisos
e louros sobre o rosto agora muito vermelho. Ele se levantou, fazendo uma careta.
        -        Moody, nunca usamos transformao em castigos! - disse a professora com a voz fraca. - Certamente o Prof. Dumbledore deve
ter-lhe dito isso?
        -        , talvez ele tenha mencionado - respondeu Moody, coando o queixo
displicentemente -, mas achei que um bom choque...
        - Damos detenes, Moody! Ou falamos com o diretor da casa do faltoso!
        -        Vou fazer isso, ento - disse Moody, encarando Malfoy com intenso desagrado.
        O garoto, cujos olhos claros ainda lacrimejavam de dor e humilhao, ergueu o rosto maldosamente para Moody e murmurou
alguma coisa em que se distinguiam as palavras "meu pai
        - Ah, ? - disse Moody em voz baixa, aproximando-se alguns passos, a pancada surda de sua perna de pau ecoando pelo saguo.
- Bom, conheo seu pai de outras eras, moleque... diga a ele que
Moody est de olho no filho dele... diga-lhe isso por mim... agora.
imagino que o diretor de sua casa seja o Snape, no?
-         - respondeu Malfoy cheio de rancor.
        -        Outro velho amigo - rosnou Moody. - Estou querendo mesmo conversar com o velho Snape... vamos, seu... - E segurando o garoto pelo antebrao saiu 
com ele em direo s masmorras.
A Profa Minerva acompanhou-os com um olhar ansioso por
 alguns momentos, depois apontou a varinha para os livros
fazendo-os subir no ar e voltar aos seus braos.
#166
        -        No falem comigo - disse Rony em voz baixa para Harry e Hermione, quando se sentaram  mesa da Grifinria alguns minutos mais tarde, cercados por
alunos excitados por todos os lados que comentavam o que acabara de acontecer.
-        Por que no? - perguntou Hermione surpresa.
        -        Porque quero gravar isso na memria para sempre - disse Rony, com os olhos fechados e uma expresso de enlevo no rosto.
-        Draco Malfoy, a fantstica doninha quicante...
        Harry e Hermione riram, e a garota comeou a servir bife de
caarola no prato dos dois.
        -        Ele poderia ter realmente machucado Malfoy - comentou ela. - Foi bom a Profa Minerva ter feito ele parar...
        -        Mione! - exclamou Rony furioso, os olhos se abrindo repentinamente. - Voc est estragando o melhor momento da minha
vida!
        Hermione soltou uma exclamao de impacincia e comeou a
comer outra vez em alta velocidade.
        -        No me diga que vai voltar  biblioteca hoje  noite? - perguntou Harry, observando-a.
        -        Preciso - respondeu Mione indistintamente. - Muito que fazer.
        -        Mas voc nos disse que a Profa Vector...
        -        No  dever de escola. - Em cinco minutos ela limpara o prato e fora embora.
        Nem bem a garota tinha sado e sua cadeira foi ocupada por
Fred Weasley.
        -        Moody! - disse ele. - Ele  legal?
        -        Pra l de legal - disse Jorge, sentando-se defronte a Fred.
        -        Superlegal - disse o melhor amigo dos gmeos, Lino Jordan, escorregando para o lugar ao lado de Jorge. - Tivemos ele hoje 
tarde - disse Lino a Harry e Rony.
        -        Como foi a aula? - perguntou Harry ansioso.
        Fred, Jorge e Lino trocaram olhares cheios de significao.
        -        Nunca tive uma aula igual - disse Fred.
        -        Ele sabe das coisas, cara - disse Lino.
        -        Do qu? - perguntou Rony, curvando-se para a frente.
        -        Sabe o que  estar l fora fazendo as coisas- disse Jorge cheio
 de importncia.
        -        Que coisas? - perguntou Harry.
#167
        -        Combatendo as Artes das Trevas - disse Fred.
        -        Ele j viu de tudo - disse Jorge.
        -        Fantstico - exclamou Lino.
Rony enfiara a cabea na mochila  procura do seu horrio.
        -        No vamos ter aula com ele at quinta-feira! - disse desapontado.
#168


*****


CAPITULO CATORZE
As Maldies Imperdoveis


Os dois dias seguintes transcorreram sem grandes incidentes, a no ser que se levasse em conta o sexto caldeiro derretido por Nevilie na aula de Poes. O Prof.
Snape, que, durante as frias, parecia ter alcanado novos nveis em sua gana de se vingar do garoto, deu-lhe uma deteno, da qual Nevilie voltou com um colapso
nervoso, pois teve que destripar uma barrica de iguanas.
        -        Voc sabe por que Snape est nesse mau humor to grande, no sabe? - perguntou Rony a Harry, enquanto observavam Hermione ensinar a Neville um Feitio 
de Limpeza para remover as tripas de iguanas presas sob suas unhas.
        -        Hum-hum - disse Harry. - Moody.
        Era do conhecimento de todos que Snape queria realmente o lugar de professor de Artes das Trevas, e acabara de perd-lo pelo quarto ano seguido. Snape detestara 
todos os professores anteriores dessa matria e demonstrara isso - mas parecia ter extrema cautela para esconder sua animosidade contra Olho-Tonto Moody. De fato, 
sempre que Harry via os dois professores juntos - na hora das refeies ou quando passavam pelos corredores - tinha a ntida impresso de que Snape evitava os olhos 
de Moody, fosse o mgico fosse o normal.
        -        Acho que Snape tem medo dele, sabe - disse Harry pensativo.
        -        Imagine se Moody transformasse Snape em iguana - disse Rony, seus olhos se toldando - e fizesse ele ficar saltando pela masmorra...
        Os alunos da quarta srie da Grifinria estavam to ansiosos para ter a primeira aula com Moody que, na quinta-feira, chegaram logo depois do almoo e fizeram 
fila  porta da sala, antes
        mesmo da sineta tocar.        
        A nica pessoa ausente foi Hermione, que chegou no ltimo
instante para a aula.
#169
        -        Estava na...
        -        ... biblioteca - Harry terminou a frase da amiga. Anda logo seno no vamos arranjar lugares decentes.
        Eles correram para pegar trs cadeiras bem diante da escrivaninha do professor, apanharam seus exemplares de As foras das
trevas: um guia para sua proteo, e esperaram anormalmente quietos. No tardaram a ouvir 
os passos sincopados de Moody que vinha pelo corredor e que, ao entrar na sala, parecia mais estranho
e amedrontador que nunca. Seu p de madeira em garra aparecia ligeiramente por baixo das vestes.
        -        Podem guardar isso - rosnou ele, apoiando-se na escrivaninha para se sentar -, esses livros. No vo precisar deles.
        Os alunos tornaram a guardar os livros nas mochilas, Rony
        tinha um ar excitado.
        Moody apanhou a folha de chamada, sacudiu sua longa juba
        de cabelos grisalhos para afast-los do rosto contorcido e marcado,
        e comeou a chamar os nomes, seu olho normal percorrendo a lista
        e o olho mgico girando, fixando-se em cada aluno quando ele
        respondia.
        -        Certo, ento - concluiu ele, quando a ltima pessoa confirmara presena. - Tenho uma carta do Prof. Lupin sobre esta turma. Parece que vocs receberam 
um bom embasamento para enfrentar criaturas das trevas, estudaram bichos-papes, barretes vermelhos, hinkypunks, grindylows, kappas e lobisomens, correto?
        Houve um murmrio geral de concordncia.
        -        Mas esto atrasados, muito atrasados, em maldies - disse Moody. - Ento, estou aqui para pr vocs em dia com o que os bruxos podem fazer uns 
aos outros. Tenho um ano para lhes ensinar a lidar com as foras das...
        -        Qu, o senhor no vai ficar? - deixou escapar Rony.
        O        olho mgico de Moody girou para se fixar em Rony; o garoto ficou extremamente apreensivo, mas, passado um instante, o professor sorriu - a primeira 
vez que Harry o via fazer isso. O efeito foi entortar mais que nunca o seu rosto muito marcado, mas de qualquer forma foi um alvio saber que ele era capaz de um 
gesto amigvel como sorrir. Rony pareceu profundamente aliviado.
        - Voc deve ser filho do Arthur Weasley? - disse Moody. - Seu
        pai me tirou de uma enrascada h alguns dias... , vou ficar apenas
#170
este ano. Um favor especial a Dumbledore... um ano e depois volto ao sossego da minha aposentadoria.
        Ele deu uma risada spera e ento juntou as palmas das mos nodosas.
        - Ento... vamos direto ao assunto. Maldies. Elas tm variados graus de fora e forma. Agora, segundo o Ministrio da Magia, eu devo ensinar a vocs as
contramaldies e parar por a. No devo lhes mostrar que cara tm as maldies ilegais at vocs chegarem ao sexto ano. At l, o Ministrio acha que vocs no
tm idade para lidar com elas. Mas o Prof. Dumbledore tem uma opinio mais favorvel dos seus nervos e acha que vocs podem aprend-las, e eu digo que quanto mais
cedo souberem o que vo precisar enfrentar, melhor. Como vo se defender de uma coisa que nunca viram? Um bruxo que pretenda lanar uma maldio ilegal sobre vocs
no vai avisar o que pretende. No vai lan-la de forma suave e educada bem na sua cara. Vocs precisam estar preparados. Precisam estar alertas e vigilantes. A
senhorita deve guardar isso, Srta. Brown, enquanto eu estiver falando.
        Lil levou um susto e corou. Estivera mostrando a Parvati o horscopo que aprontara por baixo da carteira. Aparentemente o olho mgico de Moody podia ver
atravs da madeira, to bem quanto pela nuca.
        - Ento... algum de vocs sabe que maldies so mais severamente punidas pelas leis da magia?
        Vrios braos se ergueram hesitantes, inclusive os de Rony e
Hermione. Moody apontou para Rony, embora seu olho mgico
continuasse mirando Lil.
        - Hum - disse Rony sem muita certeza -, meu pai me falou de uma... chama Maldio Imperius ou coisa assim?
        - Ah, sim - disse Moody satisfeito. - Seu pai conheceria essa. Certa vez, deu ao Ministrio muito trabalho, essa Maldio Imperius.
        Moody se apoiou pesadamente nos ps desiguais, abriu a gaveta da escrivaninha e tirou um frasco de vidro. Trs enormes aranhas pretas corriam dentro dele.
Harry sentiu Rony se encolher ligeiramente ao seu lado - Rony detestava aranhas.
        Moody meteu a mo dentro do frasco, apanhou uma aranha e
segurou-a na palma da mo, de modo que todos pudessem v-la.
        Apontou, ento, a varinha para o inseto e murmurou "Imperio!"
        A aranha saltou da mo de Moody para um fino fio de seda e
#171
comeou a se balanar para a frente e para trs como se estivesse em um trapzio. Esticou as pernas rgidas e deu uma cambalhota, partindo o fio e aterrissando sobre
a mesa, onde comeou a plantar bananeiras em crculos. Moody agitou a varinha, e a aranha se ergueu em duas patas traseiras e saiu danando um inconfundvel sapateado.
        Todos riram - todos exceto Moody.
        - Acharam engraado, ? - rosnou ele. - Vocs gostariam se eu fizesse isso com vocs?
        As risadas pararam quase instantaneamente.
        - Controle total - disse o professor em voz baixa, quando a aranha se enrolou e comeou a rodar sem parar. - Eu poderia faz-la
saltar pela janela, se afogar, se enfiar pela garganta de vocs abaixo...
        Rony teve um tremor involuntrio.
        - H alguns anos, havia muitos bruxos e bruxas controlados pela Maldio Imperius - disse Moody, e Harry entendeu que ele estava se referindo ao tempo em
que Voldemort fora todo-poderoso. - Foi uma trabalheira para o Ministrio separar quem estava sendo forado a agir de quem estava agindo por vontade prpria.
        "A Maldio Imperius pode ser neutralizada, e vou-lhes mostrar como, mas  preciso fora de carter real e nem todos a possuem. Por isso  melhor evitar
ser amaldioado com ela se puderem. VIGILANCIA CONSTANTE!", vociferou ele, e todos os alunos se assustaram.
        Moody apanhou a aranha acrobata e atirou-a de volta ao frasco.
        - Mais algum conhece mais alguma? Outra maldio ilegal?
        A mo de Hermione voltou a se erguer e, para surpresa de Harry, a de Nevilie tambm. A nica aula em que Neville normalmente voluntarava informaes era
a de Herbologia, que era, sem favor algum, a matria que ele sabia melhor. O garoto pareceu surpreso com a prpria ousadia.
        - Qual? - perguntou Moody, seu olho mgico dando um giro completo para se fixar em Neville.
        - Tem uma, a Maldio Cruciatus - disse Neville, numa voz fraca, mas clara.
        Moody olhou Nevilie com muita ateno, desta vez com os
dois olhos.
        - O seu nome  Longbottom? - perguntou ele, o olho mgico girando para verificar a folha de chamada.
#        172
        Neville confirmou, nervoso, com a cabea, mas o professor no fez outras perguntas. Tornando a voltar sua ateno  classe, ele meteu a mo no frasco mais
uma vez, apanhou outra aranha e colocou-a no tampo da escrivaninha, onde o inseto permaneceu imvel, aparentemente demasiado assustado para se mexer.
        - A Maldio Cruciatus - comeou Moody. - Preciso de uma maior para lhes dar uma idia - disse ele, apontando a varinha para
a aranha. - Engorgio!
        A aranha inchou. Estava agora maior do que uma tarntula.
        Abandonando todo o fingimento, Rony empurrou a cadeira para
        trs, o mais longe que pde da escrivaninha de Moody.
        O professor tornou a erguer a varinha, apontou-a para a aranha e murmurou:
- Crucio!
        Na mesma hora, as pernas da aranha se dobraram sob o corpo, ela virou de barriga para cima e comeou a se contorcer horrivelmente, balanando de um lado
para outro. No emitia som algum, mas Harry teve certeza de que, se tivesse voz, estaria berrando. Moody no afastou a varinha e a aranha comeou a estremecer e
a se debater violentamente...
        - Pare! - gritou Hermione com a voz aguda.
        Harry olhou para a amiga. Ela estava com os olhos postos no na aranha, mas em Neville, e Harry, ao seguir a direo do seu olhar, viu que as mos do garoto
se agarravam  carteira diante dele, os ns dos dedos brancos, seus olhos arregalados e horrorizados.
        Moody ergueu a varinha. As pernas da aranha se descontrairam, mas ela continuou a se contorcer.
        - Reducio - murmurou Moody, e a aranha encolheu e voltou ao tamanho normal. Ele a reps no frasco.
        - Dor - explicou Moody em voz baixa. - No se precisa de anjinhos nem de facas para torturar algum quando se  capaz de
        lanar a Maldio Cruciatus... ela tambm j foi muito popular.
        "Certo... mais algum conhece alguma outra?"
        Harry olhou para os lados. Pela expresso no rosto dos colegas, ele achou que estavam todos pensando no que aconteceria com a ltima aranha. A mo de Hermione
tremia levemente quando, pela terceira vez, ela a ergueu no ar.
        - Sim! - disse Moody olhando-a.
        - Avada Kedavra - sussurrou a garota.
#173
        Vrios colegas a olharam constrangidos, inclusive Rony.
        - Ah - exclamou Moody, outro sorrisinho torcendo sua boca enviesada. - Ah, a ltima e a pior. Avada Kedavra... a maldio da
morte.
        Ele enfiou a mo no frasco e, quase como se soubesse o que a esperava, a terceira aranha correu freneticamente pelo fundo do objeto, tentando fugir aos dedos
de Moody, mas ele a apanhou e a colocou sobre a escrivaninha. O inseto comeou a correr, desvairado, pela superfcie de madeira.
        Moody ergueu a varinha e Harry sentiu um repentino pressentimento.
- Avada Kedavra!- berrou Moody.
        Houve um relmpago de ofuscante Luz verde e um rumorejo, como se algo vasto e invisvel voasse pelo ar - instantaneamente a aranha virou de dorso, sem uma 
nica marca, mas inconfundivelmente morta. Vrias alunas abafaram gritinhos; Rony se atirara para trs, quase caindo da cadeira, quando a aranha escorregou em sua 
direo.
        Moody empurrou a aranha morta para fora da mesa.
        - Nada bonito - disse calmamente. - Nada agradvel. E no existe contramaldio. No h como bloque-la. Somente uma pessoa no mundo j sobreviveu a ela 
e est sentada bem aqui na minha frente.
        Harry sentiu seu rosto corar quando os (dois) olhos de Moody fitaram os dele. Sentiu que toda a turma tambm estava olhando para ele. Harry encarou o quadro-negro
limpo como se estivesse fascinado por sua superfcie, mas na realidade sem sequer v-Lo...
        Ento fora assim que seus pais tinham morrido... exatamente como aquela aranha. Ser que tinham morrido sem desfigurao nem marcas, tambm? Ser que tinham
simplesmente visto um relmpago verde e ouvido o rumorejo da morte que se aproximou clere, antes que a vida fosse varrida de seus corpos?
        Harry imaginara a morte dos pais muitas vezes nesses trs anos, desde que descobrira que tinham sido assassinados, desde que descobrira o que acontecera 
naquela noite: como Rabicho informara o esconderijo de seus pais a Voldemort, que viera procur-los em
 casa. Como o bruxo matara primeiro o pai de Harry. Como Tiago
Potter tentara atras-Lo, enquanto gritava para a mulher apanhar
Harry e correr... e Votdemort avanara para LLian Potter, dissera-lhe
#174
 para se afastar para ele poder matar Harry... como sua me suplicara para que a matasse no lugar do filho, recusara-se a deixar de proteger o filho com o corpo...
e ento Voldemort a assassinara tambm, antes de virar a varinha contra Harry...
        Harry conhecia esses detalhes porque ouvira a voz dos pais quando enfrentara os dementadores no ano anterior - pois esse era o terrvel poder dessas criaturas:
forar suas vtimas a reviverem as piores lembranas de suas vidas e se afogarem, impotentes, no prprio desespero...
        Harry teve a impresso de que Moody recomeara a falar de
muito longe. Com um enorme esforo, ele se obrigou a voltar ao
presente e fixar a ateno no que o professor dizia.
        - Avada Kedavra  uma maldio que exige magia poderosa para lan-la, vocs podem apanhar as varinhas agora, apont-las para mim, dizer as palavras e duvido 
que consigam sequer que o meu nariz sangre. Mas isto no importa. No estou aqui para ensin-los a lan-la.
        "Ora, se no h uma contramaldio, por que estou lhes mostrando essa maldio? Porque vocs precisam conhec-la. Vocs tm que reconhecer o pior. Vocs
no querem se colocar em uma situao em que precisem enfrent-la. VIGILNCIA PERMANENTE!", berrou ele e a turma inteira tornou a se sobressaltar.
        "Agora... essas trs maldies, Az-"ada Keelavra, Imperius e Cruciatus, spo conhecidas como as Maldies Imperdoveis. O uso de qualquer uma delas em um
semelhante humano  suficiente para ganharem uma pena de priso perptua em Azkaban.
 isso que vo ter que enfrentar.  isso que preciso lhes ensinar a combater.
Vocs precisam estar preparados. Vocs precisam de armas. Mas, acima de tudo, precisam praticar uma vigilncia constante, permanente. Apanhem suas penas... copiem
o que vou ditar..."
        Os alunos passaram o resto da aula tomando notas sobre cada uma das Maldies Imperdoveis. Ningum falou at a sineta tocar
- mas quando Moody os dispensou e eles saram da sala, explodiram em um falatrio irrefrevel. A maioria dos alunos discutia as maldies em tom de assombro: "Voc
viu ela se contorcendo?",
        e quando ele matou a aranha - assim!"
        Comentavam a aula, pensou Harry, como se ela tivesse sido
um espetculo fantstico, mas ele no a achara nada divertida - tampouco Hermione.
#175
        -        Anda logo - disse ela tensa para Harry e Rony.
        -        No  a biblioteca outra vez, ? - perguntou Rony.
        -        No - respondeu a garota, secamente, apontando para um corredor lateral. - Neville.
        Nevilie estava em p sozinho, no meio do corredor, de olhos fixos na parede de pedra oposta, com a mesma expresso
horrorizada e pasma que fizera quando Moody
demonstrara a Maldio Cruciatus.
        -        Nevilie? - chamou Hermione de mansinho.
        Nevilie virou a cabea.
        -        Ah, al - disse ele, a voz mais aguda do que habitualmente.
-        Aula interessante, no foi? Que ser que tem para o jantar, estou... estou morto de fome, vocs no?
        -        Nevilie, voc est bem? - perguntou Hermione.
        -        Ah, claro, estou timo - balbuciou o garoto, na mesma voz anormalmente aguda. - Jantar muito interessante... quero dizer,
aula... que ser que tem para se comerp
        Rony lanou a Harry um olhar assustado.
        -        Neville, que...?
        Mas eles ouviram s costas um som seco e metlico estranho e, ao se virarem, viram o Prof. Moody vindo em sua direo. Os quatro ficaram em silncio, observando-o
apreensivos, mas quando ele falou, foi com um rosnado bem mais baixo e gentil do que tinham ouvido at ento.
        -        Est tudo bem, filho - disse ele a Neville. - Por que no vem at a minha sala? Vamos... podemos tomar uma xcara de ch...
        Neville ficou ainda mais assustado ante a perspectiva de tomar
ch com Moody. Ele no se mexeu nem falou.
        Moody virou o olho mgico para Harry.
        -        Voc est bem, no est, Potter?
        -        Estou - disse Harry, quase em tom de desafio.
        O        olho azul de Moody estremeceu de leve na rbita ao examinar Harry.
        Ento falou:
        -        Vocs tm que saber. Parece cruel, talvez, mas vocs tm que saber. No adianta fingir... bom... venha, Longbortom, tenho uns
livros que podem lhe interessar.
        Neville olhou suplicante para Harry, Rony e Hermione, mas
eles no disseram nada, de modo que o garoto no teve escolha
#176
seno se deixar conduzir, uma das mos nodosas de Moody em seu ombro.
        -        Que foi que houve? - perguntou Rony, observando Neville e Moody virarem para outro corredor.
        -        No sei - disse Hermione, parecendo pensativa.
        -        Mas foi uma aula e tanto, hein? - disse Rony a Harry, quando se dirigiam ao Salo Principal. - Fred e Jorge tinham razo, no ? Ele realmente conhece
o assunto, o Moody. Quando ele lanou a Avada Kedavra, o jeito com que aquela aranha simplesmente morreu, apagou na hora...
        Mas Rony se calou de sbito ao ver a expresso no rosto de Harry, e no tornou a falar at chegarem ao salo, quando comentou que era melhor eles comearem
a preparar as predies da Prob" Trelawney quela noite, porque iam demorar horas naquilo.
        Hermione no entrou na conversa de Harry e Rony durante o jantar, mas comeu furiosamente depressa e, em seguida, foi para a biblioteca. Harry e Rony voltaram
 Torre da Grifinria, e Harry, que no pensara em outra coisa durante todo o jantar, agora levantou o assunto das Maldies Imperdoveis.
        -        Moody e Dumbledore no ficariam encrencados se o Ministrio soubesse que vimos lanar as maldies? - perguntou Harry
ao se aproximarem da Mulher Gorda.
        -        Provavelmente - disse Rony. - Mas Dumbledore sempre fez as coisas do jeito dele,
no , e Moody, eu imagino, j anda encrencado h anos. Atacar
primeiro e fazer perguntas depois, v s a histria das latas de lixo. Biruta.
        A Mulher Gorda girou para a frente, revelando a passagem e
eles entraram na sala comunal da Grifinria, que estava cheia e
barulhenta.
        -        Vamos apanhar o nosso material de Adivinhao, ento? - disse Harry.
        -        Acho que sim - gemeu Rony.
        Os dois subiram ao dormitrio para apanhar os livros e mapas e encontraram Neville sozinho, sentado na cama, lendo. Parecia bem mais calmo do que ao fim
da aula de Moody, embora ainda no estivesse completamente normal. Seus olhos estavam muito vermelhos.
        -        Voc est bem, Neville? - perguntou Harry.

#177
        -        Ah, estou. Estou timo, obrigado. Lendo o livro que o Prof. Moody me emprestou...
Ele mostrou o livro: Plantas mediterrneas e suas propriedades
mgicas.
        -        Parece que a Profa Sprout disse a ele que sou realmente bom em Herbologia - disse Nevilie. Havia um qu de orgulho em sua voz que Harry raramente
ouvira antes. - O professor achou que eu gostaria deste.
        Repetir para Neville o que a Profa Sprout dissera, pensou Harry, fora uma maneira muito delicada de animar o garoto, porque Neville raramente ouvia algum
dizer que ele era bom em alguma coisa. Era o tipo de coisa que o Prof. Lupin teria feito.
        Harry e Rony apanharam seus exemplares de Esclarecendo o futuro e voltaram  sala comunal, procuraram uma mesa e comearam a trabalhar nas predies para
o ms seguinte. Uma hora mais tarde, tinham feito pouco progresso, embora a mesa estivesse coalhada de pedaos de pergaminho cobertos com somas e simbolos e o crebro
de Harry estivesse enevoado, como se impregnado pela fumaa da lareira da Profa Trelawney.
        -        No tenho a menor idia do significado disso - falou ele examinando a longa lista de clculos.
        -        Sabe de uma coisa - disse Rony, cujos cabelos estavam de p de tanto o garoto passar os dedos por eles, cheio de frustrao. - Acho que voltamos
 velha regra da Adivinhao.
        -        Qu... inventar?
        -         - disse Rony, varrendo da mesa o monte de anotaes e mergulhando a pena no tinteiro para comear a escrever.
        -        Na prxima segunda-feira - disse ele enquanto escrevia - h grande probabilidade de eu apanhar uma tosse, devido  infeliz conjuno de Marte com
Jpiter. - Ele ergueu os olhos para Harry.
- Voc conhece ela: escreve uma poro de desgraas que ela engole tudo.
        -        Certo - disse Harry, amassando seu primeiro rascunho e atirando-o por cima das cabeas de um grupo de alunos do primeiro ano que conversavam. -
Muito bem... na segunda:feira vou correr
 o perigo de... hum... me queimar.
        -        E vai mesmo - disse Rony sombriamente -, vamos ver os explosivins de novo. K, tera-feita, vou... hum...
#178
        -        Perder algo valioso - disse Harry, que folheava o Esclarecendo o
futuro  procura de idias.
        -        Boa - disse Rony, copiando-a. - Por causa de.,. hum.. Mercrio. Por que voc no leva uma punhalada pelas costas de
algum que voc pensou que fosse amigo?
        -        Legal... - disse Harry, anotando a sugesto - porque... Vnus est na dcima segunda casa.
        -        E na quarta-feira, acho que vou levar a pior em uma briga.
        -        Aah, eu ia ter uma briga. OK, vou perder uma aposta.
        -        , voc vai apostar que vou ganhar a minha briga...
        Os garotos continuaram a inventar predies (que foram se tornando mais trgicas) por mais uma hora, enquanto a sala comunal se esvaziava  medida que as
pessoas iam se deitar. Bichento foi at os dois, deu um salto leve para uma cadeira vazia e mirou Harry misteriosamente, de um modo semelhante ao de Hermione quando
sabia que os garotos no estavam fazendo o dever de casa direito.
        Correndo o olhar pela sala, tentando pensar em alguma desgraa que ainda no tivesse usado, Harry viu Fred e Jorge sentados junto  parede oposta, as cabeas
encostadas uma na outra, as penas na mo, examinando um pedao de pergaminho. Era muito estranho ver os dois escondidos em um canto, trabalhando em silncio; em
geral eles gostavam de ficar no meio da confuso e de serem o centro das atenes. Havia um certo sigilo no jeito como estudavam um nico pergaminho, e Harry se
lembrou dos dois sentados juntos, escrevendo alguma coisa, l na Toca. Ele pensara na poca que era outro formulrio para as "Gemialidades" Weasley, mas desta vez 
parecia diferente; se no, eles com certeza teriam deixado Lino Jordan participar da travessura. Harry ficou imaginando se teria alguma coisa a ver com a inscrio 
no Torneio Tribruxo.
        Enquanto Harry observava, Jorge sacudiu a cabea para Fred,
rabiscou alguma coisa com a pena e disse, num tom muito baixo
que, mesmo assim, ecoou pela sala quase deserta:
        -        No... assim parece que ns o estamos acusando. Temos que ter cuidado...
        Ento Jorge deu uma olhada na sala e viu que Harry o observava. Harry sorriu e voltou depressa s suas predies - no queria que
Jorge pensasse que ele estava bisbilhotando. Logo depois, os gmeos enrolaram o pergaminho, deram boa-noite e foram se deitar.
        Fred e Jorge tinham sado havia uns dez minutos quando o
#179
buraco do retrato se abriu e Hermione entrou na sala comunal, trazendo um rolo de pergaminho em uma das mos e uma caixa, cujo contedo fazia barulho, na outra.
Bichento arqueou as costas, ronronando.
        -        Al - disse ela -, acabei!
        -        Eu tambm! - disse Rony em tom triunfante, largando a pena.
        Hermione se sentou, deixou as coisas que carregava em uma
poltrona vazia e puxou as predies de Rony para ver.
        -        No vai ter um ms nada bom, hein? - disse ela ironicamente, quando Bichento veio se enroscar em seu colo.
        -        Bom, pelo menos estou prevenido - bocejou Rony.
        -        Voc parece que vai se afogar duas vezes - disse a garota.
        -        Ah, vou, ? - disse Rony baixando os olhos para suas predies. -
 melhor eu trocar uma delas por um acidente com um
hipogrifo desembestado.
        -        Voc no acha que est um pouco bvio que voc inventou isso tudo? - perguntou Hermione.
        -        Como  que voc se atreve! - exclamou Rony, fingindo-se ofendido. - Estivemos trabalhando como elfos domsticos aqui!
        Hermione ergueu as sobrancelhas.
        -         s uma expresso - acrescentou ele depressa.
        Harry pousou a pena, tendo acabado de predizer a prpria morte por decapitao.
        -        Que  que tem nessa caixa? - perguntou ele, apontando-a.
        -        Engraado voc perguntar - respondeu a garota com um olhar feio para Rony. Tirou ento a tampa e mostrou o contedo
aos garotos.
        Dentro havia uns cinquenta distintivos, de cores diferentes,
mas todos com os mesmos dizeres: F.A.L.E.
        -        Fale? - estranhou Harry, apanhando um distintivo e examinando-o. - Que significa isso?
        -        No  fale - protestou Hermione impaciente. -  F-A-L-E. Quer dizer, Fundo de Apoio  Liberao dos Elfos.
        -        Nunca ouvi falar nisso - disse Rony.
        -        Ora,  claro que no ouviu - disse Hermione energicamente.
 - Acabei de fundar o movimento.
        -        Ah, ? - disse Rony com um ar levemente surpreso. - E quantos membros j tem?
#180
        - Bom, se vocs dois se alistarem... trs.
        - E voc acha que queremos andar por a usando distintivos que dizem "fale", ? - falou Rony.
        - F-A-L-E! - corrigiu-o Hermione irritada. - Eu ia pr "Fim ao Abuso
Ultrajante dos Nossos Irmos Mgicos" e "Campanha pata Mudar sua Condio", mas no
dava certo. Ento F.A.L.E.  o ttulo do nosso manifesto.
        Ela brandiu um rolo de pergaminho para os garotos.
        - Andei pesquisando minuciosamente na biblioteca. A escravatura dos elfos j existe h sculos. Custo a acreditar que ningum
tenha feito nada contra ela at agora.
        - Hermione, abra bem os ouvidos - disse Rony em voz alta. - Eles. Gostam. Disso. Gostam de ser escravizados!
        - A curto prazo os nossos objetivos - disse Hermione, falando ainda mais alto do que o amigo e agindo como se no tivesse ouvido uma nica palavra - so 
obter para os elfos um salrio mnimo justo e condies de trabalho decentes. A longo prazo, os nossos objetivos incluem mudar a lei que proibe o uso da varinha 
e tentar admitir um elfo no Departamento para Regulamentao e Controle das Criaturas Mgicas, porque eles so vergonhosamente
sub-representados.
        - E como  que vamos fazer tudo isso? - perguntou Harry.
        - Vamos comear recrutando novos membros - disse Hermione feliz. - Achei que dois sicles para entrar, o que paga o distintivo, e o produto da venda pode
financiar a distribuio de folhetos. Voc  o tesoureiro, Rony, tenho l em cima uma latinha para voc fazer a coleta, e voc, Harry, o secretrio, por isso voc
talvez queira anotar tudo que estou dizendo agora, para registrar a nossa primeira reunio.
        Houve uma pausa em que Hermione sorriu radiante para os dois, e Harry se dilacerou entre a exasperao com a amiga e a vontade de rir da cara de Rony. O
silncio foi quebrado, no por Rony, que de qualquer maneira parecia estar temporariamente mudo de espanto, mas por umas batidinhas leves na janela. Harry correu
os olhos pela sala agora vazia e viu, iluminada pelo luar, uma coruja
        branqussima encarapitada no peitoril da janela.        .        
        - Edwiges! - gritou ele, precipitando-se pela sala para abrir a janela do lado oposto.
#181
        Edwiges entrou, voou pela sala e pousou na mesa em cima das predies de Harry.
        -        At que enfim! - exclamou Harry, correndo atrs da coruja.
        -        Ela trouxe uma resposta! - exclamou Rony, excitado, apontando para um pedao sujo de pergaminho preso  perna de
Edwiges.
Harry desamarrou-o depressa e se sentou para ler, depois do
que Edwiges voou para o joelho do garoto, piando baixinho.
        -        Que  que ele diz? - perguntou Hermione ofegante.
        A carta era muito curta e parecia ter sido escrita com muita
pressa. Harry leu-a em voz alta.

Harry
        Estou viajando para o norte imediatamente. A notcia sobre a sua cicatriz  o ltimo de uma srie de acontecimentos estranhos que tm chegado aos meus ouvidos.
Se ela tornar a doer, procure imediatamente Dumbledore - dizem que ele tirou Olho- Tonto da aposentadoria, o que significa que tem identificado os sinais, mesmo
que os outros no os vejam.
        Logo entrarei em contato com voc. D minhas lembranas a
Rony e Hermione. Fique de olhos abertos, Harry.
        Sirius

Harry olhou para Rony e Hermione, que retribuiram o seu olhar.
        -        Ele est viajando para o norte? - sussurrou Hermione. -
Est voltando?
        -        Dumbledore tem identificado que sinais? - perguntou Rony, parecendo perplexo. - Harry, que  que est acontecendo?
        Pois Harry acabara de dar um soco na prpria testa, sacudindo
Edwiges para fora do colo.
        -        Eu no devia ter contado a ele! - disse Harry furioso.
        -        Do que  que voc est falando? - perguntou Rony, surpreso.
        -        Fiz ele pensar que precisa voltar! - disse Harry, agora batendo
o punho na mesa de modo que a coruja foi parar no espaldar da cadeira de Rony, 
piando indignada. - Precisa voltar porque acha que estou correndo perigo! E no 
h nada errado  comigo! E no tenho nada para voc - falou ele com rispidez para
Edwiges, que batia
 o bico, esperanosa, vai ter que ir para o corujal se quiser comida.
        Edwiges lanou ao dono um olhar extremamente ofendido
saiu voando pela janela aberta, raspando a asa na cabea dele ao sair.
#182
        -        Harry - comeou Hermione, numa voz tranquilizadora.
        -        Vou me deitar - disse Harry impaciente. - Vejo vocs de manh.
        Em cima, no dormitrio, ele vestiu o pijama e enfiou-se na cama de colunas, mas no se sentiu nem um pouco cansado.
        Se Sirius voltasse e fosse apanhado seria culpa dele, Harry. Por
que no ficara calado? Uma dorzinha -toa e ele fora tagarelar... se
        tivesse tido o juzo de guardar a dor s para si...
        Ele ouviu Rony entrar no dormitrio pouco depois, mas no falou com o amigo. Durante um longo tempo, Harry ficou contemplando o dossel escuro de sua cama. 
O dormitrio estava completamente silencioso e, se ele estivesse menos preocupado, teria reparado que a ausncia dos costumeiros roncos de Neville significava que 
ele no era o nico que estava acordado.
#183


******


CAPTULO QUINZE
Beauxbatons e Durmstrang


Logo cedo na manh seguinte, Harry acordou com um plano inteiramente formado na cabea, como se o seu crebro adormecido tivesse trabalhado naquilo a noite toda.
Ele se levantou e se vestiu  luz fraca do amanhecer, saiu do dormitrio sem acordar Rony e desceu para o salo comunal, quela hora deserto. Ali apanhou um pedao 
de pergaminho na mesa em cima da qual ainda se achava o dever de Adivinhao e escreveu a seguinte carta:

Caro Sirius,
        Acho que imaginei a dor na minha cicatriz, eu estava quase dormindo quando lhe escrevi a ltima carta. Voc no precisa voltar, vai tudo bem aqui. No se 
preocupe comigo, sinto a cabea completamente normal.
        Harry

        Depois, Harry passou pelo buraco do retrato, subiu as escadas do castelo silencioso (s foi detido brevemente por Pirraa, que tentou virar um enorme vaso 
em cima dele no meio do corredor do quarto andar) e finalmente chegou ao corujal, que ficava no alto da Torre Oeste.
        O        corujal era uma sala circular revestida de pedra; um tanto fria e varrida por correntes de vento, porque nenhuma das janelas tinha vidro. O cho 
era coberto de palha, titica de coruja e esqueletos de ratos e arganazes que as corujas regurgitavam. Centenas e mais centenas de corujas de todas as espcies imaginveis 
estavam aninhadas ali em poleiros que subiam at o alto da torre, quase
todas adormecidas, embora aqui e ali um redondo olho cor de mbar olhasse feio para o garoto. 
Harry localizou Edwiges aninhada entre
 uma coruja-das-torres e uma coruja castanho-amarelada, e correu
para ela, escorregando um pouco no cho coberto de excremento.
Levou um certo tempo para convenc-la a acordar e olhar para
#184
ele porque sua coruja no parava de mudar de lugar no poleiro, virando-lhe o rabo. Evidentemente continuava furiosa com a falta de gratido que ele demonstrara na
noite anterior. Por fim, foi a insinuao de Harry que ela poderia estar demasiado cansada e que talvez ele pedisse Pichirinho emprestado a Rony que a fez esticar
a perna e permitir ao dono amarrar nela a carta.
        -        Acha ele, est bem? - pediu Harry, alisando o dorso de Edwiges enquanto a levava no brao at uma das aberturas na parede. - Antes que os dementadores
faam isso.
        Ela lhe deu uma mordidinha no dedo, talvez com mais fora do que normalmente teria feito, mas, mesmo assim, piou baixinho de uma maneira que o deixou tranquilo. 
Em seguida abriu as asas e levantou vo para o cu do amanhecer. Harry observou-a desaparecer de vista com a conhecida sensao de mal-estar no estmago. Antes tivera 
tanta certeza de que a resposta de Sirius aliviaria suas preocupaes em vez de aument-las.
- Isso foi uma mentira, Harry - falou Hermione com severidade ao caf da manh, quando o garoto contou a ela e a Rony o que fizera. - Voc no imaginou que sua cicatriz
estava doendo e sabe muito bem disso.
        -        E da? - retrucou Harry. - Ele no vai voltar para Azkaban por minha causa.
        -        Esquece - disse Rony com aspereza a Hermione, quando ela abriu a boca para continuar a discusso e, uma vez na vida, a garota atendeu ao amigo e
se calou.
        Harry fez o que pde para no se preocupar com Sirius nas semanas seguintes.
 verdade que no conseguia deixar de olhar para os lados, ansiosamente, toda
manh quando as corujas chegavam trazendo o correio; e tarde da noite antes de dormir, tinha horrveis vises em que Sirius era encurralado pelos dementadores em
alguma rua escura de Londres. Mas entre um momento e outro, ele tentava no pensar no padrinho. Desejou que ainda tivesse o quadribol para distra-lo; nada dava
to certo para uma cabea preocupada quanto um treino exaustivo. Por outro lado, as aulas estavam se tornando cada vez mais difceis e exigindo que se esforasse
mais do que nunca, principalmente a de Defesa contra as Artes das Trevas.
#185
        Para surpresa dos alunos, o Prof. Moody anunciara que ia lanar a maldio Imperius sobre cada um deles, a fim de demonstrar
        o        seu poder e verificar se conseguiam resistir aos seus efeitos.
        Mas... se o senhor disse que  ilegal, professor - perguntou Hermione incerta, quando Moody afastou as carteiras com um movimento amplo da varinha, deixando
uma clareira no meio da sala. - O senhor disse... que us-la contra outro ser humano era...
        - Dumbledore quer que vocs aprendam qual o efeito que ela produz em uma pessoa - disse Moody, o olho mgico girando para a garota e se fixando nela sem
piscar, com uma expresso misteriosa. - Se a senhorita preferir aprender pelo mtodo difcil... quando algum a lanar contra a senhorita para control-la... para
mim est bem. A senhorita est dispensada da aula. Pode se retirar.
        Ele apontou um dedo nodoso para a porta. Hermione ficou muito vermelha e murmurou alguma coisa no sentido de que a pergunta no significava que ela quisesse 
sair. Harry e Rony sorriram um para o outro. Eles sabiam que Hermione preferia beber pus de buborberas do que perder uma lio daquela importncia.
        O professor comeou a chamar os alunos  frente e a lanar a maldio sobre eles, um de cada vez. Harry observou os colegas fazerem as coisas mais extraordinrias 
sob a influncia da Imperius. Dino Thomas deu trs voltas pela sala aos saltos, cantando o hino nacional. Lil Brown imitou um esquilo. Neville executou uma srie 
de acrobacias surpreendentes, que ele certamente no teria conseguido em condies normais. Nenhum deles parecia ser capaz de resistir  maldio, e cada um s voltava 
ao normal quando Moody a desfazia.
- Potter - rosnou Moody -, voc  o prximo.
        O garoto se adiantou at o meio da sala, no espao que Moody deixara livre. O professor ergueu a varinha, apontou-a para Harry
e disse:
-        Imperio.
        Foi uma sensao maravilhosa. Harry sentiu que flutuava e
todos os pensamentos e preocupaes em sua mente desapareceram suavemente, deixando apenas uma felicidade vaga e inexplicvel. Ele ficou ali extremamente relaxado, 
vagamente consciente de
que todos o observavam.
        Ento, ouviu a voz de Olho-Tonto Moody ecoar em uma clula
#186
distante do seu crebro vazio: Salte para cima da carteira... salte para cima da
carteira...
        Harry dobrou os joelhos obedientemente, preparando-se para saltar.
Salte para cima da carteira...
        Mas por qu?
        Outra voz despertara no fundo de sua mente. Que coisa boba para algum fazer, francamente, disse a voz.
Salte para cima da carteira...
        No, acho que no, obrigado, disse a segunda voz, com mais
        firmeza... no, no quero...
Salte! AGORA!
        A prxima coisa que Harry sentiu foi uma imensa dor. Ele saltou e tentou no saltar ao mesmo tempo - o resultado foi se estatelar em cima de uma carteira,
derrubando-a, e, pela dor que sentiu nas pernas, fraturar as duas rtulas.
        - Agora est melhor! - rosnou a voz de Moody e, de repente, Harry percebeu que a sensao de vazio e os ecos tinham desaparecido de sua mente. Lembrou-se
com exatido do que estava acontecendo e a dor nos joelhos pareceu dobrar de intensidade.
        "Olhem s isso, vocs todos... Potter resistiu! Lutou contra a maldio e quase a venceu! Vamos experimentar de novo, Potter, e vocs prestem ateno, observem
os olhos dele,  onde vocs vo ver, muito bem, Potter, muito bem mesmo! Eles vo ter trabalho para controlar voc!"
        - Pelo jeito que ele fala - resmungou Harry, ao sair mancando da aula de Defesa contra as Artes das Trevas, uma hora depois (Moody insistira que Harry mostrasse
do que era capaz, quatro vezes seguidas, at o garoto conseguir resistir inteiramente  maldio) -, a gente poderia pensar que vai ser atacado a qualquer momento.
        -        , eu sei - respondeu Rony, que estava saltitando, um passo sim outro no. Tivera muito mais dificuldade com a maldio do que Harry, embora Moody
lhe garantisse que os efeitos passariam at a hora do almoo. - Falando em parania... - Rony espiou nervosamente por cima do ombro para verificar se estavam mesmo
fora do campo de audio de Moody, e continuou: - No me
admira que tenham ficado contentes em se livrar dele no Ministrio. Voc ouviu quando ele contou ao Simas o que fez com a
#187
bruxa que gritou "buu" atrs dele, no dia primeiro de abril? E quando  que a gente vai ler como resistir  Maldio Imperius com todo o resto que tem para fazer?
        Todos os alunos do quarto ano haviam notado que decididamente houvera um aumento na quantidade de deveres exigida deles neste trimestre. A Profa Minerva
explicou o porqu, quando a turma gemeu parricularmente alto  vista do dever de Transformao que ela passava.
        - Vocs agora esto entrando numa fase importantssima da sua educao em magia! - disse ela, os olhos faiscando perigosamente por trs dos culos quadrados.
- O exame para obter os Nveis Ordinrios de Magia esto se aproximando...
        -        Mas no vamos fazer exames de nivelamento at a quinta srie! - exclamou Dino Thomas indignado.
        -        Talvez no, Thomas, mas, me acredite, vocs precisam de toda a preparao que puderem obter! A Srra. Granger foi a nica aluna desta turma que conseguiu
transformar um porco-espinho em uma almofadinha de alfinetes razovel. Eu talvez possa lhe lembrar, Thomas, que a sua almofadinha ainda se encolhe de medo quando
algum se aproxima dela com um alfinete!
        Hermione, que tornara a corar, parecia estar fazendo um esforo para no parecer cheia de si demais.
        Harry e Rony acharam muita graa quando a Profa Trelawney lhes disse que tinham tirado a nota mxima no dever da aula anterior de Adivinhao. Ela leu longos
trechos das predies que eles fizeram, comentando a impassvel aceitao dos horrores que os aguardavam - mas os garotos no acharam tanta graa quando ela pediu
que fizessem outra projeo para dali a dois meses: eles tinham quase esgotado as idias para catstrofes.
        Entrementes, o Prof. Binns, o fantasma que ensinava Histria da Magia, mandou-os escrever ensaios semanas sobre a Revolta dos Duendes no sculo XVIII. O
Prof. Snape estava obrigando-os a pesquisar antdotos. A turma levou o dever a srio, porque ele insinuou que talvez envenenasse um deles antes do Natal para ver
se o antdoto que encontrassem faria efeito. O Prof. Flirwick lhes pedira que lessem mais trs livros, em preparao para a aula de
 Feitios Convocatrios.
        E at Hagrid aumentara a carga de trabalho de seus alunos. Os
explosivins estavam crescendo em um ritmo excepcional, dado que
ningum ainda descobrira o que comiam. Hagrid estava encantado e, como parte da "pesquisa", sugeriu que fossem  sua cabana em noites alternadas para observar os
bichos e tomar notas sobre o seu
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extraordinrio comportamento.
        -        Eu no vou - disse Draco Malfoy com indiferena, quando
o        professor fez essa proposta com ar de Papai Noel tirando um brinquedo muito vistoso do saco. - J vejo o bastante dessas nojeiras durante as aulas, obrigado.
        O        sorriso desapareceu do rosto de Hagrid.
        -        Voc vai fazer o que mando - rosnou ele - ou vou arrancar uma folha do livro do Prof. Moody... ouvi falar que voc ficou
muito bem de doninha, Malfoy.
        Os alunos da Grifinria deram grandes gargalhadas. Malfoy enrubesceu de raiva mas, pelo visto, a lembrana do castigo de Moody ainda era suficientemente 
dolorosa para impedi-lo de responder. Harry, Rony e Hermione voltaram para o castelo no fim da aula, muito animados; ver Hagrid desmoralizar Malfoy era particularmente 
gostoso porque, no ano anterior, o garoto se esforara o mximo para fazer com que Hagrid fosse despedido.
        Quando chegaram ao saguo de entrada, viram-se impedidos de prosseguir pela aglomerao de alunos que havia ali, em torno de um grande aviso afixado ao p 
da escadaria de mrmore. Rony, o mais alto dos trs, ficou nas pontas dos ps para ver por cima das cabeas  sua frente e ler o aviso em voz alta para os outros 
dois.

TORNEIO TRIBRUXO

As delegaes de Beauxbatons e Durmstrang chegaro s seis horas,
sexta-feira, 30 de outubro. As aulas terminaro uma hora antes...

-        Genial! - exclamou Harry. -  Poes a ltima aula de sextafeira! Snape no ter tempo de envenenar todos
ns!

Os alunos devero guardar as mochilas e livros em seus dormitrios e se reunir na entrada do castelo para receber os nossos hspedes antes da Festa de Boas- Vindas.

-  daqui a uma semana! - exclamou Ernesto MacMillan da Lufa-
Lufa, saindo da aglomerao, os olhos brilhando. - Ser que o
Cedrico sabe? Acho que vou avisar a ele...
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        -        Cedrico? - repetiu Rony sem entender, enquanto Ernesto saa apressado.
        -        Diggory - disse Harry. - Ele deve estar inscrito no torneio.
        -        Aquele idiota, campeo de Hogwarts? - disse Rony, quando abriam caminho pelo ajuntamento de alunos para chegar  escadaria.
        -        Ele no  idiota, voc simplesmente no gosta dele porque ele derrotou a Grifinria no quadribol - disse Hermione. - Ouvi
falar que  realmente um bom aluno, e  mnitor!
        Ela falou isso como se encerrasse a questo.
        -        Voc s gosta dele porque ele  bonito - respondeu Rony com desdm.
        -        Perdo, eu no gosto de pessoas s porque so bonitas! - retrucou Hermione indignada.
        Rony fingiu que pigarreava alto, um som que estranhamente
lembrava "Lockhart!".
        A afixao do aviso no saguo de entrada teve um efeito sensvel nos moradores do castelo. Durante a semana seguinte, parecia haver um assunto nas conversas, 
onde quer que Harry fosse: o Torneio Tribruxo. Os boatos voavam de um aluno para outro como um germe excepcionalmente contagioso: quem ia tentar ser o campeo de 
Hogwarts, que  que o torneio exigia, e em que os alunos de Beauxbarons e Durmstrang se diferenciavam deles.
        Harry notou, tambm, que o castelo estava sofrendo uma faxina mais do que rigorosa. Vrios retratos encardidos tinham sido escovados para descontentamento
dos retratados, que se sentavam encolhidos nas molduras, resmungando sombriamente e fazendo caretas ao apalpar os rostos vermelhos. As armaduras de repente brilhavam
e mexiam sem ranger e Argo Filch, o zelador, estava agindo com tanta agressividade com os alunos que se esquecessem de limpar os sapatos que aterrorizou duas garotas
do primeiro ano levando-as  histeria.
        Outros funcionrios tambm pareciam estranhamente tensos.
        -        Longbottom, tenha a bondade de no revelar que voc no consegue sequer lanar um simples Feitio de Troca diante de algum de Durmstrang! - vociferou
a Profa Minerva ao fim de uma aula particularmente difcil, em que Neville acidentalmente 
transplantara as prprias orelhas para um cacto.
        Quando eles desceram para o caf na manh do dia 30 de outubro, descobriram que o Salo Principal fora ornamentado durante
#190
a noite. Grandes bandeiras de seda pendiam das paredes, cada uma representando uma casa de Hogwarts - a vermelha com um leo dourado da Grifinria, a azul com uma
guia de bronze da Corvnal, a amarela com um texugo negro da Lufa-Lufa e a verde com uma serpente de prata da Sonserina. Por trs da mesa dos professores, a maior
bandeira de todas tinha o braso de Hogwarts: leo, guia, texugo e serpente unidos em torno de uma grande letra "H".
        Harry, Rony e Hermione viram Fred e Jorge  mesa da Grifinria. Mais uma vez, e muito anormalmente, os dois estavam sentados  parte dos demais e conversavam
em voz baixa. Rony se encaminhou para os dois.
        -        Ij chato, sim - dizia Jorge sombriamente a Fred. - Mas se ele no quer falar conosco pessoalmente, temos que lhe mandar uma carta. Ou enfi-la 
na
mo dele, ele no pode ficar nos evitando pra sempre.
        -        Quem  que est evitando vocs? - perguntou Rony, sentando-se ao lado deles.
        -        Gostaria que fosse voc - disse Fred, mostrando-se irritado com a interrupo.
        -        Que  que  chato? - perguntou Rony a Jorge.
        -        Ter um babaca metido feito voc como irmo - disse Jorge.
        -        Vocs j tiveram alguma idia para o Torneio Tribruxo? - perguntou Harry. - Continuaram pensando como vo tentar se
inscrever?
        -        Perguntei a McGonagall como  que os campees so escolhidos mas ela no quis dizer - respondeu Jorge com amargura. - S me disse para calar a boca
e continuar transformando o meu racun.
        -        Fico imaginando quais vo ser as tarefas - disse Rony pensativo. - Sabe, aposto que poderamos dar conta, Harry e eu j fizemos coisas perigosas 
antes...
        -        No na frente de uma banca de juizes, isso vocs no fizeram
- disse Fred. - McGonagall disse que os campees recebem pontos pela perfeio com que executam as tarefas.
        -        Quem so os juizes? - perguntou Harry
        -        Bem, os diretores das escolas participantes sempre fazem parte
da banca - disse Hermione e todos a olharam surpresos -, porque
 os trs ficaram feridos durante o torneio de 1792, quando um" basilisco que os campees deviam
capturar saiu destruindo tudo.
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        Ela notou que todos a olhavam e disse, com o seu costumeiro ar de impacincia quando via que ningum mais lera os mesmos
livros que ela:
        -        Est tudo em Hogwarts: uma histria. Embora,  claro, esse livro no seja cem por cento confivel. Uma histria revista de Hogwarts seria um ttulo 
mais preciso. Ou, ento, Uma histria seletiva e muito parcial de Hogwarts, que aborda brevemente os aspectos mais desfavorveis da escola.
        -        Do que  que voc est falando? - perguntou Rony, embora Harry soubesse o
que vinha pela frente.
        - Elfos domsticos!- disse Hermione em voz alta, comprovando que Harry acertara. - Nem uma vez, em mais de mil pginas, Hogwarts: uma histria menciona que 
somos todos coniventes na opresso de centenas de escravos!
        Harry sacudiu a cabea e se concentrou nos ovos mexidos. A falta de entusiasmo dele e de Rony no conseguiu refrear a deciso de Hermione de obter justia 
para os elfos domsticos. Era verdade que os dois tinham pago os dois sicles pelo distintivo do
F.A.L.E., mas s o tinham feito para faz-la calar-se. Os sicles,
no entanto, tinham sido gastos em vo; se produziram algum efeito foi o de tornar Hermione ainda mais vociferante. A garota andava atormentando os dois desde ento,
primeiro para usarem o distintivo, depois para persuadirem outros a fazer o mesmo, e ela tambm passara a caminhar pela sala comunal da Grifinria todas as noites,
encostando os colegas na parede e sacudindo a larinha de coleta debaixo do nariz deles.
        -        Vocs tm conscincia de que os seus lenis so trocados, as lareiras, acesas, as salas de aula limpas e a comida preparada por um grupo de criaturas 
mgicas que no recebem salrio e so escravizadas? - ela no parava de lembrar a todos com veemncia.
        Alguns colegas, como Neville, tinham pago s para Hermione parar de fazer cara feia para eles. Alguns pareceram ligeiramente interessados no que a garota 
tinha a dizer, mas relutavam a assumir um papel mais ativo no movimento. Muitos encaravam a coisa
toda como piada.
        Rony agora contemplou o teto, que banhava a todos com um
sol de outono e Fred fingiu-se extremamente interessado no bacon
que havia em seu prato (os gmeos tinham se recusado a comprar
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um distintivo do F.A.L.E.). Jorge, no entanto, chegou para mais
perto de Hermione.
        -        Escuta aqui, Mione, voc j foi  cozinha?
        -        No, claro que no - respondeu a garota secamente. - Nem posso imaginar que os alunos devam...
        -        Bom, ns j fomos - disse Jorge, indicando Fred - vrias vezes para afanar comida. E encontramos os elfos e eles esto felizes. Acham que tm o
melhor emprego do mundo...
        - E porque eles no tm instruo e sofrem lavagem cerebral! - comeou Hermione acaloradamente, mas suas palavras seguintes foram abafadas pelo rudo de
asas que vinha do alto anunciando a chegada das corujas com o correio. Harry ergueu os olhos e, na mesma hora, avistou Edwiges que voava em sua direo. Hermione
parou de falar abruptamente; ela e Rony observaram a coruja, ansiosos, enquanto a ave batia as asas rapidamente para descer e pousar no ombro de Harry, depois fechou-as
e estendeu a perna, cansada.
Harry desamarrou a resposta de Sirius e ofereceu a Edwiges
        suas aparas de bacon, que ela comeu, grata. Ento, verificando que
        Fred e Jorge estavam absortos em novas discusses sobre o Torneio
        Tribruxo, Harry leu a carta de Sirius, aos cochichos, para Rony e
Hermione.

No me convenceu, Harry.
        Estou de volta ao pas e bem escondido. Quero que me mantenha informado de tudo que estiver acontecendo em Hogwarts. No use Edwiges, troque de corujas e
no se preocupe comigo, cuide-se. No se esquea do que lhe disse sobre a cicatriz.
Sirius

- Por que  que voc precisa trocar de corujas? - perguntou Rony em voz baixa.
        -        Edwiges chamar muita ateno - respondeu Hermione na mesma hora. - Ela se destaca. Uma coruja muito branca que fica voltando para o lugar em que
ele est escondido... Quero dizer, ela nao e um pssaro nativo, no  mesmo?
        Harry enrolou a carta e guardou-a dentro das vestes, se perguntando se estaria se sentindo mais ou menos preocupado do que antes. Supunha que o fato de Sirius
ter conseguido voltar sem ser apanhado j era muito. Tampouco podia negar que a idia de que seu padrinho estava muito mais prximo era reconfortante; pelo
#193
menos no teria que esperar tanto por uma resposta todas as vezes que lhe escrevesse.
        - Obrigado, Edwiges - disse, acariciando-a. Ela piou sonolenta, meteu o bico rapidamente no clice de suco de laranja do garoto, depois tornou a levantar
vo, visivelmente desesperada para tirar um longo sono no corujal.
        Havia uma sensao de agradvel expectativa no ar aquele dia. Ningum prestou muita ateno s aulas, pois estavam bem mais interessados na chegada das comitivas
de Beauxbatons e Durmsrrang  noite; at Poes foi mais tolervel do que de costume, porque durou meia hora a menos. Quando a sineta tocou mais cedo, Harry, Rony
e Hermione subiram depressa para a Torre da Grifinria, largaram as mochilas e os livros, conforme as instrues que tinham recebido, vestiram as capas e desceram
correndo para o saguo de entrada.
        Os diretores das Casas estavam organizando os alunos em filas.
        - Weasley, endireite o chapu - disse a Profp Minerva secamente a Rony. - Srra. Patil, tire essa coisa ridcula dos cabelos.
        Parvati fez cara feia e retirou o enorme enfeite de borboleta da
ponta da trana.
        - Sigam-me, por favor - mandou a professora -, alunos da primeira srie  frente... sem empurrar...
        Eles desceram os degraus da entrada e se enfileiraram diante do castelo. Fazia um fim de tarde frio e lmpido; o crepsculo vinha chegando devagarinho e
uma lua plida e transparente j brilhava sobre a Floresta Proibida. Harry, postado entre Rony e Hermione na quarta fileira da frente para trs, viu Dnis Creevey
decididamente trmulo de expectativa entre os colegas da primeira srie.
        -        Quase seis horas - comentou Rony, verificando o relgio e depois espiando o caminho que levava aos portes da escola. - Como  que vocs acham que
eles vm? De trem?
        -        Duvido - respondeu Hermione.
        -        Como ento? Vassouras? - arriscou Harry, erguendo os olhos para o cu estrelado.
        -        Acho que no... no vindo de to longe...
        - De chave de portal? - aventurou Rony. - Ou quem sabe apatando, talvez tenham permisso de fazer isso antes dos dezessete
anos no lugar de onde vm?
        -        No se pode aparatar nos terrenos de Hogwarts. Quantas
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vezes tenho que repetir isso a vocs - falou Hermione com impacincia.
        Os garotos examinavam excitados e atentos os jardins cada vez mais escuros, mas nada se movia; tudo estava quieto, silencioso, como sempre. Harry comeava 
a sentir frio. Desejou que os visitantes chegassem logo... talvez os estudantes estrangeiros estivessem preparando uma entrada teatral... lembrou-se do que o Sr. 
Weasley dissera no acampamento antes da Copa Mundial de Quadribol: "Sempre os mesmos, no resistimos  tentao de fazer farol quando nos reunimos...
        E ento Dumbledore falou em voz alta da ltima fileira, onde
aguardava com os outros professores:
        -        Aha! A no ser que eu muito me engane, a delegao de Beauxbatons est chegando!
        -        Onde? - perguntaram muitos alunos ansiosos, olhando em diferentes direes.
        -        Ali! - gritou um aluno da sexta srie, apontando para o
cu sobre a Floresta.
        Alguma coisa grande, muito maior do que uma vassoura - ou,
na verdade, cem vassouras -, voava em alta velocidade pelo cu
azul-escuro em direo ao castelo, e se tornava cada vez maior.
        -         um drago! gritou esganiada uma aluna da primeira srie, perdendo completamente a cabea.
        -        Deixa de ser burra...  uma casa voadora! - disse Dnis Creevey.
        O        palpite de Dnis estava mais prximo... quando a sombra gigantesca e escura sobrevoou as copas das rvores da Floresta Proibida, e as luzes que 
brilhavam nas janelas do castelo a iluminaram, eles viram uma enorme carruagem azul-clara do tamanho de um casaro, que voava para eles, puxada por doze cavalos 
alados, todos baios, cada um parecendo um elefante de to grande.
        As trs primeiras fileiras de alunos recuaram quando a carruagem foi baixando para pousar a uma velocidade fantstica - ento, com um baque estrondoso que 
fez Neville saltar para trs e pisar no p de um aluno da quinta srie da Sonserina -, os cascos dos cavalos, maiores que pratos, bateram no cho. Um segundo mais
tarde, a carruagem tambm pousou, balanando sobre as imensas rodas, 
enquanto os cavalos dourados agitavam as cabeorras e reviravam
os grandes olhos cor de fogo.
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        Harry s teve tempo de ver que a porta da carruagem tinha um braso (duas varinhas cruzadas, e de cada uma saam trs estrelas)
antes que ela se abrisse.
        Um garoto de vestes azul-claras saltou da carruagem, curvado para a frente, mexeu por um momento em alguma coisa que havia no cho da carruagem e abriu uma 
escadinha de ouro. Em seguida, recuou respeitosamente. Ento Harry viu um sapato preto e lustroso sair de dentro da carruagem - um sapato do tamanho de um tren 
de criana - acompanhado, quase imediatamente, pela maior mulher que ele j vira na vida. O tamanho da carruagem e dos cavalos ficou imediatamente explicado. Algumas 
pessoas exclamaram.
        Harry s vira, at ento, uma pessoa to grande quanto essa mulher: Hagrid; ele duvidou que houvesse dois centmetros de diferena na altura dos dois. Mas, 
por alguma razo - talvez simplesmente porque estava habituado a Hagrid -, esta mulher (agora ao p da escada, que olhava para as pessoas que a esperavam de olhos 
arregalados) parecia ainda mais anormalmente grande. Ao entrar no crculo de luz projetado pelo saguo de entrada, ela revelou um rosto bonito de pele morena, grandes 
olhos negros que pareciam lquidos e um nariz um tanto bicudo. Seus cabelos estavam puxados para trs e presos em um coque na nuca. Vestia-se da cabea aos ps de
cetim negro, e brilhavam numerosas opalas em seu pescoo e nos dedos grossos.
        Dumbledore comeou a aplaudir; os estudantes, acompanhando a deixa, prorromperam em palmas, muitos deles nas pontas dos
ps, para poder ver melhor a mulher.
        O        rosto dela se descontraiu em um gracioso sorriso e ela se dirigiu a Dumbledore, estendendo a mo faiscante de anis. O
diretor, embora alto, mal precisou se curvar para beijar-lhe a mao.
        -        Minha cara Madame Maxime - disse. - Bem-vinda a Hogwarts.
        -        Dumbly-dorr - disse Madame Maxime, com uma voz grave.
-        Esperro encontrr-lo de boa sade.
        -        Excelente, obrigado - respondeu Dumbledore.
        -        Meus alunos - disse Madame Maxime, acenando descuidadamente uma de suas enormes mos para trs.
       Harry, cuja ateno estivera focalizada inteiramente em Madame Maxime, reparou, ento, que uns doze garotos e garotas - todos, pelo fsico, no fim da
adolescncia - haviam descido da carruagem
#196
 e agora estavam parados atrs de Madame Maxime. Eles tremiam de frio, o que no surpreendia, pois suas vestes eram feitas de finissima seda e nenhum deles
usava capa. Alguns tinham enrolado echarpes e xales na cabea. Pelo que Harry pde ver de seus rostos (estavam  enorme sombra de sua diretora), eles olhavam para
o castelo, com uma expresso apreensiva.
        -        Karrkarroff j chegou? - perguntou Madame Maxime.
        -        Deve estar aqui a qualquer momento - disse Dumbledore. - Gostaria de esperar aqui para receb-lo ou prefere entrar para se
aquecer um pouco?
        -        Me aquecerr, acho. Mas os cavalos...
        -        O nosso professor de Trato das Criaturas Mgicas ficar encantado de cuidar deles - disse Dumbledore - assim que terminar de resolver um probleminha
que ocorreu com alguns de seus outros... protegidos.
        -        Explosivins - murmurou Rony para Harry, rindo-se.
        -        Meus corrcis ecsigem... hum... um trratadorr forrte - disse Madame Maxime, com uma expresso de dvida quanto  capacidade de um professor de Trato
das Criaturas Mgicas em Hogwarts para dar conta da tarefa. - Eles son muito forrtes...
        -        Posso lhe assegurar que Hagrid poder cuidar da tarefa - disse o diretor, sorrindo.
        -        timo - disse Madame Maxime, fazendo uma ligeira reverncia -, por favorrr inforrrme a esse Agrid que os cavalos s bebem usque de um malte.
        -        Farei isso - respondeu Dumbledore, retribuindo a reverncia.
        -        Venham - disse Madame Maxime imperiosamente aos seus alunos e o pessoal de Hogwarts se afastou para deix-los subir os
degraus de pedra.
        -        De que tamanho voc acha que os cavalos de Durmstrang vo ser? - perguntou Simas Finnigan, esticando-se por trs de Lil
e Parvati para falar com Harry e Rony.
        -        Bom, se eles forem maiores do que esses, nem Hagrid vai ser capaz de cuidar deles - comentou Harry. - Isto , se ele j no foi
atacado pelos explosivins. Qual ser o problema com eles?
        -        Talvez tenham fugido - arriscou Rony esperanoso.
        -        Ah, no diz uma coisa dessas - falou Hermione, com um arrepio. - Imaginem aqueles bichos soltos pela propriedade...
        Eles continuaram parados, agora tremendo um pouco de frio,
#197
 espera da delegao de Durmstrang. A maioria das pessoas contemplava o cu, esperanosa. Durante alguns minutos, o silncio s foi interrompido pelos cavales
de Madame Maxime que resfolegavam e pateavam. Mas ento...
        - Vocs esto ouvindo alguma coisa? - perguntou Rony de repente.
        Harry prestou ateno; um barulho alto e estranho chegava at eles atravs da escurido; um ronco abafado mesclado a um rudo de suco, como se um imenso
aspirador de p estivesse se deslocando pelo leito de um rio...
        - O lago! - berrou Lino Jordan apontando. - Olhem para o lago!
        De sua posio, no alto dos gramados, de onde descortinavam a propriedade, eles tinham uma viso desimpedida da superficie escura e lisa da gua - exceto 
que ela repentinamente deixara de ser lisa. Ocorria alguma perturbao no fundo do lago; grandes bolhas se formavam no centro, e suas ondas agora quebravam nas margens 
de terra - e ento, bem no meio do lago, apareceu um rodamoinho, como se algum tivesse retirado uma tampa gigantesca do seu leito...
        Algo que parecia um pau comprido e preto comeou a emergir
lentamente do rodamoinho... e ento Harry avistou o velame...
        -  um mastro! - disse ele a Rony e Hermione.
        Lenta e imponentemente o navio saiu das guas, refulgindo ao luar. Tinha uma estranha aparncia esqueltica, como se tivesse ressuscitado de um naufrgio, 
e as luzes fracas e enevoadas que brilhavam nas escotilhas lembravam olhos fantasmagricos. Finalmente, com uma grande espalhao de gua, o navio emergiu inteiramente, 
balanando nas guas turbulentas, e comeou a deslizar para a margem. Alguns momentos depois, ouviram a ncora ser atirada na gua rasa e o baque surdo de um prancho 
ao ser baixado sobre a margem.
        Havia gente desembarcando, os garotos viram silhuetas passarem pelas luzes das escotilhas. Os recm-chegados pareciam ter fsicos semelhantes aos de Crabbe 
e Goyle... mas ento, quando subiram as encostas dos jardins e chegaram mais prximos  luz que saa do saguo de entrada, Harry viu que aquela aparncia macia
 se devia s capas de peles de fios longos e despenteados que estavam
usando. Mas o homem que os conduzia ao castelo usava peles de
um outro tipo; sedosas e prateadas como os seus cabelos.
#198
        -        Dumbledore! - cumprimentou ele cordialmente, ainda subindo a encosta. - Como vai, meu caro, como vai?
        -        Otimamente, obrigado, Prof. Karkaroff.
        O homem tinha uma voz ao mesmo tempo engraada e untuosa; quando ele entrou no crculo de luz das portas do castelo, os garotos viram que era alto e magro 
como Dumbledore, mas seus cabelos brancos eram curtos, e a barbicha (que terminava em um cachinho) no escondia inteiramente o seu queixo fraco. Quando alcanou 
Dumbledore, apertou-lhe a mo com as suas duas.
        -        Minha velha e querida Hogwarts! - exclamou, erguendo os olhos para o castelo e sorrindo; seus dentes eram um tanto amarelados, e Harry reparou que 
seu sorriso no abrangia os olhos, que permaneciam frios e astutos. - Como  bom estar aqui, como  bom... Vtor, venha, venha para o calor... voc no se importa, 
Dumbledore? Vtor est com um ligeiro resfriado...
        Karkaroff fez sinal para um de seus estudantes avanar. Quando o rapaz passou, Harry viu de relance um nariz grande e curvo e sobrancelhas escuras e espessas. 
No precisava do soco que Rony lhe deu no brao, nem do cochicho na orelha para reconhecer aquele perfil.
        -Harry, oKrum!
#199


*****


- CAPITULO DEZESSEIS -
O Clice de Fogo


-        Eu no acredito! - exclamou Rony, em tom de espanto, quando os alunos de Hogwarts se enfileiraram pelos degraus atrs da delegao de Durmstrang.
        -        Krum, Harry! VtorKrum!
        -        Pelo amor de Deus, Rony, ele  apenas um jogador de quadribol - disse Hermione.
        - Apenas um jogador de quadribol?- exclamou Rony, olhando para a amiga como se no pudesse acreditar no que ouvia. - Mione, ele  um dos melhores apanhadores 
do mundo! Eu no fazia idia de que ele ainda estava na escola!
        Quando eles atravessaram o saguo com os demais alunos de Hogwarts, a caminho do Salo Principal, Harry viu Lino Jordan pulando nas pontas dos ps para conseguir 
ver melhor a nuca de Krum. Vrias garotas do sexto ano apalpavam freneticamente os bolsos enquanto andavam:
        -        Ah, no acredito, no trouxe uma nica pena comigo... Voc acha que ele assinaria o meu chapu com batom?
        -        Francamente! - exclamou Hermione com ar de superioridade, ao passarem pelas garotas, agora disputando o batom.
        -        Vou pedir um autgrafo a ele se puder - disse Rony -, voc tem uma pena, Harry?
- No, deixei todas l em cima na mochila - respondeu Harry. Os garotos se dirigiram  mesa da Grifinria e se sentaram.
        Rony tomou o cuidado de se sentar de frente para a porta, porque Krum e seus colegas de Durmstrang ainda estavam parados ali, aparentemente sem saber onde 
se sentar. Os alunos de Beauxbaons tinham escolhido lugares  mesa da Corvinal. Corriam os
        olhos pelo Salo Principal com uma expresso triste no rosto. Trs
        deles ainda seguravam as echarpes e xales que cobriam a cabea.
#200
        - No est fazendo tanto frio assim - comentou Hermione que os observava, irritada. - Por que no trouxeram as capas?
        - Aqui! Venham se sentar aqui! - sibilou Rony. - Aqui! Mione chega para l, abre um espao...
-Qu?
        - Tarde demais - disse Rony com amargura.
        Vtor Krum e os colegas de Durmstrang tinham se acomodado  mesa da Sonserina. Harry viu que Malfoy, Crabbe e Goyle pareciam muito cheios de si com isso. 
Enquanto o garoto observava, Malfoy se curvou para falar com Krum.
        - , vai fundo, puxa o saco dele, Malfoy - disse Rony com desdm. - Mas, aposto como o Krum est percebendo o jogo dele... aposto como tem gente adulando 
ele o tempo todo... onde  que voc acha que eles vo dormir? Poderamos oferecer um lugar no nosso dormitrio, Harry... eu no me importaria de ceder a minha cama, 
e poderia dormir em uma cama de armar.
        Hermione deu uma risadinha desdenhosa.
        - Eles parecem bem mais felizes que o pessoal da Beauxbarons
- disse Harry.
        Os alunos de Durmsrrang estavam despindo os pesados casacos de peles e olhando para o
teto escuro e estrelado com expresses de interesse; uns dois seguravam
os pratos e taas de ouro e examinavam-nos, aparentemente impressionados.
        Na mesa dos funcionrios, Filch, o zelador, acrescentava cadeiras. Estava usando a velha casaca mofada em homenagem  ocasio. Harry ficou surpreso de ver
que ele acrescentara duas cadeiras de cada lado de Dumbledore.
        - Mas s tem mais duas pessoas - disse Harry. - Por que Filch est colocando mais
quatro cadeiras? Quem mais vem?
        - ? - respondeu Rony vagamente. Ainda olhava com avidez para Krum.
        Depois que todos os estudantes tinham entrado no salo e sentado s mesas das Casas, vieram os professores, que se dirigiram  mesa principal e se sentaram.
Os ltimos da fila foram o Prof. Dumbledore, o Prof. Karkaroff e Madame Maxime. Quando a diretora apareceu, os alunos de Beauxbatons se levantaram imediatamente.
Alguns alunos de Hogwarts riram. A delegao de
 Beauxbatons no pareceu se constranger nem um pouco e no tornou a se sentar at que Madame Maxime estivesse
acomodada do
#201
lado esquerdo de Dumbledore. Este, porm, continuou em p e o Salo Principal ficou silencioso.
        -        Boa-noite, senhoras e senhores, fantasmas e, muito especialmente, hspedes - disse Dumbledore sorrindo para os alunos estrangeiros. - Tenho o prazer
de dar as boas-vindas a todos. Espero e confio que sua estada aqui seja confortvel e prazerosa.
Uma das garotas de Beauxbatons, ainda segurando o xale na
cabea, deu uma inconfundvel risadinha de zombaria.
        -        Ningum est obrigando voc a ficar! - murmurou Hermione, com raiva.
        -        O torneio ser oficialmente aberto no fim do banquete - disse Dumbledore. - Agora convido todos a comer, beber e se fazer
em casa!
Ele se sentou, e Harry viu Karkaroff se curvar na mesma hora
para a frente e iniciar uma conversa com o diretor.
        As travessas diante deles se encheram de comida como de costume. Os elfos domsticos na cozinha pareciam ter se excedido; havia uma variedade de pratos  
mesa que Harry jamais vira, inclusive alguns decididamente estrangeiros.
        -        Que  isso? - disse Rony, apontando uma grande travessa com uma espcie de ensopado de frutos do mar ao lado de um
grande pudim de carne e rins.
        -        Boujilabaisse - disse Hermione.
        - Para voc tambm! - respondeu Rony.
        -  francesa - explicou a garota. - Comi nas frias, no penltimo vero,  muito gostosa.
        -        Acredito - retrucou Rony, servindo-se de chourio de sangue.
        De alguma forma o Salo Principal parecia muito mais cheio do que de costume, ainda que s houvesse umas vinte pessoas a mais ali; talvez porque os uniformes 
de cores diferentes se destacassem to claramente contra o preto das vestes de Hogwarts. Agora que tinham despido as peles, os alunos de Durmstrang deixavam ver 
que usavam vestes de um intenso vermelho-sangue.
        Vinte minutos depois do incio do banquete, Hagrid entrou
discretamente pela porta atrs da mesa dos funcionrios. Deslizou
para sua cadeira na ponta da mesa e acenou para Harry, Rony e
Hermione com a mo coberta de ataduras.
        -        Os explosivins esto passando bem, Hagrid? - perguntou Harry.
#202
        -        Otimamente - respondeu ele animado.
        -        , aposto que esto - disse Rony em voz baixa. - Parece que finalmente encontraram a comida que gostam, no? Os dedos de
Hagrid.
        Naquele instante, ouviram uma voz:
        -        Com licena, vocs von querrer a boujilabaisse?
        Era a garota de Beauxbatons que rira durante a fala de Dumbledore. Finalmente retirara o xale. Uma longa cascata de cabelos louro-prateados caa quase at
sua cintura. Tinha grandes olhos azul-profundos e dentes muito brancos e iguais.
        Rony ficou prpura. Olhou para a garota, abriu a boca para
responder, mas no saiu nada a no ser um fraco gargarejo.
        -        Pode levar - respondeu Harry, empurrando a terrina para a garota.
        -        Vocs j se serrvirram?
        -        J - disse Rony sem flego. - Estava excelente.
        A garota apanhou a terrina e levou-a cuidadosamente at a mesa da Corvinal. Rony continuou com os olhos grudados nela como se nunca tivesse visto uma garota
na vida. Harry comeou a rir. O som das risadas pareceu sacudir Rony daquele transe.
        -         uma veela! - exclamou com a voz rouca para Harry.
        -        Claro que no! - retrucou Hermione mordazmente. - No vejo mais ningum olhando para ela de boca aberta como um idiota!
        Mas no era bem verdade. Quando a garota atravessou o salo,
muitas cabeas de garotos se viraram, e alguns pareciam ter ficado
temporariamente sem fala, exatamente como Rony.
        -        Estou dizendo, no  uma garota normal! - disse Rony, curvando-se para um lado para poder continuar a v-la sem ningum na frente. - No fazem garotas 
assim em Hogwarts!
        -        Fazem garotas legais em Hogwarrs - respondeu Harry, sem pensar. Cho Chang, por acaso, estava sentada a poucos lugares da
garota de cabelos prateados.
        -        Quando vocs dois repuserem os olhos dentro das rbitas - disse Hermione com energia - podero ver quem acaba de chegar.
        Ela apontou para a mesa dos funcionrios. As duas cadeiras que estavam vazias acabavam de ser ocupadas. Ludo Bagman sentou-se agora do outro lado do Prof. 
Karkaroff enquanto o Sr. 
Crouch, chefe de Percy, ficou ao lado de Madame Maxime.
        -        Que  que eles esto fazendo aqui? - indagou Harry surpreso.
#203
        -        Eles organizaram o Torneio Tribruxo, no foi? - disse Hermione. - Imagino que quisessem vir assistir  abertura.
        Quando o segundo prato chegou, os garotos repararam que havia diversos pudins desconhecidos, tambm. Rony examinou um tipo esquisito de manjar branco mais 
atentamente, depois deslocou-o com cuidado alguns centmetros para a direita, de modo a deix-lo bem visvel para os convidados  mesa da Corvinal. Mas a garota 
que lembrava uma veela parecia ter comido o suficiente e no veio at a mesa apanh-lo.
        Depois que os pratos de ouro foram limpos, Dumbledore se levantou mais uma vez. Neste momento, uma agradvel tenso pareceu invadir o salo. Harry sentiu
um tremor de excitao s de imaginar o que viria a seguir. A algumas cadeiras de distncia, Fred e Jorge se curvaram para a frente, observando Dumbledore com grande
concentrao.
        - Chegou o momento - disse Dumbledore, sorrindo para o mar de rostos erguidos. - O Torneio Tribruxo vai comear. Eu gostaria de dizer algumas palavras de 
explicao antes de mandar trazer o escrnio...
-        O qu? - murmurou Harry. Rony deu de ombros.
        apenas para esclarecer as regras que vigoraro este ano. Mas, primeiramentep gostaria de apresentar queles que ainda no os conhecem o Sr. Barrolomeu Crouch, 
Chefe do Departamento de Cooperao Internacional em Magia - houve vagos e educados aplausos -, e o Sr. Ludo Bagman, Chefe do Departamento de Jogos e Esportes Mgicos.
        Houve uma rodada mais ruidosa de aplausos para Bagman do que para Crouch, talvez por sua fama de batedor ou simplesmente porque ele parecia muito mais simptico. 
Ele agradeceu com um aceno jovial. Bartolomeu Crouch no sorriu nem acenou quando seu nome foi anunciado. Ao lembrar-se dele vestido com um terno bem cortado na 
Copa Mundial de Quadribol, Harry achou que parecia estranho naquelas vestes de bruxo. Seu bigode  escovinha e a risca exata nos cabelos pareciam muito esquisitos 
ao lado dos
longos cabelos e barbas de Dumbledore.
        -        Nos ltimos meses, o Sr. Bagman e o Sr. Crouch trabalharam incansavelmente na organizao do Torneio Tribruxo - continuou
#204
Dumbledore - e se juntaro a mim, ao Prof. Karkaroff e  Madame Maxime na banca que julgar os esforos dos campees.
        A meno da palavra "campees", a ateno dos estudantes que
ouviam pareceu se aguar.
        Talvez Dumbledore tivesse notado essa repentina imobilidade,
porque ele sorriu e disse:
        -        O escrnio, ento, por favor, Sr. Filch.
        Filch, que andara rondando despercebido um extremo do salo, se aproximou ento de Dumbledore, trazendo uma arca de madeira, incrustada de pedras preciosas. 
Tinha uma aparncia extremamente antiga. Um murmrio de interesse se elevou das mesas dos alunos; Dnis Creevey chegou a subir na cadeira para ver direito mas, por 
ser to mido, sua cabea mal ultrapassou a dos outros.
        -        As instrues para as tarefas que os campees devero enfrentar este ano j foram examinadas pelos Srs. Crouch e Bagman - disse Dumbledore, enquanto 
Filch depositava a arca cuidadosamente na mesa  frente do diretor -, e eles tomaram as providncias necessrias para cada desafio. Haver trs tarefas, espaadas
durante o ano letivo, que serviro para testar os campees de diferentes maneiras... sua percia em magia, sua coragem, seus poderes de deduo e, naturalmente,
sua capacidade de enfrentar o perigo.
        A esta ltima palavra, o salo mergulhou num silncio to absoluto que ningum parecia estar respirando.
        -        Como todos sabem, trs campees competem no torneio - continuou Dumbledore calmamente -, um de cada escola. Eles recebero notas por seu desempenho
em cada uma das tarefas do torneio e aquele que tiver obtido o maior resultado no final da terceira tarefa ganhar a Taa Tribruxo. Os campees sero escolhidos
por um juiz imparcial... o Clice de Fogo.
        Dumbledore puxou ento sua varinha e deu trs pancadas leves na tampa do escrnio. A tampa se abriu
lentamente com um rangido. O bruxo enfiou a mo nele
e tirou um grande clice de madeira toscamente talhado. Teria sido considerado totalmente comum se no estivesse cheio at a borda com chamas branco-azuladas, que
davam a impresso de danar.
        Dumbledore fechou op escrnio e pousou cuidadosamente o
clice sobre a tampa, onde seria visvel a todos no salo.
        -        Quem quiser se candidatar a campeo deve escrever seu nome e escola claramente em um pedao de pergaminho e

#205
deposit-lo no clice - disse Dumbledore. - Os candidatos tero vinte e quatro
horas para apresentar seus nomes. Amanh  noite, Festa das Brxas, o clice devolver
o nome dos trs que ele julgou mais dignos de representar suas escolas. O clice ser colocado no saguo de entrada hoje  noite, onde estar perfeitamente acessvel
a todos que queiram competir.
        "Para garantir que nenhum aluno menor de idade ceda  tentao", continuou Dumbledore, "traarei uma linha etria em volta do Clice de Fogo depois que ele
for colocado no saguo. Ningum com menos de dezessete anos conseguir atravessar a linha.
        "E, finalmente, gostaria de incutir nos que querem competir, que ningum deve se inscrever neste torneio levianamente. Uma vez escolhido pelo Clice de Fogo,
o campeo ficar obrigado a prosseguir at o final do torneio. Colocar o nome no clice  um ato contratual mgico. No pode haver mudana de idia, uma vez que
a pessoa se torne campe. Portanto, procurem se certificar de que esto preparados de corpo e alma para competir, antes de depositar seu nome no clice. Agora, acho
que j est na hora de irmos nos deitar. Boa-noite a todos."
        -        Uma linha etria! - exclamou Fred Weasley, os olhos brilhando, enquanto atravessavam o salo rumo s portas que se abriam
para o saguo de entrada.
        -        Bom, isso deve ser contornvel com uma Poo para Envelhecer, no? E depois que o nome estiver no clice, a gente vai ficar
rindo, ele no vai saber dizer se voc tem ou no dezessete anos!
        -        Mas eu acho que ningum abaixo de dezessete anos ter a menor chance - disse Hermione -
ainda no aprendemos o suficiente...
        -        Fale por voc - disse Jorge rispidamente. - Voc vai tentar entrar, no vai, Harry?
        Harry pensou brevemente na insistncia de Dumbledore de que nenhum menor de dezessete anos submetesse o nome, mas ento a maravilhosa viso de si mesmo ganhando
a Taa Tribruxo invadiu mais uma vez sua mente... ele pensou no quanto Dumbledore ficaria zangado se algum menor de dezessete anos descobrisse
uma maneira de atravessar a linha etria...
        -        Onde est ele? - perguntou Rony, que no estava ouvindo uma s palavra dessa conversa, e examinava a aglomerao de
#206
alunos para ver que fim levara Krum. - Dumbledore no disse onde o pessoal de Durmstrang vai dormir, disse?
        Mas sua pergunta foi respondida quase instantaneamente; os
garotos estavam passando pela mesa da Sonserina naquele momento e Karkaroff se apressava em chegar aos seus alunos.
        -        Voltamos ao navio, ento - foi ele dizendo. - Vtor, como  que voc est se sentindo? Comeu o suficiente? Devo mandar buscar um pouco de quento
na cozinha?
        Harry viu Krum sacudir negativamente a cabea e tornar a vestir as peles.
        -        Professor, eu gostaria de beber um pouco de vinho disse outro garoto de Durmstrang esperanoso.
        -        Eu no ofereci a voc, PoLiakoff - retorquiu Karkaroff, seu caloroso ar paternal desaparecendo instantaneamente. - Vejo que
derramou comida nas vestes outra vez, moleque porcalho...
        Karkaroff lhe deu as costas e conduziu os alunos para fora, chegando  porta no mesmo momento que Harry, Rony e Hermione.
Harry parou para deix-lo passar primeiro.
        -        Obrigado - disse Karkaroff, olhando distrado para o garoto.
        E ento o bruxo estacou. Tornou a virar a cabea para Harry e encarou-o como se no pudesse acreditar no que via. Atrs do diretor, os alunos de Durmstrang
pararam tambm. Os olhos de Karkaroff percorreram lentamente o rosto de Harry e se detiveram na cicatriz. Os alunos de Durmstrang miraram Harry cheios de curiosidade,
tambm. Pelo canto do olho, o garoto viu que alguns faziam cara de terem finalmente entendido. O garoto que sujara as vestes de comida cutucou uma colega ao seu
lado e apontou abertamente para a testa de Harry.
        -        ,  o Harry Potter, sim - disse algum com um rosnado s costas deles.
        O        Prof. Karkaroff virou-se completamente. Olho-Tonto Moody se achava parado ali, apoiado pesadamente na bengala, o
olho mgico encarando sem piscar o diretor de Durmsrrang.
        A cor se esvaiu do rosto de Karkaroff enquanto Harry observava a cena. Uma expresso terrvel, em que se misturavam a fria e
o        medo, perpassou o rosto do homem.
        -        Voc! - exclamou ele, encarando Moody como se duvidasse 
 de que realmente o via.
        -        Eu - disse Moody srio. - E a no ser que tenha alguma coisa
#207
a dizer a Potter, Karkatoff, voc talvez queira continuar andando. Est bloqueando a porta.
        Era verdade; metade dos estudantes no salo aguardava atrs
deles, espiando por cima dos ombros uns dos outros para ver o que o que
estava causando o engarrafamento.
        Sem dizer mais uma palavra, o Prof. Karkaroff arrebanhou seus alunos e saiu. Moody observou-o desaparecer de vista, seu olho mgico fixando as costas do 
bruxo,
uma expresso de intenso desagrado em seu rosto mutilado.

Como o dia seguinte era sbado, normalmente a maioria dos estudantes teria tomado o caf da manh mais tarde. Harry, Rony e Hermione, porm, no foram os nicos
a se levantarem muito mais cedo do que costumavam nos fins de semana. Quando desceram para o saguo, viram umas vinte pessoas andando por ali, alguns comendo torrada, 
todos examinando o Clice de Fogo. A pea fora colocada no centro do saguo sobre o banquinho que era usado para o Chapu Seletor. Uma fina linha dourada fora traada 
no cho, formando um crculo de uns trs metros de raio.
        - Algum j depositou o nome? - perguntou Rony, ansioso, a uma aluna do terceiro ano.
        - Todo o pessoal da Durmstrang - respondeu ela. - Mas ainda no vi ningum de Hogwarts.
        -        Aposto como tem gente que depositou ontem  noite depois que fomos todos dormir - disse Harry. - Eu teria feito isso se fosse eles... no iria querer 
ningum me olhando. E se o clice cuspisse o meu nome de volta na hora?
        Algum riu s costas de Harry. Ao se virar, ele viu Fred, Jorge
e Lino Jordan correndo escada abaixo, os trs parecendo excitadssimos.
        -        Resolvido - disse Fred num cochicho vitorioso a Harry, Rony e Hermione. - Acabamos de tom-la.
        -        Qu? - exclamou Rony.
        -        A Poo para Envelhecer, cabea-de-bagre - disse Fred.
        -        Uma gota cada um - acrescentou Jorge, esfregando as mos
 de alegria. - S precisamos envelhecer alguns meses.
        -        Vamos dividir os mil galees entre os trs se um de ns vencer - disse Lino, com um largo sorriso.
#208
        - No tenho muita certeza de que isso vai dar certo - disse Hermione em tom de aviso. - Tenho certeza de que Dumbledore
ter pensado nessa possibilidade.
        Fred, Jorge e Lino no lhe deram ateno.
        - Pronto? - perguntou Fred aos outros dois, tremendo de excitao. - Vamos ento, eu vou primeiro...
        Harry observou, fascinado, quando Fred tirou do bolso um pedao de pergaminho com as palavras "Fred Weasley - Hogwarrs".
O        garoto foi direto  linha e parou ali, balanando-se nas pontas dos ps como um mergulhador se preparando para um salto de quinze metros. Depois, acompanhado
pelo olhar de todos que estavam no saguo, ele respirou fundo e atravessou a linha.
        Por uma frao de segundo, Harry achou que a coisa dera certo
- Jorge certamente pensara o mesmo, porque soltou um berro de triunfo e correu atrs de Fred -, mas no momento seguinte, ouviram um chiado forte e os gmeos foram
arremessados para fora do crculo dourado, como bolas de golfe. Eles aterrissaram dolorosamente, a dez metros de distncia no frio cho de pedra e, para piorar a
situao, ouviram um forte estalo e brotaram nos dois longas barbas brancas e idnticas.
        O saguo de entrada ecoou de risadas. At Fred e Jorge se riram depois de se levantarem e dar uma boa olhada nas barbas um do
outro.
        - Eu avisei a vocs - disse uma voz grave e risonha, ao que todos se viraram e deram com o Prof. Dumbledore saindo do Salo Principal. Ele examinou Fred
e Jorge, com os olhos cintilando. - Sugiro que os dois procurem Madame Pomfrey. Ela j est cuidando da Srta. Fawcett da Corvinal e do Sr. Summers da Lufa-Lufa,
que tambm resolveram envelhecer um pouquinho. Embora eu deva dizer que as barbas deles no so to bonitas quanto as suas.
        Fred e Jorge seguiram para a ala hospitalar acompanhados por
Lino, que rolava de rir, e Harry, Rony e Hermione, tambm s gargalhadas, foram tomar o caf da manh.
        A decorao no Salo Principal estava mudada essa manh. Como era o Dia das Bruxas, uma nuvem de morcegos vivos esvoaava pelo teto encantado, enquanto centenas
de abboras esculpidas riam-se em cada canto. Harry,  frente dos trs, foi at Dino e
Simas, que discutiam quais alunos de Hogwarts com dezessete anos ou mais
estariam se inscrevendo.
#209
        -        Corre um boato que Warrington se levantou cedo e depositou o nome no clice - disse Dino a Harry. - Aquele grandalho da
        Sonserina que parece uma preguia.
        Harry, que jogara quadribol contra Warrington, sacudiu a cabea, desgostoso.
        -        No podemos ter um campeo da Sonserina!
        -        E todo o pessoal da Lufa-Lufa est falando em Diggory - disse Simas com desprezo. - Eu no teria imaginado que ele fosse
querer arriscar aquele belo fsico.
        -        Escutem! - disse Hermione de repente.
        As pessoas estavam aplaudindo no saguo de entrada. Todos se viraram nas cadeiras e viram Angelina Johnson entrando no salo, sorrindo meio encabulada. Uma 
garota alta, que jogava como artilheira no time de quadribol da Grifinria, Angelina se aproximou dos colegas, sentou-se e disse:
        -        Bom, est feito! Depositei o meu nome!
        -        Voc est brincando! - disse Rony, parecendo impressionado.
        -        Ento voc j fez dezessete? - perguntou Harry.
        -        Claro que sim. Voc est vendo alguma barba? - respondeu Rony.
        -        Fiz anos na semana passada - disse Angelina.
        -        Fico feliz que algum da Grifinria esteja concorrendo - comentou Hermione. - Espero sinceramente que voc seja escolhida, Angelina!
        -        Obrigada, Hermione - agradeceu Angelina, sorrindo para ela.
        -        ,  melhor voc do que o Z Bonitinho Diggory - disse Simas, fazendo vrios alunos da Lufa-Lufa que passavam pela mesa
amarrarem a cara para ele.
        -        Ento, que  que vocs vo fazer hoje? - perguntou Rony a Harry e Hermione, quando saam do salo depois do caf.
        -        Ainda no fomos visitar o Hagrid - lembrou Harry.
        -        OK, desde que ele no nos pea para doar uns dedos aos explosivins.
        Uma expresso de grande excitao surgiu de repente no rosto
        de Hermione.
       - Acabei de me tocar, ainda no pedi ao Hagrid para se alistar
no F.A.L.E.! - disse ela animada. - Me esperem aqui enquanto dou
        uma corrida l em cima para apanhar os distintivos.
#210
        - Qual  a dela? - exclamou Rony, exasperado, quando Hermione saiu correndo escada acima.
        -        Ei, Rony - disse Harry de repente. -  a sua amiga...
        Os alunos de Beauxbatons entravam no castelo, vindo dos jardins, entre eles a garota veela. O pessoal aglomerado  volta do clice se afastou para deix-los 
passar, observando-os ansiosos.
        Madame Maxime entrou atrs dos alunos e organizou-os em fila. Um a um eles atravessaram a linha etria e depositaram seus pedaos de pergaminho nas chamas 
branco-azuladas. A cada nome inscrito o fogo se avermelhava e faiscava por um breve instante.
        -        Que  que voc acha que acontece com os que no so escolhidos? - murmurou Rony para Harry, quando a garota
veela deixou cair seu pedao de pergaminho
no Clice de Fogo. - Voc acha que voltam para a escola ou ficam por aqui para assistir ao torneio?
        -        No sei - disse Harry. - Ficam por aqui, suponho... Madame Maxime vai ficar para julgar, no ?
Depois que os alunos de Beauxbatons se inscreveram, Madame
Maxime levou-os de volta aos jardins.
        -        Onde  que eles esto dormindo, ento? - perguntou Rony chegando at as portas de entrada e acompanhando-os com o
olhar.
Um rudo de chocalho s costas dos dois anunciou a reapario
de Hermione com a caixa de distintivos do F.A.L.E.
        -        Ah, bom, vamos logo - disse Rony e desceu aos saltos os degraus de pedra, mantendo os olhos fixos na garota veela, que a
essa altura j estava no meio do jardim com a diretora.
        Ao se aproximarem da cabana de Hagrid na orla da Floresta Proibida, o mistrio do dormitrio dos alunos de Beauxbatons se esclareceu. A enorme carruagem
azul-clara em que haviam chegado fora estacionada a menos de duzentos metros da porta da cabana de Hagrid, e eles estavam embarcando nela. Os cavalos elefnticos
que puxavam a carruagem pastavam agora em um picadeiro improvisado montado a um lado.
        Harry bateu na porta de Hagrid e os latidos retumbantes de
Canino responderam imediatamente.
- At que enfim! - saudou-os Hagrid, quando abriu a porta e
viu quem batia. - Achei que vocs tinham esquecido onde eu
morava!
#211
        -        Estivemos realmente ocupados, Hag... - Hermione comeou a dizer, mas parou de chofre, encarando Hagrid, aparentemente
sem saber o que dizer.
        Hagrid estava usando seu melhor (e horroroso) terno de tecido marrom peludo, com uma gravata amarela e laranja. Mas isto no era o pior; ele evidentemente 
tentara domesticar os cabelos, usando uma grande quantidade de um produto que parecia graxa
para eixo de rodas. Estavam agora alisados em dois molhos - talvez ele
tivesse tentado fazer um rabo-de-cavalo como o de Gui, mas descobrira que tinha cabelo demais. O penteado realmente no combinava nadinha com Hagrid. Por um instante,
Hermione mirou-o de olhos arregalados, depois, obviamente decidindo no fazer comentrios disse:
-        Hum, onde esto os explosivins?
-        L fora no canteiro de abboras - respondeu Hagrid alegre.
-        Esto ficando uns biches, quase um metro de comprimento agora. O nico problema  que comearam a se matar uns aos outros.
        - Ah, no, srio? - exclamou Hermione, lanando um olhar de censura a Rony, que olhava sem disfarar o penteado esquisito de
Hagrid, e acabara de abrir a boca para dizer alguma coisa.
        -         - disse Hagrid com tristeza. - Mas tudo bem, eles agora esto em caixas separadas. Ainda sobraram uns vinte.
        -        Isso  que foi sorte! - disse Rony. Mas Hagrid no percebeu a ironia.
        A cabana de Hagrid tinha um nico cmodo, e a um canto havia uma cama gigantesca coberta com uma colcha de retalhos. Uma mesa igualmente enorme com cadeiras
ficava diante da lareira, sob uma quantidade de presuntos curados, e aves mortas que pendiam do teto. Os garotos se sentaram  mesa enquanto Hagrid preparava o ch
e logo se deixaram absorver por mais uma discusso sobre o Torneio Tribruxo. Hagrid parecia to excitado com o assunto quanto eles.
        -        Aguardem - disse ele, sorrindo. - Aguardem s. Vocs vo ver uma coisa que nunca viram antes. A primeira tarefa... ah, mas
eu no posso contar.
        - Vamos, Hagrid! - insistiram Harry, Rony e Hermione, mas
ele apenas sacudiu a cabea, rindo.
        -        No quero estragar a surpresa. Mas vai ser espetacular, isso eu
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posso dizer. Os campees vo ter tarefas escolhidas sob medida. Nunca pensei que ia viver para ver organizarem novamente um Torneio Tribruxo!
        Os garotos acabaram almoando com Hagrid, embora no comessem muito - ele disse que preparara um picadnho de carne, mas quando Hermione encontrou uma garra
no dela, os trs perderam um pouco o apetite. Mas se divertiram tentando fazer Hagrid contar as tarefas que haveria no torneio, especulando quais dos inscritos seriam
provavelmente escolhidos para campees, e imaginando se Fred e Jorge j teriam perdido as barbas.
        Uma chuva leve comeara a cair l pelo meio da tarde; foi muito gostoso sentarem ao p da lareira e escutar as gotas de chuva tamborilando de leve na janela, 
vendo Hagrid cerzir suas meias enquanto discutia com Hermione sobre os elfos domsticos - porque ele se recusou terminantemente a entrar para o
F.A.L.E. quando a
garota lhe mostrou os distintivos.
        -        Seria fazer a eles uma maldade, Hermione - disse srio enquanto trabalhava com uma enorme agulha de osso enfiada com uma linha de cerzir amarela. 
- Faz parte da natureza deles cuidar dos seres humanos,  disso que eles gostam, entende? Voc os faria infelizes se tirasse o trabalho deles e os insultaria se 
tentasse lhes pagar um salrio.
        - Mas Harry libertou o Dobby e ele foi  lua de tanta felicidade! - disse Hermione. - E ouvimos dizer que ele est exigindo salrio agora!
        - Tudo bem, tem aberraes em toda espcie da natureza. No estou dizendo que no haja elfo esquisito que aceite a liberdade, mas voc jamais convenceria
a maioria deles a concordar com isso, nao, nada feito, Hermione.
        Hermione pareceu ficar realmente contrariada e guardou a caixa de distintivos no bolso da capa.
        L pelas cinco horas comeou a escurecer, e Rony, Harry e
Hermione decidiram que j era hora de voltar ao castelo para a
festa do Dia das Bruxas - e, o que era mais importante, para o
anncio de quem seriam os campees das escolas.
        - Vou com vocs - disse Hagrid, deixando o cerzido de lado. - 
Me dem um segundo.
        Ele se levantou, foi at a cmoda ao lado da cama e comeou a
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procurar alguma coisa nas gavetas. Os garotos no prestaram muita ateno, at que um fedor realmente horrvel chegou s suas narinas.
        Tossindo, Rony perguntou:
        -        Hagrid, que  isso?
        -        Eh? - exclamou Hagrid, virando-se com um enorme frasco na mao. - Voc no gostou?
        -        Isso  loo de barba? - perguntou Hermione, com um tom de voz levemente chocado.
        -        Hum... eau-de-Cologne - murmurou Hagrid. Ele ficou vermelho. - Talvez seja um pouco demais - disse meio impaciente. - Vou tirar, esperem a...
Ele saiu desajeitado da cabana e os garotos o viram lavar-se
vigorosamente no barril de gua do lado da janela.
-        Eau-de-Cologne? - repetiu Hermione surpresa. - Hagrid?
        -        E qual  a explicao para os cabelos e o terno dele? - perguntou Harry em voz baixa.
        -        Olhem l! - exclamou Rony de repente, apontando para fora da janela.
        Hagrid acabara de se aprumar e se virara. Se ficara vermelho antes, no era nada comparvel ao que estava acontecendo agora. Levantando-se muito cautelosamente, 
para que Hagrid no os visse, Harry, Rony e Hermione espiaram pela janela e viram que Madame Maxime e os alunos de Beauxbatons tinham acabado de sair da carruagem, 
obviamente para irem  festa tambm. Os garoros no conseguiam ouvir, mas Hagrid estava falando com a diretora com os olhos embaados e uma expresso de arrebatamento, 
que Harry s notara nele uma nica vez - quando admirava o filhote de drago Norberto.
        - Ele est indo com ela para o castelo! - disse Hermione indignada. - Pensei que ele estava nos esperando!
        Sem lanar sequer um olhar  cabana, Hagrid foi subindo pelo gramado com Madame Maxime, e os alunos de Beauxbatons seguiam em sua cola, quase correndo para 
acompanhar os passos enormes dos dois.
        -        Ele est cado por ela! - comentou Rony incrdulo. - Bom, se eles tiverem filhos, vo marcar um recorde mundial, aposto
como um beb deles iria pesar uma tonelada.
        Os trs saram da cabana sozinhos e fecharam a porta ao passar. Estava surpreendentemente escuro do lado de fora. Puxando as
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capas para mais junto do corpo, eles subiram pelos gramados da propriedade.
        - Ah, so eles. Olhem l! - sussurrou Hermione.
        A delegao de Durmsrrang seguia do lago para o castelo. Vitor Krum caminhava ao lado de Karkaroff e os outros os acompanhavam em pequenos grupos. Rony observou
Krum excitado, mas o jogador nem olhou para os lados ao alcanar as portas do castelo um pouco  frente de Hermione, Rony e Harry, andando sempre reto.
        Quando os trs amigos entraram, o salo iluminado por velas estava quase cheio. O Clice de Fogo fora mudado de lugar; agora se encontrava diante da cadeira 
vazia de Dumbledore,  mesa dos professores. Fred e Jorge - novamente de cara lisa - pareciam ter aceitado o desapontamento muito bem.
        - Espero que seja Angelina - disse Fred, quando Harry, Rony e Hermione se sentaram.
        - Eu tambm! - disse Hermione sem flego. - Bom, vamos saber daqui a pouco!
        A festa das bruxas pareceu durar muito mais do que habitualmente. Talvez porque fosse o segundo banquete em dois dias, Harry no pareceu interessado na comida 
preparada com extravagncia tanto quanto das outras vezes. Como todas as pessoas no salo, a julgar pelas constantes espichadas de pescoos, as expresses impacientes 
nos rostos, o desassossego de todos que se levantavam para ver se Dumbledore j acabara de comer, Harry simplesmente queria que os pratos fossem retirados e os nomes 
dos campees anunciados.
        Depois de muito tempo, os pratos voltaram ao estado de limpeza inicial; houve um aumento acentuado no volume dos rudos no salo, que caiu quase instantaneamente 
quando Dumbledore se ergueu. A cada lado dele, o Prof. Karkaroff e Madame Maxime pareciam to tensos e ansiosos quanto os demais. Ludo Bagman sorria e piscava para 
vrios alunos. O Sr. Crouch, porm, parecia bastante desinteressado, quase entediado.
        - Bom, o Clice de Fogo est quase pronto para decidir - disse Dumbledore. - Estimo que s precise de mais um minuto. Agora, quando os nomes dos campees 
forem chamados, eu pediria que
eles viessem at este lado do salo, passassem diante da mesa dos 
 professores e entrassem na cmara ao lado - ele indicou a porta
atrs da mesa -, onde recebero as primeiras instrues.
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        Ele puxou, ento, a varinha e fez um gesto amplo; na mesma hora todas as velas, exceto as que estavam dentro das abboras recortadas, se apagaram, mergulhando
o salo na penumbra. O Clice de Fogo agora brilhava com mais intensidade do que qualquer outra coisa ali, a brancura azulada das chamas que faiscavam vivamente
quase fazia os olhos doerem. Todos observavam  espera... alguns consultavam os relgios a todo momento...
        -        A qualquer segundo agora - sussurrou Lino Jordan, a dois lugares de distncia de Harry.
        As chamas dentro do Clice de repente tornaram a se avermelhar. Comearam a soltar fascas. No momento seguinte, uma lngua de fogo se ergueu no ar, e expeliu 
um pedao de pergaminho chamuscado - o salo inteiro prendeu a respirao.
        Dumbledore apanhou o pergaminho e segurou-o  distncia
do brao, de modo a poder l-lo  luz das chamas, que voltaram a
ficar branco-azuladas.
        -        O campeo de Durmstrang - leu ele em alto e bom som - ser Vtor Krum.
        -        Grande surpresa! - berrou Rony, ao mesmo tempo que uma tempestade de aplausos e vivas percorreu o salo. Harry viu Vtor Krum se levantar da mesa 
da Sonserina e se encaminhar com as costas curvas para Dumbledore; ele virou  direita, passou diante da mesa dos professores e desapareceu pela porta que levava 
 cmara vizinha.
        -        Bravo, Vtor! - disse Karkaroff com a voz to retumbante que todos puderam ouvi-lo apesar dos aplausos. - Eu sabia que
voc era capaz!
        Os aplausos e comentrios morreram. Agora todas as atenes tornaram a se concentrar no Clice de Fogo, que, segundos depois, tornou a se avermelhar. Um
segundo pedao de pergaminho voou de dentro dele, lanado pelas chamas.
-        O campeo de Beauxbarons  Fleur Delacour!
        -        , ela, Rony! - gritou Harry, quando a garota que parecia uma veela levantou-se graciosamente, sacudiu a cascata de cabelos louro-prateados para
trs e caminhou impetuosamente entre as mesas da Corvinal e da Lufa-Lufa.
- Ah, olha l, eles esto desapontados - disse Hermione sobrepondo sua voz ao barulho e indicando com a cabea o resto da
delegao de Beauxbatons. "Desapontados" era dizer pouco, pensou
#216
Harry. Duas das garotas que no tinham sido escolhidas debulhavam-se em lgrimas e soluavam, com as cabeas deitadas nos braos.
        Quando Fleur Delacour tambm desapareceu na cmara vizinha, todos tornaram a fazer silncio, mas desta vez foi um silncio to pesado de excitao que quase
dava para sentir seu gosto. O campeo de Hogwarts  o prximo...
        E o Clice de Fogo ficou mais uma vez vermelho; jorraram
fascas dele; a lngua de fogo ergueu-se muito alto no ar e de sua
ponta Dumbledore tirou o terceiro pedao de pergaminho.
        -        O campeo de Hogwarts - anunciou ele -  Cedrico Diggory!
        -        No! - exclamou Rony em voz alta, mas ningum o ouviu exceto Harry; a zoeira na mesa vizinha era grande demais. Cada um dos alunos da Lufa-Lufa 
ficou de p, gritando e sapateando, quando Cedrico passou por eles, um enorme sorriso no rosto, e se encaminhou para a cmara atrs da mesa dos professores. Na verdade, 
os aplausos para Cedrico foram to longos que passou algum tempo at que Dumbledore pudesse se fazer ouvir novamente.
        -        Excelente! - exclamou Dumbledore feliz, quando finalmente o tumulto serenou. - Muito bem, agora temos os nossos trs campees. Estou certo de que 
posso contar com todos, inclusive com os demais alunos de Beauxbatons e Durmsrrang, para oferecer aos nossos campees todo o apoio que puderem.
torcendo pelo seus campees, vocs contribuiro de maneira muito real...
        Mas Dumbledore parou inesperadamente de falar, e tornou-se
bvio para todos o que o distraira.
        O        fogo no clice acabara de se avermelhar outra vez. Expeliu faiscas. Uma longa chama elevou-se subitamente no ar e ergueu
mais um pedao de pergaminho.
        Com um gesto aparentemente automtico, Dumbledore estendeu a mo e apanhou o pergaminho. Ergueu-o e seus olhos se arregalaram para o nome que viu escrito.
Houve uma longa pausa, durante a qual o bruxo mirou o pergaminho em suas mos e todos no salo fixaram o olhar em Dumbledore. Ele pigarreou e leu...
-        Harry Potter!
#217


*****


- CAPITULO DEZESSETE -
Os quatro campees


Harry ficou sentado ali, consciente de que cada cabea no Salo Principal se virara para ele. Sentia-se atordoado. Entorpecido. Sem dvida estava sonhando. No ouvira
direito.
        No houve aplausos. Um zunido, como o de abelhas enraivecidas, comeou a encher o salo; alguns estudantes ficaram em p para ter uma viso melhor de Harry,
sentado ali, imvel, em sua cadeira.
        Na mesa principal, a Profa Minerva se levantara e passara por Ludo Bagman e pelo Prof. Karkaroff para cochichar urgentemente com o Prof. Dumbledore, que
inclinara a cabea para ela, franzindo ligeiramente a testa.
        Harry se virou para Rony e Hermione; mais alm, viu toda a
longa mesa da Grifinria observando-o, boquiaberta.
        - Eu no inscrevi meu nome - disse Harry sem saber o que dizer. - Vocs sabem que no.
        Os dois apenas olharam para ele tambm, sem saber o que responder.
        Na mesa principal, o Prof. Dumbledore se aprumou, acenando a cabea afirmativamente para a Profa Minerva.
        - Harry Potter! - tornou ele a chamar. - Harry! Aqui, se me faz o favor!
        - Anda - murmurou Hermione, dando um leve empurro em Harry.
        O garoto ficou de p, pisou na barra das vestes e tropeou brevemente. Saiu pelo espao entre as mesas da Grifinria e da Lufa-
        Lufa. Teve a impresso de estar fazendo uma longussima caminhada; a mesa principal parecia no chegar mais perto e ele sentia
cen        tenas de olhos fixos nele, como se cada um fosse um refletor. O
        zunzum no parava de crescer. Depois do que lhe pareceu uma
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hora, o garoto chegou diante de Dumbledore, sentindo fixos nele os olhares dos professores.
        - Bom... pela porta - disse Dumbledore. O diretor no sorria.
        Harry passou pela mesa dos professores. Hagrid estava sentado bem no fim. Mas no piscou para Harry, nem acenou nem fez qualquer dos sinais habituais para
cumpriment-lo. Parecia inteiramente perplexo e olhou para Harry quando este passou, como os demais, O garoto passou pela porta e se viu em um aposento menor, com
as paredes cobertas de retratos a leo de bruxas e bruxos. Um belo fogo rugia na lareira em frente.
        Os rostos nos retratos se viraram para olh-lo quando ele entrou. Surpreendeu uma bruxa encarquilhada passando rapidamente da moldura do prprio retrato 
para a moldura vizinha, que enquadrava um bruxo de bigodes de morsa. A bruxa encarquilhada comeou a cochichar no ouvido do colega.
        Vtor Krum, Cedrico Diggorye Fleur Delacour estavam reunidos em torno da lareira. Pareciam estranhamente imponentes, recortados contra as chamas. Krum, curvado 
e pensativo, apoiava-se no console da lareira, ligeiramente afastado dos outros. Cedrico estava parado com as mos s costas, contemplando o fogo. Fleur Delacour
virou a cabea quando Harry entrou e jogou para trs a cascata de cabelos longos e
prateados.
        - Que foi? - perguntou ela. - Querrem que a jante volte ao salon?
        Pensava que ele viera trazer um recado. Harry no sabia como
explicar o que acabara de acontecer. Ficou ali parado, olhando para
os trs campees. Percebeu de repente como eram altos.
        Houve um rudo de passos apressados atrs de Harry, e Ludo
Bagman entrou na sala. Segurou o garoto pelo brao e levou-o at
os outros.
        - Extraordinrio! - murmurou, apertando o brao de Harry. - Absolutamente extraordinrio! Senhores... senhora - acrescentou, aproximando-se da lareira e
falando aos outros trs. - Gostaria de lhes apresentar, por mais incrvel que possa parecer, o quarto campeo do Torneio Tribruxo.
        Vtor Krum se empertigou. Seu rosto carrancudo nublou-se ao 
examinar Harry. Cedrico fez cara de estupefao. Olhou de
Bagman para Harry e de volta como se tivesse certeza de que oUvira
#219
 mal o que o bruxo acabara de dizer. Fleur Delacour, porm, sacudiu os cabelos, sorriu e disse:
        -        Que grrande piada, Senhorr Bagman.
        -        Piada? - repetiu Bagman, confuso. - No, no, no  no! O nome de Harry acaba de sair do Clice de Fogo!
        As grossas sobrancelhas de Krum se contraram ligeiramente.
Cedrico continuou a parecer educadamente surpreso.
        Fleur franziu a testa.
        -        Mas evidaman houve um engano - disse a Bagman com desdm. - Ele non pode competirr.
 jovem demais.
        -        Bom...  surpreendente - concordou Bagman, esfregando o queixo liso e sorrindo para Harry. - Mas, como sabem, o limite de idade s foi imposto este
ano como medida suplementar de precauo. E como o nome dele saiu do Clice de Fogo... quero dizer, acho que a essa altura no podemos fugir  responsabilidade...
somos obrigados... Harry ter que se esforar o mximo que...
        A porta s costas deles se abriu e um grande grupo de pessoas entrou: o Prof. Dumbledore, seguido de perto pelo Sr. Crouch, o Prof. Karkaroff, Madame Maxime,
a Profa McGonagall e o Prof. Snape. Harry ouviu o zunzum de centenas de estudantes do outro lado da parede, antes da Profa McGonagall fechar a porta.
        -        Madame Maxime! - chamou Fleur na mesma hora, indo ao encontro de sua diretora. - Eston dizando que esse garrotinho vai
competirr tamb!
        Sob o seu atordoamento e incredulidade, Harry sentiu uma
crispao de raiva. Garrotinho?
        Madame Maxime se empertigara at o limite de sua considervel altura. O cocuruto da bela cabea roou o lustre repleto de
velas, e seu imenso peito coberto de cetim negro se estufou.
        -        Que significa isso, Dumbly-dorr? - perguntou imperiosamente.
        -        Eu tambm gostaria de saber, Dumbledore - disse o Prof. Karkaroff. Em seu rosto havia um sorriso inflexvel e seus olhos azuis eram duas lascas
de gelo. - Dois campees de Hogwarts? No me lembro de ningum ter me dito que a escola que sediasse o torneio poderia ter dois campees, ou ser que no li o regulamento
#220
com a devida ateno?
        Ele deu um sorrisinho maldoso.
        -        Impamposvel - exclamou Madame Maxime, cujas enormes
mos com numerosas e soberbas opalas descansavam no ombro de Fleur. - Ogwarts no pode terr dois campeons. Serria muito injusto.
        -        Tivemos a impresso de que a sua linha etria deixaria de fora os competidores mais jovens, Dumbledore - disse Karkaroff, o sorriso inflexvel ainda
no rosto, embora seus olhos estivessem mais frios que nunca. - Do contrrio, teramos, naturalmente, trazido uma seleo de candidatos mais ampla de nossas escolas.
        -        No  culpa de ningum, exceto de Potter, Karkaroff- falou Snape suavemente. Seus olhos negros brilharam de malcia. - No saia culpando Dumbledore
pela determinao de Potter de desobedecer s regras. Ele no tem feito nada exceto transgredir limites desde que chegou aqui...
        -        Muito obrigado, Severo - disse Dumbledore com firmeza, e Snape se calou, embora seus olhos continuassem a brilhar maldosamente por trs da cortina
de cabelos negros e oleosos.
        O        Prof. Dumbledore olhou ento para Harry, que o encarou, tentando perceber a expresso dos olhos do diretor por trs dos
oclinhos de meia-lua.
        -        Voc depositou seu nome no Clice de Fogo, Harry? - perguntou Dumbledore calmamente.
        -        No - respondeu Harry. Estava consciente de que todos o olhavam com ateno. Nas sombras, Snape fez um barulhinho impaciente de descrena.
        -        Voc pediu a um estudante mais velho para deposit-lo no Clice de Fogo para voc? - tornou o diretor, sem dar ateno a
Snape.
-        No-disse Harry com veemncia.
 - Ah, mas  clarro que ele est mentindo - exclamou Madame
axime. Snape agora sacudia a cabea, a boca crispada.
        -        Ele no poderia ter atravessado a linha etria - interps a Profa Minerva energicamente. - Tenho certeza de que todos concordamos nisso...
        -        Dumbly-dorr deve terr se enganado ao traarr a linha - concluiu Madame Maxime, encolhendo os ombros.
        -         claro que isto  possvel - respondeu Dumbledore polidamente.
        -        Dumbledore, voc sabe muito bem que no se enganou! -
 exclamou a Profa Minerva, aborrecida. - Francamente, que tolice!
Harry no poderia ter cruzado a linha pessoalmente, e como o
#221
Prof. Dumbledore acredita que ele no convenceu um colega mais velho a fazer isso por ele, decerto isto deveria bastar para todos ns!
        Ela lanou um olhar muito zangado ao Prof. Snape.
        -        Sr. Crouch... Sr. Bagman - comeou Karkaroff, a voz mais uma vez untuosa -, os senhores so os nossos... hum... juizes objetivos. Certamente os
senhores concordaro que isto  extremamente irregular?
        Bagman enxugou o rosto redondo e infantil com o leno e olhou para o Sr. Crouch, que estava parado fora do crculo das chamas da lareira, o rosto semi-oculto
pelas sombras. Parecia um pouco sobrenatural, a obscuridade fazia-o parecer muito mais velho, emprestando-lhe quase uma aparncia de caveira. Quando falou, porm, 
foi em seu tom habitualmente seco.
        -        Devemos obedecer ao regulamento e o regulamento diz claramente que as pessoas cujos nomes sarem do Clice de Fogo
devem competir no torneio.
        -        Bom, Bart conhece os regulamentos de trs para diante - disse Bagman, sorrindo, e se voltou para Karkaroff e Madame
Maxime como se o assunto estivesse definitivamente encerrado.
        -        Eu insisto em tornar a submeter os nomes do restante dos
meus alunos - disse Karkaroff. Ele agora deixara de lado seu tom
untuoso e o sorriso. Seu rosto tinha uma expresso realmente feia.
- Vocs prepararo novamente o Clice de Fogo e continuaremos
a depositar nomes at cada escola ter dois campees. Seria o justo,
Dumbledore.
        -        Mas Karkaroff, a coisa no funciona assim - comentou Bagman. - O Clice de Fogo se apagou, e no voltar a arder at o
nicio do prximo torneio...
        -        ... no qual Durmstrang, psom toda a certeza, no ir competir!
- explodiu Karkaroff - Depois de tantas reunies e negociaes e tantos compromissos, eu no esperava que acontecesse uma coisa desta natureza! Tenho at vontade
de me retirar agora mesmo!
        -        Uma ameaa intil, Karkaroff- rosnou uma voz prxima  porta. - Voc no pode abandonar o seu campeo agora. Ele tem que competir. Todos tm que 
competir. Um ato contratual mgico, conforme disse Dumbledore. Conveniente, no  mesmo?
        Moody acabara de entrar na sala. Encaminhou-se, mancando,
at a lareira, e a cada passo que dava, ouvia-se uma batidinha.
        -        Conveniente? - perguntou Karkaroff. - Receio no estar entendendo, Moody.
#222
        Harry percebeu que o bruxo tentava parecer desdenhoso, como se no valesse a pena dar ateno ao que Moody dissera, mas
suas mos o traam; tinham se fechado em punhos.
        - No mesmo? - perguntou Moody em voz alta. -  muito simples Karkaroff. Algum depositou o nome de Harry naquele clice sabendo que o garoto teria que competir
se sasse o seu nome.
        - Evidaman algm que querria oferrecer a Ogwarts duas oporrtunidades de vancerr! - comentou Madame Maxime.
        -        Eu concordo, Madame Maxime - disse Karkaroff, com uma reverncia. - Vou reclamar com o Ministrio da Magia e a Confederao Internacional dos Bruxos...
        -        Se algum tem razo para reclamar  o Potter - rosnou Moody -, mas... o que  engraado... no estou ouvindo ele dizer
uma nica palavra...
        -        Por que ele irria reclamar? - disse Fleur Delacour de repente, batendo o p. - Ele tam a chance de competirr, no ? Durrante semanas vivemos a
esperrana de serr escolhidos! A honrra de nossas escolas! Mil galees de prrmio,  uma chance pela qual muita jante morrerria!
        -        Talvez algum tenha esperana de que Harry morra - disse Moody, com um leve vestgio de rosnado na voz.
Seguiu-se um silncio extremamente tenso s suas palavras.
Ludo Bagman, que parecia de fato muito ansioso, balanou-se
nervoso e disse:
        -        Moody, meu caro... que coisa para voc dizer!
        -        Todos sabemos que o Prof. Moody. considera a manh perdida se no descobrir seis conspiraes para assassin-lo antes do almoo - disse Karkaroff
em voz alta. - Pelo visto, agora est ensinando a seus alunos o medo de serem assassinados, tambm. Uma estranha qualidade para um professor de Defesa Contra as
Artes das Trevas, Dumbledore, mas com toda a certeza voc tem suas razes.
        -        Ser que estou imaginando coisas? Vendo cbisas? - rosnou Moody. - Foi um bruxo ou uma bruxa habilitada que ps o nome
do garoto naquele clice...
        -        Ah, que prrova h disso? - exclamou Madame Maxime,
        erguendo as enormes mos.
        -        Porque enganou um objeto mgico de grande poder! - disse Moody. - 
Seria preciso um Feitio para Confundir excepcionalmente
#223
forte para mistificar aquele clice a ponto de faz-lo esquecer que apenas trs escolas competem no torneio... Estou imaginando que algum tenha inscrito Potter
em uma quarta escola, para garantir que ele fosse o nico de sua categoria...
        -        Voc parece ter pensado muito no assunto - disse Karkaroff com frieza -, e no deixa de ser uma teoria criativa, embora,
 claro, eu tenha ouvido
dizer que recentemente voc meteu na cabea que um dos seus presentes de aniversrio continha um ovo de basilisco ardilosamente disfarado e o fez em pedaos antes
de se dar conta de que era um relgio de trem. Ento voc compreender se no o levarmos inteiramente a serio...
        -        H pessoas que usam ocasies inocentes em proveito
prprio
-        retrucou Moody num tom ameaador. - o meu trabalho  pensar como os bruxos das trevas pensariam, Karkaroff, como voc deve se lembrar...
        -        Alastor! - exclamou Dumbledore em tom de aviso. Harry se perguntou por um momento com quem ele estaria falando, mas logo percebeu que "Olho-Tonto"
no poderia ser o verdadeiro nome de Moody. Este se calou, embora ainda observasse Karkarofi com satisfao, o rosto de Karkaroff estava em brasa.
        -        Como foi que essa situao surgiu, no sabemos - disse Dumbledore dirigindo-se s pessoas reunidas na sala. - Parece-me, no entanto, que no temos
alternativa alguma seno aceit-la. Os dois, Cedrico e Harry, foram escolhidos para competir no torneio. E, portanto,  o que faro...
        -        Ah, mas Dumbly-dorr...
        -        Minha cara Madame Maxime, se a senhora tiver uma alternativa, ficarei encantado em ouvi-la.
        Dumbledore aguardou, mas Madame Maxime no disse nada, apenas o fitou de cara amarrada. E no foi a nica, tampouco. Snape parecia furioso, Karkaroff, lvido.
Bagman, porm, parecia bastante excitado.
        -        Bom, vamos agilizar isso, ento? disse, esfregando as mos e sorrindo para os presentes. - Temos que dar nossas instrues aos
campees, no  mesmo? Bart, quer fazer as honras da casa?
        O        Sr. Crouch pareceu despertar de um profundo devaneio.
         - concordou -, instrues. E... a primeira tarefa...
                Encaminhou-se, ento, para a claridade das chamas. De perto,
#224
Harry achou que ele parecia estar passando mal. Havia sombras
escuras sob seus olhos e sua pele enrugada tinha uma aparncia frgil que lembrava papel, traos que no estavam ali durante a Copa Mundial de Quadribol.
        -        A primeira tarefa destina-se a testar o arrojo dos campees - disse ele a Harry, Cedrico, Fleur e Krum -, por isso no vamos lhes dizer qual .
A coragem diante do desconhecido  uma qualidade importante em um bruxo... muito importante...
        "A primeira tarefa ter lugar, em vinte e quatro de novembro,
perante os demais estudantes e a banca de juizes.
        " proibido aos campees pedirem aos seus professores, ou aceitarem deles, ajuda de qualquer tipo para realizar as tarefas do torneio. Os campees enfrentaro
o primeiro desafio armados apenas de varinhas. Recebero informaes sobre a segunda tarefa quando a primeira estiver concluda. Por fora da natureza rdua e demorada
do torneio, os campees esto dispensados dos exames do fim do ano letivo."
        O        Sr. Grouch virou-se para encarar Dumbledore.
        -        Acho que  s isso, no , Alvo?
        -        Acho que sim - respondeu Dumbledore, que observava o Sr. Crouch com uma leve preocupao. - Voc tem certeza de que no
quer pernoitar em Hogwarts, Bart?
        -        No, Dumbledore, preciso voltar ao Ministrio. Estamos passando um momento muito movimentado e muito difcil... Deixei o jovem Weatherby responsvel
pelo departamento... muito entusiasmado... um pouquinho demais, para dizer a verdade...
        -        Voc vai pelo menos tomar um drinque antes de partir? - convidou Dumbledore.
        -        Vamos, Bart, eu vou ficar! - disse Bagman animado. - As coisas esto acontecendo em Hogwarts agora, sabe, est muito
mais excitante aqui do que no escritrio!
        -        Acho que no, Ludo - respondeu Crouch, com um toque de sua antiga impacincia.
        -        Prof. Karkaroff, Madame Maxime, um ltimo drinque antes de nos recolhermos? - perguntou Dumbledore.
        Mas Madame Maxime j passara um brao pelos ombros de Fleur e a conduzia rapidamente para fora da sala. Harry ouviu as
duas conversarem muito depressa em francs, ao atravessarem o 
  Salo Principal. Karkaroff fez sinal para Krum e eles, tambm, agitados, saram em silencio.
#225
        -        Harry, Cedrico, sugiro que vocs vo se deitar - disse Dumbledore, sorrindo para os dois. - Tenho certeza de que Grifinria e
Lufa-Lufa esto aguardando
vocs para comemorar e seria uma pena privar seus colegas desta excelente desculpa para fazerem muito barulho e confuso.
        Harry olhou para Cedrico, que concordou com a cabea, e
juntos saram da sala.
        O        Salo Principal agora estava deserto; as velas j estavam pequenas, dando aos sorrisos serrilhados das abboras um ar misterioso e bruxuleante.
        -        Ento - disse Cedrico com um sorrisinho. - Vamos jogar um contra o outro novamente!
        -        Acho que sim - respondeu Harry. Na realidade ele no conseguiu pensar no que dizer. Dentro de sua cabea parecia haver
uma desordem total, como se o seu crebro tivesse sido saqueado.
        -        Ento... me conta... - disse Cedrico, quando chegaram ao saguo de entrada, que estava agora iluminado por archotes, na ausncia do Clice de Fogo.
- No duro, como foi que voc conseguiu inscrever seu nome?
        -        No inscrevi - disse Harry erguendo os olhos para o colega.
- No pus o meu nome l. Falei a verdade.
        -        Ah... r - respondeu Cedrico. Harry percebeu que Cedrico no acreditara nele. - Bom... a gente se v, ento!
        Em vez de subir a escadaria de mrmore, Cedrico rumou para
a porta  direita. Harry ficou parado escutando-o descer os degraus
de pedra, depois, lentamente, comeou a subir os de mrmore.
        Ser que mais algum alm de Rony e Hermione acreditaria nele ou iriam todos pensar que se inscrevera no torneio? Contudo, como  que algum podia pensar 
uma coisa dessas, quando ele ia enfrentar competidores que tinham mais trs anos de educao mgica - quando ia enfrentar tarefas que no somente pareciam perigosas, 
mas que deveriam ser executadas diante de centenas de pessoas? E, ele pensara nisso... devaneara sobre isso... mas fora brincadeirinha, verdade, uma espcie de sonho 
descomprometido... jamais considerara seriamente se inscrever, verdade...
        Mas algum considerara isso... algum quisera v-lo no

torneio, e tomara providncias para tanto. Por qu? Para lhe fazer
um gosto? Tinha a impresso que no...
#226
        Para v-lo fazer papel de bobo? Bom, provavelmente ia ter o seu desejo satisfeito...
        Mas, para v-lo morto? Moody estaria agindo com a sua parania habitual? Algum no poderia ter posto o nome de Harry no Clice de Fogo de brincadeira, para
pregar uma pea? Ser que algum queria realmente v-lo morto?
        Essa pergunta Harry pde responder na hora. Sim, algum queria v-lo
morto, algum queria v-lo morto desde que tinha um ano de idade... Lord Voldemort. 
Mas como  que o bruxo conseguira providenciar para que o nome de Harry fosse posto no Clice de Fogo? Estava supostamente muito longe, em algum pas distante, escondido, 
sozinho... fraco e impotente...
No entanto naquele sonho que tivera, pouco antes de acordar
com a cicatriz doendo, Voldemorr no estava sozinho... estava
falando com Rabicho... conspirando para matar Harry...
        Harry levou um choque ao se descobrir j diante da Mulher Gorda. Mal reparara aonde seus ps o levavam. Foi tambm uma surpresa ver que ela no estava sozinha 
na moldura. A bruxa encarquilhada, que passara para o quadro vizinho quando ele fora se reunir aos campees na sala embaixo, agora estava sentada, toda cheia de 
si, ao lado da Mulher Gorda. Devia ter corrido pelos forros de todos os quadros de setes escadas para chegar ali antes dele. As duas, ela e a Mulher Gorda, o miravam
com o maior interesse.
        -        Ora muito bem - disse a Mulher Gorda -, Violeta acaba de me contar tudo. Ento quem foi afinal o escolhido para campeo
da escola?
        -        Asnice - disse Harry sem emoo.
        -        Certamente que no ! - protestou a bruxa plida, indignada.
        -        No, no, Vi,  a senha - explicou a Mulher Gorda para acalm-la, e rodou nas dobradias para deixar Harry entrar na sala
comunal.
        O        estardalhao que feriu os ouvidos de Harry quando o retra- to girou quase o derrubou de costas. A prxima coisa de que teve conscincia foi que
estava sendo arrastado para dentro da sala por uns doze pares de mos, diante dos alunos da Grifinria em peso, que gritavam, aplaudiam e assobiavam.
        -        Devia ter nos avisado de que tinha se inscrito! - berrou Fred;
#227
 parecia meio aborrecido e meio impressionado.
        -        Como foi que voc fez isso, sem ficar barbudo? Genial - rugiu Jorge.
        -        No fiz - disse Harry. - No sei como foi que...
        Mas Angelina agora se atirava em cima dele.
        -        Ah, se no pde ser eu, pelo menos foi algum da Grifinria...
        -        Voc vai poder dar o troco ao Diggory por aquela ltima partida de quadribol, Harry! - gritou a voz fina de Katie BelI, outra
artilheira da Grifinria.
        -        Temos comida, Harry, venha comer alguma coisa...
        -        No estou com fome, comi bastante no banquete...
        Mas ningum quis ouvir falar de sua falrade apetite; ningum quis saber que ele no pusera o nome no Clice de Fogo; ningum parecia ter notado que ele no
estava com a menor disposio de comemorar... Lino Jordan desencavara uma bandeira da Grifinria em algum lugar, e insistia em enrol-la em Harry como uma capa.
Harry no conseguiu fugir; sempre que tentava escapulir at a escada dos dormitrios, os colegas  sua volta cerravam fileiras e o foravam a aceitar mais uma cerveja 
amanteigada, metendo salgadinhos e amendoins nas mos dele... todos queriam saber como  que ele fizera aquilo, como ludibriara a linha etria de Dumbledore e conseguira 
depositar o nome no Clice de Fogo...
        -        No fui eu - repetia ele sem parar -, no sei como foi que aconteceu.
        Mas pela pouca ateno que os colegas lhe davam, os protestos
do garoto no faziam a menor diferena.
        -        Estou cansado! - berrou ele finalmente depois de quase meia hora. - No,  srio, Jorge, vou me deitar...
        A coisa que ele mais queria era encontrar Rony e Hermione para buscar um pouco de sanidade, mas nenhum dos dois parecia estar na sala comunal. Insistindo 
que precisava dormir, e quase achatando os irmozinhos Creevey quando tentaram desvi-lo ao p da escada, Harry conseguiu se livrar de todo mundo e subiu para o 
dormitrio o mais depressa que pde.
        Para seu grande alvio, encontrou Rony, ainda vestido, deitado
na cama de um dormitrio em que no havia mais ningum. Ele
 ergueu os olhos quando Harry entrou batendo a porta.
        -        Por onde voc andou? - perguntou Harry.
        -        Ah, ol - respondeu Rony.
#228
        Sorria, mas parecia um sorriso muito estranho e tenso. Harry, de repente, se deu conta de que ainda vestia a bandeira vermelha da Grifinria que Lino amarrara
nele. Apressou-se em despi-la, mas o n estava muito apertado. Rony continuou deitado na cama sem se mexer, apreciando os esforos de Harry para retirar a bandeira.
        -        Ento - disse ele, quando Harry finalmente conseguiu remover e atirar a bandeira a um canto. - Meus parabns.
        -        Que  que voc quer dizer com parabns? - perguntou Harry encarando-o. Decididamente havia alguma coisa esquisita no jeito
com que Rony sorria; parecia mais um esgar.
        -        Bom... ningum mais conseguiu atravessar a linha etria. Nem mesmo Fred e Jorge. Que foi que voc usou, a Capa da Invisibilidade?
        -        A Capa da Invisibilidade no teria me ajudado a atravessar aquela linha - disse Harry
lentamente.
        -        Ah, certo. Achei que voc teria me contado se fosse a capa... porque ela poderia cobrir ns dois, no  mesmo? Mas voc encontrou outro jeito, no
foi?
        -        Escuta aqui. Eu no depositei meu nome naquele clice. Deve ter sido outra pessoa.
        Rony ergueu as sobrancelhas.
        -        Por que algum faria uma coisa dessas?
        -        No sei. - Harry achou que seria muito melodramtico dizer para me
matar.
        Rony ergueu as sobrancelhas to alto que elas correram o risco
de desaparecer sob seus cabelos.
        -        Tudo bem, a mim voc pode contar a verdade. Se voc no quer que o resto do pessoal saiba, timo, mas no sei por que est se dando ao trabalho
de mentir, voc nem ficou mal por isso, no ? A amiga da Mulher Gorda, a tal da Violeta, j contou a todo mundo que Dumbledore vai deixar voc competir. Mil galees
de prmio, hein? E nem vai precisar prestar os exames de fim de ano...
        -        Eu no pus o meu nome naquele clice! - disse Harry comeando a se aborrecer.
        -        Ah, t bem - retorquiu Rony com o mesmssimo tom ctico de Cedrico. - S que ainda hoje de manh voc disse que teria
posto  noite passada sem que ningum o visse... eu no sou burro,
sabe?
        -        Pois est parecendo - disse Harry com rispidez.
#229
        - Ah, ? - respondeu Rony, mas agora no havia nenhum vestgio de sorriso em seu rosto amarelo ou de qualquer cor. - Voo est querendo se deitar, Harry,
imagino que vai precisar se levantar cedo amanh para a sesso de fotografias ou seja l o que for.
        E fechou com fora as cortinas em torno de sua cama de colunas, deixando Harry parado ali  porta, encarando as cortinas de veludo vinho, que agora escondiam
uma das poucas pessoas que ele contara que fosse acreditar nele.
#230


******


-        CAPTULO DEZOITO -
 A pesagem das varinhas


Quando Harry acordou no domingo de manh, levou algum tempo para se lembrar da razo pela qual se sentia to infeliz e preocupado. Ento, a lembrana da noite anterior
o engolfou. Ele se sentou e afastou as cortinas da cama, com a inteno de falar com Rony, forar Rony a acreditar nele - mas encontrou a cama do amigo vazia; obviamente
j fora tomar o caf da manh.
        Harry se vestiu e desceu a escada circular para a sala comunal. No instante em que apareceu, os colegas que j haviam terminado o caf, mais uma vez, prorromperam
em aplausos. A perspectiva de chegar no Salo Principal e encarar o restante dos colegas da Grifinria, todos tratando-o como uma espcie de heri, no era nada 
convidativa; mas era isso ou ficar ali encurralado pelos irmos Creevey, que lhe acenavam freneticamente para que fosse se juntar a eles. Assim, dirigiu-se resolutamente 
ao buraco do retrato, abriu-o, passou por ele e deu de cara com Hermione.
        -        Ol - exclamou ela, estendendo uma pilha de torradas que carregava em um guardanapo. - Trouxe para voc... quer dar uma
        volta?
        -        Boa idia - respondeu Harry agradecido.
        Os dois desceram, atravessaram depressa o saguo, sem olhar para o Salo Principal, e pouco depois estavam caminhando pelos jardins em direo ao lago, onde 
o navio de Durmstrang, ancorado, se refletia escuramente na gua. Fazia uma manh fria e os dois amigos no pararam de andar, comendo as torradas, enquanto Harry 
contava a Hermione exatamente o que acontecera depois que deixara a mesa da Grifinria, na noite anterior. Para seu imenso alvio, Hermione aceitou sua histria 
sem duvidar.
        -        Bem,  claro que eu sabia que voc no tinha se inscrito -
disse a garota quando ele terminou de contar a cena na cmara vizinha ao
Salo Principal.
- A cara que voc fez quando Dum bledore
#231
o        chamou! Mas a pergunta , quem inscreveu voc? Porque, Moody tem razo, Harry... acho que nenhum estudante teria sido capaz de fazer isso... nunca teria
sido capaz de enganar o Clice de Fogo nem de anular o feitio de Dumbledore...
- Voc viu o Rony? - interrompeu-a Harry.
        Hermione hesitou.
-        Hum... vi... estava tomando caf.
        -        Ele ainda acha que eu me inscrevi?
        -        Bem... no, acho que no... no para valer - disse ela sem jeito.
        -        Que  que voc est querendo dizer com esse no para
valer?
        -        Ah, Harry, no est na cara? - respondeu Hermione desesperada. - Ele est com cimes!
        -        Com cimes?- repetiu o garoto sem acreditar. - Com cimes de qu? Ser que ele quer fazer papel de babaca na frente da escola
inteira?
        -        Olha - disse Hermione pacientemente -,  sempre voc que recebe todas as atenes, voc sabe que . Sei que no  sua culpa - acrescentou ela depressa,
vendo Harry abrir a boca, indignado. - Sei que voc no quer isso... mas, bem... sabe, Rony tem todos aqueles irmos competindo com ele em casa, e voc  o melhor
amigo dele e  realmente famoso, Rony  sempre deixado de lado quando as pessoas vem voc, e ele agenta isso sem reclamar, mas acho que mais essa vezinha foi demais...
        -        timo - disse Harry com amargura. - Realmente timo.
Diga a ele que troco de lugar quando ele quiser. Diga a ele que o
meu lugar est s ordens... gente olhando de boca aberta para a
minha cicatriz para todo lado que vou...
        -        No vou dizer nada a ele - falou Hermione com rispidez. - Diga voc mesmo,  o nico jeito de resolver isso.
        -        No vou correr atrs dele para fazer ele crescer! - disse Harry, to alto que vrias corujas pousadas em uma rvore prxima levantaram vo assustadas. 
- Talvez ele acredite que no estou me divertindo quando me partirem o pescoo ou...
        -        Isso no tem graa - disse Hermione baixinho. - No tem a menor graa. - Ela parecia extremamente ansiosa. - Harry, estive
 pensando... voc sabe o que precisamos fazer, no sabe? Depressa,
assim que voltarmos ao castelo?
        -        Sei, tacar no Rony um bom chute na b...
#232
        -        Escrever a Sirius. Voc tem que contar a ele o que aconteceu. Ele pediu para voc o manter informado de tudo que estivesse acontecendo em Hogwarts...
 quase como se ele esperasse que uma coisa dessas fosse acontecer. Trouxe pergaminho e uma pena comigo...
        -        Corta essa! - exclamou Harry, olhando  volta para verificar se havia algum ouvindo; mas os jardins estavam muito desertos. - Ele voltou ao pas 
s porque a minha cicatriz doeu. Provavelmente invadiria o castelo furioso se eu contasse que algum me inscreveu no Torneio Tribruxo...
        -        Sirius iria gostar que voc contasse a ele - disse Hermione com severidade. - Ele vai descobrir de qualquer jeito...
-Como?
        -        Harry isso no vai poder ser abafado - disse ela seriamente. -
 Esse torneio  famoso e voc  famoso. Eu ficaria realmente surpresa se j no tiver
sado alguma coisa no Profeta Dirio sobre a sua entrada no torneio... voc j aparece em metade dos livros que tratam do Voc-Sabe-Quem, sabia. e Sirius iria preferir 
saber por voc, eu sei que sim.
        -        OK, OK, vou escrever - disse Harry atirando o ltimo pedao de 
torrada no lago. Os dois ficaram parados observando o po flutuar por um instante,
antes de um grande tentculo emergir e engoli-lo por baixo. Depois disso retornaram ao castelo.
        -        Vou usar a coruja de quem? - perguntou Harry, quando subiam as escadas. - Ele me disse para no usar Edwiges outra vez.
        -        Pergunte ao Rony se voc pode pedir emprestada...
        -        No vou pedir nada ao Rony - disse o garoto decidido.
- Bom, ento pea uma das corujas da escola, qualquer pessoa
pode pedir - disse Hermione.
        Os dois subiram at o corujal. Hermione deu a Harry um pedao de pergaminho, uma pena e um tinteiro, depois saiu percorrendo as longas filas de poleiros,
examinando as diferentes corujas, enquanto Harry se sentava encostado  parede e escrevia a carta.

Caro Sirius,
Voc me disse para mant-lo informado do que est acontecendo em 
Hogwarts, ento aqui vai: no sei se voc j sabe, mas vo
realizar um Torneio Tribruxo este ano e, na noite de sbado, fui
#233
escolhido para ser o quarto campeo. No sei quem ps o meu nome no Clice de
Fogo, mas no fui eu. O outro campeo de Hogwarts  Cedrico Diggory da Lufa-Lufa.

Ele parou nesse ponto, pensativo. Teve vontade de dizer alguma coisa sobre a imensa carga de ansiedade que parecia ter se instalado em seu peito desde a noite anterior,
mas no conseguiu descobrir como traduzir isso em palavras. Ento, ele simplesmente molhou mais uma vez a pena no tinteiro e escreveu:

Espero que voc esteja OK, e Bicuo tambm.
Harry

- Terminei - disse ele a Hermine, levantando-se e sacudindo a palha das vestes. Ao fazer isso, Edwiges veio voando para o seu ombro e estendeu a perna.
        - No posso usar voc - disse Harry a ela, correndo o olhar pelas corujas da escola ao redor. - Tenho que usar uma dessas...
        Edwiges soltou um pio muito alto e levantou vo to inesperadamente que suas garras cortaram o ombro do garoto. E ficou de costas para Harry enquanto ele
tentava prender a carta a uma grande coruja-de-igreja. Depois que a coruja partiu, Harry estendeu a mo para acariciar Edwiges, mas ela estalou o bico, furiosa,
e voou para os caibros do telhado fora do seu alcance.
        - Primeiro Rony, e agora voc - disse Harry aborrecido. - No  minha culpa.

Se Harry pensou que as coisas iam melhorar uma vez que se acostumasse  idia de ser campeo, o dia seguinte lhe provou que estava enganado. Ele no poderia evitar
o resto da escola quando voltasse s aulas - e era visvel que o resto da escola, tal como seus colegas da Grifinria, achava que Harry se inscrevera para o torneio.
Ao contrrio dos garotos de sua Casa, porm, os outros no pareciam estar bem impressionados.
        Os da Lufa-Lufa, que normalmente conviviam em excelentes
termos com os alunos da Grifinria, tinham se tornado bastante
frios. Uma aula de Herbologia foi suficiente para demonstrar isso.
        Ficou claro que os alunos da Lufa-Lufa achavam que Harry roubara a glria do seu campeo; um sentimento talvez exagerado pelo
fato de que a Lufa-Lufa raramente conquistava alguma glria, e
#234
Cedrico era um dos poucos que lhe dera alguma, tendo uma vez derrotado a Grifinria no quadribol. Ernesto MacMilLan e Justino
Finch-Fletchley, com quem Harry habitualmente se dava to bem, no falaram com ele, embora os trs estivessem reenvasando bulbos
saltadores na mesma caixa - embora tivessem rido de modo bem desagradvel quando um dos bulbos saltadores escapuliu da mo de Harry e bateu com fora no rosto do 
garoto. Tampouco Rony estava falando com Harry. Hermione se sentou entre os dois, procurando a custo manter uma conversa, e embora os dois lhe respondessem normalmente,
evitavam se olhar. Harry achou que ate a Profa Sprout parecia estar distante com ele - mas, afinal, ela era a diretora da Lufa-Lufa.
        Em circunstncias normais, o garoto teria ficado ansioso para ver Hagrid, mas a aula de Trato das Criaturas Mgicas significava tambm rever os alunos da 
Sonserina a primeira vez que estaria cara a cara com eles desde que se trnara campeo.
        Previsivelmente, Malfoy chegou  cabana de Hagrid com o conhecido sorriso desdenhoso atarraxado no rosto.
        -        Ah, olha s, pessoal,  o campeo - disse ele a Crabbe e a Goyle no instante em que se aproximou de Harry o bastante para ser ouvido. Trouxeram 
os cadernos de autgrafos?  melhor pedir um agora porque duvido que a gente v v-lo por muito tempo... metade dos campees do Torneio Tribruxo morreram... quanto 
tempo voc acha que vai durar, Potter? Aposto que s os primeiros dez minutos da primeira tarefa.
        Crabbe e Goyle deram risadas para agrad-lo, mas Malfoy teve que parar por a, porque Hagrid surgiu dos fundos da cabana, segurando uma torre instvel de 
caixas, cada uma contendo um enorme explosivim. Para horror da turma, Hagrid comeou a explicar que a razo pela qual os bichos tinham andado se matando era o excesso 
de energia acumulada, e que a soluo era cada aluno pr uma coleira em um bicho e lev-lo para passear um pouco. A nica vantagem desse
plano foi distrair MaLfoy 
completamente.
        -        Levar essa coisa para passear um pouco? - repetiu ele enojado, olhando para dentro de uma das caixas. - E onde exatamente
voc quer que a gente amarre a coleira? No ferro, no rabo explosivo desse treco?
        -        No meio - respondeu Hagrid, fazendo uma demonstrao. -
#235
Hum... , vocs talvez queiram calar as luvas de couro de drago, assim como uma precauo a mais. Harry, vem at aqui me ajudar com esse grandalho...
        A verdadeira inteno de Hagrid, no entanto, era falar com
Harry longe do restante da turma.
        Ele esperou at todos terem se afastado com os explosivins,
depois se virou para o garoto e disse, muito srio:
        -        Ento... voc vai competir, Harry. No torneio. Campeo da escola.
        -        Um dos campees - corrigiu-o Harry.
        Os olhos de Hagrid, negros como besouros, pareciam muito
ansiosos sob as sobrancelhas desgrenhadas.
        -        No faz idia de quem o meteu nessa fria, Harry?.
        -        Voc acredita ento que no fui eu que me inscrevi? - perguntou Harry, escondendo com esforo o arroubo de gratido que
sentiu ao ouvir as palavras de Hagrid.
        -        Claro que acredito - resmungou Hagrid. - Voc diz que no foi voc e eu acredito em voc, e Dumbledore acredita em voc e
tudo.
        -        Eu bem gostaria de saber quem foi - disse o garoto com amargura.
        Os dois olharam para os jardins; a turma agora andava espalhada por l, toda ela em grande apuro. Os explosivins tinham alcanado uns noventa centmetros 
de comprimento e se tornado extremamente fortes. J no eram sem casca e descolorados, tinham desenvolvido uma espcie de escudo acinzentado grosso e reluzente. 
Pareciam uma cruza de enormes escorpies com caranguejos alongados - mas ainda no possuam cabeas ou olhos reconhecveis. Tinham-se tornado imensamente fortes 
e difceis de controlar.
        -        Parece que eles esto se divertindo, no acha? - comentou Hagrid alegremente. Harry presumiu que ele estivesse se referindo aos explosivins, porque 
seus colegas certamente no estavam; de vez em quando, com um alarmante estampido, a cauda de um deles explodia, fazendo-o saltar vrios metros  frente e mais de 
um aluno estava sendo arrastado de bruos enquanto tentava desesperadamente se levantar.
- Ah, eu no sei, Harry - suspirou Hagrid de repente, voltando a encar-lo, com uma expresso preocupada no rosto. - Campeo da escola... parece que tudo acontece
com voc, no ?
               O garoto no respondeu. , parecia que tudo acontecia com
ele... era mais ou menos o que Hermione dissera quando andavam pela margem do lago, e essa era a razo, segundo ela, pela qual Rony deixara de falar com ele.
#236
Os dias que se seguiram foram alguns dos piores que Harry passara em Hogwarrs. O mais prximo que ele chegara desse sentimento fora durante aqueles meses, no segundo
ano, em que grande parte da escola suspeitara que era ele que atacava os colegas. Mas, ento, Rony ficara do seu lado. Harry achava que poderia suportar a atitude 
do resto da escola se ao menos pudesse ter Rony outra vez como amigo, mas no ia tentar persuadi-lo a voltarem a se falar se ele no queria. Contudo, estava solitrio 
com tanta animosidade ao redor dele.
        Harry podia entender a atitude do pessoal da Lufa-Lufa, mesmo que no lhe agradasse; tinham um campeo prprio para apoiar. No esperara menos do que agresses 
verbais dos alunos da Sonserina - era muito impopular entre eles e sempre o fora, pois ajudara a Grifinria a derrot-los muitas vezes, tanto no quadribol quanto 
no Campeonato Intercasas. Mas alimentara a esperana de que os colegas da Corvinal tivessem a bondade de apoi-lo tanto quanto a Cedrico. Mas se enganara. A maioria 
dos alunos daquela Casa parecia pensar que estivera desesperado para conquistar um pouco mais de fama fazendo o Clice de Fogo aceitar seu nome.
        Depois, havia ainda o fato de Cedrico se enquadrar muito melhor no papel de campeo do que ele. Excepcionalmente bonito, nariz reto, cabelos escuros e olhos 
cinzentos, era difcil dizer quem era o alvo de maior admirao ultimamente, se Cedrico ou Vitor Krum. Harry chegou a presenciar as mesmas garotas do sexto ano que 
se empenharam tanto para obter um autgrafo de Krum, suplicando a Cedrico para assinar suas mochilas na hora do almoo.
        Entrementes no havia resposta de Sirius, Edwiges se recusava a se aproximar dele, a Profa Sibila Trelawney andava predizendo sua morte com uma certeza ainda 
maior do que de costume, e ele estava se saindo to mal nos Feitios Convocatrios na aula do Prof. Flitwick que recebera dever de casa suplementar - a nica pessoa 
a receber,  exceo de Neville.
-        Na realidade no  to difcil assim - Hermione tentou
#237
tranquliz-lo quando saam da sala de Flitwick, a garota fizera os objetos dispararem pela sala em sua direo a aula inteira, como se ela fosse uma espcie de
m extico para espanadores, cestas de papel e lunascpios. - Voc simplesmente no se concentrou como devia...
        -        E por que teria sido isso? - perguntou Harry sombriamente, quando Cedrico Diggory passou por eles, cercado por um grande grupo de garotas que sorriam 
debilmente e olharam para Harry como se ele fosse um explosivim parricularmente grande. - Mesmo assim, deixa para l, no ? Dois tempos de Poes  espera da gente 
hoje  tarde...
        A aula de Poes sempre fora uma experincia terrvel, mas ultimamente chegava quase a ser uma tortura. Ficar trancado em uma masmorra durante uma hora e 
meia com Snape e os alunos da Sonserina, todos decididos a castigar Harry o mximo por se atrever a ser campeo da escola, era a coisa mais desagradvel que ele 
poderia imaginar. J aturara uma sexta-feira, com Hermione sentada ao seu lado, entoando entre dentes "No ligue, no ligue, no ligue", e ele no conseguia ver 
por que esta seria melhor.
        Quando ele e a amiga chegaram  porta da masmorra de Snape depois do almoo, encontraram os alunos da Sonserina esperando  porta, cada um deles usando um 
distintivo no peito. Por um instante delirante, Harry pensou que fossem distintivos do F.A.L.E. - mas logo viu que todos continham a mesma mensagem em letras vermelhas 
luminosas, que brilhavam vivamente no corredor subterrneo mal iluminado.

Apie CEDRICO DIGGORY
o        VERDADEIRO campeo de Hogwarts.

- Gostou, Potter? - perguntou Malfoy em voz alta, quando Harry se aproximou. - E isso no  s o que eles fazem, olha s!
        E apertou o distintivo contra o peito, a mensagem desapareceu
e foi substituida por outra, que emitia uma luz verde:

POTTER FEDE

Os alunos da Sonserina rolaram de rir. Cada um deles apertou o
 distintivo tambm, at que a mensagem POTTER PEDE estivesse
brilhando vivamente a toda volta do garoto. Ele sentiu uma onda
de calor subir pelo pescoo e o rosto.
#238
        - Ah, engraadssimo - disse Hermione com sarcasmo a Pansy Parkinson e sua turma de garotas da Sonserina, que riam mais gostosamente do que quaisquer
outros.
-,  realmente engraadissimo.
        Rony estava parado encostado  parede com Dino e Simas. Ele
no estava rindo, mas tampouco defendia Harry.
        - Quer um, Granger? - perguntou Malfoy, oferecendo um distintivo a Hermione. - Tenho um monte. Mas no toque na minha mo agora, acabei de lav-la, sabe,
e no quero que uma sangue ruim a suje.
        Uma parte da raiva que Harry vinha sentindo havia dias pareceu romper um dique em seu peito. Ele apanhou a varinha antes que conseguisse pensar no que estava
fazendo. As pessoas em volta se afastaram correndo, recuaram pelo corredor.
        - Harry! - gritou Hermione em tom de aviso.
        - Anda, Potter, usa - disse Malfoy em voz baixa, puxando a prpria varinha. - Moody no est aqui para proteger voc agora,
usa, se tiver peito...
        Por uma frao de segundos, eles se encararam nos olhos,
depois, exatamente ao mesmo tempo, os dois agiram.
-        Furnunculus!- berrou Harry.
        - Densaugeo! - berrou Malfoy.
        Feixes de luz saram de cada varinha, colidiram em pleno ar e ricochetearam em ngulo - o de Harry atingiu Goyle no rosto e, o de Malfoy, Hermione. Goyle
berrou e levou as mos ao nariz, de onde comearam a brotar furnculos enormes e feios - a garota, chorando de dor, apertou a boca.
        - Mione! - Rony correu para ela para ver o que acontecera.
        Harry se virou e viu Rony tirando a mo de Hermione do rosto. No era uma viso agradvel. Os dentes da frente da garota
-        que j eram maiores do que o normal - cresciam agora a um ritmo assustador; a cada minuto a garota se parecia mais com um castor, pois seus dentes se alongavam,
ultrapassavam o lbio inferior em direo ao queixo - tomada de pnico, ela os apalpou e soltou um grito aterrorizado.
        - E que barulheira  essa? - perguntou uma voz suave e letal. Snape chegara.
        Os alunos da Sonserina gritavam tentando dar explicaes.
Snape apontou um dedo longo e amarelado para Malfoy e disse:
- Explique.
#239
-        Potter me atacou, professor...
-        Atacamos um ao outro ao mesmo tempo! - gritou Harry.
-        ... e ele atingiu Goyle, olhe...
        Snape contemplou Goyle, cujo rosto agora lembrava a ilustrao de um livro domstico sobre cogumelos venenosos.
-        Ala hospitalar, Goyle disse o professor calmamente.
                  - Malfoy atingiu Hermione! - disse Rony. - Olhe!
                   O garoto obrigou Hermione a mostrar os dentes a Snape - ela
                se esforava ao mxiximo para escond-los com as mos, embora isso
                fosse difcil, porque agora tinham ultrapassado o seu
decote. Pansy
                Parkinson e as outras garotas da Sonserina se dobravam de rir em
                silncio, apontando para Hermione pelas costas de Snape.
                   Snape olhou friamente para Hermione e disse:
                  - No vejo diferena alguma.
                   Hermione deixou escapar um lamento, seus olhos se encheram
                de lgrimas, ela deu meia-volta e correu, correu pelo corredor afora
                e desapareceu.
                   Foi uma sorte, talvez, que Harry e Rony tenham comeado a
                gritar com Snape ao mesmo tempo; sorte que suas vozes tenham
                ecoado to forte no corredor de pedra, porque, na confuso de
                sons, ficou impossvel o professor ouvir exatamente os nomes de
                que o xingaram. Mas ele captou o sentido.
                  - Vejamos - disse, na voz mais suave do mundo. - CinqUenta
                pontos a menos para a Grifinria e uma deteno para cada um,
                Potter e Weasley. Agora, entrem ou ser uma semana de detenes.
                   Os ouvidos de Harry zumbiram. A injustia daquilo o fez desejar
amaldioar Snape, desintegr-lo em mil pedacinhos nojentos.
                Ele passou pelo professor e se dirigiu com Rony para o fundo da
                masmorra, largando com fora a mochila sobre a carteira. Rony
                tremia de raiva, tambm - por um instante, pareceu que tudo
voltara ao normal entre os dois, mas, em vez disso, Rony se virou e se
                sentou entre Dino e Simas, deixando Harry sozinho na
carteira.
                Do lado oposto da masmorra, Malfoy deu as costas para Snape e
                comprimiu o distintivo, rindo-se, O POTTER PEDE lampejou
                mais uma vez pela sala.
Harry se sentou e ficou encarando Snape quando a aula comeou, visualizando coisas horrveis acontecendo ao professor... se ao
                menos ele soubesse executar uma Maldio Cruciatus... atiraria
Snape no cho, de costas, como aquela aranha, contorcendo-se e
estrebuchando.
        -  Antdotos! - disse Snape, abrangendo a turma toda com o
olhar, seus olhos negros e frios, brilhando de forma desagradvel. - Vocs j tiveram tempo de pesquisar suas frmulas. Quero que as preparem cuidadosamente e depois
vamos escolher algum em quem experimentar...
        Os olhos de Snape encontraram os de Harry e o garoto percebeu o que vinha a caminho. O professor ia envenen-lo. Harry se imaginou agarrando o caldeiro,
correndo at a frente da turma e tacando o caldeiro na cabea oleosa de Snape...
        Ento uma batida na porta da masmorra invadiu os pensamentos de Harry.
        Era Colin Creevey; o garoto entrou discretamente na sala, sorrindo para Harry, e dirigiu-se  escrivaninha de Snape diante da
turma.
        -        Que foi? - perguntou Snape com rispidez.
        -        Por favor, professor, me mandaram levar Harry Potter l em cima.
        Do alto do seu nariz de gancho, Snape baixou os olhos para
Colin, cujo sorriso desapareceu do seu rosto pressuroso.
        -        Potter tem mais uma hora de Poes para completar - disse Snape friamente. - Subir quando a aula terminar.
Colin corou.
        -        Professor, o Sr. Bagman  quem est chamando - disse nervoso. - Todos os campees tm que ir, acho que querem tirar
fotos...
        Harry teria dado tudo que possuia para impedir Colin de dizer
aquelas ltimas palavras. Arriscou um relanceio para Rony, mas o
amigo contemplava o teto decidido.
        -        Muito bem, muito bem - retorquiu Snape. - Potter deixe o seu material, quero que volte aqui depois para testar o seu antdoto.
        -        Por favor, professor, ele tem que levar o material - disse Colin com uma vozinha esganiada. - Todos os campees...
        -        Muito bem! - disse Snape. - Potter, apanhe sua mochila e desaparea da minha frente!
        Harry atirou a mochila por cima do ombro, se levantou e se encaminhou para a
porta. Ao passar pelas carteiras dos alunos da Sonserina, o POTTER FEDE lampejou para ele de todas as direes.
#241
        -         fantstico, no , Harry? - disse Colin, comeando a falar no instante em que Harry fechou a porta da masmorra depois de
passarem. - Mas no ? Voc ser campeo?
        -        , realmente fantstico - disse Harry, desalentado, quando comearam a subir a escada para o saguo de entrada. - Para que 
que eles querem fotos, Colin?
- O Profeta Dirio, acho!
        -        timo - disse Harry, sem emoo. - exatamente do que estou precisando. Mais publicidade.
        -        Boa sorte! - disse Colin, quando chegaram  sala certa. Harry bateu na porta e entrou.
        Era uma sala de aula relativamente pequena; a maior parte das carteiras fora afastada para o fundo do aposento, deixando um amplo espao no meio; trs delas,
no entanto, tinham sido enfileiradas lado a lado, diante do quadro-negro e cobertas com uma toalha de veludo. Cinco cadeiras tinham sido arrumadas atrs das mesas
cobertas de veludo e Ludo Bagman estava sentado em uma delas conversando com uma bruxa que Harry nunca vira antes e que usava vestes carmim.
        Vtor Krum estava em p, pensativo, a um canto, como de costume, sem falar com ningum. Cedrico e Fleur estavam entretidos conversando, a garota parecia
muito mais feliz do que Harry a vira at ento; no parava de jogar a cabea para trs de modo que os cabelos longos e prateados refletiam a luz. Um homem barrigudo,
segurando uma grande mquina fotogrfica que soltava uma leve fumaa, observava Fleur pelo canto do olho.
        Bagman de repente viu Harry, levantou-se depressa e foi ao
encontro do garoto.
        -        Ah, aqui est ele. O campeo nmero quatro! Entre Harry, entre... no tem com o que se preocupar,  apenas a cerimnia de
pesagem das varinhas, os outros juizes esto chegando...
        -        Pesagem das varinhas? - repetiu Harry, nervoso.
        -        Temos que verificar se as varinhas esto em perfeitas condies de funcionamento, sem problemas, entende, porque so os
instrumentos mais importantes nas tarefas que vocs tm pela frente - disse Bagman. - O perito est l em cima com Dumbledore,
agora. E depois vai haver uma pequena sesso de fotos. Esta  Rita
Skeeter - acrescentou, indicando com um gesto a bruxa de vestes
#242
carmim -, est escrevendo um pequeno artigo sobre o torneio para o Profeta Dirio...
        -        Talvez no seja to pequeno assim, Ludo - disse ela, com os olhos em Harry.
        Os cabelos da reprter estavam arrumados em cachos caprichosos e curiosamente rgidos que contrastavam estranhamente com seu rosto de queixo volumoso. Ela
usava culos com aros de pedrinhas. Os dedos grossos que seguravam uma bolsa de couro de crocodilo terminavam em unhas de cinco centmetros de comprimento, pintadas
de escarlate.
        -        Gostaria de saber se poderia dar uma palavrinha com Harry antes de comearmos? - pediu ela a Bagman, mas ainda com os olhos fixos em Harry. - O
campeo mais novo, entende... para dar um toque pitoresco?
        -        Certamente! - exclamou Bagman. - Isto , se Harry no fizer objeo?
        -        Hum... - disse Harry.
        -        Beleza - respondeu Rita Skeeter e, num segundo, seus dedos com garras vermelhas tinham segurado com surpreendente firmeza o brao do garoto, conduziam-no 
para fora da sala e abriam uma porta prxima.
"No queremos ficar l dentro com todo aquele barulho", disse
ela. "Vejamos... ah, sim, aqui est bom e aconchegante."
Era um armrio de vassouras. Harry arregalou os olhos para a
bruxa.
        -        Vamos querido, certo, timo - repetiu outra vez, encarapitou-se precariamente sobre um balde virado de boca para baixo, fez Harry sentar-se em uma 
caixa de papelo e fechou a porta, mergulhando-os na escurido. - Vejamos agora...
Rita abriu a bolsa de crocodilo e tirou um punhado de velas,
que acendeu com um aceno da varinha, e colocou-as suspensas no
ar, de modo a iluminar o que faziam.
        -        Voc no se importa, Harry, se eu usar uma pena-derepetio-rpida? Assim fico livre para conversar com voc normalmente...
        -        Uma o qu? - perguntou Harry.
        O        sorriso de Rita se abriu. Harry contou trs dentes de ouro.
Mais uma vez ela meteu a mo na bolsa e tirou uma pena comprida verde-cido e um
rolo de pergaminho, que abriu entre os dois
#243
em cima de uma caixa de Removedor Mgico Multiuso da Sra. Skower. Ela levou a ponta da pena verde  boca, chupou-a por um instante com cara de quem estava gostando,
depois colocou-a em p sobre o pergaminho, onde a pena ficou equilibrada tremendo ligeiramente.
- Teste... meu nome  Rita Skeeter, reprter do Profeta Dirio. Harry olhou depressa para a pena. No momento em que Rita
falara, ela comeou a escrever, deslizando sobre o pergaminho.

A atraente Rita Skeeter, 43 anos, cuja pena infrene j esvaziou
muitas reputaes infladas...

- Beleza - disse Rita Skeeter, mais uma vez, e rasgou a parte escrita do pergaminho, amassou-a e meteu-a na bolsa. Inclinou-se ento para Harry e disse:
"Ento, Harry... o que fez voc decidir entrar no Torneio
Tribruxo?"
        -        Hum... - disse Harry outra vez, mas foi distrado pela pena. Embora no estivesse falando, ela continuava a correr pelo pergaminho e seguindo-a 
o garoto pde ler uma nova frase:

Uma feia cicatriz, lembrana de um passado trgico, desfigura o
rosto, de outra forma encantador, de Harry Potter, cujos olhos...

- No d ateno  pena, Harry - disse Rita Skeeter com firmeza. Relutante, Harry ergueu os olhos para ela. - Agora, por que decidiu entrar para o torneio, Harry?
        -        Eu no entrei - disse Harry. - No sei como foi que o meu nome foi parar no Clice de Fogo. Eu no o pus l.
        A reprter ergueu a sobrancelha fortemente delineada.
        -        Ora, Harry, no precisa ter medo de entrar numa fria. Todos sabemos que voc no deveria ter se inscrito. Mas no se preocupe
com isso. Os nossos leitores adoram rebeldias.
- Mas eu no me inscrevi - repetiu Harry. - No sei quem...
        - Como  que voc se sente com relao s tarefas que o aguardam? - perguntou Rita Skeeter. - Excitado? Nervoso?
        -        Ainda no pensei realmente... , nervoso, suponho - disse Harry. Ao falar suas entranhas reviraram desconfortavelmente.
        - Houve campees que morreram no passado, no ? - disse
Rita com eficincia. - Voc chegou a pensar nisso?
        - Bom... dizem que vai ser muito mais seguro este ano.
        #244
        A pena correu veloz pelo pergaminho entre os dois, para a frente e para trs, como se estivesse patinando.
        -        Naturalmente, voc j viu a morte cara a cara antes, no ? - perguntou ela, observando-o atentamente. - Como voc diria que
isso o afetou?
        -        Hum - disse Harry uma terceira vez.
        -        Voc acha que o trauma do passado o deixou desejoso de se pr  prova? De fazer jus ao seu nome? Voc acha que talvez tenha
se sentido tentado a se inscrever no Torneio Tribruxo porque...
        -        Eu no me inscrevi - disse Harry, comeando a se sentir irritado.
        -        Voc tem alguma lembrana dos seus pais? - perguntou Rita Skeeter, abafando a resposta do garoto.
-No.
        -        Como voc acha que eles se sentiriam se soubessem que voc ia competir no Torneio Tribruxo? Orgulhosos? Preocupados? Zangados?
        Harry estava se sentindo realmente aborrecido agora. Como  que ele ia saber o que seus pais estariam sentindo se fossem vivos? Percebeu que a jornalista
o observava muito atentamente. De cara amarrada, ele evitou seu olhar e baixou os olhos para as palavras que a pena acabara de escrever.

As lgrimas marejaram aqueles olhos espantosamente verdes quando
a nossa conversa se voltou para os pais de quem ele mal se lembra.

        Eu NO estou com lgrimas nos olhos! - disse Harry em voz
alta.
        Antes que Rita Skeeter pudesse dizer uma palavra, a porta do armrio de vassouras se escancarou. Harry olhou  volta, piscando para a claridade. Alvo Dumbledore
estava parado ali, contemplando os dois apertados no armrio.
        -        Dumbledore!- exclamou Rita Skeeter, parecendo encantada, mas Harry reparou que a pena e o pergaminho tinham repentinamente desaparecido da caixa
de Removedor Mgico e os dedos da jornalista com garras nas pontas fechavam apressadamente a bolsa de crocodilo. - Como vai? - disse ela, erguendo-se e estendendo
uma das mos grandes e masculinas a Dumbledore. - Espero que
 tenha visto o meu artigo durante o vero sobre a conferncia da
Confederao Internacional dos Bruxos?
#245
        -        Encantadoramente maldoso - respondeu o diretor com os olhos cintilantes. - Gostei principalmente da descrio que fez de
mim como um debilide ultrapassado.
        A reprter no pareceu sequer remotamente desconcertada.
        -        Eu s estava tentando mostrar que algumas de suas idias so um tanto antiquadas, Dumbledore, e que muitos bruxos nas ruas...
        -        Ficarei encantado de ouvir o raciocnio que fundamentou a grosseria, Rita - disse Dumbledore, com uma reverncia corts e um sorriso -, mas receio 
que tenhamos de discutir esse assunto mais tarde. A pesagem das varinhas vai comear e no pode ser realizada se um dos campees estiver escondido em um armrio 
de vassouras.
        Satisfeitssimo de se afastar de Rita Skeeter, Harry correu de volta  sala. Os outros campees estavam agora nas cadeiras junto  porta, e ele se sentou 
depressa ao lado de Cedrico, com os olhos na mesa coberta de veludo, onde agora havia quatro dos cinco juizes - o Prof. Karkaroff, Madame Maxime, o Sr. Crouch e 
Ludo Bagman. Rita Skeeter se acomodou a um canto; Harry a viu tirar discretamente o pergaminho da bolsa, abri-lo sobre um joelho, chupar a ponta da pena-de-repetio-rpida 
e equilibr-la mais uma vez sobre o pergaminho.
        -        Gostaria de lhes apresentar o Sr. Olivaras - disse Dumbledore, ocupando seu lugar  mesa dos juizes, e se dirigindo aos campees. - Ele vai verificar 
suas varinhas para garantir que estejam em boas condies antes do torneio.
        Harry olhou para os lados e, com um choque de surpresa, viu um velho bruxo com grandes olhos azul-claros parado discretamente  janela. Harry j encontrara 
o Sr. Olivaras antes - era o fabricante de quem Harry comprara a prpria varinha, havia mais de trs anos no Beco Diagonal.
        -        Mademoiselle Delacour, poderia vir at aqui primeiro, por favor? - disse o Sr. Olivaras postando-se no espao vazio no centro
        da sala.
        Fleur Delacour fez o que o bruxo pedia e lhe entregou a varinha.
        -        Humm... - disse ele.
        O        Sr. Olivaras girou a varinha entre os dedos longos como se fosse um basto, e ela emitiu vrias fascas rosas e douradas. Depois
#246
aproximou-a dos olhos e a examinou atentamente.
        -         - disse baixinho -, vinte e quatro centmetros... inflexvel... jacarand... e contm... meu Deus...
        - Um fio de cabelos de veela - disse Fleur. - Uma das minhas avos.
        Ento Fleur era em parte veela, pensou Harry, anotando a informao mentalmente para contar a Rony... depois se lembrou de
que Rony no estava falando com ele.
        -        Confere - disse o Sr. Olivaras -, confere, eu nunca usei cabelo de veela, naturalmente. Acho que produz varinhas temperamentais... no entanto, o
seu a seu dono, se ela lhe serve...
        O        Sr. Olivaras correu os dedos pela varinha, aparentemente a procura de arranhes ou salincias; ento murmurou "Orchideous!"
e saiu um ramo de flores da ponta da varinha.
        -        Muito bem, muito bem, est em timas condies de funcionamento - disse o Sr. Olivaras, recolhendo as flores e oferecendo-as
a Fleur juntamente com a varinha. - Sr. Diggory, agora o senhor.
        Fleur retornou delicadamente  sua cadeira e sorriu para Cedrico quando o garoto passou.
        -        Ah, esta  uma das minhas, no? - disse o Sr. Olivaras, com muito mais entusiasmo, quando Cedrico lhe entregou a varinha. - , lembro-me bem dela.
Contm um nico plo da cauda de um unicrnio macho particularmente belo... devia ter um metro e setenta; quase me deu uma chifrada quando lhe arranquei um fio da
cauda. Trinta centmetros... freixo... agradavelmente flexivel. Est em boas condies... o senhor cuida dela periodicamente?
        -        Lustrei-a  noite passada - disse Cedrico sorrindo.
        Harry olhou a prpria varinha. Dava para ver marcas de dedos em toda a extenso. Ele agarrou um bocado de pano das vestes na altura dos joelhos e tentou
limp-la discretamente. Vrias fascas douradas voaram de sua ponta. Fleur Delacour lhe lanou um olhar condescendente e ele desistiu.
        O        Sr. Olivaras disparou uma sequncia de anis de fumaa prateada pela sala da ponta da varinha de Cedrico, declarando-se satisfeito e, em seguida,
disse:
        -        Sr. Krum, se me faz o favor.
        Vtor Krum, com o corpo curvado, os ombros redondos e os
ps para fora, levantou-se e foi at o Sr. Olivaras. Entregou a varinha e ficou parado, de cara fechada e mos nos bolsos das vestes.
        -        Humm - disse o Sr. Olivaras -,  uma criao de Gregoro-
vitch, a no ser que eu esteja enganado. Um excelente fabricante de
varinhas, embora o estilo nunca seja bem o que eu... contudo...
#247
        Ergueu a varinha e examinou-a minuciosamente, revirando-a varias vezes diante dos olhos.
        -        ... btula e corda de corao de drago? - perguntou a Krum, que confirmou com a cabea. - Um pouco mais grossa do que se v
normalmente... bastante rgida... vinte e seis centmetros... Avis!
        A varinha de btula produziu um estampido como o de uma
pistola e um bando de passarinhos chilreantes saiu voando de sua
ponta, pela janela aberta, em direo ao sol desbotado.
        -        timo - exclamou o Sr. Olivaras, devolvendo a varinha a Krum. - Resta agora... o Sr.
Potter.
        Harry se levantou e passou por Krum para chegar ao Sr. Olivaras. E entregou sua varinha.
        -        Aaah, sim - disse o perito, seus olhos azul-claros repentinamente brilhando. - Sim, sim, sim. Lembro-me muito bem.
        Harry se lembrava tambm. Lembrava-se como se tivesse sido
ainda ontem...
        H quatro veres, no seu dcimo primeiro aniversrio, ele entrara na loja do Sr. Olivaras com Hagrid para comprar uma varinha. O homem tirara suas medidas 
e em seguida comeara a lhe dar varinhas para experimentar. Harry teve a impresso de que desprezara todas as varinhas da loja, at finalmente encontrar a que lhe 
servia - aquela, que era feita de azevinho, vinte e oito centmetros e continha uma nica pena da cauda de uma fnix. O Sr. Olivaras se mostrara muito surpreso que 
Harry fosse to compatvel com essa varinha.
        -        Curioso - dissera ele - ... curioso - somente quando o garoto perguntou o que era curioso o bruxo explicara que a pena de fnix na varinha de Harry 
viera do mesmo pssaro que fornecera a alma da varinha de Lord Voldemorr.
        Harry nunca compartira essa informao com ningum. Gostava muito de sua varinha e, por ele, a afinidade dela com a varinha de Voldemorr era algo imutvel
- do mesmo jeito que no podia mudar o fato de ser parente da tia Petnia. Contudo, ele realmente desejou que o Sr. Olivaras no fosse contar isso aos presentes.
Tinha a estranha sensao de que a pena-de-repetio-rpida de Rita Skeeter poderia explodir de excitao se isso acontecesse.
       O Sr. Olivaras passou mais tempo examinando a varinha de
Harry do que a dos demais. Por fim, porm, fez jorrar uma fonte
        #248
de vinho da varinha e devolveu-a a Harry, anunciando que o objero continuava em perfeitas condies.
        -        Muito obrigado a todos - disse Dumbledore, levantando-se da mesa dos juizes. - Vocs podem voltar s suas aulas agora, ou talvez seja mais rpido
descerem logo para jantar, j que elas esto prestes a terminar...
        Achando que finalmente alguma coisa dera certo naquele dia,
Harry se levantou para sair, mas o homem com a mquina fotogrfica preta deu um pulo da cadeira e pigarreou.
        -        Fotos, Dumbledore, fotos - exclamou Bagman, excitado.
- Todos os juizes e campees. Que  que voc acha, Rita?
        -        Hum... certo, vamos fazer essas primeiras - respondeu a reprter, cujos olhos estavam fixos em Harry outra vez. - E depois
talvez umas fotos individuais.
        As fotos consumiram muito tempo. Madame Maxime deixava todos na sombra sempre que se levantava e o fotgrafo no conseguia recuar o suficiente para enquadr-la;
por fim, ela teve que se sentar e os demais se postarem ao seu redor. Karkaroff no parava de torcer o cavanhaque com o dedo para lhe acrescentar mais um cacho;
Krum, que Harry imaginaria estar acostumado a esse tipo de coisa, procurava se esconder atrs do grupo. O fotgrafo parecia interessadssimo em colocar Fleur na
frente, mas Rita corria a toda hora e arrastava Harry para lhe dar maior destaque. Depois, ela insistiu que se fizessem
fotos separadas dos campees. E, finalmente,
todos foram liberados.
        Harry desceu para jantar. Hermione no estava l - ele sups que a amiga continuasse na ala hospitalar consertando os dentes. Ele comeu sozinho na ponta
da mesa, depois voltou  Torre da Grifinria, pensando em todos os deveres
suplementares sobre Feitios Convocarrios que precisava fazer. Em cima no dormitrio,
encontrou Rony.
        -        Voc recebeu uma coruja - disse ele bruscamente, no instante em que Harry entrou. Apontou para o travesseiro do amigo. A
coruja-de-igreja da escola esperava-o ali.
- Ah... certo - disse Harry.
        -        E temos que cumprir as detenes amanh  noite na mas
        morra do Snape.        
        Saiu, ento, do quarto sem olhar para Harry. Por um instante
o garoto refletiu se devia ir atrs do amigo - no tinha bem certeza
#249
se queria falar com ele ou lhe dar um soco, as duas opes pareciam igualmente atraentes - mas a tentao de ler a resposta de Sirius foi mais forte. Harry aproximou-se
da coruja, soltou a carta da perna da ave e abriu-a.

Harry,
        No posso dizer tudo que gostaria em uma carta,  arriscado demais se a coruja for interceptada - precisamos conversar cara a cara. Voc pode dar um jeito
de estar junto  lareira na Torre da GliGrfinria  uma hora da manh, no dia 22 de novembro?
        Sei melhor do que ningum que voc  capaz de se cuidar e, enquanto estiver perto de
Dumbledore e Moody, acho que ningum conseguir lhe fazer mal. Porm,
parece que algum est tendo algum sucesso. Inscrever voc nesse torneio deve ter sido muito arriscado, principalmente debaixo do nariz de Dumbledore.
        Fique vigilante, Harry. Continuo querendo saber de tudo que
acon tecer de anormal. Mande uma resposta sobre o dia 22 de
novembro o mais cedo que puder.
        Sirius

#250


*****


-        CAPITULO DEZENOVE -
O Rabo-Crneo hngaro


A perspectiva de conversar cara a cara com Sirius foi s o que sustentou Harry nos quinze dias seguintes, o nico ponto luminoso em um horizonte que nunca lhe parecera 
mais escuro. O choque de se ver no papel de campeo da escola agora j diminuira um pouquinho, e o medo do que o aguardava estava comeando a penetrar fundo em sua 
mente. A primeira tarefa se aproximava; o garoto tinha a sensao de que ela estava de tocaia logo ali, como um monstro aterrorizante, barrando o seu avano. Nunca 
se sentira to nervoso; ultrapassava de muito qualquer sentimento que tinha experimentado antes de 
uma partida de quadribol, at mesmo a ltima contra a Sonserina,
que decidira quem ganharia a Taa de Quadribol. Harry estava achando dificil pensar no futuro, sentia que a sua vida inteira o conduzira  primeira tarefa e nela
terminaria...
        Assim sendo, no via como Sirius ia faz-lo se sentir melhor com relao  realizao de uma tarefa mgica difcil e perigosa, diante de centenas de pessoas, 
mas a simples viso de um rosto amigo j seria alguma coisa neste momento. Harry respondeu a Sirius, dizendo que estaria ao p da lareira da sala comunal  hora 
que o padrinho sugerira, e que ele e Hermione tinham passado muito tempo revendo planos para obrigar os retardatrios a abandonar a sala na noite em questo. Na 
pior das hipteses, iam detonar um pacote de bombas de bosta, mas esperavam no ter
recorrer a isso - Filch os esfolaria vivos.
        Entrementes, a vida se tornou ainda pior para Harry dentro dos limites do castelo, pois
Rita Skeeter publicara seu artigo sobre o Torneio Tribruxo, que afinal
no fora tanto uma notcia sobre o torneio, mas uma verso da vida de Harry extremamente pitoresca.
Quase toda a primeira pgina fora ocupada por uma foto de Harry;
 o artigo (que continuava nas pginas dois, seis e sete) s falava no
garoto, os nomes dos campees da Beauxbarons e Durmstrang
#251
(errados) tinham sido espremidos na ltima linha do artigo, e Cedrico sequer fora mencionado.
        O        artigo sara havia dez dias e Harry ainda era assaltado por uma ardncia de nusea e vergonha no estmago todas as vezes que pensava nele. Rita
Skeerer pusera em sua boca uma poro de coi sas que ele sequer lembrava ter dito na vida, muito menos no armp rio de vassouras.

"Acho que herdo a minha fora dos meus pais, sei que eles teriam muito orgulho de mim se me vissem agora... , s vezes  noite ainda choro a perda deles, no tenho vergonha
de admitir... que nada me acontecer de mal durante o torneio, porque
eles estaro me protegendo..."

Mas Rita fizera mais do que transformar os "hums" dele em frasep longas e piegas: entrevistara outras pessoas para saber o que
pensavam dele.

"Harry finalmente encontrou carinho em Hogwarts. Seu amigp ntimo, Colin Creevey diz que o garoto raramente  visto sem companhia de Hermione Granger, uma linda
menina nascida trouxa que, como Harry,  uma das primeiras alunas da
escola.

Do momento em que o artigo apareceu, Harry teve que aturar colegas - principalmente os da Sonserina - que o citavam,
caoando, quando ele passava.
        -        Quer um lencinho, Potter, caso comece a chorar na aula de Transformao?
        -        Desde quando voc  um dos primeiros alunos da escola, Porter? Ou ser que a escola  uma escola que voc e o Longbottom
fundaram?
        -        Ei... Harry!
        -        ,, verdade, sim - Harry viu-se gritando, ao se virar no corredor, j cheio. - Morri de chorar pela morte da minha
mamezinha.
e estou indo chorar um pouco mais...
        -        No... foi s que... voc deixou cair a pena.
Era Cho. Harry sentiu o rosto corar.
        -        Ah... certo... desculpe - murmurou recebendo a pena.
- Hum... boa sorte na tera-feira - disse a garota. - Espero snceramente que voc se d
bem.
        O        que fez Harry se sentir extremamente idiota.
#252
        Hermione tambm ganhara sua quota de aborrecimentos, mas ainda no comeara a berrar com gente inocente; de fato, Harry enchia-se de admirao pela maneira
com que a amiga estava enfrentando a situao.
        - Linda? Ela?- gritara Pansy Parkinson com a voz esganiada, a primeira vez que encontrou Hermione, depois que o artigo da Rita Skeeter fora publicado. - 
Qual foi o padro de beleza, um esquilo?
        - No liga - disse Hermione com dignidade, erguendo a cabea no ar e passando pelas garotas da Sonserina que zombavam, como se no as ouvisse. - Simplesmente 
no liga, Harry.
        Mas Harry no conseguia se desligar. Rony no falara com ele desde o dia do recado sobre as detenes de Snape. Harry alimentara uma certa esperana de que
fizessem as pazes durante as duas horas em que foram forados a preparar conservas de miolos de ratos na masmorra, mas isto fora no dia em que o artigo de Rita Skeeter
aparecera, o que parecia confirmar a crena de Rony de que Harry estava realmente gostando de toda aquela ateno.
        Hermione estava furiosa com os dois; ia de um para outro, tentando for-los a se falarem, mas Harry permanecia inflexvel; s voltaria a falar com Rony
se o amigo admitisse que ele no pusera o nome no Clice de Fogo, e pedisse desculpas por t-lo chamado de mentiroso.
        - No fui eu que comecei - disse Harry teimosamente. - O problema  dele.
        - Voc sente falta dele! - tornou Hermione impaciente. -p E eu sei que ele sente falta de voce...
-        Sinto falta dele? Eu no sinto falta dele...
        Mas isto era uma mentira deslavada. Harry gostava muito de Hermione, mas ela no era o mesmo que Rony. Havia muito menos rsos e muito mais visitas  biblioteca 
quando Hermione era sua melhor amiga. Harry ainda no conseguira dominar os Feitios Convocatrios, parecia ter desenvolvido uma espcie de bloqueio com relao 
a eles, e Hermione insistia que aprender a teoria ajudaria. Consequentemente, passavam mais tempo lendo livros durante a hora do almoo.
        Vtor Krum passava um tempo na biblioteca, tambm, e
         Harry ficava imaginando o que  que ele andava fazendo. Estaria
        estudando ou procurando coisas que o ajudassem na primeira
tarefa?
#253
Hermione muitas vezes se queixava de Krum estar ali - no que ele jamais os incomodasse, mas porque aparecia sempre um grupo de garotas dando risadinhas bobas
para espion-lo atrs das estantes, e Hermione achava que aquele barulho a distraa.
        -        Ele nem ao menos  bonito! - murmurava ela aborrecida, mirando de cara amarrada o perfil adunco de Krum. - Elas s gostam dele porque  famoso!
No olhariam duas vezes se ele no fosse capaz de fazer aquele tal de Fingimento Wonky...
        -        Finta de Wronski - corrigiu Harry entre dentes. Sem contar que o garoto
gostava que dissessem corretamente os termos do quadribol, sentia uma pontada
s de imaginar a expresso de Rony se ele pudesse ouvir Hermione falando de Fingimentos Wonky.
 uma coisa estranha, mas quando se est com medo de alguma coisa, e se daria tudo para retardar o tempo, ele tem o mau hbito de correr. Os dias que faltavam para
a primeira tarefa pareciam passar como se algum tivesse ajustado os relgios para trabalharem em velocidade dobrada. A sensao de pnico mal controlado que Harry 
tinha acompanhava-o para onde fosse, sempre presente como os comentrios depreciativos sobre o artigo do Profeta Dirio.
        No sbado que antecedeu a primeira tarefa, todos os estudantes do terceiro ano, e acima, tiveram permisso para visitar o povoado de Hogsmeade. Hermione 
disse a Harry que lhe faria bem sair um pouco do castelo e o garoto no precisou de muita persuaso.
        -        Mas e o Rony? Voc no quer ir com ele?
        -        Ah... bem... - Hermione ficou ligeiramente vermelha. Pensei que a gente podia se encontrar com ele no Trs Vassouras...
        -        No - disse Harry em tom definitivo.
        -        Ah, Harry, isso  to bobo...
        -        Eu vou, mas no quero me encontrar com o Rony, e vou usar a minha Capa da Invisibilidade.
        -        Ah, tudo bem, ento... - rerorquiu Hermione -, mas odeio falar com voc naquela capa, nunca sei se estou olhando para voc
ou nao.
        Ento Harry vestiu a Capa da Invisibilidade no dormitrio e
tornou a descer e, juntos, ele e a amiga seguiram para Hogsmeade.
 -        Harry se sentiu maravilhosamente livre sob a capa; observou os
estudantes que passavam por eles na entrada do povoado, a maioria
#254
usando distintivos Apie CEDRICO DIGGORY, mas, para variar, ningum atirou piadas horrveis para ele nem citou aquele artigo idiota.
        - As pessoas no param de olhar para mim agora - reclamou Hermione, ao sarem mais tarde da Dedosdemel, comendo uma grande quantidade de bombons recheados 
de creme. - Acham que estou falando sozinha.
        - Ento no mexa tanto os lbios.
        - Ah vai, por favor, tira um pouco a sua capa. Ningum vai incomodar voc aqui.
        - Ah, ? Ento olha para trs.
        Rita Skeeter e seu amigo fotgrafo acabavam de sair do bar Trs Vassouras. Conversavam em voz baixa e passaram por Hermione sem olhar para a garota. Harry
se encostou  parede da Dedosdemel para evitar que Rita Skeeter batesse nele com a bolsa de crocodilo.
Quando os dois se afastaram, Harry comentou:
        - Ela est hospedada no povoado. Aposto como vai assistir  primeira tarefa.
        Ao dizer isso, seu estmago foi inundado por uma onda de pnico derretido. Mas no disse nada; ele e Hermione no tinham discutido muito o que o aguardava 
na primeira tarefa; tinha a sensao de que a amiga no queria pensar no assunto.
        - Ela j foi embora - disse Hermione olhando atravs de Harry em direo  rua principal. - Por que no vamos tomar uma cerveja amanteigada no Trs Vassouras? 
Est um pouco frio, no est? Voc no precisa falar com o Rony! - acrescentou com irritao, interpretando corretamente o silncio dele.
        O Trs Vassouras estava lotado, principalmente com alunos de Hogwarrs que aproveitavam a tarde livre, mas tambm com uma variedade de gente mgica que Harry 
raramente via em outro lugar. Ele imaginava que sendo Hogsmeade o nico povoado inteiramente mgico da Gr-Bretanha constitua uma espcie de refgio para gente 
como as bruxas, que no gostavam tanto de se disfarar quanto os bruxos.
        Era difcil caminhar entre muita gente com a Capa da Invisibilidade, pois se pisasse
em algum sem querer, poderia provocar perguntas embaraosas. Harry dirigiu-se com
cautela a uma mesa vazia a um canto e Hermione foi comprar as bebidas. Quando
atravessava
#255
o bar, Harry viu Rony sentado com Fred, Jorge e Lino Jordan. Resistindo ao impulso de dar um bom tranco na cabea de Rony, ele finalmente chegou  mesa escolhida
e se sentou.
        Hermione no demorou a se juntar a ele e lhe passou a cerveja
por baixo da capa.
        -        Pareo uma idiota sentada aqui sozinha - resmungou ela. - Por sorte trouxe alguma coisa para fazer.
        E a garota puxou um caderno em que andava mantendo um registro dos
participantes do F.A.L.E. Harry viu os nomes dele e de Rony no alto de uma pequena lista.
Parecia que fora h muito tempo que tinham se sentado para fazer aquelas predies, juntos, e Hermione aparecera e os nomeara secretrio e tesoureiro.
        -        Sabe, talvez eu deva tentar fazer alguns habitantes do povoado participarem do
F.A.L.E. - disse Hermione pensativa, dando
uma olhada no bar.
        -        , certo. - Harry tomou um gole da cerveja amanteigada embaixo da capa. - Hermione quando  que voc vai desistir dessa
histria de F.A.L.E.?
- Quando os elfos domsticos tiverem salrios decentes e
condies de trabalho! - sibilou ela em resposta. - Sabe, eu estou comeando a achar que chegou a hora de partir para uma
mais direta. Como ser que a gente chega  cozinha da escola?
        -        No fao idia, pergunte ao Fred e ao Jorge - disse Harry.
        Hermione mergulhou num silncio pensativo, enquanto Harry bebia a cerveja amanteigada, observando as pessoas no bar. Todas pareciam animadas e descontradas.
Ernesto MacMillan e Ana Abbott trocavam figurinhas dos Sapos de Chocolate em uma mesa prxima, os dois usando os distintivos Apie CEDRICO DIGGORI nas capas. Perto
da porta, Harry viu Cho e um grande grupo das colegas da Corvinal. Mas ela no usava o distintivo... isto o animou um pouquinho...
        O        que ele no daria para ser uma daquelas pessoas que riam e conversavam, sem nenhuma preocupao no mundo exceto o dever de casa! Imaginou como estaria
se sentindo ali se o seu nome no tivesse sido escolhido pelo Clice de Fogo. Primeiro no estaria
 usando a Capa da Invisibilidade, segundo, Rony estaria sentado
com ele. Os trs provavelmente estariam felizes imaginando que tarefa
mortalmente perigosa os campees das escolas iriam enfrentar 
#256
na tera-feira. Ele estaria realmente ansioso para chegar a hora de assistir ao que quer que fosse... torcendo por Cedrico com todos os outros, sentado so e salvo
no alto das arquibancadas...
        Harry ficou imaginando como estariam se sentindo os outros campees. Todas as vezes que via Cedrico ultimamente, o garoto estava cercado de admiradores e
parecia nervoso, mas excitado. De vez em quando Harry via Fleur Delacour de relance nos corredores; tinha a mesma aparncia de sempre, arrogante e imperturbvel. 
E Krum simplesmente ficava sentado na biblioteca, examinando livros.
        Harry pensou em Sirius, e o n apertado e tenso em seu peito pareceu afrouxar um pouquinho. Estaria falando com o padrinho em pouco mais de doze horas, pois 
aquela era a noite em que iam se encontrar na sala comunal - presumindo que nada sasse errado, como tudo o mais ultimamente...
        - Olha,  Hagrid! - disse Hermione.
        As costas da enorme cabea peluda de Hagrid - graas a Deus ele abandonara o novo penteado - sobressaa na aglomerao. Harry se perguntou por que no o 
teria visto logo, j que seu amigo era to grande, mas se levantando cautelosamente, viu que Hagrid estivera curvado, conversando com o Prof. Moody. Tinha o costumeiro 
caneco diante dele, mas Moody bebia da garrafa de bolso. Madame Rosmetta, a bonita dona do bar, no parecia estar gostando muito disso; olhava enviesado para Moody
enquanto recolhia os copos das mesas ao redor dos dois homens. Talvez achasse que aquilo era um insulto ao seu quento, mas Harry sabia a explicao. Moody contara
 turma na ltima aula de Defesa contra as Artes das Trevas que ele sempre preferia preparar sua comida e bebida, pois era muito fcil para bruxos das trevas envenenarem
um copo momentaneamente descuidado.
        Enquanto Harry observava, viu Hagrid e Moody se levantarem para sair. Ele acenou, depois se lembrou de que o amigo no podia v-lo. Moody, porm, parou,
seu olho mgico virado para o canto em que Harry estava. Ele deu um tapinha no meio das costas de Hagrid (no conseguindo alcanar seu ombro), murmurou alguma coisa 
e, em seguida, os dois tornaram a atravessar o bar em direo  mesa de Harry e Hermione.
- Tudo bem, Hermione? - disse Hagrid em voz alta.        
        - Ol - respondeu a garota sorrindo.
#257
        Moody contornou a mesa mancando e se abaixou; Harry pensou que ele estava lendo o caderno do F.A.L.E., at ele murmurar:
-        Bela capa, Potter.
        Harry encarou-o espantado. O pedao que faltava do nariz de
Moody era particularmente visvel  curta distncia. Moody sorriu.
        -        O seu olho... quero dizer, o senhor pode...?
        - Claro, ele v atravs de Capas da Invisibilidade - disse Moody baixinho. - E, s vezes, isso me tem sido til, pode acreditar.
        Hagrid estava sorrindo para Harry, tambm. Este sabia que o
        amigo no podia v-lo, mas Moody obviamente dissera a Hagrid
        que o garoto estava ali.
        Hagrid se abaixou sob o pretexto de ler o caderno do F.A.L.E.
        tambm, e disse num sussurro to baixo que somente Harry pde
        ouvir.
        -        Harry, me encontre hoje  meia-noite na minha cabana. Use a capa.
        Erguendo-se, falou em voz alta:
        -        Que bom ver voc, Hermione - piscou e saiu. Moody acompanhou-o.
        -        Por que ser que ele quer que eu v encontr-lo  meia-noite?
        - perguntou Harry muito surpreso.
        -        Ele quer? - disse Hermione, parecendo espantada. - Que ser que ele est aprontando? No sei se voc deve ir, Harry... - Ela espiou para os lados
nervosamente e sibilou: - Talvez voc se atrase para ver Sirius.
        Era verdade que descer pelos jardins  meia-noite at a casa de Hagrid significava voltar em cima da hora para o encontro com Sirius; Hermione sugeriu que
ele mandasse Edwiges a Hagrid para dizer que no podia ir - sempre supondo que a coruja consentisse em levar o bilhete,  claro -, Harry, porm, achou melhor ir
ver rapidamente o que o amigo queria. Estava muito curioso com o que poderia ser; Hagrid nunca pedira a Harry para visit-lo to tarde da noite.

        s onze e meia daquela noite, Harry, que fingira ir se deitar mais
        cedo, jogou a Capa da Invisibilidade por cima do corpo e saiu
sorrateiramente pela sala comunal. Ainda havia muitos colegas l. Os
irmos Creevey tinham conseguido pr as mos em uma pilha de distintivos Apie
CEDRICO DIGGORYe estavam tentando enfeiti-los
#258
para faz-los dizer, ao invs, Apie HARRY POTTER. At ali, porm, s tinham conseguido fazer os distintivos enguiarem em POTTER
FEDE. Harry passou por
eles em direo ao buraco e        do retrato e esperou um minuto mais ou menos, 
de olho no relgio. Depois, Hermione abriu a Mulher Gorda pelo lado de fora conforme tinham planejado. Ele
passou pela amiga murmurando "Obrigado!", e saiu pelo castelo.
        Os jardins estavam muito escuros. Harry desceu os gramados em direo s luzes que brilhavam na cabana de Hagrid. O interior da enorme carruagem da Beauxbatons 
tambm estava aceso; Harry podia ouvir Madame Maxime falando l dentro, quando bateu na porta de Hagrid.
        -         voc a, Harry? - sussurrou Hagrid, abrindo a porta e espiando para os lados.
        -        Sou - disse Harry, entrando na cabana e tirando a capa de
cima da cabea. - Que  que est havendo?
- Tenho uma coisa para lhe mostrar.
Havia um ar de enorme excitao em Hagrid. Ele usava uma
flor que lembrava uma alcachofra exagerada na botoeira. Parecia que tinha abandonado o uso da graxa de eixo, mas certamente tentara pentear os cabelos - dava para 
Harry ver os dentes partidos do pente presos neles.
        -        Que  que voc vai me mostrar? - disse Harry cauteloso, se perguntando se os explosivins teriam posto ovos ou se Hagrid teria conseguido comprar 
outro enorme co de trs cabeas de algum estranho no bar.
        -        Venha comigo, fique quieto e coberto com a capa - disse Hagrid. - No vamos levar Canino, ele no vai gostar...
        -        Olhe, Hagrid, no posso demorar... Tenho que estar de volta no castelo porque  uma hora...
        Mas Hagrid no estava ouvindo; estava abrindo a porta da cabana e saindo. Harry correu para acompanh-lo, mas descobriu, para sua grande surpresa, que Hagrid 
o levava para a carruagem da Beauxbarons.
        -        Hagrid que...?
        -        Psiu! - disse ele ao bater trs vezes na porta com varinhas de
        ouro cruzadas.        
        Madame Maxime abriu-a. Usava um xale de seda envolvendo
os ombros macios. Ela sorriu quando viu Hagrid.
#259
        -        Ah, Agrrid... j est na horta?
        -        Bom suar - disse Hagrid, sorrindo para ela e estendendo a mo para ajud-la a descer os degraus dourados.
        Madame Maxime fechou a porta, Hagrid lhe ofereceu o brao, e os dois saram contornando o picadeiro que guardava os gigantescos cavalos alados de Madame 
Maxime, e Harry; totalmente perplexo, correu para acompanh-los. Ser que Hagrid queria lhe mostrar Madame Maxime? Poderia v-la quando quisesse... ela no era exatamente 
uma pessoa que passasse despercebida...
        Mas parecia que Madame Maxime ia ter a mesma surpresa que
Harry porque, passado algum tempo, ela disse em tom de brincadeira:
        - Aonde  que voc est me levando, Agrid?
        - Voc vai gostar - disse Hagrid rouco. - Vale a pena ver, confie em mim. S que no pode sair por a contando que eu lhe mostrei, certo? No era para ningum 
saber.
        - Claro que no - disse Madame Maxime, batendo as longas pestanas negras.
        E eles continuavam a caminhar, Harry cada vez  mais irritadL enquanto corria
 no encalo dos dois, consultando o relgio de quando   emquando. Hagrid tinha algum
plano biruta em mente, que talvez o fizesse perder o encontro com Sirius. Se no chegassem depressa aonde iam, ele ia dar meia-volta e rumar direto para o castelo,
deixando Hagrid aproveitar o passeio ao luar com Madame Maxime...
        Mas ento - quando tinham se distanciado tanto ao longo da permetro da Floresta que o castelo e o lago desapareceram de
vista
- Harry ouviu alguma coisa. Havia homens gritando adiante.. depois ouviram um rugido ensurdecedor, de rachar os tmpanos...
        Hagrid fez Madame Maxime dar a volta a um arvoredo e parou. Harry correu a se juntar aos dois - por uma frao de segun do achou que estava vendo fogueiras 
e homens que corriam en torno delas -, ento seu queixo caiu.
Drages.
Quatro drages adultos, enormes, de aspecto feroz enpinavam-se  nas patas 
traseiras, dentro de um cercado feito com grossa pranchas de madeira, rugindo e bufando - torrentes de fogo
erguiam quinze metros para o cu escuro de suas bocas abertas
cheias de dentes, no alto de pescoos esticados. Havia um azul prateado
#260
 com chifres longos e pontiagudos, que rosnava para os bruxos no cho e tentava mord-los; outro de escamas lisas e verdes, que se contorcia e batia as patas
com toda a fora; um vermelho, com uma estranha franja de belas pontas de ouro ao redor do focinho, que soprava para o ar nuvens de fogo em forma de cogumelo, e
um ltimo negro e gigantesco, mais parecido com um lagarto do que os demais, que era o mais prximo.
        No mnimo uns trinta bruxos, sete ou oito para cada drago, tentavam control-los, puxando correntes presas a grossas tiras de couro em volta dos pescoos
e das pernas dos bichos. Hipnotizado, Harry olhou bem para o alto e viu os olhos do drago negro, com pupilas verticais como as de um gato, arregalados de medo ou
de fria, no saberia dizer qual... fazia um barulho terrvel, um uivo penetrante...
        -        Fique a, Hagrid! - berrou um bruxo junto  cerca, puxando com fora a corrente que segurava. - Eles podem cuspir fogo a uma distncia de seis metros,
sabe! J vi este Rabo-Crneo chegar a doze!
     - Ele no  lindo? - perguntou Hagrid baixinho.
        -        No adianta! - berrou outro bruxo. - Feitio Estuporante quando eu contar trs!
        Harry viu cada um dos guardadores de drages puxar a varinha.
        -        Estupore! - gritaram eles em unssono, e os feitios dispararam pela escurido como foguetes chamejantes, explodindo em
chuvas de estrelas sobre os couros escamosos dos drages...
        Harry observou o mais prximo deles balanar nas pernas traseiras; as mandbulas se escancararam em um sbito uivo silencioso; as narinas subitamente se
apagaram, embora ainda fumegassem
-        depois, muito lentamente, o bicho caiu -, vrias toneladas de drago negro, musculoso, coberto de escamas, desabaram no cho com um baque que, Harry poderia
jurar, fizera as rvores atrs dele estremecerem.
        Os guardadores de drages baixaram as varinhas e avanaram at os bichos cados, cada um destes do tamanho de um morro. Os bruxos se apressaram a esticar
as correntes e a prend-las firmemente em estacas de ferro, que eles enterraram bem fundo no cho,
        com suas varinhas.
        -        Quer dar uma olhada de perto? - Hagrid perguntou excitado  Madame Maxime. Os dois se aproximaram da cerca e Harry
#261
os acompanhou. O bruxo que alertara Hagrid para no se aproximar se virou e Harry viu quem era, Carlinhos Weasley.
        -        Tudo bem, Hagrid? - ofegou ele, aproximando-se para falar.
- Devem estar OK agora, demos a eles uma poo para dormir durante a viagem, achei que seria melhor acordarem quando estiescuro e tranquilo, mas, como voc viu, 
eles no ficaram felizes, no ficaram nada felizes...
        -        Que raas voc tem aqui, Carlinhos? - perguntou Hagrid, examinando o drago mais prximo, o negro, com uma atitude prxima  reverncia. Os olhos 
do bicho ainda estavam ligeiramente abertos. Harry pde ver um risco amarelo e brilhante sob a pl pebra enrugada e escura.
        -        E um Rabo-Crneo hngaro - informou Carlinhos. - Ten um Verde-Gals comum l adiante, o menor deles, um Focinho Curto sueco, aquele cinzento azulado
e o Meteoro-Chins, aquele outro vermelho.
        Carlinhos olhou para o lado; Madame Maxime estava caminhando ao longo do cercado, examinando os drages estuporados
-        Eu no sabia que voc ia trazer ela, Hagrid - disse Carlinhos
franzindo a testa. - Os campees no podem saber o que os espera,
ela com certeza vai contar  campe de Beauxbatons, no vai?
        -        S achei que ela gostaria de ver os drages - respondeu Ha grid encolhendo os ombros, ainda contemplando embevecido
os drages.
        -        Um encontro realmente romntico, Hagrid - comentou Carlinhos balanando a cabea.
        -        Quatro... - contou Hagrid - ento  um para cada
campeo ? Que  que eles vo ter de fazer, lutar com eles?
        -        S passar por eles, acho. Estaremos por perto se a coisa fia feia, prontos para lanar Feitios de Extino. Pediram drages
em poca de nidificao,
no sei o porqu... mas vou lhe dizer uma
coisa, eu no invejo o campeo que pegar o Rabo-Crneo. Bicho feroz. A extremidade de trs  to perigosa quanto a da frente, olha
        Carlinhos apontou para o rabo do drago e Harry viu que, em
intervalos de uns poucos centmetros, havia chifrinhos compridos
cor de bronze.
      Cinco dos colegas guardadores de Carlinhos cambaleavam at
o        Rabo-Crneo naquele momento, transportando, juntos, uma 
ninhada de ovos em um cobertor. Depositaram sua carga, cuidadosamente,
#262
 do lado do Rabo-Crneo. Hagrid deixou escapar um gemido de saudade.
        - Eu contei todos, Hagrid - disse Carlinhos com severidade. Depois perguntou: - Como vai o Harry?
        - timo - respondeu Hagrid. Continuava a admirar os ovos.
        - Fao votos de que continue timo depois de enfrentar esses bichos - disse Carlinhos muito srio, contemplando o cercado dos drages. - No tive coragem
de contar  mame qual vai ser a primeira tarefa dele, ela j est tendo
gatinhos por antecipao... - Carlinhos imitou a voz ansiosa da me: - "Como eles puderam
deix-lo entrar nesse torneio, ele  criana demais! Pensei que estivessem todos seguros, pensei que ia haver um limite de idade!" Ela est se acabando de chorar
por causa daquele artigo do Profeta Dirio. - "Ele ainda chora a perda dos
pais! Ah, que Deus o abenoe, eu no sabia!"
        Para Harry j era o bastante. Confiando que Hagrid no sentiria falta dele, com os drages e Madame Maxime para ocupar sua ateno, ele se virou silenciosamente
e comeou a caminhar de volta ao castelo.
        No sabia se estava ou no contente de ter visto o que o esperava. Talvez assim fosse melhor. O primeiro choque passara agora. Talvez se visse os drages
pela primeira vez na tera-feira, tivesse cado duro diante de toda a escola... mas quem sabe desmaiaria assim mesmo... estaria armado com a varinha - que neste
momento lhe parecia apenas uma ripinha de madeira - contra um drago de quinze metros de altura, coberto de escamas e chifres, que cuspia fogo. E precisava passar
pelo bicho. Com todo mundo olhando. Como?
        Harry se apressou, contornando a orla da floresta; tinha menos de quinze minutos para chegar  lareira e falar com Sirius, e no se lembrava de ter jamais
sentido maior vontade de falar com algum do que naquele momento - quando, sem aviso, bateu em alguma coisa muito slida.
        Harry caiu de costas, os culos tortos, apertando a capa em
torno do corpo. Uma voz prxima exclamou:
- Ai! Quem est a?
Harry verificou depressa se a capa o cobria inteiramente e ficou
imvel, olhando espantado para a silhueta do bruxo com quem
colidira. Reconheceu a barbicha... era Karkaroff.
#263
        - Quem est a? - tornou a perguntar Karkaroff, olhando muito desconfiado para os lados, no escuro. Harry continuou imovel e calado. Passado pouco mais de
um minuto, Karkaroff pareceu ter concludo que batera em algum bicho; olhava para baixo da cintura, como se esperasse ver um cachorro. Depois tornou a procurar,
sorrareiramente, a sombra das rvores, e rumou para o local em que se encontravam os drages.
        Muito lenta e cautelosamente, Harry se levantou e continuou
seu caminho, o mais rpido que pde, sem fazer muito barulho,
correndo pela escurido de volta a Hogwarrs.
        No tinha a menor dvida do que Karkaroff ia fazer. Tinha sado escondido do navio para tentar descobrir qual seria a primeira tarefa, Talvez at tivesse
visto Hagrid e Madame Maxime rumando para a Floresta juntos - no era nada difcil identific-los  distncia... e agora s o que Karkaroff precisava fazer era
seguir o rudo das vozes e ele, tal como Madame Maxime, saberia o que aguardava os campees. Pelo jeito, o nico campeo que ia enfrentar o desconhecido na tera-feira
era Cedrico.
        Harry alcanou o castelo, passou despercebido pelas portas de entrada e comeou a subir os degraus de mrmore; estava muito ofegante, mas no se
atrevia
a diminuir o passo... tinha menos de cinco minutos para chegar  lareira...
        - Asnice! - ofegou ele para a Mulher Gorda, que tirava um cochilo na moldura do quadro que encobria o buraco.
        - Se voc assim diz - murmurou ela sonolenta, sem abrir
os olhos, e o quadro girou para a frente para admitir o garoto. Harry entrou. A sala comunal estava deserta e, a julgar pelo fato de
que tinha o cheiro de sempre, Hermione
no precisara soltar nenhuma bomba de bosta para garantir que ele e Sirius tivessem alguma
privacdade.
        Harry tirou a Capa da Invisibilidade e se largou em uma poltrona diante da lareira. A sala estava na penumbra e as
chamas eram a nica fonte de luz. Prximo,
sobre uma mesa, os distintivos
Apie CEDRICO DIGGORY que os Creevey tinham tentado mep lhorar brilhavam  claridade da lareira. Agora diziam
POterT
REALMENTE FEDE. Harry tornou a voltar sua ateno para
chamas e levou um susto.
        A cabea de Sirius flutuava sobre as chamas. Se Harry no
tivesse visto o Sr. Diggory fazer exatamente o mesmo na cozinha do
#264
Weasley, teria se apavorado. Em vez disso, seu rosto se iluminou com o primeiro sorriso que dava em dias, ele deixou a poltrona, foi se agachar diante da lareira
e disse:
        -        Sirius, como  que voc vai indo?
        Sirius tinha a aparncia diferente da que Harry se lembrava. Da outra vez, quando se despediram, o rosto do padrinho estava magrrimo e fundo, emoldurado
por uma juba de cabelos compridos, negros e embaraados - mas seus cabelos estavam curtos e limpos agora, o rosto mais cheio e ele parecia mais jovem, e mais semelhante
 nica fotografia que Harry tinha dele, e que fora tirada no casamento dos Potter.
        -        Eu no sou importante, como vai voc? - perguntou Sirius srio.
        -        Estou... - Por um segundo, Harry tentou dizer "timo", mas no conseguiu. Antes que pudesse se refrear, estava falando mais do que falara em dias,
que ningum acreditava que no tinha se inscrito no torneio voluntariamente, que
Rita Skeerer publicara mentiras sobre ele no Profeta Dirio, que no podia andar
pelos corredores sem caoarem dele, e que seu amigo Rony no acreditava nele, e tinha cimes...
        e agora Hagrid acabou de me mostrar qual vai ser a primeira tarefa, e so drages, Sirius, e estou perdido", terminou ele desesperado.
        Sirius observava o garoto com os olhos cheios de preocupao, que ainda conservavam a expresso que Azkaban lhes dera - aquela expresso fantasmagrica e
mortia. Deixara Harry terminar de falar sem interrupo, mas agora disse:
        -        Drages a gente pode dar um jeito, Harry, mas falaremos disso em um minuto, no posso me demorar muito aqui... arrombei uma casa de bruxos para
usar a lareira, mas eles podem voltar a qualquer momento. Tem coisas de que preciso alert-lo.
        -        Quais? - perguntou Harry, sentindo seu nimo afundar alguns pontos... com certeza no poderia haver nada pior do que
drages  espera?
        -        Karkaroff- disse Sirius. - Harry, ele era um dos Comensas da
Morrt. Voc sabe o que  isso, no sabe?
        - Sei, ele... qu?
        -        Ele foi apanhado, esteve em Azkaban comigo, mas foi 
libertado. Aposto o que quiser que foi essa a razo de Dumbledore querer
#265
ter um autor em Hogwarts este ano, para ficar de olho nele. Moody foi quem pegou Karkaroff. Foi o primeiro que trancafiou em Azkaban.
        -        Karkaroff foi libertado? - perguntou o garoto lentamente, seu crebro parecia estar lutando para absorver mais uma informao chocante. - Por que 
foi que libertaram ele?
        -        Ele fez um acordo com o Ministrio da Magia - disse Sirius amargurado. - Ele fez uma declarao admitindo que errara e ento revelou nomes... e 
mandou uma poro de outras pessoas para Azkaban em lugar dele... ele no  muito popular por l, isso eu posso afirmar. E desde que saiu, pelo que sei, tem ensinado 
Artes das Trevas a cada estudante que passa pela escola dele. Por isso tenha cuidado com o campeo de Durmstrang tambm.
        -        OK - disse Harry devagar. - Mas... voc est dizendo que Karkaroff ps meu nome no Clice? Porque se fez isso, ele  realmente um bom ator. Parecia 
furioso com o acontecido. Queria me impedir de competir.
        -        Sabemos que ele  um bom atr - respondeu Sirius - porque convenceu o Ministrio da Magia a libert-lo, no ? Agora, tenho
acompanhado o Profeta Dirio, Harry...
        -        Voc e o resto do mundo - disse o garoto com amargura.
        -        ... e lendo nas entrelinhas do artigo que aquela tal de Skeeter publicou no ms passado, Moody foi atacado na vspera de se apresentar para trabalhar 
em Hogwarts. , sei que ela diz que foi mais um alarme falso - acrescentou Sirius depressa, ao ver Harry fazer meno de falar -, mas tenho a impresso de que no 
foi. Acho que algum tentou impedi-lo de chegar a Hogwarts. Acho que algum sabia que seria muito mais difcil agir com ele por perto. E ningum vai investigar muito. 
Olho-Tonto andou ouvindo estranhos, vezes demais. Mas isto no significa que tenha se tornado incapaz de identificar a coisa verdadeira. Moody foi o melhor auror
que o Ministrio j teve.
        -        Ento... que  que voc est me dizendo? - perguntou o garoto hesitante. - Karkaroff vai tentar me matar? Mas... por qu?
        Sirius hesitou.
        -        Tenho ouvido coisas muito estranhas - disse pausadamente.
#266
- Os Comensais da Morte parecem andar um pouco mais ativos do
que o normal ultimamente. Mostraram-se publicamente na Copa
Mundial de Quadribol, no foi? Algum projetou a Marca Negra
no cu... e, alm disso, voc ouviu falar na bruxa do Ministrio da Magia que est desaparecida?
        -        Berta Jorkins?
        -        Exatamente... ela desapareceu na Albnia, e sem dvida foi l que diziam ter visto Voldemorr pela ltima vez... e ela saberia que
ia haver um Torneio Tribruxo, no ?
        -        , mas... no  muito provvel que ela tivesse dado de cara com Voldemort, ou ?
        -        Oua, eu conheci Berta Jorkins - disse Sirius srio. - Esteve em Hogwarrs no meu tempo, alguns anos mais adiantada do que seu pai e eu. E era uma
idiota. Muito bisbilhoteira, mas completamente desmiolada. No  uma boa combinao, Harry. Eu diria que ela poderia ser facilmente atraida para uma arapuca.
        -        Ento... ento Voldemort poderia ter descoberto tudo sobre o torneio?  isso que voc quer dizer? Voc acha que Karkaroff poderia estar aqui por
ordem dele?
        -        No sei - disse Sirius lentamente. - No sei... Karkaroff no me parece o tipo que voltaria para Voldemort a no ser que soubesse que o lorde teria
poder suficiente para proteg-lo. Mas quem pos o seu nome no Clice de Fogo fez isso de caso pensado, e no posso deixar de achar que o torneio seria uma boa ocasio
para atacar voc e fazer parecer que foi um acidente.
        -        At onde posso ver, parece um plano muito bom - disse Harry desolado. - S precisam sentar-se e esperar que os drages
faam o servio por eles.
        -        Certo... esses drages - disse Sirius, falando agora muito rapidamente. - Tem um jeito, Harry. No ceda  tentao de usar um Feitio Estuporante,
os drages so fortes, e tm demasiado poder mgico para serem nocauteados por um nico feitio.  preciso meia dzia de bruxos para dominar um drago...
        -        , eu sei, acabei de ver - disse Harry
        -        Mas voc pode dar conta sozinho - disse Sirius. - Tem um jeito e s precisa de um feitio simples. Basta...
        Mas Harry ergueu a mo para silenci-lo, seu corao disparara subitamente como se quisesse explodir. Ouvira passos que desciam a escada circular s costas 
dele.
- V! - sibilou Sirius. - V! Tem algum chegando!
        Harry levantou-se depressa, escondendo as chamas com o
corpo - se algum visse o rosto de Sirius entre as paredes de
#267
Hogwarrs, faria um estardalhao dos diabos - o Ministrio seria
chamado, ele, Harry, seria interrogado sobre o paradeiro de Sirius...
        O        garoto ouviu um estalido nas chamas atrs dele e soube que Sirius se fora - observou a escada circular -, quem teria resolvido dar um passeio a
uma hora da manh e impedira Sirius de lhe dizer como passar por um drago?
        Era Rony. Vestido com seu pijama marrom estampado de plumas, ele parou de chofre ao ver Harry
do lado oposto da sala e
olhou para os lados.
        -        Com quem voc estava falando? - perguntou.
        -        E isso  da sua conta? - rosnou Harry. - Que  que voc est fazendo aqui em baixo a essa hora da noite?
        -        Fiquei imaginando onde voc... e parou, encolhendo os ombros. - Nada, vou voltar para a cama.
        -        Achou que poderia vir bisbilhotar, no foi? - gritou Harry. Ele sabia que Rony sequer fazia idia do que encontraria, sabia que no fizera de propsito,
mas no estava ligando, naquele momento ele odiou tudo em Rony, at o pedao de tornozelo que aparecia por baixo das calas do pijama.
        -        Sinto muito - disse Rony, ficando vermelho de raiva. - Eu devia ter percebido que voc no queria ser perturbado. Vou deixar
voc continuar praticando em paz para a prxima entrevista.
        Harry apanhou um dos distintivos POTTER REALMENTE
FEDE da mesa e atirou-o com toda a fora para o outro lado da sala. O distintivo acertou Rony na testa e ele cambaleou.
        -        Toma - disse Harry. - Uma coisa para voc usar na terafeira. Quem sabe voc at arranja uma cicatriz agora, se tiver
sorte...  o que voc quer, no ?
        E atravessou a sala, decidido, em direo  escada; de certa forma esperou que Rony o detivesse, teria at gostado que ele lhe tivesse dado um soco, mas
ele ficou parado ali naquele pijama demasiado pequeno e Harry, tendo subido a escada furioso, ficou deitado na cama sem dormir, por muito tempo, mas no ouviu Rony
vir se deitar.
#268


*******


-        CAPTULO VINTE -
 A primeira tarefa


Harry levantou-se na manh de domingo e se vestiu to distraidamente que levou algum tempo para perceber que estava tentando calar o chapu no p em vez da meia.
Quando finalmente conseguiu pr cada pea de roupa na parte certa do corpo, saiu correndo  procura de Hermione, encontrando-a  mesa da Grifinria no Salo Principal,
onde ela tomava caf da manh com Gina. Sentindo-se demasiado enjoado para comer, Harry esperou at Hermione terminar a ltima colherada de mingau de aveia, depois
a arrastou para darem outro passeio. Nos jardins, contou-lhe tudo sobre os drages e tudo sobre o que Sirius dissera, durante o longo passeio  volta do lago.
        Mesmo alarmada com o que ouvia sobre os avisos de Sirius a
respeito de Karkaroff, a garota continuou achando que os drages
eram o problema mais premente.
        - Vamos s tentar manter voce vivo at a noite de tera-feira - disse desesperada -, depois podemos nos preocupar com Karkaroff.
        Deram trs voltas no lago, tentando pensar em um feitio simples para dominar o drago. Nada, porm, lhes ocorreu, de modo que se recolheram  biblioteca. 
Ali, Harry baixou cada livro que conseguiu encontrar sobre drages e os dois comearam a pesquisar uma grande pilha de livros.
        -        O corte mgico de unhas... o tratamento da podrido de escamas... isto no serve, isto  para gente biruta feito o Hagrid que
quer criar drages saudveis...
        "Os drages so extremamente difceis de matar, graas  magia muito antiga que impregna seu grosso couro, que nenhum, exceto os feitios mais poderosos
so capazes de penetrar... mas Sirius disse que
        um feitio simples funcionaria...
        "Vamos tentar alguns livros de feitios simples, ento", disse
Harry, deixando de lado Homens aficionados por drages.
#269
        Ele voltou  mesa com uma pilha de livros de feitios, descansou-os e comeou a folhear um a um, com Hermione cochichando
sem parar ao seu lado.
        -        Bom, tem Feitios de Substituio... mas qual  a vantagem de substituir um drago? A no ser que a pessoa substitua as presas dele por gengivas
ou outra coisa qualquer para torn-las inofensivas... o problema  que, como diz o livro, muito pouca coisa atravessa o couro de um drago... Eu diria: transfigure
o bicho, mas com uma coisa daquele tamanho, a gente realmente no tem a menor esperana, duvido at que a Profa Minerva... a no ser que a pessoa lance o feitio
nela mesma? Talvez dar a si mesma poderes extraordinrios? Mas isso no  um feitio simples, quero dizer, ainda no estudamos nenhum desses em aula, s sei que
existem porque ando fazendo provas simuladas para os N.O.M"s...
        -        Hermione - disse Harry entre dentes -, quer calar a boca um instante, por favor? Estou tentando me concentrar.
        Mas s o que aconteceu quando a garota se calou foi que o crebro de Harry se encheu com uma espcie de zumbido indistinto, que parecia no deixar espao 
para concentrao. Ele olhou desalentado para o ndice de Azara es bsicas para os ocupados e aflitos: escalpos instantneos... mas drages no tinham cabelos... 
bafo de pimenta... isso provavelmente aumentaria o poder de fogo do drago... lngua de espinhos... exatamente o que ele precisava, dar ao drago mais uma arma...
        -        Ah, no, l vem ele outra vez, por que  que ele no pode
ler naquele navio idiota - exclamou Hermione irritada, quando Vtor Krum entrou daquele
seu jeito curvado, lanou um olhar carrancudo para os dois e se sentou num canto distante com uma pilha de livros. - Vamos, Harry, vamos voltar para a sala comunal...
o fclube dele no vai demorar, chilreando sem parar...
        E no deu outra, quando iam saindo da biblioteca, um grupo
de garotas passou por eles nas pontas dos ps, uma delas usando
um leno da Bulgria amarrado  cintura.


Harry mal chegou a dormir quela noite. Quando acordou na manh de segunda-feira, ele pensou seriamente, pela primeira vez na
vida, em fugir de Hogwarrs. Mas quando correu o olhar pelo Salo
Principal, na hora do caf da manh, e pensou no que significava
abandonar o castelo, compreendeu que no poderia fazer isso. Era
#270
o        nico lugar em que fora feliz... bem, ele supunha que devia ter sido feliz em companhia dos pais, tambm, mas no seria capaz de lembrar.
        Por alguma razo, a conscincia de que preferia estar ali e ter de encarar um drago a voltar  rua dos Alfeneiros com Duda foi uma coisa boa; e fez com
que se sentisse ligeiramente mais calmo. Terminou de comer o bacon com esforo (a garganta no estava funcionando muito bem), e quando se levantou com Hermione, 
ele viu Cedrico Diggory deixando a mesa da Lufa-Lufa.
        Cedrico ainda no sabia dos drages... o nico campeo que
        no sabia, se Harry estivesse certo em pensar que Maxime e
        Karkaroff teriam informado a Fleur e Krum...
        -        Mione, vejo voc nas estufas - disse ele, tomando uma deciso ao ver Cedrico saindo do salo. - Vai andando, eu alcano
voc.
        -        Harry voc vai se atrasar, a sineta j vai tocar...
        -        Eu alcano voc, OK?
        Quando Harry chegou ao p da escadaria de mrmore, Cedrico j estava no topo. Ia acompanhado de um monte de amigos do sexto ano. Harry no queria falar com 
o campeo na frente deles; faziam parte do grupo que andara citando o artigo de Rita Skeeter, em voz alta, todas as vezes que ele se aproximava. Seguiu, ento, Cedrico 
 distncia e viu que o garoto ia em direo ao corredor da classe de Feitios. Isto deu a Harry uma idia. Parando a uma certa distncia deles, puxou a varinha
e mirou com cuidado.
-        Diffindo!
        A mochila de Cedrico se rompeu. Pergaminhos, penas e livros
        se espalharam pelo cho. Vrios tinteiros se quebraram.
        -        No se preocupem - disse Cedrico em tom irritado, quando os amigos se abaixaram para ajud-lo -, digam a Flitwick que estou
        chegando, vo indo...
        Isto era exatamente o que Harry esperava que acontecesse. Ele tornou a guardar a varinha nas vestes, esperou at que os amigos de Cedrico desaparecessem
na sala de aula e entrou depressa no corredor, agora vazio, exceto por ele e Cedrico.
        -        Oi - disse Cedrico, apanhando um exemplar de Um guia de transformao avanada, manchado de tinta. - Minha mochila
simplesmente se rompeu... nova em folha...
        -        Cedrico - disse Harry -, a primeira tarefa vo ser drages.
        -        Qu? - exclamou Cedrico, erguendo a cabea.
#271
        -        Drages - disse Harry depressa, caso o Prof. Flitwick sasse pala ver onde andava Cedrico. - So quatro, um para cada um de
ns, e vamos ter que passar por eles.
        Cedrico arregalou os olhos. Harry viu um pouco do pnico
que andara sentindo desde o sbado  noite passar pelos olhos cinzentos do colega.
        -        Tem certeza? - perguntou numa voz abafada.
        -        Absoluta. Eu vi.
        -        Mas como foi que voc descobriu? No devamos saber...
        -        No importa - disse Harry depressa, sabia que Hagrid estaria em apuros se ele dissesse a verdade. - Mas eu no sou o nico que sabe. Fleur e Krum
a essa hora tambm j sabem, Maxime e Karkaroff viram os drages, tambm.
        Cedrico se levantou, os braos cheios de penas, pergaminhos e livros sujos de tinta, a bolsa rasgada pendurada em um ombro. Fitou Harry atentamente e havia
uma expresso intrigada, quase desconfiada em seus olhos.
        -        Por que  que voc est me dizendo isso? - perguntou.
        Harry olhou-o sem acreditar. Tinha certeza de que Cedrico no faria uma pergunta dessas se ele prprio tivesse visto os drages. Harry no teria deixado
seu pior inimigo despreparado para enfrentar aqueles monstros - bom, talvez Malfoy ou Snape...
        -        No seria... justo, no acha? - disse ele a Cedrico. - Agora todos sabemos... estamos em p de igualdade, no ?
        Cedrico continuava a olhar o garoto com um ar ligeiramente desconfiado quando Harry ouviu um conhecido toque-toque as suas costas. Virou-se e viu Olho-Tonto
Moody saindo de uma sala prxima.
        -        Venha comigo, Potter - rosnou o professor. - Diggory, pode ir andando.
        Harry olhou preocupado para Moody. Ser que o professor
ouvira os dois?
        -        Hum... Professor, eu devia estar na aula de Herbologia...
        -        Esquea, Potter. Na minha sala, por favor...
        Harry acompanhou-o, se perguntando o que iria lhe acontecer agora. E se Moody quisesse saber como ele descobrira a
respeito dos drages? Ser que iria procurar Dumbledore e denunciar
Hagrid ou simplesmente transformar Harry numa doninha? Bom,
seria mais fcil passar por um drago se ele fosse uma doninha,
#272
pensou Harry sem emoo, ficaria bem menor, muito mais difcil de enxergar de uma altura de quinze metros...
Harry acompanhou Moody  sua sala. O professor fechou a
porta ao passarem e se virou para encarar Harry, o olho mgico fixo
nele ao mesmo tempo que o olho normal.
        -        Foi uma coisa muito decente o que voc acabou de fazer, Potter - disse Moody baixinho.
        O        garoto no soube o que responder; no era a reao que esperara.
        -        Sente-se - disse o professor, e o garoto se sentou, espiando para os lados.
        Visitara essa sala na poca dos seus dois ocupantes anteriores. Na do Prof. Lockhart, as paredes eram cobertas de fotos em que o professor sorria e piscava 
um olho. Quando Lupin a ocupara, era mais provvel a pessoa deparar com um espcime fascinante de alguma criatura das trevas que ele arranjara para os alunos estudarem 
em aula. Agora, no entanto, a sala estava apinhada com um nmero excepcional de objetos estranhos que, supunha Harry, Moody usara na poca em que fora auror.
        Sobre a escrivaninha havia algo que parecia um grande pio de vidro rachado; Harry reconheceu imediatamente o bisbilhoscpio, porque ele prprio era dono 
de um, embora muito menor do que o de Moody. A um canto, sobre uma mesinha, havia um objeto que lembrava uma antena dourada de televiso e no parava de girar. Zumbia 
levemente. Havia algo que lembrava um espelho pendurado na parede oposta a Harry, mas no refletia a sala. Vultos escuros se moviam por ele, nenhum realmente em 
foco.
        -        Gosta dos meus detectores de presena das trevas? - perguntou Moody, que observava Harry atentamente.
        -        Que  aquilo? - perguntou o garoto, apontando para a antena dourada de televiso.
        -        Sensor de segredos. Vibra quando detecta alguma coisa oculta ou falsa... no funciona aqui,  claro, h interferncia demais, estudantes para todos
os lados mentindo para justificar por que no fizeram os deveres. Anda zumbindo desde que cheguei. Tive que desligar o meu bisbilhoscpio porque ele no parava de
apitar. 
extra-sensvel, capta qualquer coisa num raio de um quilmetro e
meio. Naturalmente, poderia estar captando mais do que mentiras
infantis - acrescentou com um rosnado.
#273
        -        E para que serve o espelho?
        -        Ah,  o meu Espelho-de-Inimigos. Est vendo eles ali, rondando? No estou realmente em perigo at enxergar o branco dos
olhos deles.  a que abro o meu ba.
        Ele soltou uma gargalhada breve e rouca e apontou para um grande ba sob uma janela. Tinha sete fechaduras alinhadas. Harry ficou imaginando o que haveria 
ali, at que a pergunta seguinte do professor o trouxe bruscamente  terra.
        -        Ento... descobriu a respeito dos drages?
        Harry hesitou. Receara isso - mas no contara a Cedrico e certamente no iria contar a Moody que Hagrid infringira o regulamento.
        -        Tudo bem - disse Moody, sentando-se e esticando a perna de pau com um gemido. - Tradicionalmente trapacear sempre fez
parte do Torneio Tribruxo.
        -        Eu no trapaceei - disse Harry com veemncia. - Foi... descobri meio por acaso.
        Moody sorriu.
        - No estou acusando-o, menino. Venho dizendo a Dumbledore, desde o comeo, que ele pode ter os princpios elevados que quiser, mas pode apostar que o velho
Karkaroff e Maxime no os tero. Devem ter dito aos seus campees tudo o que puderam. Querem ganhar. Querem vencer Dumbledore. Gostariam de provar que ele  apenas 
humano.
        Moody deu aquela sua risada rouca e seu olho mgico girou
to rpido que fez Harry se sentir tonto s de ver.
        -        Ento... j tem alguma idia de como vai conseguir passar pelo drago? - perguntou Moody.
        -No.
        -        Bom, eu no vou lhe dizer - afirmou o professor com rispidez -, no demonstro favoritismos, eu. Mas vou-lhe dar uns bons
conselhos de ordem geral. O primeiro : explore os seus pontos fortes.
        -        No tenho pontos fortes - disse Harry, antes que pudesse se conter.
        - Perdo - rosnou Moody -, voc tem pontos fortes se eu digo que os tem. Pense um pouco. Que  que voc sabe fazer melhor?
        Harry tentou se concentrar. No que  que ele era melhor?
Bom, isso era realmente fcil...
#274
        -        Quadribol - disse sem emoo -  uma grande ajuda...
        -        Certo - disse Moody mirando-o com muita severidade, o olho mgico mal se mexendo. - Voc  um grande piloto, pelo que
ouvi falar.
        -        , mas... - Harry encarou-o. - Mas no posso usar a vassoura, s tenho a varinha...
        -        Meu segundo conselho de ordem geral - disse Moody em voz alta, interrompendo-o -  usar um feitio bom e simples que
lhe permita conseguir o que precisa.
Harry olhou para ele sem entender. Do que  que precisava?
        -        Vamos, moleque... - sussurrou Moody. - Some dois mais dois... no  to difcil assim...
E fez-se a luz. O que ele fazia melhor era voar. Precisava passar
pelo drago pelo ar. Para isso, precisava da Firebolt. E para ter a
Firebolr ele precisava...
        -        Mione - murmurou Harry, depois de correr para a estufa trs minutos mais tarde, e balbuciar uma desculpa ao passar pela Profa
Sprout -, Mione, preciso de sua ajuda.
        -        Que  que voc acha que estive tentando fazer, Harry? - murmurou ela em resposta, os olhos arregalados de ansiedade por
cima de um agitado arbusto tremulante que estava podando.
        -        Mione, preciso aprender a fazer um Feitio Convocarrio corretamente at amanh de tarde.

E assim os dois treinaram. No almoaram, em vez disso foram para uma sala de aula vazia, onde Harry tentou com todo o empenho fazer vrios objetos voarem pela sala
at ele. Ainda no estava bom. Os livros e penas continuavam a perder o embalo no meio da sala e cair como pedras no cho.
        -        Concentre-se, Harry, concentre-se...
        -        Que  que voc acha que eu estou tentando fazer? - perguntou Harry zangado. - Uma porcaria de um dragozo no pra de aparecer na minha cabea,
sei l o porqu... OK, Mione, tenta outra vez...
        Ele queria faltar  aula de Adivinhao para continuar treinando, mas Hermione se recusou
categoricamente a matar a aula de
Arirmancia, e no adiantava
ficar l sem ela. Portanto, Harry teve que aturar mais de uma hora a Profa Sibila Trelawney, que passou
#275
metade desse tempo dizendo a todos que a posio de Marte com relao a Saturno, naquele momento, significava que as pessoas nascidas em julho corriam um grande
perigo de sofrer uma morte sbita e violenta.
        -        Que bom - disse Harry em voz alta, a raiva levando a melhor -, desde que no seja demorada, porque no quero sofrer.
        Por um momento pareceu que Rony ia rir; sem dvida seu olhar encontrou o de Harry pela primeira vez em dias, mas este continuava muito magoado com o amigo
para se importar. Harry passou o resto da aula tentando atrair, com a varinha, pequenos objetos para si, por baixo da mesa. Conseguiu fazer uma mosca disparar direto
para a sua mo, embora no tivesse total certeza de que aquilo resultasse de sua percia com os Feitios Convocatrios - talvez a mosca fosse apenas burra.
        Ele forou um pouco de jantar para dentro depois da aula de Adivinhao, e em seguida voltou  sala vazia com Hermione, usando a Capa da Invisibilidade para
evitar os professores. Os dois continuaram a treinar at depois da meia-noite. Teriam demorado mais, mas Pirraa apareceu e, fingindo achar que Harry queria que
lhe atirassem coisas, comeou a arremessar cadeiras pela sala. Os dois garotos tiveram que sair depressa antes que o barulho atrasse Filch, e voltaram  sala comunal
da Grifinria, que quela hora felizmente estava vazia.
        s duas da manh, Harry estava ao p da lareira, cercado por uma montanha de objetos - livros, penas, vrias cadeiras viradas, um velho jogo de bexigas e
o sapo de Nevilie, Trevo. Somente na ltima hora ele, realmente, pegara o jeito dos Feitios Convocatrios.
        -        Est melhor, Harry, est muito melhor - disse Hermione, parecendo exausta, porm muito satisfeita.
        -        Bom, agora sabemos o que fazer na prxima vez que nao conseguirmos lanar um feitio - disse Harry, atirando um dicionrio de runas para Hermione,
para que pudesse tentar mais uma vez -, me ameace com um drago. Certo... - Ele ergueu a varinha novamente. - Accio dicionrio!
        O        pesado livro voou da mo de Hermione, atravessou a sala e
 Harry o aparou.
        -        Harry, sinceramente acho que voc pegou o jeito! - exclamou a garota, encantada.
#276
        -        Desde que funcione amanh - disse Harry. - A Firebolr vai estar muito mais longe do que essas coisas aqui, vai estar no castelo e eu vou estar l
fora nos jardins...
        -        No faz diferena - disse Hermione com firmeza. - Desde que voc se concentre para valer, realmente para valer, ela chega l.
Harry,  melhor dormirmos um pouco... voc vai precisar estar descansado.

Harry se concentrara com tanto empenho para aprender os Feitios Convocatrios aquela noite que parte do seu pnico irracional o deixara. Voltou, contudo, com fora
total, na manh seguinte. A atmosfera na escola era de grande tenso e excitao. As aulas iam ser interrompidas ao meio-dia, dando a todos os estudantes tempo para 
descer at o cercado dos drages - embora,  claro, eles ainda no soubessem o que encontrariam l.
        Harry se sentiu estranhamente isolado de todos  sua volta,
tanto dos que lhe desejavam boa sorte quanto dos que o vaiavam.
        -        Vamos levar uma caixa de lenos de papel, Potter - diziam ao passar.
        Era um nervosismo to intenso que ele ficou imaginando se
poderia perder a cabea quando tentassem conduzi-lo ao drago e
ele comeasse a xingar todo mundo que estivesse  vista.
        O        tempo estava mais esquisito que nunca, transcorria em grandes lapsos, de modo que num momento Harry estava sentado assistindo  primeira aula, Histria
da Magia, e, no momento seguinte, saindo para almoar... depois (aonde fora a manh? As ltimas horas sem drago?) a Profa Minerva corria para ele no Salo Principal.
Um monto de gente estava olhando.
        -        Potter, os campees tm que descer para os jardins agora... voc tem que se preparar para a primeira tarefa.
        -        OK - disse Harry, se levantando e deixando cair o garfo no prato, com estrpito.
        -        Boa sorte - sussurrou Hermione. - Voc vai se sair bem!
        - Ah, vou! - exclamou Harry, com uma voz que nem parecia a dele.
         O        garoto deixou o Salo Principal com a Profa Minerva, que
tambm no parecia a pessoa de sempre; de fato, parecia quase to
#277
ansiosa quanto Hermione. Ao conduzi-lo pelos degraus de pedra para a fria tarde de novembro, ela ps a mo no ombro do garoto.
        -        Agora, no entre em pnico - disse ela -, mantenha a cabea fria... temos bruxos  mo para resolver a situao se ela se descontrolar... o principal 
 voc fazer o melhor que puder e ningum vai passar a pensar mal de voc por isso... voc est bem?
-        Estou - Harry ouviu-se dizendo. - Estou timo.
        Ela o conduzia ao lugar onde estavam os drages, margeando a Floresta, mas quando se aproximaram do arvoredo por trs do
qual o cercado estaria claramente visvel, Harry viu que haviam armado uma barraca, com
a entrada voltada para quem chegava, que impe dia a viso dos drages.
        -        Voc deve entrar a com os outros campees - disse a Profp McGonagall, com a voz um tanto trmula - e esperar a sua vez, Potter. O Sr. Bagman est
a dentro... ele lhe dir como... proceder... boa sorte.
        -        Obrigado - disse Harry, numa voz distante e sem emoo. A professora o deixou  entrada da barraca. Ele entrou.
        Fleur Delacour estava sentada a um canto, em um banquinho baixo de madeira. No parecia nem de longe a garota habitualmente composta, parecia um tanto plida
e suada. Vtor Krum parecia ainda mais carrancudo do que de hbito, o que fez Harry supor que aquela era a sua maneira de demonstrar nervosismo. Cedrico andava para
l e para c. Quando Harry entrou, ele deu ao garoto um breve sorriso, que Harry retribuiu, sentindo os msculos do rosto fazerem muita fora como se no soubessem
mais sorrir.
        -        Harry! Que bom! - exclamou Bagman alegremente,
virando-se para olh-lo. - Entre, entre, fique  vontade!
        Bagman por alguma razo parecia um personagem de quadrinhos grande demais, parado ali entre os campees plidos. Trajava
as antigas vestes do Wasp.
        -        Bom, agora estamos todos aqui, hora de dar a vocs informaes mais detalhadas! - disse ele animado. - Quando os espectadores acabarem de chegar,
vou oferecer a cada um de vocs este saco
- ele mostrou um saquinho de seda prpura e sacudiu-o diante dos garotos -, do qual vocs iro tirar uma miniatura da coisa que tero
de enfrentar! So diferentes... hum... as variedades, entendem. E
preciso dizer mais uma coisa... ah, sim... sua tarefa ser apanhar o
ovo de ouro!
#278
        Harry olhou  sua volta. Cedrico acenou a cabea para indicar que compreendera as palavras de Bagman, e ento recomeara a andar pela barraca; parecia ligeiramente
esverdeado. Fleur Delacour e Krum no tiveram a menor reao. Talvez achassem que iriam vomitar se abrissem a boca; sem dvida essa era a sensao do prprio Harry. 
Mas pelo menos os outros tinham se voluntariado para ser campeoes...
        E pouco depois, ouviram-se centenas e mais centenas de ps passando pela barraca, seus donos excitados, dando risadas e fazendo piadas... Harry se sentiu 
to isolado da multido como se pertencesse a uma espcie diferente. Ento - lhe pareceu que transcorrera apenas um segundo - Bagman estava abrindo a boca do saquinho
prpura.
        -        Primeiro as damas - disse ele, oferecendo-o a Fleur Delacour. Ela enfiou a mo trmula no saquinho e retirou uma minscula e perfeita figurinha
de drago - um Verde-Gals. Tinha o nmero "dois" pendurado ao pescoo. E Harry percebeu, pelo fato de Fleur no ter demonstrado o menor sinal de surpresa, mas,
ao contrrio, uma decidida resignao, que ele conclura certo: Madame Maxime contara  garota o que a aguardava.
        O        mesmo se aplicava a Krum. Ele tirou o Meteoro-Chins vermelho. Tinha o nmero "trs" pendurado ao pescoo. Ele sequer
        piscou, apenas olhou para o cho.
        Cedrico enfiou a mo no saquinho e retirou o Focinho-Curto sueco cinza-azulado, o nmero "umpp pendurado a o pescoo. Sabendo o que sobrara, Harry meteu
a mo no saquinho de seda e tirou o Rabo-Crneo hngaro e o nmero "quatro". O drago abriu as asas quando o garoto o olhou e arreganhou os dentes minsculos.
        -        Bom, ento est decidido! - disse Bagman. - Cada um de vocs sorteou o drago que ir enfrentar e a ordem em que cada um far isso, entendem? Agora,
vou precisar deix-los por um momento, porque vou fazer a irradiao. Sr. Diggory o senhor  o primeiro, s o que tem a fazer  entrar no cercado quando ouvir o
apito, certo? Agora... Harry... Posso dar uma palavrinha com voc? L fora?
        -        Hum... sim senhor - disse Harry sem emoo e se levantou e saiu da barraca com Bagman, que andou uma pequena distncia
        -       
        at o arvoredo e se virou, ento, para o garoto com uma expressao
        paternal no rosto.
 #279
        -        Est se sentindo bem, Harry? Posso buscar alguma coisa
para voc?
        -        Qu? No... no, nada.
        -        Voc tem um plano? - disse Bagman, baixando a voz como se conspirasse. - Porque no me importo de lhe dar algumas
dicas. se quiser, sabe. Quero dizer
- continuou Bagman baixando anda mais a voz - voc  a vtima aqui, Harry... qualquer coisa que eu puder fazer para ajudar...
        - No - disse Harry, to depressa que percebeu imediaramente que parecera grosseiro - no... eu... eu j decidi o que vou
fazer,
obrigado.
        -        Ningum iria saber, Harry - disse Bagman com uma piscadela.
        -        No, estou timo - respondeu o garoto se perguntando po que no parava de dizer isso a todo mundo e se algum dia
estivera
to longe do timo. - J tenho um plano, eu...
Um apito soou em algum lugar.
        -        Meu bom Deus, tenho que correr! - disse Bagman assustado. e saiu com pressa.
        Harry voltou  barraca e viu Cedrico saindo, mais verde que
nunca. Harry tentou desejar boa sorte quando ele passou, mas o
que saiu de sua boca foi uma espcie de rosnado rouco.
        Harry voltou para a companhia de Fleur e Krum. Segundos mais tarde, ouviu os berros dos espectadores, o que significava qw Cedrico entrara no cercado, e
agora estava cara a cara com o modelo vivo de sua figurinha...
        Foi pior do que Harry poderia ter imaginado, ficar sentado ali escutando. A multido gritava... urrava... exclamava como uma entidade nica de muitas cabeas,
enquanto Cedrico fazia o qu quer que estivesse fazendo para tentar passar pelo Focinho-Curto sueco. Krum continuava a olhar para o cho. Fleur agora passara a refazer
os passos de Cedrico, dando voltas na barraca. E os comentrios de Bagman tornavam tudo muito pior... imagens horrendas se formaram na mente de Harry, quando ele
ouviu: "Aaah, por um triz, por muito pouco"... "Ele est se arriscando, o campeo!"... "Boa tentativa - pena que no deu resultado!"
        Ento, uns quinze minutos depois, Harry ouviu um urro ensurdecedor que s poderia significar uma coisa: Cedrico conseguira passar pelo drago e se apoderara
do ovo de ouro.
#280
        -        Realmente muito bom! - gritou Bagman. - E agora as notas dos juizes!
        Mas ele no irradiou as notas; Harry sups que os juizes estivessem erguendo as notas no alto para mostr-las  multido.
        -        Um a menos, faltam trs! - berrou Bagman, quando o apito tornou a tocar. - Senhorita Delacour, queira fazer o favor!
        Fleur tremia da cabea aos ps; Harry sentiu mais simpatia por
ela do que sentira at ento, quando a viu deixando a barraca com
a cabea erguida e a mo apertando a varinha. Ele e Krum ficaram
a ss, em lados opostos da barraca, evitando se olhar. Recomeou o mesmo processo...
        -        Ah, no tenho muita certeza se isto foi sensato! - os dois ouviam Bagman dizer animadamente. - Ah... quase! Cuidado
agora... meu bom Deus, pensei que j tinha apanhado!
        Dez minutos depois, Harry ouviu a multido prorromper em aplausos mais uma vez... Fleur devia ter sido bem-sucedida tambm. Uma pausa, enquanto os juizes
mostravam as notas de Fleur... mais palmas... ento, pela terceira vez, o apito.
        -        E a vem o Sr. Krum! - exclamou Bagman e o garoto saiu curvado, deixando Harry completamente s.
        Sentia-se muito mais consciente do seu corpo do que normalmente; consciente de que seu corao batia acelerado e seus dedos formigavam de medo... mas, ao
mesmo tempo, ele parecia estar fora do prprio corpo, vendo as paredes da barraca e ouvindo a multido, como se estivesse muito longe...
        -        Muito ousado! - berrava Bagman e Harry ouviu o MeteoroChins soltar um poderoso e terrvel urro, enquanto a multido prendia a respirao em unssono.
- Que sangue-frio ele est demonstrando... e... sim, senhores, ele apanhou o ovo!
        Os aplausos romperam o ar invernal como se espatifassem uma
vidraa; Krum terminara - seria a vez de Harry a qualquer momento.
        Harry se levantou, reparando vagamente que suas pernas pareciam feitas de
marshmalow. Ele aguardou. Ento ouviu o apito tocar. Cruzou, ento, a entrada da
barraca, o pnico se avolumando dentro dele. E agora, estava passando pelas rvores e atravessando uma abertura na cerca.
        O        garoto via tudo diante de si como em um sonho berrantemente 
colorido. Havia centenas e mais centenas de rostos nas arquibancadas que o 
olhavam, que tinham se materializado desde
#281
a ltima vez que ele estivera naquele lugar. E havia o Rabo-Crne do outro lado do cercado, deitado sobre sua ninhada de ovos, a asas meio fechadas, os olhos amarelos
e malignos fixos nele, um lagarto negro, monstruoso e coberto de escamas, sacudindo com fora o rabo de chifres, que deixava marcas de um metro de
comprimento
escavadas no cho duro. A multido fazia uma barulheira
infernal, mas se era simptica ou no a ele, Harry no sabia nem
importava. Era hora de fazer o que tinha de fazer... focalizar a mente, inteira e absolutamente, na coisa que era sua nica chance...
        Ele ergueu a varinha.
- Accio Firebolt!- gritou.
        Ento, esperou, cada fibra de seu corpo desejando, pedindo... se no funcionasse... se no estivesse a caminho... ele parecia contemplar as coisas  sua
volta atravs de uma barreira transparente luminosa, como uma nvoa de vapor quente, que fazia as
centenas de rostos que o rodeavam flutuar estranhamente...
        Ento ele a ouviu, cortando o ar s suas costas; ele se virou e
a Firebolr disparando em sua direo, comeando a sobrevoar a floresta, chegando ao cercado e estacando imvel no ar,
aguardando que ele a montasse. A multido
fez ainda mais estardalhao.. Bagman gritou alguma coisa... mas os ouvidos de Harry no esta vam mais ouvindo bem... ouvir no era importante...
        Ele passou a perna por cima da vassoura e deu impulso contra
o        cho. Um segundo depois, uma coisa milagrosa aconteceu...
         medida que ele ganhava altura,  medida que o vento passa va rumorejando entre seus cabelos,  medida que os rostos da
mul rido se transformavam em meros
pontinhos cor-de-carne l em baixo e o Rabo-Crneo se reduzia ao tamanho de um co, ele percebeu que deixara atrs de si, no somente o cho, mas tambm medo...
ele estava de volta ao lugar a que pertencia...
        Era apenas mais uma partida de quadribol, nada mais... apenas
mais uma partida de quadribol, e aquele drago era apenas mais
um time adversrio indigesto...
        Ele olhou para a ninhada de ovos e localizou o ovo de ouro brilhando entre os demais cor de cimento, agrupados em
segurana entre as pernas dianteiras do bicho.
       - OK - Harry disse a si mesmo -, uma ttica diversva..
vamos...
        E mergulhou. A cabea do Rabo-Crneo o acompanhou;
 #282
o garoto sabia o que ia fazer, e se recuperou do mergulho bem na hora; um jorro de fogo fora cuspido exatamente no ponto em que ele estaria se no tivesse se desviado...
mas Harry no se importou... aquilo era o mesmo que se desviar de um balao...
        - Nossa, como ele sabe voar! - berrou Bagman, enquanto a multido gritava e exclamava. - O senhor est assistindo a isso, Sr.
Krum?
        Harry voou mais alto descrevendo um crculo; o Rabo-Crneo continuava acompanhando o progresso do garoto; sua cabea girava sobre o longo pescoo - se continuasse
a fazer isso, ia ficar bem enjoadinho -, mas era melhor no insistir muito ou o bicho iria recomear a cuspir fogo...
        Harry se deixou afundar rapidamente na hora em que o drago abriu a boca, mas desta vez teve menos sorte - ele escapou das chamas, mas o bicho chicoteou
o rabo para o alto ao seu encontro, e quando ele virou para a esquerda, um dos longos chifres arranhou seu ombro, rasgando suas vestes...
        Harry sentiu o ombro arder, ouviu os gritos e gemidos da multido, mas o corte no parecia ser muito fundo... agora, ao passar veloz pelas costas do Rabo-Crneo
ocorreu-lhe uma possibilidade...
        O drago no parecia estar querendo voar, estava demasiado preocupado em proteger os ovos. Embora se contorcesse e abrisse e fechasse as asas sem tirar aqueles
medonhos olhos amarelos de Harry, tinha medo de se afastar demais de sua ninhada... mas o garoto precisava persuadi-lo a fazer isso ou jamais chegaria perto deles...
o truque era fazer isso cautelosamente, gradualmente...
        Harry comeou a voar, primeiro para um lado, depois para o outro, suficientemente longe para o bafo do bicho no o perfurar, mas, ainda assim, oferecendo
uma ameaa suficientemente forte para o drago no tirar os olhos dele. A cabea do bicho virava para um lado e para o outro, vigiando o garoto com aquelas pupilas
verticais, as presas  mostra...
        Harry voou mais alto. A cabea do Rabo-Crneo se ergueu
com ele, o pescoo agora esticava-se ao mximo, ainda se movendo, como uma serpente diante do seu encantador...
        O        garoto subiu mais alguns palmos, e o bicho soltou um rugido de exasperao. Harry era uma mosca para ele, uma mosca que
o bicho gostaria de amassar; seu rabo tornou a chicotear, mas Harry estava demasiado alto para que pudesse alcan-lo... o
#283
drago cuspiu fogo para o ar, Harry se desviou... as mandbulas do bicho se escancararam...
        -        Anda - sibilou Harry, fazendo voltas irresistveis no alto -, anda, vem me pegar... levanta, agora...
        Ento o drago se empinou, abrindo finalmente as poderosas asas negras de couro, grandes como as de uma avioneta - e Harry mergulhou. Antes que o drago
percebesse o que ele fizera, ou onde desaparecera, o garoto estava voando a toda velocidade para o cho em direo aos ovos, agora sem a proteo das patas com garras
do drago - Harry soltou as mos da Firebolt -, agarrou o ovo de ouro...
        E, com um grande arranco, tornou a subir e parou no ar, sobre as arquibancadas, o pesado ovo bem preso sob o brao bom, e era como se algum tivesse acabado
de aumentar o volume do som - pela primeira vez ele tomou realmente conscincia do barulho da multido, que gritava e aplaudia com tanto estardalhao quanto os torcedores
dos irlandeses na Copa Mundial...
Olhem s para isso! - berrava Ludo Bagman. - Por favor
olhem para isso! Nosso campeo mais jovem foi o mais rpido a
apanhar o ovo! Bom, isto vai diminuir a desvantagem do Sr. Potter!
        Harry viu os guardadores de drages se adiantarem correndo para dominar o bicho, e l na entrada do cercado, a Profa McGonagal, o Prof. Moody e Hagrid corriam
ao seu encontro, todos acenando para que fosse ter com eles, seus sorrisos visiveis mesmo quela distncia. Ele tornou a sobrevoar as arquibancadas, a algazarra
da multido batucando seus tmpanos, e desceu suavemente para pousar, o corao mais leve do que estivera em semanas... conseguira cumprir a primeira tarefa, sobrevivera...
        -        Foi excelente, Potter! - exclamou a Profa McGonagall quando ele desmontou a Firebolt, o que vindo dela era um elogio extravagante. Harry reparou
que a mo da professora tremia quando apontou para o seu ombro. - Vai precisar procurar Madame Pomfrey antes que os juizes anunciem sua nota... ali, ela j teve
que fazer um curativo em Diggory...
        -        Voc conseguiu, Harry! - exclamou Hagrid rouco. - Voc conseguiu! E ainda por cima contra o
Rabo-Crneo e, sabe, o Carlinhos disse que esse era o
pior...
       Obrigado, Hagrid - disse Harry em voz alta, para que o
bruxo no se atrapalhasse e acabasse revelando que, na vspera,
mostrara ao garoto os drages.
#284
        O        Prof. Moody parecia muito satisfeito, tambm; seu olho mgico danava na
rbita.
        -        Devagar se vai ao longe, Potter - rosnou ele.
        -        Certo ento, Potter, para a barraca de primeiros-socorros, faz favor... - disse a Profa Minerva McGonagall.
        Harry saiu do cercado ainda ofegante e viu Madame Pomfrey
        parada  entrada da segunda barraca com ar preocupado.
        -        Drages! - exclamou ela com a voz desgostosa, puxando Harry para dentro. A barraca era dividida em cubiculos; ele viu a silhueta de Cedrico atravs
da lona, mas o campeo no parecia muito machucado; pelo menos estava sentado. 
Madame Pomfrey examinou o ombro de Harry, falando nervosamente, sem parar, o tempo
todo. - No ano passado foram os dementadores, este ano so os drages, que  mais que vo trazer para a escola? Voc teve muita sorte... o corte  bem superficial...
mas ser preciso limp-lo antes de fechar...
        Ela limpou o corte com uma pelota de algodo molhada em liquido prpura que fumegava e ardia, mas depois tocou o ombro dele
        com a varinha e o garoto sentiu o corte se fechar instantaneamente.
        -        Agora se sente quieto um minuto, sente-se! Depois pode ir receber a sua nota.
        A enfermeira saiu apressada da barraca e ele a ouviu entrar na
        porta vizinha e dizer:
        -        Como  que voc est se sentindo agora, Diggory?
        Harry no queria ficar sentado imvel; continuava cheio de adrenalina. Levantou-se, querendo ver o que estava acontecendo l fora, mas antes que chegasse
 entrada da barraca, duas pessoas entraram em disparada - Hermione, seguida de perto por Rony.
        -        Harry, voc foi genial! - exclamou Hermione em voz alta e fina. Tinha marcas de unhas no rosto, que ela andara apertando de
        medo. - Voc foi fantstico! Realmente foi!
        Mas Harry tinha os olhos em Rony, que estava muito branco e
        olhava fixamente para o amigo como se visse um fantasma.
        -        Harry - disse ele muito srio -, quem quer que tenha posto o seu nome naquele clice, eu... eu reconheo que estava tentando acabar com voc!
        Foi como se as ltimas semanas jamais tivessem acontecido -
        como se Harry estivesse encontrando Rony pela primeira vez, logo
        depois de ter sido escolhido campeo.
 #285
        -        Entendeu, foi? - disse Harry com frieza. - Demorou.
        Hermione estava parada e nervosa entre os dois, olhando de um para outro. Rony abriu a boca, inseguro. Harry sabia que ele ia se desculpar e, de repente,
descobriu que no precisava ouvir desculpas.
        -        OK - disse, antes que Rony pudesse falar. - Esquece.
        -        No - disse Rony -, eu no devia ter...
-        Esquece.
        Rony riu nervoso para Harry e este retribuiu o sorriso.
        Hermione caiu no choro.
        -        No tem motivo para chorar - disse Harry espantado.
        -        Vocs dois so to burros! - exclamou ela, batendo o p no cho, as lgrimas caindo nas vestes. Ento, antes que qualquer dos dois pudesse impedi-la,
a garota os abraou e saiu correndo, agora decididamente aos berros.
        -        Maluca - concluiu Rony, balanando a cabea. - Harry, anda, eles vo anunciar as suas notas...
        Recolhendo o ovo de ouro e a Firebolr, sentindo-se mais eufrico do que teria acreditado possvel uma hora atrs, Harry se abaixou para sair da barraca,
Rony a seu lado, falando depressa.
        -        Voc foi o melhor, sabe, ningum foi preo para voc.
Cedrico fez uma coisa estranha, transfigurou uma pedra no cho... transformou-a em cachorro...
estava tentando fazer o drago avanar no cachorro e no nele. Bem, foi uma transfigurao legal, e at funcionou, porque ele apanhou o ovo, mas ele tambm se queimou,
o drago mudou de idia no meio do caminho e decidiu que preferia pegar ele em vez do labrador, Cedrico escapou por um triz. E a tal Fleur tentou uma espcie de
feitio, acho que estava querendo fazer o drago entrar em transe, bom, isso 
tambm funcionou, o bicho ficou sonolento, mas a soltou um ronco e cuspiu um grande 
jorro de chamas e a saia dela pegou fogo, ela apagou com unp pouco de gua tirada 
da varinha. E Krum, voc no vai acreditar, mas ele nem pensou em voar! Mas,
provavelmente, foi o melhor depois de voc. Atacou o drago com um feitio bem no olho.
S teve um problema, o bicho saiu andando agoniado e amassou
 metade dos ovos de verdade, ele perdeu pontos por causa disso,
        Krum no devia ter danificado a ninhada.
        Rony respirou fundo quando os dois chegaram ao cercado.
#286
Agora que o Rabo-Crneo fora levado, Harry pde ver onde os cinco juizes estavam sentados - bem na outra extremidade, em assentos altos cobertos de tecido dourado.
        -        Cada um d notas de um a dez - explicou Rony, e Harry, apurando os olhos na direo do campo, viu o primeiro juiz, Madame Maxime, erguer a varinha
no ar. Dela saiu uma comprida fita prateada que desenhou um grande oito no ar.
        -        Nada mal! - disse Rony, enquanto a multido aplaudia. - Suponho que tenha descontado pontos pelo seu ferimento no
ombro...
        O        Sr. Crouch foi o seguinte. Lanou um nmero nove no ar.
        -        Est indo bem! - berrou Rony, batendo nas costas de Harry.
        Depois, Dumbledore. Ele tambm projetou um nove. A multido aplaudia com mais entusiasmo que nunca.
        Ludo Bagman - dez.
        -        Dez? - disse Harry incrdulo. Mas... eu me machuquei... qual  a dele?
        -        Harry, no reclama! - berrou Rony excitado.
        E agora Karkaroff erguia a varinha. Parou um momento e em
seguida saiu um nmero de sua varinha tambm - quatro.
        -        Qu?- bradou Rony furioso. - Quatro? Seu bosta desonesto, voc deu dez ao Krum!
        Mas Harry no se importou, no teria se importado se Karkaroff lhe desse zero; a indignao de Rony por sua causa valia uns cem pontos para ele. No disse
isso ao amigo,  claro, mas seu corao estava mais leve do que o ar quando ele deu meia-volta para se retirar do cercado. E no foi apenas Rony... no foram apenas
os alunos da Grifinria que aplaudiram no meio da multido. Quando chegara a hora, quando viram o que Harry precisava enfrentar, a maioria da escola tinha ficado
do seu lado e do de Cedrico tambm... ele no se importava com os alunos da Sonserina, podia suportar o que quer que lhe dissessem.
        -        Vocs esto empatados no primeiro lugar, Harry! Voc e Krum! - disse Carlinhos Weasley, correndo ao encontro deles quando os garotos voltavam 
escola. - Escutem, tenho que correr, tenho que mandar uma coruja  mame, jurei que contaria a ela o
que acontecesse, mas foi inacreditvel! Ah, foi, e me mandaram lhe 
avisar que voc precisa ficar por aqui mais uns minutinhos... Bagman quer falar com voc na
barraca dos campees.
#287
        Rony disse que esperaria, de modo que Harry tornou a entrar na barraca, que, de algum modo parecia diferente agora; simptica e hospitaleira. Ele lembrou
a sensao que tivera no momento que procurava fugir do Rabo-Cmeo e comparou-a  longa espera antes de sair para enfrent-lo... no havia comparao, a espera fora 
imensuravelmente pior.
        Fleur, Cedrico e Krum entraram juntos.
        Um lado da cabea de Cedrico estava coberto com uma grossa
pasta laranja, que presumivelmente estava curando sua queimadura. Ele sorriu para Harry ao v-lo,
        -        Foi legal, Harry.
        -        Voc tambm - disse o garoto retribuindo o sorriso.
        -        Muito bons, todos vocs! - disse Ludo Bagman, entrando lpido na barraca e parecendo satisfeito como se ele
prprio tivesse iludido a guarda de
um drago. - Agora, s umas palavrinhas. Vocs tm um bom intervalo at a segunda tarefa, que ter lugar s nove e meia da manh de 24 de fevereiro, mas vamos lhes
dar alguma coisa em que pensar durante esse tempo! Se examinarem os ovos de ouro que esto segurando, vero que eles se abrem... esto vendo as dobradias? Vocs
precisam decifrar a pista que est dentro do ovo, porque ela dir qual vai ser a segunda tarefa e permitir que se preparem! Ficou claro? Tm certeza? Podem ir,
ento!
        Harry deixou a barraca, tornou a se juntar a Rony e os dois recomearam a andar costeando a floresta, conversando animados; Harry queria saber com maiores
detalhes o que os outros campees tinham feito. Depois, quando contornavam o arvoredo, atrs do qual Harry ouvira os drages rugirem pela primeira vez, uma bruxa
saltou do meio das rvores.
        Era Rita Skeeter. Usava hoje vestes verde-cido; a pena-de
repetio-rpida na mo se mesclava perfeitamente com as vestes.
        -        Parabns, Harry! - disse ela, rindo radiante para o garoto. Ser que voc pode me dar uma palavrinha? Como foi que voc
se sentiu enfrentando aquele
drago? Como  que voc se sente agora quanto  lisura das notas?
        -        Posso dar uma palavrinha, sim - disse Harry com selvageria
-        Tchau.
        E saiu com Rony em direo ao castelo.
#288

*****


- CAPTULO VINTE E UM -
A Frente de Liberao
dos Elfos Domsticos


Harry, Rony e Hermione foram ao corujal naquela noite  procura de Pichitinho para Harry poder enviar uma carta a Sirius, contando-lhe que conseguira passar ileso
pelo drago. No caminho, Harry ps Rony a par de tudo que Sirius lhe informara sobre Karkaroff Embora, de incio, Rony tivesse se chocado em saber que o bruxo fora
um Comensal da Morte, na altura em que chegaram ao corujal ele j estava dizendo que os trs deviam ter desconfiado disso o tempo todo.
        - Se encaixa direitinho, no ! - disse ele. - Voc se lembra do que Malfoy disse no trem, que o pai dele era amigo de Karkaroff?
hora a gente j sabe onde se conheceram. Provavelmente estavam correndo mascarados na Copa Mundial... Mas vou dizer uma coisa, Harry, se foi Karkaroff que ps o
seu nome no Clice de Fogo, ele agora vai estar se sentindo muito idiota, no acha? 
No funcionou, no ? Voc s levou um arranho! Vem at aqui, eu fao isso...
        Pichitinho estava demasiado excitado com a idia de fazer uma entrega, voava sem parar  volta da cabea de Harry, piando continuamente. Rony agarrou a coruja
no ar e segurou-a quieta para que o amigo pudesse prender a carta  perna da ave.
        -        Acho que no  possvel que as outras tarefas sejam to perigosas. Como poderiam ser? - prosseguiu Rony enquanto levava Pichitinho at a janela.
- Sabe de uma coisa? Acho que voc poderia vencer esse torneio, Harry, estou falando srio.
        Harry sabia que Rony s estava dizendo isso para compensar o seu comportamento nas ltimas semanas, mas assim mesmo gostou. Hermione, no entanto, encostou-se
 parede do corujal, cruzou os braos e amarrou a cara para Rony.
        -        Harry tem um longo caminho a percorrer at o fim do
torneio
#289
neio - disse ela sria. - Se essa foi a primeira tarefa, nem quero pensar qual vai ser a
prxima.
        -        Voc  um raiozinho luminoso de sol, no  no? Voc e Profa Sibila deviam se reunir um dia desses.
        E, dizendo isso, Rony lanou Pichitinho pela janela. A ave mergulhou quase quatro metros antes de conseguir se sustentar; a carta amarrada a sua perna era
muito mais comprida e pesada que o normal - Harry no pde resistir  tentao de contar
a Sirius, lance a lance, exatamente como voara para c e para l, circulara
e se desviara do Rabo-Crneo.
        Os trs acompanharam Pichitinho desaparecer na noite, e
ento Rony falou:
        -        Bom,  melhor descermos para a sua festa surpresa, Harry, a esta altura, Fred e Jorge j devem ter pilhado comida suficiente das
cozinhas.
        No deu outra. Quando entraram, a sala comunal da Grifinria explodiu de vivas 
e gritos outra vez. Havia montanhas de bolos e garrafes de suco de abbora
e cerveja amanteigada em cima de cada mvel; Lino Jordan soltara alguns dos seus Fogos Fabulosos do Dr. Filibusteiro Sem Fumaa Nem Calor, por isso o ar estava denso
de estrelas e fascas; e Dino Thomas, que era muito bom em desenho, tinha pendurado magnficos galhardetes novos, a maioria dos quais mostrava Harry voando na Firebolr
em volta da cabea do drago, embora houvesse uns dois que mostravam Cedrico com os cabelos em chamas.
        Harry se serviu da comida; quase esquecera como era se sentir realmente faminto, e se sentou com Rony e Hermione. No conseguia acreditar na felicidade que
sentia; recuperara o apoio de Rony, dera conta da primeira tarefa e s teria que enfrentar a segunda dali a trs meses.
        -        Putz, isso  pesado - comentou Lino Jordan, levantando o ovo dourado, que Harry deixara em cima de uma mesa, e pesando-o nas
mos. - Abra, Harry, vamos! Vamos ver o que tem dentro!
        -        Ele tem que decifrar a pista sozinho - disse Hermione depressa. -
 a regra do torneio...
        -        Eu devia arranjar um jeito de passar pelo drago sozinho,
tambm - murmurou Harry, de modo que somente Hermione o
ouvisse, e ela deu um sorriso culpado.
        -        , anda, Harry, abra! - fizeram coro vrios colegas.
#290
        Lino passou o ovo a Harry e o garoto enfiou as unhas no sulco que corria a toda volta do objeto, forando o ovo a abrir.
        Estava oco e completamente vazio - mas no momento em que Harry o abriu, um som terrvel, alto e agudo com um agouro, encheu a sala. A coisa mais prxima
quilo que Harry j ouvira fora a orquestra-fantasma na festa do aniversrio de morte de Nick Quase Sem Cabea, em que todos os componentes tocavam um serrote musical.
        -        Fecha isso! - berrou Fred, as mos tampando os ouvidos.
        -        Que  isso? - perguntou Simas Finnigan, olhando o ovo enquanto Harry tornava a fech-lo com um estalo. - Parecia um esprito agourento... quem sabe
voc vai ter que passar por um deles da prxima vez, Harry!
        -        Era algum sendo torturado! - arriscou Nevilie, que ficara muito plido e largara os pes de salsicha no cho. - Voc vai ter
que enfrentar a Maldio Cruciatus!
        -        Deixa de ser babaca, Nevilie, isso  ilegal - disse Jorge. - No usariam a Maldio Cruciatus contra os campees. Achei que Lembrava um pouco o
Percy cantando... quem sabe voc vai ter que atacar ele quando estiver debaixo do chuveiro, Harry.
        -        Quer uma tortinha de gelia, Mione? - ofereceu Fred.
        Hermione olhou com ar de dvida para o prato que o garoto
lhe estendia. Fred sorriu.
        -        Pode se servir. No fiz nada com elas.  com os cremes de caramelo que voc tem de se cuidar...
        Nevilie, que acabara de encher a boca de creme, se engasgou e
o cuspiu fora.
        Fred deu uma risada.
        -         s uma brincadeirinha, Nevilie...
        Hermione apanhou uma tortinha de gelia. Depois perguntou:
        -        Voc apanhou tudo isso na cozinha, Fred?
        -        Foi - respondeu ele sorrindo para a garota. Ele fez uma voz de falsete e imitou um elfo domstico: - "O que pudermos lhe arranjar, meu senhor, qualquer
coisa!" So superprestativos... me arranjariam um boi assado se eu dissesse que estava faminto.
        -        Como  que voc entra l? - perguntou Hermione com uma
voz inocentemente desinteressada.
-         fcil, tem uma porta escondida atrs da pintura de uma
#291
fruteira.  s fazer "cosquinha" na pra, ela ri e... - Ele parou olhou desconfiado para a garota. - Por qu?
        -        Nada - apressou-se Hermione a dizer.
        -        Vai tentar liderar uma greve de elfos domsticos, ? Vai
desistir dos folhetos e incitar os caras a se revoltarem?
        Algumas pessoas riram. Hermione no respondeu.
        -        No vai perturbar os elfos dizendo que tm que pedir
roupas e salrios! - avisou-a Fred. - Vai desviar os caras do preparo
da comida!
        Nesse instante, Neville provocou uma ligeira distrao transformando-se em um grande canrio.
        -        Ah... me desculpe, Nevlle - gritou Fred, abafando as
risadas.
- Me esqueci... foram os cremes de caramelo que enfeitiamos... Um minuto depois, Neville entrava na muda e quando
as penas acabaram de cair ele reapareceu tal qual era. E at engrossou
o coro de gargalhadas.
        -        Cremes de Canrios! - anunciou Fred para os alunos
facilmente excitveis. - Jorge e eu inventamos, sete sicles cada,
pechincha!
        Era quase uma hora da manh quando Harry finalmente foi para o dormitrio em companhia de Rony, Neville, Simas e
Dino. Antes de fechar as cortinas de sua cama, o garoto colocou a miniatura do Rabo-
Crneo hngaro em cima da mesa-de-cabeceira onde o drago bocejou, se enroscou e fechou os olhos. Para ser
sincero, pensou Harry, ao correr as cortinas da cama, Hagrid tinha
uma certa razo... eles eram realmente legais, os drages...

O comeo de dezembro trouxe chuva e neve granulada a Hogwarts. Mesmo cheio de 
correntes de ar como costumava ser o
castelo no inverno, Harry se sentia grato por suas lareiras e paredes grossas todas as vezes que passava pelo navio de
Durmsrrang
no lago, jogando com os ventos fortes, as velas negras enfunadas
contra o cu escuro. Ocorreu-lhe que a carruagem de Beauxbato
provavelmente era bem fria tambm. Hagrid, reparou ele, estava
mantendo os cavalos de Madame Maxime bem abastecidos do
uisque que preferiam; os vapores que subiam do cocho a um
picadeiro eram suficientes para deixar tonta a classe inteira de Trato
#292
das Criaturas Mgicas. Isto no ajudava nada, porque os garotos continuavam cuidando dos horrorosos explosivins e precisavam ficar sbrios.
        - No tenho bem certeza se eles hibernam ou no - disse Hagrid, na aula seguinte,  classe que tremia de frio na horta de abbotas varrida pelo vento. -
Achei que devamos tentar ver se os bichos querem tirar uma soneca... Vamos coloc-los nessas caixas...
        Agora s restavam dez; aparentemente ainda no haviam se fartado de se matar uns aos outros. Cada um agora chegava quase a um metro e oitenta centmetros
de comprimento. A carapaa grossa e cinzenta, as perninhas curtas em movimento, as caudas que expeliam fogo, os ferres e os sugadores se somavam para tornar os
explosivins as coisas mais repugnantes que Harry j vira. A turma olhou desanimada para as enormes caixas que Hagrid trouxera, todas forradas com almofadas e cobertores
macios.
        -        Vamos lev-los para as caixas - disse Hagrid -, tamp-las, e ver o que acontece.
        Mas os explosivins, pelo que se viu, no hibernavam, e no gostavam de ser enfiados  fora em caixas forradas com almofadas
com uma tampa por cima. Hagrid logo comeou a gritar:
        - No entrem em pnico, no entrem em pnico! - Enquanto os bichos desembestavam pela horta de abboras agora juncada com os restos de caixas
fumegantes.
A maioria da turma, Malfoy, Crabbe e Goyle  frente, tinha fugido para a cabana de Hagrid pela porta dos fundos e se barricara l dentro; Harry, Rony e Hermione, 
no entanto, estavam entre os alunos que tinham ficado do lado de fora tentando ajudar o professor. Juntos, conseguiram dominar e prender nove dos explosivins, embora 
ao custo de vrios cortes e queimaduras; finalmente, faltou apenas uma das criaturas.
        - No vo assust-lo! - gritou Hagrid, enquanto Rony e Harry usavam as varinhas para lanar fagulhas no bicho, que avanava ameaadoramente para os garotos, 
o ferro nas costas estremecendo em riste. - Tentem passar a corda pelo ferro para ele no poder atacar os outros.
        -        Ah, , ns nem amos querer uma coisa dessas! - gritou Rony zangado, enquanto ele e Harry recuavam contra a parede da cabana
        de Hagrid, ainda mantendo o explosivim afastado com fagulhas.
        -        Ora, ora, ora... isso parece realmente divertido!
        Rita Skeeter estava debruada na cerca do jardim de Hagrid,
#293
apreciando a confuso. Usava uma grossa capa carmim com uma gola de peles e trazia a bolsa de crocodilo no brao.
        Hagrid se atirou em cima do bicho que acuava Harry e Ronye
achatou-o; um jorro de fogo disparou de sua cauda, queimando os
ps de abbora mais prximos.
        -        Quem  a senhora? - perguntou Hagrid  jornalista, enquanto passava a corda no ferro do explosivim e apertava o lao.
        -        Rita Skeeter, reprter do Profeta Dirio - respondeu a moa, sorrindo para ele. Seu dente de ouro brilhou.
        -        Pensei ter ouvido Dumbledore dizer que a senhora no podia mais entrar na escola? - disse Hagrid erguendo ligeiramente as sobrancelhas enquanto 
saa de cima do bicho achatado e comeava a arrast-lo para junto dos companheiros.
        Rita fez de conta que no ouviu o que Hagrid acabara de dizer.
        -        Como  o nome dessas criaturas fascinantes? - perguntou ela, com um sorriso ainda maior.
        -        Explosivins - resmungou Hagrid.
        -        Srio? - disse ela, parecendo vivamente interessada. - Nunca ouvi falar deles antes... e de onde  que eles vm?
        Harry notou uma vermelhido subir da barba negra e 
desgrenhada de Hagrid e sentiu um sbito desnimo. Onde  que Hagri
arranjara aqueles bichos?
        Hermione que parecia estar pensando mais ou menos a mesma
coisa, disse depressa:
        -        Eles so muito interessantes, no  mesmo? No so,
Harry?
        -        Qu? Ah, so... ai... interessantes - disse o garoto quando a amiga pisou seu p.
        -        Ah, voc est aqui, Harry! - exclamou Rita olhando para
o lado. - Ento voc gosta da aula de Trato das Criaturas Mgicas?
Uma de suas matrias preferidas?
        -         - disse Harry corajosamente. Hagrid lhe deu um
grande sorriso.
        -        Que beleza! - disse Rita. - Realmente uma beleza. Est
ensinando isso h muito tempo? - perguntou ela a Hagrid.
Harry reparou que os olhos da jornalista corriam de Dino (que
 recebera um corte feio no rosto) para Lil (cujas vestes estavam
bastante
chamuscadas), para Simas (que estava cuidando de vrios
dedos queimados), e dele para as janelas da cabana, onde se encontrava
#294
a maior parte da turma, de nariz colado na vidraa, esperando ver se era seguro sair.
        -        Este  o meu segundo ano - respondeu o professor.
        -        Que beleza... O senhor no gostaria de dar uma entrevista? Contar sua experincia com criaturas mgicas? O
Profrfeta publica uma coluna zoolgica
toda quarta-feira, como o senhor com certeza j sabe. Ns poderamos falar desses... hum... estouradins?
        -        Explosivins - apressou-se a corrigir Hagrid. - Hum... claro, por que no?
        Harry teve uma sensao ruim sobre o convite, mas no havia como se comunicar com Hagrid sem Rita ver, por isso ele foi obrigado a ficar em silncio observando 
Hagrid e Rita combinarem se encontrar no Trs Vassouras para uma longa entrevista, mais para o fim da semana. Ento a sineta tocou no castelo, anunciando o fim da 
aula.
        -        Bem, tchau, Harry! - gritou Rita alegremente para o garoto, enquanto ele se afastava com Rony e Hermione. - At sexta-feira 
noite, ento, Hagrid!
        -        Rita vai distorcer tudo que ele disser - comentou Harry baixinho.
        -        Desde que ele no tenha importado aqueles explosivins ilegalmente nem nada do gnero - disse Hermione desesperada. Eles se entreolharam, era exatamente 
o tipo de coisa que Hagrid seria capaz de fazer.
        -        Hagrid j se meteu em montes de confuso antes e Dumbledore nunca o despediu - disse Rony em tom de consolo. - O pior que pode acontecer  Hagrid 
ter que se livrar dos bichos. Desculpe... eu disse o pior? Quis dizer o melhor.
        Harry e Hermione caram na gargalhada e, sentindo-se mais
animados, foram almoar.
Harry gostou imensamente da aula de Adivinhao naquela tarde; a turma ainda estava fazendo mapas e predies, mas agora que ele e Rony tinham voltado a ser amigos
a coisa recuperara a antiga graa. A Profa Sibila, que andara to satisfeita com os garotos quando eles estiveram predizendo mortes horrendas para si mesmos, no
tardou a se irritar quando os dois ficaram de risadinhas na hora em que ela explicava as vrias maneiras com que
Pluto era capaz de desorganizar a vida diria.
#295
        -        Seria de pensar - disse ela, num sussurro mstico que no ocultava seu bvio aborrecimento - que alguns de ns - e olhou
significativamente para
Harry - seriam um pouquinho menos frivolos se tivessem visto o que vi quando consultei a minha bola de cristal ontem  noite. Eu estava sentada bordando, muito absorta,
quando fui tomada por um impulso de consultar a bola. Levanteime e me sentei diante dela e contemplei suas profundezas cristalinas... e o que acham que vi olhando 
para mim?
        -        Uma morcega velha com os culos maiores do que a cara? - cochichou Rony. Harry fez muita fora para ficar com a cara sria.
        - A morte, meus queridos.
        Parvati e Lil levaram as mos  boca, fazendo cara de horror.
        - Sim, senhores - disse a professora, acenando a cabea de modo impressionante -, ela est se aproximando, cada vez mais, descrevendo crculos no cu como 
um urubu, cada vez mais baixa... sempre mais baixa sobre o castelo...
        Ela olhou diretamente para Harry, que bocejou com a boca
        escancarada e de maneira bvia.
        -        Teria sido mais impressionante se ela no tivesse anunciado isso oito vezes antes - disse Harry, quando finalmente recuperaram o ar fresco na escada
sob a sala de Sibila. - Mas se eu casse duro toda vez que ela diz que vou cair, eu seria um milagre da medicina.
        -        Seria uma espcie de fantasma superconcentrado - disse Rony rindo, ao passarem pelo baro Sangrento que ia em sentido contrrio, um olhar sinistramente
fixo nos olhos enormes. - Pelo menos ela no passou dever de casa. Espero que a Profa Vector tenha passado um monte para Mione, adoro ficar  toa quando ela est
ocupada...
        Mas a garota no apareceu para jantar, nem estava na biblioteca quando eles foram procur-la. A nica pessoa que estava l era Vtor Krum. Rony ficou parado 
um tempo atrs das estantes, observando Krum e discutindo aos cochichos com Harry se deveria pedir um autgrafo - mas ento percebeu que havia umas seis ou sete 
garotas rondando entre as estantes ao lado, discutindo exatamente a mesma coisa, e perdeu o entusiasmo pela idia.
        - Onde ser que ela se meteu? - indagou Rony quando os dois
 rumavam para a Torre da Grifinria.
        -        Sei l... Asnice.
        Mas a Mulher Gorda mal comeara a girar para a frente quando
#296
o rudo de algum correndo s costas dos garotos anunciou a chegada de Hermione.
        -        Harry! - ofegou ela, derrapando at parar ao lado dele (a Mulher Gorda olhou para a garota, com as sobrancelhas erguidas).
-        Harry, voc tem de vir comigo... tem de vir, aconteceu a coisa mais fantstica... por favor...
        Ela agarrou o brao de Harry e tentou arrastar o garoto de
volta ao corredor.
        -        Que  que aconteceu? - perguntou Harry.
        -        Eu mostro a voc quando a gente chegar l, ah, anda logo, depressa...
        Harry olhou para Rony; este olhou para Harry intrigado.
        -        OK - disse Harry, comeando a retroceder pelo corredor com Hermione, Rony correndo para acompanh-los.
        -        Ah, no se incomodem comigo! - gritou a Mulher Gorda irritada para os garotos. - No peam desculpas por ter me incomodado! Vou continuar pendurada 
aqui, aberta, at vocs voltarem, no  isso?
        -        , obrigado - gritou Rony por cima do ombro.
        -        Hermione, onde  que estamos indo? - perguntou Harry, depois que a garota os fizera descer seis andares e j estavam na
escadaria de mrmore do saguo de entrada.
        -        Voc vai ver, voc vai ver j, j! - disse Hermione excitada.
        Ela virou  esquerda ao p da escada e correu para a porta que Cedrico cruzara na noite seguinte ao Clice de Fogo ter regurgitado o seu nome e o de Harry. 
O garoto jamais passara ali antes. Ele e Rony acompanharam Hermione, desceram um lance de escadas de pedra, mas em vez destas terminarem em uma sombria passagem 
subterrnea, como a que levava  masmorra do Snape, os garotos se viram em um corredor de pedra, largo, muito bem iluminado com archotes, e decorado com alegres 
pinturas, na maioria, de comida.
        -        Ah, espera a... - disse Harry lentamente, a meio caminho do corredor. - Espera um instante, Mione...
        -        Qu? - Ela se virou para olh-lo, o rosto que era s expectativa.
- J sei do que se trata - disse Harry.        
        O garoto cutucou Rony e apontou para o quadro logo atrs de Hermione. Era a pintura de uma enorme fruteira de prata.
#297
        - Mione! - exclamou Rony, entendendo. - Voc no est tenrando nos pegar a lao para aquela histria do fale outra vez!
        - No, no, no estou! - apressou-se ela a dizer. - E no  fale, Rony...
        - Voc mudou o nome? - perguntou Rony, franzindo a testa.
-        Que somos ento? A Frente de Liberao dos Elfos Domsticos? No vou invadir a cozinha para fazer eles pararem de trabalhar, no vou fazer isso...
        -        No estou lhe pedindo isso! - disse Hermione impacientemente. - Desci aqui agora h pouco para conversar com eles e
encontrei... ah, anda, Harry, quero lhe mostrar!
        A garota tornou a agarr-lo pelo brao, puxou-o para diante do quadro da fruteira, esticou o dedo indicador e fez ccegas na enorme pra verde. A fruta comeou 
a se contorcer e rir e, de repente, transformou-se em uma grande maaneta verde. Hermione segurou-a, abriu a porta e empurrou Harry pelas costas, com fora, obrigando-o 
a entrar.
        O        garoto teve apenas uma breve viso de um amplo aposento de teto alto, grande como o Salo Principal acima, repleto de tachos e panelas de lato 
empilhados ao redor das paredes de pedra, um grande fogo de tijolos no extremo oposto, quando alguma coisa pequena se precipitou do meio do aposento ao encontro 
dele, guinchando:
        -        Harry Potter, meu senhor! Harry Potter!
        No segundo seguinte todo o ar dos seus pulmes foi expelido, o elfo, aos guinchos, colidiu com ele na altura do diafragma, abraando-o com tanta fora que
o garoto pensou que suas costelas iam partir.
        -        D-Dobby? - ofegou Harry.
        -        o Dobby, meu senhor,  sim! - guinchou a voz na altura do seu umbigo. - Dobby teve muita esperana de ver Harry
Potter,
meu senhor, e Harry Potter veio ver ele, meu senhor!
        Dobby soltou o garoto e recuou alguns passos, sorrindo para Harry de orelha a orelha, seus enormes olhos verdes, redondos como bolas de tnis, se enchendo 
de lgrimas de felicidade. Tinha quase exatamente a mesma aparncia com que Harry o conhecera;
       o nariz fino e reto, as orelhas de morcego, as mos e os ps compridos - exceto pelas roupas, que eram muito diferentes.
        Quando Dobby trabalhara para os Malfoy, sempre usara a
#298
mesma fronha velha e imunda. Agora, porm, vestia a combinao mais extravagante de roupas que Harry j vira na vida; fizera uma escolha de peas pior do que a dos
bruxos na Copa Mundial. Usava um abafador de ch  guisa de chapu, no qual estavam presos vrios distintivos coloridos; uma gravata com estampa de ferraduras de 
cavalo sobre o peito nu, cales que pareciam os de uma criana jogar futebol e meias desparelhadas. Uma delas, Harry reparou, era a preta que ele tirara do prprio 
p e induzira o Sr. Malfoy a jogar para Dobby, e ao fazer isso, libertara-o. A outra era listrada de rosa e laranja.
        - Dobby, que  que voc est fazendo aqui? - perguntou Harry surpreso.
        - Dobby veio trabalhar em Hogwarrs, meu senhor! - guinchou o elfo excitado. - O Prof. Dumbledore deu emprego a Dobby e
Winky meu senhor!
        - Winky? - exclamou Harry. - Ela tambm est aqui?
        -        Est, sim, senhor, est! - disse Dobby, e agarrando a mo de Harry puxou-o para dentro da cozinha entre quatro longas mesas de madeira que estavam 
ali. Cada uma das mesas, o garoto notou ao passar, estava colocada exatamente embaixo das quatro mesas das Casas em cima, no Salo Principal. Naquele momento no 
havia comida nelas, o jantar j terminara, mas ele sups que uma hora antes estivessem carregadas de travessas que ento eram mandadas pelo teto para as suas correspondentes 
no andar superior.
        No mnimo uns cem elfos estavam parados pela cozinha, sorrindo, inclinando a cabea e fazendo reverncias quando Dobby passou com Harry por eles. Todos usavam
o mesmo uniforme; uma toalha de ch estampada com o timbre de Hogwarts e amarrada como uma toga, como a de Winky.
        Dobby parou diante do fogo de tijolos e apontou.
        - Winky, meu senhor! - disse ele.
        Ela estava sentada em um banquinho junto ao fogo. Ao contrrio de Dobby, obviamente no sara catando roupas. Usava uma sainha e uma blusa comportadas, e 
um chapu azul combinando, com aberturas laterais para suas orelhonas. Mas, enquanto cada pea da estranha coleo de roupas de Dobby estava impecavelmente limpa 
e bem cuidada, pois at pareciam novas em folha, era
visvel que Winky no estava cuidando das prprias roupas. Havia
manchas de sopa na blusa e um chamuscado na saia.
#299
- Ol, Winky - cumprimentou Harry.
        Os lbios de Winky tremeram. Ento ela rompeu em lgrimas, que transbordaram dos seus grandes olhos castanhos e caram pela roupa, exatamente como acontecera 
na Copa Mundial de Quadribol.
        -        Ah meu Deus! - exclamou Hermione. Ela e Rony tinham seguido Harry e Dobby at o fundo da cozinha. - Winky, no
chore, por favor, no...
        Mas Winky chorava com mais vontade que nunca. Dobby, por
outro lado, sorria radiante para Harry.
        -        Harry Potter gostaria de tomar uma xcara de ch? - guinchou ele alto, abafando os soluos de Winky.
        -        Hum... ah, OK - disse o garoto.
        Instantaneamente, uns seis elfos domsticos vieram correndo atrs dele, trazendo uma grande bandeja de prata com um bule de ch, xcaras para Harry, Rony 
e Hermione, uma jarrinha de leite e um grande prato de biscoitos.
        -        Servio de primeira! - exclamou Rony, com admirao na voz. Hermione franziu a testa para ele, mas os elfos pareciam encantados da vida; fizeram 
uma grande reverncia e se retiraram.
        -        H quanto tempo est aqui, Dobby? - perguntou Harry, quando o elfo serviu o ch para todos.
        -        S uma semana, Harry Potter, meu senhor! - respondeu Dobby alegremente. - Dobby veio ver o Prof. Dumbledore, meu senhor. Sabe, meu senhor,  muito
difcil um elfo domstico que foi dispensado arranjar outro emprego, meu senhor, muito difcil, mesmo...
        Ao ouvir isso, Winky chorou ainda mais alto, seu nariz de
tomate amassado pingando pela frente da blusa, embora ela no
fizesse o menor esforo para estancar essa pingadeira.
        -        Dobby viajou pelo pas durante dois anos, meu senhor, tentando encontrar trabalho! Mas Dobby no encontrou nada, meu
senhor, porque agora ele quer receber ordenado!
        Os elfos domsticos por toda a cozinha, que estavam escutando
e observando com interesse, desviaram os olhos ao ouvirem isso,
como se Dobby tivesse dito alguma coisa grosseira e constrangedora.
        Hermione, porm, exclamou:
       - Assim  que se faz, Dobby!
                - Muito obrigado, senhorita! - disse o elfo, dando a ela um
sorriso que era s dentes. - Mas a maioria dos bruxos no quer um
#300
elfo domstico que exige ordenado, senhorita. "Isto no  prprio de um elfo domstico", dizem eles e batem a porta na cara de Dobby! Dobby gosta de trabalhar, mas
quer se vestir e quer receber ordenado, Harry Potter... Dobby gosta de ser livre!
        Os elfos domsticos de Hogwarts agora comearam a se afastar discretamente de Dobby, como se ele tivesse alguma doena contagiosa. Winky, no entanto, continuou 
onde estava, embora se notasse um decidido aumento no volume do seu choro.
        -        E, ento, Harry Potter, Dobby vai visitar Winky e descobre que ela foi libertada, tambm! - conta Dobby com satisfao.
        Ao ouvir isso, Winky se atirou para a frente e caiu do banquinho, de rosto no cho de lajotas, batendo os pequenos punhos e positivamente urrando de infelicidade. 
Hermione imediatamente se ajoelhou ao lado dela e tentou consol-la, mas nada que dissesse produzia a menor diferena.
        Dobby continuou sua histria, guinchando alto para abafar o
choro estridente de Winky.
        -        Ento Dobby teve a idia, Harry Potter, meu senhor! ""Por que Dobby e Winky no procuram um trabalho juntos?" Onde  que existe trabalho suficiente
para dois elfos domsticos?", pergunta Winky. E Dobby pensa e se lembra, meu senhor! Hogwarts! Ento Dobby e Winky vieram ver o Prof. Dumbledore, meu senhor e o
professor nos contratou!
        Dobby sorriu muito animado e lgrimas de felicidade brotaram, mais uma vez, dos seus olhos.
        -        E o Prof. Dumbledore diz que vai pagar a Dobby, meu senhor, se Dobby quer pagamento! E, assim, Dobby  um elfo livre, meu senhor, e Dobby recebe 
um galeo por semana e um dia de folga por ms!
        -        Isso  muito pouco! - exclamou Hermione indignada, ainda curvada para os gritos incessantes e os murros no cho de Winky.
        -        O Prof. Dumbledore ofereceu a Dobby dez galees por semana e folgas nos fins de semana - disse Dobby, estremecendo de repente como se a perspectiva 
de tanto lazer e riqueza o assustasse -, mas Dobby fez ele baixar a oferta, senhorita... Dobby gosta da liberdade, senhorita, mas no quer tanto assim, senhorita, 
ele gosta mais do trabalho.
         -        E quanto  que o Prof. Dumbledore est pagando a voc
Winky? - perguntou Hermione bondosamente.
#301
        Se a garota achou que isso ia animar Winky, estava delirando. Winky realmente parou de chorar, mas, quando se sentou, ficou encarando Hermione com seus imensos
olhos castanhos, seu rosto lavado de lgrimas e inesperadamente furioso.
        -        Winky  um elfo em desgraa, mas Winky ainda no est aceitando pagamento - guinchou ela. - Winky no decaiu a esse ponto!
Winky est devidamente envergonhada de ter sido libertada!
        -        Envergonhada? - perguntou Hermione perplexa. - Mas... Winky, espera a!
 o Sr. Crouch que devia estar envergonhado e no voc! Voc no fez nada
errado, ele  que foi realmente horrvel com voce...
        Mas ao ouvir isso, Winky levou as mos s aberturas laterais do
chapu e achatou as orelhas para no poder ouvir nem mais uma
palavra e guinchou:
        -        A senhorita no vai insultar o meu amo! A senhorita no vai insultar o Sr. Crouch! O Sr. Crouch  um bruxo bom, senhorita! O
Sr. Crouch fez bem em mandar a feia Winky embora!
        -        Winky est tendo dificuldades para se adaptar, Harry Potter
-        guinchou Dobby confidencialmente. - Winky se esquece que no est mais presa ao Sr. Crouch; que pode dizer o que pensa agora, mas no quer fazer isso.
        -        Os elfos domsticos no podem dizer o que pensam dos amos, ento? - perguntou Harry.
        -        Ah, no, no meu senhor - disse Dobby repentinamente serio. - Faz parte da escravido do elfo domstico, meu senhor. Guardamos silncio e os segredos 
dos amos, meu senhor, defendemos a honra da famlia e nunca falamos mal dela, embora o Prof. Dumbledore tenha dito a Dobby que no faz questo disso. O Prof. Dumbledore 
disse que a gente  livre para... para...
        Dobby pareceu subitamente nervoso e chamou Harry mais
para perto. Harry se inclinou para ele.
        Dobby cochichou:
        -        Disse que a gente  livre para chamar ele de... de velho caduco se quiser, meu senhor!
        Dobby deu uma risadinha assustada.
        -        Mas Dobby no quer, Harry Potter - disse ele voltando a
 falar normalmente e balanando a cabea de modo que suas orelhas abanavam. - Dobby gosta
muito do Prof. Dumbledore, meu
senhor, e tem orgulho de guardar os segredos dele.
#302
        -        Mas voc pode dizer o que quiser sobre os Malfoy agora? - perguntou Harry sorrindo.
        Um olhar de temor surgiu nos olhos imensos de Dobby.
        -        Dobby... Dobby poderia - disse cheio de dvida. Aprumou ento seus ombrinhos. - Dobby poderia dizer a Harry Potter que
seus antigos amos eram... eram... bruxos malvados das trevas!
        Dobby ficou parado um instante, o corpo todo tremendo, horrorizado com a sua prpria coragem - ento correu at a mesa mais
prxima e comeou a bater a cabea nela, com fora, guinchando:
- Dobby mau! Dobby mau!
        Harry agarrou o elfo por trs da gravata e afastou-o da mesa.
        -        Obrigado, Harry Potter, obrigado - disse Dobby sem flego, esfregando a cabea.
        -        Voc s precisa de um pouco de prtica - disse Harry.
        -        Prtica! - guinchou Winky furiosa. - Voc devia era ter vergonha, Dobby, falando desse jeito dos seus amos!
        -        Eles no so mais meus amos, Winky! - disse Dobby em tom de desafio. - Dobby no se importa mais com o que eles pensam!
        -        Ah, voc  um elfo mau, Dobby! - lamentou-se Winky, as lgrimas escorrendo mais uma vez pelo seu rosto. - O coitadinho do meu Sr. Crouch, que 
que ele est fazendo sem a Winky? Est precisando de mim, est precisando da minha ajuda! Eu cuidei dos Crouch a vida inteira e minha me fez isso antes de mim e
minha av antes dela... ah, o que elas diriam se soubessem que Winky foi libertada? Ah, que vergonha, que vergonha! - Ela escondeu o rosto na saia e abriu um berreiro.
        - Winky - disse Hermione com firmeza -, tenho certeza de que o Sr. Crouch vai indo muitssimo bem sem voc. A gente o viu,
sabe...
        - A senhorita tem visto o meu amo? - perguntou Winky sem flego, erguendo o rosto manchado de lgrimas da saia, mais uma vez, e arregalando os olhos para
Hermione. - A senhorita tem visto ele aqui em Hogwarrs?
        - Tenho. Ele e o Sr. Bagman so juizes no Torneio Tribruxo.
        - O Sr. Bagman vem tambm? - guinchou Winky e, para grande surpresa de Harry (e de Rony e Hermione tambm, pela
expresso no rosto deles), ela pareceu novamente zangada. - O Sr.
Bagman  um bruxo malvado! Um bruxo muito malvado! Meu
amo no gosta dele, ah, no, nem um pouquinho!
#303
        -        Bagman... malvado? - exclamou Harry.
        -        Ah  - disse Winky, acenando furiosamente com a cabea. - Meu dono contou a Winky umas coisas! Mas Winky no vai repetir... Wnky... Winky guarda
os segredos do amo...
        E mais uma vez ela se debulhou em lgrimas; os garotos a
ouviam soluar escondida na saia.
        -        Coitado do meu amo, coitado do meu amo, no tem mais a Winky para ajudar!
        Os garotos no conseguiram extrair de Winky nem mais uma palavra que fizesse sentido. Deixaram-na chorar e terminaram o ch, enquanto Dobby tagarelava alegremente 
sobre sua vida de elfo liberto e seus planos para o seu ordenado.
        -        A prxima coisa que Dobby vai comprar  um suter sem mangas, Harry
Potter! - disse ele alegremente, apontando para o
peito nu.
        -        Vou lhe dizer o que vou fazer -. disse Rony, que parecia ter se afeioado muito ao elfo. - Vou lhe dar o suter que minha me tricotar para mim 
este Natal, eu sempre ganho um. Voc no tem nada contra a cor marrom, tem?
        Dobby ficou encantado.
        -        Talvez a gente tenha que dar uma encolhida nele para caber em voc, mas vai combinar bem com o seu abafador de ch.
        Quando se preparavam para ir embora, muitos elfos que os cercavam se aproximaram, oferecendo lanchinhos para os garotos levarem. Hermione recusou, com uma 
expresso constrangida, ao ver a maneira com que os elfos continuavam a se curvar e fazer reverncias, mas Harry e Rony encheram os bolsos com bolos e tortas.
        -        Muito obrigado! - disse Harry aos elfos, que tinham se agrupado em torno da porta para lhes desejar boa noite. - At  vista,
Dobby.
        -        Harry Potter... Dobby pode ir ver o senhor de vez em quando, meu senhor? - perguntou Dobby
tenteando.
        -        Claro que pode - disse o garoto e o elfo abriu um sorriso.
        -        Sabe de uma coisa? - disse Rony, depois que ele, Hermione e Harry haviam deixado a cozinha para trs e j estavam subindo as
escadas para o saguo de entrada. - Todos esses anos sempre fiquei
       realmente impressionado com a capacidade de Fred e Jorge pegarem comida na cozinha, ora no  nada difcil, no  mesmo? Os
caras mal podem esperar para dar a comida!
#304
        -        Acho que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a esses elfos, sabe - disse Hermione seguindo  frente para subir a escadaria de mrmore.
- Dobby ter vindo trabalhar aqui, quero dizer. Os outros elfos vo ver como ele est feliz, depois de libertado, e devagarinho vo se lembrar de desejar a mesma
coisa!
        -        Vamos esperar que eles no prestem muita ateno na Winky
        - disse Harry.
        -        Ah, ela vai se animar - disse Hermione, embora parecesse meio em dvida. - Depois que passar o choque e ela se acostumar
        a Hogwarrs, vai ver que est muito melhor sem o tal do Crouch.
        -        Mas ela parece que ama o cara - disse Rony com a voz engrolada (acabara de morder o bolo).
        -        Mas ela no tem uma boa opinio do Bagman, no  -
comentou Harry. - Que ser que Crouch diz dele em casa?
        -        Provavelmente diz que Bagman no  um bom chefe de departamento - disse Hermione -, e vamos ser sinceros... ele tem
        razo, no acham?
        -        Mesmo assim, eu preferia trabalhar para ele do que para o velho Crouch - disse Rony. - Pelo menos Bagman tem senso de
        humor.
        -        No deixa o Percy escutar voc dizendo isso - falou Hermione, dando um sorrisinho.
        -        , Percy no iria querer trabalhar para ningum que tivesse senso de humor, no  mesmo? - disse Rony, agora comeando a comer a bomba de chocolate. 
- Percy no reconheceria uma piada nem que ela danasse pelada na frente dele, usando s o abafador de ch do Dobby na cabea.
#305

*****


-        CAPTULO VINTE E DOIS
A tarefa inesperada


- Potter! Weasley! Querem prestar ateno?
A voz irritada da Profa McGonagall estalou como um chicote
pela aula de Transformao de quinta-feira, os dois garotos levaram
um susto e ergueram a cabea.
        A aula chegava ao fim; eles tinham terminado a tarefa dada; as galinhas-da-guin que tentavam transformar em porquinhos-dandia j estavam trancadas em uma
grande gaiola sobre a escrivaninha da professora (o porquinho-da-india de Neville ainda conservava as penas); tinham copiado do quadro-negro o dever de casa ("Descreva,
com exemplos, como os Feitios de Transformao devem ser adaptados ao se fazerem trocas cruzadas entre espcies"). A sineta devia tocar a qualquer momento -e Harry
e Rony, que andavam travando uma luta de espadas com umas varinhas falsas de Fred e Jorge, no fundo da sala, ergueram a cabea, Rony agora segurando um papagaio
de lata e Harry, um hadoque de borracha.
        - Agora que Potter e Weasley tiveram a bondade de parar com as criancices - disse a professora, lanando um olhar feio aos dois no momento em que a cabea
do hadoque de Harry se pendurou para o lado e caiu silenciosamente no cho, o bico do papagaio de Rony se partira momentos antes -, tenho um aviso para dar a todos.
        - O Baile de Inverno est prximo,  uma tradio do Torneio Tribruxo e uma oportunidade para convivermos socialmente com os nossos hspedes estrangeiros.
Agora, o baile s ser franqueado aos alunos do quarto ano em diante, embora vocs possam convidar um aluno mais novo se quiserem...
        Lil Brown deixou escapar uma risadinha aguda. Parvari Patil
deu-lhe uma cutucada nas costelas com fora, o rosto contraindo-se furiosamente enquanto ela, tambm, lutava para no rir feito
       boba. As duas viraram a cabea para olhar Harry. A professora fingiu no v-las, o que Harry achou que era uma ntida injustia,
pois acabara de chamar a ateno dele e de Rony.
#306
        -        O traje  a rigor - continuou a professora -, e o baile, no Salo Principal, comear s
oito horas e terminara a meia-noite,
no dia de Natal. Ento...
        A Profa McGonagall olhou deliberadamente para a turma.
        -        O Baile de Inverno naturalmente  uma oportunidade para todos ns... hum... para nos soltarmos - disse ela em tom de desaprovaao.
        Lil deu mais risadinhas que nunca, tampando a mo com a boca para abafar o som. Dessa vez Harry pde entender qual era a graa: a Profa McGonagall, com
os cabelos presos, no tinha jeito de que algum dia fosse se soltar em nenhum sentido.
        -        Mas isto no significa - continuou ela - que vamos relaxar os padres de comportamento que se espera dos alunos de Hogwarrs. Ficarei seriamente 
aborrecida se, de alguma maneira, um aluno da Grifinria envergonhar a escola.
        A sineta tocou e ouviram-se os costumeiros rudos de gente
guardando o material nas mochilas e atirando-as por cima dos
ombros.
        A professora chamou, sobrepondo-se ao barulho geral:
        - Potter, uma palavrinha, por favor.
        Supondo que fosse alguma coisa relacionada com o hadoque de borracha decapitado, Harry dirigiu-se, com ar de desnimo 
escrivaninha da professora.
        A Profa McGonagall esperou at o resto da turma sair e ento
disse:
        -        Potter, os campees e seus pares...
        -        Que pares? - perguntou Harry.
        A professora olhou desconfiada para o garoto, como se achasse que ele estava querendo ser engraado.
        - Os pares para o Baile de Inverno, Potter - explicou ela com frieza. - Os pares de dana.
        As entranhas de Harry pareceram se enroscar e murchar.
        -        Pares de dana?
        Ele sentiu que estava corando.
        -        Eu no dano - disse depressa.
        - Ah, dana sim, senhor - disse a professora irritada. -  o que estou lhe dizendo. Tradicionalmente os campees abrem o baile
com os seus pares.
        Harry teve uma sbita viso de si mesmo, de casaca e cartola,
#307
acompanhado por uma garota com aquele tipo de vestido de babadinhos que a tia Petnia sempre usava nas festas de negcios do tio Vlter.
        -        Eu no vou danar.
        -         a tradio - disse a Profa Minerva com firmeza. - Voc  um dos campees de Hogwarrs e vai fazer o que se espera de voc como representante de 
sua escola. Portanto providencie um par, Potter.
        -        Mas eu... no...
        -        Voc me ouviu, Potter - disse ela, em tom de quem encerra a conversa.

H uma semana, Harry teria dito que arranjar um par para danar era moleza se comparado a enfrentar um Rabo-Crneo hngaro. Mas agora que cumprira aquela tarefa
e se confrontava com a perspectiva de convidar uma garota para o baile, ele achou que preferia enfrentar mais uma rodada com o drago.
        Harry nunca vira tanta gente inscrever os nomes para passar o Natal em Hogwarts; ele sempre se inscrevia, naturalmente, porque sua alternativa, em geral, 
era regressar  rua dos Alfeneiros, mas at agora ele sempre fora minoria. Este ano, porm, todo mundo do quarto ano para cima parecia querer ficar, e todos pareciam 
a Harry obcecados pelo tal baile - ou, pelo menos, todas as garotas estavam, e era espantoso quantas garotas Hogwarrs de repente parecia abrigar; ele nunca reparara 
muito bem nisso. Garotas que davam risadinhas e cochichavam pelos corredores, garotas que riam alto quando os garotos passavam por elas, garotas que comparavam informaes, 
excitadas, sobre o que iam usar na noite de Natal...
        -        Por que  que elas tm que andar em bandos? - perguntou Harry a Rony, quando uma dzia de garotas passou por eles, rindo e olhando para Harry. - 
Como  que se vai encontrar uma sozinha para se convidar?
        -        Que tal laar uma - sugeriu Rony. - J tem idia de quem  que voc vai tentar convidar?
        Harry no respondeu. Sabia perfeitamente quem  que ele gostaria 
de convidar, mas arranjar coragem para faz-lo era outra conversa... Cho era um ano
mais velha do que ele; era muito bonita; era uma boa jogadora de quadribol e tambm muito popular.
#308
        Rony parecia saber o que se passava na cabea de Harry.
        - Escuta, voc no vai ter nenhuma dificuldade. Voc  campeo. Acabou de derrotar o Rabo-Crneo hngaro. Aposto como
elas vo fazer fila para ir com voce.
        Em homenagem  amizade recm-remendada entre os dois, Rony procurou deixar um mnimo absoluto de amargura transparecer em sua voz. Alm disso, para sua surpresa, 
Harry descobriu que o amigo tinha razo.
        Uma terceiranista da Lufa-Lufa, de cabelos crespos, com quem Harry jamais falara na vida, convidou-o para ir ao baile com ela, logo no dia seguinte. Ele 
ficou to surpreso que respondeu "no" antes mesmo de parar para refletir sobre o convite. A garota se afastou parecendo bem magoada, e Harry teve que aturar as 
piadas de Dino, Simas e Rony sobre ela durante toda a aula de Histria da Magia. No dia seguinte, mais duas garotas o convidaram, uma do segundo ano e (para seu 
horror) uma do quinto ano, que parecia ser capaz de nocaute-lo se ele recusasse.
        - Ela era bem jeitosa - disse Rony querendo ser justo, depois que parou de dar risadas.
        - Ela era bem uns trinta centmetros mais alta que eu - disse Harry, ainda nervoso. - Imagina com que cara eu ia ficar tentando
danar com ela.
        As palavras de Hermione a respeito de Krum no paravam de lhe voltar  lembrana: "Elas s gostam dele porque ele  famoso!" Harry duvidava muito que as 
garotas que at ento o haviam convidado para ser seu par iriam querer acompanh-lo ao baile se ele no fosse campeo da escola. Depois se perguntou se isto o incomodaria 
se fosse Cho que o convidasse.
        Mas, de modo geral, Harry teve que admitir que, mesmo com a perspectiva constrangedora de abrir o baile dali a uns dias, a vida decididamente melhorara desde 
que ele cumprira a primeira tarefa. No atraa mais tantos comentrios desagradveis no corredor, no que ele suspeitava que havia dedo de Cedrico - tinha a impresso 
de que o campeo talvez tivesse dito ao pessoal da Lufa-Lufa para deixar Harry em paz, em gratido pela dica que recebera sobre os drages. Parecia haver menos Apie
CEDRICO DIGGORY pela escola, tambm. Draco Malfoy, naturalmente, continuava a citar o
artigo de Rita Skeeter para ele sempre que encontrava oportunidade, mas cada dia arrancava menos
risadas - e s para melhorar a
#309
sensao de bem-estar de Harry, no aparecera histria alguma sobre Hagrid no Profeta Dirio.
        -        Ela no parecia muito interessada em criaturas mgicas, para lhe dizer a verdade - contou Hagrid, quando Harry, Rony e Hermione lhe perguntaram 
como correra sua entrevista com a jornalista na ltima aula de Trato das Criaturas Mgicas do trimestre. Para grande alvio dos garotos, Hagrid desistira do contato 
direto com os explosivins, e os alunos tinham simplesmente se abrigado nos fundos da cabana, sentados a uma mesa de cavalete, para preparar uma seleo fresca de 
alimentos com os quais tentar os bichos.
        "Ela s queria que eu falasse sobre voc, Harry", continuou Hagrid em voz baixa. "Bem, eu contei que somos amigos desde que fui busc-lo na casa dos Dursley.
"Nunca teve que ralhar com ele em quatro anos?", ela perguntou. "Nunca fez baguna na sua aula?" Eu disse que no e parece que ela no gostou nem um pouco da resposta.
Acho que queria que eu dissesse que voc era uma dor de cabea, Harry."
        -        Claro que queria - disse Harry, atirando pedaos de fgado de drago numa grande tigela de metal e apanhando a faca para continuar a cortar. - Ela 
no pode continuar a escrever que sou um heroizinho trgico, vai acabar ficando chato.
        -        Ela quer um novo ngulo - comentou Rony sensatamente enquanto descascava ovos de salamandra. - Queria que voc dissesse que Harry era um
delinquente 
doido!
        -        Mas ele no ! - exclamou Hagrid parecendo sinceramente chocado.
        -        A Rita devia ter entrevistado Snape - disse Harry srio. - Ele teria dado o servio completo sobre mim sem pestanejar. Potter tem
transgredido limites desde que chegou a esta escola...
        -        Ele disse isso, foi? - perguntou Hagrid enquanto Rony e Hermione davam risadas. - Voc pode ter atropelado algumas
regras, Harry, mas sinceramente voc  um bom menino, no ?
        -        Obrigado, Hagrid - disse Harry rindo.
        -        Voc vai a esse tal baile no dia de Natal, Hagrid? - perguntou Rony.
        -        Pensei em dar uma passada l - respondeu ele com impacincia. - Vai ser legal, acho. Voc vai abrir o baile, no , Harry?
Quem  que voc vai levar?
        -        Por enquanto ningum - respondeu o garoto, sentindo que estava corando. Hagrid no insistiu no assunto.
#310

        A ltima semana do trimestre foi ficando cada vez mais animada  medida que os dias passavam. Corriam boatos sobre o Baile de Inverno por todo lado, embora
Harry no acreditasse nem na metade - por exemplo, que Dumbledore comprara oitocentos barris de quenro de Madame Rosmetta. Mas parecia ser verdade que ele contratara
as Esquisitonas. Exatamente quem ou o qu eram as Esquisitonas o garoto no sabia, pois nunca tivera acesso  rdio bruxa, mas deduzia, pela excitao gerada nos
garotos que haviam crescido ouvindo a RRB (Rede Radiofnica dos Bruxos), que eram um famoso grupo musical.
        Alguns professores, como o nanico Prof. Flirwick, desistiram de tentar ensinar aos garotos alguma coisa quando suas cabecinhas estavam to visivelmente longe
dali; ele os deixou fazerem jogos durante a aula de quarta-feira, e passou a maior parte do tempo conversando com Harry sobre maneiras de aperfeioar o Feitio Convocarrio
que ele usara durante a primeira tarefa do Torneio Tribruxo. Outros professores no foram to generosos. Nada poderia jamais desviar o Prof. Binns, por exemplo;
continuou a dar as revoltas dos duendes - como Binns no permitira sequer que a prpria morte o impedisse de continuar ensinando, os garotos supunham que uma bobaginha
feito o Natal no fosse perturb-lo. Era espantoso como o professor conseguia fazer at as revoltas mais sangrentas e encarniadas parecerem to tediosas quanto
o relatrio de Percy sobre os fundos dos caldeires. Os professores McGonagal e Moody tambm fizeram os garotos trabalhar at o ltimo segundo de aula, e quanto
a Snape, seria mais fcil ele adotar Harry do que deixar seus alunos fazerem jogos durante a aula. Contemplando a turma com um ar malvado, informou-a de que aplicaria
um teste sobre antdotos a venenos na ltima aula do trimestre.
        - Perverso  o que ele  - disse Rony, com amargura, quela noite na sala comunal da Grifinria. - Dar um teste no ltimo dia.
Estragar o finalzinho do trimestre com um monte de revises.
        - Hum... mas no se pode dizer que voc esteja se matando de estudar, no ? - comentou Hermione, olhando para o garoto por cima dos seus apontamentos sobre
Poes. Rony estava entretido construindo um castelo de cartas com o baralho de Snap Explosivo, um passatempo muito mais interessante do que o que se faz com o baralho
dos trouxas, dada a possibilidade da coisa toda explodir a qualquer instante.
#311
        -         Natal, Hermione disse Harry cheio de preguia; o garoto estava relendo Voando com os Cannons, pela dcima vez, numa
poltrona ao lado da lareira.
        Hermione lhe lanou, tambm, um olhar severo.
        -        Pensei que voc estaria fazendo alguma coisa construtiva, Harry, mesmo que no queira aprender os antdotos!
        -        Como o qu? - perguntou Harry, enquanto acompanhava jjoey Jenkins dos Cannons rebater violentamente um balao contra
o        artilheiro do Ballycastle Bats.
        -        Aquele ovo! - sibilou Hermione.
        -        Ah, vai, Hermione, tenho at o dia vinte e quatro de fevereiro - respondeu o garoto.
        Harry guardara o ovo de ouro em seu malo no dormitrio e no o abrira desde a festa de comemorao da primeira tarefa. Afinal, ainda faltavam dois meses 
at que lhe exigissem o significado daquele grito de agouro.
        -        Mas pode levar semanas para voc chegar a uma concluso! Voc vai parecer um perfeito idiota se os outros campees souberem a resposta para a prxima 
tarefa e voc no.
        Deixa ele em paz, Mione, ele conquistou o direito de tirar uma folga - disse Rony enquanto colocava as duas ltimas cartas no topo do castelo e a coisa toda 
explodia chamuscando suas sobrancelhas.
        -        Ficou legal, Rony... vai combinar bem com as suas vestes a rigor, ah, isso vai.
        Eram Fred e Jorge. Sentaram-se  mesa com os trs garotos
enquanto Rony apalpava o rosto para avaliar o estrago.
        Rony, podemos pedir Pichitinho emprestado? - perguntou
Jorge.
        -        No, ele est fora entregando uma carta. Por qu?
        -        Porque Jorge quer convidar sua coruja para ir ao baile - disse Fred sarcasticamente.
        -        Porque ns gostaramos de mandar uma carta, seu panaco - disse Jorge.
        -        Para quem  que voc tanto escreve, hein? - perguntou Rony.
- No mete o nariz, Rony, ou vou queimar ele para voc, tambm - disse Fred, acenando
a varinha num gesto de ameaa. - Ento... vocs j arranjaram par para o baile?
#312
        -        No - respondeu Rony.
        -        Ento  melhor andarem depressa, companheiros, ou todas as garotas legais vo estar ocupadas - disse Fred.
        -        Com quem  que vocs vo, ento?
        -        Angelina - disse Fred prontamente, sem o menor constrangimento.
        -        Qu? - disse Rony espantado. - Voc j a convidou?
        -        Bem lembrado - disse Fred. E virando a cabea gritou para o outro extremo da sala comunal: - Oi! Angelina!
        Angelina, que estava conversando com Alicia Spinnet perto da
lareira, olhou para o garoto.
        -        Que foi? - perguntou em resposta.
        -        Quer ir ao baile comigo?
        Angelina lanou um olhar a Fred como se o avaliasse.
        -        Tudo bem - disse ela e tornou a se virar para Alicia para retomar a conversa, com um sorrisinho no rosto.
        -        Pronto - disse Fred a Harry e Rony -, moleza.
        Levantou-se, ento, se espreguiou e disse:
        -         melhor usarmos uma coruja da escola, ento, Jorge, vamos...
        Os dois saram. Rony parou de apalpar as sobrancelhas e olhou
para Harry por cima dos restos fumegantes do seu castelo de cartas.
        -        A gente devia comear a se mexer, sabe... convidar algum. Ele tem razo. No queremos acabar com um par de trasgos.
        Hermione deixou escapar uma exclamao de indignao.
        -        Com licena... um par do qu?
        -        Bom... sabe - respondeu Rony, encolhendo os ombros -, eu prefiro ir sozinho do que com... com Heloisa Midgeon, digamos.
        -        A acne dela melhorou  bea ultimamente, e ela  bem legal!
        -        Tem o nariz fora de esquadro.
        -        Ah, entendo - disse Hermione, encrespando. - Ento, basicamente, voc vai levar a garota mais bonita que aceitar voc,
mesmo que ela seja completamente intragvel?
        -        Hum... ,  por a - disse Rony.
        -        Eu vou dormir - rerorquiu Hermione e saiu num repelo em direo  escada para o dormitrio das garotas, sem dizer mais
nada.
#313

Os funcionrios de Hogwarts, demonstrando um constante interesse em impressionar os visitantes de Beauxbarons e Durmsrrangp pareciam decididos a mostrar o castelo
em sua melhor forma neste Natal. Quando armaram as decoraes, Harry reparou que eram as mais fantsticas que ele j vira no interior da escola. Pingentes de gelo
perene tinham sido presos nos balastres da escadaria de mrmore; as doze rvores de Natal que sempre eram montadas no Salo Principal estavam enfeitadas com tudo,
desde frutinhas vermelhas luminosas at corujas douradas vivas que piavam, e as armaduras tinham sido enfeitiadas para cantar canes tradicionais de Natal quando
algum passasse por elas. Era impressionante ouvir "O" vinde adoremos" cantado por um elmo vazio que s sabia metade da letra. Vrias vezes, Filch, o zelador, teve
que retirar Pirraa de dentro da armadura, onde ele pegara a mania de se esconder, preenchendo as lacunas das canes com palavras de sua prpria inveno, todas
muito grosseiras.
        E Harry ainda no convidara Cho para o baile. Ele e Rony estavam ficando muito nervosos agora, embora Harry lembrasse que o amigo pareceria muito menos idiota
sem par do que ele; Harry teria que abrir o baile com os outros campees.
        -        Imagino que sempre tem a Murta Que Geme - disse Harry desanimado, referindo-se ao fantasma que assombrava o banheiro
das garotas no segundo andar.
        -        Harry, a gente s tem que cerrar os dentes e mandar ver - disse Rony na sexta-feira pela manh, num tom que sugeria que os dois estavam planejando
tomar de assalto uma fortaleza inexpugnvel. - Quando voltarmos ao salo comunal hoje  noite, teremos arranjado dois pares, topa?
        -        Hum... OK - disse Harry.
        Mas todas as vezes que ele viu Cho naquele dia - no intervalo das aulas, depois do almoo, e uma vez a caminho da aula de Histria da Magia - ela estava
cercada de amigas. Ser que a garota nunca ia a lugar algum sozinha? Ser que ele talvez pudesse surpreend-la quando estivesse entrando no banheiro? Mas no - parecia
at que ela entrava ali tambm com um squito de quatro ou cinco colegas. Contudo, se ele no a convidasse logo, quando o fizesse ela j teria sido convidada por
outro.
        Harry achou difcil se concentrar no teste de Snape sobre antdotos e, em conseqUncia, esqueceu de acrescentar um ingrediente
#314
bsico - o benzoar -, o que significou que recebeu uma nota baixa. Mas ele no se incomodou; estava ocupado demais reunindo coragem para o que pretendia fazer. Quando
a sineta tocou, ele agarrou a mochila e correu para a porta da masmorra.
        -        Encontro vocs na hora do jantar - disse a Rony e Hermione, e saiu correndo escada acima.
        Teria que pedir a Cho uma palavrinha em particular, s isso... assim, saiu apressado pelos corredores apinhados procurando a garota e encontrou-a (mais cedo 
do que esperava), saindo da aula de Defesa contra as Artes das Trevas.
        -        Hum... Cho? Posso dar uma palavrinha com voc?
        Risadinhas deviam ser proibidas por lei, pensou Harry furioso,
quando as garotas  volta de Cho comearam a rir. Mas ela no.
Respondeu:
        -        OK - e acompanhou-o at ficarem fora do alcance dos ouvidos das colegas.
        Harry virou-se para olh-la e seu estmago afundou de um
jeito esquisito, como se ele tivesse descido dois degraus de uma vez,
sem querer.
        -        Hum - comeou ele.
        No podia convid-la. No podia. Mas tinha que convid-la.
Cho ficou parada ali com uma expresso intrigada, olhando para
ele.
        As palavras saram antes que Harry conseguisse tirar a lngua
do caminho.
-        Quer ir ao baile comigo?
        -        Desculpe, no ouvi - disse Cho.
        -        Voc quer... voc quer ir ao baile comigo? - disse Harry. Por que tinha que ficar vermelho justamente agora? Por qu?
        - Ah! - exclamou Cho, corando tambm. - Ah, Harry, sinceramente sinto muito - e seu rosto parecia confirmar isso. - Eu j
disse que iria com outro garoto.
        -        Ah - disse Harry.
        Era estranho; um momento antes suas entranhas estavam revirando como cobras, mas de repente ele parecia no ter mais entranhas.
        -Ah, OK, no faz mal.        
        - Sinto muito mesmo - repetiu a garota.
        - Tudo bem.
#315
        Eles ficaram ali parados se olhando, ento Cho disse:
        -        Bom...
        --disse ele.
        -        Ento, tchau - disse a garota ainda muito vermelha. E se afastou.
        Harry chamou-a antes que pudesse se conter.
        -        Com quem  que voc vai?
-        Ah... Cedrico. Cedrico Diggory.
        -        Ah, certo.
        As entranhas dele tinham voltado ao lugar. Pareciam ter-se enchido de chumbo durante a ausncia.
        Esquecendo-se completamente do jantar, ele subiu devagarinho a escada para a
Torre da Grifinria. A voz de Cho ecoava em seus ouvdos a cada passo. "Cedrico...
Cedrico Diggory. "Harry tinha at comeado a gostar de Cedrico - se dispusera a esquecer o fato de que o garoto o derrotara no quadribol, e era bonito e popular,
e era praticamente o campeo favorito da escola. Agora, de repente, ele se dava conta de que Cedrico era na realidade um garoto bonito e intil que no tinha crebro
suficiente para encher um oveiro.
        -        Luzes encantadas - disse secamente  Mulher Gorda, a senha fora trocada na vspera.
        -        Com certeza, meu querido! - chilreou ela, acertando a faixa de lantejoulas nos cabelos ao girar para a frente para admitir o garoto.
        Ao entrar na sala comunal, Harry correu os olhos pelo aposento, e para sua surpresa, viu Rony sentado, de rosto branco, num canto distante. Gina estava ao
seu lado conversando, aparentemente numa voz baixa de quem consola.
        -        Que aconteceu, Rony? - perguntou Harry se juntando aos dois.
        Rony ergueu os olhos para Harry, uma expresso de horror no
rosto.
        -        Por que fiz aquilo? - perguntou ele enlouquecido. - No sei o que me obrigou a fazer aquilo!
-        O qu?
        -        Ele... hum... convidou Fleur Delacour para ir ao baile - disse Gina. Parecia que estava fazendo fora para no rir, mas continuou
        a dar palmadinhas no brao de Rony, demonstrando sua solidariedade.
        -Voc o qu?
#316
        -        No sei o que me obrigou a fazer aquilo! - exclamou Rony outra vez. - Quem  que eu estava fingindo que era? Havia gente, a toda volta, fiquei maluco,
todo mundo olhando! Eu estava passando por ela no saguo de entrada, Fleur estava parada conversando com Diggory, e uma coisa parece que se apoderou de mim, e convidei!
        Rony gemeu e enterrou o rosto nas mos. Ele no parava de
falar embora fosse difcil distinguir o que dizia.
        -        A garota olhou para mim como se eu fosse um verme ou coisa parecida. Nem me respondeu. E ento... nao sei... parece que
recuperei o juzo e me mandei dali.
        -        Ela  parte veela - disse Harry. - Voc tinha razo, a av dela era veela. No foi sua culpa, aposto como voc passou na hora em que ela estava
jogando charme para Diggory e voc foi atingido, mas ela est perdendo tempo. Ele vai levar Cho.
        Rony levantou a cabea.
        -        Eu acabei de convid-la para ir comigo - disse Harry sem emoo -, e ela me contou.
        Gina de repente parara de sorrir.
        -        Isso  uma pirao - disse Rony -, somos os nicos que no tm ningum, bem, tirando o Neville. Ei, adivinha quem ele convidou? Mione!
        -        Qu! - exclamou Harry, completamente distrado pela surpreendente notcia.
        -        , eu sei! - disse Rony, um pouco de cor voltando ao seu rosto quando ele comeou a rir. - Neville me contou depois da aula de Poes! Disse que 
ela sempre foi muito legal, que o ajudava nos estudos, mas Mione falou que j estava indo com algum. Ha! Como se fosse! Ela s no queria ir com o Neville... quero 
dizer, quem iria querer?
        -        No! - disse Gina aborrecida. - No ria...
        Naquele instante Hermione vinha passando pelo buraco do
retrato.
        -        Por que vocs dois no foram jantar? - perguntou ela, vindo se reunir ao grupo.
        -        Porque... ah, parem de rir, vocs dois... porque as garotas que
eles convidaram acabaram de recusar o convite! - disse Gina.        
        Isso fez os dois calarem a boca.
        -        Obrigado, Gina - disse Rony azedo.
#317
        -        Todas as garotas bonitas j esto ocupadas, Rony? - perguntou Hermione com um ar superior. - A Heloisa Midgen est comeando a parecer bem bonita,
agora, no est no? Bem, tenho certeza de que vocs vo encontrar em algum lugar algum que queira voces.
        Mas Rony estava encarando Hermione como se, de repente, a
visse sob uma luz totalmente nova.
        -        Hermione, Neville tem razo, voc  uma garota...
        -        Bem observado - respondeu ela com azedume.
        -        Ento... voc poderia acompanhar um de ns!
        -        No, no poderia - retorquiu Hermione.
        -        Ah, vai - disse ele impaciente -, precisamos de pares, vamos fazer um papel realmente idiota se no tivermos nenhum, todos os
outros tm...
-        No posso ir com vocs - disse Hermione, agora corando-, porque j estou indo com uma pessoa.
        -        No, no est! - disse Rony. - Voc s disse isso para se livrar de Neville!
        -        Ah, foi? - Os olhos de Hermione faiscaram perigosamente.
-        S porque voc levou trs anos para reparar, Rony, no significa que mais ningum tenha percebido que eu sou uma garota!
        Rony arregalou os olhos para ela. Depois tornou a sorrir.
        -        OK, OK, sabemos que voc  uma garota. Satisfeita? Voc vai com a gente agora?
        -        Eu j falei! - disse Hermione muito zangada. - Estou indo com outra pessoa!
        E saiu decidida em direo  escada para o dormitrio das
garotas.
        -        Ela est mentindo - sentenciou Rony, acompanhando-a com o olhar.
        -        No est, no - disse Gina baixinho.
        -        Quem  a pessoa, ento?
        -        No vou dizer, no  da sua conta.
        -        Certo - disse ele, que parecia ofendidssimo -, essa histria est ficando idiota. Gina voc pode ir com o Harry e eu vou...
        -        No posso - respondeu Gina, e ela ficou vermelha tambm.
       - Estou indo com... com Neville. Ele me convidou quando Hermione disse no e eu achei... bem... de outro jeito eu no poderia
ir, no estou no quarto ano. - Ela parecia infelicssima. - Acho que
#318
vou descer para jantar - e dizendo isso, se levantou e saiu pelo buraco do retrato, de cabea baixa.
        Rony ficou olhando abobado para Harry.
        -        Que ser que deu nelas? - perguntou.
        Mas Harry acabara de ver Parvati e Lil entrando pelo buraco do retrato. Chegara a hora de tomar atitudes drsticas.
        -        Espera aqui - disse ele a Rony, se levantou, saiu numa linha reta at
Parvati e disse:
        -        Parvati? Quer ir ao baile comigo?
        Parvati teve um acesso de risinhos. Harry esperou que ela terminasse, os dedos cruzados dentro do bolso das vestes.
        -        Tudo bem - disse por fim a garota, corando furiosamente.
        -        Obrigado - disse Harry, aliviado. - Lil, voc quer ir com o Rony?
        -        Ela vai com o Simas - respondeu Parvati e as duas tiveram outro acesso de risinhos ainda mais forte.
        Harry suspirou.
        -        Sabem de algum que pudesse ir com o Rony? - disse ele, baixando a voz de modo que o amigo no o ouvisse.
        -        Que tal a Hermione Granger? - sugeriu Parvati.
        -        Ela est indo com outra pessoa.
        A garota fez cara de espanto.
        -        Aaaah... quem? - perguntou interessada.
        Harry encolheu os ombros.
        -        No fao idia. Ento, e o Rony?
        -        Bem... - disse Parvati lentamente. - Imagino que minha irm talvez... Padma, sabe... da Corvinal. Eu pergunto a ela se voc
quiser.
        -        Quero, seria timo. Me avisa, est bem?
        E ele voltou para onde Rony estava, com a sensao de que esse
tal baile dava muito mais trabalho do que merecia, e desejou que o
nariz de Padma Patil fosse bem centrado no rosto.
#319

*****


- CAPITULO VINTE E TRS -
O Baile de Inverno


Apesar da pesada carga de deveres de casa que os alunos do quarto ano tinham recebido para as frias, Harry no estava com a menor vontade de estudar quando o trimestre 
terminou, e passou a semana que antecedeu o Natal divertindo-se o mximo possvel como todos os outros alunos. A Torre da Grifinria no parecia mais vazia agora 
do que estivera durante o tempo de aulas; parecia at ter encolhido ligeiramente, porque seus moradores estavam muito mais barulhentos do que o normal. Fred e Jorge 
fizeram grande sucesso com os seus Cremes de Canrio e, nos primeiros dois dias de frias, as pessoas no paravam de explodir em penas por todo o lado. No tardou 
muito, porm, todos os alunos da Grifinria aprenderam a olhar a comida que outras pessoas ofereciam com extrema cautela, para a eventualidade de ter Creme de Canrio 
escondido no meio e Jorge confidenciou a Harry que ele e Fred agora estavam trabalhando em outra inveno. Harry fez uma anotao mental para,
no futuro, jamais aceitar sequer uma batata frita de Fred e Jorge. Eh
                ainda no esquecera Duda e o Caramelo Incha-Lngua.
                   Caa muita neve sobre o castelo e seus terrenos agora. A carruagem 
azul-clara da Beauxbatons parecia uma enorme abbora
coberta de gelo ao lado da casinha de bolo glaado que era a cabana de Hagrid, enquanto as escotilhas do navio de Durmstrang
estavam foscas e o cordame branco de gelo. Os elfos domsticos na
cozinha se desdobravam para preparar pratos nutritivos, ensopados
                que aqueciam e sobremesas deliciosas, e somente Fleur
Delacor
                parecia ser capaz de encontrar de que reclamar.
                  -  pesada demais, essa comida de Ogwarts - ouviram-na
reclamar mal-humorada, quando, certa noite, deixavam a Salp
Principal atrs dela (Rony escondendo-se atrs de Harry, cuidando
para no ser visto por Fleur). - No vou caberr nas minhas vestes
                de baile!
#320
        - Aaah, mas que tragdia - comentou Hermione na hora em que Fleur ia chegando ao saguo de entrada. - Ela realmente se
acha muito importante, essa a, no ?
        -        Hermione, com quem voc vai ao baile? - perguntou Rony.
        O        garoto no parava de assedi-la com essa pergunta, na esperana de faz-la responder sem querer ao ser perguntada quando menos esperasse. No entanto,
Hermione meramente franzia a testa e dizia:
        -        No vou lhe contar porque voc iria caoar de mim.
        -        Voc est brincando, Weasley? - disse Malfoy s costas deles.
-        Voc est dizendo que algum convidou isso para ir ao baile? No foi o sangue-ruim de molares compridos, foi?
Harry e Rony se viraram na mesma hora, mas Hermione disse
em voz alta, acenando para algum por cima do ombro de Malfoy:
        - Ol, Prof. Moody!
Malfoy ficou plido e pulou para trs, procurando Moody com
um olhar alucinado, mas o professor ainda estava  mesa, terminando seu ensopado.
        -        Que doninha nervosinha voc , hein? - comentou Hermione demonstrando desprezo, e ela, Rony e Harry subiram a escadaria de mrmore dando boas risadas.
        -        Hermione - disse Rony, olhando para ela de esguelha e, de repente, franzindo a testa -, os seus dentes...
        -        Que tm eles?
        -        Bem, esto diferentes... acabei de notar...
        -        Claro que esto, voc esperava que eu ficasse com aquelas presas que Malfoy me deu?
        -        No, quero dizer, eles esto diferentes do que eram antes de ele lanar o feitio em voc... esto... retos e... do tamanho normal.
        Hermione de repente sorriu muito travessamente, e Harry
tambm reparou: era um sorriso diferente do que ele lembrava.
        -        Bem... quando fui procurar Madame Pomfrey para consertar os dentes, ela segurou um espelho e me disse para mandar ela parar quando os dentes voltassem 
ao tamanho normal. E eu deixei ela demorar um pouco mais. - Hermione deu um sorriso ainda maior.
-        Papai e mame no vo ficar muito satisfeitos. Estou tentando
convencer os dois a me deixar reduzir os dentes h sculos, mas eles
 queriam que eu continuasse com o aparelho. Sabe, eles so dentistas,
#321
da acharem que dentes e magia no devem... olhem l! Pichitinho voltou!
        A corujinha de Rony piava feito louca no alto da balaustrada enfeitada de pingentes de gelo, um
rolo de pergaminho amarrado  perna. As pessoas que passavam
apontavam e riam, e um grupo de alunas do terceiro ano parou para comentar: "Ah, olha s que corujinha mnima! No  uma gracinha?"
        - Seu penoso babaca! - sibilou Rony correndo escada acima e agarrando Pichitinho. - Voc entrega as cartas direto ao destinatrio! No fica por a se exibindo!
        Pichitinho piou alegremente, a cabea espichando por cima da
mo fechada de Rony. As garotas do terceiro ano pareceram muito
chocadas.
        - Caiam fora! - disse Rony rispidamente, sacudindo a mo que segurava a coruja, que piou ainda mais alegremente ao sair voando pelos ares. - Aqui, toma,
Harry - acrescentou Rony em voz baixa, enquanto as garotas saam correndo com o ar escandalizado. Ele puxou a resposta da perna de
Pichitinho, Harry embolsou-a e
os trs correram a l-la na Torre da Grifinria.
        Todos na sala comunal estavam demasiado ocupados extravasando a agitao das frias para observar o que algum mais estivesse fazendo. Harry, Rony e Hermione 
se sentaram afastados dos colegas, junto a uma janela escura que lentamente se cobria de neve e Harry leu em voz alta.

Caro Harry,
        Parabns por conseguir passar pelo Rabo-Crneo, quem ps o seu nome naquele
clice no deve estar se sentindo muito feliz no momento! Eu ia sugerir um Feitio
Conjunctivitus, porque os olhos do drago so o seu ponto mais fraco...

-        Foi o que Krum usou! - murmurou Hermione.

        mas do seu jeito foi melhor, estou impressionado.
                   Porm, no fique se sentindo muito satisfeito consigo mesmo,
                Harry. Voc s deu conta de uma tarefa; quem o inscreveu
no
                torneio vai ter muitas outras oportunidades se quer realmente
lhe fazer mal. Mantenha os olhos abertos - particularmente quando
                a pessoa de quem j falamos estiver por perto - e se concentre
em no se meter em confuses.
#322
        Mande notcias, contnuo querendo saber de qualquer coisa anormal.
Si ri us

-        Ele est falando exatamente a mesma coisa que Moody - disse Harry em voz baixa, guardando a carta dentro das vestes. - "Vigilncia constante!" Parece at
que eu ando por a com os olhos fechados, ricocheteando nas paredes...
        -        Mas ele tem razo, Harry - disse Hermione -, voc ainda tem duas tarefas a cumprir. Devia realmente dar uma olhada naquele
ovo, sabe, e comear a estudar o que significa...
        -        Hermione, ainda faltam sculos! - disse Rony com rispidez.
-        Quer jogar uma partida de xadrez, Harry?
        -        OK - disse Harry. Depois, vendo a expresso de Hermione:
-        Vamos, como  que vou me concentrar nessa barulheira? No vou conseguir nem ouvir o ovo com essa turma berrando.
        -        Ah, imagino que no - suspirou ela, se sentando para assistir  partida, que terminou num excitante xeque-mate de Rony, envolvendo dois pees corajosos
mas imprudentes e um bispo muito violento.

Harry acordou, de repente, na manh de Natal. Imaginando o que teria causado o seu abrupto retorno  conscincia, ele abriu os olhos e viu uma coisa de olhos muito
grandes, verdes e redondos que O encarava na escurido, to prximo que a coisa e ele estavam quase nariz contra nariz.
        -        Dobby!- berrou Harry, afastando-se do elfo to depressa que quase caiu da cama. - No faz isso!
        -        Dobby sente muito, meu senhor! - esganiou-se o elfo com a voz cheia de ansiedade, saltando pra trs com os longos dedos cobrindo a boca. - Dobby
s est querendo desejar a Harry Potter "Feliz Natal" e lhe trazer um presente, meu senhor! Harry Potter disse que Dobby podia vir v-lo um dia desses, meu senhor!
        -        Tudo bem - disse Harry, ainda respirando muito acelerado, enquanto seu corao voltava ao normal. - Da prxima vez  s me
cutucar ou outra coisa assim, no se debrua sobre mim desse jeito...
        Harry afastou as cortinas da cama, apanhou os culos na mesade-cabeceira e colocou-os. Seu berro acordara Rony, Simas, Dino e
#323
Neville. Os quatro estavam espiando entre as cortinas de suas camas, as plpebras pesadas e os cabelos desmanchados.
        -        Algum est atacando voc, Harry? - perguntou Simas sonolento.
        -        No,  s o Dobby - resmungou Harry. - Pode voltar a dormir.
        -        Ah... presentes! - exclamou Simas, vendo a montanha aos ps de sua cama. Rony, Dino e Neville resolveram que, uma vez que estavam acordados, era 
melhor comearem a abrir os presentes, tambm. Harry se voltou para Dobby, que agora estava de p, nervoso, ao lado de sua cama, ainda com o ar preocupado por ter 
perturbado o garoto. Havia um enfeite de Natal preso  argola do seu abafador.
        -        Dobby pode dar o presente dele a Harry Potter? - perguntou ele hesitante.
        -        Claro que pode. Hum... tambm tenho uma coisinha para voce.
        Era mentira; no comprara nada para Dobby, mas abriu depressa o seu malo e tirou um par de meias enrolado, e particularmente cheias de bolotinhas. Eram 
suas meias mais velhas e piores, amarelo-mostarda e, tempos atrs, tinham pertencido ao tio Vlter. A razo por que estavam to emboloradas  que Harry as usava 
para embrulhar o bisbilhoscpio. Ele desembrulhou o objeto e entregou as meias a Dobby, dizendo:
        -        Desculpe, me esqueci de embrulhar...
        Mas Dobby ficou absolutamente encantado.
        -        As meias so as peas favoritas, favoritas mesmo, de Dobby, meu senhor! - disse o elfo rasgando as meias velhas que calava e pondo as do tio Vlter. 
- Agora tenho sete, meu senhor... mas, meu senhor... - disse ele arregalando os olhos, depois de puxar as meias at onde pde, de modo que elas chegaram  bainha 
dos seus shorts
- eles se enganaram na loja, Harry Potter, lhe venderam duas meias iguais!
        -        Ah, no, Harry, como foi que voc no viu isso! - exclamou Rony, rindo l de sua cama, que agora estava juncada de papel de embrulho. - Vou dizer
o que vou fazer, Dobby, aqui, tome mais duas e voc pode combin-las como deve ser. E aqui est seu suter.
 O garoto atirou para Dobby um par de meias roxas que acabara de desembrulhar e o suter tricotado  mo que a Sra. Weasley
Lhe mandara.
#324
        Dobby no coube em si de contentamento.
        -        Meu senhor, o senhor  muito bondoso! - guinchou ele com os olhos transbordantes de lgrimas, fazendo profundas reverncias para Rony. - Dobby sabia
que o senhor devia ser um grande bruxo, porque  o maior amigo de Harry Potter, mas Dobby no sabia que tambm era to grande em generosidade de alma, to nobre,
to sem egosmo...
        -        So apenas meias - disse Rony, cujas orelhas coraram ligeiramente, embora ele parecesse muito satisfeito. - Uau, Harry - ele acabara de abrir o
presente de Harry, um bon do Chudley Cannon. - Maneiro! - Enfiou o bon na cabea, onde a cor se chocou violentamente com os seus cabelos.
        Dobby em seguida entregou um pacotinho a Harry, que continha nada menos que... meias.
        -        Dobby fez elas com as prprias mos, meu senhor! - disse o elfo alegremente. - Comprou a
l com o ordenado dele, meu
senhor!
        A meia esquerda era vermelho-berrante e tinha uns desenhos
de vassouras; a direita era verde, com um desenho de ns.
        -        Elas so... elas so realmehte... ah, muito obrigado, Dobby - disse Harry e calou-as, fazendo os olhos de Dobby marejarem
novamente de felicidade.
        -        Dobby precisa ir agora, meu senhor, j estamos preparando o almoo de Natal na cozinha! - E saiu apressado do dormitrio, acenando um adeus para
Rony e os outros garotos ao passar.
        Os outros presentes de Harry foram muito mais satisfatrios do que as meias desparelhadas de Dobby - com exceo bvia do presente dos Dursley, que consistia
em uma nica folha de papel absorvente, o mais pobre que j recebera, Harry sups que eles, tambm, deviam estar se lembrando do Caramelo Incha-Lngua. Hermione
dera a Harry um livro intitulado Os times de quadribol da Gr-Bretanha e da Irlanda; Rony, uma grande sacola de bombas de bosta; Sirius, um canivete maneiro com
acessrios para abrir qualquer porta e desfazer qualquer n; e Hagrid, uma enorme caixa de doces com todos os que Harry mais gostava - Feijezinhos de Todos os Sabores
Bertie Botts, Sapos de Chocolate, Chicles de
Baba-Bola e Delcias Gasosas. Ganhara, tambm,  claro, o pacote
habitual da Sra. Weasley, incluindo um novo suter (verde com a
estampa de um drago - Harry imaginou que Carlinhos lhe contara
#325
tudo sobre o Rabo-Crneo) e uma grande quantidade de tortas caseiras de frutas secas.
Harry e Rony se encontraram com Hermione na sala comunal
e desceram juntos para tomar o caf da manh. Os trs passaram a
maior parte da manh na Torre da Grifinria, onde todos se divertiam com os presentes recebidos, depois voltaram ao Salo Principal
para um almoo magnfico, que inclua no mnimo uns cem perus
e pudins de Natal e montanhas de Bolachas Mgicas de Cribbage. Os garotos saram para os jardins  tarde; a neve estava intocada, exceto pelas valas fundas feitas
pelos estudantes de Durmstrang e Beauxbatons a caminho do castelo. Hermione preferiu assistir  batalha de bolas de neve de Harry com os Weasley, em vez de tomar
parte nela e, s cinco horas, disse que ia subir para se preparar para o baile.
        -        Qu, voc precisa de trs horas? - perguntou Rony, olhando para ela incrdulo e pagando por esse lapso de concentrao: uma enorme bola, atirada
por Jorge, atingiu-o com fora do lado da cabea. - Com quem  que voc vai? - gritou ele para Hermione, mas a garota apenas acenou e desapareceu pela escada de
acesso ao castelo.
        No houve o ch de Natal quela tarde porque o baile inclua um banquete, de modo que s sete horas, quando ficou difcil fazer pontaria direito, os garotos
abandonaram a batalha de bolas de neve e marcharam de volta ao salo comunal. A Mulher Gorda estava sentada em sua moldura com a amiga Violeta do andar de baixo,
as duas extremamente tontas, caixas vazias de bombons recheados de licor amontoadas sob o quadro.
        -        Lutas de Covilp  isso a! - riu-se ela quando os garotos disseram a senha, e ela girou o quadro para a frente para deix-los passar.
        Harry, Rony, Simas, Dino e Nevlle trocaram a roupa por vestes a rigor no dormitrio, todos se sentindo muito constrangidos,
mas nenhum tanto quanto Rony, que se examinou no comprido
espelho a um canto, com cara de desgosto. No havia como contornar o fato de que as vestes dele pareciam mais um vestido do que
        qualquer outra coisa. Numa tentativa desesperada de faz-las
parecer mais masculinas, ele usou um Feitio de Corte nos babados do
decote e das mangas. Funcionou bastante bem; pelo menos se
livrara das rendas, embora no tivesse feito um trabalho muito
#326
caprichado, e as barras ainda parecessem lastimavelmente esfiapadas quando eles desceram.
        -        Eu ainda no consigo entender como foi que vocs dois ficaram com as garotas mais bonitas do ano - murmurou Dino.
        -        Magnetismo animal - disse Rony deprimido, puxando fiapos das bainhas dos punhos.
        O        salo comunal estava com um ar estranho, cheio de gente usando diferentes cores em lugar da massa negra de sempre. Parvati esperava Harry ao p
da escada. Estava realmente muito bonita, com vestes rosa-choque, sua longa trana negra entrelaada com ouro e pulseiras de ouro reluzindo nos braos. Harry se 
sentiu aliviado de ver que ela no estava dando risadinhas.
        -        Voc... hum... est bonita - disse ele sem jeito.
        -        Obrigada. Padma vai se encontrar com voc no saguo de entrada - acrescentou para Rony.
        -        Certo - disse Rony, olhando  volta. - Cad Hermione?
        Parvati deu de ombros.
        -        Vamos descer, ento, Harry?
        -        OK- concordou o menino, desejando poder continuar no salo comunal. Fred piscou para ele ao passar pelo buraco do retrato.
        O        saguo de entrada tambm estava apinhado de estudantes, todos andando por ali  espera de que dessem oito horas, quando as portas para o Salo Principal 
seriam abertas. As pessoas que iam encontrar pares de outras Casas procuravam atravessar a aglomerao, tentando localizar uns aos outros. Parvati encontrou a irm
Padma e levou-a at Harry e Rony.
        -        Oi - cumprimentou Padma, que estava to bonita quanto Parvati, de vestes turquesa-forte. Mas no parecia muito entusiasmada com a idia de ter Rony
como par; seus olhos escuros se demoraram nas mangas e no decote esfiapados das vestes do garoto quando o examinou de alto a baixo.
        -        Oi - disse Rony sem olhar para ela, mas espiando os convidados. - Ah, nao...
        Ele dobrou ligeiramente os joelhos para se esconder atrs de Harry, porque Fleur Delacour ia passando, absolutamente fantstica com suas vestes de cetim 
cinza-prateado, acompanhada pelo capito do time de quadribol da Corvinal, Rogrio Davies. Quando 
os dois desapareceram, Rony se endireitou e ficou examinando
as cabeas das pessoas que estavam de costas.
#327
-        Cad a Hermione? - indagou outra vez.
        Um grupo de alunos da Sonserina vinha subindo as escadas do seu salo comunal na masmorra. Malfoy  frente; usava vestes de veludo negro com a gola alta,
que na opinio de Harry o faziam parecer um padre. Pansy Parkinson estava agarrada ao brao de Malfoy, com vestes rosa-claro cheias de babadinhos. Crabbe e Goyle
vinham de verde; pareciam pedregulhos cobertos de limo e nenhum dos dois, Harry ficou satisfeito de constatar, conseguira encontrar um par.
        As portas de carvalho da entrada se abriram e todos se viraram para olhar os alunos de Durmstrang entrarem com o Prof. Karkaroff. Krum vinha  frente da
delegao, acompanhado por uma garota bonita, de vestes azuis, que Harry no conhecia. Por cima das cabeas do grupo, ele viu que a rea do gramado logo  entrada
do castelo fora transformada em uma espcie de gruta cheia de luzes encantadas - ou seja, centenas de fadinhas vivas encontravam-se sentadas nas roseiras que tinham
sido conjuradas ali e esvoaavam sobre as esttuas que pareciam representar Papai Noel e suas renas.
        Ento a voz da Profp Minerva McGonagall chamou:
-        Campees aqui, por favor!
        Parvati ajeitou as franjas, sorridente; ela e Harry disseram "Vemos vocs daqui a pouco", para Rony e Padma, e se adiantaram, a aglomerao de pessoas que
conversavam se abriu para deix-los passar. A professora, que trajava vestes a rigor de
tartan vermelho, e enfeitara a aba do chapu com uma guirlanda bem feiosa
de cardos - a flor nacional da Esccia -, mandou-os esperar a um lado das portas, enquanto os demais entravam; eles deviam entrar no Salo Principal em cortejo,
quando os outros estudantes se sentassem. Fleur Delacour e Rogrio Davies pararam mais prximos s portas; Davies parecia to aturdido com a sua sorte de ter Fleur
como par que mal conseguia desgrudar os olhos dela. Cedrico e Cho ficaram ao lado de Harry; o garoto desviou o olhar para no precisar conversar com eles. Em lugar
disso, seu olhar recaiu sobre a garota ao lado de Krum. Seu queixo caiu.
        Era Hermione.
        Mas ela no parecia nadinha com a Hefmione. Fizera alguma
        coisa com os cabelos; no estavam mais lanzudos, mas lisos e
brilhantes e enrolados num elegante n na nuca. Estava usando vestes
        feitas de um tecido etreo azul-pervinca, e tinha uma postura um
#328
tanto diferente - ou talvez fosse meramente a ausncia dos vinte e tantos livros que ela normalmente carregava s costas. E sorria - um sorriso um pouco nervoso,
era verdade - mas a reduo no tamanho dos dentes da frente era mais visvel que nunca. Harry no conseguia compreender como no a vira antes.
        -        Oi, Harry! - disse ela. - Oi, Parvati!
        Parvati mirava Hermione com depreciativa incredulidade. E no era a nica, tampouco; quando as portas do Salo Principal se abriram, o f-clube de Krum que
fazia ponto na biblioteca passou, lanando a Hermione olhares de profundo desprezo. Pansy Parkinson boquiabriu-se ao passar com Malfoy, e mesmo ele no pareceu capaz 
de encontrar uma ofensa para atirar a Hermione. Rony, porm, passou direto por ela sem sequer olhar.
        Depois que estavam todos sentados no salo, a Profa Minerva mandou os campees e seus pares formarem um cortejo, de dois em dois, e a seguiram. Os garotos
obedeceram e todos no salo aplaudiram, quando eles entraram e se dirigiram a uma grande mesa redonda no fundo do salo, onde estavam sentados os juizes.
        As paredes do salo estavam cobertas de gelo prateado e cntilante, com centenas de guirlandas de visco e azevinho cruzando o teto escuro salpicado de estrelas.
As mesas das Casas haviam desaparecido; em lugar delas havia umas cem mesinhas iluminadas com lanternas, que acomodavam, cada uma, doze pessoas.
        Harry se concentrou em no tropear nos prprios ps. Parvati parecia estar se divertindo; sorria radiante para todos, conduzindo Harry com tanta firmeza
que ele teve a sensao de que era um cachorrinho de concurso que ela estava ensinando a desfilar. Ele avistou Rony e Padma ao se aproximar da mesa principal. Rony
observava Hermione passar com os olhos apertados. Padma parecia chateada.
        Dumbledore sorriu feliz quando os campees se aproximaram da mesa principal, mas Karkaroff tinha uma expresso parecidssima com a de Rony ao ver Krum e
Hermione se aproximarem. Ludo Bagman, esta noite de vestes roxo-berrante, com grandes estrelas amarelas, batia palmas com tanto entusiasmo quanto qualquer estudante;
e Madame Maxime, que trocara o uniforme costumeiro de cetim negro por um vestido rodado de seda lils, os
aplaudia educadamente. Mas o Sr. Crouch, Harry percebeu de
sbito, no estava presente. A quinta cadeira  mesa estava ocupada por Percy Weasley.
#329
        Quando os campees e seus pares chegaram  mesa, Percy puxou uma cadeira vazia ao seu lado, olhando significativamente para Harry. Harry entendeu a deixa
e se sentou ao lado do garoto, que trajava vestes a rigor azul-marinho, novssimas, e exibia uma expresso de grande presuno.
        -        Fui promovido - disse Percy, antes mesmo que Harry lhe perguntasse e, pelo seu tom, parecia estar anunciando sua eleio para Supremo Dirigente
do Universo. - Agora sou assistente pessoal do Sr. Crouch, e estou aqui para represent-lo.
        -        Por que  que ele no veio? - perguntou Harry. No se sentia nada ansioso para passar o jantar ouvindo uma aula sobre o
fundo dos caldeires.
        -        Receio que o Sr. Crouch no esteja passando bem, nada bem. No tem estado bem desde a Copa Mundial. O que no chega a surpreender, excesso de trabalho.
J no  to jovem quanto era, embora continue genial,  claro, a cabea continua brilhante como sempre foi. Mas a Copa Mundial foi um fiasco para todo o Ministrio,
e depois, o Sr. Crouch sofreu um grande choque pessoal com o mau comportamento do seu
elfo domstico, Blinky, ou sei l que nome tinha. Naturalmente ele a dispensou
em seguida, mas, bem, como disse, meu chefe est ficando velho, precisa de algum para cuidar dele, e acho que seu conforto em casa sofreu um decidido baque desde
que o elfo foi embora. Depois, ento, tivemos que organizar o torneio, e o rescaldo da Copa Mundial para resolver, aquela nojenta da
Skeeter xeretando por toda parte,
no, coitado, ele est passando um tranquilo e merecido Natal. S fico satisfeito por ele saber que tem algum de confiana para substitui-lo.
        Harry teve muita vontade de perguntar se o Sr. Crouch j parara de chamar Percy de "Wearherby", mas resistiu  tentao.
        Ainda no havia comida nas travessas de ouro, apenas pequenos menus diante de cada conviva. Harry apanhou o dele hesitante e espiou para os lados - no havia
garons. Dumbledore, no entanto, examinou atentamente o prprio menu, depois ordenou muito claramente ao seu prato:
        -        Costeletas de porco!
       E as costeletas de porco apareceram. Entendendo a idia, os
demais ocupantes da mesa tambm fizeram os pedidos aos seus
pratos. Harry olhou para Hermione a ver o que ela achava desse
#330
novo e complicado mtodo de jantar - certamente significava muito mais trabalho para os elfos domsticos! -, mas, ao menos uma vez na vida, Hermione no parecia
estar pensando no F.A.L.E. Estava profundamente absorta conversando com Vtor Krum e parecia nem notar o que estava comendo.
Agora ocorria a Harry que ele nunca chegara a ouvir Krum
falar antes, mas sem dvida o garoto estava falando agora e, pelo
visto, com muito entusiasmo.
        -        Pom, temos um castelo tambm, non  ton grrande quanto este, nem ton conforrtvel, acho - ia ele dizendo a Hermione. - Temos s
quartro andarres,
e as larreirras s so acesas parra finalidades mgicas. Mas a prroprriedade em que
ecst a escola  ainda maiorr do que esta, emborra no inverrno a gente tenha
muito pouca luz solarr, porr isso no aprroveitamos muito os jarrdins. Mas no verro todo o dia sobrrevoamos os lagos e montanhas...
        -        Ora, ora, Vtor! - disse Karkaroff, com uma risada que no se estendeu aos seus olhos frios. -. No v contar mais nada, agora, ou a nossa encantadora
amiga vai saber exatamente onde nos encontrar!
Dumbledore sorriu, seus olhos cintilando.
        -        Igor, tanto segredo... a pessoa poderia at pensar que voce no quer visitas.
        -        Bom, Dumbledore - disse Karkaroff, mostrando os dentes amarelos -, todos protegemos os nossos domnios, no? Todos no guardamos zelosamente os 
templos de saber que nos foram confiados? No estamos certos em nos orgulhar de que somente ns conhecemos os segredos de nossas escolas, e, mais uma vez, certos 
em proteg-las?
        -        Ah, eu nunca sonharia em presumir que conheo todos os segredos de Hogwarts, Igor - disse Dumbledore amigavelmente. - Ainda hoje de manh, por exemplo, 
a caminho do banheiro, virei para o lado errado e me vi em um aposento de belas propores que eu nunca vira antes, e que continha uma coleo realmente magnfica 
de penicos. Quando voltei para investig-lo mais de perto, descobri que o aposento desaparecera. Mas preciso ficar atento para reencontr-lo.
 possvel que s esteja
acessvel s cinco
e meia da manh. Ou talvez s aparea com a lua em quartil ou
quando quem procura est com a bexiga excepcionalmente cheia.
#331
        Harry riu para dentro do prato de gulache. Percy franziu a testa, mas Harry poderia jurar que Dumbledore lhe dera uma piscadela quase imperceptvel.
        Entrementes, Fleur Delacour criticava as decoraes de Hogwarrs com Rogrio Davies.
        - Isse non  nada - disse ela contemplando as paredes cintilantes do Salo Principal com ar de pouo caso. - No Palace de Beauxbarons,
tems esculturres de gelo em volta da sala de jantarr no Natall. eles no derretem,  clarro..
. parrecem enorrmes esttues de diamante, faiscande pela sala. E a comida  simplesman superrbe.
E temes corres de ninfes das mates, cantando serrenatas enquanto comemes. No temes essas armadurras feies nos corrredorres e se um dia um polterrgeisr entrrasse
em Beauxbatons, serria expulso assim. - E ela bateu a mo com impacincia na mesa.
        Rogrio Davies observava a garota falar com uma expresso aturdida no rosto e a toda hora errava ao levar o garfo  boca. Harry teve a impresso de que o
garoto estava ocupado demais admirando Fleur para escutar uma nica palavra do que ela dizia.
        -        Absolutamente certa - disse ele depressa, batendo com a prpria mo na mesa como fizera Fleur. - Assim.
 claro.
        Harry correu os olhos pelo salo. Hagrid estava sentado a uma das mesas reservadas aos professores; voltara a vestir o seu horrvel terno peludo marrom,
e tinha os olhos fixos na mesa principal. Harry o viu dar um discreto aceno e, ao olhar para os lados, viu Madame Maxime retribuir o aceno, suas opalas faiscando
 luz das velas.
        Hermione agora ensinava Krum a pronunciar seu nome corretamente; ele no parava de cham-la de Hermy-on.
        -        Her-mi-o-ne - dizia ela lenta e claramente.
        -        Herm-on-nini.
        -        Est bastante parecido - disse ela, encontrando os olhos de Harry e sorrindo.
        Quando toda a comida fora consumida, Dumbledore se levantou e pediu aos estudantes que fizessem o mesmo. Ento, a um aceno de sua varinha, as mesas se encostaram 
s paredes, deixando o salo vazio, em seguida ele conjurou uma plataforma ao longo da parede direita. Sobre ela foram colocados uma bateria, alguns
violes, um alade, um violoncelo e algumas gaitas de foles.
        As Esquisitonas subiram, ento, no palco sob aplausos
delirantemente entusisticos; eram todas extremamente cabeludas, trajavam
#332
vestes negras que haviam sido artisticamente rasgadas. Apanharam seus instrumentos e Harry, que estivera to interessado em observ-las que quase esqueceu o
que viria a seguir, de repente percebeu que as lanternas de todas as outras mesas tinham se apagado e que os outros campees e seus pares estavam em p.
        -        Anda! - sibilou Parvati. - Temos que danar!
        Harry tropeou nas vestes ao se levantar. As Esquisitonas tocaram uma msica lenta e triste; Harry entrou na pista de dana bem iluminada, evitando cuidadosamente
o olhar dos colegas (ele viu Simas e Dino acenarem para ele entre risinhos), e no momento seguinte, Parvati agarrara suas mos, colocara uma em torno da prpria
cintura e segurava a outra na dela.
        No foi to mal como poderia ter sido, pensou Harry, girando lentamente no mesmo lugar
(Parvati o conduzia). Mantinha os olhos fixos sobre as cabeas das
pessoas que assistiam, mas dali a pouco muitas delas tambm vieram para a pista de dana, de modo que os campees deixaram de ser o centro das atenes. Neville
e Gina danavam prximos a ele - Harry via Gina fazer frequentes caretas sempre que Neville pisava seus ps - e Dumbledore valsava com Madame Maxime. Ficava to
pequeno junto a ela que a ponta do seu chapu cnico mal roava o queixo da bruxa; no entanto, Madame Maxime se movia graciosamente para uma mulher daquele tamanho.
Olho-Tonto Moody estava seguindo um compasso de dois tempos extremamente desajeitado com a Profa Sinistra, que nervosamente evitava a perna de madeira do seu par.
        -        Belas meias, Potter - rosnou Moody ao passar, seu olho magico espiando atravs das vestes de Harry.
        -        Ah... so, Dobby, o elfo domstico, tricotou-as para mim - disse Harry, sorrindo.
        -        Ele d arrepios! - sussurrou Parvati, quando Moody se afastou batendo a perna de pau. - Acho que no deviam permitir aquele olho dele!
        Harry ouviu a ltima nota trmula da gaita de foles com alvio.
As Esquisitonas pararam de tocar, os aplausos encheram mais uma
vez o Salo Principal e Harry soltou Parvati.
        - Vamos sentar um pouco?
        - Ah... mas... agora vem uma realmente boa! - disse Parvati, ao ouvir as
Esquisitonas comearem uma nova msica, que era muito
mais movimentada.
#333
        -        No, no gosto dessa - mentiu Harry e conduziu a garota para fora da pista de dana, passando por Fred e Angelina, que danavam com tanta exuberncia
que as pessoas  volta deles se afastavam com medo de se machucar, e se dirigiram  mesa em que Rony e Padma estavam sentados.
        -        Como  que vocs esto indo? - perguntou Harry a Rony, se sentando e abrindo uma garrafa de cerveja amanteigada.
        Rony no respondeu. Olhava feio para Hermione e Krum, que danavam ali perto. Padma estava sentada com os braos e as pernas cruzadas, um p balanando ao
ritmo da msica. De vez em quando ela lanava um olhar aborrecido a Rony, que a ignorava completamente. Parvati se sentou do outro lado de Harry, cruzou os braos
e as pernas tambm e, minutos depois, foi convidada a danar por um garoto da Beauxbatons.
        -        Voc se importa, Harry? - perguntou Parvati.
        -        Qu? - disse Harry, que estava observando Cho e Cedrico.
        -        Ah, nada - retrucou Parvati e saiu com o garoto da Beauxbatons. Quando a msica terminou, ela no voltou.
        Hermione apareceu e se sentou na cadeira vazia de Parvati.
Estava com o rosto um pouco afogueado de danar.
        -        Oi - disse Harry. Rony no disse nada.
        -        Est quente, no acham? - disse ela se abanando com a mo.
- Vtor foi apanhar alguma coisa para a gente beber. Rony lhe lanou um olhar irritado.
        -        Vtor?- disse ele. - Ele ainda no lhe pediu para cham-lo de Vitinho?
        Hermione olhou para o garoto surpresa.
        -        Que  que h com voc?
        -        Se voc no sabe - disse ele sarcasticamente -, no sou eu que vou lhe dizer.
        Hermione encarou-o demoradamente, depois Harry, mas este
        sacudiu os ombros.
-        Rony, que ...
        -        Ele  da Durmsrrang - vociferou Rony. - Est competindo contra o Harry! Contra Hogwarts! Voc... voc est... - Rony
obviamente estava procurando palavras suficientemente fortes para
descrever o crime de Hermione - confraternizando com o inimigo,  isso que voc est fazendo!
        Hermione ficou boquiaberta.
#334
        -        No seja to burro! - respondeu ela aps um momento. - O inimigo! Francamente, quem  que ficou todo excitado quando viu o Krum chegar? Quem  que
queria pedir um autgrafo a ele? Quem  que tem um modelinho dele no dormitrio?
        Rony preferiu ignorar as perguntas.
        - Suponho que ele a tenha convidado para vir com ele quando os dois estavam na biblioteca?
        -        Isso mesmo - disse Hermione, as manchas rosadas em seu rosto se intensificando. - E da?
        -        Que aconteceu, estava tentando convenc-lo a participar do fale, ?
        -        No, no estava, no! Se voc quer realmente saber, ele... ele disse que estava indo todos os dias  biblioteca para tentar falar
comigo, mas no conseguia reunir coragem.
Hermione disse isso muito depressa e corou tanto que ficou
quase da mesma cor do vestido de Parvati.
        -        E, ... isto  o que ele conta - disse Rony em tom desagradvel.
        -        E o que  que voc quer dizer com isso?
        -         bvio, no ? Ele  aluno do Karkaroff no ? E sabe que voc anda em companhia do... ele s est tentando se aproximar do Harry, tirar informaes
sobre ele ou at chegar perto bastante para azarar ele...
Hermione pareceu ter sido esbofeteada por Rony. Quando
falou, tinha a voz trmula.
        -        Para sua informao, ele no me fez uma nica pergunta sobre o Harry, nem umazinha...
        Rony mudou o rumo da conversa com a velocidade da luz.
        - Ento est na esperana de voc o ajudar a decifrar a mensagem do ovo! Suponho que tenham andado juntando as cabeas
durante aquelas sessezinhas ntimas na biblioteca...
        -        Eu nunca o ajudaria com aquele ovo! - exclamou Hermione, com ar de indignao. - Nunca. Como  que voc pode dizer uma coisa dessas... eu quero
que Harry vena o torneio. Harry sabe disso, no sabe, Harry?
        -        Voc tem um jeito engraado de demonstrar isso - desdenhou Rony.
        -        O torneio  justamente para se conhecer bruxos estrangeiros e fazer amizade com eles! - disse Hermione com voz aguda.
#335
        -        No , no.  para se ganhar!
As pessoas estavam comeando a olhar para eles.
        -        Rony - disse Harry em voz baixa -, eu no tenho nada contra Hermione vir com o
Krum...
Mas Rony no deu ateno a Harry tampouco.
        -        Por que voc no vai procurar o Vitinho, ele deve estar se perguntando aonde  que voc anda - disse Rony.
        -        Pare de cham-lo de Vitinho!- Hermione ficou de p e saiu decidida pela pista de dana, desaparecendo na multido.
        Rony acompanhou-a com uma expresso no rosto que misturava raiva e satisfao.
        -        Voc no vai me convidar para danar? - perguntou Padma a ele.
        -        No - disse Rony, ainda olhando feio para as costas de Hermione.
        -        timo - retrucou Padma se levantando e indo se juntar a Parvati e ao garoto de Beauxbatons, que conjurou .um amigo para se reunir a eles to depressa
que Harry seria capaz de jurar que chamara o amigo com um Feitio Convocatrio.
        -        Onde est Hermi-o-nini? - perguntou uma voz.
        Krum acabara de chegar  mesa segurando duas cervejas amanteigadas.
        -        No fao idia - disse Rony emburrado, erguendo os olhos.
-        Perdeu ela, foi?
        Krum ficou mais uma vez carrancudo.
        -        Pom, se foc a virr, diga que apanhei as bebidas - disse ele se afastando curvado.
-        Fez amizade com Vtor Krum, Harry?
        Percy apareceu animado, esfregando as mos e com um ar
extremamente pomposo.
        -        Excelente! Essa  a idia, sabe, da Cooperao Internacional em Magia.
        Para contrariedade de Harry, Percy imediatamente ocupou a cadeira que Padma deixara livre. A mesa principal agora estava vazia; o Prof. Dumbledore danava
com a Profa Sprout; Ludo Bagman com a Profa McGonagall; Maxime com Hagrid abriam uma
 estrada pela pista de dana ao valsar entre os estudantes, e
Karkaroff no estava  vista. Quando a msica seguinte terminou,
todos aplaudiram mais uma vez e Harry viu Ludo Bagman beijar a
#336
mo da Profa McGonagall e refazer seu caminho entre os danarinos, momento em que Fred e Jorge o assediaram.
        -        Que  que eles acham que esto fazendo, importunando um funcionrio do primeiro escalo do Ministrio? - sibilou Percy,
observando os gmeos, desconfiado. - Que falta de respeito...
        Mas Ludo Bagman se desvencilhou dos garotos muito rapidamente e, ao ver Harry, acenou e se aproximou da mesa.
        -        Espero que meus irmos no o tenham incomodado, Sr. Bagman! - disse Percy na mesma hora.
        -        Qu? Ah, no, de modo algum, de modo algum! No, eles estavam me dizendo mais alguma coisa sobre aquelas varinhas falsas que inventaram. Queriam
saber se eu podia sugerir como comercializ-las. Prometi coloc-los em contato com alguns conhecidos na
Zonko"s...
        Percy no pareceu nada feliz com a resposta e Harry podia apostar que o irmo iria correndo contar  Sra. Weasley no minuto em que chegasse em casa. Pelo
visto, os planos dos gmeos haviam se tornado mais ambiciosos ultimamente, se estavam pensando em vender seus produtos no varejo.
Bagman abriu a boca para perguntar alguma coisa a Harry,
mas Percy o distraiu.
        -        Como  que o senhor acha que o torneio est correndo, Sr. Bagman? O nosso departamento est bastante satisfeito, o probleminha com o Clice de Fogo
- ele lanou um olhar a Harry - foi lamentvel, naturalmente, mas as coisas parecem ter corrido muito bem at agora, o senhor no acha?
        -        Ah, sim - respondeu Bagman animado -, tem sido um grande divertimento. Como anda o velho Bart? Que pena que ele no
pde vir.
        -        Ah, tenho certeza de que o Sr. Crouch no vai tardar a melhorar e voltar ao trabalho - disse Percy cheio de importncia -, mas, nesse meio tempo,
estou preparado para cobrir a lacuna. Claro que no  somente comparecer a bailes - ele deu uma breve risada -, ah, no, tenho precisado cuidar de problemas de todo 
o tipo que surgem na ausncia dele, o senhor ouviu falar que Ali Bashir foi apanhado contrabandeando um carregamento de tapetes voadores para dentro do pas? E que 
temos tentado persuadir a Transilvnia a assinar uma sano internacional aos duelos, tenho
#337
uma reunio com o chefe da cooperao em magia transilvano no prximo ano...
        -        Vamos dar uma volta - murmurou Rony para Harry -, sair de perto de Percy..
        Fingindo que queriam se reabastecer de bebidas, Harry e Rony saram da mesa, contornaram a pista de dana e seguiram para o saguo de entrada. As portas 
estavam abertas de par em par e as fadinhas luminosas no roseiral piscavam e cintilavam quando os garotos desceram os degraus da entrada e se viram cercados de plantas 
que formavam caminhos serpeantes e de grandes esttuas de pedra. Harry ouviu um rumorejo de gua caindo, que lhe pareceu uma fonte. Aqui e ali as pessoas estavam 
sentadas em bancos entalhados. Os dois garotos tomaram um dos caminhos que passava pelo roseiral, mas tinham dado apenas alguns passos quando ouviram uma voz desagradvel 
e conhecida.
        -        ... no vejo com o que tem de se preocupar, Igor.
        -        Severo, voc no pode fingir que isto no est acontecendo!
- a voz de Karkaroff era baixa e ansiosa como se cuidasse para ningum os ouvir. - Tem se tornado cada vez mais ntida nos ltimos meses. Estou comeando a me preocupar
seriamente, no posso
negar...
        -        Ento, fuja - disse a voz de Snape secamente. - Fuja, eu apresentarei suas desculpas. Eu, no entanto, vou permanecer em
Hogwarts.
        Os dois professores contornaram um canto. Snape levava a varinha na mo e ia estourando roseiras, com a expresso
mal-humoradssima. Ouviam-se gritinhos em
muitos arbustos e vultos escuros saiam correndo para fora deles.
        -        Dez pontos a menos para Lufa-Lufa, Fawcett! - rosnou Snape, quando uma garota passou correndo por ele. - E dez para Corvinal, tambm, Stebbins!
- quando um garoto passou no encalo dela. - E que  que vocs dois esto fazendo? - acrescentou ele, avistando Harry e Rony mais adiante no caminho. Karkaroff,
percebeu Harry, pareceu ligeiramente desconfortvel ao v-los parados ali. Levou a mo nervosamente  barbicha e comeou a enrol-la com o dedo.
Estamos passeando - respondeu Rony secamente. - No 
contra a lei, ?
        -        Ento continuem passeando! - rosnou Snape, e passou ro
#        338        -
paando por eles, sua longa capa negra se abrindo como uma vela enfunada 
s suas costas. Karkaroff apressou-se em alcanar o colega. Os dois garotos continuaram a
descer pelo caminho.
        -        Que ser que deixou o Karkaroff to preocupado? - murmurou Rony.
        -        E desde quando ele e Snape esto se chamando pelo nome de batismo? - indagou Harry lentamente.
        Os garotos tinham chegado a uma enorme rena de pedra agora, por cima da qual avistaram o jorro cintilante de um alto chafariz. Avistaram tambm, sentadas
em um banco de pedra, as silhuetas escuras de duas pessoas, que contemplavam a gua ao luar. Ento Harry ouviu a voz de Hagrid.
        -        O momento em que vi voc, eu soube - ia ele dizendo, numa voz estranhamente rouca.
        Harry e Rony se imobilizaram. Por alguma razo aquilo no parecia o tipo de cena que eles deviam interromper... Harry
virou-se para olhar o caminho e viu
Fleur Delacour e Rogrio Davies parados, meio escondidos por uma roseira prxima. Bateu no ombro de Rony e acenou a cabea para o lado dos dois, querendo indicar
que ele e Rony poderiam facilmente sair por ali sem serem notados (Fleur e Davies pareceram a Harry muito ocupados), mas Rony, os olhos se arregalando de terror
ao ver Fleur, sacudiu a cabea com vigor e puxou Harry para mais junto das sombras atrs da rena.
        -        Que  que voc soube, Agrrid? - perguntou Madame Maxime, com um audvel ronronar na voz baixa.
        Harry decididamente no queria escutar aquilo; sabia que Hagrid iria odiar ser entreouvido numa situao daquelas (ele teria sentido o mesmo) - se fosse
possvel, o garoto teria enfiado os dedos nos ouvidos e cantarolado alto, mas isto no era realmente uma opo. Em lugar disso, tentou se inwressar por um besouro
que rastejava pelo dorso da rena, mas o besouro simplesmente no era interessante o bastante para bloquear as palavras seguintes de Hagrid.
        -        Eu simplesmente soube... soube que voc era como eu... puxou ao seu pai ou  sua me?
        -        Eu... eu no sei o que voc querr dizerr com isso, Agrrid...
        -        Puxei  minha me - disse Hagrid em voz baixa. - Ela foi uma das ltimas na Gr-Bretanha. Claro, eu no consigo me lembrar muito bem dela... ela
foi embora, entende. Quando eu tinha
#339
uns trs anos. No era um tipo muito maternal. Bem... no e natureza delas, no  mesmo? No sei o que aconteceu com ela. pode at ter morrido pelo que sei...
        Madame Maxime no respondeu. E Harry, contra sua vontade, tirou os olhos do besouro e espiou por cima dos chifres da
rena,
escutando... ele nunca ouvira Hagrid falar da infncia antes.
        -        Meu pai ficou com o corao partido quando ela foi embora. Um cara miudinho, o meu pai era. Quando cheguei aos
seis anos podia levantar e colocar
ele em cima da cmoda quando me contrariava. Costumava fazer ele rir... - A voz grave de Hagrid
quebrou. Madame Maxime o escutava, imvel, aparentemente contemplando
o chafariz de prata. - Papai me criou... mas ele morreu  claro, logo depois que entrei para a escola. Meio que tive de
abrir o meu caminho sozinho depois disso.
Mas veja, Dumbledore foi

uma grande ajuda. Muito bom para mim, ele foi...
        Hagrid puxou um grande leno de seda encardido e assoou o
nariz com fora.
        -        Ento... em todo o caso... chega de falar de mim. E voc?
De que lado voc herdou?
        Mas Madame Maxime repenrinamente se pusera de p.
        -        Est frio - disse ela. Mas fosse qual fosse a temperatura
qwe fazia, no chegava nem de longe  frieza na voz dela. - Acho que
        vou entrar agora.
        -        Eh? - disse Hagrid sem entender. - No, no v, nunca encontrei algum igual a mim antes!
        -        Algum exatamente como? - perguntou Madame Maxime, num tom de voz cortante.
        Harry poderia ter dito a Hagrid que era melhor no responder; ficou parado ali nas sombras, cerrando os dentes, desejando por tudo no mundo que o amigo no
respondesse - mas no adiantou nada.
        - Algum meio gigante,  claro - disse Hagrid.
        -        Como  que voc se atreve? - gritou Madame Maxime. Sua voz explodiu na noite tranquila como uma buzina de nevoeiro; s costas deles, Harry ouviu
Fleur e Roger despencarem da roseira em que estavam. - Nunca fui mais insultada na vida! Meio gigante?
 Moi? Eu tenho... eu tenho os ossos grrados!
        Ela saiu intempestvamente; grandes enxames de fadinhas
multicoloridas se ergueram no ar quando ela passou, empurrando
#340
arbustos para os lados. Hagrid continuou sentado no banco, acompanhando-a com o olhar parado. Estava escuro demais para distinguir a expresso do seu rosto. Depois,
passado um minuto, ele se levantou e se afastou, mas no voltou ao castelo, saiu pelos jardins escuros em direo  sua cabana.
        -        Anda - disse Harry muito baixinho a Rony. - Vamos embora...
        Mas Rony no se mexeu.
        -        Que  que est havendo? - perguntou Rony olhando para o amigo.
        Rony se virou para Harry, a expresso realmente muito sria.
        -        Voc sabia? - sussurrou. - Que Hagrid era meio gigante?
        -        No - disse Harry, sacudindo os ombros. - E da?
        Harry percebeu imediatamente pelo olhar de Rony que, mais uma vez, estava revelando sua ignorncia sobre o universo da magia. Criado pelos Dursley, havia
muita coisa que os bruxos aceitavam naturalmente e que eram verdadeiras revelaes para Harry, mas essas surpresas tinham se tornado menos
frequentes  medida que
ele progredia na escola. Agora, porm, ele percebia que a maioria dos bruxos no teria dito "E da?" ao descobrir que um amigo tivera uma giganta por me.
        -        Eu lhe explico l dentro - disse Rony baixinho. - Vamos...
        Fleur e Rogrio Davies tinham desaparecido, provavelmente em uma moita de arbustos com mais privacidade. Harry e Rony voltaram ao Salo Principal. Parvati
e Padma agora estavam sentadas a uma mesa distante com um grande grupo de garotos da Beauxbatons, e Hermione estava mais uma vez danando com Krum. Harry e Rony
se sentaram a uma mesa bem longe da pista de dana.
        -        Ento? - perguntou Harry a Rony. - Qual  o problema de ser gigante?
        -        Bom, eles... eles... no so muito legais - terminou Rony sem graa.
        -        Quem se importa? - exclamou Harry. - No h nada errado com Hagrid!
        -        Eu sei que no tem, mas... caracas, no admira que ele fique na moita - disse Rony, balanando a cabea. - Eu sempre achei que
ele talvez tivesse ficado no caminho de um Feitio de Ingurgitamento ruim quando era criana ou outra coisa do gnero. E no
gostasse de mencionar isso...
#341
        -        Mas qual  o problema da me dele ter sido uma giganta? - perguntou Harry
        -        Bem... ningum que o conhece vai se importar, porque sabe que ele no  perigoso - disse Rony lentamente. - Mas... Harry eles so apenas gigantes
cruis.  como Hagrid disse,  da natureza deles, so como os trasgos... gostam de matar, todo mundo sabe disso. Mas hoje no tem mais gigantes na Gr-Bretanha.
        -        Que foi que aconteceu com eles?
        -        Bem, eles estavam acabando mesmo, ento um monte deles foi morto pelos aurores. Mas dizem que h gigantes no exterior... a
maioria escondida em montanhas...
        -        No sei quem  que a Maxime pensa que est enganando - disse Harry, observando a bruxa sentada sozinha  mesa dos juizes, com o ar muito srio. 
- Se Hagrid  meio gigante, decididamente ela tambm . Ossos grados... a nica coisa que tem ossos maiores do que ela  um dinossauro.
        Harry e Rony passaram o resto do baile discutindo gigantes a um canto, nenhum dos dois com a menor inclinao para danar. Harry tentou no olhar para Cho 
e Cedrico; sentiu uma enorme vontade de chutar alguma coisa.
        Quando as Esquisitonas terminaram de tocar  meia-noite,
receberam mais uma rodada de aplausos estrepitosos e comearam
a sair em direo ao saguo de entrada. Muitas pessoas expressaram
o        desejo de que o baile pudesse continuar por mais tempo, mas
Harry estava absolutamente satisfeito de ir se deitar, e, se algum
quisesse saber, a noite no fora l essas coisas.
        J no saguo de entrada, Harry e Rony viram Hermione se despedindo de Krum antes do garoto se retirar para o navio de Durmstrang. Ela lanou a Rony um olhar 
gelado, e passou por ele a caminho da escadaria de mrmore sem falar. Os dois amigos a seguiram, mas, no meio da escada, Harry ouviu algum que o chamava.
        -        Ei... Harry!
        Era Cedrico Diggory. Harry viu que Cho ficara  espera dele
no saguo.
        -        Que foi? - respondeu Harry com frieza, quando o garoto correu escada acima ao seu encontro.
       Cedrico fez cara de quem no queria dizer o que viera dizer na
frente de Rony, que encolheu os ombros, parecendo aborrecido, e
continuou a subir as escadas.
#342
        -        Escuta... - Cedrico baixou a voz quando Rony desapareceu.
- Eu lhe devo um favor por ter me falado dos drages. Sabe o ovo de ouro? O seu solta um grito agourento quando voc o abre?
        -        Solta.
        -        Ento... toma um banho, OK?
        -Qu?
        - Toma um banho e... hum, leva o ovo junto e... hum, rumina um pouco a coisa debaixo da gua quente. Vai ajudar voc a pensar... acredita em mim.
Harry ficou olhando para ele.
        -        Vou lhe dizer uma coisa - disse Cedrico -, usa o banheiro dos monitores. Quarta porta  esquerda daquela esttua de Bons, o Pasmo, no quinto andar.
A senha  Frescor de Pinho. Tenho que ir... quero dizer boa-noite...
        Ele tornou a sorrir para Harry e desceu depressa as escadas para
se juntar a Cho.
        Harry voltou para a Torre da Grifinria sozinho. Recebera um conselho estranhssimo. Por que um banho o ajudaria a descobrir o significado do ovo que gritava?
Ser que Cedrico estava gozando a cara dele? Ser que estava tentando fazer Harry parecer bobo, para que, ao comparar os dois, Cho gostasse ainda mais dele?
        A Mulher Gorda e sua amiga Vi estavam tirando um cochilo no quadro que cobria a entrada da Casa. Harry teve que berrar Luzes Encantadas! para que elas acordassem,
e ao fazer isso, as duas ficaram muitssimo irritadas. Quando entrou na sala comunal, encontrou Rony e Hermione tendo uma briga daquelas. Mantendo uma distncia
de trs metros, os dois vociferavam um com o outro, as caras vermelhas como pimentes.
        -        Ora, se voc no gosta, ento sabe qual  a soluo, no sabe?
- berrava Hermione; agora seus cabelos iam se soltando do elegante coque, e seu rosto se contraa de raiva.
        -        Ah, ? - berrava Rony em resposta. - Qual ?
        - Da prxima vez que houver um baile, me convide antes que outro garoto faa isso, e no como ltimo recurso!
        A boca de Rony ficou mexendo sem emitir som algum como a de um peixe de aqurio fora da gua, enquanto Hermione virava as costas e subia batendo os ps a
escada do dormitrio das garotas para se deitar. Rony se virou para Harry.
#343
        -        Bom - balbuciou, completamente abismado -, bom, isso prova que ela no entendeu nada...
        Harry no respondeu. Estava gostando demais de ter feito pazes com o amigo para dizer o que estava pensando naqueli momento - mas, em todo o caso, ele achava
que Hermione entendera melhor do que Rony.

#344

*****


CAPITULO VINTE E QUATRO
O furo jornalstico de Rita Skeeter


Todos acordaram tarde no dia seguinte ao Natal, que  feriado na Gr-Bretanha. A sala comunal da Grifinria estava muito mais sossegada do que ultimamente, muitos
bocejos pontuavam as conversas ociosas. Os cabelos de Hermione tinham voltado a ficar crespos e cheios; ela confessou a Harry que usara quantidades generosas de 
Poo Capilar Alisante para ir ao baile, "mas  muita mo-de-obra fazer isso todo dia", disse ela sem emoo, coando
atrs das orelhas do ronronante Bichento.
        Rony e Hermione aparentemente tinham chegado a um acordo sub-entendido de no mencionarem a discusso que tinham tido. Estavam at sendo simpticos um com
o outro, embora estranhamente formais. Rony e Harry no perderam tempo para contar  garota a conversa entre Madame Maxime e Hagrid que tinham ouvido, mas Hermione 
no pareceu achar a novidade de que Hagrid era meio gigante to chocante quanto Rony.
-        Bem, achei que devia ser - disse ela, encolhendo os ombros.
- Eu sabia que ele no poderia ser todo gigante, porque os gigantes
tm uns seis metros de altura. Mas, francamente, por que toda essa
histeria por causa dos gigantes? Nem todos devem ser horrveis... 
o        mesmo tipo de preconceito que as pessoas tm com relao aos
lobisomens...  muita cegueira, no , no?
        Rony fez cara de quem gostaria de dar uma resposta desdenhosa, mas talvez no quisesse outra briga, porque se contentou em
sacudir a cabea incrdulo quando Hermione no estava olhando.
        Agora era hora de pensar nos deveres de casa que eles tinham posto de lado na primeira semana de frias. Todos pareciam estar se sentindo pouco entusiasmados,
agora que o Natal terminara - todos exceto Harry, isto , que estava comeando (mais uma vez) a ficar ligeiramente nervoso.
#345
        O problema era que o dia vinte e quatro de fevereiro parecia bem mais perto, uma vez passado o Natal, e ele ainda no se mexera para decifrar a pista que
havia no ovo de ouro. Portanto, ele passou a tirar o ovo do malo todas as vezes que subia ao dormitrio, abria-o e escutava com ateno, na esperana de que daquela 
vez o grito fizesse mais sentido. Harry se esforou para descobrir o que o som lhe lembrava, alm dos trinta serrotes musicais, mas nunca ouvira nada que se parecesse 
com aquilo. Fechou o ovo, sacudiu-o vigorosamente, reabriu-o para ver se o som mudara, mas nada. Tentou fazer perguntas ao ovo, berrando para abafar seu lamento, 
mas nada aconteceu. Chegou mesmo a atirar o ovo do outro lado do quarto - embora no esperasse realmente que isso resolvesse.
        Harry no esquecera da dica que Cedrico lhe dera, mas seus sentimentos pouco amigveis com relao ao campeo, naquele momento, significavam que ele no 
estava interessado em aceitar ajuda de Cedrico se pudesse. Em todo o caso, achava que se o garoto tivesse realmente querido dar uma mozinha a ele, teria sido muito 
mais claro. Harry dissera a Cedrico exatamente o que o esperava na primeira tarefa - mas a idia que o outro fazia de uma troca justa fora lhe dizer para tomar um 
banho. Bem, ele no precisava desse tipo de ajuda intil - pelo menos, no de algum que ficava andando para cima e para baixo pelos corredores de mos dadas com 
Cho. Assim, chegou o primeiro dia do novo trimestre e Harry foi para as aulas, sobrecarregado de livros, pergaminhos e penas, como de costume, mas tambm com essa 
preocupao a Lhe pesar no estmago, como se o ovo fosse mais um peso a carregar para todo o lado com ele.
        A neve continuava alta nos jardins e as janelas da estufa estavam cobertas por um vapor to denso que no era possvel enxergar atravs delas na aula de 
Herbologia. Ningum estava ansioso para ir  aula de Trato das Criaturas Mgicas com um tempo desses, embora, como disse Rony, era provvel que os explosivins deixassem 
os alunos bem aquecidos, quer fazendo-os correr atrs deles, quer expelindo fogo pelo rabo com tanta fora que a cabana de Hagrid pegaria fogo.
Quando os garotos chegaram l, porm, encontraram uma
        bruxa mais velha, com os cabelos grisalhos muito curtos e um queixo muito saliente, parada diante da porta da frente do professor.
- Vamos, andem, a sineta j tocou h cinco minutos - vociferou
#346
ela, quando os viu caminhando pela neve com dificuldade ao seu encontro.
        -        Quem  a senhora? - perguntou Rony, mirando-a. - Aonde foi o Hagrid?
        -        Meu nome  Profa Grubbly-Plank - disse ela com eficincia.
Sou a professora temporria de Trato das Criaturas Mgicas.
        -        Aonde foi o Hagrid? - repetiu Harry em voz alta.
        -        No est se sentindo bem - respondeu ela secamente.
        Uma risada breve e desagradvel chegou aos ouvidos de Harry. Ele se virou; Draco Malfoy e o resto dos alunos da Sonserina estavam vindo se reunir  turma.
Tinham um ar satisfeito, e nenhum pareceu surpreso de ver a Profa Grubbly-Plank.
        -        Por aqui, por favor - disse a professora e saiu contornando o picadeiro onde os enormes cavalos da Beauxbatons tremiam de frio. Harry, Rony e Hermione
a seguiram, olhando para trs, por cima do ombro, para a cabana de Hagrid. Todas as cortinas estavam corridas. Ser que Hagrid estava ali, sozinho e doente?
        -        Que  que o Hagrid tem? - perguntou Harry, apressando o passo para alcanar a professora.
        -        No  da sua conta - disse ela, como se achasse que o garoto estava sendo intrometido.
        -        Mas  da minha conta - disse Harry com veemncia. - Que aconteceu com ele?
        A Profa Grubbly-Plank continuou como se no o ouvisse. Conduziu-os alm do picadeiro dos cavalos da Beauxbatons, todos agrupados tentando se proteger do
frio, e em direo a uma rvore na orla da Floresta, onde encontraram amarrado um grande e belo unicrnio.
        Muitas garotas soltaram exclamaes de admirao ao ver o
unicrnio.
        -        Ah,  to bonito! - murmurou Lil Brown. - Como ser que ela conseguiu? Dizem que so realmente difceis de apanhar!
        O        unicrnio era to branco que fazia a neve ao redor parecer cinzenta. Pateava o cho nervoso com seus cascos dourados e atirava para trs a cabea
com um s chifre.
        -        Meninos fiquem afastados! - gritou secamente a professora, estendendo um brao e, com isso, batendo com fora em Harry na
altura do peito.
#347
        "Eles preferem o toque das mulheres, os unicrnios. Meninas a frente, e se aproximem com cuidado. Vamos, devagar...
        Ela e as meninas se adiantaram devagarinho at o bicho, deixando os garotos parados junto  cerca do picadeiro, assistindo.
        No instante em que a professora ficou fora do alcance de suas
vozes, Harry se virou para Rony.
        - Que  que voc acha que aconteceu com ele? Acha que pode ter sido um explosivim...?
        - Ah, ele no foi atacado, Potter, se  o que voc est pensando
-        disse Malfoy suavemente. - No, ele s est envergonhado demais para mostrar aquela caratonha.
        -Que  que voc quer dizer com isso? -perguntou Harry com rispidez.
        Malfoy meteu a mo no bolso interno das vestes e puxou uma
folha dobrada de jornal.
        - J vem voc-disse ele. -Detesto ser eu a lhe dar a notcia, Potter...
        Malfoy deu um sorriso afetado quando Harry pegou o jornal,
desdobrou-o e leu-o com Rony, Simas, Dino e Neville que espiava
por cima do ombro deste. Era um artigo encimado pela foto de
Hagrid com uma cara extremamente sonsa.
        O MAIOR ERRO DE DUMBLEDORE
        Alvo Dumbledore, o excntrico diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, nunca teve medo de fazer nomeaes contro vertidas para o corpo docente, 
escreve Rita Skeeter, nossa correspondente especial. Em setembro deste ano, ele contratou Alastor "Olho- Tonto" Moody, o notrio ex-auror que v
feitios por toda 
parte, para ensinar Defisa contra as Artes das Trevas, uma deciso que fez muita gente erguer as sobrancelhas no Ministrio da Magia, dado o conhecido hbito que
Moody tem de atacar qualquer um que faa um movimento repentino em sua presena. Olho- Tonto, porm, parece responsvel e bondoso, em contraste com o indivduo meio 
humano que Dum bledore emprega para ensinar Trato das Criaturas Mgicas.
        Rbeo Hagrid, que admite ter sido expulso de Hogwarts no
        
#348
       terceiro ano, e desde ento exerce na escola a funo de guarda-
                caa, um emprego que Dumbledore lhe arranjou. No ano
passado,
                no entanto, usou sua misteriosa influncia sobre o diretor da escola
        para obter o cargo suplementar de professor de Trato das Criaturas Mgicas, preterindo muitos candidatos com melhores
qualificaes.
        Um homem assustadora mente grande e de ar feroz, Hagrid tem usado sua recm-adquirida autoridade para aterrorizar os alunos ao tratar de uma coleo de seres
horripilantes. Enquanto Dumbledore faz vista grossa, Hagridj feriu vrios alunos durante uma srie de aulas que muitos admitem "dar muito medo"p
        "Eu j fui atacado por um hipogrifo e meu amigo, Vicente Crabbe, levou uma dentada fria de um verme"
- declarou Draco Malfoy, um aluno do quarto ano. "Todos 
odiamos Hagrid, mas temos receio demais para dizer qualquer coisa.
        Mas Hagrid no tem a menor inteno de desistir de sua campanha de intimidao. Em conversa com a reprter do Profeta Dirio, no ms passado, ele admitiu 
que cria uns bichos a que chama de "explosivins " uma cruza extremamente perigosa de
manticore com caranguejo-de-fogo. A criao de novas raas , naturalmente,
uma atividade em geral acompanhada de perto pelo Departamento para Regulamentao e Controle das Criaturas Mgicas. Hagrid, ao que parece, considera-se acima dessas 
restries pouco importantes.
        "Eu s estava me divertindo um pouco" - disse ele, antes de mudar rapidamente de assunto.
        E como se isso no bastasse, o Profeta Dirio agora encontrou provas de que Hagrid no  - como sempre fingiu ser - um bruxo puro-sangue. De fato, no  
sequer um ser humano puro. Sua me, podemos revelar com exclusividade, no  outra seno a giganta
Fridwulfa, cujo paradeiro  atualmente desconhecido.
        Sedentos de sangue e brutais, os gigantes chegaram  extino com as guerras que promoveram entre si no sculo passado. Ospoucos sobreviventes se alistaram 
nas fileiras d"Aquele-Que-NoDeve-Ser-Nomeado, e foram responsveis por alguns dos piores massacres de trouxas durante o seu reino de terror.
        Embora muitos gigantes que serviram quele-Que-NoDeve-Ser-Nomeado tenham sido mortos por aurores que combatiam o partido das trevas, Fridwulfa no foi um
deles.
        -  possvel que tenha fugido para uma das comunidades de gigantes que ainda existem em montanhas no exterior. Mas se as extravagncias
de Hagrid durante as aulas de Trato das Criaturas Mgicas puderem servir de medida, o filho de Fridwulfa parece ter herdado sua
natureza brutal.
#349
        Mas, bizarramente, dizem que Hagrid criou uma grande amizade pelo garoto que provocou a queda de Voc-Sabe-Quem - e com isso obrigou a prpria me, bem como
os demais seguidores do bruxo das trevas, a procurar um refugio. Talvez
Harry Potter no tenha conhecimento da desagradvel verdade sobre seu grande amigo - mas
no resta dvida de que Alvo Dumbledore tem obrigao de providenciar para que Harry
Potter, bem como seus colegas, sejam informados dos perigos de se associarem
com meios gigantes.

Harry terminou a leitura e ergueu os olhos para Rony, cujo queixo
estava cado.
        -        Como foi que ela descobriu isso? - sussurrou ele.
Mas no era isso que estava incomodando Harry.
-Que foi que voc quis dizer com "todos detestamos Hagrid"?
-        perguntou Harry irritado a Malfoy. - Que bobagem  essa de que esse cara a - e indicou Crabbe - levou uma mordida feia de um verme? Eles nem tm dentes!
        Crabbe dava risadinhas, aparentemente muito satisfeito consigo mesmo.
        -        Bom, acho que isso deve encerrar a carreira desse caipiro - disse Malfoy, os olhos brilhando. - Meio gigante... e eu pensando que ele engolra 
um frasco de Esquelesce quando era criana... nenhum pai nem me vai gostar nem um pouco dessa notcia... vao ficar preocupados que o gigante devore os filhinhos 
deles, ha, ha...
        -Seu...
        -        Vocs esto prestando ateno aqui na frente?
        A voz da Profa Grubbly-Plank chegou at eles; as garotas agora estavam agrupadas em torno do unicrnio, acariciando-o. Harry sentia tanta fria que o artigo 
do Profeta Dirio tremia em sua mo quando ele se virou maquinalmente para o unicrnio, cujas muitas propriedades mgicas a professora comeava a enumerar em voz 
alta, para que os garotos pudessem ouvir tambm.
        -        Espero que ela continue, essa mulher! - disse Parvati Patil quando terminaram e todos seguiram para o castelo para almoar.
-        A aula ficou mais parecida com o que eu imaginei que seria o Trato das Criaturas Mgicas... criaturas normais como unicrnios,
no monstros...
        -        E Hagrid? - perguntou Harry zangado, quando subiam as escadas.
#350
        -        Que  que tem ele? - perguntou Parvati, com a voz inflexvel. - Ele pode continuar como guarda-caa, no pode?
        Parvati andava tratando Harry com frieza desde o baile. Ele sups que devia ter dado mais ateno  garota, mas ela parecia ter se divertido mesmo assim. 
Com certeza estava contando a todo mundo que quisesse ouvir que combinara encontrar-se com o garoto de Beauxbatons em Hogsmeade no prximo fim de semana seguinte.
        -        Foi uma aula realmente boa - disse Hermione, quando eles entraram no Salo Principal. - Eu no sabia metade das coisas que
a Profa Grubbly-Plank falou sobre os uni...
        -        Olhe isso aqui! - rosnou Harry sacudindo o artigo do Profeta Dirio no nariz de Hermione.
        O queixo de Hermione foi caindo  medida que lia. Sua reao foi exatamente a mesma que a de Rony.
        -        Como foi que aquela Skeeter horrorosa descobriu isso? Voc acha que Hagrid contou a ela?
        -        No - respondeu Harry, se adiantando para a mesa da Grifinria, e se atirando numa cadeira, furioso. - Hagrid nunca disse isso nem  gente, no 
? Acho que ela ficou to aborrecida porque ele no quis contar os meus podres, que saiu fuando para se vingar dele.
        -        Talvez ela tenha escutado a conversa dele com Madame Maxime no baile - arriscou Hermione baixinho.
        -        Ns a teramos visto nos jardins! - disse Rony. - Em todo o caso, ela no tem permisso para tornar a entrar na escola, Hagrid
disse que Dumbledore a proibiu...
        -        Talvez ela use uma Capa da Invisibilidade - disse Harry, servindo uma concha de caarola de frango em seu prato e derramando-a por todo o lado, 
tal era a sua raiva. -  o tipo de coisa que ela faria, no , se esconder atrs de moitas para escutar as conversas dos outros.
        -        Como voc e Rony fizeram? - perguntou Hermione.
        -        No estvamos querendo ouvir! - disse Rony indignado. - No tivemos opo! O panaca comeou a falar da me giganta
num lugar em que todo mundo podia ouvir!
        - Temos que ir visitar Hagrid - disse Harry. - Hoje  noitinha,
depois da aula de Adivinhao. Dizer que o queremos de volta... 
Voc quer ele de volta, no quer? - O garoto disparou a pergunta 
Hermione.
#351
        -        Bem... no vou fingir que a mudana no foi legal, ter uma aula decente de Trato das Criaturas Mgicas para variar, mas eu quero que Hagrid volte,
 claro que quero! - acrescentou Hermione depressa, fraquejando diante do olhar furioso de Harry.
        Ento, naquela noite, depois do jantar, os trs saram do castelo,
mais uma vez, e atravessaram os jardins congelados at a cabana de
Hagrid. Bateram e os latidos retumbantes de Canino responderam.
        -        Hagrid, somos ns! - gritou Harry, socando a porta. - Abre!
        No houve resposta. Os garotos ouviram Canino arranhar a
porta, mas ela no se abriu. Bateram mais uns dez minutos; Rony
at bateu em uma das janelas, mas no houve resposta.
        -        Para que  que ele est evitando a gente? - perguntou Hermione quando finalmente desistiram e j iam voltando para a escola. - Com certeza ele no 
acha que nos importamos que ele seja meio gigante?
        Mas pelo jeito Hagrid se importava. Os garotos no viram nem sinal dele a semana inteira. No apareceu  mesa dos professores na hora das refeies, nem 
foi visto pela propriedade cuidando de suas tarefas de guarda-caa, e a Profa Grubbly-Plank continuou a dar as aulas de Trato das Criaturas Mgicas. Malfoy se gabava 
a cada oportunidade possvel.
        -        Com saudades do seu amiguinho mestio? - ele no parava de
murmurar para Harry sempre que havia um professor por perto, de modo a ficar a salvo 
de uma reao. - Com saudades do seu homem-elefante?
        Houve uma visita a Hogsmeade na metade de janeiro. Hermione ficou muito surpresa que Harry pretendesse ir.
        -        Pensei que voc ia aproveitar a tranquilidade do salo
comunal. Olha que voc realmente precisa trabalhar naquele ovo.
        -        Ah, eu... eu acho que agora j tenho uma boa idia do que se trata - mentiu Harry.
        -        J tem, ? - exclamou Hermione, parecendo impressionada.
-        Muito bem!
        As entranhas de Harry deram uma revirada de culpa, mas ele
fingiu no ter sentido. Afinal ainda lhe restavam cinco semanas
para descobrir a pista do ovo e isso era uma eternidade... e se ele
fosse a Hogsmeade, talvez desse de cara com Hagrid e tivesse uma
chance de convenc-lo a voltar.
#352
        No sbado ele, Rony e Hermione deixaram o castelo, juntos, e atravessaram os jardins frios e midos em direo aos portes. Ao passarem pelo navio de Durmstrang
ancorado no lago, viram Vtor Krum saindo para o convs, trajando apenas cales de banho. Ele era
muito magro, mas bem mais forte do que parecia, porque trepou 
na amurada do navio, esticou os braos  frente e mergulhou direto no lago.
        -        Ele  doido! - comentou Harry, observando a cabea escura de Krum reaparecer no meio do lago. - Deve estar congelando, estamos no meio de janeiro!
        -         muito mais frio no lugar de onde ele vem - disse Hermione. - Imagino que ele sinta at um calorzinho aqui.
        -        , mas ainda tem a lula gigante - lembrou Rony. Sua voz no revelava ansiedade, se revelava alguma coisa, era esperana. Hermione reparou no tom 
de voz dele e franziu a testa.
        -        Ele  realmente legal, sabe. No  nada do que se poderia pensar de algum que vem de Durmstrang. Ele me disse que gosta
muito mais daqui.
        Rony no fez comentrios. No mencionara Vtor Krum desde o baile, mas Harry encontrara a miniatura de um brao embaixo da cama do amigo, no dia seguinte 
ao Natal, que dava a impresso de ter sido arrancado do modelinho com as vestes de quadribol da Bulgria.
        Harry ficou de olhos muito atentos  procura de um sinal de Hagrid por todo o caminho at a enlameada rua Principal e sugeriu uma visita ao Trs Vassouras 
depois de se certificar de que Hagrid no estava nas outras lojas.
        O        bar estava apinhado como sempre, mas uma olhada rpida pelas mesas informou a Harry que Hagrid no se encontrava ali. Desanimado, dirigiu-se ao 
balco com Rony e Hermione, pediu  Madame Rosmetta trs cervejas amanteigadas e pensou, deprimido, que afinal teria feito melhor se tivesse ficado na escola escutando 
o lamento do ovo.
        -        Ser que ele nunca vai ao escritrio? - cochichou Hermione de repente. - Olha l!
        Ela apontou para o espelho atrs do bar e Harry viu, refletido
ali, Ludo Bagman, sentado em um canto mais escuro com um
grupo de duendes. O bruxo falava muito rpido, e em voz baixa,
#353
com os duendes, que tinham os braos cruzados e uma expresso assustadora no rosto.
        Era realmente estranho, pensou Harry, que Bagman estivesse ali no Trs Vassouras, num fim de semana, quando no havia nenhum evento do torneio, e, portanto,
nenhuma atividade do seu jri. Ele observou o bruxo pelo espelho. Bagman parecia tenso, to tenso quanto naquela noite na floresta antes da Marca Negra aparecer.
Mas neste momento Bagman olhou para o bar, viu Harry e se levantou.
- Um momento, um momento! - Harry o ouviu dizer bruscamente para os duendes e atravessar o bar em direo a ele, o sorrijuvenil de sempre no rosto.
"Harry!", exclamou ele. "Como vai? Estava na esperana de
encontr-lo! Est tudo correndo bem?"
        -        timo, obrigado!
           -     Ser que eu podia dar uma palavrinha rpida com voc, em particular? - disse ele pressuroso. - Vocs poderiam nos dar licena um momento, por favor?
        -        Hum... OK - concordou Rony, e ele e Hermione sairam  procura de uma mesa.
Bagman levou Harry para o canto mais afastado do bar de
Madame Rosmetta.
        -        Bom, achei que gostaria de cumpriment-lo outra vez por seu esplndido desempenho contra o Rabo-Crneo, Harry - disse
Bagman. - Foi realmente soberbo!
        -        Obrigado - disse o garoto, mas sabia que no devia ser s isso que Bagman queria dizer, porque poderia ter dado os parabns diante de Rony e Hermione.
Mas o bruxo parecia no ter pressa alguma de dizer o que era. Harry o viu olhar para o espelho do bar na direo dos duendes que os observavam em silncio, com aqueles
olhos escuros e puxados.
        -        Absoluto pesadelo - disse Bagman a Harry entre dentes, reparando que Harry tambm observava os duendes. - O ingls deles no  muito bom... parece
at que estou de volta  Copa Mundial de Quadribol com todos aqueles blgaros... mas pelo menos eles usavam gestos que todo ser humano era capaz de reconhecer. Essa
turma fica algaraviando em gruguls... e s conheo uma palavra de gruguls. Bladvak. Significa "picareta". No gosto

#354
de us-la para eles no pensarem que estou ameaando-os. - E soltou uma gargalhada breve, mais retumbante.
        -        Que  que eles querem? - perguntou Harry, notando que os duendes continuavam a observar Bagman com muita ateno.
        -        Hum... bem... - disse Bagman, parecendo subitamente nervoso. - Eles... hum... esto procurando Bart Crouch.
        -        Por que  que esto procurando por ele aqui? - perguntou Harry. - Ele no est no Ministrio em Londres?
        -        Hum... para falar a verdade, no fao a menor idia de onde esteja. Vamos dizer que tenha parado de comparecer ao trabalho. J est ausente h umas 
duas semanas. O jovem Percy, assistente dele, diz que ele est doente. Aparentemente tem enviado instrues via coruja. Mas se importa de no comentar isso com ningum, 
Harry? Porque a Rita Skeeter continua bisbilhotando por todo lado que pode e eu seria capaz de apostar que ela poderia transformar a doena de Bart em algo sinistro. 
Provavelmente dizer que ele est desaparecido como Berta Jorkins.
        -        O senhor teve notcias da Berta Jorkins? - perguntou Harry.
        -        No - respondeu Bagman, parecendo outra vez tenso. - Tenho gente procurando,  claro... - (J no era sem tempo, pensou Harry) - e  tudo muito 
estranho. Sem a menor dvida chegou na Albnia, porque se encontrou l com uma prima em segundo grau. Depois deixou a casa da prima dizendo que ia ao sul visitar 
uma tia... e parece ter desaparecido no caminho, sem deixar vestgios. O diabo  quem sabe onde ela pode ter se metido... no parece ser do tipo que foge para casar, 
por exemplo... contudo... mas por que  que estamos falando de duendes e de Berta Jorkins? O que eu realmente queria perguntar a voce e... - e aqui ele baixou a 
voz - como  que voc vai indo com o ovo de ouro?
        -        Hum... nada mal - disse Harry ocultando a verdade.
        Bagman pareceu perceber que o garoto no estava sendo
honesto.
        -        Escute, Harry - disse ele (ainda em voz muito baixa). - Eu me sinto muito mal a respeito dessa coisa toda... voc foi empurrado para o torneio, 
voc no se voluntariou... e se - (aqui sua voz ficou to baixa que Harry precisou chegar mais perto para escutar)
- ... se tiver alguma coisa que eu possa fazer... um empurrozinho 
na direo certa... acabei me afeioando a voc... o jeito com que
voc passou pelo drago!... Bem,  s dizer.
#355
        Harry olhou para o rosto rosado e redondo, e para os grandes olhos azul-celeste de Bagman.
        -        Devemos decifrar as pistas sozinhos, no ? - disse ele, tomando cuidado para manter a voz displicente e no parecer que estava acusando o chefe 
do Departamento de Jogos e Esportes Mgicos de infringir o regulamento.
        -        Bem... bem,  verdade - disse Bagman impaciente -, mas... vamos, Harry, todos queremos a vitria de Hogwarrs, no 
mesmo?
        -        O senhor ofereceu ajuda a Cedrico? - perguntou Harry.
        A mais leve das rugas vincou o rosto liso de Bagman.
        -        No, no ofereci. Eu... bem, como disse, me afeioei a voc. Por isso pensei em oferecer...
        -        Bem, obrigado - disse Harry -, mas acho que estou quase chegando l... mais uns dois dias e resolvo o problema do ovo.
        Ele no tinha muita certeza da razo pela qual estava recusando a ajuda de Bagman, exceto que o bruxo era quase um estranho para ele, e aceitar sua ajuda 
lhe parecia muito mais desonesto do que pedir conselhos a Rony, Hermione ou Sirius.
        Bagman pareceu quase afrontado, mas no pde dizer muito
mais, porque Fred e Jorge apareceram naquele momento.
        -        Ol, Sr. Bagman - disse Fred animado. - Podemos lhe oferecer uma bebida?
        -        Hum... no - disse Bagman, com um ltimo olhar desapontado para Harry -, no, muito obrigado, garotos...
Fred e Jorge pareciam quase to desapontados quanto Bagman,
que mirava Harry como se o garoto o tivesse deixado na mo.
        -        Bem, preciso correr - disse ele. - Foi bom ver vocs. Boa sorte, Harry.
        E saiu apressado do bar. Os duendes deslizaram para fora das
cadeiras e saram atrs de Bagman. Harry foi se reunir a Rony e
Hermione.
        -        Que  que ele queria? - perguntou Rony, no instante em que Harry se sentou.
        -        Ele se ofereceu para me ajudar com o ovo de ouro.
        - Ele no devia estar fazendo isso! - exclamou Hermione, parecendo
muito chocada. - Ele  um dos juizes! E em todo o caso,
voc j decifrou sozinho, no foi?
        -        Hum... quase.
#356
        -        Bem, eu acho que Dumbledore no gostaria de saber que
Bagman andou tentando convencer voc a ser desonesto! - disse
Hermione ainda com uma expresso de profunda reprovao. - Espero que ele esteja tentando ajudar Cedrico tambm!
        -        No, no est. Eu perguntei a ele - informou Harry.
        -        Quem  que se importa se Cedrico est recebendo ajuda? - disse Rony. Harry, intimamente, concordou.
        -        Aqueles duendes no pareciam muito simpticos - comentou Hermione, bebericando a cerveja amanteigada. - Que  que
eles estavam fazendo aqui?
        -        Procurando Crouch, segundo informou Bagman. Ele continua doente. No tem ido trabalhar.
        -        Quem sabe Percy est envenenando ele? - sugeriu Rony. - Provavelmente acha que se Crouch apagar ele vai ser nomeado
chefe do Departamento de Cooperao Internacional em Magia.
        Hermione lanou a Rony um olhar do tipo no-brinque-com-essas-coisas e comentou:
        - Engraado, duendes procurando o Sr. Crouch... eles normalmente se dirigem ao Departamento para Regulamentao e Controle das Criaturas Mgicas.
        -        Mas Crouch sabe falar um monte de lnguas diferentes - lembrou Harry. - Talvez eles precisem de um intrprete.
        -        Agora est se preocupando com os coitadinhos dos duendes, ? - perguntou Rony a Hermione. - Est pensando em lanar um
S.P.D.F. ou outra coisa do gnero? Uma Sociedade Protetora dos Duendes Feios?
        -        Ha, ha, ha - exclamou Hermione sarcasticamente. - Duendes no precisam de proteo. Voc no tem prestado ateno ao
que o Prof. Binns vem nos contando sobre as revoltas dos duendes?
        -        No - disseram Harry e Rony juntos.
        -        Pois , eles tm plena capacidade de enfrentar os bruxos - disse Hermione, tomando mais um golinho de cerveja amanteigada. - Eles so muito inteligentes.
No so como os elfos domsticos, que nunca se unem para se defender.
    -    Ah - exclamou Rony, com os olhos fixos na porta. Rita Skeeter acabara de entrar. Estava usando vestes amarelobanana; tinha as unhas longas
pintadas de rosa-choque e vinha acompanhada do seu fotgrafo barrigudo. Ela comprou bebidas, e os dois abriam caminho entre as pessoas e as mesas at uma mesa
#357
prxima. Harry, Rony e Hermione amarraram a cara para ela ao verem-na se aproximar. Ela falava depressa e parecia muito satisfeita com alguma coisa.
        -        ... no parecia muito interessado em falar com a gente, voc tambm no acha, Bozo? E por que voc acha que no estava? E o que  que ele estava
fazendo com uma matilha de duendes na cola? Mostrando os pontos pitorescos do povoado... que absurdo... ele sempre foi um mau mentiroso. Voc acha que ele est escondendo
alguma coisa? Acha que devamos fuar um pouco? Ludo Bagman, o desacreditado ex-Chefe dos Esportes
Mgicos...  uma boa abertura, Bozo, agora s precisamos encontrar
uma histria para us-la...
        -        Tentando estragar a vida de mais algum? - perguntou Harry em voz alta.
Algumas pessoas viraram a cabea. Os olhos de Rita Skeeter se
arregalaram por trs dos culos de pedrinhas quando viu quem
falara.
        -        Harry! - exclamou ela sorridente. - Que timo? Por que voc no vem se sentar conosco...?
        -        Eu no chegaria perto da senhora nem com uma vassoura de trs metros - disse Harry furioso. - Por que a senhora fez aquilo
com o Hagrid, hein?
Rita Skeeter ergueu as sobrancelhas acentuadas com lpis grosso.
        -        Os nossos leitores tm o direito de saber a verdade, Harry estou meramente fazendo o meu...
        -        Quem se importa que ele seja meio gigante? - gritou Harry.
-        No h nada errado com ele!
        O        bar inteiro ficou em silncio. Madame Rosmetta acompanhava de olhar fixo por trs do balco, aparentemente esquecida de que a garrafa que estava
enchendo de quento comeara a transbordar.
        O        sorriso de Rita Skeeter estremeceu levemente, mas ela o firmou quase no mesmo instante; abriu a bolsa de crocodilo com um
estalido, tirou a pena-de-repetio-rpida e disse:
        -        Que tal me dar uma entrevista sobre o Hagrid que voc conhece, Harry? O homem por trs dos msculos? A improvvel
amizade que tem por ele e as razes para t-la? Voc o chamaria de
um pai-substituto?
        Hermione se levantou abruptamente, a cerveja amanteigada
apertada na mo como se fosse uma granada.
#358
        -        Sua mulher horrorosa - disse ela, entre dentes -, a senhora no se importa, no , qualquer coisa vira artigo, e qualquer pessoa
serve, no ? At Ludo Bagman...
        -        Sente-se, menininha boba e no fale do que no entende - disse Rita Skeeter com frieza, seu olhar endurecendo ao pousar em Hermione. - Sei de coisas 
sobre Ludo Bagman que deixariam voc de cabelos em p... No que eles precisem de ajuda - acrescentou, mirando os cabelos lanzudos de Hermione.
        -        Vamos embora - disse Hermione. - Anda, Harry, Rony...
        Os garotos saram; muita gente ficou olhando para eles enquanto se retiravam. Harry virou a cabea ao alcanar a porta. A
pena-de-repetio-rpida estava em posio; corria para a frente e
para trs no pedao de pergaminho sobre a mesa.
        -        Voc vai ser a prxima que ela vai perseguir, Mione - disse Rony, numa voz baixa e preocupada quando tornavam a subir a rua.
        -        Ela que experimente! - disse a garota com voz aguda; tremia de raiva. - Vou mostrar a ela! Menininha boba, ? Ah, vai ter troco,
primeiro Harry, agora o Hagrid...
        - Voc no vai querer se indispor com a Rita Skeeter - disse Rony nervoso. - Estou falando srio, Mione, ela vai desenterrar
alguma coisa sobre voce...
        - Meus pais no lem o Profeta Dirio, ela no pode me apavorar e me fazer esconder! - disse Hermione, agora caminhando to depressa que Harry e Rony mal 
conseguiam acompanh-la. A ltima vez que Harry vira Hermione com tanta raiva assim, ela metera a mo na cara de Draco Malfoy. - E Hagrid no vai se esconder mais!
Ele nunca deveria ter deixado aquela imitao de ser humano o perturbar! Andem!
        Desatando a correr, ela levou os garotos de volta  estrada, cruzou os portes ladeados por javalis alados e atravessou os jardins at
a cabana de Hagrid.
        As cortinas ainda estavam corridas, mas eles ouviram os latidos
de Canino quando se aproximaram.
        - Hagrid! - chamou Hermione, batendo com fora na porta da frente. - Hagrid, pode parar com isso! Sabemos que voc est a dentro! Ningum liga a mnima 
se sua me era uma giganta, Hagrid! Voc no pode deixar aquela Skeeter nojenta fazer isso com voc! Hagrid, vem aqui fora, voc est sendo...
        A porta se abriu. Hermione disse:
#359
        -        J no era...! - e se calou, de repente. porque se viu cara a cara, no com Hagrid, mas com Alvo Dumbledore.
-        Boa-tarde - disse ele agradavelmente, sorrindo para os garotos.
        - Ns... hum... ns gostaramos de ver o Hagrid - disse Hermione baixinho.
        -        Claro, imaginei isso - disse Dumbledore, os olhos cintilando. - Por que no entram?
        - Ah... hum... OK..
        Ela, Rony e Harry entraram na cabana. Canino se atirou sobre
Harry no instante em que o garoto entrou, latindo feito louco e tentando lamber as orelhas dele. Harry afastou Canino e olhou  volta.
        Hagrid estava sentado  mesa, onde havia duas canecas de ch. Estava pavoroso. O rosto manchado, os olhos inchados e tinha passado ao outro extremo em termos 
de cabelos; em lugar de tentar amans-los, deixara-os agora parecidos com uma peruca de arame embaraado.
        -        Oi, Hagrid - disse Harry.
        Hagrid ergueu os olhos.
        - Al - disse ele, com a voz rouca.
-        Mais ch, acho - disse Dumbledore, que fechou a porta
depois que Harry, Rony e Hermione entraram, puxou a varinha e
girou-a; apareceu no ar uma bandeja giratria de ch acompanhado por um prato de bolos. Ainda por magia, Dumbledore levou a
bandeja at a mesa e todos se sentaram. Houve uma ligeira pausa e
ento o diretor disse:
        "Voc por acaso ouviu o que a Srra. Granger estava gritando,
Hagrid?"
        Hermione corou ligeiramente, mas Dumbledore sorriu para
ela e continuou.
        - Hermione, Harry e Rony parecem que ainda querem continuar a conhecer voc, a julgar pela maneira com que tentavam derrubar a porta.
        - Claro que ainda queremos conhecer voc! - exclamou Harry fitando Hagrid. - Voc no acha que alguma coisa que aquela vaca da Skeeter... desculpe professor 
- acrescentou ele depressa, olhando para Dumbledore.
        
       - Fiquei temporariamente surdo e no fao idia do que foi
que voc disse, Harry - disse Dumbledore, girando os polegares e
olhando para o teto.
#360
        - Hum... certo - disse Harry envergonhado. - Eu s quis dizer, Hagrid, como  que voc pde pensar que ligaramos para o que
aquela "mulher" escreveu sobre voc?
        Duas grossas lgrimas saltaram dos olhos de Hagrid, negros
        como besouros, e caram lentamente sobre sua barba desgrenhada.
        - A prova viva do que estive lhe dizendo, Hagrid - disse Dumbledore, ainda contemplando atentamente o teto. - J lhe mostrei as cartas dos inmeros pais 
que se lembram de voc do tempo em que estiveram aqui, dizendo em termos bastante claros que se eu o despedisse eles no iriam ficar calados...
        -        Nem todos - disse Hagrid rouco. - Nem todos querem que eu fique...
        -        Francamente, Hagrid, se voc est esperando obter aprovao universal, receio que v ficar trancado na cabana muito tempo
        - disse o diretor, agora olhando severamente por cima dos oclinhos de meia-lua. - Ainda no houve uma semana, desde que me tornei diretor desta escola, em 
que eu no recebesse ao menos uma coruja reclamando da maneira com qpie eu a dirijo. Mas o que  que eu deveria fazer? Me entrincheirar no escritrio e me recusar 
a falar com as pessoas?
        -        Mas... mas o senhor no  meio gigante! - crocitou Hagrid.
        -        Hagrid, olha s quem so os meus parentes! - disse Harry furioso. - Olha s os Dursley!
        -        Muito bem lembrado! - disse o diretor. - Meu prprio irmo, Aberforth, foi acusado de praticar feitios imprprios em um bode. Apareceu em todos
os jornais, mas ele se escondeu? No, no se escondeu! Manteve a cabea erguida e continuou a trabalhar como sempre! Naturalmente, no tenho muita certeza de que
ele saiba ler, por isso talvez no tenha tido tanta coragem assim...
        -        Volte a ensinar, Hagrid - disse Hermione em voz baixa -, por favor volte, ns realmente sentimos sua falta.
        Hagrid engoliu em seco. Mais lgrimas escorreram por suas
        bochechas e penetraram a barba embaraada. Dumbledore se levantou.
        -        Eu me recuso a aceitar o seu pedido de demisso, Hagrid, e espero que esteja de volta ao trabalho na segunda-feira - disse ele.
        - Voc tomar caf em minha companhia s oito e meia no Salo 
        f        Principal. Nada de desculpas. Boa-tarde para todos vocs.
Dumbledore se retirou da cabana, parando apenas para dar
#361
uma coada atrs da orelha de Canino. Quando a porta se fechou atrs dele, Hagrid comeou a soluar com o rosto nas mos do tamanho de uma tampa de lata de lixo.
Hermione deu palmadinhas em seu brao e finalmente Hagrid ergueu a cabea, os olhos de fato muito vermelhos e disse:
        -        Um grande homem o Dumbledore... grande homem...
        - concordou Rony. - Posso comer um desses bolos, Hagrid?
        -        Sirva-se - disse ele, enxugando os olhos nas costas da mo. - Arre, ele tem razo,  claro, vocs tm razo... tenho sido idiota... meu velho pai 
teria se envergonhado do meu comportamento nesses ltimos dias... - Mais lgrimas escorreram, mas ele as enxugou com mais firmeza e continuou: - Nunca mostrei a 
vocs uma foto do meu velho pai, no ? Olhem...
        Hagrid se levantou, foi at a cmoda, abriu a gaveta e tirou uma foto de um bruxo baixinho com os mesmos olhos negros rodeados de rugas do filho, sentado 
sorridente no ombro dele. Hagrid tinha bem uns dois metros mais do que o pai, a julgar pela macieira ao lado deles, mas seu rosto era imberbe, jovem, redondo e liso 
- parecia no ter mais que uns onze anos de idade.
        -        Foi tirada logo depois que vim para Hogwarts - disse Hagrid rouco. - Papai morreu muito feliz... achava que eu talvez no fosse bruxo, entende, 
porque mame.... bem, em todo o caso...  claro que, sinceramente, nunca fui grande coisa em magia... mas pelo menos ele no me viu ser expulso. Morreu, entende, 
eu 
estava no segundo ano...
        Dumbledore foi quem me apoiou depois que meu pai morreu. Me arranjou o lugar de guarda-caa... confia nas pessoas, ele. D uma segunda oportunidade... 
isso que diferencia ele de outros diretores, entendem. Aceita qualquer pessoa em Hogwarts, que tenha talento. Sabe que as pessoas podem ser legais mesmo que as famlias
delas no tenham sido... bem... to respeitveis assim. Mas tem gente que no entende isso. Tem gente que sempre usa a famlia contra a pessoa... tem at gente que
finge que tem ossos grandes em lugar de se levantar e dizer "eu sou o que sou e no
me envergonho disso". "Nunca se envergonhe", meu velho pai costuma va dizer,
"tem gente que vai usar isso contra voc, mas no vale a
 pena se preocupar com eles." E ele tinha razo. Fui um idiota. No
vou me incomodar mais com ela, prometo a vocs. Ossos grados,
eu vou mostrar a ela os ossos grados."
#362
        Harry, Rony e Hermione se entreolharam nervosos; Harry preferia levar cinqUenta explosivins para passear do que admitir para Hagrid que entreouvira a conversa
dele com Madame Maxime, mas Hagrid continuava falando, aparentemente inconsciente de que tivesse dito alguma coisa estranha.
        -        Sabe de uma coisa, Harry? - disse ele tirando os olhos da foto do pai, os olhos muito brilhantes. - Quando o conheci, voc me lembrou um pouco de 
mim. Me e pai desaparecidos e voc sentindo que no ia se adaptar a Hogwarts, lembra? No tinha muita certeza de que estava  altura... e agora, olha s voc, Harry! 
Campeo da escola!
        Ele fitou o garoto um instante e ento disse, muito srio:
        -        Sabe o que eu adoraria, Harry? Eu adoraria ver voc vencer, realmente adoraria. Voc iria mostrar a eles todos... no  preciso ser puro-sangue 
para fazer isso. Voc no tem que se envergonhar do que . Mostraria a eles que
Dumbledore  quem tem razo quando deixa qualquer umentrar desde que seja capaz
de fazer mgica. Como  que voc est indo com aquele ovo, Harry?
        -        timo - disse Harry. - Realmente timo.
        O        rosto infeliz de Hagrid se abriu num grande sorriso lacrimoso.
        - o meu garoto... Mostre a eles, Harry, mostre a eles. Derrote eles todos.
        Mentir para Hagrid no era bem o mesmo que mentir para outras pessoas. Harry voltou para o castelo mais no finzinho da tarde com Rony e Hermione, sem ter 
coragem de varrer a expresso de felicidade do rosto barbudo de Hagrid ao imagin-lo vencendo o torneio. O ovo incompreensvel pesou mais que nunca na conscincia 
de Harry naquela noite, e quando finalmente se deitou j tomara uma deciso - estava na hora de guardar o orgulho na prateleira e ver se a dica de Cedrico valia 
alguma coisa.
#363

*****


- CAPITULO VINTE E CINCO -
O ovo e o olho


Uma vez que Harry no fazia idia de quanto tempo deveria gastar no banho para decifrar o segredo do ovo de ouro, ele resolveu tom-lo  noite, quando poderia demorar 
o quanto quisesse. Embora relutasse em aceitar mais favores de Cedrico, ele resolveu tambm usar o banheiro dos monitores-chefes; muito menos gente tinha permisso 
de entrar l, por isso era muito menos provvel que ele fosse incomodado.
        Harry planejou sua excurso cuidadosamente, porque j fora uma vez apanhado por Filch, o zelador, no meio da noite, fora da cama e dos limites estabelecidos, 
e no tinha vontade de repetir a experincia. A Capa da Invisibilidade seria, naturalmente, essencial, e como precauo extra, Harry pensou em levar o Mapa do Maroto, 
que, depois da capa era o recurso mais til para infringir regulamentos que Harry possua. O mapa mostrava toda a propriedade de Hogwarts, inclusive seus muitos 
atalhos e passagens secretas e, o que era mais Importante, mostrava as pessoas no interior do castelo como minsculos pontinhos icfentificados por legendas que se 
deslocavam pelos corredores, de modo que Harry seria alertado se algum se aproximasse do banheiro.
        Na noite de quinta-feira, ele subiu discretamente ao dormitrio, vestiu a capa, voltou  sala, e, exatamente como fizera na noite em que Hagrid lhe mostrara 
os drages, esperou que o buraco do retrato se abrisse. Desta vez foi Rony quem esperou do lado de fora para dar a senha  Mulher Gorda (Pastis de Banana.
        - Boa sorte - murmurou Rony, entrando pelo buraco comunal na mesma hora em que Harry saa.
        Estava incmodo andar coberto pela capa hoje, porque Harry
levava debaixo de um brao o ovo de ouro e, com o outro, segurava o mapa diante do nariz. No entanto, os corredores banhados de
#364
luar estavam desertos e silenciosos, e, consultando o mapa a intervalos estratgicos, Harry pde ter certeza de no encontrar ningum que quisesse evitar. Quando
chegou  esttua de Bons, o Pasmo, um bruxo com cara de desorientado com as luvas nas mos trocadas, ele localizou a porta certa, encostou-se nela e murmurou a senha 
Frescor de Pinho, conforme Cedrico o instrura.
        A porta se abriu com um rangido. Harry entrou, trancou-a ao
passar e despiu a Capa da Invisibilidade, olhando ao redor.
        Sua reao imediata foi que valia a pena ser monitor-chefe s para poder usar aquele banheiro. Tinha uma iluminao suave fornecida por um esplndido lustre 
de muitas velas e tudo era feito de mrmore branco, inclusive o que parecia ser uma piscina retangular e vazia rebaixada no meio do piso. Tinha umas cem torneiras 
de ouro em volta da borda, cada uma com uma pedra preciosa de cor diferente engastada na parte superior. Havia tambm um trampolim. Longas cortinas de linho protegiam 
as janelas; havia uma montanha de toalhas brancas e macias a um canto e um nico quadro com moldura de ouro na parede. Era uma sereia loura, profundamente adormecida 
sobre um rochedo, cujos longos cabelos esvoaavam sobre o rosto toda vez que ela ressonava.
        Harry ps a capa, o ovo e o mapa de lado e avanou, olhando para os lados, seus passos ecoando nas paredes. Por mais magnfico que o banheiro fosse - e por 
mais desejoso que estivesse de experimentar algumas daquelas torneiras -, agora que estava ali, ele no pde reprimir de todo a sensao de que Cedrico podia estar 
gozando a cara dele. Como  que aquilo poderia ajud-lo a resolver o mistrio do ovo? Mesmo assim, ele deixou uma das toalhas macias, a capa, o mapa e o ovo a um 
lado da banheira - que mais parecia uma piscina -, depois se ajoelhou e abriu algumas torneiras.
        Percebeu imediatamente que havia diferentes tipos de espuma de banho misturados  gua, embora no fosse um banho de espuma que Harry j tivesse experimentado. 
Uma torneira jorrava bolhas rosas e azuis do tamanho de bolas de futebol, outra, uma espuma branca gelada to densa que Harry achou que poderia sustentar seu peso 
se ele a quisesse experimentar; uma terceira despejava
nuvens perfumadssimas na superfcie da gua. Harry divertiu-se
 durante algum tempo abrindo e fechando torneiras, curtindo particularmente o efeito de uma, cujo
jorro ricocheteava na superfcie
#365
da gua e subia em grandes arcos. Ento, quando a piscina funda se encheu de gua, espuma e bolhas (que considerando seu tamanho duravam pouqussimo tempo), Harry
fechou todas as torneiras, despiu o pijama, os chinelos e o roupo e entrou na gua.
        Era to funda que seus ps mal tocavam o piso, e ele chegou a nadar duas vezes o comprimento da piscina antes de voltar  borda, pingando gua, e examinar 
atentamente o ovo. Por mais prazeroso que fosse nadar na gua quente e espumosa com nuvens de vapor de cores variadas fumegando a toda volta, nenhuma intuio genial 
lhe ocorreu, nenhum sbito claro de compreenso.
        Harry esticou os braos, ergueu o ovo nas mos molhadas e abriu-o. O som agudo do choro encheu o banheiro, ecoou, ressoou no mrmore, mas continuou a lhe 
parecer to incompreensvel quanto antes, se no at mais incompreensvel com todos os ecos que produzia. Ele tornou a fech-lo com um estalido, preocupado que o 
som pudesse atrair Filch, se perguntando se aquilo no teria sido o que Cedrico planejara - e ento, algum falou, dando-lhe um susto to grande que ele deixou cair 
o ovo que saiu quicando pelo cho do banheiro.
        -        Eu tentaria coloc-lo dentro da gua, se fosse voc.
        Harry engoliu uma quantidade considervel de bolhas com o choque. Ficou em p, cuspindo gua, e viu o fantasma de uma garota de aspecto muito tristonho sentado 
de pernas cruzadas em cima de uma das torneiras. Era a Murta Que Geme, cujos soluos em geral eram ouvidos na tubulao de um vaso sanitrio em um banheiro trs 
andares abaixo.
        - Murta! - exclamou Harry indignado. - Eu... eu no estou usando nada!
        A espuma era to densa que isso no fazia a menor diferena,
mas ele teve a sensao desagradvel de que a Murta o estivera
espionando de uma das torneiras desde que ele chegara.
        - Fechei os olhos quando voc entrou - disse ela, pestanejando para ele por trs dos grossos culos. - Faz sculos que voce nao vai
me ver.
        -        T... bem... - disse Harry, dobrando ligeiramente os joelhos,
 s para ter certeza absoluta de que a Murta no pudesse ver nada
        alm da sua cabea. - No posso ficar entrando no seu banheiro,
no ?  de garotas.
#366
        - Voc no costumava se importar - respondeu a Murta, infeliz. - Voc costumava passar um tempo l.
        Era verdade, mas apenas porque ele, Rony e Hermione tinham descoberto que o banheiro interditado da Murta era um lugar conveniente para preparar em segredo 
a Poo Polissuco - uma poo proibida que transformara Harry e Rony em rplicas vivas de Crabbe e Goyle durante uma hora, para que eles pudessem entrar escondidos 
na sala comunal da Sonserna.
        -        Fui repreendido por entrar l - disse Harry, o que era uma meia verdade; certa vez Percy o apanhara saindo do banheiro da
Murta. - Depois disso, achei melhor no voltar.
        -        Ah... entendo... - disse a Murta, cutucando uma pinta no queixo de um jeito tristonho. - Bom... em todo o caso... eu experimentaria pr o ovo na 
gua. Foi o que Cedrico Diggory fez.
        -        Voc andou espionando ele tambm? - indignou-se Harry. - Que  que voc faz, entra aqui  noite para ver os monitores tomarem banho?
        -        As vezes - disse a Murta com um ar sonso -, mas nunca apareci para falar com ningum antes.
        -        Que grande honra - disse Harry aborrecido. - Fica de olhos fechados!
        Ele verificou se Murta tampara bem os culos antes de se iar
para fora do banho, enrolando bem a toalha no corpo e indo apanhar o ovo.
        Depois que ele entrou de novo na gua, a Murta espiou entre
os dedos e disse:
        -        Anda, ento... abre ele debaixo da gua!
        Harry mergulhou o ovo sob a superfcie espumosa e abriu-o... e desta vez, no ouviu nenhum grito. Saa dele um som gorgolejante, uma msica cujas palavras 
ele no conseguia distinguir atravs da gua.
        -        Voc precisa mergulhar a cabea tambm - disse a Murta, que parecia estar adorando a idia de dar ordens ao garoto. - Anda!
        Harry tomou flego e escorregou para dentro da gua - e agora, sentado no fundo da banheira de mrmore cheia de espuma, ouviu um coro inquietante de vozes
que cantavam para ele e que vinham do ovo em suas mos:
#367
Procure onde nossas vozes parecem estar,
No podemos cantar na superficie,
E enquanto nos procura, pense bem:
Levamos o que lhe far muita falta,
Uma hora inteira voc dever buscar,
Para recuperar o que lhe tiramos,
Mas passada a hora - adeus esperana de achar.
Tarde demais, foi-se, ele jamais voltar.

Harry soltou o corpo e emergiu  superfcie espumosa, sacudindo
os cabelos para longe dos olhos
-        Ouviu? - perguntou a Murta.
        -        Ouvi... "Procure onde nossas vozes parecem estar..." e se eu precisar que me convenam...
agenta a, preciso ouvir de novo...
-        Ele voltou a afundar na gua.
        Foi preciso ouvir a msica do ovo mais trs vezes para decorla; depois Harry caminhou um pouco dentro da piscina, concentrando o pensamento, enquanto a 
Murta continuava sentada a observ-lo.
        -        Preciso procurar pessoas que no podem usar a voz na superfcie... - disse o garoto lentamente. - Hum... quem poderia ser?
        -        Voc  meio devagar, no  no?
        Harry nunca vira a Murta to animada, a no ser no dia em
que a dose da Poo Polissuco de Hermione deixara a garota com a
cara coberta de plos e um rabo de gato.
        Harry deixou seu olhar vagar pelo banheiro, refletindo... se as vozes s podiam ser ouvidas embaixo da gua, ento fazia sentido que pertencessem a criaturas 
sub-aquticas. Ele passou essa teoria pelo fantasma da Murta que se riu dele.
        -        Bem, isso foi o que o Diggory pensou. Ficou deitado a falando sozinho um
tempo. E pe tempo nisso... quase at a espuma
toda desaparecer...
        -        Sub-aquticas... - disse Harry lentamente. - Murta... quem mais mora no lago, alm da lula gigante?
        -        Ah, todo o tipo de coisa. As vezes eu vou at l... s vezes no
tenho escolha, quando algum puxa a descarga do meu vaso sem eu
estar esperando...
        Fazendo fora para no pensar na Murta Que Geme descendo
#368
veloz por um cano at o lago, misturada ao contedo de um vaso, Harry falou:
        -        Bem, alguma coisa l tem voz humana? Calma a...
        Os olhos de Harry tinham pousado sobre o quadro da sereia
sonolenta na parede.
        -        Murta, tem sereias l?
        -        Aaah, muito bem - disse ela, com os grossos culos cintilando. - Diggory levou muito mais tempo para sacar! E olha que ela estava acordada - a Murta 
acenou com a cabea em direo  sereia, com uma expresso de grande desagrado no rosto tristonho
- dando risadinhas, se exibindo e fazendo cintilar as barbatanas...
        -         isso ento, no ? - perguntou Harry excitado. - A segunda tarefa  ir procurar as sereias no lago e... e...
        Mas ele subitamente percebeu o que estava dizendo e sentiu a excitao se esvair como se algum tivesse acabado de puxar uma tomada de sua barriga. Ele no 
era bom nadador; nunca pudera praticar muito. Duda recebera aulas quando os dois eram menores, mas tia Petnia e tio Vlter, sem dvida na esperana de que Harry
um dia se afogasse, no tinham se incomodado de lhe ensinar. Nadar duas vezes essa banheira no era problema, mas aquele lago era muito grande e muito fundo... e
as sereias com certeza viviam l em baixo...
        -        Murta - perguntou Harry, lentamente -, como  que eu vou respirar?
        Ao ouvir isso, os olhos da Murta se encheram de lgrimas inesperadas.
        -        Que falta de tato! - resmungou ela, procurando um leno nas vestes.
        -        Que  que  falta de tato? - perguntou Harry espantado.
        -        Falar de respirar na minha frente! - disse ela com uma voz aguda que ecoou muito alta pelo banheiro. - Quando eu no posso... quando eu no respiro... 
h sculos... - Ela escondeu o rosto no leno e fungou alto.
        Harry se lembrou como a Murta sempre fora sensvel com essa
questo de estar morta, mas nenhum dos outros fantasmas que ele
conhecia criava caso por isso.
        -        Desculpe - disse com impacincia. - Eu no quis... me
esqueci...
        -        Ah, ,  muito fcil esquecer que a Murta est morta - disse
#369
ela, engolindo em seco e fitando o garoto com os olhos inchados. - Ningum nunca sentiu falta de mim, nem quando eu estava viva. Levou horas para encontrarem o meu
corpo, eu sei, fiquei sentada l dentro esperando algum aparecer. Olivia Hornby entrou no banheiro e perguntou: "Voc est a emburrada outra vez, Murta? Porque 
o Prof. Dippet me pediu para a procurar... Ai ela viu o meu corpo... aaaah, isso ela no esqueceu at o dia da morte, eu fiz questo de garantir... eu a seguia para 
todo o lado para lembrar, me lembro de que no dia do casamento do irmo dela...
        Mas Harry no estava escutando, voltara a pensar na musica das sereias: "Levamos o que lhe far muita falta ." Pelo jeito elas iam roubar alguma coisa dele, 
alguma coisa que ele ia precisar recuperar. Que  que elas iam levar?
        -        ... ento,  claro, ela foi ao Ministrio da Magia para me obrigar a parar de persegui-la, ento tive que voltar para c, viver no
meu banheiro.
        -        timo - disse Harry vagamente. - Bem, j cheguei bem mais longe do que estava... quer fechar os olhos outra vez, eu vou
sair da gua.
        Ele apanhou o ovo no fundo da banheira, saiu, se enxugou e
tornou a vestir o pijama e o roupao.
        -        Voc vai vir um dia desses me visitar no meu banheiro? - perguntou a Murta Que Geme em tom lamurioso, quando Harry apanhou a Capa da Invisibilidade.
        -        Hum... vou tentar - prometeu Harry, embora intimamente pensasse que a nica maneira de tornar a visitar o banheiro da Murta seria se os outros banheiros 
do castelo estivessem interditados. - At outro dia, Murta... obrigado pela ajuda.
        -        Tchauzinho - disse ela tristonha, e quando Harry se cobriu com a capa ele a viu disparar de volta  torneira.
        J do lado de fora no corredor escuro, Harry examinou o Mapa do Maroto para verificar se o caminho continuava livre. Sim, os pontinhos que pertenciam a Filch 
e  Madame Nor-r-ra estavam seguros na sala do zelador... nada mais parecia estar se mexendo  exceo do Pirraa, que andava saltirando pela sala de trofus no 
andar de cima... Harry acabara de dar o primeiro passo de volta 
Torre da Grifinria, quando uma outra coisa no mapa chamou sua
ateno... uma coisa decididamente estranha.
        Pirraa no era a nica coisa que estava se mexendo. Um pontinho
#370
isolado esvoaava por uma sala no canto inferior  esquerda
-        a sala de Snape. Mas o ponto no estava identificado como "Severo Snape"... era Bartolomeu Crouch.
        Harry arregalou os olhos para o ponto. Todos supunham que o
Sr. Crouch estava doente demais para trabalhar ou vir ao Baile de
Inverno - ento, que  que ele estava fazendo secreramente em
Hogwarrs  uma hora da manh? Harry observou com ateno o
ponto se mexer para um lado e outro da sala, detendo-se aqui e ali...
        O        garoto hesitou, pensando... ento, sua curiosidade levou a melhor. Ele deu meia-volta e saiu na direo oposta, para a escada
mais prxima. Ia ver o que Crouch andava aprontando.
        Harry desceu as escadas o mais silenciosamente que pde, embora os rostos em alguns quadros se virassem cheios de curiosidade ao ouvir o rangido do soalho, 
o atrito do pijama no seu roupo. Ele seguiu, sorrateiro, pelo corredor, empurrou uma tapearia mais ou menos a meio caminho, e desceu por uma escada estreita, um 
atalho que o levaria dois andares abaixo. Harry mantinha os olhos no mapa, pensando... no parecia coisa do Sr. Crouch, um homem correto e cumpridor das leis andar 
xeretando a sala de algum a essa hora da noite...
        Ento, no meio da escada, sem pensar no que estava fazendo, sem se concentrar em nada exceto no estranho comportamento do Sr. Crouch, sua perna de repente 
afundou pelo degrau defeituoso que Neville sempre se esquecia de pular. Ele se desequilibrou, e o ovo de ouro, ainda molhado do banho, escorregou de baixo do seu 
brao - ele se atirou  frente para tentar agarr-lo, mas tarde demais: o ovo caiu pela longa escada batendo e ecoando como um tambor em cada degrau - a Capa da 
Invisibilidade escorregou - Harry agarrou-a mas o Mapa do Maroto escapuliu de sua mo e escorregou seis degraus, onde, com a perna enterrada at o joelho, o garoto 
no pde alcan-lo.
        O        ovo de ouro atravessou a tapearia ao p da escada, se abriu e soltou o seu lamento alto no corredor em baixo. Harry puxou a varinha e se esticou 
para bater com ela no Mapa do Maroto, para apag-lo, mas o pergaminho estava fora do seu alcance...
        Cobrindo-se de novo com a capa, Harry se endireitou, escutando 
com ateno, os olhos apertados de medo... e, quase imediatamente...
        -        PIRRAA!
#371
        Era o inconfundvel grito de Filch caando o poltergeist. Harry ouviu os passos rpidos e arrastados se aproximarem cada vez mais,
a voz asmtica berrando de fria.
        -        Que estardalhao  esse? Quer acordar o castelo inteiro? Vou pegar voc Pirraa, vou pegar, voc vai... e o que  isso?
        Os passos de Filch pararam; ouviu-se um estalido metlico e o lamento parou - Filch apanhara o ovo e o fechara. Harry ficou muito quieto, a perna ainda entalada
no degrau mgico,  escuta. A qualquer momento agora, Filch iria afastar a tapearia, esperando ver Pirraa... e no haveria Pirraa algum... e se ele subisse as
escadas, encontraria o Mapa do Maroto... e com ou sem Capa da Invisibilidade, o mapa mostraria "Harry Potter" parado exatamente onde estava.
        -        Ovo? - exclamou Filch baixinho ao p da escada. - Minha queridinha! - Madame Nor-r-r-a obviamente o acompanhava. - Isto
 uma pista do Tribruxo! Isto pertence a um campeo de escola!
        Harry se sentiu enjoado; seu corao batia forte e depressa...
        -        PIRRAA! - rugiu Filch com satisfao. - Voc andou furtando!
        O        zelador empurrou a tapearia embaixo e Harry viu seu rosto balofo e feio, seus olhos claros esbugalhados espiarem para o alto
da escada escura (e para Filch) deserta.
        -        Se escondendo, ? - perguntou baixinho. - Estou indo pegar voc, Pirraa... voc foi roubar uma pista do Tribruxo, Pirraa... Dumbledore vai expulsar 
voc daqui por isso, seu poltergeist gatuno e mau carter...
        Filch comeou a subir a escada, a gata magricela, cor de serragem, em seus calcanhares. Os olhos de Madame Nor-r-r-a iguais a lanternas, to semelhantes 
aos do dono, estavam fixos diretamente em Harry. O garoto j tivera antes ocasio de se perguntar se a Capa da Invisibilidade funcionava para os gatos... doente 
de apreenso, ele observou Filch se aproximar cada vez mais, trajando seu velho roupo de flanela - tentou desesperadamente soltar a perna entalada, mas s conseguiu 
que ela afundasse mais alguns centmetros -, a qualquer segundo agora, Filch iria ver o mapa ou pisar bem em cima dele...
        
       - Filch? Que  que est havendo?
                O zelador parou a poucos degraus abaixo de Harry e se virou.
Ao p da escada estava a nica pessoa que poderia piorar a situao
#372
de Harry - Snape. Estava usando um longo camiso cinzento e parecia lvido.
        -         o Pirraa, professor - murmurou Filch maldosamente. - Ele atirou este ovo escada abaixo.
        Snape galgou depressa os degraus e parou ao lado de Filch.
Harry cerrou os dentes, convencido de que as marteladas do seu
corao o denunciariam a qualquer minuto...
        -        Pirraa? - exclamou Snape baixinho, olhando para o ovo nas mos de Filch. - Mas Pirraa no poderia ter entrado na minha
sala...
        -        Esse ovo estava na sua sala, professor?
        -        Claro que no - retorquiu Snape. - Ouvi batidas e lamentos...
        -        Foi, professor, isso foi o ovo...
        -        ... vim investigar...
        -        ... Pirraa atirou o ovo, professor...
        -        ... e quando passei pela minha sala, vi que os archotes estavam acesos e a porta de um armrio estava entreaberta! Algum o
andou revistando!
- Mas Pirraa no poderia...
        -        Eu sei que no poderia, Filch! - respondeu Snape com rispidez. - Lacro a minha sala com um feitio que somente um bruxo poderia desfazer! - Snape
olhou para o alto da escada, diretamente atravs de Harry, depois para o corredor embaixo. - Quero que voc venha me ajudar a procurar o intruso, Filch.
        -        Eu... claro, professor... mas...
        Filch mirou as escadas, o olhar desejoso atravessando Harry, e o garoto percebeu claramente que o homem relutava em deixar passar uma oportunidade de encurralar
Pirraa. Vai, suplicou Harry a ele silenciosamente, vai com o Snape... vai... Madame Norr-r-a espiava em volta das pernas do dono... Harry teve a ntida impresso
de que a gata o farejava... por que ele enchera aquela banheira com tanta espuma perfumada?
        -        A questo, professor,  que - disse Filch com voz queixosa - o diretor vai ter que me escutar desta vez, Pirraa andou furtando de um estudante,
talvez seja a minha chance de o ver expulso do castelo para sempre...
        -        Filch, estou me lixando para esse desgraado desse poltergest,
 a minha sala que...
#373
Toque. Toque. Toque.
        Snape parou de falar muito abruptamente. Ele e Filch, os dois, olharam para o p da escada. Harry viu Olho-Tonto Moody aparecer mancando pela estreita abertura
entre as cabeas deles. Moody estava usando sua velha capa de viagem por cima do camiso e se apoiava na bengala como sempre.
        -         uma festa em que todos vo de pijama? - rosnou ele para os dois na escada.
        -        O Prof. Snape e eu ouvimos rudos, professor - informou Filch imediatamente. - Pirraa, o poltergeist, atirando coisas pelo castelo, como sempre,
e Prof. Snape descobriu que algum tinha invadido a sala...
        -        Cale a boca! - sibilou Snape.
        Moody deu mais um passo em direo  escada. Harry viu seu
olho mgico passar por Snape e, depois, inconfundivelmente, por
ele.
        O        corao de Harry deu um solavanco horrvel. Moody via atravs das Capas da Invisibilidade... somente ele era capaz de apreender toda a estranheza
da cena... Snape de camiso, Filch agarrado ao ovo e ele, Harry, entalado na escada s costas dos dois. A boca torta e rasgada de Moody se abriu com a surpresa.
Por alguns segundos ele e Harry se encararam nos olhos. Ento, Moody fechou a boca e tornou a virar seu olho azul para Snape.
        -        Eu ouvi isso direito, Snape? - perguntou ele lentamente. - Algum invadiu sua sala?
        - No tem importncia - disse Snape com frieza.
        - Muito ao contrrio - rosnou Moody -,  muito importante. Quem iria querer invadir sua sala?
        -        Um estudante, eu diria. - Harry podia ver uma veia latejar medonhamente na tmpora gordurosa de Snape. - J aconteceu antes. Desapareceram ingredientes
para poes do meu estoque particular... sem dvida estudantes tentando fazer misturas ilegais...
        -        Acha que eles andavam atrs de ingredientes para poes, eh?
-        perguntou Moody. - No est escondendo mais nada em sua sala, est?
        Harry viu o contorno do rosto macilento de Snape ficar cor de
tijolo, a veia em sua tmpora pulsar mais rpida.
        -        Voc sabe que no estou escondendo nada, Moody -
respondeu
ele em um tom de voz suave e perigoso -, porque voc revistou pessoalmente a minha sala, e exaustivamente.
        O        rosto de Moody se contorceu em um sorriso.
        -        Privilgio de Auror, Snape. Dumbledore me mandou ficar vigilante...
        -        Acontece que Dumbledore confia em mim - disse Snape por entre os dentes cerrados. - Recuso-me a acreditar que tenha dado
ordens para revistar minha sala!
        - Claro que Dumbledore confia em voc - rosnou Moody. - Ele  um homem de boa-f, no ? Acredita em dar uma segunda oportunidade. Mas eu... eu digo que 
certos traos de uma pessoa no mudam nunca, Snape. Traos que no mudam nunca, entende o que eu quero dizer?
        Snape subitamente fez uma coisa muito estranha. Segurou o
brao esquerdo convulsivamente com a mo direita, como se alguma coisa nele o incomodasse.
        Moody deu uma risada.
        -        Volte para a cama, Snape.
        -        Voc no tem autoridade para me mandar a lugar algum! - sibilou Snape, soltando o brao como se estivesse zangado consigo mesmo. - Tenho tanto direito 
de andar por esta escola depois do anoitecer quanto voc!
        -        Ento ande o quanto quiser - disse Moody, mas sua voz estava carregada de ameaa. - Espero um dia desses encontr-lo num
corredor escuro... a propsito, voc deixou cair uma coisa...
        Com uma pontada de horror, Harry viu Moody apontar para o Mapa do Maroto, que continuava cado na escada, uns seis degraus abaixo dele. Quando Snape e Filch
se viraram para olhar, Harry mandou para o ar toda a cautela; ergueu os braos por baixo da capa e acenou furiosamente para atrair a ateno de Moody, falando sem
emitir nenhum som: "E meu! Meu!"
        Snape estendera a mo para apanhar o mapa, uma medonha
expresso de compreenso se desenhando em seu rosto...
        -        Accio pergaminho!
        O        mapa voou para o alto, escapando dos dedos estendidos de Snape, e mergulhou em direo  mo de Moody.
        -        Me enganei - disse ele calmamente. -  meu, devo ter
deixado cair hoje mais cedo...
        Mas os olhos negros de Snape correram do ovo nos braos de
#375
Filch para o mapa na mo de Moody e Harry percebeu que o professor estava somando dois mais dois, como s ele era capaz de fazer...
        -        Potter - disse ele baixinho.
        -        Que foi que voc disse? - perguntou Moody calmamente, dobrando o mapa e embolsando-o.
        -        Potter! - rosnou Snape e ele chegou mesmo a virar a cabea para o lugar em que Harry estava, como se de repente pudesse vlo. - Esse ovo  o ovo
de Potter. Esse pergaminho pertence ao Potter. J o vi antes e estou reconhecendo! Potter est aqui! Potter est coberto pela Capa da Invisibilidade!
        Snape estendeu as mos para a frente como um cego e comeou a subir a escada; Harry poderia jurar que as narinas enormes do professor estavam se dilatando,
tentando farej-lo - com a perna presa, o garoto se deitou para trs, tentando evitar as pontas dos dedos de Snape, mas a qualquer momento...
        -        No h nada a, Snape! - disse Moody com rispidez. - Mas terei prazer em contar ao diretor como os seus pensamentos rapidamente voaram para Harry
Potter!
        -        Est querendo dizer o qu com isso? - rosnou Snape, voltando-se mais uma vez para encarar Moody, as mos ainda estendidas, a centmetros do peito
de Harry.
        -        Quero dizer que Dumbledore est muito interessado em saber quem  que est querendo acabar com aquele garoto! - respondeu Moody, mancando mais para
junto da escada. - E eu tambm estou, Snape... muito interessado... - A luz dos archotes iluminou brevemente seu rosto mutilado, de modo que as cicatrizes e o pedao
que faltava do seu nariz pareceram mais fundos e mais escuros que nunca.
        Snape estava olhando para baixo, para Moody, e Harry no
pde ver a expresso do seu rosto. Por um instante, ningum se
mexeu nem disse nada. Ento Snape lentamente baixou as mos.
        -        Eu meramente pensei - disse Snape, com uma voz de forada calma - que se
Potter anda outra vez passeanplo por a a altas horas da noite...  um
hbito indesejvel que ele tem... deviam obrig-lo a parar. Para... para sua prpria segurana.
        - Ah, entendo - disse Moody brandamente. - Voc sempre
tem em mente o que  melhor para Potter, no  mesmo?
        Houve uma pausa. Snape e Moody continuaram a se encarar.
#        376
Madame Nor-r-ra miou alto, ainda espiando por trs das pernas de Filch, procurando a fonte do banho de espuma de Harry.
        -        Acho que vou voltar para a cama - disse Snape secamente.
        -        A melhor idia que voc j teve esta noite - comentou Moody. - Agora Filch, se me fizer o favor de me entregar este ovo...
        -        No - exclamou Filch agarrando o ovo como se fosse um filho primognito. - Prof. Moody, ele  a prova do comportamento traioeiro do Pirraa!
        -         a propriedade do campeo de quem ele o roubou - disse Moody. - Entregue-o, agora.
        Snape desceu com arrogncia e passou por Moody sem dizer mais nada. Filch fez um som de chilreio para Madame Nor-r-ra, que continuou vidrada em Harry por 
mais alguns segundos antes de se virar para acompanhar o dono. Ainda ofegando, Harry ouviu Snape se afastar pelo corredor; Filch entregou o ovo a Moody e tambm 
desapareceu de vista, resmungando para a gata:
        -        Tudo bem, doura... veremos Dumbledore amanh de manh... contaremos a ele o que o Pirraa andou fazendo...
        Uma porta bateu. Harry ficou olhando para Moody, que apoiou a bengala no primeiro degrau da escada e comeou a subila em direo ao garoto, penosamente, 
uma batida surda a cada segundo passo.
        -        Essa foi por pouco, Potter.
        -        Foi... eu... hum... obrigado - disse Harry com a voz fraca.
        -        Que  isso? - perguntou o professor, tirando o Mapa do Maroto do bolso e desdobrando-o.
        -        Mapa de Hogwarts - respondeu o garoto, desejando que Moody no demorasse muito a solt-lo da escada; sua perna estava
realmente doendo.
        -        Pelas barbas de Merlim! - sussurrou Moody, examinando o mapa, seu olho mgico endoidando. -  um senhor mapa, Potter!
        -        , ... muito til. - Os olhos de Harry estavam comeando a marejar de dor. - Hum...
Prof. Moody, o senhor acha que poderia
me dar uma mozinha...?
        -        Qu? Ah! ... claro...
        Moody segurou os braos de Harry e puxou-o; a perna do
garoto se soltou do degrau defeituoso e ele subiu para o degrau
acima.
        Moody continuou observando o mapa.
#377
        - Potter... - perguntou ele lentamente - no lhe aconteceu, por acaso, ver quem invadiu a sala de Snape? Neste mapa, quero dizer?
        -        Hum... vi, vi sim... - admitiu Harry. - Foi o Sr. Crouch.
        O        olho mgico de Moody perpassou toda a superfcie do mapa. De repente ele pareceu assustado.
        -        Crouch? Voc... voc tem certeza, Potter?
        -        Absoluta.
        -        Bem, ele no est mais aqui - disse o professor, seu olho ainda percorrendo o mapa. - Crouch... isso  muito... muito interessante...
        O        professor ficou calado quase um minuto, ainda fitando o mapa. Harry percebeu que aquela notcia significava alguma coisa para Moody, e quis muito 
saber o qu. Ficou em dvida se teria coragem de perguntar. Moody lhe dava um pouco de medo... no entanto, acabara de ajud-lo a evitar uma grande confuso...
        -        Hum... Prof. Moody... por que o senhor acha que o Sr. Crouch queria dar uma olhada na sala de Snape?
        O        olho mgico de Moody abandonou o mapa e se fixou, trmulo, em Harry. Era um olhar penetrante e o garoto teve a impresso de que Moody o avaliava, 
pensando se deveria lhe responder ou o quanto lhe dizer.
        -        Vamos pr a coisa desta maneira, Potter - murmurou ele finalmente -, dizem que o velho Olho-Tonto  obcecado em apanhar bruxos das trevas... mas 
Olho-Tonto no  nada, nadinha comparado a Bart Crouch.
        Ele continuou a examinar o mapa. Harry estava ardendo de
vontade de ouvir mais.
        -        Prof. Moody? - perguntou ele outra vez. - O senhor acha... isso poderia ter alguma ligao com... talvez o Sr. Crouch pense
que tem alguma coisa acontecendo...
        -        O qu, por exemplo? - perguntou Moody energicamente.
        Harry se perguntou o quanto se atreveria a dizer. No queria
que Moody adivinhasse que tinha uma fonte de informao fora de
Hogwarrs; isto poderia levar a perguntas perigosas sobre Sirius.
        -        No sei - murmurou Harry -, tem coisas estranhas acontecendo ultimamente, no ? Tem sado no Profeta Dirio... A Marca
Negra na Copa Mundial, os Comensais da Morte e todo o resto...
        Os dois olhos desiguais de Moody se arregalaram.
#378
- Voc  um menino perspicaz, Potter. - Seu olho mgico voltou a percorrer o Mapa do Maroto. - Crouch poderia estar pensando mais ou menos nesse sentido - disse
ele lentamente. - Muito possvel... tem havido boatos esquisitos circulando por a ultimamente, com a ajuda de Rita Skeeter,  claro. Eu reconheo que isso est 
deixando muita gente nervosa. - Um sorriso amargo torceu sua boca enviesada. - Ah, se tem uma coisa que detesto - murmurou ele, mais para si mesmo do que para Harry, 
e seu olho mgico se fixou no canto inferior esquerdo do mapa -  um Comensal da Morte que continuou em liberdade...
        Harry encarou o professor. Seria possvel que Moody estivesse
dizendo o que Harry achava que estava dizendo?
        -        E agora sou eu que quero fazer a voc uma pergunta, Potter - disse Moody, num tom mais profissional.
        Harry sentiu o corao encolher; tinha achado que aquilo no iria demorar. Moody ia perguntar onde ele arranjara o mapa, que era um objeto mgico muito duvidoso 
- e a histria de como o mapa viera ter s suas mos incriminava no somente a ele, mas ao seu prprio pai, a Fred e Jorge Weasley e ao
Prof. Lupin, seu professor
anterior de Defesa contra as Artes das Trevas. Moody agitou o mapa diante de Harry, que se preparou...
        -        Posso pedir isso emprestado?
        -        Ah! - exclamou Harry. Gostava muito do mapa, mas, por outro lado, sentia-se extremamente aliviado de que Moody no estivesse perguntando onde o 
obtivera e no havia dvida de que ele ficara devendo um favor ao professor. - Claro, tudo bem.
        -        Bom menino - rosnou Moody. - Posso fazer bom uso disso... pode ser exatamente do que eu estava precisando... certo, para a
cama, Potter, vamos, agora...
        Os dois subiram juntos a escada, Moody ainda examinando o mapa como se fosse um tesouro como ele jamais vira igual. Seguiram em silncio at a porta da sala 
de Moody, onde o professor parou e encarou Harry.
        -        Voc j pensou em seguir a carreira de auror, Potter?
        -        No - respondeu Harry surpreso.
        -        Devia pensar nisso - disse Moody, acenando a cabea e
mirando Harry pensativo. - Sem dvida devia... e incidentalmente... estou achando que voc no estava simplesmente levando esse
ovo para passear hoje  noite?
#379
        -        Hum... no - respondeu Harry sorrindo. - Estive tentando decifrar a pista.
        Moody piscou para o garoto, seu olho mgico endoidando
outra vez.
        - Nada como um passeio noturno para se ter idias, Potter... vejo voc amanh de manh... - E entrando na sala, voltou sua
ateno para o Mapa do Maroto e fechou a porta ao passar.
        Harry caminhou lentamente at a Torre da Grifinria, perdido em pensamentos sobre Snape, Crouch e o que significava tudo aquilo... Por que Crouch estava
fingindo estar doente, se podia vir a Hogwarts quando quisesse? Que  que ele achava que Snape estava ocultando no escritrio?
        E Moody achando que ele, Harry, devia ser auror! Que idia interessante... mas quando Harry se enfiou silenciosamente em sua cama de colunas, dez minutos
mais tarde, o ovo e a capa j guardados em segurana em seu malo, por alguma razo ele achou que gostaria de ver se os outros aurores tambm eram cheios de cicatrizes,
antes de escolher essa carreira.
#380

*****


- CAPTULO VINTE E SEIS -
A segunda tarefa


- Voc disse que j tinha decifrado a pista daquele ovo! - exclamou Hermione indignada.
        -        Fala baixo! - disse Harry aborrecido. - S preciso... dar uns retoques, t bem?
        Ele, Rony e Hermione estavam no fundo da classe de Feitios dividindo uma mesa. Deviam estar praticando o oposto do Feitio Convocatrio - o Feitio Expulsrio. 
Em vista do elevado potencial de acidentes graves, pois os objetos no paravam de voar pela sala, o Prof. Flirwick entregara a cada aluno uma pilha de almofadas 
com as quais praticarem, baseado na teoria de que no machucariam ningum se errassem o alvo. Era uma boa teoria, mas no estava funcionando muito bem. A mira de 
Neville era to ruim, que a toda hora ele atirava acidentalmente pela sala objetos bem mais pesados - o Prof. Flirwick, por exemplo.
        -        Esqueam o ovo um minuto, est bem? - sibilou Harry, quando o professor passou voando resignadamente e foi aterrissar no alto de um grande armrio. 
- Estou tentando contar a vocs sobre o Snape e o Moody...
        Essa aula era ideal para disfarar uma conversa particular, porque todos se divertiam demais para dar ateno ao que eles faziam. Harry passou a ltima meia 
hora narrando suas aventuras aos cochichos e em prestaes.
        -        Snape disse que Moody tinha revistado a sala dele tambm?
- sussurrou Rony, seus olhos brilhando de interesse enquanto usava a varinha para expulsar uma almofada (ela subiu no ar e derrubou o chapu de Parvati). - Qu?... 
ento voc acha que o
Moody est aqui para ficar de olho no Snape e no Karkaroff?
        -        Bem, no sei se foi isso que Dumbledore pediu a ele para fazer, mas no tenho dvida de que  isso que ele est fazendo -
#381
disse Harry agitando a varinha sem prestar muita ateno, ao que sua almofada executou uma estranha cambalhota antes de se erguer da mesa. - Moody falou que Dumbledore
s deixa o Snape continuar aqui porque est dando a ele uma segunda chance ou uma coisa assim...
        -        Qu? - exclamou Rony, arregalando os olhos, e sua almofada seguinte rodopiou bem alto no ar, rcochereou no lustre e caiu pesadamente sobre a escrivaninha 
de Flitwick. - Harry... vai ver Moody acha que foi Snape quem ps o seu nome no Clice de Fogo!
        - Ah, Rony - disse Hermione, sacudindo a cabea ceticamente -, j achamos que Snape estava tentando matar o Harry e acabou que estava tentando salvar a vida 
dele, lembra?
        Hermione expulsou uma almofada que saiu voando pela sala e arerrissou dentro da caixa para a qual todos deviam estar mirando. Harry olhou para a amiga, pensando... 
era verdade que Snape uma vez salvara sua vida, mas o estranho era que Snape decididamente o detestava, da mesma forma que detestara o pai de Harry quando frequentaram 
a escola juntos. Snape adorava descontar pontos de Harry e certamente jamais perdera uma oportunidade de castig-lo ou at de sugerir que ele fosse suspenso da escola.
        -        No importa o que Moody diz - continuou Hermione -, Dumbledore no  burro. Teve razo em confiar no Hagrid e no Prof. Lupin, mesmo que um monte 
de gente no quisesse dar emprego aos dois, ento por que no estaria certo a respeito de Snape, mesmo que Snape seja um pouco...
        -        ... maligno - completou Rony prontamente. - Ora vamos, Hermione, ento por que todos esses captores de bruxos das trevas
esto revistando a sala dele?
        -        Por que o Sr. Crouch est fingindo que ficou doente? - perguntou Hermione, no dando ateno a Rony. -
 meio estranho, no , que ele no consiga 
comparecer ao Baile de Inverno, mas possa vir aqui no meio da noite quando d na telha?
        -        Voc no gosta do Crouch por causa daquele elfo domstico, Winky - disse Rony, fazendo a almofada voar pela janela.
        -        Voc quer pensar que Snape est armando alguma coisa -
 disse Hermione, mandando a almofada bem no fundo da caixa.
        -        Eu s queria saber o que foi que Snape fez com a primeira
chance, se agora est na segunda - disse Harry srio, e, para sua grande surpresa, a almofada saiu voando pela sala e aterrissou bem
em cima da de Hermione.
#382

Harry, obedecendo ao desejo de Sirius de saber de qualquer coisa anormal que acontecesse em Hogwarts, lhe mandou, naquela noite, por uma coruja marrom, uma carta
explicando toda a histria da invaso da sala de Snape pelo Sr. Crouch, e a conversa entre Moody e Snape. Depois, com seriedade, voltou sua ateno para o problema 
mais urgente que tinha diante de si: como sobreviver uma hora debaixo
d"gua no dia vinte e quatro de fevereiro.
        Rony gostou da idia de usar outra vez um Feitio Convocatrio - Harry lhe falara dos
aqualungs, e Rony no via razo para o amigo no convocar um equipamento 
desses da cidade trouxa mais prxima. Hermione arrasou o plano mostrando que, no caso improvvel de Harry conseguir aprender como operar um aqualung dentro da hora 
concedida, ele certamente seria desqualificado por violar o Cdigo Internacional de Segredo em Magia - era demais esperar que nenhum trouxa visse o aqualung sobrevoando 
os campos a caminho de Hogwarrs.
        -        Claro, a soluo ideal seria voc se transfigurar em submarino ou outra coisa assim - disse ela. - Se ao menos j tivssemos dado Transformao 
Humana! Mas acho que s vamos ter essa matria no sexto ano, e o resultado pode ser catastrfico se a pessoa no souber o que est fazendo...
        - , acho que no vou gostar de andar por a com um periscpio saindo da cabea - disse Harry. - Imagino que sempre  possvel atacar algum na frente de 
Moody, e, quem sabe, ele fizesse isso por mim...
        -        Mas acho que Moody no iria deixar voc escolher a coisa em que quer ser transformado - comentou Hermione sria. - No,
acho que a sua melhor chance  usar algum feitio.
        Ento, Harry, achando que logo, logo iria tomar um cansao to grande de biblioteca que ia durar para o resto da vida,
enterrou-se mais uma vez entre os livros 
empoeirados,  procura de um fei-tio que permitisse a um ser humano sobreviver sem oxignio. Mas, embora ele, Rony e Hermione procurassem nas horas de
 #383
almoo, noites e fins de semana inteiros - embora Harry pedisse a Profa McGonagall uma permisso escrita para usar a Seo Reservada, e chegasse at a pedir ajuda
 irritvel Madame Pince, a bibliotecria que lembrava um urubu -, os garotos no encontraram nadinha que permitisse a Harry passar uma hora embaixo
d"gua e sobreviver
para contar a histria.
        Episdios j familiares de pnico estavam comeando a perturbar o garoto agora e, mais uma vez, ele sentia dificuldade de se concentrar nas aulas. O lago, 
que Harry sempre encarara como mais um elemento na paisagem dos jardins, atraa seu olhar sempre que ele se aproximava da janela de uma sala de aula, uma grande 
massa cinza-grafite de gua friissima, cujas profundezas sombrias e enregelantes comeavam a parecer distantes como a lua.
        Do mesmo jeito que acontecera antes, quando ele precisara enfrentar o Rabo-Crneo, o tempo estava correndo como se algum tivesse enfeitiado os relgios
para andarem em alta velocidade. Faltava somente uma semana para o dia vinte e quatro de fevereiro (ainda havia tempo)... faltavam cinco dias (logo ele ia achar 
alguma coisa)... faltavam trs dias (por favor, tomara que eu ache alguma coisa... por favor...).
        Faltando apenas dois dias, .Harry comeou a perder o apetite. A nica coisa boa do caf da manh de segunda-feira foi o regresso da coruja marrom que ele 
enviara a Sirius. Harry soltou o pergaminho, desenrolou-o e viu a menor carta que o padrinho j lhe escrevera.

Mande dizer a data do prximo fim de semana em Hogsmeade
pela mesma coruja.

Harry virou e revirou o pergaminho, e olhou o verso na esperana
de ver mais alguma coisa, mas estava em branco.
        -        Sem ser este, o prximo fim de semana - cochichou Hermione, que lera a carta por cima do ombro de Harry. - Toma aqui
a minha pena e manda logo essa coruja de volta.
        O        garoto rabiscou a data no verso da carta de Sirius, amarroua na perna da ave e observou-a levantar vo. Que  que ele tinha esperado? Conselhos 
para sobreviver debaixo d"gua? Estivera to
preocupado em contar a Sirius o que havia acontecido entre Snape
e Moody, que se esquecera completamente de mencionar a pista
do ovo.
#384
        -        Para que  que ele quer saber a data do prximo fim de semana de Hogsmeade? - perguntou Rony.
        -        No sei - respondeu Harry sem emoo. A felicidade momentnea que lampejara em seu peito ao ver a coruja se apagara. - Vamos... Trato das Criaturas 
Mgicas.
        Fosse porque Hagrid estava tentando compensar o fiasco dos explosivins ou porque agora s restavam dois bichos, ou ainda porque ele estava tentando provar 
que era capaz de fazer tudo que a Profa Grubbly-Plank fazia, o fato  que ele deu continuidade s aulas dela sobre unicrnios, desde sua volta ao trabalho. Os alunos 
ficaram sabendo que Hagrid conhecia tanto a respeito de unicrnios quanto de monstros, embora ficasse evidente que parecia desapontado que os bichos no tivessem 
presas envenenadas.
        Para hoje, ele conseguira capturar dois filhotes de unicrnio. Ao contrrio dos animais adultos, estes eram absolutamente dourados. Parvati e Lil tiveram 
arroubos de prazer ao v-los, e at Pansy Parkinson teve que se esforar para esconder o quanto gostava dos filhotes.
        -        Mais fceis de localizar que os adultos - disse Hagrid  turma. - Eles ficam prateados
a pelos dois anos de idade e ganham chifres por volta dos 
quatro. S ficam branco-puro quando atingem a idade adulta, a pelos sete anos. So um pouco mais confiantes quando filhotes... no se incomodam tanto com os garotos... 
vamos, cheguem mais perto para poderem fazer carinho neles se quiserem... dem a eles alguns torres de acar...
        -        Voc est bem, Harry? - murmurou Hagrid, afastando-se um pouco para o lado, enquanto a maioria dos alunos se aglomerava em torno dos bebs-unicrnios.
-T.
        -        S nervoso, no ?
        -        Um pouco.
        -        Harry - disse Hagrid, fechando a mo macia no ombro do garoto, fazendo seus joelhos cederam sob aquele peso -, estive preocupado antes de ver voc
enfrentar aquele Rabo-Crneo, mas agora sei que est  altura. Voc vai se dar bem. J decifrou a nova pista, no?
        Harry confirmou com a cabea mas, ao fazer isso, se apoderou
dele uma vontade louca de confessar que no tinha a menor idia
como iria sobreviver no fundo do lago durante uma hora. Ele
ergueu os olhos para Hagrid - quem sabe o amigo precisava entrar no lago algumas vezes para cuidar das criaturas que viviam l? Afinal, ele cuidava de todo o resto
na propriedade...
        -        Voc vai vencer - rosnou Hagrid, dando mais algumas palmadinhas no ombro de Harry que chegou a sentir que afundara alguns centmetros no cho lamacento.
- Sei disso. Posso at sentir. Voc vai vencer, Harry.
        Harry simplesmente no teve coragem de apagar o sorriso feliz e confiante do rosto de Hagrid. Fingindo que estava interessado nos filhotes de unicrnio,
forou um sorriso para o amigo e se adiantou para acariciar os animais com os colegas.
#385
Na noite que antecedeu a segunda tarefa, Harry j se sentia como se estivesse paralisado por um pesadelo. Tinha plena consciencia que se conseguisse, mesmo por milagre,
encontrar um feitio que servisse, seria um trabalho de Hrcules aprend-lo da noite para o dia. Como podia ter deixado isto acontecer? Por que no comeara a trabalhar 
na pista do ovo mais cedo? Por que deixara seus pensamentos vagarem durante as aulas - e se um professor tivesse mencionado como respirar debaixo
d"gua?
        Ele, Rony e Hermione estavam sentados na biblioteca quando o sol se ps l fora, virando febrilmente pginas e mais pginas de feitios, escondidos um do
outro por pilhas macias de livros em cima das mesas de cada um. O corao de Harry dava um enorme salto cada vez que ele via a palavra "gua" em uma pgina, mas
um nmero bem maior de vezes era apenas "Mea um litro de gua, duzentos e
cinquenta gramas de folhas de mandrgora picadas e pegue um trito..."
        -        Acho que no  possvel - disse a voz de Rony do lado oposto da mesa. - No tem nada. Nadinha. O mais prximo que chegamos foi aquela coisa para 
secar poas e poos, aquele Feitio Secante, mas nem de longe teria potncia para secar o lago.
        -        Tem que haver alguma coisa - murmurou Hermione, trazendo uma vela para mais perto. Seus olhos estavam to cansados que
ela estava lendo as lerrinhas midas de Feitios e encantos cados no
olvido com o nariz a dois centmetros da pgina. - Nunca teriam
proposto uma tarefa que fosse invivel.
        -        Pois propuseram - disse Rony. - Harry, amanh, v at o
#386
lago, meta a cabea dentro dele e grite para os sereianos devolverem o que afanaram, e v se eles mandam a coisa de volta.
 o melhor que voc tem a fazer, companheiro.
        -        Existe uma maneira de fazer! - disse Hermione zangada. - Simplesmente tem que existir!
        Ela parecia estar tomando como ofensa pessoal o fato de a
biblioteca no ter informaes teis sobre o assunto; a biblioteca
jamais lhe falhara antes.
        -        Eu sei o que deveria ter feito - disse Harry, descansando a cabea sobre o livro Truques marotos para marotos de truz. - Eu devia
ter aprendido a virar um animago como Sirius.
        -        , voc poderia se transformar num peixinho dourado sempre que quisesse! - exclamou Rony.
        -        Ou num sapo - bocejou Harry. Estava exausto.
        -        Leva anos para algum virar um animago, depois ele tem que se registrar e tudo o mais - disse Hermione vagamente, agora espremendo os olhos para 
ler o ndice de Estranhos dilemas da magia e suas solues. - A Profa McGonagall falou para a gente, lembram... a pessoa tem que se registrar na Seo de Preveno 
do Uso Indevido da Magia... dizer em que animal se transforma, quais as marcas caractersticas, por isso no pode abusar...
        -        Mione, eu estava brincando - disse Harry exausto. - Eu sei que no tenho a menor chance de me transformar em sapo at
amanh de manh...
        -        Ah, isto aqui no adianta nada - exclamou Hermione, fechando o livro com violncia. - Quem  que vai querer que os
plos do nariz cresam em cachinhos?
        -        Eu no me importaria - disse a voz de Fred Weasley. - Seria um grande tpico para estimular conversas, no acham no?
        Harry, Rony e Hermione levantaram a cabea. Fred e Jorge
tinham acabado de sair de trs de umas estantes.
        -        Que  que vocs dois esto fazendo aqui? - perguntou Rony.
        -        Procurando vocs - disse Jorge. - McGonagall quer ver voc, Rony. E voc Mione.
        -        Por qu? - perguntou a garota, parecendo surpresa.
        -        Sei l... mas estava com a cara meio fechada - informou Fred.
        -        Disse que era para levarmos vocs  sala dela - disse Jorge.
        Rony e Hermione olharam para Harry, que sentiu o estmago despencar. Ser que a Profa McGonagall ia brigar com Mione e
#387
Rony? Talvez ela tivesse notado que os dois o estavam ajudando  bea, quando ele devia estar procurando sozinho uma soluo para realizar a tarefa?
        - Encontramos voc na sala comunal - disse Hermione a Harry, ao se levantar para acompanhar Rony, os dois pareciam
muito ansiosos. - Leva o maior nmero de livros que puder, OK.?
        - OK. - disse Harry inquieto.
        L pelas oito horas, Madame Pince apagara as luzes e apareceu para expulsar Harry da biblioteca. Cambaleando sob o peso do maior nmero de livros que pde 
carregar, Harry voltou  sala comunal da Grifinria, puxou uma mesa para um canto e continuou a busca. No havia nada em Mgicas malucas para bruxos doides... nada 
em Um guia para a flitiaria medievaL., para no mencionar as proezas submarinas na Antologia de feitios do sculo XVIII, ou em Habitantes medonhos das profindezas 
ou Poderes que voc desconhecia possuir e o que fazer com eles agora que os descobriu.
        Bichento subiu ao colo de Harry e se enroscou ronronando profundamente. A sala comunal foi se esvaziando aos poucos a volta de Harry. As pessoas no paravam 
de lhe desejar boa sorte para a manh seguinte, com vozes animadas e confiantes como a de Hagrid, todos aparentemente convencidos de que ele estava prestes a fazer 
outra fantstica demonstrao como a da primeira tarefa. Harry no conseguia responder aos colegas, simplesmente acenava com a cabea, com a sensao de que havia 
uma bola de golfe entalada em sua garganta. Por volta da meia-noite, ele ficou sozinho na sala com Bichento. Procurara em todos os livros restantes e Rony e Hermione 
no tinham voltado.
        Terminou tudo, disse ele a si mesmo. Voc no vai dar conta.
Simplesmente ter que ir at o lago de manh e dizer aos juizes...
        Imaginou-se explicando que no seria capaz de executar a tarefa. Visualizou os olhos de Bagman arregalados de surpresa, o sorriso cheio de dentes amarelos 
de Karkaroff expressando sua satisfao. Conseguiu at ouvir Fleur Delacour comentar: "Eu sabia... ele jvan demais,  apenes uma crriana. "Ele viu Malfoy fazendo 
o distintivo POTTER FEDE lampejar sentado bem na frente dos espectadores, viu o rosto incrdulo e cabisbaixo de Hagrid...
Esquecido de que Bichento estava em seu colo, Harry se levantou muito de repente; o gato bufou zangado ao aterrissar no cho,
lanou ao garoto um olhar de desagrado e se retirou com o rabo de
#388
escova de garrafa no ar, mas Harry j ia correndo escada acima para o dormitrio... apanharia a Capa da Invisibilidade e voltaria  biblioteca, ficaria l a noite
inteira se fosse preciso...
        -        Lumus - sussurrou ele quinze minutos depois, ao abrir a porta da biblioteca.
        A ponta da varinha acesa, ele andou ao longo das estantes, apanhando mais livros - livros de azaraes e feitios, livros sobre seretanos e monstros aquticos, 
livros sobre bruxas e bruxos famosos, sobre invenes mgicas, sobre qualquer coisa que pudesse incluir uma referncia passageira  sobrevivncia debaixo
d"gua. 
Carregou-os para uma mesa, ento ps mos  obra, examinando-os com o feixe de luz fino de sua varinha, ocasionalmente consultando seu relgio...
        Uma hora da manh... duas horas... a nica maneira de continuar era dizer a si mesmo, repetidamente: Prximo livro... noprximo... no prximo...


A sereia no quadro do banheiro dos monitores-chefes estava dando risadas. Harry flutuava como uma rolha na gua borbulhante prximo ao rochedo do quadro, enquanto
ela agitava a Firebolt dele na mo.
        -        Venha busc-la! - riu a sereia maliciosamente. - Anda, salta!
        -        No posso - ofegou Harry, tentando arrebatar a Firebolt ao mesmo tempo que lutava para no afundar. - Me d a vassoura!
        Mas a sereia apenas o cutucava dolorosamente do lado do
corpo com o cabo da vassoura, caoando dele.
        -        Isso di, sai para l, ai...
        -        Harry Potter precisa acordar, meu senhor!
        -        Pra de me cutucar...
        -        Dobby tem que cutucar Harry Potter, meu senhor, ele tem que acordar!
        Harry abriu um olho. Ainda estava na biblioteca; a Capa da Invisibilidade escorregara de sua cabea e ele adormecera, e um lado do seu rosto estava colado
na pgina de Onde h uma varinha, h uma sada. Ele se sentou, ajeitou os culos, piscando para a
        intensa claridade do dia.
        -        Harry Potter precisa se apressar! - guinchou Dobby. - A segunda tarefa vai comear dentro de dez minutos e Harry Potter...
#389
        -        Dez minutos? - grasnou Harry. - Dez... dez minutos?
Ele olhou para o relgio de pulso. Dobby tinha razo. Eram
nove e vinte. Um enorme peso morto pareceu escorregar do peito
de Harry para o seu estmago.
        -        Depressa, Harry Potter! - guinchou Dobby, puxando a manga do garoto. - O senhor devia estar l embaixo no lago como os
outros campees, meu senhor!
        -        Tarde demais, Dobby - disse Harry sem esperanas. - No vou fazer a tarefa, no sei como...
        -        Harry Potter vai fazer a tarefa! Dobby soube que Harry no encontrou o livro certo, ento Dobby encontrou para ele!
        -        Qu? - exclamou Harry. - Mas voc no sabe qual  a segunda tarefa...
        -        Dobby sabe, meu senhor! Harry Potter tem que entrar no lago e procurar o
Wheezy dele...
        -        Procurar o meu o qu?
        -        ... e recuperar o Wheezy dele que est com os sereianos!
        -        O que  um Wheezy?
        -        O seu Wheezy, meu senhor, o seu Wheezy, Wheezy que d a Dobby o suter!
Dobby deu uns puxes no suter marrom, que fora encolhido,
e que ele estava usando por cima dos cales.
        -        Qu!- ofegou Harry. - Eles esto... eles esto com o Rony?
        -        A coisa que mais far falta a Harry Potter, meu senhor! - guinchou Dobby. - Mas passada a hora...
        -        adeus esperana de achar - recitou Harry, arregalando os olhos para o elfo, horrorizado. - Tarde demais, foi-se, jamais voltara... Dobby, o que
 que eu tenho que fazer?
        -        O senhor tem que comer isto, meu senhor! - guinchou o elfo, e levando a mo ao bolso dos cales retirou uma bola que parecia feita de rabos de
rato, viscosos e verde-acinzentados. - Na hora em que for entrar no lago, meu senhor...
guelricho!
        -        Que  que isso faz? - perguntou Harry olhando para a erva.
        -        Vai fazer Harry Potter respirar embaixo d"gua, meu senhor!
        -        Dobby - disse Harry histrico -" escuta aqui, voc tem certeza?
        O        garoto no esquecera de todo que a ltima vez que Dobby tentara "ajud-lo", ele acabara sem ossos no brao direito.
#390
        -... Absoluta certeza, meu senhor! - disse o elfo srio.
Bobby escuta coisas, meu senhor, ele  um elfo domstico, anda por todo o castelo quando
acende as lareiras e limpa os pisos. Dobby ouviu a Profa McGonagall e o Prof. Moody na sala de professores, conversando sobre a prxima tarefa... Dobby no pode
deixar Harry Potter perder o Wheezy dele!
        As dvidas de Harry desapareceram. Pondo-se em p de um salto, ele despiu a Capa da Invisibilidade, guardou-a na mochila, agarrou o guelricho, enfiou-o no
bolso e saiu correndo da biblioteca com Dobby nos calcanhares.
        -        Dobby devia estar na cozinha, meu senhor! - guinchou o elfo quando desembestavam pelo corredor. - Vo dar falta de
        Dobby, boa sorte, Harry Potter, meu senhor, boa sorte!
        -        Vejo voc depois, Dobby! - gritou Harry, e saiu desembalado pelo corredor, descendo as escadas trs degraus de cada vez.
        No saguo de entrada havia uns poucos retardatrios, todos saindo do Salo Principal depois do caf em direo s portas duplas de carvalho da entrada, para
ir assistir  segunda tarefa. Ficaram olhando Harry passar correndo e mandar Colin e Dnis Creevey pelo ar ao saltar os degraus de acesso aos jardins ensolarados
e frios.
        Enquanto corria pelos gramados, viu que as arquibancadas que tinham rodeado o picadeiro dos drages em novembro agora estavam dispostas ao longo da margem
oposta do lago, quase explodindo de to lotadas, e que se refletiam nas guas embaixo; a algazarra excitada dos espectadores ecoava estranhamente pela superfcie
das guas enquanto Harry corria pela outra margem do lago em direo aos juizes, sentados a uma mesa coberta com tecido dourado. Cedrico, Fleur e Krum estavam parados
ao lado da mesa, observando Harry se aproximar correndo.
        -        Estou... aqui... - ofegou Harry, derrapando na lama ao parar e, acidentalmente, sujando as vestes de Fleur.
        -        Onde  que voc esteve? - disse uma voz autoritria censurando-o. - A tarefa vai comear.
        Harry olhou para os lados. Percy Weasley estava sentado 
        mesa dos juizes - o Sr. Crouch mais uma vez no comparecera.
        -        Ora, vamos, Percy! - disse Ludo Bagman, que parecia extremamente aliviado de ver Harry. - Deixe-o recuperar o flego!
        Dumbledore sorriu para Harry, mas Karkaroff e Madame Maxime no pareceram nem um pouco satisfeitos de v-lo... Era
#391
bvio, pela expresso dos seus rostos, que tinham pensado que o campeo no ia aparecer.
        Harry dobrou o corpo, as mos nos joelhos, procurando respirar; sentia uma pontada do lado do corpo que lhe dava a sensao de ter uma faca enfiada nas costelas,
mas no havia tempo para se livrar dela; Ludo Bagman agora andava entre os campees, espaando-os pela margem a intervalos de trs metros. Harry ficou bem no fim
da fila, ao lado de Krum, que estava de cales de banho e segurava a varinha em posio.
        - Tudo bem, Harry? - sussurrou Bagman, afastando Harry um pouco mais de Krum. - Sabe o que  que tem de fazer?
        - Sei - ofegou o garoto, massageando as costelas.
        Bagman lhe deu um breve aperto no ombro e voltou  mesa dos juizes; depois apontou a varinha para a prpria garganta como fizera na Copa Mundial, disse "Sonorus!"
e sua voz reboou sobre as guas escuras at as arquibancadas.
        - Bem, os nossos campees esto prontos para a segunda tarefa, que comear quando eu apitar. Eles tm exatamente uma hora para recuperar o que foi tirado
deles. Ento, quando eu contar trs. Um... dois... trs!
        O apito produziu um som agudo no ar frio e parado; as arquibancadas explodiram em vivas e palmas; sem se virar para ver o que os outros campees estavam
fazendo, Harry descalou os sapatos e as meias, tirou um punhado de guelricho do bolso, meteu-o na boca e entrou no lago.
        O lago estava to frio que ele sentiu a pele das pernas arder como se estivesse no fogo e no na gua,  medida que ele foi se aprofundando no lago; agora
a gua lhe batia pelos joelhos, e seus ps, que rapidamente perdiam a sensibilidade, escorregavam pelo lodo e as pedras chatas e limosas. Harry mastigou o guelricho
com mais fora e pressa que pde; era borrachudo e viscoso como tentculos de polvo. Com a gua glida pela cintura ele parou, engoliu a erva e esperou que alguma
coisa acontecesse.
        Ouviu os espectadores rirem e concluiu que devia estar com
        cara de idiota, entrando no lago sem dar sinal algum de poder
mgico. A parte do seu corpo ainda seca se encheu de arrepios; semi-
imerso na gua gelada, uma brisa impiedosa levantando seus cabelos, Harry Potter comeou a tremer violentamente. Evitou olhar
#392
para as arquibancadas; as risadas estavam mais altas e ele ouvia assovios e vaias de alunos da Sonserina...
        Ento, inesperadamente, Harry teve a sensao de que uma almofada invisvel estava cobrindo sua boca e seu nariz. Ele tentou respirar, mas isto fez sua cabea 
girar; seus pulmes se esvaziaram e ele sentiu uma dor sbita e lancinante dos dois lados do pescoo...
        Harry levou as mos  garganta e sentiu duas grandes aberturas abaixo das orelhas abanando no ar frio... ganhara guelras. Sem parar para pensar, ele fez 
a nica coisa que lhe pareceu ajuizada - se atirou no lago.
        O primeiro gole de gua gelada do lago lhe pareceu um sopro de vida. Sua cabea parou de girar; ele tomou mais um gole e sentiu-o passar suavemente pelas 
guelras e bombear oxignio para o seu crebro. Ele estendeu as mos para a frente e olhou-as. Pareciam verdes e fantasmagricas debaixo
d"gua e haviam nascido membranas 
entre os dedos. Ele se contorceu para ver os ps descalos - tinham se alongado e igualmente ganho membranas; parecia tambm que saam nadadeiras do seu corpo.
        A gua no parecia mais gelada, tampouco... pelo contrrio, se tornara agradavelmente fresca e muito leve... Harry recomeou a bracejar, admirando-se como
seus ps com nadadeiras o impeliam pela gua e registrando que estava enxergando com muita clareza e no sentia mais necessidade de piscar. Logo nadara uma distncia 
to grande em direo ao meio do lago que deixara de ver seu leito. Deu uma cambalhota e mergulhou em suas profundezas.
        O silncio pesou em seus ouvidos ao nadar por uma paisagem estranha, escura e enevoada. S conseguia ver trs metros ao redor, por isso  medida que se deslocava 
novos cenrios pareciam surgir repenrnamente da escurido  sua frente; florestas ondulantes de plantas emaranhadas e escuras, extenses de lodo coalhadas de pedras 
lisas e brilhantes. Ele nadava cada vez mais para o fundo e para o centro do lago, os olhos abertos, espiando, atravs da misteriosa claridade cinzenta que iluminava 
as guas, rumando para as sombras alm, em que as guas se tornavam opacas.
        Pequenos peixes passavam velozes por ele como flechas prateadas. Uma ou duas vezes ele viu um vulto maior nadando mais
        -        adiante, mas quando se aproximou, descobriu que era apenas um
                grande tronco enegrecido ou uma moita densa de plantas. No viu
#393
sinal algum dos outros campees, nem dos sereianos, nem de Rony
-        nem, graas a Deus, da lula gigante.
        Plantas verde-claras se estendiam  sua frente at onde sua vista podia alcanar, como um prado coberto de relva muito crescida. Harry olhava para a frente 
sem piscar, tentando discernir as formas na obscuridade... e ento, sem aviso, alguma coisa agarrou seu tornozelo.
        Harry se virou e viu um grindylow, um pequeno demnio aqutico de chifres, que saa do meio das plantas, seus dedos compridos apertando a perna de Harry, 
as presas pontiagudas  mostra
- o garoto enfiou a mo palmada depressa dentro das vestes e procurou a varinha, at conseguir apanh-la, mais dois grindylows tinham emergido das plantas, agarrado 
as vestes de Harry e tentavam arrast-lo para o fundo.
        - Relaxo! - disse ele, s que no produziu som algum... uma grande bolha saiu de sua boca, e sua varinha, em vez de atirar fascas contra os grindylows, 
golpeou-os com algo que pareceu um jato de gua fervendo, pois onde os atingiu surgiram manchas muito vermelhas em sua pele verde. Harry livrou o tornozelo do aperto 
dos demnios e nadou o mais rpido que pde, ocasionalmente disparando, a esmo, mais jatos de gua quente por cima do ombro; de vez em quando ele sentia um grindylow 
prender novamente seu p e o chutava com fora; por fim, seu p fez contato com um crnio chifrudo e, olhando para trs, ele viu um grindylow se afastar boiando, 
vesgo, enquanto seus companheiros sacudiam os punhos para Harry e tornavam a submergir entre as plantas.
        Harry diminuiu um pouco a velocidade, guardou a varinha nas vestes e olhou ao redor, apurando os ouvidos. Fez uma volta completa na gua, o silncio pesava 
mais que nunca em seus tmpanos. Sabia que devia estar bem mais fundo, mas nada se mexia exceto as plantas ondulantes.
        -        Como  que voc est indo?
        Harry achou que estava tendo um ataque cardaco. Virou-se
depressa e viu a Murta Que Geme flutuando difusamente diante
dele, fitando-o atravs dos grossos culos perolados.
        - Murta! - Harry tentou gritar, porm, mais uma vez, no saiu nenhum som de sua boca, apenas uma grande bolha. A Murta Que
Geme chegou a dar risadinhas abafadas.
#394
        - Voc vai precisar experimentar para aquele lado l! - disse ela apontando. - No vou acompanhar voc... no gosto muito deles,
sempre me perseguem quando me aproximo demais...
        Harry levantou o polegar  guisa de agradecimento, e recomeou a nadar, tendo o cuidado de se colocar um pouco acima das plantas para evitar mais grindylows 
que por acaso estivessem escondidos ali.
        Ele continuou a nadar por uns vinte minutos ou assim lhe pareceu. Atravessava agora grandes extenses de lodo escuro, que redemoinhavam sujando a gua agitada 
por ele. Ento, finalmente, ouviu um trecho da msica misteriosa dos serejanos.

Uma hora inteira voc dever buscar,
Para recuperar o que lhe tiramos...

Harry nadou mais rpido e no tardou a ver um grande penhasco emergindo na gua lodosa  frente. Nele havia pinturas de sereiano:
carregavam lanas e caavam algo que parecia ser a lula gigante. Harry deixou o penhasco para trs seguindo a msica dos sereanos:

j se passou meia hora, por isso no tarde
Ou o que voc busca apodrecer aqui...

Um punhado de casas toscas de pedra, manchadas de algas, tomou forma de repente no lusco-fusco que rodeava o garoto. Aqui e ali, s janelas escuras, Harry viu rostos... 
rostos que no tinham qualquer semelhana com o quadro da sereia no banheiro dos monitores-chefes...
        Os sereianos tinham peles cinzentas e longos cabelos desgrenhados e verdes. Seus olhos eram amarelos, como seus dentes quebrados, e eles usavam grossas cordas 
de seixos ao pescoo. Lanaram olhares desconfiados quando Harry passou. Um ou dois saram das tocas para examin-lo melhor, seus fortes rabos de peixe prateados 
golpeando a gua; as lanas nas maos.
        Harry continuou a nadar veloz, olhando para os lados, e logo as casas se tornaram mais numerosas: havia jardins de folhagens ao redor de algumas, e ele chegou 
a ver um grindylow amarrado a uma estaca do lado de fora de uma porta. Os sereianos apareciam por todos os lados agora, observando-o ansiosos, apontando para suas
mos palmadas e guelras, falando entre si, com a mo encobrindo a boca. Harry virou um canto e deparou com uma cena estranha.
#395
        Um grande nmero de sereianos flutuava diante de casas enfileiradas que pareciam uma verso local de uma praa de povoado. Um coro cantava no centro, chamando
os campees e, por trs, erguia-se uma esttua tosca; um gigantesco sereiano esculpido em um pedregulho. Quatro pessoas estavam firmemente amarradas  cauda da esttua.
        Rony estava amarrado entre Hermione e Cho Chang. Havia ainda uma garota que no aparentava ter mais de
oito anos e cujas nuvens de cabelos prateados deu
a Harry a certeza de que era irm de Fleur Delacour. Os quatro pareciam profundamente adormecidos. Suas cabeas balanavam molemente sobre os ombros e um fluxo contnuo 
de pequenas bolhas saa de suas bocas.
        Harry correu em direo aos refns, meio que esperando os seretanos baixarem as lanas para o atacarem, mas eles nada fizeram. As cordas que atavam os refns 
 esttua eram grossas, viscosas e muito fortes. Por um instante fugaz ele pensou no canivete que Sirius lhe presenteara no Natal - guardado em seu malo no castelo 
a uns quatrocentos metros de distncia, no tinha a menor utilidade.
        Harry olhou ao redor. Muitos sereianos que cercavam os refns seguravam lanas. O garoto nadou rpido para um deles, com uns dois metros de altura, uma longa 
barba verde e uma gargantilha de dentes de tubaro, e tentou, por meio de mmica, pedir a lana emprestada. O sereiano riu e sacudiu a cabea.
        - No ajudamos - disse ele numa voz spera e rouca.
        - Ora VAMOS! - disse Harry com ferocidade (mas apenas bolhas saram de sua boca), e ele tentou tirar a lana do sereiano,
que a puxou para si, ainda sacudindo a cabea e rindo.
        Harry deu uma volta completa no corpo, olhando. Alguma
coisa afiada, qualquer coisa...
        Havia muitas pedras no leito do lago. Ele mergulhou e apanhou uma de aspecto afiado e voltou  esttua. Comeou, ento, a golpear a corda que prendia Rony 
e, depois de algunp minutos de esforo, elas se romperam. Rony flutuou, inconsciente a alguns centmetros do leito do lago, acompanhando o movimento da gua.
        Harry correu o olhar  volta. No viu sinal dos outros cam
 pees. De que  que estavam brincando? Por que no se apressavam? Ele se virou para Hermione,
ergueu a pedra afiada e comeou
a golpear as cordas dela tambm...
#396
        Na mesma hora, vrios pares de fortes mos cinzentas o seguraram. Meia dzia de sereanos comearam a afast-lo de Hermione, balanando as cabeas de cabelos
verdes e dando risadas.
        - Voc leva o seu refm - disse um deles. - Deixe os outros...
        - Nem pensar! - respondeu Harry indignado, mas apenas duas bolhas saram de sua boca.
        - Sua tarefa  resgatar o seu amigo... deixe os outros...
        - Ela  minha amiga, tambm! - berrou Harry, gesticulando em direo a Hermione, uma enorme bolha prateada desprendendo-se silenciosamente dos seus lbios. 
- E tampouco quero que os outros morram!
        A cabea de Cho descansava no ombro de Hermione; a garotinha de cabelos prateados parecia plida e fantasmagoricamente esverdeada. Harry lutou para afastar 
os sereianos, mas eles riam com mais vontade que nunca, empurrando-o para trs. O garoto olhou alucinado para os lados. Onde estavam os outros campees? Ser que 
ele teria tempo de levar Rony at a superfcie e voltar para buscar Hermione e as outras? Ser que ele conseguiria encontr-las de novo? Consultou o relgio para 
ver quanto tempo lhe sobrava - o relgio parara de trabalhar.
        Mas, ento, os sereianos que o rodeavam comearam a apontar excitados para alguma coisa acima da cabea dele. Harry ergueu os olhos e viu Cedrico nadando 
em direo ao grupo. Havia uma enorme bolha em torno de sua cabea, que fazia suas feies parecerem estranhamente largas e esticadas.
        - Me perdi! - disse ele silenciosamente, com uma expresso de pnico. - Fleur e Krum esto vindo agora!
        Sentindo-se imensamente aliviado, Harry viu Cedrico puxar
uma faca do bolso e libertar Cho. Ele a puxou para cima e desapareceu de vista.
        Harry olhou para os lados, aguardando. Onde estavam Fleur e
Krum? O tempo ia se esgotando e, segundo a msica, os refns
jamais voltariam...
        Os sereianos comearam a guinchar excitados. Os que seguravam Harry afrouxaram o aperto, olhando para trs. Harry se virou e viu algo monstruoso cortando 
as guas em direo a eles: um corpo humano de cales de banho com uma cabea de tubaro... Era Krum. Parecia ter se transformado - mas de maneira incompleta.
#397
        O        homem-tubaro nadou direto para Hermione e comeou a puxar e a morder as cordas que a prendiam; o problema  que os novos dentes de Krum estavam
posicionados de forma imprpria para morder qualquer coisa menor do que um golfinho, e Harry tinha quase certeza de que se Krum no tivesse cuidado, ia cortar Hermione 
ao meio. Correndo para ele, Harry bateu com fora em seu ombro e estendeu a pedra afiada. Krum agarrou-a e comeou a libertar Hermione. Em segundos, ele terminou; 
agarrou Hermione pela cintura e, sem ao menos olhar para trs, comeou a subir rapidamente com a garota para a superfcie.
        "E agora?", pensou Harry desesperado. Se ele pudesse ter certeza de que Fleur estava a caminho... Mas no havia nem sinal.
No havia jeito...
        Ele agarrou a pedra que Krum largara, mas os sereianos voltaram a se aproximar de Rony e da
garotinha, balanando a cabea
para Harry.
        O garoto puxou a varinha.
        - Saiam da frente!
        Somente bolhas voaram de sua boca, mas ele teve a ntida impresso de que os sereianos o haviam entendido, porque subitamente pararam de rir. Seus olhos
amarelos se fixaram na varinha de Harry e eles revelaram medo. Eram muitos e Harry era apenas um, mas o garoto percebeu, pela expresso dos seus rostos, que os sereanos 
conheciam tanta magia quanto a lula gigante.
        - Vocs tm at trs! - gritou Harry; um grande jorro de bolhas saiu de sua boca, e ele ergueu trs dedos para ter certeza de que os sereianos tinham entendido 
a mensagem. "- Um... - (ele ergueu um dedo) - dois... - (ergueu o segundo)...
        Eles se dispersaram. Harry se adiantou depressa e comeou a golpear as cordas que prendiam a garotinha  esttua; e finalmente libertou-a. Ele a agarrou 
pela cintura, agarrou a gola das vestes de Rony e deu impulso para a superfcie.
        Foi uma subida muito lenta. Ele j no podia usar as mos palmadas para se impulsionar; bateu as nadadeiras furiosamente, mas Rony e a irm de Fleur eram 
verdadeiros sacos de batatas que o arrastavam para o fundo... Harry firmou a vista em direo ao cu,
embora soubesse que ainda devia estar muito fundo, as guas
acima estavam to escuras...
        Os sereianos o seguiram na subida. Harry os via rodando  sua
#398
volta sem esforo, vendo-o lutar para vencer a fora das guas... ser que o puxariam de volta s profundezas quando seu tempo se esgotasse? Ser que comiam seres
humanos? As pernas de Harry se moviam lentamente com o esforo de nadar; seus ombros doam horrivelmente com o esforo de arrastar Rony e a garota...
        Ele inspirava com extrema dificuldade. Voltou a sentir a dor dos lados do pescoo... aos poucos foi se tornando consciente da umidade da gua em sua boca... 
mas decididamente a obscuridade estava raleando agora... j conseguia ver a luz do dia no alto...
        Bateu as nadadeiras com fora e descobriu que j no havia nada alm de ps... a gua entrava aos borbores em sua boca e invadia seus pulmes... ele estava 
comeando a sentir tonteira, mas sabia que a luz e o ar estavam a apenas trs metros acima... tinha que chegar l... tinha que...
        Harry sacudiu as pernas com tanta fora e rapidez que teve a sensao de que seus msculos gritavam em protesto; o prprio crebro parecia encharcado de 
gua, ele no conseguia respirar, precisava de oxignio, tinha que continuar, no podia parar...
        Ento sentiu sua cabea varar a superfcie do lago; um ar maravilhoso, frio, claro, fez seu rosto molhado arder; ele o engoliu, tendo a sensao de que jamais 
o respirara antes como devia e, ofegante, puxou Rony e a menininha com ele. A toda volta, cabeas com cabelos verdes emergiram da gua, mas sorriam para ele.
        Os espectadores nas arquibancadas faziam um estardalhao; gritavam, berravam, todos pareciam estar de p; Harry teve a impresso de que pensavam que Rony 
e a menininha poderiam estar mortos, mas tinham se enganado... os dois tinham aberto os olhos; a menina parecia apavorada e confusa, mas Rony meramente expeliu um 
grande jato de gua, piscou para a claridade, virou-se para Harry e comentou:
        -        Um bocado molhado, no? - Depois viu a irm de Fleur. - Para que foi que voc trouxe a garota?
        -        Fleur no apareceu. Eu no podia largar ela l - ofegou Harry.
        -        Harry, seu dbil - disse Rony. - Voc no levou aquela msica a srio, levou? Dumbledore no teria deixado nenhum de ns
        morrer afogado!        
        -        Mas a msica dizia...
        -        S para garantir que voc voltasse dentro do prazo dado!
#399
Espero que voc no tenha perdido tempo l embaixo bancando o heri!
        Harry se sentiu no mesmo instante idiota e chateado. Estava tudo muito bem para Rony, ele estivera adormecido, no sentira como era fantasmagrico l no
lago, cercado por sereianos armados de lanas com cara de que eram bem capazes de matar.
        -        Vamos - disse Harry com rispidez -, me ajude com a garota, acho que ela no sabe nadar muito bem.
        Os dois puxaram a irm de Fleur pela gua, at a margem, onde os juizes aguardavam de p observando-os, vinte sereanos acompanhavam os garotos como uma 
guarda de honra, cantando aquelas horrveis msicas agudas.
        Harry viu Madame Pomfrey cuidando de Hermione, Krum, Cedrico e Cho, todos enrolados em grossos cobertores. Dumbledore e Ludo Bagman estavam parados na margem, 
e sorriram para Harry e Rony quando eles se aproximaram, mas Percy, que parecia muito plido e, por alguma razo, mais jovem do que era, saiu espalhando gua ao 
encontro deles. Entrementes, Madame Maxime tentava conter Fleur Delacour, que estava muito nervosa, lutando com unhas e dentes para voltar  gua.
- Gabrielle! Gabrielle! Ela est viva? Ela est machucada?
        - Ela est tima! - Harry tentou lhe dizer, mas se sentia to exausto que mal conseguia falar, quanto menos gritar.
        Percy agarrou Rony e saiu arrastando-o para a margem ("Sai pra l, Percy, eu estou bem!"); Dumbledore e Bagman ergueram Harry; Fleur se desvencilhara de 
Madame Maxime e abraava a irm.
        -        Forram os g-rrindylows... eles me atacarron... ah, Gabrrielle, pensei... pensei...
        -        Venha aqui, voc - ouviu-se a voz de Madame Pomfrey; ela agarrou Harry e levou-o at Hermione e os outros, embrulhou-o num cobertor to apertado
que ele se sentiu preso numa camisa de fora, e empurrou uma dose de uma poo muito quente pela garganta do garoto. Saiu vapor por suas orelhas.
        - Muito bem, Harry! - exclamou Hermione. - Voc conseguiu, voc descobriu como conseguir, sozinho!
       - Bem... - disse Harry. Ele teria contado a ela sobre Dobby,
mas acabara de notar que Karkaroff o observava. Era o nico juiz
que no abandonara a mesa; o nico juiz que no dava sinais de
#        400
satisfao nem alvio que Harry, Rony e a irm de Fleur tivessem voltado sos e salvos. -
f,  verdade - disse Harry, levantando ligeiramente a voz para Karkaroff
poder ouvi-lo.
        - Voc tem um besourro-d"gua prreso nos cabelos, Hermi-nini - disse Krum.
        Harry teve a impresso de que Krum estava tentando fazer a garota voltar sua ateno para ele; talvez para lembr-la que ele acabara de resgat-la do lago,
mas Hermione sacudiu o besouro para longe com impacincia.
        -        Mas voc ultrapassou muito o tempo dado, Harry... Voc levou muito tempo para nos encontrar?
- No... encontrei vocs logo...
        A sensao de burrice de Harry foi crescendo. Agora que estava fora da gua, pareceu-lhe perfeitamente claro que as precaues de segurana tomadas por Dumbledore
no teriam permitido a morte de um refm porque o campeo no aparecera. Por que ele simplesmente no apanhara Rony e viera embora? Teria sido o primeiro a voltar... 
Cedrico e Krum no tinham perdido tempo se preocupando com mais ningum; no tinham levado a msica dos sereianos a serio...
        Dumbledore se encontrava agachado  beira da gua, absorto em conversa com algum que parecia ser o chefe dos sereianos, uma fmea parricularmente selvagem, 
de aspecto feroz. Emitia o mesmo tipo de guinchos que o de seus companheiros quando estavam embaixo da gua; era bvio que Dumbledore sabia falar seriaco. Finalmente 
ele se ergueu, virou-se para os demais juizes e disse:
        -        Acho que precisamos conversar antes de dar as notas.
        Os juizes se agruparam. Madame Pomfrey tinha ido salvar Rony dos abraos de Percy; ela o levou para onde estavam os outros garotos, deu-lhe um cobertor e 
um pouco de Poo Estimulante, depois foi buscar Fleur e a irm. Fleur tinha muitos cortes no rosto e nos braos, e suas vestes estavam rasgadas, mas ela no parecia 
se importar, nem queria deixar Madame Pomfrey trat-la.
        - Cuide da Gabrrielle - disse a garota virando-se para Harry. - Voc salvou minha irrm - disse ofegante. - Mesmo ela no sendo
        sua rrefm.        
#401
        -        Foi - disse Harry, que agora desejava de todo o corao ter deixado as garotas amarradas  esttua.
        Fleur se abaixou, beijou Harry nas duas bochechas (ele sentiu o rosto queimando e no ficaria surpreso se estivesse pondo vapor pelas orelhas outra vez),
em seguida disse a Rony:
        -        E voc, tambm... voc ajudou...
        -        Foi - disse ele parecendo extremamente esperanoso -, foi, um pouquinho...
        Fleur se curvou para ele, tambm, e o beijou. Hermione pareceu simplesmente furiosa mas, naquele instante, a voz magicamente ampliada de Ludo Bagman reboou
ao lado deles, pregando-lhes um susto e fazendo os espectadores nas arquibancadas mergulharem num grande silncio.
        -        Senhoras e senhores, j chegamos a uma deciso. A chefe dos sereianos, Murcus, nos contou exatamente o que aconteceu no fundo do lago e, portanto,
em um mximo de cinquenta, decidimos atribuir a cada campeo, as seguintes notas...
        "A Srta. Fleur Delacour, embora tenha feito uma excelente demonstrao do Feitio Cabea-de-bolha, foi atacada por grindyiows ao se aproximar do alvo e no
conseguiu resgatar sua refm. Recebeu vinte e cinco pontos."
        Aplausos das arquibancadas.
        -        Eu merrecia zerro - disse Fleur com uma voz gutural, sacudindo a magnfica cabea.
        -        O Sr. Cedrico Diggory, que tambm usou o Feitio Cabeade-bolha, foi o primeiro a voltar com a refm, embora tenha chegado um minuto depois da hora
marcada. - Ouviram-se grandes aplausos dos alunos da Corvinal entre os espectadores; Harry viu Cho lanar um olhar feio a Cedrico. - Portanto, recebeu quarenta e
sete pontos.
        O        nimo de Harry despencou. Se Cedrico ultrapassara o limite de tempo, com certeza ele fizera o mesmo.
        -        O Sr. Vtor Krum usou uma forma de transformao incompleta, mas ainda assim eficiente, e foi o segundo a voltar com a
refm. Recebeu quarenta pontos.
        Karkaroff bateu palmas com especial entusiasmo, fazendo ar
de superioridade.
        -        O Sr. Harry Potter usou guelricho com grande eficcia -
continuou Bagman. - Ele voltou por ltimo e ultrapassou em
muito o prazo de uma hora. Contudo, a chefe dos sereianos nos
informou que o Sr. Potter foi o primeiro a chegar aos refns, e o
#402
atraso na volta se deveu  sua determinao de trazer todos os refns  segurana e no apenas o seu.
        Rony e Hermione Lanaram a Harry olhares meio exasperados,
meio penalizados.
        -        A maioria dos juizes - e aqui Bagman olhou com muita indignao para Karkaroff- acha que tal atitude revela fibra moral e merece o nmero mximo
de pontos. Mas... o Sr. Potter recebeu quarenta e cinco pontos.
        O        estmago de Harry deu um solavanco - agora ia disputar o primeiro lugar com Cedrico. Rony e Hermione, apanhados de surpresa, olharam para Harry,
comearam a rir e a aplaudir com entusiasmo com o resto dos espectadores.
        -        L vai voc, Harry! - gritou Rony sobrepondo-se ao tumulto. - Afinal voc no agiu como dbil, revelou fibra moral!
        Fleur tambm o aplaudia freneticamente, mas Krum no pareceu nada feliz. Tentou puxar conversa com Hermione outra vez, mas ela estava ocupada demais aplaudindo
Harry para lhe dar ouvidos.
        -        A terceira e ltima tarefa ser realizada ao anoitecer do dia vinte e quatro de junho - continuou Bagman. - Os campees sero informados do que
os espera exatamente um ms antes. Agradecemos a todos o apoio dado aos campees.
        Terminou, pensou Harry atordoado, quando Madame Pomfrey comeou a arrebanhar os campees e refns em direo ao castelo para trocarem roupas secas... terminara,
ele conseguira... nao precisava se preocupar com coisa alguma agora at o dia vinte e quatro de junho...
        Da prxima vez que estivesse em Hogsmeade, resolveu ele, ao
subir os degraus de pedra do castelo, ia comprar para Dobby um
par de meias para cada dia do ano.

#403


*****



CAPITULO VINTE E SETE -
 A volta de Almofadinhas


                Uma das melhores consequncias da segunda tarefa foi que todo
                mundo ficou muito interessado em saber os detalhes do que
acontecera no fundo do lago, o que significou que, uma vez na vida, Rony
estava conseguindo dividir as luzes da ribalta com Harry. Este
                reparou que a verso do seu amigo sobre os acontecimentos
mudava sutilmente cada vez que ele os contava. A princpio, Rony narrava
o que parecia ter sido a verdade; pelo menos batia com a histria
                de Hermione - Dumbledore havia mergulhado os refns em um
                sono encantado na sala da Profa McGonagall, depois de garantir a
                todos que estariam seguros e que despertariam quando voltassem 
                superfcie da gua. Uma semana mais tarde, no entanto, Rony j
                estava contando uma histria emocionante de seqUestro, em que ele
                lutara sozinho contra cinqUenta sereianos armados at os dentes que
                precisaram domin-lo a pancada antes de amarr-lo.
                  - Mas eu levei a minha varinha escondida na manga - Rony
                tranqUilizou Padma Parvat, que parecia bem mais interessada agora
                que o garoto andava recebendo tanta ateno, e fazia questo de
                falar com ele todas as vezes que se encontravam nos corredores. -
                Eu poderia ter enfrentado aqueles sereidiotas a qualquer hora que
                quisesse.
                  - Que  que voc ia fazer, atacar os caras a roncos? - perguntou
                Hermione alfinetando-o. Tinham caoado tanto dela por ser a coisa
                de que Vtor Krum mais sentiria falta que ela andava meio mal-
                humorada.
                   As orelhas de Rony ficaram vermelhas e dali em diante ele
                reverteu  verso do sono encantado.
       Quando maro comeou, o tempo ficou mais seco, mas ventos
cortantes esfolavam o rosto e as mos todas as vezes que as pessoas
                saam aos jardins. Havia atrasos no correio porque o vento no
         #404
parava de tirar as corujas da rota. A coruja marrom que Harry enviara a Sirius com a data do fim de semana em Hogsmeade apareceu na hora do caf da manh de sexta-feira
com metade das penas viradas pelo avesso; Harry mal acabara de desprender a resposta de Sirius, a coruja levantou vo, visivelmente receosa de que fosse ser despachada
outra vez.
A carta de Sirius era quase to curta quanto a anterior.

Esteja nos degraus no fim da estrada que sai de Hogsmeade (depois da Dervixes & Bangues) s duas horas da tarde de sbado. Traga o mximo de comida que puder.

-        Ele no voltou a Hogsmeade? - perguntou Rony, incrdulo.
-        o que parece, no ? - disse Hermione.
        -        No d para acreditar - disse Harry tenso. - Se ele for apanhado...
        -        Mas at agora no foi, no ? - disse Rony. - E agora o lugar nem est mais infestado de dementadores.
        Harry dobrou a carta, pensativo. Se fosse honesto consigo mesmo admitiria
que queria realmente rever Sirius. Seguiu, portanto, para a ltima aula da tarde
- os dois tempos de Poes - sentindo-se muitssimo mais animado do que era o seu normal quando descia as escadas para as masmorras.
        Malfoy, Crabbe e Goyle estavam parados  porta da sala de aula com o grupinho de garotas da Sonserina que andava com Pansy Parkinson. Todas estavam olhando
alguma coisa que Harry no pde ver e davam risadinhas animadas. A cara de buldogue de Pansy espiava excitada por trs das largas costas de Goyle quando Harry, Rony
e Hermione se aproximaram.
        -        Eles vm vindo a, eles vm vindo a! - disse ela entre risadinhas e o ajuntamento de alunos da Sonserina se desfez. Harry viu que Pansy tinha nas
mos uma revista - o Semanrio das Bruxas. A foto animada na capa mostrava uma bruxa de cabelos crespos, com um sorriso cheio de dentes, que apontava com a varinha
para um grande bolo de claras.
        -        Talvez voc encontre a uma coisa de seu interesse, Granger!
-        disse Pansy em voz alta e atirou a revis a para Hermione, que a
aparou, fazendo cara de espanto. Naquele momento, a porta da
masmorra se abriu e Snape fez sinal para todos entrarem.
#405
        Hermione, Harry e Rony se dirigiram a uma mesa no fundo da sala como de costume. Quando Snape deu as costas  turma para escrever no quadro-negro os ingredientes
da poo do dia, Hermione folheou rapidamente a revista, por baixo da mesa. Finalmente, nas pginas centrais, ela encontrou o que estava procurando. Harry e Rony
se aproximaram. Uma foto colorida de Harry encmava uma pequena notcia intitulada "A MAGOA SECRETA DE HARRY POTTER":

Um garoto excepcional, talvez - mas um garoto que sofre todas as dores comuns da adolescncia, escreve Rita Skeeter. Privado do amor desde o trgico falecimento
dos pais, Harry Potter, catorze anos, pensou que tinha achado consolo com sua namorada firme em Hogwarts, a garota nascida trouxa, Hermione Granger. Mal sabia que
em breve estaria sofrendo mais um revs emocional numa vida afligida por perdas pessoais.
        A Srta. Granger, uma garota sem atrativos mas ambiciosa, parece ter uma queda por bruxos famosos que somente Harry no basta para satisfazer. Desde que Vitor
Krum, o apanhador blgaro e heri da ltima Copa Mundial de Quadribol, chegou em Hogwarts a Srta. Granger tem brincado com as aflies dos dois rapazes. Krum, que
est visivelmente apaixonado pela dissimulada Srta. Granger, j a convidou para visit-lo na Bulgria nas frias de vero e insiste que "nunca se sentiu assim com
nenhuma outra garota.
        Contudo, talvez no tenham sido os duvidosos encantos naturais da Srta. Granger que conquistaram o interesse desses pobres
rapazes.
        "Ela  realmente feia" diz Pansy Parkinson, uma estudante bonita e viva do quarto ano, "mas  bem capaz de preparar uma Poo do Amor, tem bastante inteligncia
para isso. Acho que foi isso que ela fez."
        As poes do amor so naturalmente proibidas em Hogwarts, e sem dvida Alvo Dumbledore ir querer apurar essas afirmaes. Entrementes, os simpatizantes
de Harry Porter fazem votos que, da prxima vez, ele entregue seu
corao a uma candidata que o merea.

- Eu disse a voc! - sibilou Rony para Hermione que continuava a
olhar o artigo abobada. - Eu disse pra voc no aborrecer Rita
Skeeter! Ela fez voc parecer uma espcie de... Jezabel!
#406
        Hermione desfez o ar perplexo e soltou uma risada abafada.
        -        Jezabel! - repetiu ela, sacudindo o corpo de tanto conter o riso e olhando para Rony.
        -        o que mame diz que elas so - murmurou Rony, suas orelhas tornando a corar.
- Se isso  o melhor que Rita  capaz de escrever, ento ela est
perdendo o jeito - disse Hermione, ainda dando risadinhas e atirando o Semanrio das Bruxas em uma cadeira vazia do lado. - Que monte de lixo.
        Hermione olhou para os colegas da Sonserina, que observavam ela e Harry com ateno, do outro lado da sala, para ver se tinham se
chateado com o artigo.
A garota deu um sorriso irnico e acenou para o grupinho. Em seguida ela, Harry e Rony comearam a desempacotar os ingredientes que iriam precisar para a Poo da 
Sagacidade.
        -        Mas tem uma coisa engraada - disse Hermione dez minutos depois, segurando o pilo suspenso sobre uma tigela de escaravelhos. - Como  que a Rita 
Skeeter poderia ter sabido...?
        -        Sabido o qu? - perguntou Rony depressa. - Voc no andou preparando Poes de Amor, andou?
        -        Pra de ser dbil - rerorquiu Hermione, recomeando a pilar os escaravelhos. - No,  s que... como foi que ela soube que
Vtor me convidou para o visitar no vero?
        Hermione ficou escarlate ao dizer isso e deliberadamente evitou os olhos de Rony.
        -        Qu? - exclamou Rony, deixando cair o pilo com estrpito.
        -        Ele me convidou logo depois de ter me tirado do lago - murmurou Hermione. - Assim que se livrou da cabea de tubarao. Madame Pomfrey nos deu cobertores
e ento ele meio que me puxou para longe dos juizes, para eles no ouvirem, e me perguntou, se eu no estivesse fazendo nada no vero, se eu gostaria de...
        -        E o que foi que voc respondeu? - perguntou Rony, que apanhara o pilo e estava amassando a mesa, a bem quinze centmetros
do caldeiro, porque no tirava os olhos de Hermione.
        -        E ele realmente disse que nunca se sentira desse jeito com nenhuma garota -
contiuou ela, to vermelha agora que Harry
at podia sentir o calor que emanava do corpo dela -, mas como  que Rita Skeeter poderia ter ouvido? Ela no estava l... ou estava?
Vai ver ela tem uma Capa da Invisibilidade, vai ver entrou escondida na propriedade para assistir  segunda tarefa...
#407
        -        E que foi que voc respondeu? - repetiu Rony, batendo o pilo com tanta fora que fez uma mossa na mesa.
        -        Bem, eu estava to ocupada vendo se voc e Harry estavam OK. que...
        - Por mais fascinante, sem dvida, que seja sua vida social, Srra. Granger - disse uma voz glida bem atrs deles -, devo lhe pedir para no discuti-la em 
minha aula. Dez pontos a menos para Grifinria.
        Snape havia deslizado silenciosamente at a mesa dos garotos enquanto eles conversavam. A turma inteira agora foi se virando para olh-los; Malfoy aproveitou 
a oportunidade para lampejar o POTTER FEDE l do outro lado da masmorra.
        -        Ah... e lendo revistas embaixo da mesa? - acrescentou Snape, agarrando o exemplar do Semanrio das Bruxas. - Outros dez
pontos a menos para Grifinria...
ah, mas naturalmente... - os olhos negros de Snape brilharam ao recair sobre o artigo de Rita Skeeter.
- Pottr tem que manter em dia os seus recortes de jornais e revistas sobre ele...
        A masmorra ecoou as risadas dos alunos da Sonserina, e um
sorriso desagradvel crispou a boca fina de Snape. Para fria de
Harry, o professor comeou a ler o artigo em voz alta:
        - A mgoa secreta de Harry Potter... ai, ai, ai, Potter, onde  que est doendo agora? Um garoto excepcional, talvez...
        Harry sentia o rosto arder agora. Snape parava ao fim de cada
frase para permitir aos alunos da Sonserina rirem  vontade. O artigo parecia dez vezes pior lido pelo professor.
        os simpatizantes de Harry Potter fazem votos que, da prxima vez, ele entregue seu cora ao a uma candidata que o merea. Que coisa comovente - debochou 
Snape, enrolando a revista ao som das gargalhadas dos garotos da Sonserina. - Bem, acho melhor separar vocs trs, para que possam se concentrar nas poes em lugar 
dos desencontros de suas vidas primorosas. Weasley, fique onde est. Srta. Granger, l, ao lado da
Srta. Parkinson. Porter, naquela carteira em frente  minha escrivaninha.
Mexam-se. Agora.
        Furioso, Harry jogou seus ingredientes e a mochila no caldeiro 
e arrastou-o at uma mesa vazia na frente da sala. Snape o
acompanhou, sentou-se  prpria escrivaninha e observou Harry descarregar 
o caldeiro. Decidido a no olhar para Snape, Harry retomou
#408
a tarefa de pilar os escaravelhos, imaginando que cada um deles tinha a cara do professor.
        Toda essa ateno da imprensa parece ter inchado a sua cabea que j  demasiado grande, Potter - disse Snape em voz baixa,
depois que o restante da turma se aquietou.
        Harry no respondeu. Sabia que o professor estava tentando provoc-lo; j fizera isso antes. Sem dvida esperava ter uma desculpa para descontar cinqUenta 
pontos redondos da Grifinria antes do fim da aula.
        -        Voc talvez esteja vivendo a iluso de que o mundo da magia inteiro est impressionado com voc - continuou Snape, em voz to baixa que mais ningum 
podia ouvi-lo (Harry continuou a pilar os escaravelhos, embora j os tivesse reduzido a um
p muito fino) -, mas eu no me impressiono com o nmero de vezes que
sua foto aparece nos jornais. Para mim, Potter, voc no passa de um menininho mau carter que acha que est acima dos regulamentos.
        Harry virou os escaravelhos pulverizados no caldeiro e comeou a cortar as razes de gengibre. Suas mos tremiam levemente de raiva, mas ele mantinha os 
olhos baixos, como se nem ouvisse o que Snape dizia.
        -        Portanto, eu vou lhe dar um aviso, Potter - continuou o professor, num tom de voz mais suave e perigoso - seja voc uma celebridade mirim ou no,
se eu o apanhar invadindo a minha sala outra vez...
        -        Eu no cheguei nem perto da sua sala! - disse Harry com raiva, esquecendo sua fingida surdez.
        -        No minta para mim sibilou Snape, seus abissais olhos negros perfurando os de Harry. -
Ararambia. Guelricho. Ambos
sairam do meu estoque particular e eu sei quem foi que os roubou.
        Harry sustentou o olhar de Snape, decidido a no piscar, nem fazer cara de culpado. Na verdade, ele no roubara nenhuma das duas coisas de Snape. Hermione
tirara a ararambia no segundo ano - tinham precisado dela para a
Poopolissuco -, e embora Snape suspeitasse de Harry na ocasio, nunca pudera comprovar sua suspeita.
Dobby, naturalmente, roubara o guelricho.
        -        No sei do que o senhor est falando - mentiu Harry com
        frieza.        
        -        Voc estava fora da cama na noite em que a minha sala foi invadida! - sibilou Snape. - Eu sei disso, Potter! Agora talvez Olho-
#409
Tonto Moody tenha entrado para o seu f-clube, mas eu no vou tolerar o seu comportamento! Mais um passeio noturno  minha sala, Porter, e voc vai me pagar!
        -        Certo! - respondeu Harry calmamente, voltando sua ateno para as razes de gengibre. - Me lembrarei disso se algum dia sentir
um impulso de entrar l.
        Os olhos de Snape faiscaram. Ele mergulhou a mo nas vestes negras. Por um segundo delirante Harry pensou que ele ia puxar a varinha e amaldio-lo - ento 
viu que o professor tirara um frasquinho de cristal com uma poo totalmente cristalina. Harry ficou olhando fixamente para o frasco.
        -        Sabe o que  isso, Potter? - perguntou Snape, com os olhos mais uma vez brilhando perigosamente.
        -        No - respondeu Harry desta vez com absoluta honestidade.
        -        E Veritaserum, uma Poo da Verdade to potente que trs gotas fariam voc confessar os seus segredos mais ntimos para a turma inteira ouvir - 
disse Snape maldosamente. - Agora, o uso desta poo  controlado por rigorosas diretrizes do Ministrio. Mas a no ser que voc tome cuidado com o que faz, vai 
acabar descobrindo que a minha mo pode escorregar sem querer - ele sacudiu de leve o frasquinho de cristal - bem em cima do seu suco de abbora da noite. Ento, 
Potter... ento descobriremos se voc esteve ou no na minha sala.
        Harry no respondeu. Voltou mais uma vez sua ateno para as razes de gengibre, apanhou uma faca e comeou a cort-las. No gostou nem um pouco daquela 
histria de Poo da Verdade, nem duvidou que Snape fosse capaz de ministr-la furtivamente. Conteve um tremor ao pensar no que poderia sair sem querer de sua boca 
se tomasse a poo... sem falar que deixaria um bocado de gente em apuros - Hermione e Dobby, para
comear -, havia ainda todo o resto que ele estava escondendo... 
como o fato de estar em contato com Sirius... e - suas entranhas reviraram s de pensar - seus sentimentos por Cho... O garoto acrescentou as razes de gengibre 
ao caldeiro e se perguntou se deveria, se guiar pela cartilha de Moody e comear a beber apenas de um frasco de bolso s seu.
                Houve uma batida na porta da masmorra.
        
       - Entre - disse Snape, com a sua voz habitual.
                A turma olhou quando a porta se abriu. O Prof. Karkaroff
#410
entrou. Todos o observaram se dirigir  escrivaninha de Snape. Estava enrolando o dedo na barbicha outra vez e parecia agitado.
        -        Precisamos conversar - disse Karkaroff abruptamente, ao chegar perto de Snape. Parecia to decidido a no deixar ningum ouvir o que estava dizendo 
que mal abria a boca; era como se fosse um ventrloquo medocre. Harry manteve os olhos nas razes de gengibre, mas apurou os ouvidos.
        -        Falarei com voc quando terminar a aula, Karkaroff.. - murmurou Snape, mas o colega o interrompeu.
        -        Quero falar agora, que voc no pode fugir, Severo. Voc tem me evitado.
        -        Depois da aula - retrucou Snape com rispidez.
        Sob o pretexto de erguer uma xcara graduada e ver se medira suficiente bile de tatu, Harry arriscou um olhar de esguelha para os dois. Karkaroff parecia 
extremamente preocupado e Snape, aborrecido.
        Karkaroff ficou rondando atrs da escrivaninha de Snape durante o resto da aula. Parecia decidido a impedir que o colega escapulisse no fim da aula. Interessado 
em ouvir o que Karkaroff queria dizer, Harry derrubou intencionalmente um frasco de bile de tatu dois minutos antes de tocar a sineta, o que lhe deu uma desculpa
para se agachar atrs do caldeiro e limpar o cho, enquanto o restante da turma se deslocava ruidosamente para a porta.
        -        Que  que  to urgente assim? - o garoto ouviu Snape sibilar para Karkaroff.
        -        Isto - disse Karkaroff, e Harry, espiando por cima do caldeiro, viu o bruxo levantar a manga esquerda das vestes e mostrar a
Snape alguma coisa do lado interno do antebrao.
        "Ento?", disse Karkaroff, ainda fazendo esforo para no
mexer a boca. "Est vendo? Nunca esteve to ntida assim, nunca
desde..."
        -        Cubra isso! - rosnou Snape, seus olhos negros percorrendo a sala.
        -        Mas voc deve ter reparado - comeou Karkaroff com a voz agitada.
        -        Podemos conversar mais tarde, Karkaroffp - vociferou Snape.
-        Porter! Que  que voc est fazendo?
        -        Limpando a minha bile de tatu, professor - disse o garoto
inocentemente, se erguendo e mostrando o trapo encharcado que tinha nas mos.
        Karkaroff deu meia-volta e saiu da masmorra. Parecia ao mesmo tempo preocupado e aborrecido. No querendo ficar sozinho com um Snape excepcionalmente raivoso,
Harry atirou os livros e os ingredientes para dentro da mochila e saiu bem depressinha para contar a Rony e Hermione o que acabara de presenciar.
#411
Os trs saram do castelo ao meio-dia no dia seguinte e depararam com um jardim iluminado por um sol fraco. O tempo estava mais ameno do que estivera o ano inteiro
e na altura em que chegaram a Hogsmeade os garotos j haviam despido as capas e jogado-as sobre os ombros. A comida que Sirius pedira para eles trazerem ia na mochila 
de Harry; tinham surrupiado uma dzia de coxas de galinha, uma frma de po e uma garrafa de suco de abbora da mesa do almoo.
        Foram at a Trapobelo Moda Mgica comprar um presente para Dobby, onde se divertiram escolhendo as meias mais espalhafatosas que conseguiram encontrar, inclusive 
um par com estrelas douradas e prateadas que piscavam, e outro que berrava quando ficava fedorento demais. Ento,  uma e meia eles subiram a rua Principal, passaram 
a Dervixes & Bangues e saram em direo aos arredores do povoado.
        Harry nunca fora para aqueles lados antes. A estradinha serpeante os levou para os campos sem cultivo em torno de Hogsmeade. As casas ficavam mais espaadas 
ali e os jardins maiores; os garotos caminhavam em direo ao morro a cuja sombra se situava Hogsmeade. Ento fizeram uma curva e viram a escada no fim da estradinha. 
 espera deles, as patas dianteiras apoiadas no degrau mais alto, havia um enorme co preto, que segurava alguns jornais na boca e parecia bastante familiar...
        - Ol, Sirius - disse Harry, quando chegaram mais perto.
        O        cachorro farejou, ansioso, a mochila de Harry, abanou uma vez o rabo, depois deu as costas e comeou a se afastar
atravessando o mato ralo que subia ao encontro do sop rochoso do morro.
Os garotos subiram os degraus e seguiram o cachorro.
        Sirius levou-os exatamente para o sop do morro, onde o terreno
#412
era coberto de pedras e pedregulhos. Era fcil para ele com suas quatro
patas, mas os garotos logo ficaram sem flego. Continuaram a acompanhar Sirius, que comeou
a subir o morro propriamente dito. Durante quase meia hora escalaram uma trilha ngreme, serpeante e pedregosa, atrs de Sirius que abanava o rabo, suando ao sol,
as tiras da mochila de Harry cortando os ombros do garoto.
        Ento, finalmente, Sirius desapareceu de vista, e quando eles chegaram ao lugar em que ele desaparecera, viram uma fenda estreita na rocha. Espremeram-se
por ela e se viram em uma caverna fresca e fracamente iluminada. Preso a um canto, uma ponta da corda passada em volta de um pedregulho, estava Bicuo, o hipogrifo. 
Metade cavalo cinzento, metade enorme guia, os olhos ferozes e alaranjados do animal brilharam ao ver os visitantes. Os trs fizeram uma profunda reverncia para 
Bicuo que, depois de fitlos, imperiosamente, por um momento, dobrou o joelho escamoso e permitiu que Hermione corresse para acariciar o seu pescoo coberto de 
penas. Harry, porm, observava o cachorro preto que acabara de se transformar em seu padrinho.
        Sirius estava usando vestes cinzentas rasgadas; as mesmas que usava quando deixara Azkaban. Os cabelos negros estavam mais compridos do que da ltima vez 
que aparecera na lareira, e novamente malcuidados e embaraados. Parecia muito magro.
        -        Galinha! - exclamou, rouco, depois de tirar os exemplares do Profeta Dirio da boca e atir-los ao cho da caverna.
        Harry abriu depressa a mochila e lhe entregou o embrulho de
coxas de galinha e po.
        -        Obrigado - disse Sirius, abrindo-o, agarrando uma coxa, sentando-se no cho da caverna e cortando um bom pedao com os dentes. - Quase que s tenho
comido ratos. No posso roubar muita comida de Hogsmeade; chamaria ateno para mim.
        Ele sorriu para Harryp mas o garoto relutou a retribuir o sorriso.
        -        Que  que voc est fazendo aqui, Sirius? - perguntou.
        -        Cumprindo minhas obrigaes de padrinho - disse Sirius,
mordendo o osso de galinha de um jeito muito canino. - No se
preocupe comigo, estou fingindo ser um adorvel co vadio.
        Ele ainda sorria, mas, ao ver a ansiedade no rosto de Harry,
        continuou com mais seriedade:
        -        Quero estar em cima do lance. A sua ltima carta... bem, digamos que as coisas esto comeando a cheirar pior. E tenho
#413
roubado jornais todas as vezes que algum joga um fora e, pelo que parece, eu no sou o nico que est ficando preocupado.
        Ele indicou com a cabea os exemplares amarelados do Profeta
Dirio no cho da caverna, e Rony apanhou uns e abriu-os.
        Harry, no entanto, continuou a encarar o padrinho.
        -        E se eles pegarem voc? E se virem voc?
        -        Vocs trs e Dumbledore so os nicos por aqui que sabem que eu sou um animago - disse Sirius sacudindo os ombros e continuando a devorar a galinha.
        Rony cutucou Harry e lhe passou os exemplares do Profeta Dirio. Havia dois; o primeiro tinha a manchete Doena misteriosa de Bartolomeu Crouch, e o segundo,
Bruxa do Ministrio continua desaparecida - o Ministrio da Magia agora est
pessoalmente envolvido.
        Harry correu os olhos pelo artigo sobre Crouch. Frases soltas destacaram-se sob seus olhos: no  visto em pblico desde novembro... casa parece deserta...
O Hospital St. Mungus para Doenas e Acidentes Mgicos no quer comentar... Ministrio se recusa a confirmar os boatos sobre doena grave...
        - Esto fazendo parecer que ele est  morte - disse Harry lentamente. - Mas no deve estar se conseguiu vir at aqui...
        -        Meu irmo  assistente pessoal de Crouch - informou Rony a Sirius. - Ele diz que o cara est sofrendo de estresse.
        -        Veja bem, ele realmente parecia doente na ltima vez que eu o vi de perto - disse Harry devagar, ainda lendo o artigo. - Na noite que o meu nome
foi escolhido pelo Clice...
        -        Est recebendo o que merecia por despedir Winky, no? - comentou Hermione friamente. Ela acariciava Bicuo, que mastigava os ossos de galinha deixados
por Sirius. - Aposto como gostaria de no ter feito isso, aposto como sente a diferena agora que ela no est mais l para cuidar dele.
        -        Mione est obcecada por elfos domsticos - murmurou Rony para Sirius, lanando  garota um olhar aborrecido.
Sirius, no entanto, pareceu interessado.
-        Crouch despediu o elfo domstico dele?
        -        Despediu na Copa Mundial de Quadribol - disse Harry e comeou a contar a histria do aparecimento da Marca Negra, de Winky ter sido encontrada com
a varinha de Harry na mo e da fria do Sr. Crouch.
#414
        Quando Harry terminou, Sirius se levantou novamente e comeou a andar para cima e para baixo na caverna.
        -        Deixe-me entender isso direito - disse ele depois de algum tempo, brandindo mais uma coxa de galinha. - Primeiro voc viu o elfo no camarote de
honra. Estava guardando um lugar para Crouch, certo?
        -        Certo - disseram Harry, Rony e Hermione juntos.
        -        Mas Crouch no apareceu para assistir ao jogo?
        -        No - confirmou Harry. - Acho que ele disse que esteve ocupado demais.
        Sirius deu outra volta na caverna em silncio. Ento disse:
        -        Harry, voc procurou sua varinha nos bolsos depois que deixou o camarote de honra?
        -        Hum... - Harry se concentrou. - No - respondeu finalmente. - No precisei us-la at chegarmos  floresta. Ento meti a mo no bolso e s encontrei 
o meu oniculo. - Ele olhou para Sirius. - Voc est dizendo que quem conjurou a Marca furtou minha varinha no camarote de honra?
        -         possvel - disse Sirius.
        -        Winky no furtou a varinha! - protestou Hermione com voz aguda.
        -        O elfo no era o nico ocupante do camarote - disse Sirius, enrugando a testa e continuando a andar. - Quem mais estava sentado atrs de voc?
        -        Um monte de gente - respondeu Harry. - Uns ministros blgaros... Cornlio Fudge... os Malfoy...
        -        Os Malfoy! - exclamou Rony subiramente, to alto que sua voz ecoo pelas paredes da caverna o que fez Bicuo agitar a cabea nervosamente. - Aposto
como foi o Lcio Malfoy!
        -        Mais algum? - perguntou Sirius.
        -No.
        -        Ah, sim, tinha o Ludo Bagman - lembrou Hermione a Harry.
        -Ah, foi...
        -        No sei nada sobre o Bagman, exceto que costumava bater para os Wimbourne Wasps - disse Sirius, ainda andando. - Que tal
         ele?        
        -        OK. - disse Harry. - Fica o tempo todo se oferecendo para me ajudar no Torneio Tribruxo.
#415
-        Fica, ? - perguntou Sirius, aprofundando as rugas na testa.
-        Por que ser que ele faria isso?
        -        Disse que se afeioou a mim.
        -        Hum - murmurou Sirius pensativo.
        -        Ns o vimos na floresta pouco antes da Marca Negra aparecer - contou Hermione a Sirius. - Vocs lembram? - perguntou ela
a Harry e Rony.
        -        Lembramos, mas ele no ficou na floresta, no foi? - disse Rony. - Assim que falamos do tumulto, ele saiu para o acampamento.
        -        Como  que voc sabe? - disparou Hermione. - Como  que voc sabe para onde foi que ele desaparatou?
        -        Pode parar - disse Rony incrdulo -, voc est dizendo que acha que Ludo Bagman conjurou a Marca Negra?
        -         mais provvel que ele tenha feito isso do que Winky - retrucou a menina teimosamente.
        -        Eu lhe disse - falou Rony dando um olhar significativo para Sirius -, eu lhe disse que ela est obcecada por elfos...
        Mas Sirius ergueu a mo para calar Rony.
        -        Depois que a Marca Negra foi conjurada e o elfo descoberto segurando a varinha de Harry, que foi que o Crouch fez?
        -        Foi procurar no meio das moitas - disse Harry -, mas no havia mais ningum l.
        -        Claro - murmurou Sirius andando para cima e para baixo -, claro, ele teria querido pr a culpa em qualquer um menos no prprio elfo... e entao o 
despediu?
        -        Foi - disse Hermione num tom acalorado -, despediu, s porque ela no tinha ficado na barraca esperando ser pisoteada...
        -        Hermione, ser que voc pode dar um tempo com esse elfo?
-        pediu Rony.
        Mas Sirius balanou a cabea e disse;
        -        Ela avaliou Crouch melhor do que voc, Rony. Se voc quer saber como um homem  veja como ele trata os inferiores, e no os
seus iguais.
        O        bruxo passou a mo pelo rosto barbudo, evidentemente se         concentrando.
       - Todas essas ausncias de Bart Crouch... ele se d ao trabalho
de garantir que seu elfo guarde um lugar para ele na Copa Mundial
de Quadribol, mas no se importa de ir assistir. Ele trabalha com
#416
afinco para restabelecer o Torneio Tribruxo, e em seguida pra de comparecer tambm... isto no se parece nada com o Crouch. Se ele alguma vez tiver faltado ao trabalho
por causa de doena, eu como o Bicuo.
        -        Voc conhece o Crouch, ento? - perguntou Harry.
        O        rosto de Sirius ficou sombrio. Inesperadamente pareceu to ameaador quanto na noite em que Harry o viu pela primeira vez,
quando o garoto ainda acreditava que o padrinho fosse um assassino.
        -        Ah, eu conheo Crouch, sim - disse ele em voz baixa. - Foi quem deu a ordem para me mandar para Azkaban, sem julgamento.
        -        Qu?- exclamaram Rony e Hermione juntos.
        -        Voc est brincando! - disse Harry.
        -        No, no estou - respondeu Sirius, enchendo a boca de galinha. - Crouch costumava ser chefe do Departamento de Execuo
das Leis da Magia, vocs no sabiam?
        Harry, Rony e Hermione balanaram as cabeas.
        -        Previa-se que ele fosse o prximo Ministro da Magia. Ele  um grande bruxo, Bart Crouch, de grande poder mgico, e de grande fome de poder. Ah,
nunca foi partidrio de Voldemort - acrescentou, ao ver a expresso no rosto de Harry. - No, Barr Crouch sempre foi abertamente contra o partido das trevas. Mas,
por outro lado, muita gente que era contra o lado das trevas... bem, vocs no entenderiam... sao muito jovens...
        -        Foi isso que papai me disse na Copa Mundial - disse Rony, com um qu de irritao na voz. - Experimente nos contar.
        Um sorriso perpassou o rosto magro de Sirius.
        -        Est bem, vou experimentar...
        Ele andou at um lado da caverna, voltou e ento disse:
        -        Imaginem que Voldemort detivesse o poder agora. Vocs no sabem quem so os
partidrios dele, no sabem quem est e quem no est trabalhando para
ele; vocs sabem que ele  capaz de controlar as pessoas para que faam coisas terriveis sem conseguir se conter. Vocs prprios esto apavorados, suas famlias
e amigos, tambm. Toda semana vocs tm notcias de mais mortes, mais
desaparecimentos, mais torturas... o Ministrio da Magia est desestruturado, no sabe o que
fazer, tenta ocultar dos trouxas o que est
acontecendo, mas nesse meio tempo os trouxas esto morrendo tambm. Terror
por toda parte... pnico... confuso... era assim
que costumava ser.
#417
        "Bem, tempos assim fazem vir  tona o que alguns tm de melhor e o que outros tm de pior. Os princpios de Crouch podem ter sido bons no incio - eu no
saberia dizer. Ele subiu rapidamente no Ministrio e comeou a mandar executar medidas muito severas contra os
partidrios de Voldemorr. Os aurores receberam novos poderes - para matar em 
vez de capturar, por exemplo. E eu no fui o nico a ser entregue diretamente aos 
dementadores sem julgamento. Crouch combateu violncia
com violncia e autorizou o uso das Maldies Imperdoveis contra os suspeitos. Eu diria que ele se tornou to impiedoso e cruel quanto muitos do lado das trevas.
Ele tinha os seus partidrios, me entendam - muita gente achava que ele estava tratando o problema corretamente, e havia bruxas e bruxos exigindo que ele assumisse 
o Ministrio da Magia. Quando Voldemort sumiu, pareceu que era apenas uma questo de tempo para Crouch assumir o posto maior no Ministrio. Mas ento aconteceu uma 
infelicidade..." Sirius sorriu amargurado. "O nico filho de Crouch foi apanhado com um grupo de Comensais da Morte que tinham conseguido sair de Azkaban contando 
uma boa histria. Aparentemente pretendiam encontrar Voldemort para reconduzi-lo ao poder."
        -        O filho de Crouch foi apanhado? - exclamou Hermione.
        -        Foi - disse Sirius, atirando o osso de galinha para Bicuo, e voltando a se sentar ao lado da frma de po, que ele cortou ao meio. - Imagino que 
tenha sido um choque e tanto para o velho Bart. Deveria ter passado mais tempo em casa com a famlia, no acham? Deveria ter sado do escritrio mais cedo um dia... 
procurado conhecer o filho.
        Sirius comeou a devorar grandes bocados de po.
        -        O filho dele era mesmo um Comensal da Morte? - perguntou Harry.
        -        No fao idia - respondeu o padrinho, enfiando mais po na boca. - 
Eu prprio estava em Azkaban quando o trouxeram. Descobri a maior parte do que
estou contando depois que sa. O rapaz foi sem a menor dvida apanhado em companhia de gente que, posso apostar minha vida, era Comensal da Morte, mas ele talvez 
estivesse no lugar errado na hora errada, como esse elfo
domstico.
        -        Crouch tentou e conseguiu livrar o filho? - sussurrou Hermione.
#418
        Sirius deu uma risada que pareceu muito mais um latido.
        -        Crouch livrou o filho? Achei que voc o tinha avaliado corretamente, Hermione. Qualquer coisa que ameaasse manchar a reputao dele precisava ser
afastada, ele dedicou a vida inteira a chegar a Ministro da Magia. Vocs viram ele dispensar um dedicado elfo domstico porque o associou com a Marca Negra, isso 
no diz a vocs que tipo de pessoa ele ? O mximo a que sua afeio paternal chegou foi dar ao filho um julgamento e,  voz geral, que isso no passou de uma desculpa 
para Crouch mostrar como detestava o rapaz... depois mandou-o direto para Azkaban.
        -        Ele entregou o prprio filho aos dementadores? - perguntou Harry em voz baixa.
        -        Isso mesmo - disse Sirius e ele no parecia estar achando graa 
alguma ento. - Eu vi os dementadores trazerem o rapaz preso, observei-os pelas grades 
da porta da minha cela. No devia ter mais de dezenove anos. Foi encarcerado em 
uma cela perto da minha. Ao cair da noite ele j estava gritando pela me.
Mas, depois de alguns dias, se calou... no fim todos se calam... exceto quando gritam durante o sono...
        Por um momento, a expresso mortia nos olhos de Sirius se
tornou mais acentuada que nunca, como se as janelas tivessem se
fechado por trs deles.
-        Ento ele ainda est em Azkaban? - perguntou Harry.
        -        No - disse Sirius sem emoo. - No, ele no est mais l. Morreu um ano depois de o levarem para l.
- Morreu?
        -        Ele no foi o nico - disse Sirius com amargura. - A maioria enlouquece l, e muitos param de comer quando se aproximam do fim. Perdem a vontade 
de viver. A gente sempre sabia quando a morte estava prxima, porque os dementadores pressentiam e ficavam excitados. O rapaz tinha um ar bem doentio quando chegou. 
Por ser um importante funcionrio do Ministrio, Crouch e a mulher receberam permisso para visit-lo no leito de morte. Foi a ltima vez que vi Barr Crouch, meio 
que carregando a mulher ao passar no corredor diante da minha cela. Parece que ela tambm
morreu pouco depois. Tristeza. Definhou como o filho. Crouch #
 nunca foi buscar o corpo do rapaz. Os dementadores o enterraram
do lado de fora da fortaleza, eu fiquei assistindo.
#419
        Sirius ps de lado o po que acabara de levar  boca e, em lugar disso, apanhou a garrafa de suco de abbora e a esvaziou.
        -        Ento o velho Crouch perdeu tudo, quando achou que chegara ao topo - continuou ele, limpando a boca com as costas da mo. - Num momento, um heri, 
pronto a se tornar Ministro da Magia... no momento seguinte, o filho morto, a mulher morta, o nome da famlia desonrado e, pelo que ouvi desde que fugi, uma grande 
queda na popularidade. Depois que o rapaz morreu, as pessoas comearam a sentir um pouco mais de simpatia por ele, e comearam a indagar como  que um rapaz de boa 
famlia tinha entortado daquele jeito. A concluso foi de que o pai nunca se preocupara muito com ele. Ento Cornlio Fudge ganhou o lugar de ministro e Crouch foi
deslocado para o Departamento de Cooperao Internacional em Magia.
        Houve um longo silncio. Harry ficou pensando no jeito com que os olhos de Crouch tinham saltado quando ele encarou o elfo desobediente l na floresta, no
final da Copa Mundial de Quadribol. Isto ento devia ter sido a razo da reao exagerada de Crouch ao saber que Winky fora encontrada embaixo da Marca Negra. A
cena lhe trouxera lembranas do filho, do antigo escndalo e de sua queda no Ministrio.
        -        Moody diz que Crouch  obcecado para caar bruxos das trevas - disse Harry a Sirius.
        -        , ouvi falar que se tornou uma espcie de mania nele - disse Sirius concordando com a cabea. - Se voc quer saber a minha opinio, ele ainda acha
que pode recuperar a antiga popularidade capturando mais um Comensal da Morte.
        -        E ele veio escondido a Hogwarts para revistar a sala de Snape!
- exclamou Rony com ar de triunfo, olhando para Hermione.
        - , e isso no faz o menor sentido - disse Sirius.
        -        Claro que faz! - disse Rony excitado.
        Mas Sirius balanou a cabea.
        - Escute aqui, se Crouch quisesse investigar Snape, por que ento no tem ido julgar o torneio? Seria a desculpa ideal para fazer
visitas regulares  escola e ficar de olho em Snape.
        - Ento voc acha que Snape pode estar aprontando alguma? - 
 perguntou Harry, mas Hermione os interrompeu.
        -        Olhem, eu no acredito no que vocs esto dizendo, Dumbledore confia em Snape...
#420
        -        Ah, corta essa, Hermione - disse Rony impaciente. - Eu sei que Dumbledore  genial e tudo o mais, mas isto no significa que
um bruxo das trevas realmente inteligente no possa enganar ele...
        -        Por que foi, ento, que Snape salvou a vida de Harry no primeiro ano? Por que simplesmente no o deixou morrer?
        -        No sei, vai ver pensou que Dumbledore lhe daria um chute...
        -        Que  que voc acha Sirius? - perguntou Harry em voz alta, e Rony e Hermione pararam de discutir para escutar.
        -        Acho que os dois tm uma certa razo - disse Sirius, olhando pensativo para Rony e Hermione. - Desde que descobri que Snape estava ensinando na 
escola, tenho pensado por que Dumbledore o contratou. Snape sempre foi fascinado pelas artes das trevas, era famoso por isso na escola. Um garoto esquivo, seboso, 
os cabelos gordurosos - acrescentou Sirius, e Harry e Rony se entreolharam rindo. - Snape conhecia mais feitios quando chegou na escola do que metade dos garotos 
do stimo ano e fazia parte de uma turma da Sonserina, que, na maioria, acabou virando Comensal da Morte.
        Sirius ergueu a mo e comeou a contar nos dedos.
        -        Rosier e Wilkes, os dois foram mortos por aurores um ano antes da queda de Voldemort. Os Lestranges se casaram, esto em Azkaban. Avery pelo que 
ouvi dizer livrou a cara dizendo que rinhii agido sob o efeito da Maldio Imperius, continua solto. Mas at onde sei, Snape nunca foi acusado de ser Comensal da 
Morte, no que isto signifique grande coisa. Muitos deles jamais foram presos. E Snape certamente  muito inteligente e astuto para conseguir ficar de fora.
        -        Snape conhece Karkaroff muito bem, mas no quer divulgar isso - disse Rony.
        -        , voc devia ver a cara de Snape quando Karkaroff apareceu na aula de Poes ontem! - disse Harry depressa. - Karkaroff queria falar com Snape, 
disse que o professor andava evitando ele. Karkaroff parecia realmente preocupado. Mostrou a Snape alguma coisa no brao, mas no pude ver o que era.
        -        Ele mostrou a Snape alguma coisa no brao? - exclamou Sirius, parecendo sinceramente espantado. Passou os dedos, distrado, pelos cabelos imundos,
depois encolheu os ombros. - Bem,
no fao idia do que possa ser... mas se Karkaroff est genuinamente preocupado, procurou Snape para obter respostas...
#421
        Sirius ficou olhando para a parede da caverna, depois fez uma careta de frustrao.
        -        Mas ainda temos o fato de que Dumbledore confia em Snape, sei que Dumbledore confia no que muita gente no confiaria, mas no consigo v-lo deixando 
Snape ensinar em Hogwarts se algum dia tivesse trabalhado para Voldemort.
        -        Ento por que Moody e Crouch esto to interessados em entrar na sala de Snape? - insistiu Rony.
        -        Bem - respondeu Sirius lentamente -, eu no duvidaria que Olho-Tonto tivesse revistado as salas de todos os professores quando chegou em Hogwarts. 
Ele leva a srio a Defesa contra as Artes das Trevas, o Moody. No tenho certeza de que ele confie em algum, e depois das coisas que tem visto, isto no  surpresa. 
Mas vou dizer uma coisa a favor do Moody, ele nunca matou ningum se pudesse evitar. Sempre capturou as pessoas vivas, quando era possvel. Ele  duro mas nunca 
desceu ao nvel dos Comensais da Morte. J Crouch  outra conversa... ele est mesmo doente? Se est, por que fez o esforo de se arrastar at o escritrio de Snape? 
E se no est... o que  que ele anda tramando? Que  que ele estava fazendo de to importante durante a Copa Mundial que no apareceu no camarote de honra? Que 
 que ele est fazendo enquanto devia estar julgando o torneio?
Sirius caiu em silncio, ainda fitando a parede da caverna.
Bicuo fuava o cho empedrado  procura de ossos que pudesse
ter deixado passar.
Finalmente Sirius ergueu os olhos para Rony.
        -        Voc disse que seu irmo  assistente pessoal do Crouch? Voc tem jeito de perguntar se ele tem visto Crouch ultimamente?
        -        Posso tentar - disse Rony em dvida. - Mas  melhor no parecer que desconfio que Crouch esteja fazendo alguma coisa
escondido. Percy adora Crouch.
        -        E poderia, ao mesmo tempo, tentar descobrir se encontraram alguma pista da Berta Jorkins - disse Sirius, apontando para o
segundo exemplar do Profeta Dirio.
        -        Bagman me disse que no tinham - informou Harry.
        - , ele  citado no artigo do Profeta. Alardeando que a memria de 
Berta  bem ruizinha. Bem, talvez ela tenha mudado desde
que eu a conheci, mas a Berta que conheci no era nada desmemoriada, muito ao contrrio. Era um pouco obtusa, mas tinha uma
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excelente memria para fofocas. Isso costumava met-la em muita confuso, nunca sabia quando ficar de boca calada. Posso entender que representasse um certo risco
para o Ministrio da Magia... talvez tenha sido por isso que Bagman no se importou de procurar por ela tanto tempo...
        Sirius deu um enorme suspiro e esfregou os olhos contornados
de sombras escuras.
- Que horas so?
Harry consultou o relgio, ento se lembrou de que no estava
funcionando desde que passara uma hora dentro do lago.
- So trs e meia - informou Hermione.
        -         melhor vocs voltarem para a escola - disse Sirius, se levantando. - Agora, escutem aqui... - E olhou mais insistentemente para Harry. - No quero 
vocs saindo escondidos da escola para me ver, certo? Me mandem bilhetes para c. 
Continuo querendo saber de qualquer coisa estranha. Mas vocs no devem sair de
Hogwarts sem permisso, seria uma oportunidade ideal para algum atac-los.
        -        At agora ningum tentou me atacar, exceto o drago e uns dois grinelylows - disse Harry.
        Mas Sirius amarrou a cara para ele.
        -        No quero saber... Vou respirar outra vez em paz quando esse torneio terminar, o que no vai acontecer at junho. E no se esqueam, se estiverem 
falando de mim entre vocs, me chamem de Snuffles, OK.?
        Ele devolveu a Harry a garrafa e o guardanapo vazios e foi dar
uma palmadinha de despedida em Bicuo.
        -        Acompanho vocs at a entrada do povoado - disse Sirius -, vou ver se consigo catar mais um jornal.
        Ele se transformou no enorme co preto antes de deixarem a caverna, e juntos desceram a encosta do morro, atravessaram o terreno pedregoso e voltaram  escada. 
Ali ele deixou cada um dos garotos lhe acariciar a cabea e, em seguida, virou as costas e saiu correndo pela periferia do povoado.
        Harry, Rony e Hermione voltaram para Hogsmeade e dali para
Hogwarrs.
        -        Ser que o Percy conhece toda essa histria sobre o Crouch?
- comentou Rony quando subiam a estrada do castelo. - Mas vai ver ele no se importa... provavelmente ia admirar o Crouch ainda
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mais. , o Percy adora regulamentos. Ia dizer que o Crouch se recusou a infringir os regulamentos em favor do prprio filho.
        -        Percy no atiraria nenhuma pessoa da famlia dele aos dementadores - disse Hermione com severidade.
        -        No sei, no - respondeu Rony. - Se achasse que estvamos atrapalhando a carreira dele... Percy  realmente ambicioso, sabem...
        Eles subiram os degraus de pedra e entraram no saguo do castelo, onde vieram ao seu encontro os cheiros gostosos do jantar no
Salo Principal.
        -        Coitado do velho Snuffles - disse Rony inspirando profundamente. - Ele deve realmente gostar de voc, Harry... imagine ter
que comer ratos para sobreviver.
#424


*****


-        CAPITULO VINTE E OITO -
 A loucura do Sr. Crouch


No domingo, Harry, Rony e Hermione subiram ao corujal depois do caf da manh, para enviar uma carta a Percy, perguntando, conforme Sirius sugerira, se ele tinha 
visto o Sr. Crouch ultimamente. Usaram Edwiges, porque fazia muito tempo que ela no recebia uma tarefa. Depois que a viram desaparecer no horizonte pela janela 
do corujal, desceram  cozinha para dar a Dobby as meias novas.
Os elfos domsticos receberam os garotos com grande alegria,
fazendo mesuras e reverncias e se apressando em preparar um ch.
Dobby ficou extasiado com o presente.
        -        Harry Potter  bom demais para Dobby! - guinchou ele, secando as grossas lgrimas que marejavam seus olhos enormes.
        -        Voc salvou minha vida com aquele guelricho, Dobby, verdade - disse Harry.
        - Alguma chance de terem sobrado bombas de creme? - perguntou Rony, olhando para os elfos sorridentes e cheios de mesuras.
        -        Voc acabou de tomar caf! - exclamou Hermione irritada, mas uma grande travessa de prata contendo bombas de creme j
vinha voando na direo do garoto, trazida por quatro elfos.
        -        Devamos arranjar alguma coisa para mandar a Snuffles - murmurou Harry.
        -        Boa idia - aprovou Rony. - Dar a Pchi o que fazer. Vocs poderiam nos dar um pouco mais de comida? - perguntou Rony aos elfos que os rodeavam,
e eles se inclinaram prazerosamente e correram a apanhar alguma coisa.
        -        Dobby, onde est Winky? - perguntou Hermione, olhando para os lados.
        - Winky est ali adiante junto ao fogo, senhorita - respondeu
Dobby em voz baixa, suas orelhas caindo ligeiramente.
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        -        Essa, no! - exclamou Hermione ao localizar Winky.
        Harry tambm olhou para o fogo. Winky estava sentada no mesmo banquinho que da ltima vez, mas ficara to imunda que no se conseguia distingui-la imediatamente
dos tijolos enegrecidos de fumaa atrs dela. Suas roupas estavam rasgadas e sujas. Segurava uma garrafa de cerveja amanteigada e cambaleava um pouco no banquinho,
olhando fixamente para as chamas do fogo. Enquanto eles a observavam, ela soltou um imenso soluo.
        -        Winky est entornando seis garrafas por dia agora - Dobby cochichou a Harry.
        -        Bem, no  uma bebida muito forte - ponderou Harry.
        Mas Dobby sacudiu a cabea.
        -         forte para um elfo domstico, meu senhor.
        Winky soltou outro soluo. Os elfos que tinham trazido as bombas de creme lanaram a ela um olhar de censura antes de voltarem aos seus afazeres.
        -        Winky est definhando, Harry Potter - disse Dobby tristemente. - Winky quer ir para casa. Winky ainda acha que o Sr. Crouch  o amo dela, meu senhor, 
e nada que Dobby diga consegue convencer ela de que o Prof. Dumbledore  o novo amo da gente.
        -        Oi, Winky - disse Harry, tomado de sbita inspirao, indo at o fogo e se abaixando para falar com ela -, voc por acaso saberia me dizer o que 
 que o Sr. Crouch pode estar fazendo? Porque ele parou de aparecer para julgar o Torneio Tribruxo.
        Os olhos de Winky pestanejaram. Suas enormes pupilas focalizaram Harry. Ela cambaleou ligeiramente e perguntou:
        -                M-meu amo parou, hic, de vir?
        -        Foi - confirmou Harry -, no o vemos desde a primeira tarefa. O Profeta
Di rio diz que ele est doente.
        Winky balanou mais um pouco, encarando Harry com os
olhos baos.
        -        M-meu amo, hic, doente?
        O        lbio inferior do elfo comeou a tremer.
        -        Mas no temos certeza de que seja verdade - acrescentou Hermione depressa.
        -        Meu amo est precisando da, hic, Winky dele! - choramingou
o elfo. - Meu amo no, hic, sabe, hic, se cuidar sozinho...
        -        Outras pessoas conseguem fazer o trabalho de casa sozinhas, sabe, Winky - lembrou Hermione com severidade.
#426
        -        Winky, hic, no faz s, hic, trabalho de casa para o Sr. Crouch! - guinchou Winky indignada, cambaleando mais que nunca e derramando cerveja amanteigada
na blusa j bastante suja.
- Meu amo, hic, confiou a Winky, hic, o segredo dele, hic, mais importante, o mais secreto...
        -        Qu? - exclamou Harry.
        Mas Winky sacudiu a cabea com fora, derramando mais cerveja amanteigada pela roupa.
        -        Winky guarda, hic, os segredos do amo dela - disse com rebeldia, oscilando fortemente para os lados agora, franzindo a testa para Harry com os olhos
vesgos. - Voc est, hic, bisbilhotando, est sim.
        -        Winky no deve falar assim com Harry Potter! - disse Dobby aborrecido. -. Harry Potter  corajoso e nobre e Harry Potter no 
bisbilhoteiro!
        -        Ele est metendo o nariz, hic, nos segredos e particulares, hic, do meu amo, hic, Winky  um bom elfo domstico, hic, Winky fica calada, hc, gente 
querendo, hic, tirar informaes, hic... - As plpebras de Winky se fecharam e, de repente, sem aviso, ela escorregou do banquinho e caiu no fogo, roncando alto. 
A garrafa vazia de cerveja amanteigada rolou pelo cho lajeado.
        Meia dzia de elfos domsticos se adiantaram correndo, com ar de repugnncia. Um deles apanhou a garrafa, os outros cobriram Winky com uma grande toalha 
xadrez de mesa e prenderam os lados e pontas por baixo do corpo para escond-la de vista.
        -        A gente lamenta que os senhores e a senhorita tenham que assistir a isso! - guinchou um elfo prximo, balanando a cabea e parecendo muito envergonhado. 
- A gente espera que os senhores no julguem a gente pela Winky!
        - Ela est infeliz! - exclamou Hermione exasperada. - Por que vocs no tentam animar Winky em vez de a esconder?
        -        Me perdoa, senhorita - disse um elfo fazendo uma grande reverncia -, mas elfos domsticos no tm o direito de ficar infelizes quando tm trabalho 
a fazer e amos para servir.
        -        Ora, francamente! - exclamou Hermione enraivecida. - Escutem aqui, vocs todos! Vocs tm tanto direito de se sentir
infelizes quanto os bruxos! Vocs tm direito a salrio, frias e roupas
decentes, no tm que fazer tudo o que mandam, olhem s o
Dobby!
#427
        -        Senhorita, por favor, deixa o Dobby fora disso - murmurou o elfo, com uma expresso amedrontada. Os sorrisos alegres desapareceram dos rostos dos
elfos na cozinha. De repente fitaram Hermione como se ela fosse louca e perigosa.
        -        A gente separou a comida extra! - guinchou um elfo ao cotovelo de Harry empurrando um grande presunto, uma dzia de
bolos e umas frutas nos braos do garoto. - Tchau.
Os elfos domsticos se aglomeraram ao redor de Harry, Rony
e Hermione e comearam a levar os garotos lentamente para fora
da cozinha, muitas mozinhas os empurraram pela cintura.
        -        Obrigado pelas meias, Harry Potter! - gritou Dobby desalentado l do fogo, onde se achava parado ao lado da toalha que
cobria as formas de Winky.
        -        Voc no podia ter ficado calada, no , Mione? - exclamou Rony enraivecido quando a porta da cozinha se fechou s costas deles. - Agora eles no
vo querer receber visitas nossas! Poderamos ter tentado extrair de Winky mais alguma coisa sobre o Crouch!
        -        Ah, como se voc se importasse com isso! - desdenhou Hermione. - Voc s gosta de vir aqui embaixo para comer!
        Foi um dia meio irritante depois disso. Harry ficou to cansado de Rony e Hermione se agredirem durante o dever de casa, na sala comunal, que, naquela noite,
levou sozinho a comida de Sirius para o corujal.
Pichitinho era demasiado pequeno para transportar sozinho um presunto inteiro at a montanha, por isso Harry recrutou a ajuda de mais duas corujas-das-torres. Quando
o grupo de aves saiu pelo crepsculo, parecendo esquisitssimo com aquele enorme pacote entre elas, Harry se apoiou no parapeito da janela para contemplar os jardins
ao anoitecer, as copas farfalhantes das rvores da Floresta Proibida, as velas enfunadas no navio de Durmstrang. Um mocho atravessou a serpentina de fumaa que saa
da chamin de Hagrid; voou em direo ao castelo, contornou o corujal e desapareceu de vista. Olhando para baixo, Harry viu Hagrid cavando energicamente a terra
diante de sua cabana. E se perguntou o que o amigo estaria fazendo; parecia 
estar preparando mais um canteide hortalias. Enquanto ele observava, Madame Maxime saiu
da carruagem da Beauxbatons e se dirigiu a Hagrid. Pelo jeito estava
tentando puxar conversa. Hagrid se apoiou na p, mas no pareceu
#428
estar muito interessado em prolongar o dilogo, porque a bruxa
voltou  carruagem pouco depois.
        Sem vontade de voltar  Torre da Grifinria e ouvir Rony e Hermione rosnarem um para o outro, o garoto ficou observando Hagrid cavar at a escurido engoli-lo
e as corujas ao seu redor comearem a acordar, passarem por ele e desaparecerem na noite.
                No dia seguinte,  hora do caf da manh, o mau humor de Rony
                e Hermione j se desgastara e, para alvio de Harry, as previses
sombrias de Rony de que os elfos domsticos mandariam comida
                de qualidade abaixo do normal para a mesa da Grifinria, porque
                Hermione os ofendera, se provaram falsas; o bacon com ovos e o
                peixe defumado estavam bons como sempre.
                   Quando o correio-coruja chegou, Hermione ergueu os olhos,
                ansiosa; parecia estar  espera de alguma coisa.
                  - Ainda no deu tempo para Percy responder - disse Rony. -
S despachamos a Edwiges ontem.
        -        No, no  isso - falou Hermione. - Fiz outra nova assinatura do Profeta
Dirio, estou cheia de descobrir o que acontece pela
boca da turma da Sonserna.
        -        Bem pensado! - exclamou Harry, tambm erguendo os olhos para as corujas. - Ei, Mione acho que voc est com sorte...
-        Uma coruja cinzenta vinha descendo em direo  garota.
-        Mas ela no est trazendo nenhum jornal - comentou Hermione, com ar de desapontamento. - Mas para seu espanto, a coruja cinzenta pousou diante do seu
prato acompanhada de perto por mais quatro corujas-de-igreja,
uma coruja parda e uma avermelhada.
        -        Quantas assinaturas voc fez? - perguntou Harry agarrando a taa de Hermione antes que ela fosse derrubada pelo ajuntamento de corujas, todas se 
empurrando para chegar mais perto e entregar as cartas que traziam primeiro.
        -        Que diabo...? - exclamou Hermione, tirando a carta da coruja cinzenta e abrindo-a para ler.
"Ora francamente!", disse ela com veemncia, corando.
        -        Que ? - perguntou Rony.
        -        , ora que ridculo... - A garota empurrou a carta para
#429
Harry, que observou que no era manuscrita mas composta por letras aparentemente recortadas do
Profeta Dirio.

Voc no PresTA. HaRRy PottEr meREce umA gaRotA melhoR
Volte paRa o seu lugAR trOUxa.

-        So todas iguais! - exclamou Hermione desesperada, abrindo uma carta atrs da outra. - "Harry Potter pode arranjar uma namorada melhor do que algum da
sua laia..." "Voc merece ser cozida com ovas de r..." Ai!
        Hermione abrira o ltimo envelope e um lquido verde-
amarelado, que cheirava fortemente a gasolina, derramou-se em
suas mos, fazendo irromper nelas grandes tumores amarelos.
        - Pus de bubotbera puro! - disse Rony, apanhando, desajeitado, o envelope e cheirando-o.
        -        Ai! - exclamou Hermione, as lgrimas enchendo seus olhos quando tentou limpar as mos em um guardanapo, mas seus dedos agora estavam to cobertos 
de feridas dolorosas que ela parecia at estar usando um par de grossas luvas com bolotas.
 melhor voc ir depressa  ala hospitalar - disse Harry,
quando as corujas ao redor da amiga levantaram vo -" diremos 
Profa Sprout aonde  que voc foi...
        -        Eu avisei a ela! - disse Rony quando Hermione saiu correndo do Salo Principal aninhando as mos no colo. - Avisei a ela para no aborrecer Rita 
Skeeter! Olhe s esta aqui... - Ele leu uma das cartas que Hermione tinha deixado para trs. - "Li no Semanrio das Bruxas como voc est enganando o Harry Potter, 
um garoto que j teve uma vida bastante atribulada, por isso no prximo correio vou lhe mandar um feitio,  s eu encontrar um envelope suficientemente grande." 
Caracas,  melhor ela se cuidar!
        Hermione no apareceu na aula de Herbologia. Quando Harry e Rony deixaram a estufa para a aula de Trato das Criaturas Mgicas, viram Malfoy, Crabbe e Goyle 
descendo os degraus da entrada do castelo. Pansy Parkinson cochichava e ria atrs deles com a turminha de garotas da Sonserina. Ao avistar Harry, ela gritou:
        - Potter, voc j brigou com a sua namorada? Por que ela estava
 to perturbada no caf da manh?
        Harry ignorou-a; no queria dar a Pansy a satisfao de saber
quanto mal o artigo do Semanrio das Bruxas causara.
#430
        Hagrid, que avisara na aula anterior que haviam terminado com os unicrnios, estava aguardando os alunos  frente da cabana, com um estoque recm-chegado
de caixotes, abertos aos seus ps. O nimo de Harry afundou ao avistar os caixotes - com certeza no era outra ninhada de explosivins? -, mas quando se aproximou
o suficiente para ver dentro, deparou com uma quantidade de bichos peludos e negros com longos focinhos. As patas dianteiras eram curiosamente chatas como ps, e
eles erguiam os olhos piscando para a classe, parecendo educadamente intrigados com toda aquela ateno.
        - So pelcios - anunciou Hagrid, quando a turma se agrupou ao seu redor. - So encontrados principalmente em minas. Gostam
de coisas brilhantes... a vm eles, olhem.
        Um dos bichos tinha saltado repentinamente e tentado arrancar o relgio de ouro de Pansy Parkinson do pulso. Ela gritou e deu
um pulo para trs.
        -        So bastante teis para procurar pequenos tesouros - disse Hagrid satisfeito. - Achei que podamos nos divertir com eles hoje. Esto vendo ali adiante?
- Ele apontou para um terreno em que a terra fora recentemente revolvida e que Harry o vira preparar da janela do corujal. - Enterrei ali algumas moedas de ouro.
Tenho um prmio para quem apanhar o pelcio que encontrar mais moedas.
Guardem as coisas valiosas que estiverem usando, escolham um bicho e se preparem para solt-lo.
        Harry tirou o relgio que ele continuava usando s por hbito, porque no funcionava mais, e enfiou-o no bolso. Depois apanhou um pelcio. O bicho enfiou
o longo focinho na orelha de Harry e cheirou-a entusiasmado. Era realmente muito fofo.
        -        Esperem um instante - disse Hagrid olhando para dentro do caixote -, tem um pelcio sobrando aqui... quem est faltando?
Onde est Hermione?
        -        Ela precisou ir  ala hospitalar - informou Rony.
        -        A gente explica mais tarde - murmurou Harry; Pansy Parkinson estava escutando.
        Foi sem dvida a maior diverso que j tinham tido em Trato das Criaturas Mgicas. Os pelcios entravam e saiam da terra como se fossem gua, cada qual correndo
de volta ao aluno que o soltara e cuspindo ouro em suas mos. O de Rony foi particularmente eficiente; no tardou a encher seu colo de moedas.
#431
        -        Pode se comprar um desses como bicho de estimao, Hagrid? - perguntou o garoto excitado, quando o pelcio dele tornou a mergulhar no solo sujando
suas vestes de lama.
        -        Sua me no iria ficar feliz, Rony - disse Hagrid sorrindo -, eles destroem uma casa, esses pelcios. Calculo que agora eles j encontraram tudo 
que enterrei - acrescentou, andando pelo terreno, enquanto os bichos continuavam a mergulhar. - S enterrei cem moedas. Ah,
a est voc, Hermione!
        A garota vinha atravessando o gramado em direo  turma.
Tinha as mos enfaixadas e parecia bem infeliz. Pansy Parkinson a
observou com desconfiana.
        -        Bem, vamos verificar como foi que vocs se sairam! - disse Hagrid. - Contem suas moedas! E no adianta tentar roubar nenhuma, Goyle - acrescentou 
ele, estreitando os olhos negros de besouro. -  ouro de duende irlands, de leprechaun. Desaparece depois de algumas horas.
        Goyle esvaziou os bolsos, emburradissimo. O resultado final foi que o pelcio de Rony tinha sido o mais bem-sucedido, ento Hagrid entregou ao garoto o prmio: 
uma enorme barra de chocolate da Dedosdemel. A sineta ecoou pelos jardins anunciando o almoo; o restante da turma saiu em direo ao castelo, mas Harry Rony e Hermione 
ficaram para ajudar Hagrid a guardar os pelcios nos caixotes. Harry notou que Madame Maxime os observava da janela da carruagem.
        -        Que foi que voc fez com as suas mos, Mione? - perguntou Hagrid, com o ar preocupado.
        A garota lhe contou sobre as cartas annimas que recebera
quela manh e sobre o envelope cheio de pus de bubotberas.
        - Aaah, no se preocupe - disse Hagrid brandamente, fitando-a.
-        Recebo cartas assim desde que a Rita escreveu sobre minha me. "Voc  um monstro e devia ser morto." "Sua me matou gente inocente e se voc tivesse alguma
decncia se atiraria no lago."
        -        No! - exclamou Hermione chocada.
        -        Sim! - respondeu Hagrid, erguendo os caixotes de pelcios para guard-los junto  parede da cabana. -  gente que no bate
bem, Mione. No abra mais cartas quando as receber. Jogue todas
 direto na lareira.
-        Voc perdeu uma aula realmente boa - comentou Harry
#432
com Hermione quando regressavam ao castelo. - So legais, os pelcios, no so Rony?
        Rony, porm, estava franzindo a testa para o chocolate dado
por Hagrid. Parecia absolutamente desapontado com alguma
coisa.
        -        Que foi? - perguntou Harry. - Sabor errado?
        -        No - disse Rony com rispidez. - Por que voc no me falou do ouro?
        -        Que ouro? - perguntou Harry.
        -        O ouro que lhe dei na Copa Mundial de Quadribol - disse Rony. - O ouro de leprechaun que lhe paguei pelos meus oniculos. No camarote de honra.
Por que voc no me contou que ele desapareceu?
        Harry teve que pensar um instante para entender do que  que
Rony estava falando.
        -        Ah... - disse, quando finalmente se lembrou. - No sei... nunca reparei que tinha desaparecido. Eu estava mais preocupado
com a minha varinha, no era?
        Os trs subiram os degraus para o saguo de entrada e foram
para o Salo Principal almoar.
        -        Deve ser legal - falou Rony abruptamente, depois que se sentaram e comearam a se servir de rosbife e pudim de Yorkshire, massa assada embaixo de
carne sangrenta. - Ter tanto dinheiro que nem se repara que os galees guardados no bolso desapareceram.
        -        Escuta aqui, eu tinha outras preocupaes na cabea aquela noite! - retrucou Harry com impacincia. - Todos tnhamos,
lembra?
        -        Eu no sabia que ouro de leprechaun desaparecia - murmurou Rony. - Achei que estava lhe pagando. Voc no devia ter me
dado aquele bon do Chudley Cannon no Natal.
        -        Esquece isso, t? - disse Harry.
Rony espetou uma batata assada com o garfo e ficou olhando
para ela. Depois disse:
- Detesto ser pobre.
Harry e Hermione se entreolharam. Nenhum dos dois sabia
realmente o que dizer.
        -         uma droga - disse Rony, ainda encarando a batata. - No posso culpar o Fred e o Jorge por tentarem ganhar um dinheirinho
extra. Gostaria de saber fazer o mesmo. Gostaria de ter um pelcio.
#433
        -        Bem, ento j sabemos o que comprar para voc no prximo Natal - disse Hermione animada. Mas vendo que o amigo continuava chateado, acrescentou:
- Vamos Rony, podia ser pior. Pelo menos os seus dedos no esto cheios de pus. - Hermione estava encontrando muita dificuldade para usar os talheres, de to inchados
e duros que seus dedos estavam. - Odeio aquela Skeeter! - explodiu a garota com raiva. - Vou me vingar dela nem que seja a ltima coisa que eu faa!

As cartas annimas continuaram a chegar para Hermione nas semanas seguintes e, embora ela tivesse seguido o conselho de Hagrid e parado de abri-las, vrios remetentes
odiosos mandaram berradores, que explodiam  mesa da Grifinria gritando-lhe ofensas que o salo inteiro podia ouvir. At as pessoas que no liam o Semanrio das 
Bruxas agora sabiam tudo sobre o suposto tringulo HarryKrum-Hermione. Harry estava ficando farto de explicar a todo mundo que Hermione no era sua namorada.
        -        Mas isso vai passar - disse ele  amiga -,  s a gente ignorar... as pessoas j acharam um tdio o ltimo artigo que ela escreveu sobre mim...
        -        Quero saber como  que ela est conseguindo escutar conversas particulares se supostamente foi banida dos terrenos da escola!
- disse Hermione zangada.
        Ela continuou na sala quando terminou a aula seguinte de Defesa contra as Artes das Trevas para fazer uma pergunta ao Prof. Moody. O restante da turma estava 
ansioso para sair; o professor lhes dera uma prova to dificil sobre deflexo de feitios que alguns alunos estavam cuidando de pequenos ferimentos. Harry teve um
caso grave de Comicho nas Orelhas e precisou tamp-las com as mos ao sair da sala.
        -        Bem, decididamente Rita no est usando uma Capa da Invisibilidade! - ofegou Hermione ao alcanar Harry e Rony cinco minutos mais tarde, no saguo
de entrada, e puxar a mo de Harry para afast-la de uma orelha que se contorcia sozinha, para que o
garoto pudesse ouvi-la. - Moody disse que no viu Skeeter nas proximidades da mesa dos juizes no dia da segunda tarefa, nem em
lugar algum perto do lago!
#434
        -        Hermione, ser que adianta lhe dizer para deixar isso para l?
        - perguntou Rony.
        -        No! - exclamou a garota teimosamente. - Quero saber como foi que ela me ouviu falando com o Vtor! Ecomo foi que ela
        descobriu a histria da me de Hagrid!
        -        Talvez ela tenha posto um grampo em voc - disse Harry.
        -        Um grampo? - perguntou Rony sem entender. - O qu... ps um prendedor no cabelo dela ou outra coisa assim?
        Harry comeou a explicar os microfones escondidos e os equipamentos de gravao.
        Rony ficou fascinado, mas Hermione os interrompeu.
- Ser que vocs nunca vo ler Hogwarts." uma histria?
        -        Para qu? - respondeu Rony. - Voc conhece o livro de cor,  s a gente lhe perguntar.
        -        Todas as alternativas para a magia que os trouxas usam, eletricidade, computadores, radar etectera, entram em pane perto de Hogwarrs, tem magia 
demais no ar. No, Rita est usando magia para escutar conversas, se eu ao menos conseguisse descobrir o que ... aah, se for ilegal, eu pego ela...
        -        Ser que a gente j no tem bastante preocupao? - perguntou Rony  amiga. - Temos que comear tambm uma vendeta
        contra a Rita?
        -        No estou pedindo a voc para ajudar! - retrucou Hermione.
        - Vou fazer isso sozinha!
        E subiu a escadaria de mrmore sem sequer olhar para trs.
        Harry tinha certeza absoluta de que ela estava indo  biblioteca.
        -        Quer apostar que ela volta com uma caixa cheia de distintivos Odeio Rita Skeeter?!
        Hermione, porm, no pediu a Harry e Rony para ajud-la a se vingar de Rita Skeeter, pelo que os dois ficaram muito gratos, porque a carga de deveres dos
garotos aumentou muito nos dias que antecederam as frias da Pscoa. Harry ficou maravilhado que Hermione pudesse pesquisar mtodos mgicos para a pessoa escutar
sem ser vista e ainda dar conta de todas as tarefas que tinha que fazer. Ele mesmo estava trabalhando sem descanso s para conseguir terminar todos os deveres, embora
fizesse questo de mandar, regularmente, pacotes de comida para a caverna de 
Sirius, no morro; depois das frias de vero Harry ainda no esquecera o que
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era ficar continuamente esfomeado. Inclua neles bilhetes a Sirius informando que no acontecera nada de extraordinrio e que continuavam aguardando uma resposta
de Percy.
        Edwiges s voltou no fim das frias da Pscoa. A carta de Percy veio acompanhando um pacote de ovos de Pscoa enviado pela Sra. Weasley. Os de Harry e Rony 
eram do tamanho de ovos de drago e cheios de caramelos caseiros. O de Hermione, porm, era menor do que um ovo de galinha. A garota ficou desapontada ao
receb-lo.
        -        Por acaso sua me l o Semanrio das Bruxas, Rony? - perguntou ela baixinho.
        -        L - disse Rony, que tinha a boca cheia de caramelos. - Tem assinatura por causa das receitas de comida.
        Hermione ficou olhando tristemente o ovinho recebido.
        -        No quer ver o que Percy escreveu? - perguntou Harry a ela, depressa.
        A carta de Percy era curta e irritada.

        Conforme canso de dizer ao Profeta Dirio, o Sr. Crouch est tirando um merecido descanso. Ele me manda, regularmente, corujas trazendo instrues. No,
na realidade no o tenho visto, mas acho que podem acreditar que conheo a caligrafia do meu superior. Tenho muito que fazer no momento, sem precisar estar desmentindo 
esses boatos ridculos. Por favor, no me incomodem mais a no ser que seja para alguma coisa importante. Feliz Pscoa.

O incio do trimestre de vero normalmente significava que Harry estaria treinando com vontade para a ltima partida de quadribol da temporada. Este ano, porm,
era para a terceira e ltima tarefa do Torneio Tribruxo que ele precisava se 
preparar, mas o garoto ainda no sabia qual ia ser. Finalmente, na ltima semana de
maio, a Profa McGonagall o reteve depois da aula de Transformao.
        -        Voc deve ir ao campo de quadribol hoje  noite, s nove horas, Potter - disse ela. - O Sr. Bagman vai estar l para falar aos
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 campees sobre a terceira tarefa.
        Ento, s oito e meia da noite, Harry deixou Rony e Hermione
na Torre da Grifinria e desceu a escada. Quando atravessou o
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saguo de entrada, Cedrico vinha subindo da sala comunal da Corvinal.
        -        Que  que voc acha que vai ser? - perguntou ele a Harry, quando desciam juntos os degraus para o jardim e para a noite nebulosa. - Fleur no pra 
de falar em tneis subterrneos, acha que vamos ter que encontrar um tesouro.
        -        Isso no seria nada mau - comentou Harry, pensando que bastaria pedir a Hagrid um pelcio para realizar sua tarefa.
        Eles caminharam pelos gramados escuros at o estdio de quadribol, atravessaram uma abertura sob as arquibancadas e saram
no campo.
        -        Que foi que fizeram com o campo? - exclamou Cedrico indignado, parando de chofre.
        O        campo de quadribol deixara de ser plano e liso. Parecia que algum andara construindo por todo ele muretas longas, que seguiam em meandros e o cruzavam 
em todas as direes.
        -        So sebes! - exclamou Harry, se curvando para examinar a mais prxima.
        -        Al, vocs a! - gritou uma voz animada.
        Ludo Bagman estava parado no meio do campo em companhia de Krum e Fleur. Harry e Cedrico procuraram chegar at o grupo, saltando por cima das sebes. Fleur 
abriu um grande sorriso para Harry quando ele se aproximou. Sua atitude para com o garoto mudara completamente desde que ele tirara sua irm do lago.
        -        Bem, que  que vocs acham? - perguntou Bagman alegre, quando Harry e Cedrico transpuseram a ltima sebe. - Esto crescendo bem, no? Dem mais 
um ms e Hagrid vai faz-las alcanar cinco metros de altura. No se preocupem - acrescentou ele ao ver as expresses pouco satisfeitas no rosto de Harry e Cedrico 
-, vocs vo ter o seu campo de quadribol normal depois que terminarem a tarefa! Agora, imagino que podem adivinhar o que estamos fazendo aqui?
        Ningum falou por um momento. Depois...
        -        Labirinto - resmungou Krum.
        -        Acertou! - disse Bagman. - Um labirinto. A terceira tarefa na 
realidade  muito simples. A taa do Torneio Tribruxo ser colocada
no centro do labirinto. O primeiro campeo que puser a mao nela recebe a nota maxma.
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        -        Temes samplement que atrravessar o labirrinto? - perguntou Fleur.
        -        Haver obstculos - disse Bagman alegremente,
balanando-se sobre a sola dos ps. - Hagrid est providenciando algumas criaturas... e haver tambm
feitios que vocs precisaro desfazer... essas coisas que vocs j conhecem. Agora, os campees que esto liderando a contagem de pontos entraro primeiro no labirinto.
- Bagman sorriu para Harry e Cedrico. - Depois entrar o Sr. Krum... depois a Srta. Delacour. Mas todos tero a mesma possibilidade de vencer, dependendo da percia 
com que superarem os obstculos. Ser divertido, no acham?
        Harry, que sabia muito bem que tipo de criaturas Hagrid iria arranjar para um evento de tal porte, achou muito improvvel que fosse divertido. Contudo, concordou 
educadamente com a cabea, como os demais campees.
        -        Muito bem... se no tiverem nenhuma pergunta a fazer, vamos voltar para o castelo, est meio frio...
        Bagman apressou-se a caminhar ao lado de Harry quando comearam a deixar o labirinto em crescimento. O garoto teve a impresso de que o bruxo ia comear 
a oferecer ajuda novamente, mas nesse instante, Krum bateu em seu ombro.
        -        Posso falarr com foc?
        -        Claro que sim - disse Harry ligeiramente surpreso.
        -        Foc pode andarr um pouco comigo?
        -        OK. - disse o garoto curioso.
        Bagman pareceu ligeiramente perturbado.
        -        Esperarei por voc, Harry, est bem?
        -        No, est tudo OK., Sr. Bagman - disse Harry contendo um sorriso. - Acho que posso encontrar o caminho para o castelo sozinho, obrigado.
        Harry e Krum saram juntos do estdio, mas Krum no tomou
o        rumo do navio de Durmstrang. Em vez disso, dirigiu-se  Floresta.
        -        Para que estamos indo nesta direo? - perguntou Harry, ao passarem pela cabana de Hagrid e a carruagem iluminada da Beauxbatons.
       - Non querro que me ouam - disse o rapaz secamente.
                Quando finalmente chegaram a um trecho sossegado, a
poucos
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passos do picadeiro dos cavalos da Beauxbarons, Krum parou  sombra de um grupo de rvores e se virou para encarar Harry.
        - Querro saberr - disse ele amarrando a cara - que  que h entre foc e Hermi--nini.
        Harry, que pela maneira sigilosa de Krum esperara algo muito
mais srio que aquilo, ergueu os olhos para Krum, admirado.
        -        Nada - disse ele. Mas Krum amarrou a cara, e Harry, mais uma vez admirado com o tamanho de Krum, explicou melhor. - Somos amigos. Ela no  minha
namorada nem nunca foi. Aquela tal da Skeeter est inventando coisas.
        -        Hermi--nini fala muito de foc - disse Krum, olhando desconfiado para Harry.
        -        Claro, porque somos amigos.
        Ele no estava conseguindo acreditar muito bem que estivesse tendo aquela conversa com
Vtor Krum, o famoso jogador internacional de quadribol. Era como 
se o Krum, com seus dezoito anos, achasse que ele, Harry, fosse seu igual - um rival de verdade...
        -        Foc nunca... foc non...
        -        No - disse Harry com firmeza.
        Krum pareceu um tantinho mais feliz. Fitou Harry durante alguns segundos, depois disse:
        - Foc foa muito bem. Fiquei assistindo a voc durante a primeira tarefa.
        - Obrigado - disse Harry com um grande sorriso, se sentindo subitamente muito maior. - Vi voc na Copa Mundial de
Quadribol. Naquela Finta de Wronski, voc 
realmente...
        Mas alguma coisa se mexeu s costas de Krum, entre as rvores, e Harry, 
que tinha alguma experincia com coisas que rondam a Floresta, instintivamente agarrou
Krum pelo brao e o puxou para um lado.
        - Que foi?
        Harry balanou a cabea, examinando com ateno o lugar em
que percebera o movimento. Meteu a mo dentro das vestes  procura da varinha.
        No momento seguinte um homem saiu cambaleando de trs
de um alto carvalho. Por um instante Harry no o reconheceu...
depois percebeu que era o Sr. Crouch.
        Tinha a aparncia de quem estava viajando h dias. Os joelhos
#439
de suas vestes estavam rasgados e ensangentados; seu rosto estava arranhado; e, ele, barbudo e cinzento de exausto. Os cabelos e bigodes sempre impecveis estavam
precisando de um xampu e de um corte. Sua estranha aparncia, porm, no era nada comparada  maneira com que estava agindo. Resmungava e gesticulava, parecia estar
falando com algum que somente ele conseguia ver. Lembrava a Harry vividamente um velho vagabundo que o garoto vira quando fora s compras com os Dursley. O tal
homem tambm conversava, alterado, com o vento; tia Petnia agarrara Duda pela mo
e o arrastara para o outro lado da rua para evitar o homem;
tio Vlter ento brindara a famlia com um longo discurso sobre o que gostaria de fazer com mendigos e vagabundos.
        - Ele non erra um dos juizes? - perguntou Krum de olhos arregalados para o Sr. Crouch. - Non  do seu ministrrio?
Harry confirmou com um aceno de cabea, hesitou por um
instante, depois se dirigiu lentamente ao Sr. Crouch, que no
olhou para ele, mas continuou a falar com uma rvore prxima:
        -        ... e depois que fizer isso, Wearherby, mande uma coruja a Dumbledore confirmando o nmero de estudantes de Durmstrang que viro ao torneio, Karkaroff
acabou de mandar uma mensagem dizendo que sero doze...
        -        Sr. Crouch? - chamou Harry cautelosamente.
        -        ... e depois mande outra coruja  Madame Maxime, porque ela talvez queira aumentar o nmero de estudantes que vai trazer, agora que Karkaroff arredondou 
para uma dzia... faa isso, Wearherby, por favor? Por favor? Por... - Os olhos do Sr. Crouch estavam saltados. Ele continuou encarando a rvore, resmungando silenciosamente 
para ela. Ento, cambaleou para os lados e caiu de joelhos.
        -        Sr. Crouch? - chamou Harry em voz alta. - O senhor est bem?
Os olhos de Crouch reviravam nas rbitas. Harry olhou para
os lados procurando Krum, que o seguira at as rvores e olhava
para Crouch assustado.
        -        Que  que ele tem?
       -No fao idia-murmurou Harry. -Escuta aqui,  melhor
voc ir buscar algum...
        -        Dumbledore! - arquejou o Sr. Crouch. Ele esticou a mo e
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agarrou com firmeza as vestes de Harry e arrastou-o para perto, embora seus olhos estivessem olhando por cima da cabea de Harry. - Preciso... ver... Dumbledore.
        -        OK - disse Harry -, se o senhor se levantar, Sr. Crouch, podemos ir
at...
        -        Fiz... uma... idiotice... - murmurou o Sr. Crouch. Parecia completamente demente. Revirava os olhos esbugalhados e um fio de saliva escorria pelo
seu queixo. Cada palavra que ele dizia parecia custar um esforo terrvel. - Preciso... falar... Dumbledore...
        -        Levante, Sr. Crouch - disse Harry em alto e bom som. - Levante e eu levo o senhor a Dumbledore!
Os olhos de Crouch giraram focalizando Harry.
        -        Quem  voc? - sussurrou o bruxo.
        -        Sou aluno da escola - disse Harry, olhando para Krum  procura de ajuda, mas o outro mantinha-se um pouco afastado, parecendo extremamente nervoso.
        -        Voc no ... dele? - sussurrou Crouch, deixando o queixo cair.
        -        No - respondeu Harry, sem ter a menor idia do que Crouch estava falando.
        -        De Dumbledore?
        -        Isso mesmo - disse Harry.
        Crouch puxou o garoto mais para perto; Harry tentou soltar a mo do bruxo que agarrava suas vestes, mas ele era demasiado
forte.
        -        Avise... Dumbledore...
        -        Vou buscar Dumbledore se o senhor me largar - disse Harry.
- Me largue, Sr. Crouch, e eu vou buscar o diretor...
        -        Obrigado, Weatherby, e quando voc terminar isso, eu gostaria de tomar uma xcara de ch. Minha mulher e meu filho vo chegar daqui a pouco, vamos
assistir a um concerto hoje  noite com o Sr. e a Sra. Fudge. - Crouch voltara a falar fluentemente com a rvore e parecia completamente despercebido da presena
de Harry, o que surpreendeu o garoto de tal modo que ele nem reparou que Crouch o soltara. - Meu filho recentemente obteve doze N.O.M"s com boas notas, obrigado,
claro, realmente muito orgulhosos. Agora se voc puder me trazer aquele memorando do Ministrio da Magia de Andorra, acho que terei tempo de preparar
uma resposta...
#441
        - Voc fica aqui com ele! - disse Harry a Krum. - Eu vou buscar Dumbledore, fao isso mais rpido, sei onde  o escritrio
dele...
        - Ele est doido - disse Krum hesitante, olhando para Crouch, que ainda tagarelava com a rvore, aparentemente convencido de
que falava com Percy.
        -        S precisa ficar aqui com ele - falou Harry comeando a se levantar, mas seu movimento pareceu disparar outra mudana sbita no Sr. Crouch, que
o agarrou com fora pelos joelhos e o puxou de volta ao cho.
        -        No... me... deixe! - sussurrou ele, os olhos se esbugalhando outra vez. - Eu... fugi... preciso avisar... preciso contar... ver Dumbledore... minha
culpa... tudo minha culpa... Berta... morta... tudo minha culpa... meu filho... minha culpa... diga a Dumbledore... Harry Potter... o Lord das Trevas... mais
forte...
Harry Potter...
        -        Vou buscar Dumbledore se o senhor me deixar ir, Sr. Crouch! - disse Harry. Ele olhou indignado para Krum. - Quer
me ajudar, por favor?
        Com um ar extremamente apreensivo, Krum se adiantou e se
acocorou ao lado do Sr. Crouch.
        - No deixa ele sair daqui - disse Harry se desvencilhando do Sr. Crouch. - Eu volto com Dumbledore.
        - Non demorre, por favorr - Krum gritou quando Harry se afastou correndo da Floresta e j ia subindo os gramados na escurido. Estavam desertos; Bagman,
Cedrico e Fleur haviam desaparecido. Harry galgou aos saltos os degraus da entrada, passou pelas portas de carvalho e continuou pela escadaria de mrmore acima em
direo ao segundo andar.
        Cinco minutos depois precipitava-se em direo a uma grgula de pedra que ficava no meio de um corredor vazio.
-        Sorbet de limo!- ofegou ele.
        Essa era a senha para a escada oculta que levava ao escritrio de Dumbledore - ou pelo menos tinha sido dois anos atrs. Porm, a senha evidentemente mudara,
porque a grgula de pedra no criou vida nem saltou para o lado, mas continuou imvel encarando
Harry com malevolncia.
        - Mexa-se! - Harry gritou para o ornamento. - Anda!
#442
Mas nada em Hogwarrs jamais se mexia s porque algum mandava; ele sabia que no
adiantava. Olhou para um lado e Outro do corredor. Quem sabe Dumbledore estaria na
sala dos professores? Ele comeou a correr o mais rpido que pde em direo 
escada...
        - POTTER!
        Harry parou derrapando e olhou para trs.
        Snape acabara de emergir da escada oculta atrs da grgula de pedra. A parede ia outra vez se fechando atrs dele, na hora exata
em que mandou Harry voltar.
-        Que  que voc est fazendo aqui, Potter?
        -        Preciso ver o Prof. Dumbledore! - disse Harry, correndo de volta, e novamente derrapando at parar diante de Snape. -  o Sr.
Crouch... ele acabou de aparecer... est na Floresta... est pedindo...
        -        Que tolice  essa? - exclamou Snape, seus olhos negros faiscando. - Do que  que voc est falando?
        -        O Sr. Crouch - gritou Harry. - Do Ministrio! Ele est doente ou outra coisa qualquer, est na Floresta, quer ver Dumbledore!
Me diga qual  a senha para entrar...
        - O diretor est ocupado, Potter - informou Snape, sua boca fina se crispando num sorriso desagradvel.
        -        Tenho que informar a Dumbledore! - berrou Harry.
        - Voc no escutou o que eu disse, Potter?
        Harry podia perceber que Snape estava se divertindo intensamente em recusar o que ele queria ao v-lo em pnico.
        - Olhe - disse Harry com raiva -, Crouch no est bem... ele est... ele est delirando... diz que precisa prevenir...
        A parede de pedra s costas de Snape se abriu. Dumbledore
surgiu  entrada, trajando longas vestes verdes e tinha uma expresso de curiosidade no rosto.
        -        Algum problema? - perguntou ele, olhando de Harry para Snape.
-        Professor! - disse Harry, dando um passo para o lado antes que Snape pudesse responder. - O Sr. Crouch est aqui, est l na
loresta, diz que quer falar com o senhor!
        Harry esperava que Dumbledore fizesse perguntas, mas, para seu alvio, ele no fez nada disso.
 -        Leve-me at l - disse o diretor prontamente, e saiu para o
#443
corredor acompanhando  Harry e deixando Snape parado ao lado da grgula com uma cara duas vezes mais feia.
        -        Que foi que o Sr. Crouch disse, Harry? - perguntou Dumbledore enquanto desciam apressados a escadaria de mrmore.
        -        Disse que quer prevenir o senhor... disse que fez uma coisa horrvel... mencionou o filho... e Berta Jorkins... e... e Voldemort...
alguma coisa sobre Voldemort estar ficando mais forte...
        -        De fato - disse Dumbledore e apertou o passo quando saram para a escurido de breu.
        -        Ele no est agindo normalmente - disse Harry correndo ao lado de Dumbledore. - Parece que no sabe onde est. Fala o tempo todo como se achasse 
que Percy Weasley est l e depois muda e diz que precisa ver o senhor. Deixei-o com Vtor Krum.
        -        Deixou? - exclamou Dumbledore com severidade e comeou a dar passadas ainda maiores, de modo que Harry precisou correr para acompanh-lo. - Voc
sabe se mais algum viu o Sr. Crouch?
        -        No - respondeu Harry. - Krum e eu estvamos conversando, o Sr. Bagman tinha acabado de nos falar sobre a terceira tarefa,
ficamos para trs e ento vimos o Sr. Crouch saindo da Floresta...
        -        Onde  que eles esto? - perguntou Dumbledore ao ver a carruagem da Beauxbatons emergir da escurido.
        -        Ali na frente - disse Harry adiantando-se ao diretor Dutnbledore e mostrando o caminho entre as rvores. Ele no ouvia mais a voz de Crouch, mas 
sabia aonde estava indo; no era muito alm da carruagem... em algum lugar por aqui...
        -        Vtor? - chamou Harry.
        Ningum respondeu.
        -        Deixei os dois aqui - disse Harry a Dumbledore. - Decididamente estavam em algum lugar por aqui...
        -        Lumus - ordenou Dumbledore, acendendo sua varinha e erguendo-a.
        O        feixe fino de luz se deslocou de um tronco a outro, iluminando o cho. Ento recaiu sobre dois ps.
        Harry e Dumbledore acorreram. Krum estava estatelado no
cho da Floresta. Parecia ter perdido os sentidos. No havia nem
sinal do Sr. Crouch. Dumbledore se curvou para Krum e gentilmente ergueu uma de suas plpebras.
#444
        -        Estuporado - comentou baixinho. Seus oclinhos de meia-lua cintilaram  luz da varinha quando ele examinou as rvores que os
rodeavam.
        - O senhor quer que eu v buscar algum? - perguntou Harry.
- Madame Pomfrey?
        - No - disse Dumbledore na mesma hora. - Fique aqui.
        O diretor ergueu a varinha e apontou-a para a cabana de Hagrid. Harry viu-a disparar uma coisa prateada que voou entre as rvores como um pssaro fantasmagrico. 
Ento Dumbledore tornou a se curvar para Krum, apontou a varinha para o rapaz e murmurou:
- Enervate.
        Krum abriu os olhos. Parecia atordoado. Quando viu Dumbledore, tentou se sentar, mas o diretor pousou a mo no ombro
dele e o fez continuar deitado.
        - Ele me atacou! - murmurou Krum, levando a mo  cabea.
- O velho doido me atacou! Eu estava olhando parra os lados parra verr onde Potterr tinha ido e ele me atacou pelas costas!
        - Fique deitado um pouco - mandou Dumbledore.
        Um reboar de fortes passadas chegou aos ouvidos do grupo e
Hagrid apareceu ofegante com Canino nos calcanhares. Trazia o
arco.
        - Prof. Dumbledore! - disse ele arregalando os olhos. - Harry que dia...?
        -        Hagrid, preciso que voc v buscar o Prof. Karkaroff- disse Dumbledore. - O aluno dele foi atacado. Quando terminar, por
favor, alerte o Prof. Moody...
        -        No  necessrio, Dumbledore - ouviu-se um rosnado asmtico -, j estou aqui. - Moody vinha mancando em direo a eles,
apoiado na bengala, a varinha acesa.
        -        Porcaria de perna - reclamou furioso. - Teria chegado mais rpido... que foi que houve? Snape me disse alguma coisa sobre
Crouch...
        -        Crouch? - repetiu Hagrid sem entender.
        -        Karkaroff, por favor, Hagrid! - disse Dumbledore energica mente. 
        -        Ah, sim... certo, professor... - disse Hagrid e, dando as costas, desapareceu entre as rvores escuras, Canino trotando ao seu lado.
#       445
        -        No sei aonde foi parar Bart Crouch - disse Dumbledore a Moody -, mas  essencial que o encontremos.
        -        J estou indo - rosnou Moody e, puxando a varinha, saiu coxeando pela Floresta.
        Nem Dumbledore nem Harry tornaram a falar at ouvirem os sons inconfundveis de Hagrid e Canino voltando. Karkaroff seguia apressado atrs deles. Usava suas 
elegantes peles prateadas e parecia plido e agitado.
        -        Que  isso? - exclamou, quando viu Krum no cho, e Dumbledore e Harry ao lado do rapaz. - Que  que est acontecendo?
        -        Fui atacado! - informou Krum, agora se sentando e esfregando a cabea. - O Sr. Crrouch ou que nome tenha...
        -        Crouch o atacou? Crouch atacou voc? O juiz do Tribruxo?
        -        Igor - comeou a falar Dumbledore, mas Karkaroff se erguera puxando as peles para perto do corpo, o rosto lvido.
        -        Traio! - urrou ele apontando para Dumbledore. -  uma conspirao! Voc e o seu Ministro da Magia me atraram at aqui sob falsos pretextos, Dumbledore! 
Isto no  uma competio honesta! Primeiro voc sorrateiramente inscreve Potter no torneio, embora ele seja menor de idade! Agora um dos seus amigos do Ministrio 
tenta pr o meu campeo fora de ao! Estou farejando falsidade e corrupo nesse torneio todo e voc, Dumbledore, voc, com a sua conversa de estreitar os vnculos 
entre os bruxos estrangeiros, de refazer velhos laos, de esquecer as velhas diferenas, isto  o que penso de voc!
        Karkaroff cuspiu no cho aos ps de Dumbledore. Com um
movimento rapido, Hagrid agarrou o bruxo pela gola das peles,
ergueu-o no ar e empurrou-o contra uma rvore prxima.
        -        Pea desculpas! - rosnou Hagrid, enquanto Karkaroff tentava respirar com aquele punho macio em sua garganta, seus ps
balanando no ar.
        -        Hagrid, no! - gritou Dumbledore com os olhos faiscando.
        Hagrid soltou a mo que prendia Karkaroff contra a rvore, o
bruxo escorregou pelo tronco e desmontou numa massa informe
        aos seus  ps; alguns  gravetos caram em sua cabea.
        -        Tenha a bondade de acompanhar Harry at o castelo, Hagrid
-        disse Dumbledore energicamente.
#446
        Respirando ruidosamente, Hagrid lanou a Karkaroff um olhar carrancudo.
        -        Talvez seja melhor eu ficar aqui, diretor...
        -        Voc vai levar Harry de volta ao castelo, Hagrid - repetiu Dumbledore com firmeza. - Leve-o diretamente  Torre da Grifinria. E Harry, quero que 
fique l. Qualquer coisa que queira fazer, corujas que queira despachar, pode esperar at de manh, est me entendendo bem?
        -        Hum, sim, senhor - aquiesceu Harry, com os olhos no diretor. Como Dumbledore soubera que naquele exato momento ele estava pensando em mandar Pichitinho 
direto a Sirius para lhe contar o que acontecera?
        -        Vou deixar Canino com o senhor, diretor - disse Hagrid, ainda olhando ameaadoramente para Karkaroff, que continuava cado ao p da rvore enredado 
em peles e razes. - Parado, Canino. Vamos, Harry.
        Eles passaram em silncio pela carruagem da Beauxbatons e
subiram em direo ao castelo.
        -        Como  que ele se atreve - rosnou Hagrid, quando margeavam o lago. - Como  que ele se atreve a acusar Dumbledore. Como se Dumbledore fosse capaz 
de uma coisa dessas. Como se Dumbledore quisesse que voc participasse do torneio, para comear. Preocupado! No me lembro de ter Visto Dumbledore mais preocupado 
do que tem estado ultimamente. E voc! - disse Hagrid voltando-se zangado para Harry, que ergueu os olhos para ele, espantado. - Que  que voc estava fazendo andando 
por a com esse desgraado do Krum? Ele  aluno de Durmstrang, Harry! Podia ter azarado voc ali mesmo, no podia? Ser que Moody no lhe ensinou nada? Imagina deixar 
ele afastar voc dos outros..
        -        Krum  legal! - interrompeu-o Harry, quando subiam os degraus para o saguo de entrada. - Ele no estava tentando me
azarar, s queria conversar comigo sobre a Mione...
        -        Eu  que vou ter uma conversnha com ela - falou Hagrid mal-humorado, subindo os degraus com estrondo. - Quanto menos vocs tiverem contato com 
esses estrangeiros, melhor vo ficar. No se pode confiar em nenhum deles.
        -        Voc parece que est se dando muito bem com a Madame Maxime - respondeu Harry, aborrecido.
        -        No fale dela comigo! - disse Hagrid, e naquele instante
parecia
#447
assustador. - Agora j sei quem ela ! Tentando voltar s minhas boas graas para eu contar a ela qual vai ser a terceira tarefa. Ah! No se pode confiar em
nenhum deles!
        Hagrid estava to mal-humorado que Harry ficou feliz de se despedir dele diante do quadro da Mulher Gorda. Passou pelo buraco do retrato, desembocando na 
sala comunal e correu direto para o canto em que Rony e Hermione estavam sentados, para narrar aos dois o que acontecera.

#448


*****


- CAPITULO VINTE E NOVE -
O sonho


-        A coisa se resume no seguinte - disse Hermione esfregando a testa -, ou o Sr. Crouch atacou Vtor ou outra pessoa atacou os dois, quando Vtor no estava
olhando.
        -        Deve ter sido o Crouch - disse Rony na mesma hora. - por isso que ele j tinha desaparecido quando Harry e Dumbledore
chegaram l. Deu no p.
        -        Acho que no - disse Harry balanando a cabea. - Ele parecia realmente fraco, acho que no tinha foras para desaparatar
nem nada.
        -        Ningum pode desaparatar nas terras de Hogwarrs, j no disse isso a vocs um monto de vezes? - reclamou Hermione.
        -        OK.... ento que tal esta outra teoria - props Rony excitado:
- Krum atacou Crouch, no, perai, ento se estuporou!
        -        E o Sr. Crouch se evaporou, no  mesmo? - disse Hermione com frieza.
-Ah, ...
        O        dia estava amanhecendo. Harry, Rony e Hermione tinham sado muito cedo dos seus dormitrios e corrido at o corujal, juntos, a despachar um bilhete 
para Sirius. Agora estavam parados contemplando os jardins cobertos de nvoa. Os trs estavam plidos, os olhos inchados, porque ficaram conversando at tarde sobre 
o Sr. Crouch.
        -        Vamos recapitular, Harry - disse Hermione. - Que foi que o Sr. Crouch realmente disse?
        -        J falei que ele no estava fazendo muito sentido - repetiu Harry. - Disse que queria prevenir Dumbledore sobre alguma
coisa. Tenho certeza de que ele mencionou Berta Jorkins e parecia
 achar que ela estava morta. No parava de repetir que muita coisa
era culpa dele... mencionou o filho.
#449
        -        Bem, isso foi culpa dele - disse Hermione irritada.
        -        Ele estava delirando - continuou Harry. - Metade do tempo dava a impresso de acreditar que a mulher e o filho ainda
estavam vivos, e ele no parava
de falar com Percy sobre servio e de lhe dar instrues.
        -        E... o que foi mesmo que ele disse sobre Voc-Sabe-Quem? perguntou Rony inseguro.
        -        Eu j contei - respondeu Harry chateado. - Disse que ele est ficando mais forte.
        Houve uma pausa.
        Ento Rony num tom de falsa segurana disse:
        -        Mas ele estava delirando, conforme voc falou,
portanto metade disso provavelmente era s delrio...
        -        Ele ficava mais sensato quando tentava falar de Voldemorrdisse Harry, no dando ateno  careta de Rony. - Estava real mente com dificuldade para
formar frases, mas isso era quando parecia que sabia onde estava e o que queria fazer. Ele no parava
de dizer que queria ver Dumbledore.
        Harry se afastou da janela e olhou para os caibros do telhado. Metade dos numerosos poleiros estava vazia; de vez em quando, mais uma coruja entrava voando
por uma das janelas, voltando de uma caada noturna com um rato no bico.
        -        Se Snape no tivesse me atrasado - comentou Harry-,
talvez a gente tivesse chegado l a tempo. "O diretor est ocupadop Potter... que tolice  essa,
Potter?" Por que ele simplesmente no saiu do caminho?
        -        Talvez no quisesse que vocs chegassem l! - disse Rony depressa. - Talvez, calma a, com que rapidez voc acha que ele poderia ter ido at a Floresta?
Voc acha que ele podia ter chegado l antes de voc e Dumbledore?
        -        No, a no ser que ele seja capaz de se transformar num morcego ou outra coisa do gnero.
        -        Eu no duvido nada - murmurou Rony.
        -        Precisamos ver o Prof. Moody - disse Hermione. - Precisamos descobrir se ele encontrou o Sr. Crouch.
        - Se tivesse Levado o Mapa do Maroto com ele, teria sido fcil
-        disse Harry.
#450
        -        A no ser que Crouch j tivesse sado de Hogwarts - lembrou Rony -, porque o mapa s mostra o que est dentro dos limites,
nao...
        -        Psiu! - exclamou Hermione de repente.
        Algum estava subindo a escada para o corujal. Harry ouviu
duas vozes discutindo, cada vez mais prximas.
        -        ... isso  chantagem,  o que , e poderamos nos meter em uma baita enrascada por causa disso...
tentamos ser gentis, est na hora de jogar sujo com o cara.
Ele no ia gostar que o Ministrio da Magia soubesse o que ele
fez...
        -        Estou falando, se voc puser isto por escrito, ser chantagem!
        -        , mas voce nao ia reclamar se consegussemos um bom pagamento por isso, ia?
        A porta do corujal se abriu com estrondo. Fred e Jorge apareceram no portal e em seguida congelaram ao verem Harry, Rony e
Hermione.
        -        Que  que vocs esto fazendo aqui? - perguntaram Rony e Fred ao mesmo tempo.
        -        Despachando uma carta - responderam Harry e Jorge em unssono.
        -        Qu, a esta hora? - se admiraram Hermione e Fred.
        Fred sorriu.
        -        timo, ns no perguntamos o que vocs esto fazendo, se vocs no nos perguntarem - disse ele.
        Ele segurava um envelope fechado na mo. Harry deu uma
olhada, mas Fred, fosse por acaso ou de propsito, escorregou a
mo, tampando o nome do destinatrio.
        - Bem, no se prendam por ns - disse ele, fazendo uma reverncia cmica e indicando a porta.
        Rony no se mexeu.
        - Quem  que vocs esto chantageando? - perguntou.
        O sorriso desapareceu do rosto de Fred. Harry viu Jorge olhar Fred de relance antes de sorrir para Rony.
        - No seja idiota, eu s estava brincando - disse ele  vontade.
        - No parecia - insistiu Rony.        
        Fred e Jorge se entreolharam.
        Ento Fred disse abrupramente:
#451
        -        J lhe avisamos antes, Rony, no meta o nariz se gosta do feirio que ele tem. No vejo por que voc iria meter, mas...
        -        Mas  da minha conta se vocs estiverem chantageando algum. Jorge tem razo, vocs poderiam acabar numa baita enrascada.
        -        J lhe disse, eu estava brincando - disse Jorge. Ele foi at Fred, tirou a carta das mos do irmo e comeou a prend-la  perna da coruja-de-igreja 
mais prxima. - Voc est comeando a falar como o nosso querido irmo mais velho, sabe, Rony. Continue assim e vai acabar monitor-chefe.
        -        No, no vou, no! - protestou Rony indignado.
        Jorge levou a coruja at a janela e deixou-a levantar vo.
        Ele se virou e sorriu para Rony.
        -        Bem, ento pare de dizer s pessoas o que fazer. At mais tarde.
        Ele e Fred sairam do corujal. Harry, Rony e Hermione ficaram
se entreolhando.
        -        Vocs no acham que eles sabem alguma coisa dessa histria
toda, acham? - sussurrou Hermione. - Do Crouch e todo o resto?
        -        No - disse Harry. - Se fosse uma coisa sria assim eles contariam a algum. Contariam a Dumbledore.
Rony, no entanto, estava com um ar constrangido.
        -        Que foi? - perguntou Hermione.
        -        Bem... - respondeu Rony lentamente - no sei se contariam. Eles... ultimamente esto obcecados com a idia de fazer dinheiro, notei isso quando
estava andando com eles, quando... vocs sabem...
        -        Ns dois no estvamos nos falando - Harry terminou a frase para ele. - , mas chantagem...
        -         essa idia deles de abrirem uma loja de logros. Pensei que estivessem falando nisso s para aborrecer mame, mas esto realmente falando srio,
querem abrir uma loja. S falta um ano para eles terminarem Hogwarrs, eles no param de falar que est na hora de pensar no futuro e papai no pode ajud-los, precisam 
de ouro para comear um negocio.
        Agora era Hermione que estava com um ar constrangido.
        
       - Sei, mas... eles no fariam nada contra a lei para conseguir
ouro. Fariam?
        -        Se fariam? - disse Rony com uma expresso de ceticismo. -
#452
No sei... eles no se importam muito de desrespeitar o regulamento, no  mesmo?
        -        , mas estamos falando da Lei - disse Hermione, parecendo amedrontada. - No  de um simples regulamento de escola... vo receber muito mais que
deteno por uma chantagem! Rony... talvez seja melhor voc contar ao Percy...
        -        Voc ficou maluca? - exclamou Rony. - Contar ao Percy? Ele provavelmente ia fazer como o Crouch, e entregaria os dois. - Ele ficou olhando a janela
por onde partira a coruja de Fred e Jorge, depois disse:
        "Vamos gente, vamos tomar caf."
        - Vocs acham que  muito cedo para procurar o Prof. Moody?
- perguntou Hermione quando desciam a escada circular.
        -        Acho - respondeu Harry. - Ele provavelmente nos detonaria pela porta se ns o acordssemos com o dia nascendo. Ia pensar que estamos querendo atac-lo
dormindo. Vamos esperar at a hora do intervalo.
        A aula de Histria da Magia jamais transcorrera to lentamente. Harry no parava de consultar o relgio de Rony, tendo finalmente jogado fora o seu, mas
o do amigo estava andando to devagar que ele poderia jurar que parara de funcionar tambm. Os trs garotos estavam to cansados que teriam gostadop de descansar
as cabeas nas carteiras e dormir; nem Hermione estava fazendo as anotaes de costume, sentava-se com a cabea apoiada na mo, mirando o Prof. Binns com os olhos
fora de foco.
        Quando a sineta finalmente tocou, eles saram correndo pelo corredor em direo  sala de Defesa das Artes das Trevas e encontraram o Prof. Moody de sada.
Ele parecia to cansado quanto os trs se sentiam. A plpebra do seu olho normal estava cada, dando ao seu rosto uma aparncia ainda mais torta do que a habitual.
        -        Prof. Moody? - chamou Harry, enquanto atravessavam o ajuntamento de alunos at o professor.
        - Ol, Potter - rosnou Moody. Seu olho mgico acompanhou uns alunos de primeiro ano que iam passando e que aceleraram o passo demonstrando nervosismo; depois 
o olho girou para a nuca do professor e observou-os virar o canto, s ento ele voltou a falar:
        - Entrem.
        Afastou-se, ento, para deix-los entrar em sua sala de aula
vazia, entrou em seguida mancando, e fechou a porta.
#453
        -        O senhor o encontrou? - perguntou Harry sem prembulos.
-        O Sr. Crouch?
        -        No - respondeu Moody. Ele foi at a escrivaninha,
sentou-se, esticou a perna de pau com um breve gemido e puxou um frasco de bolso.
        -        O senhor usou o mapa? - perguntou Harry.
        -        Naturalmente - disse o professor tomando um gole do frasco. - Fiz igualzinho a voc, Potter. Convoquei o mapa do meu
escritrio para a Floresta. O homem no estava em lugar algum.
        -        Ento ele desaparatou? - perguntou Rony.
        -        Npo se pode desaparatar nos terrenos da escola, Rony! - disse Hermione. - No existem outras maneiras que ele poderia ter
usado para desaparecer, existem, professor?
        O        olho mgico de Moody estremeceu ao pousar em Hermione.
        -        Voc  outra que poderia pensar numa carreira de auror - disse ele  garota. - Sua cabea funciona na direo certa, Granger.
        Hermione corou de prazer.
        -        Bem, ele no estava invisvel - falou Harry -, o mapa mostra pessoas invisveis. Ento ele deve ter deixado Hogwarts.
        -        Mas com as prprias pernas? - perguntou Hermione ansiosa. - Ou algum o fez deixar?
        -        , algum poderia ter feito isso, montar o Grouch numa vassoura e levar ele embora, no poderia? - perguntou Rony depressa, olhando esperanoso 
para Moody, como se tambm quisesse ouvir que tinha talento para auror.
        -        No podemos excluir um sequestro - rosnou Moody.
        -        Ento - disse Rony - o senhor acha que ele est em algum lugar de Hogsmeade?
        -        Poderia estar em qualquer lugar - respondeu Moody balanando a cabea. - A nica coisa de que temos certeza  que ele no
est aqui.
        O        professor deu um grande bocejo, suas cicatrizes se esticaram e sua boca torta deixou entrever que lhe faltavam vrios dentes.
        Ento disse:
        - Agora, Dumbledore me contou que vocs trs se imaginam 
investigadores, mas no h nada que possam fazer por Crouch. O
Ministrio vai procur-lo agora, Dumbledore j mandou uma
notificao. Potter, e voc se concentre na terceira tarefa.
#454
        -        Qu? - disse Harry. - Ah, sim...
        Ele ainda no parara um instante sequer para pensar no labirinto desde que deixara Krum na noite anterior.
        - Deve ser bem a sua praia, essa - disse o professor, erguendo os olhos para Harry e coando o queixo barbado e cheio de cicatrizes.
- Pelo que Dumbledore me contou, voc j conseguiu fazer coisas parecidas muitas vezes. Venceu uma srie de obstculos que guardavam a Pedra Filosofal no primeiro 
ano, no foi?
        - Ns ajudamos - disse Rony depressa. - Eu e Mione ajudamos.
        Moody se riu.
        -        Bem, ento ajude-o a treinar para esse e ficarei muito surpreso se ele no vencer. Nesse meio tempo... vigilncia constante, Potter. Vigilncia
constante. - Ele tomou mais um longo gole do frasco de bolso e seu olho mgico girou para a janela. Por ali via-se a vela principal do navio de Durmstrang.
        -        Vocs dois - seu olho normal estava posto em Rony e Hermione - fiquem colados no Potter, sim? Eu estou de olho nas
coisas, mas assim mesmo... nunca h olhos demais para se vigiar.


Sirius devolveu a coruja dos garotos na manh seguinte. Ela esvoaou ao lado de Harry no mesmo instante em que uma coruja castanho-amarelada pousou diante
de Hermione,
trazendo um exemplar do Profeta Dirio no bico. Ela apanhou o jornal, deu uma olhada nas primeiras pginas e disse:
        -        Ela no ouviu falar do Crouch! - comentou antes de se juntar a Rony e Harry para ler o que Sirius mandara dizer sobre os
misteriosos acontecimentos da antevspera.

        Harry - que brincadeira  essa de sair para a Floresta Proibida com Vtor Krum? Quero que voc jure, na volta deste correio, que no vai sair andando com
mais ningum  noite. H algum perigosssimo em Hogwarts. Para mim est muito claro que esse algum queria impedir Crouch de ver Dum biedore e voc provavelmente
esteve a poucos passos dele no escuro. Poderia ter sido morto.
        O        seu nome no foi parar no Clice de Fogo por acaso. Se algum est tentando atac-lo, essa  a ltima chance. Fique perto
de Rony e Hermione, no saia da Grifinria tarde da noite e se
#455
prepare para a terceira tarefa. Pratique estuporamento e desarmamento. Algumas azara es viriam a calhar. No h nada que voc possa fazer por Crouch. No se exponha
e se cuide. Estarei esperando a carta em que me dar sua palavra de que no vai mais ultrapassar os limites da escola.
Sirius

-        Quem  ele para me fazer sermo por ultrapassar os limites da escola? - disse Harry ligeiramente indignado enquanto dobrava a carta de Sirius e a guardava
no bolso interno das vestes. - Depois de tudo que ele aprontou na escola!
        -        Ele est preocupado com voc! - lembrou Hermione com rispidez. - E o mesmo se aplica a Moody e Hagrid! Por isso escute
o        que eles esto lhe dizendo!
        -        Ningum nem tentou me atacar este ano - disse Harry. - Ningum nem me fez absolutamente nada...
        -        Exceto colocarem o seu nome no Clice de Fogo - disse Hermione. - E devem ter tido um bom motivo para isso, Harry. Snuffles tem razo. Talvez estejam
esperando a hora certa. Talvez a terceira tarefa seja a que vo pegar voc.
        -        Olhem - disse Harry impaciente -, digamos que Snuffles tenha razo e algum estuporou Krum para seqUestrar Crouch. Bem, ele estaria escondido entre
as rvores perto de ns, certo? Mas esperou eu estar fora do caminho para agir, no foi? Portanto no est parecendo que eu seja o alvo deles, no ?
        -        Eles no poderiam fazer parecer um acidente se tivessem matado voc na Floresta. Mas se voc morresse durante a tarefa...
        -        Eles no se importaram de atacar Krum, no foi? Por que no aproveitaram para acabar comigo tambm? Poderiam ter feito
parecer que Krum e eu tnhamos duelado ou outra coisa qualquer.
        -        Harry, eu tambm no entendo - disse Hermione desesperada. - S sei que h um monte de coisas estranhas acontecendo e que no estou gostando nada...
Moody est certo, Snuffles est certo, voc tem que comear a treinar logo para a terceira tarefa. E no se esquea de responder a Sirius e prometer que no vai
sair por a sozinho outra vez.
# 456

Os jardins de Hogwarts nunca pareceram mais convidativos do que quando Harry foi obrigado a permanecer no castelo. Nos dias que se seguiram ele passou quase todo
o tempo livre na biblioteca com Hermione e Rony, consultando livros sobre azaraes ou ento em salas de aula desocupadas, em que eles entravam s escondidas para 
praticar. Harry se concentrou no Feitio Estuporante, que ele nunca usara antes. O problema era que sua prtica exigia certos sacrifcios de Rony e Hermione.
        -        No podamos seqUestrar Madame Nor-r-ra? - sugeriu Rony durante a hora de almoo na segunda-feira, ainda deitado de barriga para cima no meio da 
sala de Feitios, onde acabara de ser estuporado e reanimado por Harry pela quinta vez seguida. - Vamos estuporar a gata para variar. Ou quem sabe voc podia usar 
o Dobby, Harry, aposto que ele faria qualquer coisa para ajudar voc. No estou reclamando nem nada - o garoto se levantou esfregando as costas -, mas estou todo 
dodo...
        -        Bem, voc sempre sai de cima das almofadas, no ? - disse Hermione com
impacincia, rearrumando a pilha de almofadas usadas para o Feitio Expulsrio
que Flitwick deixara guardadas em um armrio. - Experimente cair de costas!
        -        Quando a gente est sendo estuporado, no consegue mirar muito bem, Hermione! - defendeu-se Rony aborrecido. - Por que
voce nao experimenta uma vez?
        -        Bem, acho que Harry j pegou o jeito - disse a garota apressada. - E no precisamos nos preocupar com o desarmamento, porque ele j sabe fazer isso 
h sculos... Acho que hoje  noite devamos comear algumas azaraes.
        A garota percorreu com os olhos a lista que tinham feito na
biblioteca
        -        Gosto da cara desta aqui - disse ela -, da Azarao de Impedimento. Deve retardar qualquer coisa que esteja tentando atacar
voc, Harry. Vamos comear por ela.
        A sineta tocou. Apressadamente eles enfiaram as almofadas no
armrio de Flirwick e sairam com cautela da sala de aula.
        -        Vejo vocs no jantar! - disse Hermione e foi para a aula de Artmancia, enquanto Harry e Rony seguiam para a aula de Adivinhao na Torre Norte.
Grandes feixes de sol, radiosamente dourados, vindos das altas janelas, cortavam o corredor. O cu l fora estava to intensamente azul que parecia esmaltado.
#457
        - Vai estar uma sauna na sala da Trelawney, ela nunca apaga aquela lareira - comentou Rony, quando comearam a subir a escada circular que levava  escada
prateada e ao alapo.
        E ele estava certo. A sala mal iluminada estava incomodamente quente. A fumaa da lareira perfumada estava mais densa que nunca. Harry sentiu a cabea tontear 
ao se dirigir a uma das janelas de cortinas corridas. Enquanto a Profa Sibila estava olhando para o outro lado, tentando soltar o xale de um abajur, ele abriu a 
janela uns dois dedinhos e tornou a se sentar em sua cadeira forrada de chintz, de modo que uma brisa suave correu pelo seu rosto. Ele se sentiu muitssimo confortvel.
        - Meus queridos - disse a professora, sentando-se em sua bergere diante da turma e percorrendo-a com seus olhos estranhamente aumentados -, estamos quase
no fim dos nossos estudos sobre adivinhao planetria. Hoje, no entanto, teremos uma excelente oportunidade de examinar os efeitos de Marte,
porque ele est em uma
posio muitssimo interessante neste momento. Se vocs todos olharem para c, eu vou diminuir a luz...
        Ela acenou com a varinha e as luzes se apagaram. A lareira ficou sendo a nica fonte de claridade. A Profa Sibila se curvou e tirou de baixo da poltrona 
um modelo do sistema solar, protegido por uma redoma de vidro. Era uma bela pea; cada uma das luas cintilantes estavam dispostas em torno dos nove planetas e do
sol esbraseado, todos suspensos no ar sob o vidro. Harry acompanhou indolentemente a professora comear a apontar o ngulo fascinante que Marte formava com Netuno.
A fumaa muito perfumada o envolveu e a brisa vinda da janela brincou pelo seu rosto. Ele ouviu um inseto zumbir suavemente em algum lugar atrs da cortina. Suas
plpebras comearam a pesar...
        Ele estava cavalgando s costas de um corujo, voando por um claro cu azul em direo a uma casa velha e coberta de hera, situada no alto de uma encosta. 
Eles foram voando cada vez mais baixo, o vento passando agradavelmente pelo rosto de Harry, at chegarem a uma janela escura e desmantelada no primeiro andar da 
casa, pela qual entraram. Agora estavam voando por um corredor
brio e chegaram a um quarto bem no final... cruzaram a porta
entraram nesse quarto escuro cujas janelas estavam pregadas...
        Harry desmontara das costas do corujo... e observou-o esvoaar
pelo quarto e pousar em uma poltrona virada de costas para
#458
ele... havia duas formas escuras no cho ao lado da cadeira... as duas se mexiam...
        Uma era uma enorme cobra... a outra, um homem... um
homem baixo, meio careca, um homem com olhos aquosos e um
nariz pontudo... ele arfava e soluava no tapete diante da lareira...
        -        Voc est com sorte, Rabicho - disse uma voz fria e aguda do fundo da poltrona em que o corujo pousara. - Voc tem de fato
muita sorte. O seu erro no chegou a arruinar tudo. Ele est morto.
        -        Milorde! - ofegou o homem no cho. - Milorde, estou... estou to satisfeito... e to arrependido...
        -        Nagini - disse a voz fria -, voc est sem sorte. Afinal, no  hoje que vou lhe dar Rabicho para comer... mas no se incomode,
no se incomode... ainda tem o Harry Potter...
        A cobra sibilou. Harry viu a lngua dela se agitar.
        -        Agora, Rabicho - disse a voz fria -, talvez mais um lembrete de por que no vou tolerar mais nenhum erro seu...
        -        Milorde... no... eu suplico...
        A ponta de uma varinha ergueu-se do fundo da poltrona.
Mirou Rabicho.
        -        Crucio - disse a voz fria.
        Rabicho berrou, berrou como se cada nervo do seu corpo estivesse em fogo, os berros encheram os ouvidos de Harry, ao mesmo tempo que a cicatriz em sua testa 
queimou de dor; ele estava berrando, tambm... Voldemort iria ouvi-lo, saberia que ele estava ali...
- Harry! Harry.
        Harry abriu os olhos. Estava cado no cho da sala da Profa Sibila, cobrindo o rosto com as mos. Sua cicatriz ardia com tanta intensidade que seus olhos
chegavam a lacrimejar. A dor fora real. A turma inteira estava parada  volta dele, e Rony se ajoelhara de um lado, com uma expresso de terror no rosto.
        -        Voc est bem? - perguntou.
        -         claro que no est! - disse a professora, parecendo alvoroadssima. Seus grandes olhos miraram Harry, ameaadores. - Que foi, Potter? Uma premonio?
Uma apario? Que foi que voc viu?
        -        Nada - mentiu Harry. Ele se sentou. Sentia os prprios tremores. No conseguia parar de olhar para todo lado, para as sombras s suas costas. A
voz de Voldemort soara to prxima...
        -        Voc estava apertando sua cicatriz! - disse a professora. -
#459
Voc estava rolando no cho, apertando sua cicatriz! Ora vamos, Potter, eu tenho experincia nesses assuntos!
Harry levantou a cabea para olh-la.
        -        Preciso ir  ala hospitalar, acho. Dor de cabea muito forte.
        -        Meu querido, sem dvida voc foi estimulado pelas extraordinrias vibraes premonitrias da minha sala! Se voc sair agora,
poder perder a oportunidade de ver mais longe do que jamais...
        -        Eu no quero ver nada, a no ser um remdio para minha dor de cabea.
        Harry se levantou. A turma recuou. Todos pareciam nervosos.
        -        Vejo voc mais tarde - murmurou ele para Rony e, apanhando a mochila, rumou para o alapo, sem dar ateno  Profa Sibila, que revelava no rosto
uma grande frustrao, como se algum a tivesse privado de um prazer real.
        Quando Harry chegou ao fim da escada, porm, no rumou para a ala hospitalar. No tinha a menor inteno de ir at l. Sirius lhe dissera o que fazer se 
a cicatriz tornasse a doer e ele ia seguir o conselho do padrinho: ir direto ao escritrio de Dumbledore. Ele atravessou os corredores, decidido, pensando no que 
vira no sonho... fora to vivido como o outro que o despertara na rua dos Alfeneiros... ele repassou mentalmente os detalhes, procurando se certificar de que no 
os esqueceria... ouvira Voldemort acusar Rabicho de cometer um erro... mas a coruja trouxera boas notcias, o erro fora consertado, algum estava morto... por isso 
Rabicho no ia servir de alimento para a cobra... em seu lugar, Harry  quem iria...
        O        garoto passou direto pela grgula que guardava a entrada do escritrio de Dumbledore sem reparar. Ele piscou, olhou em volta, percebeu a distrao, 
refez seus passos e parou diante do ornato. Ento se lembrou que no conhecia a senha.
-        Sorbet de limo? - experimentou.
        A grgula no se moveu.
        -        OK. - disse Harry encarando-a. - Drops de pra. Varinha. alcauz. Delcia gasosa. Chicle de baba-bola. Feijezinhos de
todos os  sabores... ah, no, ele no gosta desses, ou gosta?... Ah, abr logo, ser que 
no pode? - exclamou o garoto aborrecido. - E realmente preciso ver o diretor, 
urgente!
        A grgula continuou imvel.
                Harry chutou-a, mas no conseguiu nada, exceto sentir
uma dor excruciante no dedo do p.
#460
        -        Sapo de chocolate! - berrou com raiva, parado num p s. - Pena de acar! Torro de barata!
A grgula ganhou vida e saltou para o lado. Harry piscou os olhos.
        -        Torro de barata! - exclamou admirado. - Eu estava s brincando...
        Ele passou depressa pela abertura nas paredes e pisou no patamar de uma escada em espiral, que se deslocou lentamente para o alto, ao mesmo tempo em que
as portas se fechavam s suas costas, levando-o at uma porta de carvalho polido com uma maaneta de lato.
Ele ouviu vozes no escritrio. Saltou da escada em movimento
e hesitou, escutando.
        -        Dumbledore, receio no ver a relao, no a vejo mesmo! - Era a voz do Ministro da Magia, Cornlio Fudge. - Ludo diz que Berta  perfeitamente capaz
de se perder. Concordo que era de esperar que, a esta altura, ela j tivesse sido 
encontrada, mas mesmo assim, no temos evidncia alguma de crime, Dumbledore, nenhuma.
Quanto ao desaparecimento dela estar ligado ao de Bart Crouch!
        -        E o que  que o senhor acha que aconteceu com Bart Crouch, ministro? - perguntou Moody num rosnado.
        -        Vejo duas possibilidades, Alastor - disse Fudge. - Ou Crouch finalmente enlouqueceu, o que  muito provvel e tenho certeza de que voc concorda, 
dada a sua histria pessoal, perdeu o juzo e saiu vagando por a...
        -        Ele vagou muitssimo depressa, se esse for o caso, Cornlio - comentou Dumbledore calmamente.
        -        Ou ento, bem... - Fudge pareceu constrangido. - Bem, no vou julgar at depois de ver o local onde ele foi encontrado, mas voc diz que foi um 
pouco alm da carruagem da Beauxbatons? Dumbledore, voc sabe quem  aquela mulher?
        -        Considero-a uma diretora competente e uma excelente danarina - acrescentou Dumbledore rapidamente.
        -        Ora, vamos Dumbledore! - disse Fudge irritado. - Voc no acha que pode estar predisposto a favorec-la por causa de Hagrid?
Nem todos eles so inofensivos, se  que se pode chamar Hagrid de 
inofensivo, com aquela fixao monstruosa que ele tem...
        -        Tenho tantas suspeitas de Madame Maxime quanto tenho de
#461
Hagrid - disse Dumbledore com a mesma calma. - Acho que  possvel que voc esteja predisposto a conden-la, Cornlio.
        -        Ser que podemos fechar esta discusso? - rosnou Moody.
        -        Sim, sim, vamos descer aos jardins, ento - disse Cornlio impaciente.
        -        No, no  isso - falou Moody -,  que Potter quer dar uma palavra com voc, Dumbledore. Ele est a do outro lado da porta.
#462

*****


- CAPITULO TRINTA -
A Penseira


A porta do escritrio se abriu.
        - Ol, Potter - disse Moody. - Ento, entre. Harry entrou. J estivera uma vez no escritrio de Dumbledore; era uma bela sala circular, coberta de retratos
de diretores e diretoras que o antecederam em Hogwarts, os quais dormiam a sono solto, o peito arfando suavemente.
        Cornlio Fudge estava em p do lado da escrivaninha de
Dumbledore, usando sua habitual capa listrada e segurando seu
chapu-coco verde-limo.
        -        Harry! - cumprimentou o ministro jovialmente, adiantando-se. - Como vai?
        -        timo - mentiu Harry.
        -        Estvamos justamente falando da noite em que o Sr. Crouch apareceu nos terrenos da escola - disse Fudge. - Foi voc quem o
encontrou, no foi?
        -        Foi - confirmou Harry. Depois sentindo que no adiantava fingir que no escutara o que eles estavam dizendo, acrescentou: - Mas no vi Madame Maxime
em lugar nenhum, e ela teria uma trabalheira para se esconder, no?
Dumbledore sorriu para Harry pelas costas de Fudge, com os
olhos cintilantes.
        -        Bem, teria - respondeu Fudge constrangido -, amos sair para dar uma volta pelos terrenos da escola, Harry, se voc nos der
licena... quem sabe voc volta s suas aulas...
        -        Eu queria falar com o senhor, professor - disse Harry depressa, olhando para Dumbledore, que lhe lanou um olhar breve e
        penetrante.        
        -        Espere por mim aqui, Harry - disse. - Nosso exame da propriedade no vai demorar.
#463
        Os trs passaram por ele em silncio e fecharam a porta. Mais ou menos um minuto depois, Harry ouviu o toque-toque da perna de pau de Moody desaparecendo 
no corredor embaixo. Olhou para os lados.
        - Al, Fawkes - cumprimentou ele.
        Fawkes, a fnix de Dumbledore estava parada em seu poleiro de ouro ao lado da porta. Do tamanho de um cisne, uma magnfica plumagem vermelha e dourada, a 
ave balanou sua longa cauda e piscou bondosamente para Harry.
        Harry se sentou em uma cadeira diante da escrivaninha de Dumbledore. Durante vrios minutos, ficou sentado contemplando os velhos diretores e diretoras cochilando 
em seus quadros, pensando no que acabara de ouvir e acariciando a cicatriz. Parara de doer agora.
        O garoto se sentia muito mais calmo agora que se achava no escritrio de Dumbledore, pois em breve estaria lhe contando seu sonho. Harry ergueu os olhos
para as paredes atrs da escrivaninha. O Chapu Seletor, remendado e esfiapado, estava pousado em uma prateleira. Ao seu lado, uma redoma protegia uma magnfica 
espada de prata, com o punho cravejado de grandes rubis, em que Harry reconheceu a que ele prprio tirara do Chapu Seleror no segundo ano. A espada pertencera outrora 
a Godrico Gryffindor, fundador da Casa de Harry. Ele a examinava, lembrando como a espada viera em seu auxlio em um momento em que pensara que no havia mais esperanas, 
quando notou uma malha de luz prateada que danava e refulgia sobre a redoma. Ele procurou a fonte da luz e viu uma nesga de luz branco-prateada que saa de um armrio 
escuro s suas costas, cuja porta no fora bem fechada. Harry hesitou, olhou para Fawkes, depois se levantou, atravessou a sala e escancarou a porta do armrio.
        Havia ali uma bacia de pedra rasa, com entalhes estranhos na borda; runas e simbolos que Harry no reconheceu. A luz prateada vinha do contedo da bacia, 
que no lembrava nada que Harry tivesse visto antes. Ele no sabia dizer se a substncia era lquida ou gasosa. Era brilhante, branco-prateada e se movia sem cessar; 
sua
superfcie se encapelava como gua sob a ao do vento e, ento,
como uma nuvem, se dividia e girava lentamente. Parecia luz liquefeita - ou vento solidificado -, Harry no conseguia decidir.
#464
        Teve vontade de toc-la, de descobrir como era ao tato, mas quase quatro anos de experincia no mundo da magia lhe diziam que meter a mo em uma bacia cheia
de uma substncia desconhecida era uma grande burrice. Ele, portanto, puxou a varinha de dentro das vestes, lanou um olhar nervoso pelo escritrio, tornou a olhar 
para o contedo da bacia e tocou-a. A superfcie da substncia prateada dentro da bacia comeou a girar muito depressa.
        Harry se curvou mais para perto, enfiando a cabea no armrio. A substncia prateada se tornara transparente; parecia vidro. Ele espiou dentro dela, esperando 
ver o fundo de pedra da bacia - mas, em vez disso, viu uma sala enorme sob a superfcie da misteriosa substncia, uma sala para a qual ele aparentemente espiava 
por uma janela circular no teto.
        A sala era mal iluminada; o garoto achou que talvez fosse subterrnea, pois no havia janelas, apenas archotes presos s paredes como os que iluminavam Hog-warrs. 
Baixando o rosto de modo a ficar com o nariz a apenas dois centmetros da substncia
vitrea, Harry viu que havia filas e mais filas de bruxos e bruxas sentados ao
redor das paredes no que lhe pareceram bancos escalonados. Uma cadeira vazia fora colocada bem no centro da sala. Alguma coisa nela produziu em Harry um mau pressentimento. 
Havia correntes envolvendo seus braos, como se quem a ocupasse sempre estivesse preso a ela.
        Onde seria esse lugar? Certamente no era em Hogwarts, ele nunca vira uma sala igual quela no castelo. Alm do mais, as pessoas reunidas na misteriosa sala 
no fundo da bacia eram, em sua maioria, adultos e Harry sabia que no havia tantos professores assim em Hogwarrs. E pareciam estar aguardando alguma coisa; e, embora 
o garoto s pudesse ver a ponta dos seus chapus cnicos, todos davam a impresso de estar olhando para o mesmo lado e ningum falava com ningum.
        Uma vez que a bacia era redonda e a sala que ele observava, circular, Harry no conseguia divisar o que estaria acontecendo nos cantos. Ele se curvou para 
mais perto ainda, inclinou a cabea, procurou enxergar...
        A ponta do seu nariz tocou a estranha substncia que ele estava mirando.
O        escritrio de Dumbledore deu um tremendo solavanco -
#465
Harry foi projetado para a frente e mergulhou de cabea na substncia da bacia...
        Mas a cabea do garoto no bateu no fundo de pedra. Ele foi
caindo por alguma coisa gelada e escura; era como se estivesse
sendo sugado por um redemoinho negro...
        E inesperadamente ele se viu sentado em um banco no fundo da sala dentro da bacia, um banco mais acima dos outros. Ergueu os olhos para o alto teto de pedra, 
esperando ver a janela circular pela qual estivera espiando, mas no havia nada l exceto a pedra slida e escura.
        Respirando com fora e depressa, Harry olhou ao seu redor. Nenhum dos bruxos nem bruxas na sala (e havia pelo menos uns duzentos) estava olhando para ele. 
Nenhum deles parecia ter reparado que um garoto de catorze anos acabara de cair do teto no meio da reunio. Harry se virou para o bruxo mais prximo no banco e soltou 
um grito de surpresa que ecoou pela sala silenciosa.
        Sentara-se bem ao lado de Alvo Dumbledore.
        - Professor! - exclamou Harry, numa espcie de sussurro estrangulado. - Sinto muito, no tive inteno, estava apenas
olhando dentro da bacia no seu armrio, eu... onde estamos?
        Mas Dumbledore no se mexeu nem falou. Ignorou Harry completamente. Como os demais bruxos sentados nos bancos, o diretor tinha os olhos fixos no canto mais 
afastado da sala, onde havia uma porta.
        Harry olhou, confuso, para Dumbledore, depois para os bruxos atentos e silenciosos, e tornou a olhar para Dumbledore. Ento
compreendeu...
        J tinha havido uma vez em que Harry se vira em um lugar em que ningum podia v-lo ou ouvi-lo. Naquela ocasio, ele entrara nas pginas de um dirio enfeitiado, 
diretamente na memria de algum... e, a no ser que estivesse muito enganado, alguma coisa assim estava acontecendo de novo...
        Harry ergueu a mo direita, hesitou, depois agitou-a energicamente diante do rosto de Dumbledore. O diretor no piscou nem
olhou para ele e tampouco se mexeu de modo algum. E isso, na
opinio de Harry, resolvia a questo. Dumbledore no o ignoraria
daquela maneira. Ele estava dentro de uma lembrana e aquele no
era o Dumbledore atual. Contudo, no poderia ter sido h muito
#466
tempo... o Dumbledore sentado ao seu lado tinha cabelos prateados, igualzinho ao Dumbledore dos dias de hoje. Mas que lugar era este? Que  que todos aqueles bruxos
estavam aguardando?
        Harry olhou para os lados mais detidamente. A sala, como ele suspeitara quando a observara do alto, era quase certamente subterrnea - mais uma masmorra 
do que uma sala, pensou o garoto. A atmosfera era desolada e hostil naquele lugar; no havia quadros nas paredes, nem decoraes; apenas as filas de bancos, que 
subiam em nveis escalonados ao redor da sala, dispostos de maneira a proporcionar uma viso clara da cadeira com correntes nos braos.
        Antes que Harry pudesse chegar a alguma concluso sobre o lugar em que se encontravam, ele ouviu passos. A porta no canto da masmorra se abriu e trs pessoas
entraram - ou pelo menos um homem, ladeado por dois dementadores.
        As entranhas de Harry gelaram. Os dementadores, altos, encapuzados, os rostos ocultos, deslizaram lentamente em direo  cadeira no centro da sala, cada 
um segurando um brao do homem com suas mos de cadver, de aspecto podre. O homem entre os dois parecia prestes a desmaiar e Harry no poderia culp-lo... sabia
que os dementadores no podeniam toc-lo dentro de uma lembrana, mas se lembrava muito bem do poder que tinham. Os bruxos se encolheram ligeiramente quando os dementadores
sentaram o homem na cadeira com correntes e deslizaram para fora da sala. A porta se fechou ao passarem.
        Harry olhou para o homem que agora estava sentado na cadeira e viu que era Karkaroff.
        Ao contrrio de Dumbledore, Karkaroff parecia muito mais novo, seus cabelos e barba eram negros. No estava vestido com peles elegantes, mas com vestes ralas 
e esfarrapadas. Tremia. Bem na hora em que Harry o observava, as correntes nos braos da cadeira produziram um reflexo dourado e se enroscaram pelos seus braos,
prendendo-os ali.
        - Igor Karkaroff- disse uma voz rspida  esquerda de Harry. O garoto olhou e viu o Sr. Crouch se levantar no meio do banco ao lado. Seus cabelos eram escuros, 
seu rosto muito menos enrugado,
ele parecia em boa forma e lcido. - Voc foi trazido de Azkaban
para prestar depoimento ao Ministrio da Magia. Voc nos deu a
entender que tem importantes informaes para nos dar.
#467
        Karkaroff se endireitou o melhor que pde, firmemente preso  cadeira.
        -        Tenho, sim senhor - respondeu ele e embora sua voz soasse muito temerosa, Harry pde perceber o qu de untuosidade que to bem conhecia. - Quero
ser til ao Ministrio. Quero ajudar. Sei que o Ministrio est tentando prender os ltimos seguidores do Lord das Trevas. Estou ansioso para cooperar de todas as
maneiras que puder...
        Um murmrio percorreu os bancos. Alguns bruxos e bruxas examinaram Karkaroff com interesse, outros com acentuada desconfiana. Ento Harry ouviu, muito claramente, 
do outro lado de Dumbledore, uma voz rosnada e familiar exclamar "Gentalha".
        Harry se curvou  frente para poder ver alm de Dumbledore. Olho-Tonto Moody estava sentado ali - embora houvesse uma ntida diferena em sua aparncia. 
Ele no tinha um olho mgico, mas dois normais. Ambos fixavam Karkaroff e ambos estavam apertados revelando intenso desagrado.
        -        Crouch vai solt-lo - murmurou Moody baixinho a Dumbledore. - Fez um trato com ele. Levei seis meses para ca-lo e Crouch vai solt-lo se elp tiver
um nmero suficiente de nomes novos. Vamos ouvir suas informaes, digo eu, e atir-lo de volta aos braos dos dementadores.
        Dumbledore fez um barulhinho de discordncia pelo nariz
longo e torto.
        -        Ah, eu ia me esquecendo... voc no gosta de dementadores, no  mesmo, Alvo? - disse Moody com um sorriso sardnico.
        -        No - respondeu Dumbledore calmamente. - Receio que no. H muito tempo venho achando que o Ministrio faz mal em
se aliar a essas criaturas.
        -        Mas para uma gentalha dessas... - disse Moody baixinho.
        -        Voc diz que tem nomes para nos informar, Karkaroff- recomeou o Sr. Grouch. - Por favor, queremos ouvi-los.
        -        O senhor deve compreender - disse Karkaroff na mesma hora
-        que Aquele-Que-No-Deve-Ser-Nomeado sempre operou no maior sigilo... ele preferia que ns, quero dizer, seus seguidores, e me arrependo agora, profundamente, 
de ter-me includo entre eles...
        
       - Ande logo com isso - disse Moody com desdm.
                - ... nunca soubemos os nomes de todos os seus seguidores,
somente ele sabia exatamente quem eramos...
#468
        -        O que era uma atitude sensata, no , pois impedia que algum como voc, Karkaroff, entregasse todos - murmurou
Moody.
        -        Contudo, voc diz que tem alguns nomes para nos informar?
- disse o Sr. Crouch.
        -        Tenho... tenho - respondeu Karkaroff sem flego. - E note que eram seguidores importantes. Gente que eu vi com os meus prprios olhos cumprindo
as ordens dele. Presto estas informaes como prova de minha total renncia a ele, e de que estou to rodo de remorsos que mal...
        -        Os nomes so? - tornou o Sr. Crouch com rispidez.
        Karkaroff inspirou profundamente.
        -        Antnio Dolohov. Vi-o torturar inmeros trouxas e... no seguidores do Lord das Trevas.
        -        E ajudou-o a fazer isso - murmurou Moody.
        -        J prendemos Dolohov - disse Crouch. - Foi capturado pouco depois de voc.
        -        Verdade? - admirou-se Karkaroff arregalando os olhos. - Fico... fico satisfeito em saber!
        Mas no parecia nada satisfeito. Harry percebeu que a notcia
        fora um verdadeiro golpe para ele. Esse nome era, portanto, intil.
        -        Mais algum? - perguntou Crouch friamente.
        -         claro que sim... havia Rosier - acrescentou Karkaroff depressa. - Evan Rosier.
        -        Rosier est morto. Foi capturado pouco depois de voc, tambm. Preferiu lutar do que aceitar a priso, e foi morto ao resistir.
        -        Mas levou um pedao de mim com ele - sussurrou Moody,  direita de Harry O garoto virou mais uma vez a cabea para olhlo e viu que ele apontava 
o pedao que lhe faltava no nariz para Dumbledore.
        -        Era... era o que Rosier merecia! - disse Karkaroff, agora com uma perceptvel nota de pnico na voz. Harry percebeu que ele estava comeando a se 
preocupar que nenhuma de suas informaes tivesse utilidade para o Ministrio. Os olhos de Karkaroff correram para a porta no canto, atrs da qual sem dvida os 
dementadores continuavam parados  espera.
- Mais algum? - perguntou Crouch.        
        -        Sim! Havia o Travers, ele ajudou a assassinar os McKinnons! Mulciber, era especialista na Maldio Imperius, forou inmeras
#469
pessoas a fazerem coisas horrendas! Rookwood, que era espio e passava quele-Que-No-Deve-Ser-Nomeado informaes teis de dentro do Ministrio!
        Harry percebeu que, desta vez, Karkaroff encontrara ouro. Todos os bruxos presentes comearam a murmurar ao mesmo tempo.
        -        Rookwood? - disse o Sr. Crouch  bruxa que estava sentada  sua frente e que comeou a tomar notas" em um pergaminho. - Augusto Rookwood do Departamento
de Mistrios?
        -        Esse mesmo - confirmou Karkaroff pressuroso. - Creio que ele usava uma rede de bruxos bem colocados, tanto dentro quanto
fora do Ministrio, para colher informaes...
        -        Mas Travers e Mulciber ns j prendemos. Muito bem Karkaroff, se so s esses, voc ser reconduzido a Azkaban
enquanto decidimos...
        - Ainda no! - gritou Karkaroff, parecendo bastante desesperado. - Espere, tenho mais!
        Harry observou que ele suava  luz dos archotes, sua pele branca contrastava fortemente com o negro dos cabelos e da barba.
        -        Snape! - exclamou ele. - Severo Snape!
        -        Snape j foi inocentado por este conselho - disse Crouch friamente. - Dumbledore testemunhou em favor dele.
        -        No! - gritou Karkaroff, forando as correntes que o prendiam  cadeira. - Garanto ao senhor! Severo Snape  um Comensal
da Morte!
        Dumbledore se erguera.
        -        Eu j prestei depoimento sobre esse caso - disse calmamente. - Severo Snape foi de fato um Comensal da Morte. Porm, voltou para o nosso lado antes
da queda de Lord Voldemort e virou nosso espio, se expondo a grande perigo. Hoje ele  to Comensal da Morte quanto eu.
        Harry se virou para olhar Olho-Tonto Moody. Revelava no
rosto uma expresso de profundo ceticismo, por trs de Dumbledore.
        -        Muito bem, Karkaroff- disse Crouch friamente -, voc ajudou. Vou rever o seu caso. Entrementes voltar para Azkaban...
        A voz do Sr. Crouch foi morrendo. Harry olhou para os lados;
a masmorra estava desaparecendo gradualmente como se fosse feita
de fumaa; tudo estava desaparecendo, ele s conseguia ver o prprio corpo, todo o resto era um redemoinho de escurido...
#470
        Ento, a masmorra reapareceu. Harry estava sentado em outro lugar; ainda no banco mais alto, mas agora  esquerda do Sr. Crouch. A atmosfera parecia bem
diferente; descontrada, quase animada. As bruxas e bruxos ao redor conversavam entre si, quase como se estivessem assistindo a um evento esportivo. Uma bruxa no 
meio dos bancos defronte a Harry chamou a ateno do garoto. Tinha cabelos louros e curtos, usava vestes magenta, e chupava a ponta de uma pena verde-cido. Era,
inconfundivelmente, uma Rita Skeeter mais moa. Harry olhou para os lados; Dumbledore estava outra vez sentado ao seu lado, usando outras vestes. O Sr. Crouch parecia 
mais cansado, mais feroz, mais descarnado... O garoto compreendeu. Era uma lembrana diferente, um dia diferente... um julgamento diferente.
        A porta ao canto se abriu e Ludo Bagman entrou na sala.
        No era, porm, um Ludo Bagman envelhecido, mas um Ludo Bagman que visivelmente se achava no auge de sua forma de jogador de quadribol. Seu nariz no estava
quebrado; ele era alto, magro e musculoso. Bagman parecia nervoso quando se sentou na cadeira com as correntes, mas elas no o prenderam, como haviam feito com Karkaroff,
e Bagman, talvez animado por isso, correu os olhos pelos bruxos reunidos, acenou para alguns e at deu um sorrisinho.
        - Ludo Bagman, voc foi trazido perante o Conselho das Leis da Magia para responder s acusaes relacionadas com as atividades dos Comensais da Morte -
disse o Sr. Crouch. - J ouvimos as provas contra voc e estamos prestes a alcanar um veredicto. Voc tem algo mais a acrescentar ao seu depoimento antes de lavrarmos
a sentena?
        Harry no conseguiu acreditar no que estava ouvindo. Ludo
Bagman, um Comensal da Morte?
        - Apenas que - respondeu o bruxo, sorrindo sem graa -, bem, sei que estive agindo como um idiota...
        Uns espectadores nos bancos sorriram com indulgncia. O Sr.
Crouch no parecia compartir esse sentimento. Encarou Ludo
Bagman com uma expressao de grande severidade e desagrado.
        - Voc nunca disse nada mais verdadeiro, moleque - murmurou algum secamente a Dumbledore, atrs de Harry. Ele virou a
cabea e viu Moody sentado ali de novo. - Se eu no soubesse que ele sempre foi dbil, eu diria que alguns balaos devem ter afetado
permanentemente o crebro dele...
#471
        - Ludovico Bagman, voc foi apanhado passando informaes aos seguidores de Lord Voldemort - disse o Sr. Crouch. - Por isso, proponho que cumpra sentena
de priso em Azkaban com uma durao mnima de...
        Ouviram-se protestos zangados para todos os lados. Vrios
bruxos e bruxas se levantaram, balanando a cabea e at mesmo
erguendo os punhos contra o Sr. Crouch.
        - Mas eu j declarei que no fazia idia! - disse Bagman com veemncia, sobrepondo-se  balbrdia vinda dos bancos, arregalando seus redondos olhos azuis. 
- Nenhuma! O velho Rookwood era amigo do meu pai... jamais me passou pela cabea que ele estivesse com Voc-Sabe-Quem! Pensei que estava colhendo informaes para
o nosso lado! E Rookwood falava o tempo todo em me arranjar um emprego no Ministrio mais tarde... quando terminassem meus dias de quadribol, sabem... quero dizer,
no podia ficar levando balaos o resto da vida, podia?
        Ouviram-se risinhos nervosos entre os presentes.
        - Vou levar isso  votao - disse o Sr. Crouch friamente. E, virando-se para o lado direito da masmorra. - Jurados, por favor,
ergam a mo... os que forem a favor da priso...
        Harry olhou para a direita da masmorra. Ningum levantou a
mo. Muitos bruxos e bruxas nos bancos comearam a bater palmas. Uma das bruxas no jri se levantou.
        - Pois no? - ladrou Crouch.
        - Gostaramos de cumprimentar o Sr. Bagman por seu esplndido desempenho no jogo de quadribol da Inglaterra contra a Turquia no sbado passado - disse a 
bruxa ofegante.
        O Sr. Crouch fez uma cara furiosa. A masmorra agora ressoava de aplausos. Bagman se levantou e fez uma reverncia, sorrindo.
        - Desprezvel - vociferou o Sr. Crouch para Dumbledore, sentando-se na hora em que Bagman saa da masmorra. - Rookwood ia lhe arranjar um emprego, francamente... 
o dia que Ludo Bagman se juntar a ns ser um dia muito triste para o Ministrio...
        E a masmorra tornou a se dissolver. Quando reapareceu, Harry
olhou para os lados. Ele e Dumbledore continuavam sentados ao
        lado do Sr. Crouch, mas a atmosfera no poderia ser mais
diferente. Havia um silncio absoluto, interrompido apenas pelos soluos
        de uma bruxa miudinha ao lado do Sr. Crouch. Apertava um leno
        contra a boca com as mos trmulas. Harry ergueu os olhos para
#472
Crouch e viu que ele parecia mais descarnado e grisalho que nunca. Um nervo tremia em sua tmpora.
        -        Pode traz-los - disse, e sua voz ecoou pela masmorra silenciosa.
        A porta no canto abriu-se mais uma vez. E desta, entraram seis dementadores, ladeando um grupo de quatro pessoas. Harry viu os bruxos presentes erguerem 
os olhos para o Sr. Crouch. Alguns cochicharam entre si.
        Os dementadores sentaram cada uma das quatro pessoas nas quatro cadeiras de braos com correntes agora no centro da masmorra. Havia um homem corpulento que 
fixava Crouch com o olhar parado, outro mais magro e mais nervoso, cujos olhos percorriam ligeiros a assemblia, uma mulher, com cabelos espessos e brilhantes e 
olhos grandes e semicerrados, sentada  cadeira como se esta fosse um trono e um rapaz adolescente, que parecia no mnimo petrificado. Ele tremia, tinha os cabelos 
cor de palha espalhados pelo rosto, a pele sardenta e branca como o leite. A bruxa miudinha ao lado de Crouch comeou a se balanar para a frente e para trs no 
banco, abafando o choro com um leno.
        Crouch se levantou. Olhou para os quatro prisioneiros e havia
        dio absoluto em seu rosto.
        -        Vocs foram trazidos aqui perante o Conselho das Leis da Magia - disse ele com clareza - para serem julgados por um crime
        to hediondo...
        -        Pai - disse o rapaz de cabelos cor de palha. - Pai... por favor...
        -        . .. de que raramente se ouviu falar neste tribunal-disse Crouch, alteando a voz, abafando as palavras do filho. - Ouvimos as provas contra vocs. 
E vocs foram acusados de capturar o auror, Frank Longbottom, e de submet-lo  Maldio Cruciatus, acreditando que ele tivesse conhecimento do paradeiro atual do 
seu amo exilado, Aquele-Que-No-Deve-Ser-Nomeado...
        -        Pai, eu no fiz isso! - gritou o rapaz acorrentado  cadeira. - Eu no fiz isso, pai, no me mande de volta aos dementadores...
        -        Vocs so ainda acusados - berrou o Sr. Crouch - de usar a
Maldio Cruciatus contra a mulher de Frank Longbottom, quando ele se recusou a dar informaes. Vocs planejaram reconduzir Aquele-Que-No-Deve-Ser-Nomeado ao poder 
e de retomar a
vida de violncia que presumivelmente levavam quando ele detinha o poder. Agora peo aos jurados...
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        -        Me! - gritou o rapaz, e a bruxa miudinha ao lado de Crouch comeou a soluar, se balanando para a frente e para trs. - Me,
faz ele parar, me, eu no fiz isso, no fui eu!
        - Eu agora peo aos jurados - gritou o Sr. Crouch - que levantem as mos se acreditarem, como eu, que estes crimes merecem
uma sentena de priso perptua em Azkaban.
        Unnimes, as bruxas e bruxos do lado direito da masmorra ergueram as mos. A assemblia ao redor comeou a aplaudir como fizera no julgamento de Bagman, 
seus rostos expressavam selvagem triunfo. O rapaz comeou a gritar.
        - No! Me, no! Eu no fiz isso, eu no fiz isso, eu no sabia! No me mande para l, no deixe o pai me mandar!
        Os dementadores voltaram a deslizar pela sala. Os trs companheiros do rapaz 
se levantaram silenciosamente das cadeiras; a mulher de olhos grandes e semicerrados
olhou para Crouch e gritou:
        -        O Lord das Trevas voltar a se erguer, Crouch! Joguem-nos em Azkaban, ns esperaremos! Ele se reerguer e vir nos buscar e nos recompensar mais
que aos seus outros seguidores! Somente ns permanecemos fiis! Somente ns tentamos encontr-lo.
        Mas o rapaz procurava se desvencilhar dos dementadores, embora Harry percebesse que o desumano poder de sugar energia daquelas criaturas comeava a
afet-lo.
Os bruxos presentes riam e caoavam, alguns de p, enquanto a mulher saa majestosamente da masmorra e o rapaz continuava a se debater.
        - Sou seu filho! - berrava ele para Crouch. - Sou seu filho!
        - Voc no  meu filho! - berrou o Sr. Crouch, os olhos saltando subitamente das rbitas. - No tenho filho!
        A bruxa miudinha ao lado de Crouch ficou sem ar e desabou
na cadeira. Desmaiara, o marido pareceu no ter notado.
        -        Levem-nos embora! - berrou para os dementadores, o cuspe saltando de sua boca. - Levem-nos embora, que eles apodream l!
        - Pai, eu no estava envolvido! No! No! Pai, por favor!
        - Acho, Harry, que j  hora de voltar ao meu escritrio - disse baixinho uma voz ao ouvido do garoto.
        Ele se assustou. Olhou para um lado. Depois para o outro.
        Havia um Alvo Dumbledore sentado  sua direita, observando
o        filho de Crouch sair arrastado pelos dementadores - e havia um Alvo Dumbledore  sua esquerda, olhando bem para ele.
-        Venha - disse o Dumbledore  sua esquerda, segurando o
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cotovelo de Harry. O garoto sentiu que o erguiam no ar; a masmorra desapareceu  
sua volta; por um momento tudo ficou escuro, ento teve a impresso de que estava
dando uma cambalhota em cmara lenta e, repentinamentep caiu de p, no que concluiu 
ser a claridade ofuscante do escritrio do diretor. A bacia de pedra tremeluzia
no armrio  sua frente e Alvo Dumbledore estava parado ao seu lado.
        -        Professor - exclamou Harry -, eu sei que eu no devia ter... no tive inteno, a porta do armrio estava entreaberta e...
        -        Eu compreendo - disse Dumbledore. E erguendo a bacia, levou-a at a escrivaninha, pousou-a sobpe sua superfcie reluzente e se sentou na cadeira
 escrivaninha. Fez sinal ao garoto para que se sentasse defronte dele.
        Harry obedeceu, com os olhos postos na bacia de pedra. O
        contedo voltara ao seu estado original branco-prareadop girando e
        ondulando ao seu olhar.
        -        Que  isso? - perguntou Harry trmulo.
        -        Isso? Chama-se Penseira, s vezes eu acho, e tenho certeza de que voc conhece a sensao, que simplesmente h pensamentos e
        lembranas demais enchendo minha cabea.
        -        Hum - fez Harry, que no podia realmente dizer que j tivesse sentido nada igual.
        -        Nessas ocasies - continuou Dumbledore indicando a bacia de pedra - uso a Penseira. Escoo o excesso de pensamentos da mente, despejo-os na bacia
e examino-os com vagar. Assim fica mais fcil identificar padres e ligaes, compreende, quando esto sob esta forma.
        -        O senhor quer dizer... que isso a so os seus pensamentos? - disse Harry, olhando a substncia branca que redemoinhava na
bacia.
        -        Sem dvida. Deixe-me mostrar.
        Dumbledore puxou a varinha de dentro das vestes e pousou sua ponta sobre seus cabelos prateados, prximos  tmpora. Quando afastou a varinha, os cabelos
pareciam estar grudados nela - mas Harry viu que eram, na realidade, fios brilhantes da mesma substncia estranha e branco-prateada que enchia a Penseira. Dumbledore
acrescentou novos pensamentos  bacia, e Harry, espantado, viu seu prprio rosto boiando na superfcie da substncia.
        Dumbledore colocou suas longas mos dos lados da Penseira e
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sacudiu-a, como faria um garimpeiro  procura de pepitas de ouro... e o garoto viu o prprio rosto se transformar suavemente no de Snape, que abriu a boca, e falou
para o teto, fazendo sua voz ecoar levemente: "Est voltando... a de Karkaroff tambm... mais clara e forte que nunca...
        -        Uma ligao que eu teria feito sem ajuda de ningum - suspirou Dumbledore -, mas no faz mal. - Por cima dos seus oclinhos de meia-lua, ele mirou 
Harry, que acompanhou boquiaberto o rosto de Snape girar continuamente na bacia. - Eu estava usando a Penseira quando o Sr. Fudge chegou para a reunio e guardei-a 
apressado. Com certeza no fechei o armrio direito.  natural que ela tenha atrado sua ateno.
        -        Me desculpe - murmurou Harry.
        Dumbledore balanou a cabea.
        -        A curiosidade no  um pecado - disse ele. - Mas devemos ser cautelosos com a nossa curiosidade... sem dvida...
        Enrugando ligeiramente a testa, o diretor tornou a empurrar seus pensamentos para dentro da bacia com a ponta da varinha. Instantaneamente, emergiu dela 
um vulto, uma menina gordinha de cara mal-humorada de uns dezesseis anos, que comeou a girar lentamente, com os ps ainda na bacia. Ela no prestou a menor ateno 
a Harry nem ao Prof. Dumbledore. Quando falou, sua voz ecoou como fizera a de Snape, como se viesse das profundezas da bacia de pedra: "Ele me azarou, Prof; Dumbledore, 
e eu s estava brincando, s disse que o tinha visto beijando"Florncia atrs das estufas na quinta-feira passada..."
        -        Mas por que, Berta - disse Dumbledore tristemente, fitando a menina que agora girava silenciosamente -, por que voc teve que
segui-lo, para comear?
        -        Berta? - sussurrou Harry, olhando para a garota. - Ela ... era a Berta Jorkins?
        -        Era - disse Dumbledore mais uma vez revolvendo os pensamentos na bacia; Berta voltou a afundar neles, e tudo se tornou mais uma vez prateado e opaco. 
-  a Berta como me lembro dela na escola.
        A claridade prateada da Penseira iluminou o rosto de Dumbledore e ocorreu a Harry,
repentinamente, que o diretor parecia velhssimo. Ele sabia, era claro,
que Dumbledore estava envelhecendo, mas por alguma razo nunca pensara no diretor como um velho.
#476
        -        Ento, Harry - disse Dumbledore baixinho. - Antes de se perder nos meus pensamentos, voc queria me contar alguma coisa.
        -        Verdade. Professor, eu estava na aula de Adivinhao agorinha e... hum... cochilei.
        Ele hesitou neste ponto, imaginando se iria levar uma bronca,
mas Dumbledore apenas disse:
        -        Muito compreensvel. Continue.
        -        Bem, eu tive um sonho. Um sonho com Lord Voldemort. Ele estava torturando Rabicho... o senhor sabe quem  Rabicho...
        -        Sei - disse Dumbledore, prontamente. - Por favor, continue.
        - Voldemort recebeu uma carta levada por uma coruja. E falou uma coisa mais ou menos assim: que o erro de Rabicho tinha sido reparado. Falou que algum estava 
morto. Depois falou que ia atirar Rabicho para servir de comida  cobra, tinha uma cobra ao lado da poltrona dele. Falou tambm que em vez do Rabicho, ele ia jogar 
a mim. Depois lanou a Maldio Cruciatus em Rabicho, e a minha cicatriz doeu. Doeu tanto que me acordou.
        Dumbledore apenas fitou Harry.
        -        Hum, foi s isso - disse Harry.
        -        Entendo - disse Dumbledore em voz baixa. - Agora, a sua cicatriz j doeu alguma outra vez este ano, alm daquela em que o
acordou durante as frias de vero?
        -        No, eu... como foi que o senhor soube que ela me acordou no vero? - perguntou Harry espantado.
        -        Voc no  o nico que se corresponde com Sirius - disse Dumbledore. - Tambm tenho estado em contato com ele desde que fugiu de Hogwarrs no ano
passado. Fui eu quem sugeriu a caverna na encosta da montanha como o lugar mais seguro para ele se esconder.
        Dumbledore se levantou e comeou a andar para cima e para baixo atrs da escrivaninha. De vez em quando, levava a varinha  tmpora, retirava mais um pensamento 
prateado e o acrescentava  Penseira. Os pensamentos dentro dela comearam a girar to rpido que Harry no conseguia distinguir nada muito claramente; apenas um 
borro de cor.
        -        Professor? - disse Harry baixinho, depois de uns minutos.
Dumbledore parou de andar e encarou Harry.        
        -        Perdo - disse ele em voz baixa. E tornou a se sentar em sua cadeira.
#477
        -        Professor, o senhor sabe por que minha cicatriz di?
        O        diretor fitou Harry com muita ateno por um momento, depois disse:
        -        Eu tenho uma teoria, no  nada mais que isso... Acredito que a sua cicatriz di quando Lord Voldemort anda por perto ou
quando tem um assomo particularmente intenso de dio.
        -        Mas... por qu?
        -        Porque voc e ele esto ligados pelo feitio que falhou. Isto no  uma cicatriz comum.
        -        Ento o senhor acha... esse sonho... ele realmente aconteceu?
        -         possvel. Eu diria, provavelmente, Harry, voc viu Voldemort?
        -        No - respondeu Harry. - Somente as costas da poltrona dele. Mas... no haveria muita coisa que ver, haveria? Quero dizer, ele no tem corpo, tem? 
Mas... mas por outro lado como  que ele poderia ter segurado a varinha? - disse Harry lentamente.
        -        Como, no  mesmo? - murmurou o diretor. - Como mesmo...
        Nem Dumbledore nem Harry falaram por algum tempo. O diretor tinha o olhar perdido no outro lado da sala, de vez em quando apoiava a ponta da varinha na tmpora 
e acrescentava mais um pensamento de prata refulgente  massa que fervilhava na Penseira.
        -        Professor - disse Harry finalmente -, o senhor acha que ele est ficando mais forte?
        -        Voldemort? - indagou ele, olhando para o garoto por cima da Penseira.
Era o olhar penetrante e caracterstico que Dumbledore j lhe dera em outras
ocasies, e sempre fizera o garoto ter a sensao de que o diretor estava enxergando atravs
dele, de uma maneira que nem o olho mgico de Moody seria capaz. - Mais
uma vez, Harry, s posso expressar suspeitas.
        Dumbledore suspirou outra vez e seu rosto pareceu mais velho
e mais cansado que nunca.
        -        A ascenso de Voldemort ao poder - disse ele - foi marcada por desaparies. Berta Jorkins desapareceu sem deixar vestgio no
lugar em que se sabe que Voldemort esteve por ltimo. O Sr.
Crouch, tambm, desapareceu... aqui nos terrenos da escola. E
houve uma terceira desapario, uma que o Ministrio, lamento
dizer, no considera ser importante, porque diz respeito a um trouxa.
#478
 O nome dele era Franco Bryce, vivia na aldeia em que o pai de Voldemort se criou, e os habitantes do lugar no o vem desde agosto. Como v, leio os jornais
dos trouxas, ao contrrio da maioria dos meus amigos do Ministrio.
        Dumbledore encarou Harry muito srio.
        -        Essas desaparies me parecem estar interligadas. O Ministrio discorda, como voc deve ter ouvido, enquanto esperava
do lado de fora do meu escritrio.
        Harry confirmou com a cabea. Fez-se novo silncio entre os dois, Dumbledore extraindo pensamentos de quando em quando. Harry achou que estava na hora de 
ir, mas sua curiosidade o segurava sentado.
- Professor? - falou ele outra vez.
        -        Sim, Harry?
        -        Hum... ser que eu posso perguntar ao senhor sobre... aquela cena do tribunal em que eu estive na... Penseira?
        -        Pode - disse Dumbledore com um peso no corao. - Estive presente muitas vezes, mas alguns julgamentos voltam  lembrana mais claramente que outros... 
particularmente agora...
        -        O senhor sabe, o senhor sabe o julgamento em que me encontrou? O do filho de Crouch? Bem... era dos pais de Neville que
eles estavam falando?
        Dumbledore lanou um olhar muito sagaz a Harry.
        -        Neville nunca lhe contou por que foi criado pela av? Harry balanou a cabea, imaginando ao mesmo tempo, porque jamais perguntara isso a Neville 
em quase quatro anos de conhecimento.
        -        Era, estavam falando dos pais de Neville. O pai, Frank, era auror como o Prof. Moody. Ele e a mulher foram torturados para darem informaes sobre 
o paradeiro de Voldemorr depois que ele perdeu os poderes, conforme voc ouviu.
        -        Ento esto mortos? - perguntou Harry baixinho.
        -        No - disse Dumbledore, a voz cheia de uma amargura que Harry nunca ouvira nele antes -, enlouqueceram. Os dois esto no Hospital St. Mungus para 
Doenas e Acidentes Mgicos. Creio que Neville os visita, com a av, durante as frias. Os pais no o
        reconhecem.        
        Harry ficou sentado ali, horrorizado. Nunca soubera... nunca,
em quatro anos, se preocupara em descobrir...
#479
        -        Os Longbottom eram um casal muito querido - disse
Dumbledore. - Os ataques a eles comearam depois da queda de Voldemorr, quando todos pensavam
que estavam a salvo. Os ataques causaram uma onda de fria nunca vista. O Ministrio ficou sob grande presso para capturar quem tinha feito aquilo. Infelizmente, 
o depoimento dos Longbortom no foi, dada a condio em que estavam, nada confivel.
        -        Ento, talvez o filho do Sr. Crouch no estivesse envolvido?
- perguntou Harry lentamente.
Dumbledore balanou a cabea.
Quanto a isso no fao idia.
        Harry quedou em silncio mais uma vez, observando o contedo da Penseira redemoinhar. Havia mais duas perguntas que estava em ccegas para fazer... mas diziam
respeito  culpa de gente viva...
        -        Hum - comeou ele -, o Sr. Bagman...
        -        ... nunca mais foi acusado de nenhuma atividade maligna deste ento - disse Dumbledore calmamente.
        -        Certo - apressou-se Harry a dizer, fitando novamente o contedo da Penseira, que girava mais lentamente agora que Dumbledore parara de lhe acrescentar
pensamentos. - E... hum...
        Mas a Penseira parecia estar fazendo a pergunta por ele. O rosto de Snape apareceu novamente flutuando  superfcie. Dumbledore olhou para dentro da bacia
e depois ergueu os olhos para Harry.
        -        Tampouco o Prof. Snape - disse.
        Harry fitou os olhos azul-claros de Dumbledore e a coisa que
realmente queria saber escapou de sua boca antes que ele pudesse
se refrear.
        -        Que foi que levou o senhor a pensar que ele realmente parou de apoiar Voldemorr, professor?
        Dumbledore sustentou o olhar de Harry por alguns segundos
e ento disse:
        -        Isto, Harry,  um assunto entre mim e o Prof. Snape.
        Harry percebeu que a entrevista terminara; Dumbledore no
parecia zangado, contudo havia um tom conclusivo em sua voz que
#480
informou ao garoto que era hora de se retirar. Ele se levantou e o
diretor tambm.
        -        Harry - disse ele, quando o garoto chegou  porta. - Por favor,
no comente sobre os pais de Neville com mais ningum. Ele tem o direito de informar s pessoas quando estiver preparado para isso.
-        Sim senhor, professor - disse Harry virando-se para ir embora.
-E...
Harry virou a cabea para trs.
        Dumbledore estava parado diante da Penseira, seu rosto iluminado pelos pontos de luz prateada, parecendo mais velho que nunca. O diretor fitou Harry por
um momento e em seguida disse:
-        Boa sorte na terceira tarefa.

#481

*****


- CAPITULO TRINTA E UM
A terceira tarefa


-        Dumbledore tambm acha que Voc-Sabe-Quem est se fortalecendo outra vez? - sussurrou Rony.
        Tudo que Harry vira na Penseira, e quase tudo que Dumbledore lhe contara e mostrara depois, ele agora estava dividindo com Rony e Hermione - e,  claro, 
com Sirius, a quem Harry enviara uma coruja assim que sara do escritrio do diretor. Mais uma vez os trs garotos ficaram acordados at tarde na sala comunal, discutindo 
os acontecimentos at que a cabea de Harry comeou a rodar, at que ele compreendeu o que Dumbledore quisera dizer quando falara em uma cabea ficar to cheia de 
pensamentos que era um alvio esvazi-la com um sifo.
        Rony ficou olhando fixamente para as chamas na lareira.
        Harry achou que o viu estremecer levemente, embora a noite no
        estivesse fria.
        -        E ele confia em Snape? - tornou a perguntar Rony. - Confia realmente em Snape, mesmo que o cara tenha sido um Comensal
        da Morte?
        -        Sim - disse Harry.
        Hermione no falava havia dez minutos. Estava sentada com a
        testa apoiada nas mos, fitando os joelhos. Harry pensou que ela
        tambm faria bom uso de uma Penseira.
        -        Rita Skeeter - murmurou ela finalmente.
        -        Como  que voc pode estar preocupada com ela agora? - indagou Rony, incrdulo.
        -        No estou preocupada com ela - respondeu Hermione para os prprios joelhos. - S estou pensando... lembra o que ela me
        disse no Trs Vassouras? "Sei coisas sobre Ludo Bagman que a
dei
xariam de cabelo em p." Era a isso que ela estava se referindo, no
        ? Ela fez a cobertura do julgamento, sabia que ele tinha passado
#482
informaes para os Comensais da Morte. E Winky, tambm, lembra  O Sr. Bagman  um 
bruxo malvado." O Sr. Crouch provavelmente ficou furioso quando Bagman se livrou
da priso, e provavelmente comentou isso em casa.
        -        , mas Bagman no passou informaes de propsito, passou? Hermione deu de ombro.
        -        E Fudge acha que Madame Maxime atacou Crouch? - perguntou Rony se virando para Harry outra vez.
        -         - respondeu Harry -" mas s est dizendo isso porque o Sr. Crouch desapareceu perto da carruagem da Beauxbatons.
        -        Nunca pensamos nela, no  mesmo? - disse Rony, lentamente. - E olhem que ela positivamente tem sangue de gigante, e no quer nem admitir...
        -        Claro que no - disse Hermione secamente, erguendo os olhos. - Olha s o que aconteceu com o Hagrid quando a Rita descobriu quem era a me dele. 
Olha s o Fudge tirando concluses apressadas sobre ela, s porque a me  meio giganta. Quem precisa desse tipo de preconceito? Eu provavelmente diria que tinha 
ossos grandes se soubesse o que me esperava por dizer a verdade.
        Hermione consultou seu relgio de pulso.
        -        No praticamos nada! - exclamou, chocada. - Vamos fazer a Azarao de Impedimento! Amanh temos que meter as caras nela pra valer! Vamos Harry voc 
precisa descansar.
        Os dois garotos subiram lentamente para o dormitrio. Enquanto vestia o pijama, Harry olhou para a cama de Nevilie. Fiel  palavra dada a Dumbledore, no 
falara a Rony e Hermione sobre os pais do garoto. Depois que tirou os culos e se meteu na cama, ficou imaginando como devia ser a pessoa ter pais vivos, mas incapazes
de reconhec-la. Ele sempre despertava simpatia nos estranhos por ser
rfo, mas ao escutar os roncos de Nevilie, concluiu que o colega a merecia mais do que ele. 
Deitado no escuro, Harry sentiu um assomo de raiva e dio contra as pessoas que haviam torturado o Sr. e a Sra. Longbottom... lembrou-se dos risos e caoadas dos 
espectadores quando o filho de Crouch e os companheiros foram arrastados para fora do tribunal pelos dementadores... compreendeu o que sentiram... ento lembrou-se 
do rosto extremamente branco do garoto que gritava e percebeu, com um
sobressalto, que ele morrera no ano seguinte...
#483
        Fora Voldemorr, pensou Harry fitando, no escuro, o dossel da cama, tudo acabava apontando para Voldemort... ele  quem tinha separado aquelas famlias, quem
tinha arruinado todas aquelas vidas...

Rony e Hermione precisavam estar revisando as matrias para os exames, que terminariam 
no dia da terceira tarefa, em lugar disso, estavam devotando todas as energias
a ajudar Harry a se preparar.
        -        No se preocupe - disse Hermione brevemente, quando Harry comentou isso com eles, e disse que no se importava de continuar a praticar sozinho.
- Pelo menos vamos tirar notas maximas em Defesa contra as Artes das Trevas, nunca teramos descoberto tantas azaraes em aula.
        - Bom treinamento para quando formos aurores - comentou Rony excitado, experimentando uma Azarao de Impedimento em uma vespa que entrara zumbindo na sala,
e fazendo-a estacar no ar.
        Quando entrou o ms de junho, a atmosfera do castelo se tornou mais uma vez eltrica e tensa. Todos aguardavam com ansiedade a terceira tarefa, que se realizaria 
uma semana antes do fim do trimestre. Harry praticava azaraes em todos os momentos de folga. Sentia-se mais confiante com relao a esta tarefa do que a qualquer 
das anteriores. Mas, apesar de difcil e perigosa, como certamente seria, Moody tinha razo: Harry conseguira passar por criaturas monstruosas e atravessar barreiras 
mgicas antes, e desta vez, recebera aviso, tivera a chance de se preparar para aquilo que o aguardava.
        Cansada de surpreend-los por toda a escola, a Profa Minerva dera a Harry permisso para usar a sala de Transformao vazia?" hora do almoo. Ele no tardou
a dominar a Azarao de Impedimento, um feitio para retardar e obstruir atacantes, 
o Feitio Redutor lhe permitiria explodir objetos slidos em seu
caminho,
o        Feitio dos Quatro Pontos, uma descoberta til de Hermione que faria sua varinha apontar para o norte, permitindo-lhe, assim, verificar se estava se deslocando
na direo certa dentro do labirinto.
Mas ele ainda estava tendo        problemas com o Feitio
Escudo. Este lanava uma parede temporria e invisvel em torno dele e
#484
o protegia de pequenos feitios; Hermione conseguiu desfaz-la com uma bem colocada Azarao das Pernas Bambas. Harry bambeou pela sala uns bons dez minutos, at 
a
garota ter tido tempo para achar a contra-azarao.
        - Mas voc continua se saindo realmente bem - disse Hermione encorajando Harry e consultando a lista que fizera para riscar o
que ele j aprendera. - Alguns desses devem ser uma mo na roda.
        -        Venham s dar uma espiada nisso - disse Rony que estava parado junto  janela. Contemplava os jardins. - Que ser que o
Malfoy est aprontando?
        Harry e Hermione foram ver. Malfoy, Crabbe e Goyle estavam parados  sombra de uma rvore l embaixo. Crabbe e Goyle pareciam estar vigiando alguma coisa;
os dois abafavam risinhos. Malfoy tampava a boca com a mo e falava para dentro dela.
        -        Parece at que ele est usando um walkie-talkie - disse Harry curioso.
        - No pode estar - lembrou Hermione. - J disse a vocs dois que esse tipo de coisa no funciona em Hogwarts. Vamos, Harry - acrescentou ela energicamente,
dando as costas  janela e voltando ao meio da sala -" vamos experimentar outra vez o Feitio Escudo.

Sirius agora mandava corujas diariamente. Do mesmo modo que Hermione, ele parecia querer se concentrar em fazer Harry concluir a ltima tarefa, antes de se preocupar
com outra coisa. Em cada carta ele lembrava ao afilhado que fosse o que fosse que acontecesse fora dos muros de Hogwarts no era responsabilidade do garoto, nem
estava em seu poder influenciar nada.

Se Voldemort est realmente voltando a se fortalecer (escreveu ele), minha prioridade  garantir a sua segurana. Ele no pode sequer alimentar esperanas de peg-lo
enquanto voc estiver sob a proteo de Dumbledore, mas mesmo assim, no corra riscos:
concentre-se em atravessar esse tal labirinto em segurana, depois poderemos voltar nossa ateno para outros assuntos.

O        nervosismo de Harry foi crescendo  medida que o dia vinte e
quatro de junho se aproximava, mas nem tanto quanto nas tarefas
anteriores. Por um lado, ele se sentia confiante de que, desta vez, fizera tudo que pudera para
se preparar para a tarefa. Por outro, esse
#485
era o ltimo esforo e, independentemente de se dar bem ou mal, o torneio enfim terminaria, o que seria um enorme alvio.

O caf foi uma reunio barulhenta  mesa da Grifinria, na manh da terceira tarefa. O correio-coruja apareceu, trazendo para
Harry um carto de boa sorte de Sirius.
Era apenas um pedao de perga mnho, dobrado com a impresso de uma pata enlameada, Harry gostou assim mesmo. Uma coruja-das-torres chegou trazen do para Hermione
seu exemplar do Profeta Dirio, como habitual mente. Ela abriu o jornal, deu uma olhada na primeira
pgina,  cuspiu a boca cheia de suco de abbora, sujando todo o jornal.
        -        Que foi? - exclamaram Harry e Rony juntos, olhando para garota.
        -        Nada - disse Hermione depressa, tentando esconder o jornal, mas Rony agarrou-o.
Ele arregalou os olhos para a manchete e disse:
        -        Nem pensar. Hoje no. Essa vaca velha.
        -        Que foi? - perguntou Harry. - Rita Skeeter de novo?
        -        No - respondeu Rony, e do mesmo modo que Hermione, tentou esconder o jornal.
        -        Fala de mim, no ? - perguntou Harry.
        -        No - disse Rony, num tom que no convencia ningum.
        Mas antes que Harry pudesse pedir para ver o jornal, Draco Malfoy gritou l da mesa da Sonserina, do outro lado do salo.
        -        Ei, Porter! Potter! Como  que est a sua cabea? Voc est se sentindo legal? Tem certeza de que no vai endoidar para cima da
gente?
        Malfoy segurava um exemplar do Profeta Dirio, tambm. Os
alunos ao redor da mesa da Sonserina deram risadinhas e se viraram nas cadeiras para ver a reao de Harry.
- Me deixa ver isso - pediu Harry a Rony. - Me d isso aqui. Com muita relutncia, Rony entregou o jornal. Harry virou-o
e deparou com a prpria foto, sob uma gigantesca manchete.

HARRY POTTER "PERTURBADO E PERIGOSO"

        " O garoto que derrotou Aquele-Que-No-Deve-Ser-Nomeado
                encontra -se instvel e possivelmente perigoso, escreve nossa
reprter especial Rita Skeeter. H poucos dias vieram  luz
#486
provas assustadoras do estranho comportamento de Harry Potter, que lanam dvidas 
sobre suas qualificaes para competir em um torneio rigoroso como o Tribruxo, ou at
mesmo para frequentar a Escola de Hogwarts.
        O Profeta Dirio est em condies de afirmar, com exclusividade, que Potter regularmente desmaia na escola, e com
frequncia se queixa de dor na cicatriz
que tem na testa (relquia de um feitio com que Voc-Sabe-Quem tentou mat-lo). Na ltima
segunda-feira, no meio de uma aula de Adivinhao, a reprter do Profeta
Dirio presenciou a sada intempestiva de Potter da sala de aula, dizendo que sua cicatriz o incomodava em demasia para que pudesse continuar em classe.
 possveL dizem os maiores especialistas do Hospital St.
Mungus para Doenas e Acidentes Mgicos, que o crebro de
Potter tenha sido afetado pelo ataque que sofreu de Voc-Sabe-
Quem, e que sua insistncia em dizer que a cicatriz continua a
doer seja uma expresso de sua arraigada confuso.
"Talvez at esteja fingindo": opinou um especialista, "o que
poderia ser um mecanismo para receber ateno."
        O        Profeta Dirio, no entanto, descobriu fatos preocupantes sobre Harry Potter, - que Alvo Dumbledore, diretor de Hogwarts,
tem cuidadosamente ocultado do pblico bruxo.
        "Potter  ofldioglota" revela Draco Malfoy, um quartanista de Hogwarts. "H uns 
dois anos, houve uma srie de ataques a estudantes, e quase todos pensaram
que Potter era o responsvel depois que o viram perder a cabea em um Clube de Duelos e aular uma cobra contra um colega. O episdio foi abafado. Mas ele tambm
faz amizade com lobisomens e gigantes. Achamos que ele  capaz de qualquer coisa para ter algum poder."
        Ofidioglossia, ou a capacidade de conversar com as cobras,  tradicionalmente considerada uma Arte das Trevas. Com efeito, o ofidioglota mais famoso dos
nossos tempos no  outro seno Voc-Sabe-Quem. Um membro da Liga de
Defesa contra as Artes das Trevas, que prefere se manter annimo, declarou que consideraria
qualquer bruxo ofidioglota "merecedor de investigao. Pessoalmente, eu encararia 
com muita suspeita qualquer pessoa que conversasse com cobras, pois esses
animais em geral so usados nos piores tipos de magia negra e historicamente, so associados com bruxos
#487
 malignos"! Da mesma forma "qualquer um que procure a companhia de criaturas selvagens como lobisomens e gigantes me parece ter inclinao para a violncia":
        Alvo Dumbledore deveria, sem dvida, refletir se um garoto desses pode realmente competir no Torneio Tribruxo. H quem receie que Potter possa apelar para
as Artes das Trevas em seu desespero de vencer o torneio, cuja terceira
tarefa ser realizada hoje  noite.

- Acho que ela est deixando de gostar de mim, no? - comentou Harry despreocupado, dobrando o jornal.
Na mesa da Sonserina, Malfoy, Crabbe e Goyle riam-se dele,
davam pancadinhas na cabea, faziam caretas grotescas imitando
loucos e agitavam as lnguas como cobras.
        -        Como foi que ela soube que a sua cicatriz doeu na aula de Adivinhao? - perguntou Rony. - No havia como ela ter estado
presente, no havia como poder ter ouvido...
        -        A janela estava aberta - disse Harry. - Eu a abri para respirar.
        -        Voc estava no alto da Torre Norte - lembrou Hermione. - Sua voz no podia ter sido ouvida l embaixo nos jardins!
        -        Bem, voc  quem anda pesquisando mtodos mgicos de grampear! - disse Harry. - Me diga voc como foi que ela conseguiu!
        -        Estou tentando - defendeu-se Hermione. - Mas eu... mas...
Uma expresso estranha e sonhadora subitamente apareceu no
rosto de Hermione. Ela ergueu uma das mos e correu os dedos
pelos cabelos.
        -        Voc est legal? - perguntou Rony, erguendo as sobrancelhas para a amiga.
        -        Estou - respondeu Hermione sem flego. Ela tornou a correr os dedos pelos cabelos e levou a mo  boca, como se estivesse falando para um walkie-talkie
invisvel. Harry e Rony se entreolharam.
        -        Tive uma idia - disse Hermione, olhando para o espao. - Acho que sei... porque desse jeito ningum poderia ver... nem
Moody... e ela poderia ter chegado at o peitoril da janela... mas
isso  proibido... decididamente  proibido... acho que a pegamos!
Me dem dois segundinhos na biblioteca, s para ter certeza!
Dizendo isso, Hermione agarrou a mochila e saiu correndo do
Salo Principal.
        -        Oi! - gritou Rony para ela. - Temos exame de Histria da Magia dentro de dez minutos! Caracas - disse o garoto tornando a
#488
se virar para Harry -, ela deve realmente odiar aquela Skeeter para se arriscar a perder o incio do exame. Que  que voc vai fazer na sala do Binns, reler livros?
        Dispensado dos testes de fim de trimestre por ser campeo no
torneio, at ali Harry se sentara no fundo das salas de exame, pesquisando novas azaraes para a terceira tarefa.
        - Acho que sim - respondeu Harry para Rony; mas nesse instante a Profa Minerva vinha contornando a mesa da Grifinria em
direo a ele.
        - Potter, os campees vo se reunir na cmara vizinha ao salo depois do caf - anunciou ela.
        - Mas a tarefa s vai ser  noite! - exclamou Harry, derramando, sem querer, ovos mexidos na roupa, receoso de que tivesse se
enganado na hora.
        - Eu sei disso, Potter. As famlias dos campees foram convidadas para assistir  ltima tarefa, entende.
 apenas uma oportunidade para voc cumpriment-los.
        Ela se afastou. Harry acompanhou-a com o olhar, boquiaberto.
        - Ela no est esperando que os Dursley apaream, est? - perguntou a Rony sem entender.
        - Sei l. Harry,  melhor eu me apressar ou vou chegar tarde na sala de Binns. A gente se v depois.
        Harry terminou o caf da manh num salo que ia lentamente se esvaziando. Viu Fleur Delacour se levantar da mesa da Corvinal e se juntar a Cedrico, na hora
em que o rapaz atravessava o salo para entrar na cmara. Krum saiu daquele seu jeito curvado para se reunir a eles logo depois. Harry continuou onde estava. Na
realidade no queria entrar na cmara. No tinha famlia - ou pelo menos nenhuma famlia que fosse aparecer para v-lo arriscar a vida. Mas no instante em que comeou
a se levantar, pensando que seria melhor ir  biblioteca reler mais algumas azaraes, a porta da cmara se abriu e Cedrico ps a cabea para fora.
        - Harry, anda, eles esto esperando por voc!
Absolutamente perplexo, Harry se levantou. No era possvel
que os Dursley estivessem ali, era? O garoto atravessou o salo e
        abriu a porta que levava  cmara.
        Cedrico e os pais estavam logo  entrada. Vitor Krum, a um
canto, falava muito depressa em blgaro com o pai e a me de
#489
cabelos escuros. Herdara o nariz adunco do pai. Do outro lado da sala, Fleur algaraviava em francs com a me. Sua irmzinha, Gabrielle, segurava a mo da me. Ela
acenou para Harry, que retribuiu o aceno. Ento ele viu a Sra. Weasley e Gui parados diante da lareira, sorrindo para ele.
        -        Surpresa! - disse animada a Sra. Weasley, quando Harry, todo sorriso, se encaminhou para eles. - Pensamos em vir ver voc,
Harry! - Ela se curvou e lhe deu um beijo na bochecha.
        -        Voc est bem? - cumprimentou Gui, sorrindo para o garoto e apertando sua mo. - Carlinhos queria vir, mas no pde tirar licena. Ele me contou 
que voc esteve incrvel na tarefa com o Rabo-Crneo hngaro.
        Fleur Delacour, Harry notou, espiava Gui, com grande interesse, por cima do ombro da me. O garoto percebeu que ela no fazia objeo alguma a cabelos compridos 
e brincos com dentes pendurados.
        -        Foi muita gentileza da senhora - murmurou Harry  Sra. Weasley. - Pensei por um momento... os Dursley...
        -        Hum - resmungou a Sra. Weasley contraindo os lbios. Ela sempre se abstinha de criticar os Dursley diante de
Harry mas seus olhos faiscavam sempre que eles eram mencionados.
        -        Estou achando o mximo voltar aqui - comentou Gui, correndo os olhos pela
cmara (Violeta, a amiga da Mulher Gorda, piscou para ele l do seu quadro).
- No revejo a escola h cinco anos. Aquele quadro do cavaleiro doido ainda est por a? Sir Cadogan?
        -        Ah, est - respondeu Harry, que conhecera Sir Cadogan no ano anterior.
        -        E a Mulher Gorda? - indagou Gui.
        -        Ela j estava aqui no meu tempo - comentou a Sra. Weasley.
- Ela me passou um caro daqueles uma noite em que eu vinha voltando para o dormitrio s quatro horas da manh...
        -        E o que  que a senhora estava fazendo fora do dormitrio as quatro horas da manh? - perguntou Gui olhando a Sra. Weasley,
admirado.
Ela sorriu, os olhos cintilando.
- Seu pai e eu samos para dar um passeio  noite. Ele foi pego
por Apolneo Pringle, era o zelador naquela poca, seu pai ainda
tem as marcas.
#490
        - Quer fazer o tour da escola com a gente, Harry? - perguntou Gui. Ah, OK.- disse Harry e os trs se dirigiram  porta que levava ao Salo Principal.
Ao passarem por Amos Diggory, o bruxo se virou.
        -        A est voc, no ? - disse ele, olhando Harry de alto a baixo. - Aposto como no est se sentindo to cheio de si agora que
Cedrico superou a sua pontuao, no?
        -        Qu? - exclamou Harry.
        -        No d ateno a ele - pediu Cedrico a Harry, em voz baixa, erguendo as sobrancelhas para o pai. - Ele anda aborrecido desde o artigo da Rita Skeeter 
sobre o Torneio Tribruxo, sabe, porque ela fez de conta que voc era o nico campeo de Hogwarts.
        -        Mas ele no se deu ao trabalho de corrigi-la, no ? - disse Amos Diggory, em voz suficientemente alta para Harry ouvir quando ia se encaminhando 
para a porta com a Sra. Weasley e Gui.
- Mas... voc vai mostrar a ele, Cedrico. J o venceu uma vez, no foi?
        -        Rita Skeeter sai do caminho dela para provocar confuses, Amos! - disse a Sra. Weasley zangada. - Era de se esperar que voc
soubesse disso, j que trabalha no Ministrio!
        o        Sr. Diggory pareceu que ia dizer alguma coisa, irritado, mas sua mulher ps a mo em seu brao e ele simplesmente encolheu os
ombros e virou as costas.
        Harry teve uma manh muito agradvel passeando pela propriedade ensolarada com Gui e a Sra. Weasley, mostrando-lhes a carruagem de Beauxbarons e o navio 
de Durmstrang. A Sra. Weasley se mostrou intrigada com o Salgueiro Lutador, que fora plantado depois que ela terminara a escola, e lembrou-se longamente do guarda-caa 
antes de Hagrid, um homem chamado Ogg.
        -        Como vai o Percy? - perguntou Harry, quando davam a volta s estufas.
        -        Nada bem - respondeu Gui.
        -        Ele est muito aborrecido - disse a Sra. Weasley, baixando a voz e olhando para os lados. - O Ministrio quer abafar o desaparecimento do Sr. Crouch, 
e Percy foi convocado para um interrogatrio sobre as instrues que o Sr. Crouch tem-lhe mandado.
 Aparentemente o Ministrio pensa que elas talvez no tenham
sido escritas por Crouch. Percy est sob uma enorme tenso. No vo
#491
deix-lo substituir o chefe, como quinto juiz, hoje  noite. Cornlio Fudge vir fazer isso.
        Os trs voltaram ao castelo para almoar.
        -        Mame... Gui! - exclamou Rony, fazendo cara de espanto, ao se reunir  mesa da Grifinria. - Que  que vocs esto fazendo
aqui?
        -        Viemos assistir  ltima tarefa do Harry! - disse a Sra. Weasley animada. - Devo confessar,  uma bela mudana no ter que
cozinhar. Como foi o seu exame?
        -        Ah... OK.. No consegui me lembrar dos nomes de todos os duendes rebeldes, por isso inventei alguns. Tudo bem - acrescentou servindo-se de um pastel 
gals, sob o olhar severo da me -, todos eles tm nomes tipo Bodrode o Barbudo, Urgue o Impuro, no foi difcil.
        Fred, Jorge e Gina vieram fazer companhia a eles tambm e Harry se divertiu tanto que quase se sentiu de volta  Toca; esquecera-se de se preocupar com a 
tarefa da noite e somente quando Hermione apareceu, j na metade do almoo, foi que ele se lembrou de que a garota tivera uma idia sobre Rita Skeeter.
        -        Vai nos contar...?
        Hermione balanou a cabea num aviso e olhou para a Sra.
Weasley.
        -        Ol, Hermione - disse a Sra. Weasley muito mais formalmente do que de costume.
        -        Ol - respondeu a garota, seu sorriso hesitante diante da expresso fria no rosto da senhora.
        Harry olhou para as duas, em seguida disse:
        -        Sra. Weasley, a senhora no acreditou naquele besteirol que a Rita
Skeeter escreveu no Semanrio das Bruxas, acreditou? Porque
Mione no  minha namorada.
        -        Ah! - exclamou a Sra. Weasley. - No...  claro que no!
        Mas ela se tornou bem mais calorosa para com Hermione depois disso.
        Harry, Gui e a Sra. Weasley passaram a tarde em um longo passeio ao redor do castelo, depois voltaram ao Salo Principal para o
        banquete da noite. Ludo Bagman e Cornlio Fudge haviam se
sentado  mesa dos professores. Bagman parecia bem animado, mas
Cornlio Fudge, ao lado de Madame Maxime, estava srio e calado. Madame Maxime se concentrava no prato a sua frente, e Harry
#492
achou que seus olhos pareciam vermelhos. Hagrid no parava de olhar para os lados dela na mesa.
        Havia mais pratos do que de costume, mas o garoto, que estava comeando a se sentir realmente nervoso, no comeu muito. Quando o teto encantado no alto comeou 
a desbotar de azul para um violceo crepuscular, Dumbledore se ergueu  mesa dos professores e fez-se silncio.
        -        Senhoras e senhores, dentro de cinco minutos, vou pedir a todos que se encaminhem para o estdio de quadribol para assistir  terceira e ltima 
tarefa do Torneio Tribruxo. Os campees, por favor, queiram acompanhar o Sr. Bagman ao estdio agora.
        Harry se levantou. Todos os colegas da Grifinria o aplaudiram; os Weasley e Hermione lhe desejaram boa sorte e ele se dirigiu  porta do Salo Principal
com Cedrico, Fleur e Krum.
        -        Est se sentindo bem, Harry? - perguntou Bagman, quando desciam os degraus da entrada para os jardins. - Confiante?
        -        Estou OK.. - Era um pouco verdade; estava nervoso, mas no parava de repassar mentalmente todas as azaraes e feitios que praticara enquanto andavam,
e a idia de que era capaz de lembrar de todos eles o fazia se sentir melhor.
        Os campees entraram no estdio de quadribol, que estava
totalmente irreconhecvel. Uma sebe de seis metros corria a toda volta.
Havia uma abertura bem diante deles: a entrada para o
imenso labirinto. A passagem alm parecia escura e sinistra.
        Cinco minutos mais tarde, as arquibancadas comearam a se encher; o ar vibrou com as vozes excitadas e o rudo dos ps de centenas de estudantes que ocupavam
seus lugares. O cu se tornara azul profundo e lmpido, e as primeiras estrelas comeavam a surgir. Hagrid, o Prof. Moody, a Profa Minerva e o Prof. Flitwick entraram
no estdio e se aproximaram de Bagman e dos campees. Usavam grandes estrelas vermelhas e luminosas nos chapus, todos, exceto Hagrid, que carregava a dele nas costas
do colete de pele de toupeira.
        -        Vamos patrulhar o lado externo do labirinto - disse a professora aos campees. - Se estiverem em apuros, e quiserem ser socorridos, disparem fascas
vermelhas para o ar e um de ns ir busclos, entenderam?
Os campees confirmaram com um aceno de cabea.
        -        Podem comear, ento! - disse Bagman, animado, para os quatro patrulheiros.
#493
        -        Boa sorte, Harry - sussurrou Hagrid, e os quatro saram em diferentes direes para se postar em torno do labirinto. Bagman, ento, apontou a varinha
para a garganta e murmurou "Sonorus", e sua voz magicamente amplificada ressoou pelas arquibancadas.
        "Senhoras e senhores, a terceira e ltima tarefa do Torneio Tribruxo est prestes a comear! Deixe-me lembrar a todos o placar atual! Empatados em primeiro
lugar, com oitenta e cinco pontos cada - o Sr. Cedrico e o Sr. Harry Potter, os dois da Escola de Hogwarts!" Os vivas e as palmas fizeram os pssaros sairem voando
da Floresta Proibida para o cu crepuscular. "Em segundo lugar, com oitenta pontos - o Sr. Vtor Krum, do Instituto Durmstrang!" Mais aplausos. "E, em terceiro lugar
- a Srta. Fleur Delacour, da Academia de Beauxbatons!"
        Harry conseguiu apenas reconhecer a Sra. Weasley, Guy, Rony e Hermione aplaudindo Fleur educadamente, mais ou menos no meio das arquibancadas. Ele acenou
para os amigos que retribuiram o aceno, sorrindo.
        "Ento... quando eu apitar, Harry e Cedrico!", anunciou
Bagman. "Trs - dois - um..."
        O bruxo soprou com fora o apito e Harry e Cedrico correram para a entrada do labirinto.
        As sebes altaneiras lanavam sombras escuras sobre a trilha e, talvez porque fossem to altas e densas ou porque fossem encantadas, o barulho dos espectadores
que as cercavam silenciou no instante em que os rapazes entraram no labirinto. Harry quase se
se sentiu novamente embaixo da gua. Puxou a varinha, murmurou: Lumus" e ouviu Cedrico fazer o mesmo
atrs dele.
        Depois de andarem uns cinpUenta metros, os garotos chegaram a 
uma bifurcao. Entreolharam-se.
        - At mais - disse Harry e tomou a trilha da esquerda, enquanto Cedrico tomou a da direita.
        Harry ouviu o apito de Bagman uma segunda vez. Krum acabara de entrar no 
labirinto. Harry se apressou. A trilha que escolhera parecia completamente deserta.
Ele se virou  direita e continuou depressa, mantendo a varinha acima da cabea, tentando
ver o mais longe possvel. Mesmo assim, no havia nada  vista.
        O        apito de Bagman soou ao longe uma terceira vez. Todos
os campees agora estavam no interior do labirinto.
#494
        Harry no parava de olhar para trs. Tinha a sensao familiar de que algum o vigiava. O labirinto foi ficando mais escuro a cada minuto que se passava,
porque o cu no alto ia ganhando um matiz azul-marinho. Ele chegou a uma segunda bifurcao.
        -        Me oriente - sussurrou ele  varinha, segurando-a deitada na palma da mo.
        A varinha fez um giro completo e apontou para a direita, para a sebe macia. Para ali ficava o norte, e ele sabia que precisava seguir para noroeste para 
chegar ao centro do labirinto. Faria melhor se tomasse a trilha da esquerda e tornasse a seguir para a direita assim que pudesse.
        A trilha  frente tambm estava vazia e quando Harry chegou a uma curva  direita e entrou por ela, encontrou mais uma vez o caminho livre. Harry no sabia
o porqu, mas a falta de obstculos comeava a deix-lo nervoso. Com certeza j deveria ter encontrado algum a essa altura? Tinha a impresso de que o labirinto
o estava induzindo a uma falsa sensao de segurana. Ento ouviu um movimento bem atrs dele. Ergueu a varinha, pronto a atacar, mas seu facho de luz recaiu sobre
Cedrico, que acabara de sair correndo da trilha do lado direito. Cedrico parecia gravemente abalado. A manga de suas vestes fumegava.
        - Os explosivins de Hagrid! - sibilou ele. - Esto enormes, escapei por um triz!
        Cedrico sacudiu a cabea e desapareceu de vista por outra trilha. Interessado em guardar uma boa distncia entre ele prprio e os explosivins, Harry retomou
depressa o seu caminho. Ento, ao fazer uma curva ele viu...
        Um dementador deslizava em sua direo. Trs metros e meio de altura, o rosto oculto pelo capuz, as mos podres e cobertas de feridas estendidas  frente,
ele avanava s cegas, tateando em direo ao garoto. Harry ouviu sua respirao vibrante; sentiu um frio pegajoso se apoderar dele, mas sabia o que precisava fazer...
        Chamou  mente o pensamento mais feliz que pde, se concentrou com todas as foras no pensamento de sair do labirinto e comemorar com Rony e Hermione, ergueu
a varinha e exclamou:
Expecto Patron um!
        Um veado prateado irrompeu da ponta da varinha de Harry e
avanou  galope para o dementador, que recuou e tropeou na
barra das vestes... Harry nunca vira um dementador tropear.
#495
        - Espere ai! - gritou ele, avanando na cola do seu patrono prateado. - Voc  um bicho-papo! Riafdikulus!
        Ouviu-se um grande estalo e o transformista explodiu, deixando atrs apenas uma fumacinha. O veado prateado desapareceu de vista. Harry desejou que ele tivesse 
podido ficar, seria agradvel ter uma companhia... mas continuou o seu caminho o mais depressa e silenciosamente que pde, apurando os ouvidos, a varinha, mais uma 
vez, erguida no alto.
        Esquerda... direita... novamente  esquerda... em duas ocasies ele foi dar em trilhas sem saida. Harry executou o Feitio dos Quatro Pontos mais uma vez 
e descobriu que se afastara demais para leste. Retrocedeu, tomou a trilha  direita e viu uma estranha nvoa dourada flutuando mais adiante.
        Aproximou-se cautelosamente, apontando para a nvoa o facho de luz da varinha. Parecia algum tipo de encantamento. Ele se
        perguntou se seria capaz de explodi-la para desimpedir o caminho.
-        Reducto!- ordenou.
        O feitio atravessou a nvoa, deixando-a intacta. O garoto concluiu que devia ter sabido: o Feitio Redutor s servia para objetos slidos. Que aconteceria 
se ele atravessasse a nvoa? Valeria a pena arriscar ou deveria retroceder?
        Ele ainda hesitava, quando um grito rompeu o silncio.
        - Fleur? - berrou Harry.
        Silncio. Ele olhou para todos os lados. Que acontecera com a garota? Seu grito parecia ter vindo de algum lugar  frente. O garoto inspirou profundamente 
e atravessou a nvoa encantada.
        O mundo virou de cabea para baixo. Harry ficou pendurado no cho, os cabelos em p, os culos balanando fora do nariz, ameaando cair no cu infinito. 
Ele os segurou na ponta do nariz e continuou pendurado ali, aterrorizado. Tinha a sensao de que seus ps estavam grudados na grama, que agora se transformara em 
teto. Abaixo, o cu pontilhado de estrelas se estendia infinitamente. Harry sentiu que se tentasse mexer um p, despencaria da terra de vez.
Pense, disse a si mesmo, enquanto todo o seu sangue afluia 
cabea, pense...
Mas nenhum dos feitios que praticara se destinava a combater uma repentina inverso de terra e cu. Ousaria mexer um p?
        Ele ouviu o sangue latejar com fora em seus ouvidos. Tinha duas
#496
                opes - tentar se mexer ou disparar fascas vermelhas e ser socorrido e desqualificado da tarefa.
                   Harry fechou os olhos para evitar contemplar o espao
infini                to abaixo dele e puxou o p direito com toda a fora que pde do
teto gramado.
                   Imediatamente o mundo se endireitou. Harry caiu para a frente 
de joelhos num cho maravilhosamente slido. Sentiu-se por
                algum tempo mole de susto. Inspirou profundamente para se firmar, ento 
tornou a se levantar e avanou correndo, lanando olhares para trs por cima do ombro, enquanto fugia da 
nvoa dourada, que piscou para ele inocentemente ao luar.
                   O garoto parou na juno de duas trilhas e olhou para os lados
                 procura de algum sinal de Fleur. Tinha certeza de que fora a 
garota que ouvira gritar. Com que ser que ela deparara? Estaria bem?
                No havia faiscas vermelhas no alto - ser que isto significava que
                conseguira se livrar do problema ou estaria em tal apuro que nem
                conseguira apanhar a varinha? Harry tomou a trilha  direita com
                uma sensao de crescente inquietao... mas, ao mesmo tempo,
                no conseguiu deixar de pensar, menos um campeo...
                   A Taa estava em algum lugar ali perto e, pelo jeito, Fleur no
                estava mais competindo. Ele chegara at ali, no chegara? E se, de
                fato, conseguisse vencer? Por um instante fugaz, e pela primeira vez
                desde que se fora feito campeo, ele reviu aquela imagem de
simesmo,
erguendo a Taa do Tribruxo diante do resto da escola...
                   Por uns dez minutos no encontrou nada, exceto trilhas sem
                sada. Duas vezes tomou a mesma trilha errada. Finalmente encontrou 
um novo caminho e comeou a andar depressa por ele, a luz da varinha oscilando, fazendo sua sombra bruxulear e se distorcer
                pelos lados da sebe. Ento ele virou mais uma vez e deu de cara
                com um explosvm.
                   Cedrico tinha razo - era enorme. Trs metros de comprimento,
lembrava mais um escorpio gigante do que qualquer outra coisa. Seu longo ferro estava revirado para trs. A grossa
armadura refulgia  luz da varinha, que Harry apontava para ele.
                  - Estupefaa !
                   O feitio bateu no escudo do explosivim e ricocheteou; Harry
se abaixou bem a tempo, mas sentiu cheiro de cabelos queimados;
chamuscara o cocururo da cabea. O explosivim soltou um jorro
de chamas da cauda e voou para cima do garoto.
#497
        -        Impedimenta!- berrou Harry. O feitio bateu mais uma vez no escudo do explosivim e voltou; Harry cambaleou alguns passos
para trs e caiu.
 - IMPEDIMENTA!
        O explosivim estava a centmetros dele quando se imobilizou - o garoto conseguira atingi-lo na barriga carnuda e sem escudo. Ofegando, Harry se impeliu para
longe e correu, com todas as foras, na direo oposta - a Azarao de Impedimento no era permanente, o explosivim recobraria o uso das pernas a qualquer momento.
        Harry seguiu pela trilha da esquerda e no encontrou sada,
seguiu pela da direita e tampouco encontrou sada; obrigando-se a
parar, com o corao acelerado, ele executou mais uma vez o
Feitio dos Quatro Pontos, retrocedeu e escolheu uma trilha que o
levasse para noroeste.
        J ia caminhando apressado pela nova trilha havia alguns minutos, quando ouviu alguma coisa na trilha paralela  sua, que o fez
estacar.
        - Que  que voc est fazendo? - berrou a voz de Cedrico. - Que diabo voc pensa que est fazendo?
        E ento Harry ouviu a voz de Krum.
-        Crucio!
        O        ar se encheu repentinamente com os gritos de Cedrico. Horrorizado, Harry avanou correndo por sua trilha, tentando encontrar uma passagem para a
de Cedrico. Quando no apareceu nenhuma, ele tentou novamente o Feitio Redutor. No foi eficiente, mas queimou um buraquinho na sebe, pelo qual Harry enfiou a perna,
chutando os galhos emaranhados at eles cederem deixando uma abertura; com esforo Harry a atravessou, rasgando as vestes e, ao olhar para a direita, viu Cedrico
se debatendo e se contorcendo no cho, sob o olhar de Krum.
        Harry se endireitou e apontou a varinha para Krum na hora em
que o rapaz ergueu a cabea. Krum deu as costas e comeou a correr.
-        Estupefaa!- berrou Harry.
        O        feitio atingiu Krum pelas costas; ele parou instantaneamente, caiu de borco e ficou imvel, com a cara na grama. Harry
correu para Cedrico, que parara de se contorcer mas continuava
 deitado no cho arfando, as mos cobrindo o rosto.
        - Voc est bem? - perguntou Harry rouco, agarrando Cedrico pelo brao.
#498
        -        Estou - ofegou ele. - ... eu no acredito... ele se aproximou de mim pelas costas... eu o ouvi e, quando me virei, ele estava
        empunhando a varinha apontada para mim...
        Cedrico se levantou. Ainda tremia. Ele e Harry olharam para
        Krum.
        -        Eu no acredito... achei que ele era legal - comentou Harry, contemplando Krum.
        -        Eu tambm.
        -        Voc ouviu Fleur gritar h algum tempo?
        -        Ouvi. Voc acha que Krum a pegou tambm?
        -        No sei - disse Harry lentamente.
        - Vamos deix-lo aqui? - perguntou Cedrico.
        - No - disse Harry. - Acho que devamos disparar fascas vermelhas. Algum vir apanh-lo... do contrrio ele provavelmente
ser comido por um explosivim.
        -        E seria bem merecido - murmurou Cedrico, mas ainda assim, ergueu a varinha e disparou uma chuva de fascas vermelhas para o ar, que pairaram sobre
Krum, marcando o local em que ele se encontrava.
        Harry e Cedrico ficaram ali no escuro por um momento,
        olhando a toda volta. Ento Cedrico falou:
        -        Bem... suponho que seja melhor a gente ir...
        -        Qu? Ah... sim... certo...
        Foi um momento estranho. Ele e Cedrico unidos por breves instantes contra Krum - agora o fato de serem adversrios ocorria a ambos. Eles continuaram pela 
trilha escura sem falar, ento Harry virou-se para a esquerda e Cedrico para a direita. O rudo dos passos do rapaz no tardou a desaparecer.
        Harry seguiu caminho, continuando a usar o Feitio dos Quatro Pontos, para se certificar de que caminhava na direo correta. Agora a competio estava entre 
ele e Cedrico. O desejo de chegar  Taa primeiro ardia em seu peito como nunca antes, mas ele no conseguia acreditar no que acabara de ver Krum fazer. O uso de 
uma Maldio Imperdovel em um ser humano significava uma sentena de priso perptua em Azkaban, fora o que Moody dissera. Krum com certeza no poderia ter desejado 
a Taa Tri
        bruxo tanto assim... Harry se apressou.        
        De vez em quando ele chegava a trilhas sem sada, mas a escurido crescente lhe dava a certeza de que estava se aproximando do
#499
centro do labirinto. Ento, quando seguia por uma trilha longa e reta, ele mais uma vez percebeu um movimento, e a luz de sua varinha incidiu sobre uma criatura
extraordinria, uma que ele s vira sob a forma de ilustrao no seu Livro monstruoso dos monstros.
        Era uma esfinge. Tinha o corpo de um enorme leo; grandes patas com garras e um longo rabo amarelado que terminava em um tufo de plos castanhos. A cabea, 
porm, era de mulher. Ela virou os olhos amendoados para Harry quando ele se aproximou. O garoto ergueu a varinha hesitante.
A esfinge no estava agachada como se
fosse saltar, mas andava de um lado para outro da trilha, bloqueando seu avano.
        Ento falou, com uma voz profunda e rouca:
        - Voc est muito prximo do seu objetivo. O caminho mais rpido  passando por mim.
- Ento... ento ser que a senhora podia se afastar, por favor?
- disse Harry, sabendo qual seria a resposta.
        -        No - disse ela, continuando a sua patrulha. - No, a no ser que voc decifre o meu enigma. Se acertar de primeira, deixo-o passar. Se errar, eu
o ataco. Permanea em silncio, e eu o deixarei partir, ileso.
        O estmago de Harry escorregou alguns centmetros. Hermione  que era boa nesse tipo de coisa e no ele. O garoto avaliou suas chances. Se o enigma fosse
muito difcil, ele podia se calar, ir embora sem se machucar e tentar encontrar um caminho alternativo para o centro.
        - OK. - respondeu ele. - Pode me dizer o enigma?
        A esfinge se sentou nos quartos traseiros, bem no meio da trilha e recitou:

"Primeiro pense no lugar reservado aos sacrifici os, Seja em que templo for.
        Depois, me diga que  que se desfolha no inverno e torna a brotar na primavera?
        Efinalmente, me diga qual  o objeto que tem som, luz e ar e
flutua na superficie do mar?
        Agora junte tudo e me responda o seguinte,
        Que tipo de criatura voc no gostaria de beijar?"
 Harry encarou-a boquiaberto.
        -        Podia, por favor, repetir... mais devagar? - pediu hesitante.
#500
        A esfinge pestanejou, sorriu e repetiu o enigma.
        - Todas as pistas levam ao nome da criatura que eu no gostaria de beijar? - perguntou Harry.
        A esfinge meramente sorriu, aquele sorriso misterioso. Harry interpretou-o como um "sim". Comeou a pensar. Havia muitos animais que ele no gostaria de 
beijar; seu pensamento imediato foi um explosivim, mas alguma coisa lhe disse que no era a resposta correta. Ele teria que tentar decifrar as pistas...
        - O lugar reservado aos sacrifcios - murmurou Harry, encarando a esfinge -, seja em que templo for... hum... seria... um altar. No, esta no seria a minha 
resposta! Uma... ara? Vou voltar a isso depois... poderia me dar a pista seguinte, por favor?
        O animal fabuloso repetiu as linhas seguintes do enigma.
        - A ltima coisa a desaparecer no inverno e a reaparecer na primavera nas rvores da floresta - repetiu Harry. -
Hum... no fao idia... rvores... galhos...
rama... pode me dizer o ltimo trecho outra vez?
       Ela repetiu as ltimas quatro linhas.
        - O objeto que tem som, luz e ar e flutua na superficie do mar...
- disse Harry. - Hum.... isso seria... hum... espere a, uma bia?
        A esfinge sorriu.
        - Ara... hum... ara... rama... - disse Harry, agora era ele quem estava andando para l e para c. - Uma criatura que eu no gostaria de beijar... uma ararambla!
        A esfinge abriu um sorriso maior. Levantou-se, esticou as pernas dianteiras e ento se afastou para um lado e o deixou passar.
        - Obrigado! - disse Harry e, admirado com a prpria genialidade, prosseguiu correndo.
        Tinha que estar perto agora, tinha que estar... a varinha lhe
dizia que estava na direo exata; desde que no deparasse com
nada horripilante, ele poderia ter uma chance...
         frente precisou escolher entre duas trilhas.
        - Me oriente! - sussurrou mais uma vez  varinha, e ela deu um giro e apontou para a da direita. Harry saiu correndo por ela e viu
uma luz adiante.
        A Taa Tribruxo brilhava num pedestal a menos de cem metros
a sua frente. Harry mal saira correndo quando um vulto escuro se
precipitou sobre a trilha  sua frente.
        Cedrico ia chegar primeiro. O rapaz estava correndo o mais
#501
rpido que podia em direo  Taa, e Harry percebeu que nunca o alcanaria, Cedrico era muito mais alto, tinha pernas muito mais compridas...
        Ento, Harry viu um vulto imenso por cima da sebe  sua esquerda, deslocando-se ligeiro pela trilha que cortava a sua; ia to depressa que Cedrico estava
prestes a colidir com ele, e com os olhos na Taa, o rapaz no vira o vulto...
        -        Cedrico! - berrou Harry. -  sua esquerda!
        O        garoto virou a cabea em tempo de se atirar para alm
vulto e evitar colidir com ele, mas, em sua pressa, tropeou. Harry viu a varinha voar da mo dele, ao mesmo tempo que uma enorme aranha entrava na trilha e comeava
a avanar para o rapaz.
        -        Estupefaa! - berrou Harry; o feitio atingiu o gigantesco corpo da aranha, negro e peludo, mas produziu tanto efeito quanto se o garoto tivesse
atirado uma simples pedra nela; a aranha deu um estremeo, virou-se e correu para Harry.
- Estupefaa! Impedimenta! Estupefaa!
        Mas no adiantou - a aranha ou era demasiado grande ou to mgica que os feitios s conseguiam irrit-la -, Harry viu de relance, horrorizado, oito olhos
negros e brilhantes e pinas afiadas como navalhas, antes que a aranha estivesse sobre ele.
        O        inseto ergueu-o no ar com as patas dianteiras; debatendo-se como louco, Harry tentou chut-lo; sua perna fez contato com as pinas e no momento 
seguinte ele sentiu uma dor excruciante - ouviu Cedrico gritar "lEstupefaa!" tambm, mas o feitio do rapaz produziu tanto efeito quanto o de Harry - o garoto ergueu 
a varinha quando a aranha tornou a abrir as pinas e gritou "Expeiliarmus!
"
        Funcionou - o Feitio para Desarmar fez a aranha larg-lo, o que significou que Harry caiu trs metros e tanto sobre uma perna j machucada, que se dobrou
sob seu corpo. Sem parar para pen sar, ele mirou bem alto sob a barriga da aranha, como fizera com explosivim, e gritou "Estupefaa!" na mesma hora em que
Cedricco
gritava o mesmo.
        Os dois feitios combinados fizeram o que um sozinho no
conseguira - a aranha tombou de lado, achatando uma sebe prxima.
e espalhando na trilha um emaranhado de pernas peludas.
        -        Harry! - ele ouviu Cedrico gritar. - Voc est bem? Ela cai em cima de voc?
#502
        - No! - gritou Harry em resposta. Ele examinou a perna. Sangrava muito. Ele viu uma secreo grossa e pegajosa que sara das pinas da aranha em suas
vestes rasgadas. Ento, tentou se levantar, mas a perna tremia demais e se recusava a sustentar seu peso. Ele se apoiou na sebe, tentando recuperar o flego e olhou
para os lados.
        Cedrico estava a pouquissima distncia da Taa Tribruxo que
refulgia s suas costas.
        -        Pega a Taa, ento - disse Harry arfante para Cedrico. - Pega logo, apanha. Voc chegou ao centro.
        Mas Cedrico no se mexeu. Continuou parado olhando para Harry. Em seguida virou-se para olhar a Taa. Harry percebeu a expresso desejosa no rosto do rapaz 
 luz dourada do objeto. Cedrico se virou mais uma vez para Harry que agora se amparava na sebe para se manter de p.
        Cedrico inspirou profundamente.
        -        Voc pega. Voc  que deveria vencer. Voc salvou minha vida duas vezes neste labirinto.
        -        No  assim que a coisa deve funcionar - disse Harry. Sentiu raiva; sua perna doa muito, seu corpo doa inteiro do esforo para se desvencilhar 
da aranha e, apesar de tudo isso, Cedrico o vencera, da mesma forma que o vencera na hora de convidar Cho para o baile. - Quem chegar  Taa primeiro .ganha os pontos. 
E foi voc. Estou lhe dizendo, no vou vencer nenhuma corrida com essa perna assim.
        Cedrico deu alguns passos em direo  aranha estuporada,
afastando-se da Taa e balanou a cabea.
        -        No - disse.
        -        Pare de ser nobre - retrucou Harry irritado. - Pega logo a Taa para a gente poder ir embora daqui.
        Cedrico observou Harry se aprumar, segurando-se com fora
na sebe.
        -        Voc me falou dos drages - disse Cedrico. - Eu teria perdido a primeira tarefa se voc no tivesse me prevenido sobre o que
me esperava.
        -        Tive ajuda nisso - retorquiu Harry, tentando enxugar a
perna ensangentada com as vestes. - Voc me ajudou com o ovo,
#503
estamos quites.
        -        Eu tive ajuda com o ovo para comear - disse Cedrico.
        -        Continuamos quites - repetiu Harry, experimentando a perna, desajeitado; ela tremeu violentamente quando o garoto se
apoiou nela; tinha torcido o tornozelo quando a aranha o largara.
        -        Voc devia ter ganho mais pontos na segunda tarefa - teimou Cedrico. - Voc ficou para trs para salvar todos os refns. Eu  que
deveria ter feito isso.
        -        Eu fui o nico campeo suficientemente burro para levar aquela msica a srio! - disse Harry com amargura. - Pega a Taa!
        -        No.
        Cedrico pulou por cima do emaranhado de pernas da aranha para se juntar a Harry, que o encarou. Cedrico falava srio. Estava dando as costas a uma glria
que a Casa da Lufa-Lufa no experimentava havia sculos.
        -        Anda - disse o rapaz. Dava a perceber que aquela atitude estava lhe custando cada centmetro de determinao que possua, mas
havia firmeza em seu rosto, cruzara os braos, parecia decidido.
        Harry olhou de Cedrico para a Taa. Por um momento fulgurante ele se viu saindo do labirinto, segurando-a. Viu-se erguendo a Taa Tribruxo no alto, ouviu
os berros dos espectadores, viu o rosto de Cho iluminado de admirao, mais claramente do que jamais o vira... e ento a imagem se dissolveu e ele se viu encarando
o rosto teimoso e sombrio de Cedrico.
        -        Os dois - disse Harry.
        -Qu?
        -        Levamos a Taa ao mesmo tempo. Ainda  uma vitria Hogwarts. Empatamos.
        Cedrico encarou Harry. Descruzou os braos.
        -        Voc... voc tem certeza?
        -        Tenho. Tenho... ns nos ajudamos, no foi? Ns dois
chegamos aqui. Vamos lev-la, juntos.
        Por um instante, Cedrico pareceu que no conseguia acreditar
no que estava ouvindo; ento seu rosto se abriu num sorriso.
        -        Negcio fechado. Venha at aqui.
        Ele agarrou o brao de Harry pela axila e ajudou-o a mancar
at o pedestal onde estava a Taa. Quando a alcanaram, os dois
 estenderam a mo para cada uma das asas.
        -        Quando eu disser trs, certo? - disse Harryp - Um... dois
tres...
#504
        Ele e Cedrico apertaram as asas.
        Instantaneamente, Harry sentiu um solavanco dentro do umbigo. Seus ps deixaram o cho. Ele no conseguiu soltar a mo da Taa Tribruxo; ela o puxava para
diante, num vendaval colorido, Cedrico ao seu lado.

#505


*****


-        CAPITULO TRINTA E DOIS -
 Osso, carne e sangue


Harry sentiu seus ps baterem no cho; a perna machucada cedeu e ele caiu para a frente; por fim, sua mo soltou a Taa Tribruxo. Ele ergueu a cabea.
        -        Onde estamos? - perguntou.
        Cedrico sacudiu a cabea. Levantou-se, ajudou Harry a ficar
de p e os dois olharam a toda volta.
        Estavam inteiramente fora dos terrenos de Hogwarts; era bvio que tinham viajado quilmetros - talvez centenas de quilmetros - porque at as montanhas que 
rodeavam o castelo haviam desaparecido. Em lugar de Hogwarts, os garotos se viam parados em um cemitrio escuro e cheio de mato; para alm de um grande teixo  direita 
podiam ver os contornos escuros de uma igrejinha. Um morro se erguia  esquerda. Muito mal, Harry conseguia discernir a silhueta escura de uma bela casa antiga na 
encosta do morro.
        Cedrico olhou para a Taa Tribruxo e depois para Harry.
        -        Algum lhe disse que a Taa era uma Chave de Portal? - perguntou.
        -        No. - Harry examinou o cemitrio. Estava profundamente silencioso e meio fantasmagrico. - Ser que isto faz parte da tarefa?
        -        No sei - respondeu Cedrico. Sua voz revelava um certo nervosismo. - Varinhas em punho, no acha melhor?
        -         - disse Harry, satisfeito de que Cedrico tivesse sugerido isso por ele.
        Os dois puxaram as varinhas. Harry no parava de olhar para
        todo lado. Tinha, mais uma vez, a estranha sensao de que
estavam
sendo observados.
        - Vem algum a - disse de repente.
#506
        Apertando os olhos para enxergar na escurido, eles divisaram um vulto que se aproximava, andando entre os tmulos sempre em sua direo. Harry no conseguia
distinguir um rosto; mas pelo jeito que o vulto caminhava e mantinha os braos, dava para ver que estava carregando alguma coisa. Fosse quem fosse, era baixo e usava 
um capuz que lhe cobria a cabea e sombreava o rosto. E... vrios passos depois, a distncia entre eles sempre mais curta - Harry viu que a coisa nos braos do vulto 
parecia um beb... ou seria meramente um fardo de vestes?
        Harry baixou ligeiramente a varinha e olhou para Cedrico ao
        seu lado. O rapaz lhe respondeu com um olhar intrigado. Os dois
        tornaram a se virar para observar o vulto que se aproximava.
        Ele parou ao lado de uma lpide alta, a uns dois metros. Por um
        segundo, Harry, Cedrico e o vulto baixo apenas se entreolharam.
        Ento, inesperadamente, a cicatriz de Harry explodiu de dor. Foi uma agonia to extrema como jamais sentira na vida; ao levar a mo ao rosto, a varinha lhe 
escapou dos dedos; seus joelhos cederam; ele caiu ao cho e no viu mais nada, sua cabea pareceu prestes a rachar.
        De muito longe, acima de sua cabea, ele ouviu uma voz fria e
aguda dizer: "Mate o outro."
        Um zunido, e uma segunda voz que arranhou o ar da noite:
- Avada Kedavra!
        Um relmpago verde perpassou as plpebras de Harry e ele ouviu alguma coisa pesada cair no cho ao seu lado; a dor de sua cicatriz atingiu tal intensidade
que ele teve nsias de vomitar, em seguida diminuiu; aterrorizado com o que iria ver, ele abriu os olhos ardidos.
        Cedrico estava estatelado no cho ao seu lado, os braos e pernas abertos. Morto.
        Por um segundo que continha toda a eternidade, Harry fitou o rosto do colega, seus olhos cinzentos abertos, vidrados e inexpressivos como as janelas de uma
casa deserta, a boca entreaberta num esgar de surpresa. Ento, antes que a mente de Harry pudesse aceitar o que seus olhos viam, antes que pudesse sentir alguma
coisa alm de atnita incredulidade, ele sentiu que algum o levantava.
 O        homem baixo de capa pousara o fardo que carregava no
        cho, acendeu a varinha e saiu arrastando Harry em direo 
lpide
#507
de mrmore. O garoto viu o nome ali gravado faiscar  luz da varinha, antes de ser virado e atirado contra a pedra.

TOM RIDDLE

O homem da capa agora estava conjurando cordas para prender Harry com firmeza, amarrando-o  lpide, do pescoo aos tornozelos. O garoto ouviu uma respirao rpida
e rasa saindo do fundo do capuz; ele se debateu e o homem lhe deu uma bofetada - uma bofetada com uma mo  que faltava um dedo. E Harry percebeu quem estava sob
o capuz. Era Rabicho.
        - Voc! - exclamou ele.
        Mas Rabicho, que acabara de conjurar as cordas, no respondeu; estava ocupado verificando se estavam bem apertadas, seus dedos tremendo descontrolados, apalpando
os ns. Uma vez convencido de que Harry estava amarrado  lpide sem a menor folga e 
que no conseguiria se mexer, Rabicho tirou um pano preto de dentro das vestes
e enfiou-o com violncia na boca de Harry; depois, sem dizer palavra, virou as costas e se afastou depressa; o garoto no podia emitir som algum nem ver aonde fora
Rabicho; no podia virar a cabea para ver alm da lpide; s podia ver o que estava diretamente em frente.
        O corpo de Cedrico se encontrava a uns seis metros de distncia. Mais adiante, refulgindo  luz das estrelas, jazia a Taa Tribruxo. A varinha de Harry ficara
cada no cho aos ps do rapaz. O fardo de roupas que Harry imaginara que fosse um beb continuava ali perto, junto  lpide. Parecia estar se mexendo incomodado. 
O garoto observou-o e sua cicatriz queimou de dor... e, de repente, ele concluiu que no queria ver o que estava naquelas roupas... nao queria que o fardo se abrisse...
        Harry ouviu, ento, um rudo aos seus ps. Baixou os olhos e viu uma cobra gigantesca deslizando pelo capim, circulando em torno da lpide a que ele fora 
amarrado. A respirao asmtica e rpida de Rabicho estava se tornando mais ruidosa agora. Parecia que arrastava alguma coisa pesada pelo cho. Ento ele tornou 
a entrar no campo de viso de Harry e o garoto pde ver que o bruxo
 empurrava um caldeiro de pedra para perto do tmulo. Continha
alguma coisa que parecia gua - Harry a ouviu sacudir - e era
maior do que qualquer outro caldeiro que Harry j tivesse usado;
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sua circunferncia era suficientemente grande para caber um adulto sentado.
        A coisa embrulhada no fardo de vestes no cho se mexeu com mais insistncia, como se estivesse tentando se desvencilhar. Agora Rabicho estava mexendo com
uma varinha no fundo externo do caldeiro. De repente surgiram chamas sob a vasilha. A enorme cobra deslizou para longe mergulhando nas sombras.
        O lquido no caldeiro parecia estar esquentando bem rpido. Sua superfcie comeou no somente a borbulhar, mas tambm a atirar para o alto fascas incandescentes,
como se estivesse em chamas. O vapor se adensou e borrou a silhueta de Rabicho que cuidava do fogo. Seus movimentos sob a capa se tornaram mais agitados. E Harry
ouviu mais uma vez a voz aguda e fria.
- Ande depressa!
        Toda a superfcie da gua estava iluminada pelas fascas. Parecia cravejada de diamantes.
        - Est pronta, meu amo.
        - Agora... - disse a voz fria.
        Rabicho abriu o fardo de vestes no cho, revelando o que havia nele, e Harry deixou escapar um grito que foi estrangulado pelo
chumao de pano que arrolhava sua boca.
        Era como se Rabicho tivesse virado uma pedra e deixado  mostra algo feio, pegajoso e cego - mas pior, cem vezes pior. A coisa que Rabicho andara carregando
tinha a forma de uma criana humana encolhida, s que Harry nunca vira nada que se parecesse menos com uma criana. Era pelada, de aparncia escamosa, de uma cor
preta avermelhada e crua. Os braos e pernas eram finos e fracos e o rosto - nenhuma criana viva jamais tivera um rosto daqueles - era plano e lembrava o de uma
cobra, com olhos vermelhos e brilhantes.
        A coisa tinha uma aparncia quase desamparada; ela ergueu os braos magros e passou-os pelo pescoo de Rabicho e este a ergueu, Ao fazer isso, seu capuz
caiu para trs e Harry viu,  claridade do fogo, a expresso de repugnncia em seu rosto fraco e plido, enquanto transportava a criatura para a borda do caldeiro.
Por um instante o garoto viu o rosto plano e maligno iluminar-se com as
 fascas que danavam na superfcie da poo. Ento Rabicho a
depositou dentro do caldeiro; ouviu-se um silvo, e ela submergiu;
#509
Harry escutou aquele corpinho frgil bater no fundo do caldeiro com um baque suave.
        Tomara que se afogue, pensou op garoto, a cicatriz doendo mais
do que era possvel suportar, por favor... tomara que se afogue...
        Rabicho estava falando. Sua voz tremia, ele parecia assustadssmo. Ergueu a varinha, fechou os olhos efalou para a noite.
-        Osso do pai, dado sem saber, renove filho!
        A superficie do tmulo aos ps do garoto rachou. Horrorizado, Harry observou um fiapo de poeira se erguer no ar  ordem
de Rabicho, e cair suavemente no caldeiro.
A superfcie diamantfera da gua se dividiu e chiou; disparou fascas para todo o lado e
ficou um azul vivido e peonhento.
        Rabicho choramingou. Tirou um punhal longo, fino e brilhante de dentro das vestes. Sua voz quebrou em soluos petrificados.
-        Carne... do servo... da-da de bom grado... reanime... o seu amo.
        Ele esticou a mo direita  frente - a mo em que faltava um
dedo. Segurou o punhal com firmeza na mo esquerda e ergueu-o.
        Harry percebeu o que Rabicho ia fazer um segundo antes acontecer - fechou os olhos com toda fora que pde, mas no conseguiu bloquear o grito que cortou
a noite, e que o atravesso como se ele tivesse sido apunhalado tambm. Ouviu alguma
coisa cair ao cho, ouviu a respirao ofegante e aflita de Rabicho,
depois o rudo nauseante de alguma coisa tombar dentro do caldeiro. Harry no 
suportou olhar... mas a poo ficou vermelho-vivo e sua claridade atravessou suas
plpebras fechadas...
        Rabicho ofegava e gemia de agonia. Somente quando Harry
sentiu sua respirao aflita no prprio rosto  que percebeu que o
bruxo estava bem diante dele.
-        S-sangue do inimigo... tirado fora... ressuscite... seu
adversrio.
        Harry nada pde fazer para impedir isso, estava muito bem amarrado... procurando ver mais embaixo, lutando
inutilmente contra as cordas que o prendiam, ele
viu o punhal de prata reluzente tremer na mo de Rabicho que restava. Sentiu a ponta da
arma furar a dobra do seu brao direito e o sangue fluir pela manga de suas vestes rasgadas. Rabicho, ainda ofegando de dor, apalpou
o bolso  procura de um frasquinho que ele aproximou do corte
de Harry para recolher o sangue.
         O bruxo cambaleou de volta ao caldeiro com o sangue do garoto. 
Despejou-o ali. O lquido no caldeiro ficou instantaneamente
#510
branco ofuscante. Concluda a tarefa, Rabicho se ajoelhou ao lado do caldeiro, depois deixou-se cair de lado e ficou deitado no cho, aninhando o toco sangrento
de brao, arquejando e soluando.
        O caldeiro foi cozinhando, disparando fascas em todas as direes, um branco to branco que transformava todo o resto
num negrume aveludado. Nada aconteceu...
        Tomara que tenha se afogado - pensou Harry, tomara que
tenha dado errado...
        E ento, de repente, as fascas que subiam do caldeiro se extinguiram. Uma nuvem de vapor branco se ergueu, repolhuda e densa, tampando tudo que havia na
frente de Harry, impedindo-o de continuar a ver Rabicho, Cedrico ou qualquer outra coisa
exceto o vapor pairando no ar... melou, pensou... se afogou... tomara...
tomara que tenha morrido...
        Mas, atravs da nvoa  sua frente, ele viu, com um assomo
gelado de terror, a silhueta escura de um homem, alto e esqueltico, emergindo do caldeiro.
        - Vista-me - disse a voz aguda e fria por trs do vapor, e Rabicho, soluando e gemendo, ainda aninhando o brao mutilado, correu a apanhar as vestes negras
no cho, levantou-se, ergueu o brao e colocou-as apenas com a mo existente por cima da cabea do seu amo.
        O homem magro saiu do caldeiro, com o olhar fixo em Harry... e o garoto mirou aquele rosto que assombrava seus pesadelos havia trs anos. Mais branco do 
que um crnio, com olhos grandes e vermelhos, um nariz chato como o das cobras e fendas no lugar das narinas...
        Lord Voldemort acabara de ressurgir.
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-        CAPITULO TRINTA E TRS
- Os Comensais da Morte


Voldemort desviou o olhar de Harry e comeou a examinar o prprio corpo. Suas mos eram como aranhas grandes e plidas; seus longos dedos brancos acariciaram o prprio
peito, os braos, o rosto; os olhos vermelhos, cujas pupilas eram fendas, como as de um gato, brilhavam ainda mais no escuro. Ele ergueu as mos e
flexionou os dedos com uma expresso arrebatada e exultante. No deu a 
menor ateno a Rabicho, que continuou tremendo e sangrando no cho, nem 
 enorme cobra, que reapareceu em cena
e recomeou a descrever crculos em torno de Harry, sibilando. Voldemort enfiou 
um dos dedos anormalmente longos em um bolso fundo e tirou uma varinha. Acariciou-a
gentilmente, tambm; depois ergueu-a e apontou-a para Rabicho, e ela o guindou do cho e atirou contra a lpide a que Harry estava amarrado; o bruxo caiu aos ps
da lpide e ficou ali, encolhido, chorando. Voldemort voltou seus olhos vermelhos para Harry e soltou uma risada, aquela sua risada aguda, fria e sem alegria.
        As vestes de Rabicho agora estavam manchadas de sangue brilhante; o bruxo enrolara nelas o toco de brao.
        -        Milorde... - disse ele com a voz embargada - milorde...
o senhor prometeu... o senhor prometeu...
        -        Estique o brao - disse Voldemort indolentemente.
        -        Ah, meu amo... obrigado, meu amo...
        Rabicho esticou o toco sangrento, mas Voldemort deu uma gargalhada.
        -        O outro brao, Rabicho.
        -        Meu amo, por favor... por favor...
        Voldemort se curvou e puxou o brao esquerdo de Rabicho; 
empurrou a manga das vestes do servo acima do cotovelo e Harry
viu que havia uma coisa na pele, uma coisa que lembrava uma
tatuagem vermelho-vivo - um crnio, com uma cobra saindo da
#512
boca -, a mesma imagem que aparecera no cu na Copa Mundial de Quadribol: a Marca
Negra. Voldemorr examinou-a demoradamente, sem dar ateno ao choro descontrolado
de Rabicho.
        - Reapareceu - comentou ele baixinho -, todos devero ter notado... e agora, veremos... agora saberemos...
        Ele comprimiu a marca no brao do servo com seu longo indicador branco.
        A cicatriz na testa de Harry ardeu com uma dor aguda e Rabicho deixou 
escapar um uivo. Voldemort afastou o dedo da marca em Rabicho e Harry 
viu que ela se tornara muito preta.
        Com uma expresso de cruel satisfao no rosto, Voldemort se
endireitou, atirou a cabea para trs e comeou a examinar o escuro cemitrio.
        - Quantos tero suficiente coragem para voltar quando sentirem isso? 
- sussurrou ele, fixando seus olhos vermelhos e brilhantes nas estrelas. - E quantos
sero bastante tolos para ficar longe de mim?
        Ele comeou a andar de um lado para outro diante de Harry e Rabicho, seus
 olhos percorrendo o cemitrio todo o tempo. Decorrido pouco mais de um minuto,
ele tornou a olhar para Harry, um sorriso cruel deformando seu rosto viperino.
        - Voc est em p, Harry Potter, sobre os restos mortais do meu pai - 
sibilou ele baixinho. - Um trouxa e um idiota... muito parecido com a sua querida me.
Mas os dois tiveram sua utilidade, no? Sua me morreu tentando defend-lo quando criana... e eu matei meu pai e veja como ele se provou til, depois de morto...
        Voldemort soltou outra gargalhada. Para cima e para baixo ele
andava, olhando para os lados, e a serpente continuava a circular
no meio do capim.
        - Voc est vendo aquela casa l na encosta do morro, Potter? Meu pai morava
ali. Minha me, uma bruxa que vivia no povoado, se apaixonou por ele. Mas foi
abandonada quando lhe contou o que era... ele no gostava de magia, meu pai...
        "Ele a abandonou e voltou para os pais trouxas antes de eu nascer, Potter, e 
ela morreu me dando  luz, me deixando para ser criado em um orfanato de trouxas...
mas eu jurei encontr-lo... vinguei-me dele, desse idiota que me deu seu nome... Tom Riddle..."
        E andava sem parar, seus olhos correndo de um tmulo para
outro.
#513
        -        Me vejam s recordando minha histria de famlia... - comentou ele
baixinho. - Ora, ora, estou ficando muito sentimental... Mas veja, Harry! A minha
famlia verdadeira est chegando...
        O        ar se encheu repentinamente com o rumor de capas esvoaantes. Entre os tmulos, atrs do teixo, em cada espao escuro, havia bruxos
apatando..
Todos usavam capuzes e mscaras. E um por um, eles se adiantaram... lentamente, cautelosamente, como se mal conseguissem acreditar no que viam. Voldemort ficou parado
em silncio, esperando-os. Ento um Comensal da Morte se prostrou de joelhos, arrastou-se at Voldemort, e beijou a barra de suas vestes negras.
        -        Meu amo... meu amo...
        Os Comensais da Morte que vinham atrs o imitaram; um por um, eles se aproximaram de joelhos para beijar as vestes de Voldemort para depois recuar e se levantar,
formando um crculo silencioso em torno do tmulo de Tom Riddle, Harry Voldemort e o monte de vestes que soluava e sacudia, que era Rabicho. Mas eles deixaram espaos
vazios no crculo, como se esperassem mais gente. Voldemort, porm, no parecia esperar mais ningum. Olhou os rostos encapuzados ao seu redor e, embora no houvesse
vento, um rumorejo pareceu percorrer o crculo como se perpassasse por ele um arrepio.
        - Bem-vindos, Comensais da Morte - disse Voldemort em voz baixa. - Treze anos... treze anos desde que nos encontramos pela ltima vez. Contudo, vocs atendem
ao meu chamado como se fosse ontem... ento continuamos unidos sob a Marca Negra! Ou ser que no?
        Ele retomou sua expresso ameaadora e farejou, dilatando as
narinas em forma de fenda.
        - Sinto cheiro de culpa - disse ele. - H um fedor de culpa no ar. Um segundo surto de arrepios percorreu o circulo, como se cada membro tivesse o desejo,
mas no a coragem, de se afastar dali.
        -        Vejo todos vocs, inteiros e saudveis, com os seus poderes intactos, to desenvoltos!, e me pergunto... por que esse bando de
bruxos nunca foi socorrer seu amo, a quem jurou lealdade eterna?
        Ningum falou. Ningum se mexeu exceto Rabicho, que
 continuava no cho, chorando, o brao ensangentado.
        -        E eu prprio respondo - sussurrou Voldemort -, porque devem ter acreditado que eu estava derrotado, pensaram que eu
#514
acabara. Voltaram a se misturar com os meus inimigos e alegaram inocencia, ignorncia e bruxaria...
        "E ento eu me pergunto, mas como  que vocs podem ter acreditado que eu no me reergueria? Vocs, que conheciam as providncias que eu tomara, h muito
tempo, para me proteger da morte humana? Vocs que tiveram provas da imensido do meu poder, na poca em que fui mais poderoso do que qualquer bruxo vivente?
        "E eu mesmo respondo, talvez acreditassem que poderia haver um poder ainda maior, um poder capaz de derrotar at Lord Voldemort... talvez vocs agora prestem
lealdade a outro... talvez quele campeo da plebe, dos trouxas e sangue-ruins, Alvo Dumbledore?"
 meno do nome de Dumbledore, os membros do circulo se
        inquietaram, alguns murmuraram e negaram sacudindo a cabea.
Voldemort ignorou-os.
        - um desapontamento para mim... confesso que estou desapontado...
Um dos bruxos se atirou subitamente  frente, rompendo o crculo.
Tremendo da cabea aos ps, prostrou-se aos ps de Voldemort.
        - Meu amo! - exclamou. - Meu amo, me perdoe! Nos perdoe todos!
        Voldemort comeou a rir. Ergueu a varinha.
-        Crucio!
        O        Comensal da Morte no cho contorceu-se e gritou; Harry
teve certeza de que o som se propagava at as casas vizinhas...
        Tomara que a polcia chegue, desejou ele desesperado... algum...
        .alguma coisa...
        Voldemort ergueu a varinha. O Comensal da Morte torturado
se estatelou no cho, arfando.
        - Levante-se, Avery - disse Voldemort baixinho. - Ponha-se de p. Voc est me pedindo perdo? Eu no perdo. Eu no esqueo. Treze longos anos... Quero
um pagamento por esses treze anos antes de perdoar-lhes. Rabicho aqui j pagou parte da dvida, no
        foi, Rabicho?
        Ele baixou os olhos para o bruxo mutilado, que continuava a
soluar.
#515
        -        Voc voltou para mim, no por lealdade, mas por medo dos seus antigos amigos. Voc merece sentir dor, Rabicho. Voc sabe
disso, no sabe?
        -        Sei, meu amo - gemeu Rabicho -, por favor, meu amo... por favor...
        -        Contudo voc me ajudou a recuperar meu corpo - disse Voldemort friamente, observando o servo soluar no cho. - Mesmo intil e traioeiro como ,
voc me ajudou... e Lord Voldemort recompensa quem o ajuda...
        Voldemort tornou a erguer a varinha e girou-a no ar. Um fio que parecia
feito de prata liquefeita prolongou-se da varinha e pairou no ar. Momentaneamente
informe, o fio se agitou e em seguida se transformou na rplica brilhante de uma mo humana, clara como o luar, que saiu voando e foi se prender ao pulso sangrento
de Rabicho.
        Os soluos do bruxo pararam abrupramente. Com a respirao rascante e falha, ele levantou a cabea e fitou, incrdulo, a mo prateada, agora ligada sem costura
ao seu brao, como se ele estivesse usando uma luva luminosa. O bruxo flexionou os dedos reluzentes, depois, trmulo, apanhou um graveto no cho e pulverizou-o.
        -        Milorde - sussurrou ele. - Meu amo...  linda... muito obrigado... muito obrigado...
        Ele avanou de joelhos e beijou a barra das vestes de Voldemort.
        -        Que a sua lealdade jamais volte a vacilar, Rabicho - disse Voldemort.
        - No, milorde... nunca, milorde...
Rabicho se levantou e tomou posio no crculo, sem tirar os
olhos da mo nova e poderosa, seu rosto lavado de lgrimas.
Voldemort se aproximou ento do homem  direita de Rabicho.
        - Lcio, meu ardiloso amigo - murmurou ele se detendo diante do bruxo. -
 Ouo dizer que voc no renunciou aos seus hbitos antigos, embora para o mundo
voc apresente uma imagem respeitvel. Acredito que continue pronto para assumir
a liderana de uma torturazinha de trouxas? No entanto voc nunca tentou me
        encontrar, Lcio... as suas aventuras na Copa Mundial de
Quadribol foram engraadas, devo dizer... mas ser que suas energias no
teriam sido melhor empregadas em procurar ajudar seu amo.
#516
        -        Milorde, sempre estive constantemente alerta - ouviu-se na mesma hora a voz de
Lcio Malfoy saindo por baixo do capuz. - Se tivesse havido algum
sinal do senhor, algum rumor sobre seu paradeiro, eu teria ido imediatamente para o seu lado, nada teria me detido...
        -        Contudo, voc correu da minha marca, quando um leal Comensal da
Morte a projetou no cu no vero passado - comentou displicentemente Voldemort,
e o Sr. Malfoy parou abruptamente de falar. - , sei de tudo que aconteceu,
Lcio... voc me desapontou... espero servios mais leais no futuro.
        -        Naturalmente, milorde, naturalmente... o senhor  misericordioso, obrigado...
        Voldemort continuou a andar e parou, reparando no espao - suficientemente grande para duas pessoas - que separava Malfoy
do comensal seguinte.
        -        Os Lestrange deveriam estar aqui - disse Voldemort baixinho. - Mas esto enterrados vivos em Azkaban. Foram fiis. Preferiram ir para Azkaban a
renunciar a mim... quando Azkaban for aberta, os Lestrange recebero honras que ultrapassaro todos os seus sonhos. Os dementadores se uniro a ns... so nossos
aliados naturais... chamaremos de volta os gigantes banidos... todos os meus servos devotados me sero devolvidos e um exrcito de criaturas que todos temem...
Ele continuou sua caminhada. Passou por alguns comensais
em silncio, mas parou diante de outros para lhes falar.
        -        Macnair... eliminando animais perigosos para o Ministrio da Magia agora, segundo me conta Rabicho. Breve voc ter
melhores vtimas, Macnair. Lord Voldemort ir providenci-las...
        - Obrigado, meu amo... obrigado - murmurou Macnair.
        - E aqui - Voldemort prosseguiu dirigindo-se aos dois maiores vultos encapuzados - temos Crabbe... voc vai trabalhar melhor
desta vez, no vai, Crabbe? E voc, Goyle?
        Os dois fizeram uma reverncia desajeitada, murmurando com
uma certa lentido:
        -        Sim, meu amo...
        -        Trabalharemos, meu amo...
        - O mesmo se aplica a voc, Nott - disse Voldemort baixinho,
ao passar pelo vulto curvado  sombra do Sr. Goyle.
#517
        -        Milorde, eu me prostrei diante do senhor, sou o seu mais fiel...
        -        Basta - disse Voldemorr.
        Ele chegou, ento,  maior lacuna no crculo, e parou contemplando-a com aqueles seus olhos parados e vermelhos, como se
        pudesse ver pessoas em p ali.
        -        E aqui temos seis Comensais da Morte ausentes... trs mortos a meu servio. Um demasiado covarde para voltar... ele me pagar. Um que eu acredito
ter me deixado para sempre... este ser morto,  claro... e um que continua sendo meu mais fiel servo, e que j reingressou no meu servio.
        Os Comensais da Morte se agitaram; Harry viu que eles se
        entreolhavam por trs das mscaras.
        -        Ele est em Hogwarts, esse servo fiel, e foi graas aos seus esforos que o nosso jovem amigo chegou aqui esta noite...
        "Sim", disse Voldemort, um sorriso crispando sua boca sem lbios, quando os olhares do crculo convergiram para Harry. "Harry Potter teve a gentileza de
se reunir a ns para comemorar a minha ressurreio. Poderamos at cham-lo de meu convidado de honra."
        Fez-se silncio. Em seguida o Comensal da Morte  direita de
Rabicho deu um passo  frente, e a voz de Lcio Malfoy falou por
baixo da mscara.
        - Meu amo,  grande o nosso desejo de saber... suplicamos que nos conte... como foi que o senhor conseguiu este... milagre...
        como conseguiu voltar para ns...
        - Ah, que histria extraordinria, Lcio! - disse Voldemort. - E ela comea... e termina... com o meu jovem amigo aqui.
        Ele caminhou descansadamente e parou ao lado de Harry,
fazendo com que os olhos de todo o crculo se voltassem para os
        dois. A cobra continuava a rastejar em crculos.
        - Vocs sabem, naturalmente, que muitos chamam este garoto de minha perdio! - disse Voldemort baixinho, os olhos fixos em Harry, cuja cicatriz comeou
a arder to ferozmente que ele quase gritou de agonia. - Vocs todos sabem que na 
noite em que perdi meus poderes e o meu corpo, tentei mat-lo. A me dele
morreu, tentando salv-lo, e, sem saber, o resguardou com uma proteao
que, devo admitir, eu no havia previsto... Eu no pude tocar no
rapaz.
#518
        Voldemort ergueu um longo dedo branco e levou-o at prximo do rosto de Harry.
        - A me deixou nele os vestgios do seu sacrifcio... isto  magia antiga, de que eu devia ter me lembrado, foi uma tolice t-la esquecido... mas isso no
importa. Eu agora posso toc-lo.
        Harry sentiu a ponta fria do longo dedo branco toc-lo, e pensou que sua cabea ia explodir de dor.
        Voldemort riu de mansinho na orelha do garoto, depois afastou o dedo e continuou a se dirigir aos Comensais da Morte.
        - Eu calculei mal, meus amigos, admito. Minha maldio foi refratada pelo tolo sacrifcio da mulher e ricocheteou contra mim. Ah... a dor que ultrapassa
a dor, meus amigos; nada poderia ter me preparado para aquilo. Fui arrancado do meu corpo, me tornei menos que um esprito, menos que o fantasma mais insignificante...
mas, ainda assim, continuei vivo. Em que me transformei, nem eu mesmo sei... eu 
que cheguei mais longe do que qualquer outro no caminho que leva  imortalidade.
Vocs conhecem o meu objetivo, vencer a morte. E agora fui testado, e aparentemente uma, ou mais de uma, das minhas experincias foi bem-sucedida... pois eu
no 
morri, embora a maldio devesse ter me matado. Contudo, fiquei to impotente quanto a mais fraca criatura viva e sem meios de ajudar a mim mesmo... pois no possuia 
mais corpo, e qualquer feitio que pudesse ter me ajudado exigia o uso da varinha...
        "S me lembro de me obrigar, sem dormir, sem cessar, segundo a segundo, a existir... fui morar em um lugar distante, numa floresta e esperei... certamente 
um dos meus fiis Comensais da Morte tentaria me encontrar... um deles viria e realizaria por mim a mgica necessria para eu recuperar meu corpo... mas esperei 
em vao...
        O arrepio tornou a perpassar o crculo de atentos Comensais da
Morte. Voldemorr deixou o silncio espiralar de modo terrvel
antes de prosseguir:
        - S me restara um poder. Eu podia me apossar do corpo de outros. Mas eu no me
atrevia a ir aonde viviam muitos humanos, pois eu sabia que os aurores continuavam
a viajar pelo exterior  minha procura. Por vezes eu habitava animais, as cobras,  claro, eram minhas preferidas, mas eu no ficava muito melhor dentro
delas do que como puro esprito, porque seus corpos eram mal
equipados para realizar mgicas... e apossar-me delas encurtava
suas vidas; nenhuma delas sobreviveu muito tempo...
#519
        "Ento... h quatro anos... os meios para o meu retorno me pareceram garantidos. Um bruxo, jovem, tolo e crdulo, cruzou o meu caminho na floresta em que
eu vivia. Ah, ele parecia exatamente a chance com que eu sonhara... porque era professor na escola de Dumbledore... era dcil  minha vontade... e me trouxe de volta 
a este pas e, pouco depois, me apoderei do seu corpo para vigi-lo de perto enquanto cumpria minhas ordens. Mas meu plano fracassou. No consegui roubar a Pedra 
Filosofal. No pude obter a vida eterna. Fui impedido... fui impedido, mais uma vez, por Harry Potter..."
        Novamente o silncio; nada se movia, nem mesmo as folhas do
teixo. Os Comensais da Morte permaneceram muito quietos, os
olhos cintilantes em suas mscaras fixos em Voldemorr e Harry.
        - Meu servo morreu quando abandonei seu corpo, e fiquei mais fraco do que jamais estive. Voltei ao meu esconderijo distante, e no vou fingir que no receei 
ento que talvez jamais recuperasse meus poderes... sim, aquela talvez tenha sido a hora mais negra da minha vida... Eu no poderia esperar que casse do cu outro 
bruxo para eu me apoderar... e j perdera as esperanas de que algum Comensal da
Morte se importasse com o que me acontecera...
        Uns dois bruxos mascarados no crculo se mexeram constrangidos, mas Voldemorr no lhes deu a menor ateno.
        - Ento, h menos de um ano, quando eu praticamente abandonara toda esperana, aconteceu... um servo voltou para mim: o Rabicho aqui, que simulara a prpria
morte para fugir  justia, foi forado a se expor por aqueles que no passado tinham sido seus amigos, e resolveu voltar para o seu amo. Ele me procurou no campo
onde houvera boatos de que eu estaria escondido... ajudado, naturalmente, pelos ratos que encontrou em seu caminho. Rabicho tem uma curiosa afinidade por
ratos,
no  mesmo, Rabicho? Seus imundos amiguinhos lhe contaram que havia um lugar, no meio de uma floresta albanesa que eles
evitavam, onde pequenos animais como eles
encontravam a morte pelas mos de um vulto escuro que os possuia...
        "Mas a viagem de regresso no correu tranquilamente para
mim, no , Rabicho? Certa noite, esfomeado, na orla da floresta
        em que esperava me encontrar, ele parou, tolamente, em uma estalagem para comer alguma coisa... e quem ele haveria de encontrar
l, se no Berta Jorkins, uma bruxa do Ministrio da Magia?
#520
        "Agora vejam como o destino favorece Lord Voldemort. Isto poderia ter sido o fim de Rabicho e da minha ltima chance de regenerao. Mas Rabicho - revelando 
uma presena de esprito que eu jamais esperaria dele - convenceu Berta Jorkins a acompanh-lo em um passeio noturno. Ele a dominou... e a trouxe at mim. E Berta 
Jorkins, que poderia ter posto tudo a perder, em vez disso provou ser uma ddiva que superou as minhas expectativas mais extravagantes... pois, com um nadinha de 
persuaso, tornou-se uma verdadeira mina de informaes.
        "Ela me contou que este ano seria realizado um Torneio Tribruxo em Hogwarts. E que conhecia um Comensal da Morte fiel que teria muito prazer em me ajudar, 
se eu o procurasse. Ela me contou muitas coisas... mas os meios que usei para romper o Feitio da Memria que a dominava foram fortes, e depois que extrai dela toda 
informao til, sua mente e seu corpo ficaram irrecuperavelmente danificados. Servira sua finalidade. Mas eu no poderia me apossar do seu corpo. Descartei-a."
        Voldemort sorriu, aquele sorriso medonho, seus olhos vermelhos vidrados e cruis.
        - O corpo de Rabicho, naturalmente, era pouco prprio para uma possesso, j que todos o presumiam morto e ele atrairia demasiada ateno se fosse visto. 
Contudo, era o servo fisicamente vlido de que eu precisava. E, embora fosse um bruxo medocre, foi capaz de seguir as instrues que lhe dei e que me devolveriam 
um corpo rudimentar e fraco porm meu, um corpo que eu poderia habitar enquanto esperava os ingredientes essenciais para uma verdadeira ressurreio... uns feitios 
de minha prpria inveno... uma ajudainha de Nagini - os olhos de Voldemort se voltaram para a cobra ue circulava a Lpide sem parar -, uma poo feita com sangue 
de unicrnio,
        veneno de cobra fornecido por Nagini... e logo eu recuerei uma forma 
quase humana e suficientemente forte para viajar. "No havia mais esperanas de roubar
a Pedra Filosofal, pois eu sabia que Dumbledore teria tomado providncias para
destru-la. Mas eu estava disposto a abraar mais uma vez a vida mortal
antes de perseguir a imortal. Estabeleci objetivos mais modestos...
Aceitei ter o meu antigo corpo e a minha antiga fora de volta.
        "Eu sabia que para obter isso, que  uma velha pea de Magia
 Negra a poo que me reanimou hoje  noite, eu precisaria de trs
#521
poderosos ingredientes. Bem, um deles j estava  mo, no 
mesmo, Rabicho? A carne doada por um servo...
        "O osso do meu pai, naturalmente, significava que eu teria que vir at aqui, onde ele estava enterrado. Mas o sangue de um inimigo... Rabicho queria que
eu usasse um bruxo qualquer, no foi, Rabicho? Um bruxo qualquer que tivesse me odiado... como tantos ainda odeiam. Mas eu sabia do que precisava, se era para me
reerguer mais poderoso do que tinha sido antes da queda. Eu queria o sangue de Harry Porter. Eu queria o sangue daquele que tinha me despojado do poder h treze
anos, porque a proteo duradoura que a me dele tinha lhe dado circularia em minhas veias tambm...
        "Mas como apanhar Harry Porter? Porque ele foi protegido muito mais do que acho que ele sabe, protegido de vrias maneiras criadas por Dumbledore h muito
tempo, quando recebeu o encargo de cuidar do futuro do garoto. Dumbledore invocou uma mgica antiga para garantir a proteo ao garoto enquanto estivesse aos cuidados
dos parentes. Nem mesmo eu posso toc-lo em casa deles... depois, naturalmente houve a Copa Mundial de Quadribol... achei que a proteo dele enfraqueceria ali,
longe dos parentes e de Dumbledore, mas eu ainda no estava suficientemente forte para tentar
sequestr-lo em meio a uma horda de bruxos do Ministrio. Depois, o
garoto retornaria a Hogwarts, onde vive debaixo do nariz torto daquele tolo, amante de trouxas, de manh  noite. Ento, como poderia captur-lo?
        "Ora... aproveitando as informaes de Berta Jorkins,  claro. Usando o meu fiel Comensal da Morte, baseado em Hogwarrs, para garantir que o nome do garoto
fosse inscrito no Clice de Fogo. Usando o meu Comensal da Morte para garantir que o garoro ganhasse o torneio - que tocasse a Taa Tribruxo primeiro, Taa que o
meu Comensal da Morte havia transformado em uma Chave de Portal para traz-lo aqui, longe do socorro e proteo de Dumbledore, at o aconchego dos meus braos abertos
para receb-lo. E aqui est ele... o garoto que vocs todos acreditaram que tinha sido minha runa..."
        Voldemort avanou lentamente e se virou para encarar Harry.
        Ergueu a varinha.
       - Crucio!
                Foi uma dor que superou qualquer coisa que Harry j sofrera;
seus prprios ossos pareciam estar em fogo; sua cabea, sem dvida
#522
 alguma, estava rachando ao longo da cicatriz, seus olhos giravam descontrolados em 
sua cabea; ele queria que tudo terminasse... que perdesse os sentidos...
 morresse...
        Ento passou. Ele ficou pendurado nas cordas que o prendiam  lpide do pai de Voldemort, olhando aqueles brilhantes olhos vermelhos atravs de uma espcie
de nvoa. A noite ressoava com o estrpito das risadas dos Comensais da Morte.
        -        Esto vendo a tolice que foi vocs suporem que este garoto algum dia pudesse ser mais forte que eu? - ponderou Voldemort. - Mas eu no quero que
reste nenhum engano na mente de ningum. Harry Potter me escapou por pura sorte. E vou provar o meu poder matando-o, aqui e agora, diante de todos vocs, onde no 
h Dumbledore para ajud-lo nem me para morrer por ele. Vou dar a Harry uma oportunidade. Ele poder lutar, e vocs no tero mais dvida alguma sobre qual de ns
 mais forte. Espere mais um pouquinho Nagini - sussurrou ele, e a cobra se afastou, deslizando pelo capim, at o local em que os Comensais da Morte estavam parados
observando.
        "Agora, desamarre-o Rabicho, e devolva sua varinha."
#523

*****



-        CAPITULO TRINTA E QUATRO -
Priori Incantatem


Rabicho aproximou-se de Harry, que tentou se aprumar para sustentar o corpo antes que as cordas fossem desamarradas. Rabicho ergueu a nova mo prateada, puxou o
chumao de pano que amordaava Harry e ento, com um nico movimento, cortou as cordas que prendiam o garoto  lpide.
        Houve talvez uma frao de segundo em que Harry poderia ter pensado em fugir, mas sua perna machucada estremeceu sob o peso do corpo quando ele firmou os
ps no tmulo malcuidado, ao mesmo tempo que os Comensais da Morte cerraram 
fileiras, apertando o crculo em torno dele e de Voldemort, e os claros que seriam dos
Comensas da Morte ausentes se fecharam. Rabicho saiu do crculo e foi at onde jazia o corpo de Cedrico, e voltou trazendo a varinha de Harry, que ele enfiou com
brutalidade na mo do garoto sem sequer olh-lo. Depois, Rabicho retomou seu lugar no crculo de comensas que observavam.
        - Voc aprendeu a duelar, Harry Potter? - perguntou Voldemort suavemente, seus olhos vermelhos brilhando no escuro.
        Ao ouvir a pergunta Harry se lembrou, como se pertencesse a uma vida anterior, do Clube dos Duelos em Hogwarts que ele frequentara brevemente h dois anos...
a nica coisa que aprendera tinha sido o Feitio para Desarmar, "Expelliarmu?... e de que adiantaria isso, mesmo que ele pudesse privar Voldemort de sua varinha,
quando ele estava rodeado de Comensais da Morte e em desvantagem de, no mnimo, trinta a um? Ele jamais aprendera nada que o tivesse preparado minimamente para uma
stuaao dessas. Sabia que estava enfrentando aquilo contra o qual Moody sempre o alertara... a Maldio Avada Kedavra, impossvel de bloquear
- e Voldemorr tinha razo -, desta vez a me de Harry no estava
ali para morrer por ele... no contava com proteo alguma...
#524
        -        Nos cumprimentamos com uma curvatura, Harry - disse Voldemort, 
se inclinando ligeiramente, mas mantendo o rosto de cobra erguido para Harry. - Vamos,
as boas maneiras devem ser observadas... Dumbledore gostaria que voc demonstrasse educao... curve-se para a morte, Harry...
        Os Comensais da Morte deram novas gargalhadas. A boca sem lbios de Voldemort riu. Harry no se curvou. No ia deixar o bruxo brincar com ele antes de mat-lo...
no ia lhe dar essa satisfao...
        - Eu disse, curve-se - repetiu Voldemort, erguendo a varinha, e Harry sentiu sua coluna se curvar como se uma mo enorme e invisvel o empurrasse impiedosamente
para a frente, e os Comensas da Morte se riram com mais gosto que nunca.
        "Muito bem", disse Voldemort suavemente, e quando ele baixou a varinha a presso que empurrava Harry se aliviou tambm. "Agora voc me enfrenta, como homem...
de costas retas e orgulhoso, do mesmo modo que seu pai morreu...
        "Agora... vamos ao duelo."
        O bruxo ergueu a varinha antes que Harry pudesse fazer alguma coisa para se defender, antes que pudesse sequer se mexer, e ele foi atingido pela Maldio 
Cruciatus. A dor foi to intensa, e to devoradora, que Harry j nem sabia onde estava... facas em brasa perfuravam cada centmetro de sua pele, sua cabea, sem 
dvida alguma, ia explodir de dor; ele gritava mais alto do que jamais gritara na vida...
        Ento tudo parou. Harry se virou e tentou ficar em p; tremeu descontrolado, como fizera Rabicho quando decepara a prpria mo; cambaleou para os lados na 
direo dos Comensais da Morte ao redor, e eles o empurraram de volta a Voldemort.
        -Uma pequena pausa-disseo bruxo, as narinas de cobra se dilatando de excitao -" uma pequena pausa... isso doeu, no foi
Harry? Voc no quer que eu faa isso outra vez, quer?
        Harry no respondeu. Ia morrer como Cedrico, era o que aqueles olhos vermelhos e cruis estavam lhe dizendo... ia morrer, e no havia nada que pudesse fazer 
para evit-lo... mas no ia facilitar. No ia obedecer a Voldemort... no ia suplicar...
        -        Perguntei se quer que eu faa isso outra vez - disse 
Voldemort gentilmente. - Responda! Imperio!
#525
        E Harry teve, pela terceira vez em sua vida, a sensao de que todos os pensamentos tinham se apagado de sua mente... ah, foi uma felicidade, no pensar,
foi como se estivesse flutuando, sonhando... apenas responda "no"!..
diga "no"!.. apenas responda "no"!.
        No direi, falou uma voz mais forte no fundo de sua cabea,,
no responderei...
Apenas responda "no"!..
        No vou responder, no vou dizer isso...
Apenas responda "no "!.
- NO VOU RESPONDER!
        E essas palavras explodiram da boca de Harry; ecoaram pelo
cemitrio, e o estado onrico em que mergulhara se dissolveu
repentinamente como se tivessem lhe atirado um balde de gua fria
- renovaram-se as dores que a Maldio Cruciatus deixara por todo
o        seu corpo - renovou-se a conscincia de onde estava, do que
estava enfrentando...
        - No vai? - disse Voldemort suavemente, e agora os Comensais da Morte 
no estavam rindo. - No vai dizer "no"? Harry, a obedincia  uma virtude que preciso
lhe ensinar antes de voc morrer... talvez mais uma dosezinha de dor?
        Voldemorr ergueu a varinha, mas desta vez Harry estava preparado; com os reflexos nascidos da prtica de quadribol, ele se atirou para um lado no cho; rolou
para trs da lpide de mrmore do pai de Voldemorr e a ouviu rachar quando o feitio errou o alvo.
        - No estamos brincando de esconde-esconde, Harry - disse a voz suave e 
fria de Voldemort, aproximando-se, enquanto os Comensais da Morte riam. - Voc no
pode se esconder de mim. Ser que isso significa que j se cansou do nosso duelo?
Ser que significa que voc prefere que eu o encerre agora, Harry? Saia da, Harry...
saia e venha brincar, ento... ser rpido... talvez at indolor... Eu no saberia dizer... eu nunca morri...
        Harry continuou agachado atrs da lpide e percebeu que chegara o seu fim. No havia esperana... nenhuma ajuda de ningum. Quando ouviu Voldemort chegar
ainda mais perto, ele soube apenas uma coisa que transcendeu o medo e a razo - ele no ia morrer agachado ali como uma criana brincando de esconde-esconde;
no ia morrer ajoelhado aos ps de Voldemort... ia morrer de p
como seu pai, e ia morrer tentando se defender, mesmo que no
houvesse defesa alguma possvel...
#526
        Antes que Voldemort pudesse meter a cara viperina atrs da lpide, Harry se
levantou... agarrou a varinha com fora, empunhou-a  frente e saiu rpido detrs 
da lpide para encarar Voldemort.
        O bruxo estava pronto. Quando Harry gritou "Expeiiarmus!", Voldemort gritou "Avada Kedavra!"
        Um jorro de luz verde saiu da varinha de Voldemort na mesma hora em que um jorro de luz vermelha disparou da de Harry - e os dois se encontraram no ar -"
e de repente, a varinha de Harry comeou a vibrar como se uma descarga eltrica estivesse entrando por ela; sua mo estava presa  varinha; ele no teria podido
soltla se quisesse - e um fino feixe de luz agora ligava as duas varinhas, nem 
vermelha nem verde, mas um dourado intenso e rico -, e Harry, acompanhando o feixe
com o olhar espantado, viu que os dedos longos e brancos de Voldemorr tambm agarravam uma varinha que sacudia e vibrava.
        E ento - nada poderia ter preparado Harry para isso - ele sentiu seus ps 
se elevarem do cho. Ele e Voldemorr estavam sendo erguidos no ar, as varinhas
ainda ligadas por aquele fio de luz dourada e tremeluzente. Os dois estavam se
afastando do tmulo do pai de Voldemort e por fim pousaram num trecho de terreno limpo
e sem tmulos... Os Comensais da Morte gritavam, pedindo instrues a Voldemort; 
se aproximavam e se reagrupavam em um crculo em volta dos dois, a cobra em seus
calcanhares, alguns bruxos sacando as varinhas...
        O fio dourado que ligava Harry e Voldemort se fragmentou:
                embora as varinhas continuassem ligadas, mil outros fios brotaram
                e formaram um arco sobre os dois, e foram se entrecruzando a toda
                volta, at encerr-los em uma teia dourada como uma redoma,
                uma gaiola de luz, para alm da qual os Comensais da Morte 
rondavam como chacais, seus gritos estranhamente abafados...
                  - No faam nada! - gritou Voldemort para os Comensais da
                Morte, e Harry viu os olhos vermelhos do bruxo se arregalarem
para o que estava acontecendo, viu-o lutar para romper o fio de luz
que continuava ligando sua varinha  de Harry; o garoto apertou a
varinha com mais fora, com as duas mos, e o fio dourado contiuou inteiro.
     - No faam nada a no ser que eu mande! - gritou Voldemort
para os Comensais da Morte.
        Ento um som belo e sobrenatural encheu o ar...vinha de cada
#527
fio de luz da teia que vibrava em torno de Harry e Voldemort. Era um som que o garoto reconhecia, embora s o tivesse ouvido uma vez na vida... a cano da fnix...
        Era o som da esperana para Harry... o mais belo e mais bemvindo que ele j ouvira na vida... o garoto teve a sensao de que o som estava dentro dele e
no apenas  sua volta... era o som que ele associava a Dumbledore, e era quase como se um amigo estivesse falando em seu ouvido...
No rompa a ligao.
        Eu sei, Harry disse  msica, eu sei que no devo... mas mal acabara de dizer isso, e a coisa se tornou muito mais difcil de fazer. Sua varinha comeou
a vibrar mais violentamente do que antes... e agora o fio de luz entre ele e 
Voldemort mudou tambm... era como se grandes contas de luz estivessem deslizando para
a frente e para trs no fio que ligava as varinhas - Harry sentiu a sua estremecer 
com fora, quando as contas de luz comearam a deslizar lenta e continuamente
em sua direo... agora o movimento do feixe de luz vinha de Voldemort para ele, e ele sentiu a varinha vibrar de indignao...
        Quando a conta de luz mais  frente se aproximou da ponta da varinha de Harry, a madeira em seus dedos esquentou de tal forma que o garoto receou que ela
fosse romper em chamas. Quanto mais perto chegava a conta, mais violentamente a varinha de Harry vibrava; ele tinha certeza de que sua varinha no sobreviveria a
um contato direto com a conta; ela parecia prestes a se esfacelar sob seus dedos...
        Harry concentrou cada partcula de sua mente em obrigar a conta a voltar para Voldemort, seus ouvidos tomados pela cano da fnix, seus olhos furiosos,
fixos... e lentamente, muito lentamente, as contas estremeceram e pararam, e em seguida, de forma igualmente lenta, comearam a se deslocar para o lado oposto...
e foi a varinha de Voldemort que comeou a vibrar com muita violncia... Voldemort que parecia perplexo e quase temeroso...
        Uma das contas de luz estremecia a centmetros da ponta da
varinha de Voldemort. Harry no entendia por que estava fazendo
aquilo, no sabia o que obteria... mas comeou a se concentrar,
como nunca fizera na vida, em forar aquela conta de luz a voltar 
varinha de Voldemort... e lentamente... muito lentamente... ela foi
#528
se deslocando pelo fio dourado... estremeceu por um momento... e ento fez contato...
        Na mesma hora, a varinha de Voldemort comeou a emitir gritos ressonantes 
de dor... depois... os olhos vermelhos do bruxo se arregalaram de choque - uma
mo, densa e fumegante voou da ponta da varinha e desapareceu... o fantasma da mo que ele fizera para Rabicho... mais gritos de dor... e ento algo muito maior
comeou a brotar da ponta da varinha de Voldemort, algo imenso e acinzentado, algo 
que parecia ser feito da mais slida e densa fumaa... era uma cabea, depois
um peito e os braos... o tronco de Cedrico Diggory.
        Se em algum momento Harry pudesse ter soltado a varinha de susto, teria sido ento, mas o instinto o fez continuar segurando-a com fora, de modo que o fio
de luz dourada permaneceu intacto, embora o fantasma cinzento e denso de Cedrico
Diggory (seria um fantasma? Parecia to slido) emergisse em sua inteireza da ponta
da varinha de Voldemort, como se estivesse se espremendo para fora de um tnel muito estreito... e esta sombra de Cedrico ficou em p e examinou o fio de luz dourada
de uma ponta a outra e falou.
        - AgUenta firme, Harry.
        Era uma voz distante como um eco, Harry olhou para Voldemort... os olhos 
vermelhos e arregalados do bruxo ainda expressavam choque... tal qual Harry, ele
no esperara uma coisa daquelas... e, muito indistintamente, Harry ouviu os gritos amedrontados dos Comensais da Morte, rodeando a redoma dourada...
        Novos gritos de dor da varinha... ento mais uma coisa surgiu em sua
ponta..
. a sombra densa de uma segunda cabea, rapidamente seguida de braos e tronco...
um velho que Harry vira uma vez em sonho tentava agora sair da ponta da varinha do 
mesmo modo que Cedrico o fizera... e seu fantasma, ou sua sombra, ou o que fosse,
caiu ao lado do de Cedrico, examinou Harry e Voldemorr, a teia dourada e as varinhas que se tocavam, levemente surpreso, apoiando-se em uma bengala...
        - Ento ele era um bruxo de verdade? - perguntou o velho, com os olhos em Voldemorr. - Me matou, esse a... enfrenta ele,
moleque...
        Mas j, outra cabea vinha surgindo... e esta, grisalha como
uma esttua de fumaa, era de uma mulher... Harry os dois braos
trmulos com o esforo para manter a varinha parada, viu a mulher
#529
cair ao cho e se aprumar como tinham feito os outros, examinando tudo com ateno...
        A sombra de Berta Jorkins contemplou a luta diante dela de
olhos arregalados.
        - No solte! - exclamou, e sua voz ecoou como a de Cedrico, como se viesse de muito longe. - No deixe ele pegar voc, Harry,
no solte a varinha!
        Ela e as outras duas sombras comearam a rodear as paredes da teia dourada ao mesmo tempo que os Comensais da Morte se moviam rapidamente pelo lado de fora...
e, enquanto rodeavam os duelistas, as vtimas de Voldemorr sussurravam palavras de estmulo a Harry e sibilavam outras, que Harry no podia ouvir, para Voldemort.
        Agora, outra cabea vinha emergindo da ponta da varinha do bruxo... e Harry soube, ao v-la, quem seria... ele sabia, como se esperasse isso desde o momento
em que Cedrico sara da varinha... soube porque a mulher que apareceu era aquela em quem ele pensara mais do que em qualquer outra pessoa esta noite...
        A sombra esfumaada de uma mulher jovem de cabelos longos
caiu no cho como fizera Berta, se endireitou e olhou para ele... e
Harry, com os braos tremendo loucamente agora, retribuiu o
olhar do rosto fantasmagrico de sua me.
        - Seu pai est vindo... - disse ela baixinho. - Ele quer ver voc... vai dar tudo certo... agUente firme...
        E ele veio... primeiro a cabea, depois o corpo... alto, os cabelos rebeldes como os de Harry, a sombra esfumaada de Tiago Potrer brotou da ponta da varinha
de Voldemorr, caiu ao cho e se levantou como havia feito sua mulher. Ele se aproximou de
Harry fitando o filho, e falou na mesma voz distante e ressonante como os
demais, mas em tom baixo, de modo que Voldemort, agora com o rosto lvido de medo ao ver suas vtimas a rode-lo, no pudesse ouvir...
        - Quando a ligao for interrompida, permaneceremos apenas uns momentos... mas vamos lhe dar tempo... voc precisa chegar  Chave do Portal, ela o levar
de volta a Hogwarts... entendeu, Harry?
        -        Entendi - ofegou Harry; lutando para manter firme a
varinha, que agora comeava a escapar e a escorregar sob seus dedos.
        - Harryp.. - sussurrou a figura de Cedrico - por favor, leva o
meu corpo com voc? Leva o meu corpo para os meus pais...
#530
        -        Levo - prometeu Harry, seu rosto contrado com o esforo de agUentar a varinha.
        -        Faa isso" agora - sussurrou seu pai. - Prepare-se para correr... faa isso agora...
        -        AGORA! - berrou Harry; de qualquer modo, ele no achava que 
pudesse continuar segurando a varinha nem mais um instante, ergueu-a no ar, com um puxo
violento, e o fio dourado se rompeu; a gaiola de luz desapareceu, a msica da fnix silenciou, mas as sombras das vtimas de Voldemort no desapareceram, avanaram
para o bruxo, escudando Harry do seu olhar...
        E Harry correu como nunca correra na vida, derrubando dois Comensais da Morte abobados ao passar; depois ziguezagueou por trs de lpides, sentindo maldies
acompanharem-no, ouvindo-as bater nas lpides - evitou maldies e tmulos, correndo em direo ao corpo de Cedrico, sem sequer sentir a perna doer, todo o seu ser
se concentrando no que precisava fazer...
        -        Estupore-o!- ele ouviu Voldemorr gritar.
        A dez passos de Cedrico, Harry mergulhou atrs de um anjo de marmore para evitar os jorros de luz vermelha e viu a ponta da asa do anjo desmoronar ao ser
atingida pelos feitios. Apertando com mais fora a varinha, ele saiu ligeiro de trs do anjo...
        -        Impedimenta!- berrou ele, apontando a varinha de qualquer jeito por cima do ombro na direo geral dos Comensais da Morte
que corriam em seu encalo.
        Por um grito abafado que ouviu, ele achou que conseguira fazer parar pelo menos um, mas no havia tempo para se deter e olhar; ele saltou por cima da Taa
e mergulhou ao ouvir mais exploses sarem das varinhas s suas costas; mais jorros de luz voaram por cima de sua cabea quando ele caiu, esticando a mo para agarrar
o brao de Cedrico...
        - Afastem-se! Eu o matarei! Ele  meu! - gritou a voz aguda de Voldemorr.
        A mo de Harry se fechou no pulso de Cedrico; havia uma
lpide entre ele e Voldemorr, mas Cedrico era demasiado pesado
para carregar, e a Taa estava fora do seu alcance...
        Os olhos vermelhos de Voldemort chispavam no escuro. Harry
viu a boca do bruxo se crispar num sorriso e viu-o erguer a varinha.
        -        Accio! - berrou Harry, apontando a prpria varinha para a Taa Tribruxo.
#531
        A Taa voou pelo ar em sua direo - Harry agarrou-a pela asa...
        Ele ouviu o grito de fria de Voldemort no mesmo instante em que sentiu
o solavanco no umbigo que significava que a Chave do Portal fora acionada... ele
se afastou em alta velocidade num turbilho de vento e cor, levando Cedrico junto... os dois estavam voltando...
#532


*****


CAPITULO TRINTA E CINCO
Veritaserum


                Harry sentiu que caa chapado no cho; seu rosto comprimiu a
a grama, cujo cheiro invadiu suas narinas. Ele fechara os olhos enquanto a Chave
do Portal o transportava, e os mantinha fechados at aquele momento. No se
mexeu.
Todo o ar parecia ter sido expulso dos seus pulmes; sua cabea rodava tanto que ele sentia o
cho balanar sob seu corpo como se fosse o convs de um navio.
                Para se firmar, apertou com mais fora as duas coisas que continuava
a segurar - a asa lisa e fria da Taa Tribruxo e o corpo de Cedrico. Tinha a sensao
de que ia deslizar para a escurido que se formava na periferia do seu crebro se largasse qualquer das duas.
O        choque e a exausto o mantiveram no cho, inspirando o cheiro de grama,
esperando... esperando que algum fizesse alguma coisa... que alguma coisa acontecesse...
e, todo o tempo, sua cicatriz ardia surdamente em sua testa...
        Uma enxurrada de sons o ensurdeceu e confundiu, havia vozes por toda
parte, passos, gritos... ele continuou onde estava, o rosto contrado contra o barulho,
como se aquilo fosse um pesadelo que ia passar...
        Ento duas mos o agarraram com uma certa violncia e o viraram de barriga para cima.
-        Harry! Harry!
O        garoto abriu os olhos.
        Estava olhando para o cu estrelado e Alvo Dumbledore se debruava sobre ele. As sombras escuras das pessoas que se aglomeravam ao seu redor se aproximavam;
Harry sentiu o cho sob sua cabea vibrar com a aproximao dos seus passos.
        Ele voltara ao exterior do labirinto. Via as arquibancadas no alto,
os vultos das pessoas que se movimentavam nelas, as estrelas no cu.
        Harry largou a Taa, mas segurou Cedrico mais junto dele e
#533
com mais fora. Ergueu a mo livre e agarrou o pulso de Dumbledore, enquanto o rosto do bruxo saa de foco e tornava a entrar.
        -        Ele voltou - sussurrou Harryp - Ele voltou. Voldemort.
        -        Que est acontecendo? Que est acontecendo?
        O        rosto de Cornlio Fudge apareceu invertido sobre Harry; parecia plido e perplexo.
        -        Meu Deus, Diggory! - murmurou. - Dumbledore, ele est morto!
        Essas palavras foram repetidas, as sombras que se comprimiam ao redor deles as exclamaram para as mais prximas... depois outras as gritaram - guincharam
- para a noite "Ele est morto!" "Ele est morto!" "Cedrico Diggory! Morto!"
        -        Harry, solte-o - ele ouviu Fudge dizer, e sentiu dedos que tentavam forar os seus a se abrirem para soltar o corpo inerte de
Cedrico, mas Harry resistiu.
        Ento o rosto de Dumbledore, que continuava borrado e difuso, se aproximou.
        -        Harry, voc no pode mais ajud-lo. Terminou. Solte-o.
        -        Ele queria que eu o trouxesse de volta - murmurou Harry, pareceu-lhe importante explicar isso. - Ele queria que eu o trouxesse de volta para os
pais...
        -        Certo, Harry... agora solte-o...
        Dumbledore se curvou e, com uma fora extraordinria para um homem to velho e magro, ergueu Harry do cho e o ps de p. Harry oscilou. Sua cabea latejava
com fora. Sua perna machucada no queria mais sustentar o seu peso. As pessoas aglomeradas ao redor se acotovelavam, tentando chegar mais prximo, empurrando sombriamente
- "Que foi que houve?" "Que aconteceu com ele?" "Diggory est morto!"
        -        Ele precisa ir para a ala hospitalar! - dizia Fudge em voz alta.
-        Ele est mal, est ferido, Dumbledore, os pais de Diggory esto
aqui, esto nas arquibancadas...
        -        Eu levo Harry, Dumbledore, eu o levo...
        -        No, eu prefiro...
que deve lhe contar... antes que ele veja...?
.. -Dumbledore, Amos Diggory est correndo... est vindo para c.
        -        Harry, fique aqui...
        Garotas gritavam, soluavam, histricas... a cena lampejava
estranhamente diante dos olhos de Harry...
#534
        -        Est tudo bem, filho, estou com voce... vamos... ala hospitalar...
        -        Dumbledore disse para eu ficar - disse Harry com a fala pastosa, a palpitao na cicatriz fazendo-o sentir vontade de vomitar;
sua viso mais borrada que nunca.
        -        Voc precisa se deitar... vamos, agora...
        Algum maior e mais forte do que ele, meio que o puxou, meio que o carregou entre os espectadores assustados; Harry ouvia as pessoas exclamarem, gritarem
e berrarem  medida que o homem que o segurava abria caminho por elas, levando o garoto para o castelo. Atravessaram o gramado, passaram o lago e o navio de Durmstrang;
Harry no ouvia nada, exceto a respirao ruidosa do homem que o ajudava a caminhar.
        -        Que aconteceu, Harry? - perguntou o homem finalmente, erguendo-o para galgar os degraus de pedra da entrada. Toque.
Toque. Toque. Era Olho-Tonto Moody.
        -        A Taa era uma Chave de Portal - disse Harry ao
atravessarem o saguo de entrada. - Nos levou para um cemitrio... e
Voldemorr estava l... Lord Voldemorr...
Toque. Toque. Toque. Escadaria de mrmore acima...
        -        O Lord das Trevas estava l? Que aconteceu depois?
- Matou Cedrico... mataram Cedrico...
-        E ento?
Toque. Toque. Toque. Pelo corredor...
        -        Preparou uma poo... recuperou o corpo dele...
        -        O Lord das Trevas recuperou o corpo? Ele voltou?
        -        E os Comensais da Morte vieram... depois ns duelamos...
        -        Voc duelou com o Lord das Trevas?
        -        Escapei... minha varinha... fez uma coisa engraada... vi meu pai e minha me... eles saram da varinha dele...
        -        Aqui dentro, Harry... aqui dentro, e sente-se... voc vai ficar bom agora... beba isso...
        Harry ouviu uma chave girar na fechadura e sentiu que empurravam um copo em suas maos.
        -        Beba isso... voc vai se sentir melhor... vamos Harry, preciso
        saber exatamente o que aconteceu...
        Moody ajudou a virar a poo na boca de Harry; o garoto tossiu, um gosto apimentado queimou sua garganta. A sala de Moody
#535
entrou em foco, bem como o prprio Moody... ele parecia to plido quanto Fudge, e seus dois olhos estavam fixos, sem piscar, no rosto de Harry.
        -        Voldemort voltou, Harry? Voc tem certeza de que voltou? Como foi que ele fez isso?
        -        Ele apanhou uma coisa no tmulo do pai dele, depois do Rabicho e de mim. - Sua cabea estava clareando; sua cicatriz j no doa tanto; agora conseguia
ver o rosto de Moody nitidamente, embora a sala estivesse escura. Ainda se ouviam berros e gritos vindos do distante campo de quadribol.
        -        Que foi que o Lord das Trevas tirou de voc? - perguntou Moody.
        -        Sangue - respondeu Harry erguendo o brao. A manga estava rasgada no lugar em que o punhal de Rabicho a cortara.
        Moody deixou escapar um assobio longo e baixo.
        -        E os Comensais da Morte? Voltaram?
        -        Voltaram. Montes deles...
        -        Como foi que ele os tratou? - perguntou Moody baixinho. - Ele lhes perdoou?
        Mas Harry de repente se lembrou. Devia ter contado a Dumbledore, devia ter dito logo de sada...
        -        Tem um Comensal da Morte em Hogwarts! Tem um Comensal da Morte aqui, ele ps o meu nome no Clice de Fogo,
certificou-se de que eu chegasse at o fim...
        Harry tentou se levantar, mas Moody o obrigou a sentar-se
outra vez.
        -        Eu sei quem  o Comensal da Morte - disse ele em voz baixa.
        -        Karkaroff? - disse Harry agitado. - Onde  que ele est? O senhor o pegou? Ele est preso?
        -        Karkaroff? - disse Moody com uma risada estranha. - Karkaroff fugiu esta noite, quando sentiu a Marca Negra arder no brao. Ele traiu um nmero 
grande demais de seguidores fiis do Lord das Trevas para querer reencontr-los... mas duvido que chegue muito longe. O Lord das Trevas tem maneiras de seguir seus 
Inimigos.
        - Karkaroff foi embora? Fugiu? Mas ento... ele no ps o meu
#536
nome no Clice de Fogo?
        -        No - disse Moody lentamente. - No, no ps. Fui eu quem ps.
        Harry ouviu, mas no acreditou.
        -        No, o senhor no ps. O senhor no fez isso... no pode ter feito...
        -        Garanto a voc que fiz - disse Moody e seu olho mgico deu uma volta completa e se fixou na porta, e Harry percebeu que ele estava se certificando 
de que no havia ningum do lado de fora. Ao mesmo tempo, Moody puxou a varinha e apontou-a para o garoto.
        "E ele lhes perdoou, ento? Os Comensais da Morte continuaram livres? Os que escaparam de Azkaban?"
        -        Qu? - exclamou Harry.
        Ele olhou a varinha que Moody apontava para ele. Aquilo era
uma piada de mau gosto, tinha que ser.
        -        Eu lhe perguntei - disse Moody calmamente - se ele perdoou a ral que jamais foi procur-lo. Aqueles traidores covardes que sequer arriscaram ser 
mandados para Azkaban por ele. Os porcos desleais e imprestveis que tiveram coragem suficiente para desfilar de mscaras na Copa Mundial de Quadribol, mas fugiram
ao ver a Marca Negra quando eu a projetei no cu.
        -        O senhor projetou... do que  que o senhor est falando...?
        -        Eu j lhe disse, Harry.. Eu j lhe disse. Se tem uma coisa que eu detesto mais no mundo  um Comensal da Morte que foi absolvido. Viraram as costas
ao meu amo quando ele mais precisava deles. Eu esperei que ele os castigasse. Esperei que ele os torturasse. Me diga que ele os machucou, Harry... - O rosto de Moody
se iluminou de repente com um sorriso demente. - Me diga que ele disse a todos que eu, somente eu, permaneci fiel... preparado para arriscar tudo para entregar em
suas mos o que ele mais queria... voce.
        -        O senhor no fez... isso, no pode ser o senhor...
        -        Quem ps o seu nome no Clice de Fogo com o nome de
uma escola diferente? Fui eu, sim. Quem afugentou cada pessoa
que julguei que poderia machuc-lo ou impedir que voc ganhasse
o        torneio? Fui eu, sim. Quem encorajou Hagrid a lhe mostrar os
drages? Fui eu, sim. Quem fez voc ver a nica maneira de vencer
o drago? Fui eu, sim.
        O        olho mgico de Moody se desviou ento da porta. Fixou-se em
Harry. Sua boca torta ria mais desdenhosa e abertamente que nunca.
#537
        -        No foi fcil, Harry, orient-lo durante aquelas tarefas sem despertar suspeitas. Tive de usar cada grama de astcia que possuo para no deixar
transparecer o meu dedo no seu sucesso. Dumbledore teria ficado desconfiadssimo se voc conseguisse tudo com muita facilidade. Desde que voc entrasse no labirinto, 
de preferncia com uma boa dianteira, ento, eu sabia que teria uma chance de me livrar dos outros campees e deixar o seu caminho desimpedido. Mas tive tambm de 
lutar contra a sua burrice. A segunda tarefa... foi a que tive mais medo que voc fracassasse. Eu fiquei vigiando-o, Potter. Eu sabia que voc no tinha decifrado 
a pista do ovo, por isso tive que lhe dar mais uma sugesto...
        -        O senhor no deu - disse Harry rouco. - Cedrico me deu a pista...
        -        Quem disse a Cedrico para abrir o ovo dentro da gua? Fui eu. Confiei que ele passaria a informao a voc. Gente decente  to fcil de manipular, 
Potter. Eu tinha certeza de que Cedrico iria querer retribuir o favor de t-lo informado sobre os drages, e foi o que ele fez. Mas, mesmo assim, Potter, parecia
que voc ia fracassar. Fiquei vigiando-o o tempo todo... todas aquelas horas na biblioteca. Voc no percebeu que o livro de que precisava estava no seu dormitrio 
o tempo todo? Eu o coloquei l mais cedo, dei-o ao garoto Longbottom, no se lembra? Plantas
mediterrneas e suas propriedades mgicas. Ele teria lhe informado tudo 
que voc precisava saber sobre o guelricho. Eu esperava que voc pedisse ajuda a qualquer um e a todos. Longbottom teria lhe dito na mesma hora. Mas voc no pediu... 
voc no pediu... voc tem um trao de orgulho e independncia que poderia ter estragado tudo.
        "Ento o que  que eu podia fazer? Mandar-lhe a informao por intermdio de outra fonte inocente. Voc me contou no Baile de Inverno que um elfo domstico, 
chamado Dobby, lhe dera um presente de Natal. Eu chamei o elfo  sala dos professores para apanhar umas vestes para lavar. Encenei uma conversa em voz alta com a 
Profa McGonagall sobre os refns que seriam usados na tarefa e se Potter pensaria em comer guelricho. E o seu amiguinho elfo correu direto para o armrio de Snape 
e foi depressa procurar voce...
A varinha de Moody continuava apontada diretamente para o
corao de Harry. Por cima do ombro do professor, sombras indistintas se moviam no Espelho-de-Inimigos pendurado na parede.
#538
        -        Voc ficou tanto tempo no lago, Potter, que eu pensei que tinha se afogado. Mas, por sorte, Dumbledore tomou a sua burrice por nobreza e lhe deu
uma nota alta. Eu respirei mais uma vez aliviado.
        "Esta noite, voc teve uma tarefa mais fcil no labirinto do que deveria,  claro", disse Moody. "Isto foi porque eu estava patrulhando do lado de fora, 
e podia ver as sebes mais externas, e pude destruir muitos obstculos no seu caminho. Eu estuporei Fleur Delacour quando ela passou. Lancei a Maldio Imperius em 
Krum para ele acabar com Diggory e deixar o seu caminho livre at a Taa."
        Harry encarava Moody. No conseguia entender como podia ser aquilo... o amigo de Dumbledore, o famoso auror... aquele que capturara tantos Comensais da Morte... 
no fazia sentido... nem um pingo...
        As sombras no Espelho-de-Inimigos se acentuavam, se tornando mais ntidas. Harry via, por cima do ombro de Moody, o contorno de trs pessoas, que se aproximavam 
cada vez mais. Mas o professor no as vigiava. Seu olho mgico estava fixo em Harry.
        -        O Lord das Trevas no conseguiu mat-lo, Potter, e ele queria tanto! - sussurrou Moody. - Imagine a recompensa que me dar, quando descobrir que 
fiz isso por ele. Entreguei-o a ele, a coisa de que ele mais precisava para se regenerar, e depois matei-o para ele. Vou receber mais honrarias do que todos os outros 
Comensais da Morte. Serei seu seguidor mais querido, mais chegado... mais prximo do que um filho...
        O        olho normal de Moody estava esbugalhado, o olho mgico fixo em Harry. A porta continuava trancada e Harry sabia que
jamais pegaria a prpria varinha a tempo...
        -        O Lord das Trevas e eu - disse Moody, e agora parecia completamente enlouquecido, agigantando-se sobre Harry, olhando-o com desdm - temos muito 
em comum. Ns dois, por exemplo, tivemos pais que nos desapontaram muito... multo mesmo. Ns dois sofremos a indignidade, Harry, de receber o nome desses pais. E
ns dois tivemos o prazer... o imenso prazer... de matar nossos pais para garantir a ascenso contnua da Ordem das Trevas!
        -        O senhor enlouqueceu - disse Harry, o garoto no conseguiu
        se conter -,o senhor enlouqueceu!
         -        Enlouqueci, eu? - a voz de Moody se alteou descontrolada. - Veremos! Veremos quem enlouqueceu, agora que o Lord das Trevas
#539
voltou, comigo ao seu lado! Ele voltou, Harry Porter, voc no o derrotou, e agora, eu derroto voc!
        Moody ergueu a varinha, abriu a boca, Harry mergulhou a
mo nas vestes...
        -        Estupefaa!- Houve um lampejo ofuscante de luz vermelha, e, com grande fragor de madeira estilhaada, a porta da sala de
Moody rachou ao meio...
        Moody foi atirado de costas ao cho. Harry, ainda fitando o lugar em que estivera o rosto de Moody, viu Alvo Dumbledore, o Prof. Snape e a Profa McGonagall 
mirando-o do Espelho-de-Inimigos. O garoto virou-se para os lados e viu os trs parados  porta, o diretor  frente, a varinha em punho.
        Naquele momento, Harry compreendeu totalmente, pela primeira vez, por que as pessoas diziam que Dumbledore era o nico bruxo que Voldemorr temia. A expresso
no rosto dele quando olhou para a forma inconsciente de Olho-Tonto Moody era mais terrvel do que Harry poderia jamais imaginar. No havia sorriso bondoso no rosto
do diretor, no havia cintilao nos olhos atrs dos culos. Havia uma fria gelada em cada ruga daquele rosto velho; ele irradiava uma aura de poder como se Dumbledore
desprendesse um calor de brasas vivas.
        O        diretor entrou na sala, enfiou um p sob o corpo inconsciente de Moody e virou-o de barriga para cima, de modo que seu rosto ficasse visvel. Snape 
entrou em seguida, olhando o Espelho-de-Inimigos, no qual seu prprio rosto ainda era visvel, examinando a sala.
        A Profa McGonagall dirigiu-se imediatamente a Harry.
        - Vamos, Potter - sussurrou ela. A linha fina de seus lbios tremia como se ela estivesse  beira das lgrimas. - Vamos... ala hospitalar...
        -        No - disse Dumbledore energicamente.
        -        Dumbledore, ele precisa, olhe s para ele, j sofreu bastante esta noite...
        -        Ele fica, Minerva, porque precisa compreender - respondeu o diretor secamente. - Compreender  o primeiro passo para
aceitar, e somente aceitando
ele pode se recuperar. Precisa saber o que
 o fez passar pela provao desta noite e o porqu.
        -        Moody - disse Harry. Ele continuava num estado da mais completa descrena. - Como pode ter sido Moody?
#540
        -        Este no  Alastor Moody - disse Dumbledore em voz baixa.
- Voc jamais conheceu Alastor Moody. O verdadeiro Moody no
teria retirado voc das minhas vistas depois do que aconteceu hoje
 noite. No instante em que ele o levou, eu compreendi, e o segui. Dumbledore se curvou para a forma inerte de Moody e meteu
a mo nas vestes do bruxo. Tirou o frasco de bolso de Moody e uma penca de chaves numa argola. Depois se voltou para a
Profpa. McGonagall e Snape.
        -        Severo, por favor, v buscar a Poo da Verdade mais forte que voc tiver, depois v  cozinha e me traga aqui o elfo domstico chamado Winky. Minerva,
por favor, desa  casa de Hagrid, onde voc encontrar um enorme co preto sentado no canteiro de abboras. Leve o co ao meu escritrio, diga-lhe que irei v-lo
daqui a pouco, depois volte aqui.
Se Snape ou Minerva acharam essas instrues estranhas, eles
ocultaram sua confuso. Os dois se viraram na mesma hora e saram da sala. Dumbledore aproximou-se do malo com as sete fechaduras, enfiou a primeira chave na fechadura
e abriu-o. O malo continha uma profuso de livros de feitios. Em seguida o diretor fechou-o, enfiou a segunda chave na segunda fechadura e tornou a abrir o malo.
Os livros de feitios haviam desaparecido; desta vez o malo continha uma variedade de bisbilhoscpios, algumas folhas de pergaminho e penas, e algo que lembrava
uma Capa da Invisibilidade. Harry observou, espantado, Dumbledore enfiar a terceira, quarta, quinta e sexta chaves nas fechaduras e reabrir o malo que, a cada vez,
revelava contedos diferentes. Por fim, enfiou a stima chave na fechadura, escancarou a tampa e Harry deixou escapar um grito de assombro.
        O        garoto deparou com uma espcie de poo, uma sala subterrnea e, deitado no cho, bem um metro abaixo, aparentemente em sono profundo, magro e de
aparncia faminta, encontrava-se o verdadeiro Olho-Tonto Moody. Faltava-lhe a perna de pau, e a rbita em que deveria estar o olho mgico parecia vazia sob a plpebra
e lhe faltavam chumaos de cabelos grisalhos. Harry correu os olhos arregalados e perplexos do Moody que dormia no malo para o Moody inconsciente cado no cho
da sala.
Dumbledore entrou no malo, desceu o corpo e caiu de leve
no cho ao lado do Moody adormecido. Curvou-se para ele.
#541
- Estuporado, controlado pela Maldio Imperius, muito fraco.
- disse. - Naturalmente, precisariam mant-lo vivo. Harry me atire
a capa do impostor, Alastor est congelando. Madame Pomfrey
precisara examin-lo, mas ele no parece correr perigo imediato.
        Harry fez o que o diretor lhe pediu; Dumbledore cobriu Moody com a capa, prendeu-a em volta do corpo do bruxo e tornou a sair do malo. Em seguida apanhou
o frasco de bolso que estava sobre a escrivaninha, tirou a tampa e virou-o. Um lquido espesso e viscoso se espalhou pelo cho da sala.
        - Poo Polissuco, Harry. V a simplicidade e a genialidade da coisa. Porque Moody jamais bebe nada a no ser do frasco de bolso, todo mundo sabe disso.
O impostor precisou,  claro, manter o verdadeiro Moody por perto para poder continuar a preparar a poo. Est vendo os cabelos dele... - Dumbledore olhou para
o Moody no malo. - O impostor andou cortando-os o ano inteiro, est vendo as falhas? Mas acho que, na excitao de hoje  noite, o falso Moody talvez tenha esquecido
de tomar a poo com a necessria frequncia... na hora certa... a cada hora... veremos.
        Dumbledore puxou a cadeira atrs da escrivaninha e se sentou,
os olhos fixos no Moody inconsciente no cho. Harry tambm
ficou olhando. Os minutos se passaram em silncio...
        Ento, diante dos olhos de Harry, o rosto do homem no cho comeou a mudar. As cicatrizes foram desaparecendo, a pele foi se tornando lisa; o nariz mutilado
ficou inteiro e comeou a diminuir de tamanho. A longa juba de cabelos grisalhos foi se retraindo para o couro cabeludo e se alourando. De repente, com um forte
baque, a perna de pau caiu e uma perna normal apareceu em seu lugar; no momento seguinte, o olho mgico saltou do rosto do homem e um olho verdadeiro o substituiu;
o olho mgico saiu rolando pelo cho e continuou a girar em todas as direes.
        Harry viu cado  sua frente um homem de pele muito clara, ligeiramente sardento, com cabelos bastos e louros. O garoto sabia quem era. Vira-o na Penseira
de Dumbledore, assistira a ele ser retirado do tribunal pelos dementadores,
tentando convencer o Sr. Crouch de que era inocente... mas agora tinha rugas em torno dos
olhos, e parecia bem mais velho...
        Ouviram-se passos apressados no corredor. Snape retornava com
Winky em seus calcanhares. A Profp McGonagall vinha logo atrs.
#542
        -        Crouch! - exclamou Snape, parando de chofre  porta. -
Bart Crouch!
        -        Nossa! - exclamou a Profa McGonagall, parando de chofre ao ver o homem no cho.
Imunda, descabelada, Winky espiou por entre as pernas de
Snape. Ela abriu uma boca enorme e deixou escapar um grito esganiado.
        -        Menino Bart, menino Bart, que  que o senhor est fazendo aqui?
Ela se atirou ao peito do rapaz.
        -        Vocs mataram ele! Vocs mataram ele! Vocs mataram o filho do meu amo!
        -        Ele est apenas estuporado, Winky - disse Dumbledore. - Afaste-se, por favor. Severo, trouxe a poo?
        Snape entregou a Dumbledore um pequeno frasco com um lquido muito transparente; o
Veritaserum que o professor ameaara fazer Harry beber na sala dele. Dumbledore
se levantou, se debruou sobre o homem e o aprumou contra a parede sob o
Espelho-de-Inimigos, no qual as imagens de Dumbledore, Snape e McGonagal continuavam a observar
tudo. Winky permaneceu de joelhos, tremendo, as mos cobrindo o rosto. Dumbledore abriu
a boca do homem  fora e despejou nela trs gotas da poo. Depois, apontou
a varinha para o peito do homem e disse:
-        Enervate!
        O        filho de Crouch abriu os olhos. Seu rosto estava flcido, seu olhar desfocado. Dumbledore se ajoelhou diante dele, de modo
que seus rostos ficassem no mesmo plano.
- Voc est me ouvindo? - perguntou o diretor em voz baixa.
        Os olhos do homem piscaram.
        -        Estou - murmurou.
        -        Gostaria que nos dissesse - pediu Dumbledore - como veio parar aqui. Como fugiu de Azkaban?
        Crouch inspirou profundamente, estremecendo, e em seguida
comeou a falar numa voz sem inflexes nem emoo.
        -        Minha me me salvou. Ela sabia que estava morrendo. Convenceu meu pai a me tirar de l como um ltimo favor. Ele a amava como nunca me amara. E
concordou. Os dois foram me visitar. Me deram uma dose da Poo Polissuco, contendo um fio de
cabelo
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de minha me. Ela tomou uma dose da poo, contendo um fio de cabelo meu. Assumimos a forma um do outro.
        Winky balanava a cabea, tremendo.
        -        No diga mais nada Menino Bart, no diga mais nada, voc est metendo seu pai em confuso!
        Mas Crouch inspirou mais uma vez profundamente e continuou com a mesma voz sem emoo.
        -        Os dementadores so cegos. Eles perceberam uma pessoa saudvel e uma pessoa doente entrando em Azkaban. Depois, perceberam uma pessoa saudvel e
uma pessoa doente deixando a priso. Meu pai me contrabandeou para fora, disfarado de minha me, para o caso de algum prisioneiro estar observando da cela.
        "Minha me morreu pouco depois em Azkaban. Teve o cuidado de beber a Poo Polissuco at o fim. Foi enterrada com o meu
nome e a minha aparncia. Todos acreditaram que ela era eu.
        As plpebras do homem piscaram.
        -        E o que foi que seu pai fez com voc, quando chegaram em casa? - perguntou Dumbledore.
        -        Encenou a morte de minha me. Um enterro discreto e ntimo. Aquele tmulo est vazio. O elfo domstico cuidou de mim at eu ficar bom. Depois tive
que ser escondido. Tive que ser controlado. Meu pai teve que usar vrios feitios para me dominar. Quando recuperei a sade, s pensei em encontrar o meu amo...
em voltar para o seu servio.
        -        Como foi que seu pai o dominou? - perguntou Dumbledore.
        -        A Maldio Imperius. Fiquei sob o domnio do meu pai. Fui forado a usar uma Capa da Invisibilidade dia e noite. Sempre em companhia do elfo domstico.
Era ela quem me cuidava e guardava. Tinha pena de mim. Convenceu meu pai a me dar regalias ocasionais. Prmios pelo meu bom comportamento.
        -        Menino Bart, Menino Bart - soluou Winky entre os dedos. - Voc no devia contar a eles, est nos metendo em apuros...
        -        Algum descobriu que voc continuava vivo? - perguntou Dumbledore brandamente. - Algum sabia disso, alm do seu pai
e do elfo domstico?
        -        Sabia. - Suas plpebras tornaram a piscar. - Uma bruxa do escritrio do meu pai, Berta Jorkins. Ela veio um dia em casa trazer papis para o meu
pai assinar. Ele no estava. Winky mandou-a
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entrar e voltou para a cozinha, para mim. Mas Berta Jorkins ouviu o elfo conversando comigo. Foi investigar. Ouviu o suficiente para adivinhar que eu estava escondido
sob uma Capa da Invisibilidade. Meu pai chegou em casa. Ela o confrontou. Ele lanou nela um Feitio da Memria fortssimo para faz-la esquecer o que descobrira. 
Forte demais. Ele disse que danificou permanentemente a memria dela.
        -        Por que ela foi bisbilhotar os negcios particulares do meu amo? - soluou Winky. - Por que no deixou a gente em paz?
        -        Fale-me sobre a Copa Mundial de Quadribol - ordenou Dumbledore.
        -        Winky convenceu meu pai - disse Crouch, ainda com a mesma voz montona. - Passou meses persuadindo-o. Eu no saa de casa havia anos. Eu adorava 
quadribol. "Deixe o rapaz ir", dizia ela. "Ele vai usar a Capa da Invisibilidade." "Ele pode assistir. Deixe ele tomar um pouco de ar fresco uma vez." Ela disse 
que minha me teria gostado disso. Disse ao meu pai que minha me morrera para me devolver a liberdade. No me salvara para viver preso. No fim ele concordou.
        "Foi tudo cuidadosamente planejado. Meu pai subiu comigo e Winky ao camarote de honra mais cedo no dia do jogo. Winky devia dizer que estava guardando o 
lugar para o meu pai. Eu devia ficar sentado ali, invisvel. Quando todos tivessem deixado o camarote, ns sairamos. Winky iria parecer que estava sozinha. Ningum 
jamais saberia.
        "Mas Winky no sabia que eu estava bem mais forte. Estava comeando a resistir  Maldio Imperius lanada por meu pai. Havia horas em que eu quase voltava 
a ser eu mesmo. Havia breves lapsos em que eu parecia me libertar do controle dele. Isto aconteceu l, no camarote de honra. Foi como se eu estivesse saindo de um 
longo sono. Eu me vi em pblico, no meio de um jogo, e vi uma varinha saindo do bolso de um garoto na minha frente. Eu no tinha licena de usar uma varinha desde 
antes de Azkaban. Eu a roubei. Winky no viu. Ela tem medo de alturas. Ficou com o rosto tampado."
        -        Menino Bart, que menino danado! - sussurrou Winky, as
        -        Ento voc se apoderou da varinha - disse Dumbledore - e o que foi que fez com ela?
        lgrimas escorrendo entre seus dedos.        
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        - Voltamos  barraca. Ento ouvimos os gritos. Ouvimos os Comensais da Morte. Os que nunca tinham ido para Azkaban. Os que nunca tinham sofrido pelo meu
amo. Os que tinham lhe virado as costas. No estavam presos como eu. Estavam livres para ir procur-lo, mas no fizeram isso. Estavam simplesmente se divertindo
com os trouxas. As vozes deles me acordaram. Minha mente estava mais clara do que estivera em anos. Senti raiva. Tinha a varinha. Queria atac-los pela deslealdade 
que fizeram ao meu amo. Meu pai sara da barraca, tinha ido libertar os trouxas. Winky teve medo quando me viu to furioso. Usou seu prprio tipo de mgica para 
me prender a ela. Me tirou da barraca, me levou para a floresta, para longe dos Comensais da Morte. Eu tentei impedi-la. Queria voltar para o acampamento. Queria 
mostrar queles Comensais da Morte o que significava lealdade ao Lord das Trevas, e puni-los por no a terem. Usei a varinha roubada para projetar a Marca Negra 
no cu.
        "Os bruxos do Ministrio chegaram. Lanaram Feitios Estuporantes para todo lado. Um dos feitios atravessou as rvores at onde eu e Winky estvamos. O
vnculo que nos unia se partiu. Ns dois camos estuporados.
        "Quando descobriram Winky, meu pai entendeu que eu devia estar por perto. Me procurou no mato em que ela fora encontrada e me descobriu cado no cho. Ele
esperou at os outros funcionrios do Ministrio deixarem a floresta. Tornou a me sujeitar com a Maldio Imperius, e me levou para casa. Despediu Winky. Traira
a confiana dele. Me deixara arranjar uma varinha. Quase me deixara fugir."
        Winky deixou escapar um grito de desespero.
        - Agora havia apenas meu pai e eu, sozinhos em casa. E, ento... - a cabea de Crouch girou molemente e um sorriso demente se espalhou por seu rosto. - Meu
amo veio me buscar.
        "Apareceu l em casa tarde da noite, nos braos do servo dele, Rabicho. Meu amo descobrira que eu continuava vivo. Tinha capturado Berta Jorkins na Albnia. 
Torturou-a. Ela lhe contou muita coisa. Contou sobre o Torneio Tribruxo. Contou que o antigo auror Moody ia ensinar em Hogwarrs. Ele a torturou at conseguir
        romper o Feitio da Memria que meu pai lanara nela. Berta contou que eu fugira de Azkaban. Contou que meu pai me mantinha
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prisioneiro para me impedir de procurar meu amo. Ento meu amo soube que eu
continuava a ser um servo fiel - talvez o mais fiel de todos. Meu amo concebeu 
um plano baseado nas informaes que Berta lhe dera. Precisava de
mim. Chegou em nossa casa por volta da meia-noite. Meu pai atendeu a porta.
        O sorriso no rosto de Crouch se alargou, como se ele recordasse o momento mais doce de sua vida. Os olhos castanhos e vidrados de Winky eram visveis entre
seus dedos. Ela parecia assombrada demais para falar.
        - Foi muito rpido. Meu amo colocou meu pai sob a Maldio Imperius. Agora meu pai era o prisioneiro, o controlado. Meu amo o forou a continuar a vida como
sempre, a agir como se no houvesse nada errado. E eu fui libertado. Acordei. Voltei a ser eu mesmo, vivo, como no me sentia havia anos.
        - E o que foi que Lord Voldemort lhe pediu para fazer? - perguntou Dumbledore.
        - Ele me perguntou se eu estava disposto a arriscar tudo por ele. Eu estava. Era o meu sonho, minha maior ambio, servi-lo, me pr  prova. Ele me disse
que precisava colocar um servo fiel em Hogwarts. Um servo que orientasse Harry Potter durante o Torneio Tribruxo sem parecer que estava fazendo isso. Um servo que
vigiasse Harry Potter. Que garantisse que o garoto chegasse  Taa Tribruxo. Que transformasse a Taa em uma Chave de Portal, que levasse a primeira pessoa a toc-la
ao meu amo. Mas primeiro...
        - Voc precisava de Alastor Moody - disse Dumbledore. Seus olhos azuis faiscando, embora sua voz permanecesse calma.
        -        Rabicho e eu fizemos isso. Preparamos antes uma Poo Polissuco. Viajamos at a casa do auror. Moody resistiu. Houve uma grande confuso. Conseguimos
domin-lo a tempo. Ns o enfiamos  fora no malo mgico. Tiramos alguns fios de cabelo e acrescentamos  poo. Eu a bebi e me transformei no duplo de Moody. Apanhei
sua perna e seu olho. Estava pronto para enfrentar Arthur Weasley quando ele viesse resolver o caso com os trouxas que ouviram o estardalhao. Espalhei as latas
de lixo pelo quintal. Contei a Arthur Weasley que tinha ouvido intrusos em volta da casa, e que pusera as latas de lixo em movimento. Ento reuni as roupas e os
detectores das trevas de Moody, guardei tudo no malo e parti para Hogwarts.
Conservei-o vivo, dominado pela Maldio Imperius. Queria poder interrog-lo.
Descobrir o passado dele, aprender seus hbitos, de modo a enganar Dumbledore. Precisava
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tambm do cabelo dele para a Poo Polissuco. Os outros ingredientes foram fceis de encontrar. Roubei pele de ararambia das masmorras. Quando o Prof. de Poes
me encontrou na sala dele, eu disse que tinha ordens para revist-la.
        -        E o que aconteceu com Rabicho depois que vocs atacaram Moody?
        -        Rabicho voltou para cuidar do meu amo, l em casa, e para vigiar meu pai.
        -        Mas o seu pai fugiu - disse Dumbledore.
        -        Fugiu. Depois de algum tempo ele comeou a resistir  Maldio Imperius, exatamente como eu tinha feito. Havia perodos em que ele sabia o que estava 
acontecendo. Meu amo achou que no era mais seguro o meu pai sair de casa. Forou-o, ento, a mandar cartas para o Ministrio. Fez meu pai escrever dizendo que estava 
doente. Mas Rabicho no cumpriu seus deveres direito. No o vigiou o bastante. Meu pai fugiu. Meu amo adivinhou que ele estaria vindo para Hogwarts. Ia admitir que 
me contrabandeara para fora de Azkaban.
        "Meu amo mandou me avisar da fuga do meu pai. Mandou que eu o detivesse a qualquer custo. Ento esperei e fiquei vigiando. Usei o mapa que pedira emprestado 
a Harry Potter. O mapa que quase pusera tudo a perder."
        -        Mapa? - perguntou Dumbledore imediatamente. - Que mapa  esse?
        -        O mapa que Potter tem de Hogwarts. Potter me viu nele. Potter me viu roubando ingredientes para a Poo Polissuco da sala de Snape certa noite. 
Achou que eu era meu pai porque temos o mesmo nome. Apanhei o mapa de Potter naquela mesma noite. Disse a ele que meu pai odiava bruxos das trevas. Potter acreditou 
que eu estava atrs de Snape.
        "Durante uma semana esperei meu pai aparecer em Hogwarts. Finalmente, uma noite, o mapa me indicou que ele estava entrando na propriedade. Vesti a minha 
Capa da Invisibilidade e desci ao encontro dele. Ele estava andando pela orla da Floresta. Ento chegaram Potter e Krum. Esperei. No podia machucar Potter, meu 
amo precisava dele. Potter foi correndo buscar Dumbledore. Eu
 estuporei Krum. Matei meu pai."
        -        Ndo!- gritou Winky. - Menino Bart, menino Bart, o que  que voc est dizendo?
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        -        Voc matou seu pai - repetiu Dumbledore, no mesmo tom brando. - Que foi que voc fez com o corpo?
        -        Levei-o para a Floresta. Cobri-o com a Capa da Invisibilidade. Tinha o mapa comigo. Acompanhei Potter entrar correndo no castelo. Ele encontrou
Snape. Dumbledore se juntou aos dois. Acompanhei Potter deixar o castelo com Dumbledore. Sa da Floresta, dei a volta por trs deles e fui reencontr-los. Disse
a Dumbledore que Snape me informara aonde vir.
        "Dumbledore me mandou ir procurar meu pai. Voltei para onde deixara o corpo dele. Fiquei observando o mapa. Quando todos tinham ido embora, transformei o
corpo do meu pai. Virei-o em osso... e, sempre vestindo a Capa da Invisibilidade, eu o enterrei na terra fofa diante da cabana de Hagrid."
        Fez-se um silncio profundo, exceto pelos soluos contnuos
de Winky.
        Ento Dumbledore falou:
        -        E hoje  noite...
        -        Eu me ofereci para levar a Taa Tribruxo para o labirinto antes do jantar - sussurrou Bart Crouch. - Transformei-a em uma Chave de Portal. O plano 
do meu amo deu resultado. Ele voltou ao poder e eu vou receber honrarias que ultrapassam os sonhos de qualquer bruxo.
        O        sorriso demente iluminou mais uma vez suas feies e sua cabea pendeu para o ombro, enquanto Winky continuava a se
lamentar e a soluar ao seu lado.
#549


*****


- CAPITULO TRINTA E SEIS
Os caminhos se separam


Dumbledore ficou em p. Contemplou Bart Crouch por um momento com uma expresso de desgosto. Ento ergueu sua varinha mais uma vez e dela voaram cordas, cordas 
que se prenderam em torno do bruxo, amarrando-o apertado.
        Ele se dirigiu, ento,  Profa McGonagall:
        -        Minerva, posso pedir a voc que fique de guarda aqui enquanto levo Harry para cima?
        -        Naturalmente. - Ela parecia ligeiramente nauseada, como se tivesse acabado de ver algum vomitar. Contudo, quando puxou a
varinha e a apontou para Bart Crouch, sua mo estava bem firme.
        -        Severo - virou-se Dumbledore para Snape -" por favor, pea a Madame Pomfrey para vir at aqui. Precisamos levar Alastor Moody para a ala hospitalar. 
Depois desa aos jardins, procure Cornlio Fudge e traga-o para esta sala. Com certeza ele vai querer interrogar Crouch pessoalmente. Diga-lhe que estarei na ala 
hospitalar dentro de meia hora, caso precise de mim.
        Snape concordou silenciosamente com um aceno de cabea e
saiu da sala.
        -        Harry? - chamou Dumbledore gentilmente.
        Harry se levantou e cambaleou; a dor na perna, que ele mal sentira todo o tempo em que estivera ouvindo Crouch, agora voltava com fora total. O garoto tambm 
percebeu que estava tremendo. Dumbledore segurou-o pelo brao e ajudou-o a sair para o corredor escuro.
        -        Quero que venha primeiro ao meu escritrio, Harry - disse ele baixinho, enquanto seguiam pelo corredor. - Sirius est nos
esperando l.
       Harry concordou com a cabea. Uma sensao de dormncia e
de total irrealidade se apoderara dele, mas o garoto no ligou; ficou
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at feliz com isso. No queria ter que pensar em nada que acontecera desde que pusera a mo, pela primeira vez, na Taa Tribruxo. No queria ter que examinar as
lembranas, frescas e ntidas como fotografias, que no paravam de lampejar em sua mente. Olho-Tonto Moody dentro do malo, Rabicho cado no cho, aninhando o toco 
do brao. Voldemort ressurgindo do caldeiro fumegante. Cedrico... morto... Cedrico pedindo para ele levar seu corpo para os pais...
        -        Professor - murmurou Harry -" onde esto o Sr. e a Sra. Diggory?
        -        Esto com a Profa Sprout. - A voz de Dumbledore que estivera to calma durante o interrogatrio de Bart Crouch tremeu levemente pela primeira vez. 
- Ela  a diretora da Casa de Cedrico e o conhecia melhor.
        Tinham chegado  grgula de pedra. Dumbledore disse a
senha, ela saltou para o lado, e o diretor e Harry subiram a escada
rolante circular at a porta de carvalho. Dumbledore abriu-a.
        Sirius estava parado ali. Seu rosto branco e ossudo como estivera quando fugira de Azkaban. Num timo, ele atravessou a sala.
        -        Harry, voc est bem? Eu sabia... eu sabia que uma coisa assim... que aconteceu?
        As mos dele tremiam ao ajudar Harry a se sentar em uma
cadeira diante da escrivaninha.
        -        Que aconteceu? - perguntou, mais pressuroso.
        Dumbledore comeou a contar a Sirius tudo que Bart Crouch dissera. Harry ouvia apenas com metade de sua ateno. To cansado que cada osso do seu corpo 
doa, ele s tinha vontade de ficar sentado ali, sossegado, durante horas e horas, at adormecer e no precisar mais pensar nem sentir nada.
        Ouviu-se um leve rumorejo de asas. Fawkes, a fnix, deixara o
poleiro, voara pela sala e pousara no joelho de Harry.
        -        "Al, Fawkes - disse o garoto de mansinho. E alisou a bela plumagem vermelha e dourada da ave. Fawkes piscou sem medo
para ele. Havia um certo consolo em seu peso morno.
        Dumbledore parara de falar. Sentou-se diante de Harry, 
escrivaninha. Encarou o menino, que procurou evitar os seus
olhos. Dumbledore ia interrog-lo. Ia fazer Harry desabafar tudo.
        -        Preciso saber o que foi que aconteceu depois que voc tocou a Chave de Portal no labirinto, Harry - disse o diretor.
#551
        - Podemos esperar at de manh para isso, no Dumbledore?
-        disse Sirius com aspereza. Ele pousou a mo no ombro de Harry.
-        Deixe o garoto dormir. Deixe-o descansar.
        Harry sentiu um assomo de gratido com relao ao padrinho, mas Dumbledore no deu ateno s palavras de Sirius. Curvou-se para Harry. De m vontade, o
garoto ergueu a cabea e encarou aqueles olhos azuis.
        - Se eu achasse que poderia ajud-Lo - disse Dumbledore brandamente -, mergulhar voc em um sono encantado e permitir que adiasse o momento em que ter de 
pensar no que aconteceu esta noite, eu faria isso. Mas sei que no posso. Amortecer a dor por algum tempo apenas a tornar pior quando voc finalmente a sentir. 
Voc demonstrou uma coragem acima da que eu poderia ter esperado. Estou pedindo que a demonstre mais uma vez. Estou pedindo que nos conte o que aconteceu.
        A fnix deixou escapar uma nota branda e trmula. A nota estremeceu no ar, e Harry sentiu como se uma gota de lquido morno tivesse descido por sua garganta 
at o estmago, aquecendo-o e lhe dando foras.
        Ele inspirou profundamente e comeou a contar. Enquanto falava, vises de tudo que se passara quela noite pareciam desfilar diante de seus olhos; ele viu 
a superfcie borbulhante da poo que revivera Voldemort; viu os Comensais da Morte aparatando entre os tmulos em volta deles; viu o corpo de Cedrico, cado no 
cho ao lado da Taa.
        Uma ou duas vezes, Sirius emitiu um som como se fosse falar alguma coisa, sua mo ainda apertando o ombro do afilhado, mas Dumbledore ergueu a mo para faz-lo 
calar, e Harry se sentiu grato por isso, porque era mais fcil continuar agora que j comeara. Era at um alvio; o garoto teve a sensao de que alguma coisa venenosa 
estava sendo extrada dele, custava-lhe toda a determinao que possua continuar falando, contudo, ele percebia que uma vez que tivesse terminado, iria se sentir 
melhor.
        Quando Harry contou que Rabicho espetara seu brao com o
punhal, porm, Sirius deixou escapar uma exclamao veemente; e
Dumbledore se levantou to depressa que Harry se assustou. O
 diretor deu a volta  escrivaninha e pediu a Harry que esticasse o
brao. O garoto mostrou aos dois o lugar em que suas vestes estavam rasgadas e o corte sob as mesmas.
#552
        -        Ele falou que o meu sangue o tornaria mais forte do que se usasse o de outro - disse Harry a Dumbledore. - Falou que a proteo que minha... minha
me tinha deixado em mim, seria dele, tambm. E estava certo, ele pde me tocar sem se machucar, ele tocou o meu rosto.
        Por um instante fugaz, Harry viu um brilho que lembrava triunfo nos olhos do diretor. Mas no segundo seguinte teve certeza de que imaginara, porque quando
Dumbledore voltou  cadeira atrs da escrivaninha, pareceu velho e cansado como Harry jamais o vira.
        -        Muito bem - disse ao se sentar. - Voldemort superou esta barreira. Continue, Harry, por favor.
        Harry prosseguiu; explicou como Voldemort emergira do caldeiro, e repetiu para eles tudo que conseguiu se lembrar do discurso do lorde aos Comensais da
Morte. Ento contou como Voldemort o desamarrara, devolvera sua varinha e se preparara para duelar.
        Mas quando chegou  parte do raio de luz dourada que ligara sua varinha  de Voldemorr, ele descobriu que estava com a garganta embargada. Harry tentou continuar 
falando, mas as lembranas do que sara da varinha do bruxo inundavam sua mente. Reviu Cedrico saindo, o velho, Berta Jorkins... sua me... seu pai...
        Ele ficou feliz quando Sirius rompeu o silencio.
        -        As varinhas se ligaram? - perguntou ele, olhando de Harry para Dumbledore. - Por qu?
        Harry tornou a erguer os olhos para Dumbledore, em cujo
rosto havia uma expresso tensa.
-        Prioni Incantatem - murmurou.
        Seus olhos fitaram os de Harry e foi quase como se um raio
invisvel de compreenso passasse entre os dois.
        -        A reverso do feitio? - perguntou Sirius alerta.
        -        Exatamente - disse Dumbledore. - A varinha de Harry e a de Voldemort tm o mesmo cerne. Cada uma contm uma pena da cauda da mesma fnix. Com efeito,
desta fnix - acrescentou ele, apontando para a ave vermelha e dourada, empoleirada tranqtiilamente no joelho de Harry.
        -        A pena da minha varinha veio de Fawkes? - perguntou Harry, admirado.
        -        Veio - disse Dumbledore. - O Sr. Olivaras me escreveu
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dizendo que voc comprara a segunda varinha, no instante em que voc saiu da loja dele, h quatro anos.
        -        Ento o que acontece quando uma varinha encontra sua irm? - perguntou Sirius.
        -        Elas no funcionam bem uma contra a outra. Se, no entanto, o dono de uma das varinhas forar uma luta entre as varinhas...
produzir um efeito muito raro.
        "Uma das varinhas forar a outra a regurgitar os feitios que
realizou, na ordem inversa. O mais recente primeiro... depois os
que o antecederam..."
        O        diretor olhou interrogativamente para Harry e o garoto confirmou com a cabea.
        -        O que significa - disse Dumbledore lentamente, seus olhos no rosto de Harry - que alguma forma de Cedrico deve ter reaparecido.
        Harry tornou a confirmar.
        -        Diggory voltou  vida? - perguntou Sirius abruptamente.
        -        Nenhum feitio pode ressuscitar os mortos - disse Dumbledore em tom sentencioso. - S o que pode ocorrer  uma espcie de eco inverso. Uma sombra 
do Cedrico vivente teria emergido da varinha... estou certo, Harry?
        -        Ele falou comigo - disse Harry. De repente o garoto voltou a tremer. - O... o fantasma de Cedrico, ou o que seja, falou.
        -        Um eco - disse Dumbledore - que reteve a aparncia e o carter de Cedrico. Imagino que outras formas semelhantes tenham
aparecido... vtimas menos recentes da varinha de Voldemorr...
        -        Um velho - respondeu Harry, com um aperto na garganta. -
Berta Jorkins. E...
        -        Seus pais? - perguntou Dumbledore calmamente.
        -Foi.
        A mo de Sirius no ombro de Harry agora o apertava com tanta fora que chegava a doer.
        -        As ltimas mortes executadas pela varinha - confirmou Dumbledore com um aceno de cabea. - Na ordem inversa. Mais teriam aparecido,  claro, se
vocs continuassem a manter a ligao. Muito bem, Harry, esses ecos, essas sombras... que foi que elas fizeram?
        O        garoto descreveu como as figuras que haviam sado da varinha tinham ficado rondando o interior da teia dourada, como
#554
Voldemorr pareceu tem-las, como a sombra do pai de Harry lhe disse o que fazer, como a de Cedrico fizera um ltimo pedido.
        Neste ponto, Harry descobriu que no conseguiria continuar.
Olhou para Sirius e viu que o padrinho segurava o rosto nas mos.
        Harry de repente tomou conscincia de que Fawkes deixara seu joelho. A ave voara para o cho. E descansou a bela cabea na perna machucada do menino, grossas 
lgrimas peroladas caram dos seus olhos sobre a ferida feita pela aranha. A dor desapareceu. A pele se recomps. A perna ficou boa.
        - Vou repetir mais uma vez - disse Dumbledore, quando a fnix levantou vo e tornou a se acomodar em seu poleiro junto  porta. - Esta noite voc revelou 
uma bravura que ultrapassou o que eu teria esperado de voc, Harry. Revelou uma bravura igual  daqueles que morreram combatendo Voldemort no auge do seu poder.
Voc carregou o fardo de um bruxo adulto e esteve  altura dele, e voc agora nos deu tudo o que temos direito a esperar. Voc vai me acompanhar  ala hospitalar. 
No quero que volte para o dormitrio esta noite. Uma Poo do Sono e algum sossego... Sirius, voc gostaria de ficar com ele?
        Sirius confirmou com a cabea e se levantou. Tornou a se transformar no enorme cachorro preto e saiu com Harry e Dumbledore do escritrio, acompanhando-os 
por um lance de escadas at a ala hospitalar.
        Quando o diretor empurrou a porta, Harry viu a Sra. Weasley, Gui, Rony e Hermione reunidos em torno de uma atarantada Madame Pomfrey. Pareciam estar exigindo
saber onde estava Harry e o que lhe acontecera.
        Todos se viraram rapidamente quando Harry, Dumbledore e o
cachorro preto entraram, e a Sra. Weasley deixou escapar um grito
abafado:
        - Harry! Ah, Harry!
        Ela fez meno de correr para o garoto, mas Dumbledore se colocou entre os dois.
        - Molly - disse ele, erguendo a mo -, por favor, oua-me um momento. Harry passou uma provao terrvel esta noite. Acabou
de desabaf-la comigo. Do que ele precisa agora  de sono, paz e
 silncio. Se ele quiser que vocs todos fiquem com ele - acrescentou
        o        diretor, abrangendo com o olhar Rony, Hermione e Gui -, vocs
#555
podem ficar. Mas no quero que lhe faam perguntas at que ele esteja pronto para respond-las e, certamente, no ser hoje  noite.
A Sra. Weasley concordou com a cabea. Estava muito plida.
        Ela se virou para Rony, Hermione e Gui, como se eles estivessem fazendo barulho, e sibilou:
        - Vocs ouviram? Ele precisa de silncio!
        - Diretor - disse Madame Pomfrey, encarando o cachorro preto que era Sirius -, posso perguntar o que...
        -        Este cachorro vai ficar com Harry por algum tempo - disse Dumbledore com simplicidade. - Posso lhe assegurar que ele 
muitssimo bem treinado. Harry, vou esperar at voc se deitar.
        Harry sentiu uma inexprimvel gratido a Dumbledore por pedir aos outros que no lhe fizessem perguntas. No  que no os quisesse ali; mas a idia de explicar 
tudo mais uma vez, de reviver tudo mais uma vez, era mais do que ele poderia suportar.
        - Voltarei para v-lo assim que estiver com Fudge, Harry - disse Dumbledore. - Gostaria que voc ficasse aqui amanh tambm, at eu me dirigir  escola. 
- E saiu.
        Quando Madame Pomfrey levou Harry a uma cama prxima, ele avistou o verdadeiro Moody deitado imvel em uma cama no fundo da enfermaria. Sua perna de pau 
e o olho mgico estavam pousados na mesa-de-cabeceira.
-        Ele est OK.? - perguntou Harry.
        - Ele vai ficar bom - respondeu Madame Pomfrey, entregando ao garoto um pijama e colocando os biombos  sua volta. Ele despiu as vestes, ps o pijama e entrou 
na cama. Rony, Hermione, Gui, a Sra. Weasley e o cachorro preto contornaram o biombo e se sentaram em cadeiras dos lados da cama. Rony e Hermione espiaram o amigo 
quase cautelosamente, como se sentissem medo dele.
        -        Eu estou bem - disse Harry a eles. - S cansado.
        Os olhos da Sra. Weasley se encheram de lgrimas quando alisou as cobertas da cama sem a menor necessidade.
        Madame Pomfrey, que acabara de sair apressada de sua sala,
voltou segurando uma taa e um frasquinho contendo uma poao
prpura.
        - Voc vai precisar beber tudo isso, Harry.  uma poo para
 dormir sem sonhar.
        O garoto tomou o clice e bebeu alguns goles. Sentiu-se sonolento na mesma hora. Tudo ao seu redor ficou enevoado; as luzes
na enfermaria pareceram piscar para ele de um jeito simptico atravs do biombo que circundava sua cama; ele teve a sensao de que seu corpo afundava cada vez mais
no calor do edredom de penas. Antes que pudesse terminar a poo, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, sua exausto o adormeceu.
#556
Harry acordou, to quentinho, to sonolento, que nem abriu os olhos, sentindo vontade de adormecer outra vez. A enfermaria continuava fracamente iluminada; acreditava
que ainda era noite e tinha a impresso de que no poderia ter dormido muito tempo.
        Ento ouviu cochichos  sua volta.
        -        Vo acord-lo se no calarem a boca!
        -        Por que  que esto gritando? No pode ter acontecido mais nada ou pode?
        Harry abriu os olhos borrados. Algum tirara seus culos. Viu
os contornos difusos da Sra. Weasley e de Gui ali perto. A bruxa
estava em p.
        -         a voz de Fudge - sussurrou ela. - E a outra  da Minerva McGonagall, no ? Mas por que esto discutindo?
        Agora Harry os ouvia, tambm; gente gritando e correndo em
direo  ala hospitalar.
        -        Lamentvel, mas mesmo assim, Minerva... - dizia o ministro em voz alta.
        -        O senhor nunca deveria t-lo trazido para o interior do castelo! - berrou a professora. - Quando Dumbledore descobrir...
        Harry ouviu as portas da enfermaria se escancararem. Sem as pessoas ao redor de sua cama notarem, pois fixaram o olhar na porta quando Gui afastou os biombos, 
Harry se sentou e tornou a colocar os culos.
Fudge entrou em grandes passadas pela enfermaria. Os Profs.
McGonagall e Snape vinham em seus calcanhares.
        -        Onde est Dumbledore? - Fudge interpelou- a Sra. Weasley.
        -        No est aqui - disse a senhora zangada. - Isto  uma enfermaria, ministro, o senhor no acha que faria melhor...
        Mas a porta se abriu e Dumbledore entrou decidido.
        -        Que aconteceu? - perguntou energicamente, olhando de Fudge para McGonagall. - Por que esto incomodando estas
pessoas?
#557
 Minerva, voc me surpreende, eu lhe pedi para ficar vigiando Bart Crouch...
        -        No h necessidade de vigi-lo mais, Dumbledore! - gritou ela. - O ministro j providenciou isso!
        Harry nunca vira a professora se descontrolar daquele jeito.
        Havia manchas vermelhas de raiva em seu rosto, as mos estavam
        fechadas em punhos; ela tremia de fria.
        -        Quando informei ao Sr. Fudge que tnhamos apanhado o Comensal da Morte responsvel pelos acontecimentos desta noite
-        disse Snape, em voz baixa -, parece que ele achou que sua segurana pessoal estava ameaada. Insistiu em chamar um dementador para acompanh-lo at o castelo. 
Levou-o para a sala em que Bart Crouch...
        -        Avisei a ele que voc no concordaria, Dumbledore! - vociferou a Profa Minerva. - Avisei a ele que voc no permitiria que
dementadores entrassem no castelo, mas...
        -        Minha cara senhora! - rugiu Fudge, que parecia igualmente mais zangado do que Harry jamais o vira. - Como Ministro da Magia, sou eu quem decide
se quero trazer uma proteo pessoal quando vou entrevistar algum possivelmente perigoso...
        Mas a voz da Profa McGonagall abafou a de Fudge.
        -        No momento em que aquela... aquela coisa entrou na sala - berrou ela, apontando para Fudge, o corpo todo tremendo - o
dementador avanou para Crouch e... e...
        Harry sentiu um frio no estmago, enquanto a professora procurava encontrar palavras para descrever o que acontecera. Harry no precisou que ela terminasse
a frase. Sabia o que o dementador devia ter feito. Aplicara o beijo fatal em Bart Crouch. Sugara a alma do rapaz pela boca. Ele estava pior do que morto.
        -        Pelo que todos dizem, no se perdeu nada! - vociferou Fudge. - Ele parece ter sido responsvel por vrias mortes!
        -        Mas ele agora no pode prestar depoimento, Cornlio - disse Dumbledore, encarando Fudge com insistncia, como se o visse direito pela primeira vez.
- Ele no pode testemunhar por que matou essas pessoas.
        - Por que ele as matou? Ora, isso no  mistrio, ? - esbravejou o 
ministro. - Ele  doido de pedra! Pelo que Severo e Minerva
me disseram, ele parecia pensar que tinha feito tudo isso seguindo
instrues de Voc-Sabe-Quem!
#558
        -  ele estava seguindo instrues de Lord Voldemorr, Cornlio - respondeu Dumbledore. - A morte dessas pessoas foi apenas um produto secundrio do plano
para restaurar as foras de Voldemort. O plano foi bem-sucedido. Voldemort recuperou seu corpo.
        Fudge parecia ter levado uma pancada violenta no rosto.
Atordoado e piscando, ele olhou para Dumbledore como se no
conseguisse acreditar no que acabara de ouvir.
        Comeou a balbuciar, ainda de olhos arregalados para o diretor.
        - Voc-Sabe-Quem... retornou? Absurdo. Ora, vamos, Dumbledore...
        - Conforme Minerva e Severo sem dvida lhe contaram, ouvimos
Bart Crouch confessar. Sob a influncia do Veritaserum, ele nos disse como foi contrabandeado
para fora de Azkaban e como Voldemort, tendo sabido por Berta Jorkins que ele continuava vivo, foi libert-lo da guarda do pai, e usou-o para capturar Harry. O plano
funcionou, posso lhe garantir. Crouch ajudou Voldemort a retornar.
        - Olhe aqui, Dumbledore - disse Fudge, e Harry ficou espantado de ver o sorrisinho que apareceu no rosto do ministro -, voc... voc no acredita seriamente
nisso. Voc-Sabe-Quem voltou? Ora, vamos, ora vamos... com certeza Crouch deve ter acreditado que estava agindo sob as ordens de Voc-Sabe-Quem, mas aceitar a palavra 
de um doido daqueles, Dumbledore...
        -        Quando Harry tocou na Taa Tribruxo esta noite, ele foi transportado diretamente at Voldemort - disse Dumbledore com firmeza. - Ele presenciou
o renascimento de Lord Voldemort. Explicarei tudo a voc se quiser vir ao meu escritrio.
        Dumbledore olhou para Harry e viu que o garoto estava acordado, mas sacudiu a cabea e disse:
        -        Receio que no possa permitir que voc interrogue Harry
        hoje. O curioso sorriso de Fudge perdurou.
Ele tambm olhou para Harry, depois se voltou para Dumbledore:
        -        Voc est... hum... disposto a aceitar a palavra de Harry neste caso, Dumbledore?
        Houve um momento de silncio, interrompido por um rosnado de Sirius.
Tinha os plos do pescoo em p e seus dentes se arreganharam para Fudge.
#559
        -        Certamente que acredito em Harry - disse Dumbledore. Seus olhos brilharam de fria. - Ouvi a confisso de Crouch e ouvi o relato de Harry sobre
o que aconteceu quando ele tocou a Taa Tribruxo; as duas histrias fazem sentido, explicam tudo que tem acontecido desde que Berta Jorkins desapareceu no vero
passado.
        Fudge ainda conservava aquele sorriso estranho no rosto.
        Olhou mais uma vez para Harry antes de responder.
        -        Voc est disposto a acreditar que Lord Voldemort voltou, porque assim dizem um assassino louco e um garoto que... bem...
        Fudge lanou a Harry mais um olhar, e o garoto subitamente
        compreendeu.
        - O senhor tem andado lendo Rita Skeeter, Sr. Fudge - disse ele calmamente.
        Rony, Hermione, a Sra. Weasley e Gui, todos se assustaram.
Nenhum deles percebera que Harry estava acordado.
        Fudge corou ligeiramente, mas surgiu em seu rosto uma expresso de desafio e obstinao.
        -        E se tiver? - perguntou, fitando Dumbledore. - E se descobri que voc me tem ocultado certos fatos sobre o garoto? Ofidioglota, ? E tem desmaios
esquisitos a toda hora?...
        -        Presumo que voc esteja se referindo s dores que Harry tem sentido na cicatriz? - perguntou Dumbledore friamente.
        -        Voc admite que ele tem tido dores, ento? - perguntou Fudge depressa. - Dores de cabea? Pesadelos? Possivelmente...
alucinaes?
        - Escute aqui, Cornlio - disse Dumbledore dando um passo para perto de Fudge, e mais uma vez parecendo irradiar aquela indefinvel aura de poder que Harry
sentira quando estuporou o jovem Crouch. - Harry  to mentalmente so quanto eu ou voce. Aquela cicatriz na testa no afetou o
crebro dele. Acredito que doa quando Lord Voldemort est por perto ou experimente sentimentos assassinos.
        Fudge se afastara meio passo de Dumbledore, mas no parecia
menos obstinado.
        -        Voc vai me perdoar, Dumbledore, mas ouvi falar em uma cicatriz deixada por um feitio funcionar como uma campainha de
 alarme antes...
        -        Olhe, eu vi Voldemort ressurgir! - gritou Harry. Ele tentou
#560
novamente se levantar da cama, mas a Sra. Weasley forou-o a deitar. - 
Eu vi os Comensais da Morte! Posso dar os nomes! Lcio Malfoy...
        Snape fez um movimento repentino, mas quando Harry se virou, o olhar do professor retornara a Fudge.
        - Malfoy foi inocentado! - disse Fudge visivelmente afrontado.
- Uma famlia muito antiga, doaes para causas excelentes...
        -        Mcnair! - continuou Harry.
        - Tambm inocentado! Agora trabalha para o Ministrio!
        - Avery, Nott, Crabbe, Goyle.
        - Voc est apenas repetindo os nomes dos que foram absolvidos da acusao de serem Comensais da Morte h treze anos! - disse Fudge zangado. - Poderia ter
achado esses nomes em relatrios antigos sobre os julgamentos! Pelo amor de Deus, Dumbledore, o garoto esteve com a cabea cheia de histrias malucas no fim do ano
passado, tambm, as invencionices dele esto cada vez mais mirabolantes, e voc continua a engoli-las, o garoto  capaz de falar com cobras, Dumbledore, e voc ainda 
acha que ele merece confiana?
        - Seu tolo! - exclamou a Profa McGonagall. - Cedrico Diggory! O Sr. Crouch! Estas mortes no foram o trabalho aleatrio de
um doido!
        -        No vejo nenhuma evidncia em contrrio! - gritou Fudge, agora equiparando sua raiva  da professora, o rosto roxo. - Pareceme que vocs esto decididos 
a comear uma onda de pnico que ir desestabilizar tudo pelo que trabalhamos nesses ltimos treze anos!
        Harry no conseguiu acreditar no que estava ouvindo. Sempre pensara em Fudge como uma pessoa bondosa, um pouco espalhafatosa, um pouco pomposa, mas de ndole
essencialmente boa. Mas agora via  sua frente um bruxo baixo e furioso, que se recusava terminantemente a aceitar a perspectiva de um esfacelamento do seu mundo 
confortvel e ordeiro - a acreditar que Voldemort pudesse ter ressurgido.
        -        Voldemort retornou - repetiu Dumbledore. - Se voce aceitar imediatamente este fato, Fudge, e tomar as medidas necessrias, talvez ainda possamos
salvar a situao. O primeiro passo, e o mais
essencial,  retirar Azkaban do controle dos dementadores...
-        Que despropsito! - gritou outra vez Fudge. - Retirar os
#561
dementadores! Eu seria chutado do Ministrio se sugerisse uma coisa dessas! Metade da populao s se sente segura quando se deita  noite porque sabe que os dementadores
esto guardando Azkaban!
        -        A outra metade no dorme to bem, Cornlio, porque sabe que voc deixou os seguidores mais perigosos de Lord Voldemort aos cuidados de criaturas 
que iro se juntar a ele no momento em que ele pedir! - retorquiu Dumbledore. - Eles no iro permanecer leais a voc, Fudge! Voldemorr pode oferecer um espao muito 
maior para os poderes e prazeres deles do que voc! Com os dementadores a apoi-lo, e a volta dos seus antigos seguidores, voc vai ter muita dificuldade para impedi-lo 
de reconquistar o poder que tinha h treze anos!
        Fudge abria e fechava a boca como se no tivesse palavras para
expressar sua indignao.
        -        A segunda medida que voc precisa tomar, e imediatamente
- continuou Dumbledore -,  mandar enviados aos gigantes.
        -        Enviados aos gigantes! - gritou o ministro em tom agudo, afinal recuperando a fala. - Que loucura  essa?
        -        Estenda-lhes a mo da amizade, agora, antes que seja tarde demais ou Voldemort ir persuadi-los, como j fez antes, que somente ele entre os bruxos 
conceder aos gigantes direitos e liberdade!
        -        Voc... voc no pode estar falando srio! - exclamou Fudge, sacudindo a cabea e se afastando um pouco mais de Dumbledore.
- Se a comunidade mgica ouvir falar que eu procurei os gigantes, as pessoas os odeiam, Dumbledore... a minha carreira termina...
        -        Voc est cego de amor - disse Dumbledore, sua voz elevando-se agora, a aura de poder palpvel ao seu redor, seus olhos mais uma vez esbraseados
- pelo cargo que ocupa, Cornlio! Voc atribui demasiada importncia, como sempre fez,  chamada pureza do sangue! Voc no consegue reconhecer que no faz diferena
quem a pessoa  ao nascer, mas o que ela vai ser ao crescer! O seu dementador acabou de destruir o ltimo membro de uma famlia de sangue puro to antiga quanto
a de outros, e veja em que foi que ele transformou a prpria vida! Digo-lhe agora, tome as medidas que sugeri e voc ser lembrado, no cargo ou fora dele, como um
dos Ministros da Magia mais corajosos e sbios que j conhecemos.
No faa nada, e a histria ir lembr-lo como o homem que se
#562
omitiu e permitiu que Voldemort tivesse uma segunda oportunidade de
destruir o mundo que tentamos reconstruir!
        -        Est demente - sussurrou Fudge, ainda se afastando. - Enlouqueceu...
        E ento, todos se calaram. Madame Pomfrey estava postada, imvel aos ps da cama de Harry, as mos
cobrindo a boca. A Sra. Weasley continuava curvada para
Harry, a mo no ombro do garoto para impedi-lo de se levantar. Gui, Rony e Hermione tinham os olhos arregalados
para Fudge.
        -        Se a sua detetminao de fechar os olhos levou voc a esse ponto, Cornlio - disse Dumbledore -, chegou o momento em que os nossos caminhos se separam.
Voc far o que acha que deve. E eu agitei como acho que devo.
        A voz de Dumbledore no continha sequer uma sugesto de ameaa; parecia fazer uma simples constatao, mas Fudge se enctespou como se Dumbledore estivesse
avanando para ele com a varinha em punho.
        -        Agora, escute aqui Dumbledore - disse sacudindo o dedo na
cara do ditetor. - Eu sempre o deixei agit livremente. Tenho muito respeito
por voc.
Posso no ter concordado com algumas de suas decises, mas fiquei calado. No existe muita gente que deixaria voc contratar lobisomens ou manter Hagrid ou decidir
o que ensinar aos seus alunos, sem consultar o Ministrio. Mas se voc
#563
vai trabalhar contra mim...
        -        A nica pessoa contra quem pretendo trabalhar  Lord Voldemort. Se voc  contra ele, ento continuamos, Cornlio, do
mesmo lado.
        Aparentemente Fudge no conseguiu pensar que resposta dar a
Dumbledore. Balanou-se para a frente e para trs sobre os ps
diminutos por um momento, girando o chapu-coco nas mos.
        Finalmente, disse, com um qu de splica na voz:
        -        Ele no pode estar de volta, Dumbledore, simplesmente no pode...
        Snape se adiantou, passou por Dumbledore, ao mesmo tempo
em que levantava a manga esquerda de suas vestes. Esticou o brao
e mostrou-o a Fudge, que se retraiu.
        -        Olhe - disse Snape asperamente. - Olhe. A Marca Negra.
No est to ntida quanto estava h pouco mais de uma hora,
#563
quando ficou realmente negra, mas o senhor ainda pode v-la. O Lord das Trevas marcou com este sinal todos os Comensais da Morte. Era uma maneira de nos reconhecermos
e um meio de nos convocar  presena dele. Quando ele tocava a Marca de qualquer comensal, devamos desapararar e apararar instantaneamente ao seu lado. A Marca
se tornou mais ntida durante esse ano. A de Karkaroff tambm. Por que o senhor acha que o professor fugiu esta noite? Ns dois sentimos a Marca queimar. Ns dois
sabamos que ele havia voltado. Karkaroff teme a vingana do Lord das Trevas. Ele traiu muitos companheiros comensais para ter iluses de ser bem recebido no seio
do rebanho.
        Fudge recuou para longe de Snape, tambm. Sacudiu a cabea.
No parecia ter absorvido uma nica palavra do que Snape dissera.
Olhava, aparentemente repugnado, para a feia Marca no brao de
Snape, depois ergueu os olhos para Dumbledore e murmurou:
        - No sei do que voc e seus professores esto brincando, Dumbledore, mas j ouvi o bastante. No tenho nada a acrescentar. Entro em contato com voc amanh
para discutirmos a administrao da escola. Preciso voltar ao Ministrio.
        J chegara quase  porta quando parou. Virou-se, voltou para
a enfermaria e se deteve junto  cama de Harry.
        - Seu prmio - disse brevemente, tirando uma grande bolsa de ouro do bolso e largando-a na mesa-de-cabeceira do garoto. - Mil galees. Deveria ter havido 
uma cerimnia de premiao, mas nas circunstncias...
        E enfiando seu chapu-coco na cabea, ele saiu da enfermaria,
batendo a porta ao passar. No instante em que desapareceu, Dumbledore se voltou para o grupo ao redor da cama de Harryp
        - Temos trabalho a fazer - disse. - Molly... estou certo em pensar que posso contar com voc e Arthur?
        -        Claro que pode - disse a Sra. Weasley. Estava plida at nos lbios, mas parecia decidida. - Ele sabe quem Fudge .  a afeio de Arthur por trouxas
que o tem mantido no Ministrio todos esses anos. O ministro acha que falta a ele o orgulho que espera de um bruxo.
- Ento preciso mandar uma mensagem a ele - disse Dumbledore. - Todos os que pudermos persuadir da verdade devem ser
avisados imediatamente, e Arthur est bem colocado para entrar
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em contato com as pessoas no Ministrio que no sejam to mopes quanto o Cornlio.
        -        Vou procurar papai - disse Gui, levantando-se. - Vou agora.
        -        Excelente - exclamou Dumbledore. - Diga-lhe o que aconteceu. Diga-lhe que entrarei em contato com ele em breve. Mas que ele precisa ser discreto. 
Se Fudge achar que estou interferindo no Ministrio...
        -        Pode deixar comigo - disse Gui.
        O        rapaz deu uma palmadinha no ombro de Harry, beijou a me no rosto, vestiu a capa e saiu rapidamente da enfermaria.
        -        Minerva - disse Dumbledore virando-se para a Profa McGonagall -, quero ver Hagrid no meu escritrio o mais depressa possvel. E tambm, se ela concordar 
em vir, Madame Maxime.
        A professora aquiesceu com um aceno de cabea e saiu sem
dizer nada.
        -        Papoula - disse Dumbledore a Madame Pomfrey -, ser que voc me faria a gentileza de ir  sala do Prof. Moody, onde acho que encontrar l um elfo 
domstico chamado Winky em grande sofrimento? Faa o que puder por ela e leve-a de volta  cozinha. Acho que Dobby cuidar dela para ns.
        -        Claro... claro que sim - respondeu a enfermeira parecendo espantada, e ela tambm saiu.
        Dumbledore certificou-se de que a porta estava trancada e que
o        rudo dos passos de Madame Pomfrey tinha morrido na distncia, antes de tornar a falar.
        -        E agora - disse ele - est na hora de duas pessoas deste grupo se reconhecerem pelo que so. Sirius... se puder retomar sua forma
habitual.
        O        cachorro preto ergueu a cabea para o diretor, depois, num segundo, voltou a ser homem.
        A Sra. Weasley gritou e se afastou da cama.
        -        Sirius Black! - tornou a gritar ela com voz aguda, apontando para o bruxo.
        -        Mame, cala a boca! - berrou Rony. - Est tudo bem!
        Snape no gritara nem saltara para trs, mas a expresso do seu
rosto era uma mescla de fria e horror.
        -        Ele! - rosnou o professor, arregalando os olhos para Sirius, cujo
rosto exprimia igual desagrado. - Que  que ele est fazendo aqui?
        -        Est aqui a meu convite - disse Dumbledore, olhando para
#565
ambos - como voc, Severo. Confio nos dois. Est na hora de porem de lado as velhas diferenas e confiarem um no outro.
        Harry achou que Dumbledore estava pedindo quase um milagre. Sirius e Snape se entreolhavam com a maior repugnncia.
        - Aceitarei, a curto prazo - disse Dumbledore, com uma certa impacincia na voz -, que suspendam as hostilidades ostensivas. Os dois apertem as mos. Esto 
do mesmo lado agora. O tempo  curto e, a no ser que os poucos de ns que conhecem a verdade se mantenham unidos, no haver esperana para ningum.
        Muito devagar - mas ainda se olhando feio como se no desejassem um ao outro se no o mal - Sirius e Snape se aproximaram
e apertaram as mos. Mas as soltaram bem rpido.
        - J  o bastante para comear - disse o diretor se interpondo aos dois homens mais uma vez. - Agora tenho trabalho para cada um de vocs. A atitude de Fudge, 
embora no seja inesperada, muda tudo, Sirius. Preciso que voc comece imediatamente. Alerte Remo Lupin, Arabella Figg, Mundungo Fletcher, a turma antiga. Fique
escondido com Lupin por enquanto, entrarei em contato com voc l.
        - Mas... - comeou Harry.
        O garoto queria que Sirius ficasse. No queria dizer adeus novamente to depressa.
        Voc voltar a me ver em breve, Harry - disse Sirius, virando-se para o afilhado. - Prometo. Mas preciso fazer o que posso,
voc compreende, no?
-        Claro. Claro... que sim.
        Sirius apertou a mo de Harry brevemente, se despediu de Dumbledore com um aceno da cabea, voltou a se transformar em cachorro preto e correu para a porta,
cuja maaneta abriu com a pata. Ento desapareceu.
        -        Severo - disse Dumbledore, voltando-se para Snape -, voc sabe o que preciso lhe pedir para fazer. Se estiver disposto... se estiver preparado...
        -        Estou - disse Snape.
O        professor parecia um pouco mais plido do que o habitual,
e seus olhos frios e negros brilharam estranhamente.
-        Ento, boa sorte - e o diretor acompanhou, com uma certa
#566
apreenso no rosto, Snape partir em seguida a Sirius sem dizer palavra.
        Passaram-se vrios minutos at Dumbledore tornar a falar.
        - Preciso ir l embaixo - disse finalmente. - Preciso ver os Diggory. Harry, tome o resto da sua poo. Verei todos vocs mais
tarde.
        Harry se deixou cair nos travesseiros enquanto Dumbledore
desaparecia. Hermione, Rony e a Sra. Weasley ficaram olhando
para o garoto. Nenhum deles falou durante muito tempo.
        - Voc tem que tomar o resto da sua poo, Harry - disse finalmente a Sra. Weasley. Ao apanhar o frasco e a taa, ela bateu com a mo no saco de ouro  mesa-de-cabeceira.
- Durma bastante. Tente pensar em outra coisa por um tempo... pense no que vai comprar com o seu prmio!
        - No quero esse ouro - falou Harry com a voz sem emoo. - Pode ficar com ele. Qualquer um pode ficar com ele. Eu no deveria ter ganho. Deveria ter sido
de Cedrico.
        A coisa contra a qual ele estivera lutando intermitentemente, desde que sara do labirinto, ameaava engolf-lo. Sentiu uma ardncia, um formigamento nos
cantos internos dos olhos. Ele piscou e ficou encarando o teto.
        - No foi sua culpa, Harry - sussurrou a Sra. Weasley.
        - Eu disse a ele que apanhasse a Taa comigo.
        Agora a sensao de ardncia passara  garganta, tambm. Ele desejou que Rony olhasse para outro lado.
        A Sra. Weasley deixou a poo em cima da mesinha, abaixou-se e passou os braos em volta de Harry. O garoto no tinha lembrana de jamais ter sido abraado
assim, como faria uma me. Todo o peso do que vira aquela noite pareceu desabar sobre ele quando a Sra. Weasley o apertou contra o peito. O rosto de sua me, a voz
de seu pai, a viso de Cedrico morto no cho, tudo comeou a girar em sua cabea at ele no conseguir mais agentar, at seu rosto se contrair todo para conter
o uivo de infelicidade que lutava para escapar de dentro dele.
        Ouviu-se uma pancada e a Sra. Weasley e Harry se separaram.
Hermione estava parada junto  janela. Apertava alguma coisa com
fora na mo.
        - Desculpem - sussurrou.
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        - Sua poo, Harry - disse a Sra. Weasley depressa, enxugando os olhos com as costas da mo.
Harry bebeu a poo de um s gole. O efeito foi instantneo.
Ondas pesadas e irresistveis de sono sem sonhos o envolveram, ele
tombou sobre os travesseiros e no pensou mais.
#568


*****



- CAPITULO TRINTA E SETE -
O comeo


Quando relembrou os acontecimentos, mesmo um ms depois, Harry descobriu que havia pouco a se lembrar dos dias que se sucederam. Era como se ele tivesse passado
por coisas em excesso para poder absorver mais alguma. As lembranas que guardara eram muito dolorosas. A pior talvez tivesse sido o encontro com os Diggory, que 
ocorreu na manh seguinte.
        Eles no o culparam pelo que acontecera; pelo contrrio, ambos lhe agradeceram por ter trazido o corpo do filho de volta. O Sr. Diggory soluou a maior parte 
da entrevista. A dor da Sra. Diggory parecia ter ultrapassado o consolo das lgrimas.
        -        Ele sofreu pouco, ento - disse ela, depois que Harry lhe contou como Cedrico havia morrido. - Afinal, Amos... ele morreu
no momento em que venceu o torneio. Devia estar muito feliz.
        Ao se levantarem, ela olhou para Harry e disse:
        -        Cuide-se bem.
        Harry apanhou o saco de ouro na mesa-de-cabeceira.
        -        Podem levar - murmurou para a senhora. - Deveria ter sido de Cedrico, ele chegou  Taa primeiro, levem...
        Mas ela se afastou dele.
        -        Ah, no,  seu, querido, no poderamos... fique para voc.

Harry voltou  Torre da Grifinria na noite seguinte. Pelo que Hermione e Rony lhe 
contaram, Dumbledore se dirigira  escola naquela manh, ao caf. Pedira apenas
que deixassem Harry em paz, que ningum lhe fizesse perguntas nem o aborrecesse 
pedindo que contasse o que acontecera no labirinto. A maioria dos colegas, reparou
Harry, estava lhe dando distncia nos corredores, evitando olh-lo. Alguns 
cochichavam tampando a boca com as mos quando o garoto passava. Ele imaginou que muitos teriam acreditado
#569
no artigo de Rita Skeeter sobre sua perturbao mental e a possibilidade de 
ser perigoso. Talvez estivessem formulando as prprias teorias sobre a morte de Cedrico.
Ele descobriu que no fazia muita diferena. Gostava mais quando estava com Rony e Hermione e conversavam de outras coisas ou ento eles o deixavam ficar calado
enquanto jogavam xadrez. Sentia que os trs haviam chegado a um entendimento que no precisava ser expresso com palavras; que cada um estava  espera de um sinal,
uma palavra, sobre o que estava acontecendo fora dos muros de Hogwarrs - e que era intil especular at que soubessem de alguma coisa ao certo. A nica vez em que 
tocaram no assunto foi quando Rony contou a Harry sobre o encontro que a Sra. Weasley tivera com Dumbledore antes de voltar para casa.
        -        Ela foi perguntar ao diretor se voc poderia ir direto para nossa casa no vero. Mas o diretor quer que voc v para a casa dos
Dursley, pelo menos no comeo.
        -        Por qu - perguntou Harry.
        -        Ela disse que Dumbledore tem l as razes dele - explicou Rony, balanando a cabea sombriamente. - Suponho que temos
de confiar nele, no ?
        A nica pessoa alm de Rony e Hermione com quem Harry se sentia capaz de falar era Hagrid. E como no havia mais professor de Defesa contra as Artes das 
Trevas, tinham o tempo dessa aula livre. Usaram o da tarde de quinta-feira para visitar Hagrid em casa. Fazia um dia claro e ensolarado; Canino saltou pela porta 
aberta quando eles se aproximaram, latindo e abanando o rabo feito louco.
        -        Quem est a? - perguntou Hagrid chegando at a porta. - Harry!
        E saiu ao encontro dos garotos, puxando Harry para um abrao com uma das mos e despenteando os cabelos dele com a outra
disse:
        -        Que bom ver voc companheiro. Que bom ver voc.
        Os trs viram duas xcaras do tamanho de baldes sobre a mesa
de madeira diante da lareira quando entraram na cabana.
        - Tomando uma xcara de ch com Olmpia - disse Hagrid -, ela acabou de sair.
        -        Quem? - perguntou Rony curioso.
        -        Madame Maxime,  claro! - explicou Hagrid.
#570
-        Vocs dois fizeram as pazes, ento? - perguntou Rony;
        -        No sei do que voc est falando - disse Hagrid com displicncia, indo buscar mais xcaras na cmoda. Depois de preparar o ch e oferecer um prato
de biscoitos massudos, ele se sentou e examinou Harry mais de perto com aqueles seus olhos de besouros negros.
        "Voc est bem?", perguntou rouco.
        -T.
        - No, no est. Claro que no est. Mas vai ficar.
        Harry no respondeu nada.
        - Eu sabia que ele ia voltar - disse Hagrid, e Harry, Rony e Hermione olharam para ele chocados. - Sei h anos, Harry. Sabia que estava l fora, esperando 
a hora. Tinha que acontecer. Bom, agora aconteceu, e vamos ter de conviver com isso. Vamos lutar. Talvez a gente consiga deter o homem antes que ele se firme. Pelo 
menos esse  o plano de Dumbledore. Grande homem. Dumbledore. Enquanto contarmos com ele, no estou muito preocupado.
Hagrid ergueu as sobrancelhas espessas ao ver a expresso de
incredulidade nos rostos dos garotos.
        -        No adianta a gente ficar sentado se preocupando. O que tiver que ser ser, e ns o enfrentaremos quando vier. Dumbledore
me contou o que voc fez, Harry.
O peito de Hagrid inchou ao fitar Harry.
        -        Voc fez tanto quanto o seu pai teria feito e no posso lhe fazer elogio maior.
        Harry retribuiu o sorriso do amigo. Era a primeira vez que sorria em dias.
        -        Que foi que Dumbledore lhe pediu para fazer, Hagrid? - perguntou o garoto. - Ele mandou a Profa Minerva convidar voc
e Madame Maxime para irem  sala dele... naquela noite.
        -        Tem um trabalhinho para mim durante o vero - disse Hagrid. - Mas  segredo. No tenho licena para falar, nem para vocs. Olmpia, Madame Maxime
para vocs, talvez v comigo. Acho que ir. Acho que a convenci.
        -        Tem ligao com Voldemorr?
Hagrid fez uma careta ao ouvir aquele nome.
        -        Talvez - respondeu evasivamente. - Agora... quem gostaria de visitar o ltimo explosivim comigo?
Brincadeirinha, brincadeirinha! - acrescentou
ele depressa, ao ver a cara dos garotos.
#571

Foi com uma opresso no peito que Harry arrumou seu malo no dormitrio, na vspera do seu regresso  rua dos Alfeneiros. Estava com medo da Festa de Despedida,
que normalmente era motivo de comemorao, pois nela anunciavam o vencedor do campeonato entre as Casas. Ele andava evitando o Salo Principal quando estava cheio,
desde que deixara a ala hospitalar, dando preferncia a comer quando ficava quase vazio, para evitar os olhares dos colegas.
        Quando ele, Rony e Hermione entraram no salo, notaram imediatamente que no havia as decoraes de costume. O Salo Principal em geral era enfeitado com
as cores da Casa vencedora na Festa de Despedida. Esta noite, no entanto, havia panos pretos na parede ao fundo onde ficava a mesa dos professores. Harry percebeu
instantaneamente que eram um sinal de respeito por Cedrico.
        O verdadeiro Olho-Tonto Moody estava  mesa, a perna de pau e o olho mgico nos lugares. Mostrava-se extremamente inquieto e assustadio todas as vezes que
algum lhe falava. Harry no pde culp-lo; o medo que Moody tinha de ser atacado com certeza havia crescido depois de ficar preso no seu prprio malo durante dez
meses. O lugar do Prof. Karkaroff estava vazio. Harry se perguntou, ao sentar-se com os colegas da Grifinria, onde andaria o bruxo; se Voldemorr j o teria alcanado.
        Madame Maxime continuava em Hogwarrs. Estava sentada ao lado de Hagrid. Falavam entre si baixinho. Mais adiante na mesa, ao lado da Profa McGonagall, estava
Snape. Seus olhos se demoraram em Harry por um momento quando o garoto olhou em sua direo. Sua expresso era difcil de traduzir. Parecia to amargurado e desagradvel
como sempre. Harry continuou a observ-lo muito depois do professor ter desviado o olhar.
        Que ser que Snape fizera por ordem de Dumbledore, na noite em que Voldemort ressurgira? E por que... por que... Dumbledore tinha tanta convico de que
Snape estava realmente do lado deles? Espionara para eles, dissera Dumbledore na Penseira. "Snape espionara Voldemorr correndo grandes riscos pessoais." Seria essa
a tarefa que retomara? Teria feito contato com os Comensais da
 Morte, talvez? Fingira que jamais se passara realmente para o lado
de Dumbledore, que estivera, a exemplo do prprio Voldemort,
aguardando sua hora?
        As indagaes de Harry foram interrompidas pelo Prof. Dumbledore, que se levantou  mesa dos professores. O Salo Principal, que por sinal tinha estado menos
barulhento do que costumava ser em uma Festa de Despedida, ficou muito silencioso.
#572
        -        O fim - disse Dumbledore olhando para todos - de mais um ano.
        Ele fez uma pausa e seu olhar pousou na mesa da Lufa-Lufa. A
mais silenciosa de todas antes do diretor se levantar, e continuava a
ser a mais triste e de rostos mais plidos do salo.
        - H muita coisa que eu gostaria de dizer a todos vocs esta noite mas, 
primeiro, quero lembrar a perda de uma excelente pessoa, que deveria estar sentado
aqui - ele fez um gesto em direo  mesa da Lufa-Lufa -, festejando conosco. Eu 
gostaria que todos os presentes, por favor, se levantassem e fizessem um brinde
a Cedrico Diggory.
        Todos obedeceram; os bancos se arrastaram e os alunos no salo se levantaram e ergueram seus clices e ouviu-se um eco unssono, alto, grave e ressonante:
Cedrico Diggory.
        De relance, Harry viu Cho entre os colegas. Havia lgrimas
silenciosas correndo pelo seu rosto. Ele baixou os olhos para a prpria mesa quando todos tornaram a se sentar.
        - Cedrico era o aluno que exemplificava muitas das qualidades que distinguem a Casa da Lufa-Lufa - continuou Dumbledore. - Era um amigo bom e leal, uma pessoa
aplicada, valorizava o jogo limpo. Sua morte nos afetou a todos, quer vocs o conhecessem bem ou no. Portanto, creio que vocs tm o direito de saber exatamente
como aconteceu.
        Harry ergueu a cabea e encarou Dumbledore.
        - Cedrico Diggory foi morto por Lord Voldemorr.
        Um murmrio de pnico varreu o Salo Principal. As pessoas olharam para Dumbledore incrdulas, horrorizadas. Ele parecia perfeitamente calmo ao observar
os presentes at pararem de murmurar.
        - O Ministro da Magia - continuou Dumbledore - no quer que eu lhes diga isto.  possvel que alguns pais se horrorizem com
o        que acabo de fazer, ou porque no acreditam que Lord Voldemort tenha ressurgido ou porque acham que eu no deva lhes
informar isto por serem demasiado jovens. Creio, no entanto, que
a verdade , em geral, prefervel s mentiras, e qualquer tentativa de
#573
fingir que Cedrico Diggory morreu em conseqUncia de um acidente ou de algum erro que cometeu  um insulto  sua memria.
        Atordoados e temerosos, cada rosto no salo voltava-se para Dumbledore 
agora... ou quase todos. Na mesa da Sonserina, Harry viu Draco Malfoy cochichar alguma
coisa para Crabbe e Goyle. O garoto sentiu no estmago um espasmo nauseante e quente de raiva. Forou-se a olhar para Dumbledore.
        -        H mais algum que deve ser mencionado com relao  morte de Cedrico - continuou Dumbledore. - Estou me referindo, naturalmente, a Harry Potter.
        Um murmrio atravessou o salo e algumas cabeas se viraram
em direo ao garoto antes de tornarem a fitar Dumbledore.
        -        Harry Potter conseguiu escapar de Lord Voldemort. E arriscou a prpria vida para trazer o corpo de Cedrico de volta a Hogwarts. Ele demonstrou,
sob todos os aspectos, uma bravura que poucos bruxos jamais demonstraram diante de Lord Voldemort e, por isso, eu o homenageio.
        Dumbledore virou-se solenemente para Harry e ergueu sua taa mais uma vez. Quase todos os presentes no Salo Principal seguiram seu exemplo. E murmuraram
seu nome, conforme tinham murmurado o de Cedrico, e beberam em sua homenagem. Mas, por uma brecha entre os que estavam de p, Harry viu que Malfoy, Grabbe, Goyle
e muitos alunos da Sonserina, num gesto de desafio, tinham permanecido sentados, os clices intocados. Dumbledore, que afinal de contas no possua olhos mgicos,
no os viu.
        Quando todos se sentaram mais uma vez, o diretor continuou:
        -        O objetivo do Torneio Tribruxo era aprofundar e promover o entendimento no mundo mgico.  luz do que aconteceu, o ressurgimento de Lord Voldemort,
esses laos se tornam mais importantes do que nunca.
        O        olhar do diretor foi de Madame Maxime e Hagrid a Fleur Delacour e seus colegas de Beauxbatons, da para Krum e os alunos de Durmstrang  mesa da
Sonserina. Krum, Harry observou, parecia preocupado, quase temeroso, como se esperasse Dumbledore dizer alguma coisa desagradvel.
        -        Cada convidado neste salo - disse o diretor e seu olhar se demorou nos alunos de Durmstrang - ser bem-vindo se algum
dia quiser voltar para c. Repito a todos,  Luz do ressurgimento de
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Lord Voldemort, seremos to fortes quanto formos unidos e to fracos quanto formos desunidos.
        "O talento de Lord Voldemort para disseminar a desarmonia e a inimizade  muito grande. S podemos combat-lo mostrando uma ligao igualmente forte de amizade
e confiana. As diferenas de costumes e lngua no significam nada se os nossos objetivos forem os mesmos e os nossos coraes forem receptivos.
        "Creio - e nunca tive tanta esperana de estar enganado - que estamos diante de tempos negros e difceis. Alguns de vocs, neste salo, j sofreram diretamente 
nas mos de Lord Voldemort. As famlias de muitos j foram despedaadas. H apenas uma semana, um aluno foi levado do nosso meio.
        "Lembrem-se de Cedrico Diggory. Lembrem-se, se chegar a hora de terem de escolher entre o que  certo e o que  fciL, Lembrem-se do que aconteceu com um 
rapaz que era bom, generoso e corajoso, porque ele cruzou o caminho de Lord Voldemort. Lembrem-se de Cedrico Diggory."

O malo de Harry estava pronto; Edwiges, presa na gaiola em cima do malo. Harry Rony e Hermione aguardavam no saguo de entrada lotado, com os demais alunos do
quarto ano, as carruagens que deviam lev-los  estao de Hogsmeade. Fazia mais um belo dia de vero. Harry sups que a rua dos ALfeneiros estaria quente e cheia
de folhas, os canteiros de flores em uma profuso de cores, quando ele chegasse l  noite. O pensamento no lhe trouxe prazer algum.
        -        Arry!
        Ele olhou. Fleur Delacour vinha entrando no castelo correndo. Para alm da garota, l longe no jardim, Harry viu Hagrid ajudando Madame Maxime a atrelar
os cavalos  carruagem. A carruagem de Beauxbatons estava prestes a partir.
        -        Nos verremes utrra vez, esperro - disse Fleur, que estendeu a mo quando o alcanou. - Estou querrendo arranjar um emprrego
aqui para melhorrar o meu ingls.
        -        J  bastante bom - disse Rony com a voz meio estrangulada. Fleur sorriu para ele; Hermione amarrou a cara para o amigo.
        -        Adeus, Arry - disse Fleur, virando-se para ir embora. - Foi um prrazer conhecerr voc!
        O        estado de nimo de Harry no pde deixar de melhorar um
#575
pouquinho ao observar Fleur correr pelos gramados de volta a Madame Maxime, seus cabelos prateados ondeando ao sol.
        -        Como ser que os alunos de Durmstrang vo voltar para casa? - indagou Rony. - Vocs acham que eles so capazes de
comandar aquele navio sem o Karkaroff?
        -        Karkaroffnon comandou - disse uma voz rspida. - Ficou na cabine e deixou o trrabalho conosco. - Krum viera se despedir de
Hermione. - Posso lhe darr uma palavrrinha? - pediu ele.
        -        Ah... claro... tudo bem - respondeu a garota, e parecendo ligeiramente afobada acompanhou Krum pela aglomerao de alunos at desaparecer de vista.
        -         melhor voc se apressar! - gritou Rony para ela. - As carruagens vo chegar a qualquer momento!
        Mas ele deixou com Harry a tarefa de vigiar a chegada das carruagens e passou os minutos seguintes esticando o pescoo por cima dos colegas para tentar ver 
o que Krum e Hermione poderiam estar fazendo. Os dois voltaram bem depressa, mas o rosto da garota estava impassvel.
        -        Eu gostava de Diggory - disse Krum abruptamente a Harry.
- Erra semprre educado comigo. Semprre. Mesmo eu sendo de Durrmstrrang, com Karkaroff- acrescentou ele, fechando a cara.
        -        Vocs j tm um novo diretor? - perguntou Harry.
        Krum sacudiu os ombros. Depois estendeu a mo, como fizera Fleur, apertou a de Harry e em seguida a de Rony.
        Rony parecia estar sofrendo um doloroso conflito interior.
Krum j comeara a se afastar quando ele falou de supeto.
        -        Pode me dar seu autgrafo?
        Hermione se virou rindo para as carruagens sem cavalos, que agora vinham saculejando pelo caminho, quando Krum, com ar de surpresa, mas muito satisfeito, 
assinou um pedao de pergaminho para Rony.

O tempo no poderia estar mais diferente na viagem de volta a King"s Cross do que estivera na vinda para Hogwarts, em setembro. No havia uma nica nuvem no cu.
Harry, Rony e Hermione
tinham conseguido uma cabine s para eles. Pichitinho mais uma
vez viajava escondida sob as vestes a rigor de Rony para no ficar
piando continuamente. Edwiges cochilava, a cabea debaixo de
#576
uma asa, e Bichento se enroscara em um lugar vazio como uma grande almofada peluda cor de gengibre. Harry, Rony e Hermione conversaram mais longa e livremente do
que haviam feito durante toda a semana, enquanto o trem os levava para o sul. Harry teve a impresso de que o discurso de Dumbledore na Festa de Despedida de alguma
forma o desbloqueara. Tornara-se menos doloroso para ele falar sobre o que acontecera. Os amigos somente interromperam a conversa sobre as medidas que Dumbledore
poderia estar tomando naquele instante para deter Voldemort, quando o carrinho de comida chegou.
        Ao voltar do carrinho, Hermione guardou o troco na mochila
e apanhou um exemplar do Profeta Dirio que levava ali.
        Harry olhou para o jornal, pouco seguro se realmente gostaria
de saber o que dizia, mas Hermione, vendo-o olhar, disse calmamente:
        -        No tem nada aqui. Pode ver por voc mesmo, no tem nada aqui. Estive verificando todos os dias. S uma pequena noticia no dia seguinte  terceira
tarefa, dizendo que voc ganhou o torneio. O jornal sequer mencionou Cedrico. Nenhum comentrio sobre nada. Se vocs me perguntarem, acho que Fudge est obrigando
o jornal a se calar.
        -        Ele jamais faria Rita se calar - disse Harry. - No sobre uma histria dessas.
        -        Ah, Rita no tem escrito nada desde a terceira tarefa - disse Hermione, com uma voz estranhamente contida. - Alis - acrescentou, agora com a voz
ligeiramente trmula -, Rita Skeeter no vai escrever nadinha por algum tempo. A no ser que queira que eu ponha a boca no trombone sobre ela.
        -        Do que  que voc est falando? - perguntou Rony.
        -        Descobri como  que ela fazia para escutar conversas particulares j que estava proibida de entrar nos terrenos da escola - explicou a garota depressa.
        Harry teve a impresso de que Hermione andava h dias doidinha para contar a eles, mas se contivera por conta de tudo o mais
que havia acontecido.
        -        Como  que ela fazia? - perguntou Harry na mesma hora.
        -        Como foi que voc descobriu? - perguntou Rony, olhando admirado para a amiga.
        -        Bom, na realidade foi voc, Harry, quem me deu a idia.
#577
        -        Eu? - exclamou Harry perplexo. - Como?
        -        Grampo - disse a garota satisfeita.
        -        Mas voc disse que no funcionava...
        -        Ah, no um grampo eletrnico. No, sabe... Rita Skeeter - a voz de Hermione tremeu de silencioso triunfo -  um animago
clandestino. Ela pode se transformar...
        Hermione tirou um frasco lacrado de dentro da mochila.
        -        . .. em besouro.
        Voc est brincando - exclamou Rony. - Voc no... ela no
esta...
        -. Ah, est - respondeu Hermione com ar de felicidade, mostrando o frasco para os amigos.
        Dentro havia uns gravetos e folhas e um grande e gordo besouro.
        -        Nunca... voc est brincando... - sussurrou Rony, erguendo o frasco  altura dos olhos.
        -        No, no estou - disse Hermione, com um largo sorriso. - Apanhei-a no peitoril da janela da enfermaria. Olhe com ateno e voc vai notar as marcas
em volta das antenas exatamente iguais as daqueles culos horrorosos que ela usa.
        Harry olhou e viu que a garota tinha razo. E ele tambm se
lembrou de uma coisa.
        -        Havia um besouro em cima da esttua na noite em que
ouvimos Hagrid falando com Madame Maxime sobre a me dele!
        -        Exatamente - confirmou Hermione. - E Vtor tirou um besouro dos meus cabelos quando estvamos conversando na beira do lago. E, a no ser que eu
esteja muito enganada, Rita estava encarapirada no peitoril da janela da classe de Adivinhao no dia em que sua cicatriz doeu. Ela andou besourando pela escola
o ano inteiro.
        -        Quando vimos Malfoy debaixo daquela rvore... - lembrou Rony lentamente.
        -        Ele estava falando com a Rita segura na mo - disse Hermione. - Ele sabia,  claro. Foi assim que ela fez aquelas entrevstinhas simpticas com
os alunos da Sonserina. Aqueles garotos no ligariam se ela estivesse fazendo uma coisa ilegal, desde que pudessem contar barbaridades sobre Hagrid e ns.
       Hermione apanhou o frasco da mo de Rony e sorriu para o
besouro, que zuniu irritado contra o vidro.
        -        J avisei a ela que s vou solt-la quando chegarmos a
#578
                Londres. Lancei um Feitio Antiquebra no frasco, entendem, para
                ela no poder se transformar. E avisei, tambm, que vai ter que
                guardar a pena s para ela durante um ano. Vamos ver se ela no
                perde o hbito de escrever mentiras horrveis sobre as pessoas.
                   Sorrindo serenamente, Hermione tornou a guardar o besouro
                na mochila.
                   A porta da cabine se abriu.
                  - Muito esperta, Granger - exclamou Draco Malfoy.
           Crabbe e Goyle vinham atrs dele. Os trs pareciam mais satisfeitos 
com eles mesmos, mais arrogantes e mais ameaadores, do
que Harry jamais os vira.
        -        Ento - disse Malfoy, entrando lentamente na cabine e
olhando para os trs, um sorrisinho brincando em seus lbios. - Vocs apanharam uma reprter pattica, e Potter voltou a ser o
aluno favorito de Dumbledore. Grande coisa.
Seu sorriso se alargou. Crabbe e Goyle fizeram cara de desdm.
        -        Estamos tentando no pensar naquilo, ? - disse ele calmamente, continuando a se dirigir aos trs. - Tentando fingir que no
aconteceu?
        -        D o fora - disse Harry
        Ele no chegava perto de Malfoy desde que o vira cochichando com Crabbe e Goyle durante o discurso de Dumbledore sobre Cedrico. Sentiu uma espcie de zumbido
nos ouvidos. Sua mo agarrou a varinha sob as vestes.
        -        Voc escolheu o lado perdedor, Potter! Eu lhe avisei! Eu lhe disse que devia escolher com quem anda com mais cuidado, lembra? Quando nos encontramos
no trem, no primeiro dia de Hogwarts? Eu lhe disse para no andar com ral desse tipo! - Ele indicou Rony e Hermione com a cabea. - Tarde demais agora, Potter!
Eles sero os primeiros a ir, agora que o Lord das Trevas voltou! Sangue-ruins e 
amantes de trouxas primeiro! Bom, em segundo lugar, Diggory foi o pr...
Foi como se algum tivesse explodido uma caixa de fogos na cabinego pelo claro dos feitios que voaram em todas as direes,
surdo pela srie de estampidos, Harry piscou olhando para o cho.
Malfoy, Crabbe e Goyie estavam cados inconscientes  porta.
Ele, Rony e Hermione estavam de p, depois de cada um ter usado
um feitio diferente. E no tinham sido os nicos a fazer isso.
-Achamos que devamos dar uma olhada no que os trs iam
#579
aprontar - disse Fred factualmente, pisando em cima de Goyle, no que foi imitado por Jorge, que teve o cuidado de pisar em Malfoy ao entrar com o irmo na cabine.
        -        Que efeito interessante! - exclamou Jorge, olhando para Crabbe. - Quem usou o Feitio Furnunculus?
        -        Eu - respondeu Harry.
        -        Que estranho! - disse Jorge descontrado. - Eu usei o das Pernas-Bambas. Parece que no se deve misturar os dois. Brotaram pequenos tentculos pela
cara dele toda. Bom, no vamos deixar os trs aqui, eles no contribuem nada para a decorao.
        Rony, Harry e Jorge chutaram, rolaram e empurraram os inconscientes Malfoy, Crabbe e Goyle - cada um com a aparncia pior, dada a mistura de feitios com
que tinham sido atingidos - at o corredor, depois voltaram para a cabine e fecharam a porta.
        -        Algum topa um Snap Explosivo? - convidou Jorge puxando um baralho.
        J estavam no meio da quinta partida quando Harry resolveu
fazer a eles a pergunta.
        -        Ento vo nos contar? - dirigiu-se ele a Jorge. - Quem  que vocs estavam chantageando?
        -        Ah - disse Jorge misteriosamente. - Aquilo.
        -        Vamos deixar pra l - disse Fred, balanando a cabea impaciente. - No foi nada importante. Pelo menos a essa altura.
        -        Desistimos - disse Jorge encolhendo os ombros.
        Mas Harry, Rony e Hermione continuaram insistindo e finalmente Fred falou:
        -        Est bem, est bem, se vocs querem mesmo saber... era Ludo Bagman.
        -        Bagman? - disse Harry na mesma hora. - Vocs esto dizendo que ele estava envolvido...
        -        No - disse Jorge desanimado. - Nada a ver. Um debilide. No teria crebro para tanto.
        -        Ento, quem?
Fred hesitou,.depois disse:
        -        Vocs se lembram da aposta que fizemos com ele na Copa
       Mundial de Quadribol? Que a Irlanda ia ganhar, mas Krum capturaria o pomo?
- Lembro - disseram Harry e Rony lentamente.
#580
        - Bom, o babaca nos pagou com aquele ouro de leprechaun que os mascotes da Irlanda tinham jogado.
-E da?
        -        E da - disse Fred impaciente - desapareceu, no ? Na manh seguinte, tinha desaparecido!
        -        Mas... deve ter sido sem querer, no? - perguntou Hermione.
        Jorge riu muito amargurado.
        -        , foi o que ns pensamos a princpio. Achamos que se escrevssemos a ele e dissssemos que tinha havido um engano, ele nos pagaria direito. Mas
nada feito. Nem deu bola para a nossa carta. Continuamos tentando falar com ele sobre isso em Hogwarts, mas estava sempre arranjando uma desculpa para se afastar
de ns.
        -        No fim ele comeou a engrossar - comentou Fred. - Disse que ramos muito jovens para apostar em jogos de azar e que ele
no ia nos dar nada.
        -        Ento pedimos a ele que devolvesse o nosso dinheiro - disse Jorge amarrando a cara.
        -        Ele no teve a coragem de recusar! - exclamou
Hermione.
- Acertou na primeira - disse Fred.
        - Mas eram todas as economias de vocs! - disse Rony.
        - Me conta uma novidade - disse Jorge. - Claro que acabamos descobrindo o que estava rolando. O pai de Lino Jordan tambm tinha tido um trabalho danado para
receber algum dinheiro de Bagman. O caso  que ele estava encalacrado at o pescoo com os duendes. Tinha pedido emprestado a eles uma montanha de dinheiro. Uma
turma encurralou Bagman na floresta depois da Copa Mundial e tirou todo o ouro que ele levava nos bolsos, mas ainda no era suficiente para cobrir as dividas. Os
duendes o seguiram at Hogwarts para ficar de olho nele. O cara tinha perdido tudo no jogo. No tinha mais nem dois galees para esfregar um no outro. E sabe como
foi que o idiota tentou pagar aos duendes?
        -        Como? - perguntou Harry.
        -        Apostou em voc companheiro - disse Fred. - Fez uma aposta enorme que voc ganharia o torneio. Apostou com os duendes.
        -        Ento foi por isso que ele ficou tentando me ajudar a ganhar!
        - disse Harry. - Bom, e eu ganhei, no  mesmo? Ento ele j pode
        pagar o ouro de vocs!
        -        No - respondeu Jorge, balanando a cabea. - Os duendes jogaram sujo com ele. Disseram que voc ganhou com Diggory, e
#581
Bagman tinha apostado que voc ganharia sozinho. Ento Bagman teve que se mandar para salvar a pele. E foi o que fez logo depois
da terceira tarefa.
        Jorge deu um profundo suspiro e comeou a dar as cartas outra
vez.
        O        resto da viagem foi bem agradvel; Harry na verdade desejou que ela pudesse ter continuado pelo vero afora, e que nunca chegassem a
King"s Cross...
mas como aprendera a duras penas aquele ano, o tempo no desacelerava quando alguma coisa desagradvel estava  espera da gente, e logo, logo o Expresso de Hogwarrs
estaria entrando na plataforma nove e meia. O barulho e a confuso de sempre encheram os corredores do trem quando os alunos comearam a desembarcar. Rony e Hermione
lutaram para passar com as malas ao largo de Malfoy, Crabbe e Goyle.
        Harry, no entanto, ficou parado.
        -        Fred, Jorge, esperem a.
        Os gmeos se viraram. Harry abriu o malo e tirou a bolsa com o prmio do Torneio Tribruxo.
        -        Para vocs - disse ele, e enfiou a bolsa nas mos de Jorge.
        - Qu? - exclamou Fred, aparvalhado.
        - Para vocs - repetiu Harry com firmeza. - Eu no quero.
        - Voc pirou - disse Jorge, tentando empurrar a bolsa de volta para o garoto.
        - No, no pirei. Fiquem com ele e continuem inventando.  para a loja de logros.
        - Ele pirou - disse Jorge, com assombro na voz.
        - Escutem - disse Harry decidido. - Se vocs no aceitarem eu vou jogar fora. No quero o ouro e no preciso dele. Mas dar umas boas gargalhadas bem que
ajudaria. Tenho a impresso de que vamos precisar delas mais do que de costume e no vai demorar muito.
        - Harry - disse Jorge sem muita convico, pesando a bolsa de dinheiro nas mos -, deve ter uns mil galees aqui.
        -        Tem - disse Harry sorrindo. - Pensem quantos Cremes de Canrio vo poder fabricar.
        Os gmeos ficaram olhando para ele.
       - S no contem  sua me onde arranjaram o ouro... embora,
pensando bem, ela talvez no esteja mais querendo tanto que vocs
entrem para o Ministrio...
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        -        Harry - comeou Fred, mas o garoto empunhou a varinha.
        -        Olhem - disse em tom de quem no admite contestao -, ou levam ou azaro vocs. Conheo umas boas azaraes agora. Mas me faam um favor, OK.? Comprem
umas roupas a rigor diferentes para Rony e digam que  presente de vocs.
        Harry deixou a cabine antes que os gmeos pudessem dizer
mais alguma coisa, pulando por cima de Malfoy, Crabbe e Goyle,
que continuavam cados no cho, cobertos de feitios.
        Tio Vlter estava aguardando do outro lado da barreira. A Sra.
Weasley muito prxima dele. Ela deu um abrao apertado em
Harry quando o viu e cochichou em seu ouvido:
        -        Acho que Dumbledore vai deixar voc ficar conosco mais para o fim do vero. Fique em contato, Harry.
        -        A gente se v, Harry - disse Rony lhe dando uma palmadinha nas costas.
        - Tchau, Harry! - disse Hermione e fez uma coisa que nunca fizera antes, deu-lhe um beijo na bochecha.
        -        Harry, obrigado - murmurou Jorge, enquanto Fred concordava animado acenando com a cabea, ao lado do irmo.
        Harry piscou para os dois, virou-se para o tio Vlter e o acompanhou silenciosamente para fora da estao. No adiantava comear a se preocupar, disse a
si mesmo, quando embarcou no banco traseiro do carro dos Dursley.
        Conforme dissera Hagrid, o que tiver de ser, ser... e ele teria
que enfrentar o que fosse quando viesse.

#583

*****
***FIM***


